Arquivo da categoria: Efêmeras Divagações

Força Maior

Texto e foto de Valéria del Cueto

Esse veranico de julho é de lei! Andava com saudades. Danadas. Ano passado praticamente passou batido. Sem a relativa margem de segurança que a vacina e os protocolos proporcionam a ida ao Arpoador para usufruir do combo sol, sal e areia, mar, céu e calor no inverno ficou praticamente inviável.

Ano passado, disse, e sinto que você, leitor das crônicas do Sem Fim, entendeu a sutileza do recado.

Pois é, caderninho no colo, canga colorida, mochila com a alça presa no braço, havaianas viradas de barriguinha pra baixo, que é para não queimar os pezinhos quando for calçá-las na saída, e eis-me aqui. Caneta em punho riscando a folha pautada, texteando no Arpex, Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil.

Mal comparando, o dia de hoje é como a pausa olímpica que encanta nossa rotina, agora nas ondas do fuso horário do Japão, no outro lado do mundo.

Um refresco emocional para quem está vivendo o reality show da pandemia que se desdobra em capítulos e reviravoltas na CPI da Covid, a estrela da política brasileira, que anda levantando a beira do tapete do sempre surpreendente cenário nacional.

É, tipo assim, um respiro em que temos ídolos olímpicos, histórias edificantes e até uma fadinha de verdade que leva a gente em seus voos saltitantes. Logo ali.

Aqui ao lado vejo pranchas sentinelas cujas sombras crescem surfando na areia ao cair do sol. Fotografo a mensagem. Sei lá, né? E não é que deu o não tão midiático Ítalo Ferreira na cabeça?

As férias um dia acabam, em todos os sentidos. Primeiro, voltam as aulas logo depois da próxima frente fria acabar com o refresco do veranico.

Talvez quando você estiver lendo essa crônica, o bicho frio já esteja chegando e pegando. No Sul, já quase é. O corre começou com chuvas lá para as bandas da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Mas pode ser que não… A esperança é a última a dizer “pode ir” a esse calorzinho delicioso. Como eu, ela não quer render-se às promessas de frio intenso, geada e neve!

Pensa num azul quase Caribe.  Um mar não muito pesado ainda se desvestindo da força das ondas pós ressaca. O sacode veio na última passagem de massa polar pelo pedaço, antes do sol se reinstalar para manter a lenda viva do veranico.

Pela ordem dos acontecimentos, todos agendados, após o frio quem retorna é a CPI. Vai embolar a programação com o (con)fuso olímpico!

Tem mais um monte de coisas acontecendo, mas só tenho ouvidos para os sons da praia onde se destacam as ladainhas dos pregoeiros que circulam na areia oferecendo seus produtos. A todos os apelos junta-se mais um item à cantoria. O atrativo é a facilidade do pagamento: “Temos PIX!!!”

Aí, chega aquela hora em que passa no miudinho a ideia que nunca devemos pensar, o que dirá formular. “Que dia lindo, o que pode dar errado?”. Pensei, levei, caro leitor, como sempre. Não, não foi o vento. Poderia entrar gelado, encarneirando o mar, levantando areia anunciando a mudança o tempo.

Foi mais simples e definitivo. Quando a cor começou lentamente a empalidecer e perder aquele excesso que sempre deixa marcas? Adivinhou, curioso? Não foi um céu sendo encoberto, nuvens, bruma ou maresia empalidecendo o azul. O azul desbotou as letras, a tinta da caneta que bordava as palavras.

Se despediu lentamente enquanto a maré subia avisando que era hora de recolher a canga, rumar pra casa e fazer o acabamento no restinho de palavras que falta para arrematar a escrevinhação. Rapidamente. Antes do início de outro amanhecer olímpico em Tokyo 2021. O sol ainda ilumina as pranchas para alunos de surf, o esporte em que somos os primeiros campeões olímpicos.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

À flor da pele

Texto e foto de Valéria del Cueto

O rendilhado dos raios de sol atravessando as folhagens se projeta nas cortinas cor de mostarda do quarto. Ditam a hora do primeiro movimento do dia.

