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Livros para entender Rondônia : Coronel de Barranco, de Cláudio de Araujo Lima

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O “Coronel de Barranco” é o romance do apogeu e do colapso da borracha na Amazônia, nele se reconstituindo a existência nababesca e imprevidente dos seringalistas  e a vida sofrida e miserável do seringueiro.

O livro do amazonense Cláudio de Araújo Lima é um roteiro de um longa-metragem perfeito (isto na minha cabeça, claro !), um livro de um tempo em que as pessoas que se atrevessem a escrever tinham que ler muito antes. Uma leitura de denúncias e advertências, sobre este pedaço do Brasil tão cobiçado pelos estrangeiros. Edição de 1970 da Civilização Brasileira.

Em termos de ficção, o escritor revive os anos 1876 a 1926, períodos extremos desse centro abastecedor de borracha para o mundo.  Descreve a evasão da hevea brasiliensis , surrupiada pelos ingleses com a nossa complacência e mesmo cumplicidade, o apogeu do se chamou a civilização da borracha, e, em seguida, o seu declínio, provocado pelo cultivo racional da maravilhosa planta em terras orientais, enquanto nós, descuidados e imprevidentes, a tínhamos como pródigo e inextinguível dom da natureza, como privilégio ecológico da nossa flora.

Em “O Coronel de Barranco” estão vivos e bem caracterizados, os seringalistas, milionários a esbanjar fortunas nas pensões alegres de Manaus, a beber champanhe e finos licores franceses, ou a comer caviar e latarias europeias em plena selva e no desconforto dos barracões miseráveis. Estão também, e principalmente, os desvalidos e tantas vezes beribéricos seringueiros, mansos ou brabos, impedidos de organizar família, proibidos de plantar e pescar, forçados a efetuar todos os seus suprimentos – inclusive as ferramentas de trabalho, que lhes eram debitadas a preços escorchantes – no armazém do patrão, que lhes impingia as mais esdrúxulas e inúteis mercadorias – os seringueiros duplamente explorados: como força de trabalho e como simples consumidores. Seringueiros que até hoje no limiar da vida são explorados por malandros de olho em suas aposentadorias e políticos sem escrúpulo.

Está ainda o regatão – o turco contrabandista que trocava quinquilharias -e até mulheres – pela borracha furtada aos grandes proprietários pelos seus alugados, criaturas desesperadas para fugir, a qualquer custo, da servidão a que foram reduzidas.

O “Coronel de Barranco” não deriva de nenhum outro livro que tenha abordado o mesmo assunto. Nasceu, isso sim, das reminiscências do romancista e das evocações ouvidas de seu pai, J. F. Araújo Lima, médico e administrador para quem a região não tinha segredos.

É um romance que disseca meio século do passado amazônico, detendo-se , em particular, na tragédia  que desabou  sobre humildes e poderosos, quase os irmanando na mesma desgraça.

É meu livro preferido sobre o tema e , acredito , leitura obrigatória para quem gosta de navegar em águas profundas nos assuntos amazônicos.

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Na fila para ler o meu exemplar, Z e L. Brito, portanto nenhum risco de vê-lo queimado.