Ainda é um esforço pequeno, apenas o suficiente para jogar o edredon de lado, chegar ao pé da cama e abrir as janelas deixando a luz solar que ultrapassa a borda da montanha entrar e aquecer a parede da estante e da escrivaninha, passeando ao lado do notebook detentor de escritos, imagens e segredos.

O murmúrio rouco e contínuo do riozinho predomina até os passarinhos começarem a algazarra intermitente entre as espécies que visitam a mangueira, a goiabeira as bananeiras e o bambuzal, do outro lado do fluxo da água, pirulitando entre as folhas e sacudindo os galhos, única forma de pressentir a dança das espécies que circulam na floresta.

É melhor nem respirar e evitar movimentos bruscos. Eles podem atravessar a cantoria e alertar a passarada da presença do ser estranho que espreita o espetáculo. Humanos assumidos não são bem-vindos na colorida e inquieta festa matinal, só os que aceitam a imposição da exigência da imobilidade e conseguem adequar o ritmo da respiração à sintonia da mãe natureza.

Até o acionamento da máquina fotográfica tem que ser delicado, nada brusco. Lento e seguro como o dedo no gatilho de uma arma. Que comparação terrível. Mas é verdadeira. O “tiro” da imagem não pode ser brusco. Tem que ser leve e constante. Quando se alcança essa afinidade os passarinhos quase fazem poses dançando, nesse caso, nos galhos e folhas largas do mamoeiro.

Depois é tempo de seguir o fluxo do riacho indo pela estradinha de terra que ladeia a água, cruzar a ponte de madeira, atravessar o gramado e, fazendo um esforço imenso para não se perder do objeto de desejo, evitar – não sem marcar a luz especial, a tentação de parar para “desenhar” com a máquina fotográfica as muitas flores e a vegetação. Elas tremulam com a brisa acenando suas cores em busca de atenção, o que desviaria o foco ainda não alcançado do projeto da manhã ensolarada de inverno.

As pedras do riozinho por onde a água cristalina brinca de deslizar é o destino quase inalcançável. São muitas as tentações. O guia sonoro fica mais definido a medida em que a aproximação da margem vai sendo feita. É o som da água que muda sua linguagem acrescentando tonalidades e notas, agora distinguíveis e estimulantes, diferentes do murmúrio rouco do despertar.

Tentar entender o diálogo das nuances do encontro das pedras com o serpentear aquático que forma cachoeirinhas, redemoinhos, ou se espreguiça nos remansos arenosos, é tão impossível quanto assistir um file turco sem legenda. Mal dá para distinguir o início, o meio e o fim das frases dos diálogos, o que dirá compreender as palavras. Traduzi-las então…

O fluir deslizante no leito pedregulhento é assim. A gente, no máximo, capta o sentimento, a energia despendida no movimento capturada pelos reflexos espelhados que mudam de cores e alteram suas múltiplas tonalidades dependendo do ângulo, da intensidade e dos caprichos dos raios de sol.

Pensa no que acontece, por exemplo, com o passar festivo das nuvens ligeiras que sassaricam ao sabor das brisas e correm quando fustigadas pelos ventos. Lembre-se que falamos de um dia ensolarado.

Tudo é leve. Profunda, só a percepção para acionar a camada da sensibilidade (capaz de detectar a sutileza dessas nuances) e a memória. Ela, que permite esse registro. Feito no inseparável caderninho que vai sendo escrevinhado sobre a canga que protege a pele do cimento da piscina de água natural, abastecida pela bica que vem da mina, exigindo atenção com seu som forte e constante.

Assim vai se derramando e ritmando as palavras dessa que é mais uma crônica @no_rumo do Sem Fim…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM… delcueto.wordpress.

 

Saúde mental e o ” nós por nós”

Ilustração dos participantes da Quebrada Cult | Lucas Andrade l Agência Mural

Desde abril, sete jovens das periferias do Brasil se uniram para falar sobre história, arte, cultura, política, entre outros temas, de forma descomplicada na internet. É o Quebrada Cult.

Uma geração das periferias que passou pela universidade e que quer devolver para os seus aquilo que aprendeu na academia, mas também compartilhar a sabedoria das quebradas.

“O conhecimento acadêmico é um conhecimento, mas não o único”, defende os integrantes do Quebrada Cult, em reportagem de Ana Beatriz Felicio. “Nossas vivências, experiências e trocas de ideia são fontes de conhecimento também. Conhecimento se constrói em todo lugar.”

Esse espírito de atuar pelos nossos é um pouco do que move a Agência Mural e diversas organizações vindas das periferias que atuam nos bairros das bordas das cidades.

É o que nos inspira nas pautas que fazemos, tentando que esse conhecimento periférico se propague e seja cada vez mais conhecido. E que nos ajude a passar por essa fase que segue difícil, inclusive para manter a saúde mental.

Diagnóstico

Texto e foto por Valéria del Cueto

Caí, levantei.
Sangrou, coagulou. Vai grudar.
Doeu, doerá. Como tatuagem.
Até cicatrizar…

Vagabinha dolorida após o tombo no asfalto mal conservado de Ipanema.

PS: Escapei da subida e “bordagem” na pista de skate no alto do Parque Garota de Ipanema pra me estabacar na Farme com Visconde. Perdas: joelho e mão esquerda mais ralada que tatuagem feita no dia, cotovelo direito também. Nada que uma boa arnica não resolva. Ela só não faz efeito na dignidade da pessoas Oh, dor…

#coisadorio
#valerio2021

No rumo do silêncio…

Texto, foto de Valéria del Cueto

O silêncio vale ouro, diz o ditado, e a gente sempre pesa e pensa na ausência das palavras. Ultimamente, talvez por conta da pandemia, a frase adquiriu outro sentido. Muito mais amplo.

O ruído é tanto (e não é o Manifesto), que um momento de silêncio vale grafeno. Sabe o que é? O nanomaterial de carbono puro, (como o diamante) que é leve, condutor de eletricidade, rígido e impermeável.

O silêncio anda assim, tão excitante como o cristal mais fino conhecido, com utilidades em campos tão diversos como a dessanilização e purificação da água do mar e a redução de emissões de CO2. Sensores biomédicos poderão detectar doenças, células solares flexíveis e mais transparentes captarão energia. Ao ser adicionado a materiais de construção civil os torna mais leves e resistentes.

Tudo isso pode parecer distante do cotidiano. Mas e se o nanomaterial chegar aos cosméticos com sua pulverização na coloração dos cabelos? E na mobilidade urbana, com sua aplicação nos pneus e a fabricação de quadros de bicicleta que pesem 350 gramas?

O silêncio passou a ser tão valorizado quanto o grafeno! Enquanto todo mundo berra e grita, as obras martelam, quebram, esmerilham e calam os passarinhos prisioneiros das gaiolas do sétimo andar, as TVs, celulares, o “cinco, quatro, mais uma, três, dois, tá quase lá, ummm” da ginastica online do vizinho, o som das lives, dos filmes, das aulas, da porra da vida que passa.

O silêncio vale grafeno e o povo se esgoela pelos combustíveis fósseis…

Passei a persegui-lo, o silêncio, como um prêmio. Tentei a madrugada, com quem tenho afinidade. Descobri que ele não existe e fica mais difícil no verão. Dezenas de aparelhos de ar condicionado habitam o meu quadrado. De um lado, do outro, em frente, em cima, embaixo… Tá tudo dominado pelos roncos dos motores, alguns desregulados. Nem os miados do gato do andar de baixo são capazes de superar a barreira do ronco de concreto dos aparelhos mal aparafusados e trepidantes, ainda sem a tecnologia fantástica do grafeno.

Os únicos com possibilidades de quebrar a barreira da monotonia monocórdia e calorenta são os latidos estridentes e histéricos do cachorro da vizinha que vem do alto, mas não muito. Mas ele prefere dar seu showzinho já de manhã, quando os ares já começaram a ser desligados. E nos acordar, claro. A mim e aos vizinhos, porque aqui ninguém larga a mão de ninguém. Tá todo mundo na mesma vibe, isso antes das obras enlouquecidas da pandemia. Virou sinfonia!

Sem o dia e a calada da noite o que resta? Trocar o quarto pela sala que dá para um espaço mais amplo e menos interno, apesar de ser de fundos. E apelar para o amanhecer.

A virada mais difícil para quem, como eu, gosta de atravessar a noite. Mas como ir dormir quando a batucada começa cedo e termina lá pela hora do chá? Das cinco da tarde…

Temos mais um esforço indesejado, porém necessário.

Achei o silencio por poucas horas, entre às seis da matina e o início da aula de ginástica e o “três, dois, um” online de um vizinho abusado e sem desconfiômetro que geme e bufa a cada movimento. Antes, pra saber que há vida na terra, se manifesta animadona a arara da casa da vila que tem a mangueira e outra árvore gigante que anima e esverdeia a coleção de janelas da parte interna do quarteirão.

E sim ele vale grafeno. Ver o nascer do dia se colorindo, no céu cercado de janelas adormecidas em Copacabana, em silencio total, custa caro para quem não gosta de acordar cedo.

E não tem preço quando a gente não sabe viver sem ele…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Depois do amanhã

Texto, foto de Valéria del Cueto

Estamos no ponto mais alto do triplo mortal carpado no trapézio. Sem rede de proteção. A distopia é aqui na porta ao lado. Quem somos nós para reconhece-la dentro do nosso próprio quadrado? Entramos no segundo mês do ano. Como se o carnaval, já cancelado na prática, mas fervilhante em nossos corações, fosse loguinho ali.

Temos tudo, nesse nada sem sentido em que vegetamos. Dos grandes fatos aos pequenos atos quem somos nós nessa contradança? O nada combinado com o lugar nenhum. Somando, dividindo, subtraindo e multiplicando vamos levando a aritmética incorreta do dia a dia da pandemia. Aquela que assusta no âmbito geral e provoca um efeito inverso no individual. Todo mundo sabe que a ordem dos fatores altera o produto, o que não impede o “queroomeu” de sempre dando cartas de mão no pano não tão verde da humanidade.

O caos é aqui. Os sinais são bem claros, a gente é que não tem olhos para ver. O primeiro deles, no meu caso, é o local e o horário que saquei a caneta e abri o caderninho. São seis e meia da manhã da primeira segunda feira de fevereiro. Escrevo no chão da sala com o sol invadindo, ainda tímido, os tecidos de voil e a renda delicada da cortina que protege as plantas.

Ao meu lado o tomateiro informa, pela alegria serelepe de suas folhas que tremulam no ritmo preguiçoso da brisa passeando pela janela recém aberta que, apesar da falta de chuvas nesse janeiro esturricado, houve uma evolução sensível e visível a olho nu no jardim suspenso da pandemia.

Ao lado dele, uma rosa cor de rosa bem antigo desabrocha no vaso em que uma espécie desconhecida e com folhas de cheiro forte se desenvolve animadona. Tirei uma foto da mudinha virando arbusto abusado e o google indicou que pode ser um pé de Dama da Noite. Achei um pouco diferente dos “modelos” similares apresentados pelo sábio da Inteligência Artificial. Tenho a impressão que as folhas são mais lustrosas. As do vaso parecem ser, se não aveludadas, como a do pezinho de tomate, menos rígidas e “polidas”.

O sol que tomo todas as manhãs produz o tom moreno, quebra o tom esverdeado do isolamento na minha pele e pode ser reverenciado no desenvolvimento progressivo das plantas (inclusive eu, a ameba mor). Agora está forte e, caso não tomemos os devidos cuidados, deixará suas marcas. Isso me leva a mudar constantemente de posição. O caderninho me guia. E também ao meu corpo como um todo para evitar aquelas marcas nas dobrinhas, garantindo um bronzeado equilibrado. Igual a quando escrevo as crônicas nas Pontas, do Leme ou do Arpoador num verão qualquer.

Onde quero chegar? A nossa incrível e perigosa capacidade de adaptação, quase sempre inconsciente. A que nos faz acordar de madrugada num primeiro de fevereiro (amanhã é dia de Iemanjá), num ano sem carnaval, depois de um final de semana clássico com muito calor (chuvas por aqui, só se for de bençãos, pra quem acredita), praias lotadas, arrastões e variantes inclassificáveis das novas cepas se beijando nas bocas turísticas de Ipanema e outros points.

Não, não está pouco. Nem essas informações traduzem um retrato fiel do que nos aguarda, além da lentidão na vacinação contra a covid-19. O radinho que está desligado informa os movimentos de mais uma greve de caminhoneiros anunciada, ainda hoje decidirão os comandos do parlamento brasileiro. Mas, antes, Rodrigo Maia poderia até pautar o impeachment de Bolsonaro no Congresso Brasileiro, enquanto da miúda Myanmar o amigo desconhecido avisa sobre o último golpe de estado de um outro lado do mundo. Que não é aquele onde milhares de manifestantes são presos ao protestarem contra a prisão de um oposicionista ao regime, no caso, o russo.

O dia mal começou. Eu aqui, entre rosas, azaléas, tomateiros, hortelãs e mudinhas de pimentões. Observo o passarinho que borboleteia no pé de camélia que nunca deu flor. Agora, torro as cascas de bananas e jogo moída na terra. Diz que a ausência de flores é falta de potássio. Só saberei o efeito na próxima primavera. Enquanto converso com ela reparo que já dá pra ver uma mudança nos brotos das novas folhas que explodem nas pontas dos galhos. As flores, só o futuro dirá se resistirão ao inverno que (ainda) está por vir….      

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Morre Ygona Moura, a influencer que zombava das aglomeráções

A influenciadora digital Ygona Moura morreu nesta quarta-feira, dia 27, conforme informou o perfil dela nas redes sociais, que vinha sendo atualizado diariamente por sua mãe, Valeria Cardoso. A jovem estava internada com Covid-19 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital Cidade Tiradentes, em São Paulo. Ygona Moura, que gerou polêmica nas redes após celebrar ter aglomerado em festa, havia apresentado uma piora no estado de saúde no último domingo, 24. Negacionismo mata e infelizmente a influencer agora se aglomera à estatística cruel de mais de 220 mil mortos….

Dobra do Tempo

Texto, fotos de Valéria del Cueto

Cronista do raio de luar. Fui! Porém por motivos alheios a nossa vontade eis-me, mais uma vez, usando a lua para alcança-la na janela. Depois do último contato achava que nos encontraríamos em circunstâncias muito diferentes…

A vida, nem a da terra, nem em lugar nenhum da Via Láctea, ou adjacências, quis assim. Como aprendi com você, fazer o que? Ter paciência, malemolência e tocar o barco é o que nos resta.

Como disse, fui! E você era a próxima. Nos dias que os planetas quase se beijaram de tão próximos ao por do sol, pouco antes do Natal, finalmente minha espaçonave teve impulso e rompeu a atração que me agarrava aqui. Era um momento único, uma chance imperdível e, claro, aproveitei para picar a mula em direção ao infinito.

Querida amiga, estava tudo pronto para sua partida. Sei que você entendeu a ausência das mensagens por quase 2 meses como um sinal do que viria a seguir.

A abdução estava selada, carimbada e avaliada. Era só questão de pegar carona na cauda do cometa para busca-la. Só que os acontecimentos no planeta se precipitaram. Diante do que foi registrado no comando central interplanetário fui requisitado para, com o conhecimento adquirido com sua ajuda nas longas conversas pela fresta de luar no seu exílio voluntário do outro lado do túnel, ser observador da chacoalhada generalizada que sacode o equilíbrio terráqueo.

Tentei deixa-la fora desse enredo apressando sua vinda para o lado de lá. Fui voto vencido. Chegaram à conclusão que, mesmo isolada na cela, seus delírios têm mais sentido e servem como força auxiliar na compreensão dos acontecimentos recentes e vindouros.

Os primeiros, passo a relatar para coloca-la (um pouco) a par do que nos espera.

Já voltei há alguns dias, a tempo de ver um homem de chapéu de touro sentado na presidência da Câmara dos Deputados da maior nação democrática do mundo após o Capitólio ser invadido, qual o Império Romano, por uma horda de bárbaros, sem que houvesse uma reação capaz de conter a turba. Com o quase ex-presidente Trump, depois de achar que era o dono da bola, incentivando o distúrbio. No momento está “impeachmado” na Casa e em via de ser julgado pelo Senado, para começar. Ele ajudou a colocar em risco a segurança das três autoridades máximas da sua cadeia sucessória.

O que temos com isso e por que foi suspenso o projeto de abdução, você se pergunta? Ocorre que, justo nesse momento e por causa dele, finalmente os sinais de nossas passagens pelo planeta se tornam públicos e notórios ao serem oficialmente reconhecidos pelas autoridades locais.

Resumindo: estou na comissão de frente da delegação de observadores interplanetários e você aí, isolada, é fonte, intérprete e analista dos fatos, numa parceria que garante sua retirada imediata, caso a situação continue se agravando.

Palavra de Pluct, Plact com aval da cúpula da missão. Você será nossa Mônica Calazans, a “cobaia” e primeira a ser vacinada contra a Covid-19 no Patropi. Sim, avoada cronista. Entre negação, brigas, impropérios e quase convencendo parte da população que a terra é plana, depois de 51 (o número lembra algo?) países entramos na corrida da vacinação. Tem maluco dizendo que quem se vacinar pode “virar jacaré”, acredita?

É justamente esse povo doido (louco por uma morte horrorosa e inglória) que desafia a sensatez e se aglomera como se não houvesse amanhã por praias, bares e festas por aí. O vírus? Não quer brincar de esconde-esconde e ataca pra valer. Estamos, mais uma vez, não na beira, mas enterrados numa gigantesca, cruel e agressiva onda de mortes, agora, inevitáveis. Um genocídio programado para dizimar populações inteiras. Manaus está aí, sem oxigênio para doentes, cavando covas e servindo de (mau) exemplo para o mundo. O general da logística envia “kit preventivo” para lá.

Me ajuda a explicar atitudes como essa para os seres superiores, cronista. Como?

Precisamos de você! Felizmente aí, onde está. Isolada, lúcida e iluminada para ajudar, não a decifrar (é impossível, sabemos), mas traduzir o que move a alma humana além do desprezo pelo seu próximo e a crueldade com que o destrói. Mandarei todas as informações que obtivermos. Vamos precisar de argumentos sólidos e consistentes para evitar uma punição severa e exemplar no julgamento final nas cortes intergalácticas. Final, eu disse!

Sua passagem está garantida sem barulho ou publicidade, como combinamos. Aguardemos os acontecimentos. O dia de São Sebastião, 20 de janeiro, ficará na história. Como uma dobra no tempo.

O que virá depois? Os deuses dirão…Do seu, Pluct, Plact.

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Taba, Querida Taba no tempo que se bebia uma cerveja gelada com dignidade e os beócios rareavam nas ruas modorrentas…

Num intervalo das gravações do documentário de Luiz Brito, aparecem Euro Tourinho, Carmênio Barroso e Beto Bertagna levando na mão a primeira câmera Sony Digital que apareceu por estas bandas. Corria o ano de 1997. Naquele ano, a Funcetur presidida pelo Ruy Motta lançou um edital para apoio a curta-metragens, num projeto coordenado pelo folclorista Flávio Carneiro. Daquela geração despontaram realizadores como Lidio Sohn, Alejandro Bedotti, Carlos Levy, Jurandir Costa, Beto Bertagna e Luiz Brito. No Festival de Curitiba, ainda naquele ano, 4 produções rondonienses concorreram ao prêmio Pinhão. E a estréia do trabalhos teve um lançamento digno de Holywood (quááá !) com direito a tapete vermelho e canhão de luz na entrada da velha, saudosa. decana e completamente lotada Taba do Cacique, recanto dos boêmios, sonhadores, jornalistas, poetas, artistas e outros mentirosos. (Republicado a pedido)

Da esquerda para a direita, Bertagna, Carmênio e Euro Tourinho

Cobogó

Combobó? Comongol? Comogó?

Vamos começar do começo. O nome original é co – bo – gó. E o cobogó é uma invenção pernambucana, que se chama assim porque é derivado dos nomes dos 3 engenheiros que idealizaram a invenção: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis.

Os cobogós são elementos vazados que completam paredes e muros para possibilitar maior circulação de ar e luminosidade ao interior de estabelecimentos, sejam eles residenciais, comerciais ou industriais.

Em muitos lugares do Nordeste do Brasil o nome sofreu várias deturpações, tais como combobó, combogó, comogó, comongol, comogol.

Inicialmente, os cobogós eram feitos apenas de cimento. Com sua popularização passaram a ser moldados com outros materiais, como argila, vidro, cerâmica etc.

Vivendo e aprendendo.

Nilson Chaves vence Covid 19 ! Live em sua homenagem será no próximo dia 11

Cineamazônia 2020 traz extensa programação e debates on line

            O assunto Cinema está aquecido em Rondônia e na Amazônia.
            Além do evento produzido pelo SESC e UNIR nesta semana com apresentação de documentários e lives com realizadores rondonienses , o Cineamazônia 17ª Edição , de 1º a 5 de dezembro vai trazer vários debates on LINE, com realizadores de peso do Cinema Brasileiro.
            A programação completa, com os links, está abaixo, lembrando que o horário é de Brasília / DF :

1º DE DEZEMBRO – 15 h – MESA REDONDA COMO É FILMAR NA AMAZÔNIA?

1º DE DEZEMBRO – 19 h – A CRISE DO CINEMA E DA CINEMATECA BRASILEIRA

2 DE DEZEMBRO – 10 h PAPO DE CINEMA

2 DE DEZEMBRO – 15 h MESA REDONDA

2 DE DEZEMBRO – 19 h DEBATE – REPRESENTATIVIDADE CINEMATOGRÁFICA NA AMAZÔNIA

Dia 237 – Mental Kombat

Veja também : Metazokráticas

Por Cátia Cernov – poesia e performance

 Sobre a mulher, a sexy linha de montagem , nosso cio afetivo… é preciso enfrentar o horror, essa cruel necessidade de ser sexualmente atrativa.

Bjs de Lady Serial killer

Trilha sonora : a chuva na janela e música Lunar Dunes  – Álbum: GalaxyseaVeja também : Metazokráticas

 

O voto e o veto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Alô, base. Aqui Pluct Plact em mais um relatório.

Esse não é para você, cara cronista voluntariamente distante desse redemoinho invertido que rodopia afundando tudo que nele se enreda. Entendeu a imagem? Explico. Aqui não é o Kansas, nem esse desastre recorrente vai te levar, qual Dorothy Gale, pelos ares com seu cãozinho Totó para desabar na terra dos munchkins. Nem, como lá, a casa voadora cairá em cima da Bruxa Má do Leste, esmigalhando a malvada…

Por essas bandas quando se é pego pelo tornado a saída não está no alto, mas mais embaixo. Dele, o buraco, é quase impossível escapar. Não tem Glinda, a Bruxa do Norte, para dar sapatos mágicos, nem amigos para trilharem cantarolando o caminho dos Tijolos Amarelos. Muito menos Cidade das Esmeraldas… Apesar de, sim, termos um  Mágico de Oz e tudo que isso implica.

Estou tentando (eu disse tentando) destrinchar os últimos acontecimentos. Sem muito sucesso, confesso.

Só agora, por exemplo, o moço do topete laranja que comanda o maior país do mundo resolveu considerar levemeeente a hipótese de que pode ter perdido a disputa eleitoral para seu concorrente no início de novembro. Eu disse considerar a hipótese porque, como a esperança que é a última que corre, Trump está na base do “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, dificultando a transição e acreditando que no dia da votação dos delegados algo inédito poderá acontecer. Como os democratas votarem nele!

Só agora… por mais incrível que pareça, dizem que a energia voltou ao Amapá, depois de 22 dias de escuridão, apagão, vaias, revolta e muita gente dizendo que o filho feio não era seu.

Só agora… descobriram milhões de doses de testes da malfadada Covid-19 perdendo a validade num galpão do Ministério da Saúde, em Guarulhos.

Como explicar o que dizem por aí aos colegas interestelares? Que o General alçado à chefia do Ministério chave por sua expertise em logística não corrigiu (dado aqui o benefício da dúvida, acho que ele não sabia o que havia no seu quintal) a falha na aquisição dos cotonetes de haste longa para a realização dos testes? Não acredito nessa possibilidade. E para explicar que tem mais testes perdendo a validade do que TODOS os que já foram aplicados no país?

É isso que você está lendo, cronista. Nunca foi tão pertinente sua disposição de se isolar nessa cela apenas frequentada por um raio de luar. Sabe por que? Porque a pandemia não dá trégua e o FICA EM CASA que todos os agentes de saúde bradam parece não fazer parte do reduzido (e agressivo) vocabulário do brasileiro em geral. Ele não sabe somar dois mais dois para chegar aos números assustadores da pandemia, nem tem tempo de aprimorar seu conhecimento literário. Afinal, quem aprende alguma coisa depois de partir dessa para melhor quase sem chance de repescagem?

Para finalizar, o tornado que enterra e passa por aqui se chama eleição. O segundo turno, especialmente. O momento em que o voto é essencial, mas perde sua beleza porque passa a ser veto. Quando o povo vai às urnas não para escolher o melhor, mas para impedir que o pior chegue lá. Não se discutem propostas nem programas! O que valem são as alianças, por mais espúrias que sejam, para garantir um “aqué” ou uma vantagem ali na frente. É um processo em que não se constroem sonhos ou discutem soluções. Parece que o único meio de chegar à vitória é destruindo a reputação do oponente…

Finalizo com uma reflexão baseada num de seus “amores”, o carnaval. Marginalizado, suspenso e a priori transferido pelas “ôtoridades” para julho de 2021.

Você vai gostar e, talvez, até botar seu narizinho pra fora disfarçada de Colombina. Cheguei a conclusão que Dona Coronga é uma foliã. Se considerarmos a festa uma manifestação que subverte a ordem (como a descrevem os teóricos e estudiosos), a Covid-19 está fazendo seu papel!  Em fevereiro acabará com as cordas cantadas no samba Plataforma de João Bosco e Aldir Blanc e o famigerado “caderno de encargos” do quase, quem sabe, prefeito Eduardo Paes, numa só tacada. E, é claro, não haverá como impedir o povo de ir às ruas, nem que seja no Bloco do Eu Sozinho, assim como é o momento de colocar o voto na urna. Mais carnavalesca impossível.

Uma pequena réstia de luz no fim do túnel? Só mesmo aí na sua cela, onde o raio de luar nunca falha…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com