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Depressão, talvez você tenha e nem saiba (CID 10 – F33)

Depressão é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente que produz alteração do humor caracterizada por tristeza profunda e forte sentimento de desesperança.

É essencial identificar sintomas e procurar ajuda médica. Há estatísticas mostrando que quase 20% das pessoas vão apresentar o problema em algum período da vida, e a condição precisa de tratamento.

A depressão (CID 10 – F33) tem um enorme potencial de morbidade e mortalidade, como o suicídio, a interrupção das relações interpessoais, o abuso de substâncias (narcóticos, remédios sem controle e álcool) e o tempo de trabalho perdido, dentre outras.

Segundo o dr. Dráuzio Varela, “a depressão está  associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como a distúrbios do sono e do apetite e é importante distinguir a tristeza patológica daquela transitória provocada por acontecimentos difíceis e desagradáveis, mas que são inerentes à vida de todas as pessoas, como a morte de um ente querido, a perda de emprego, os desencontros amorosos, os desentendimentos familiares, as dificuldades econômicas etc.” .

Vivemos numa pandemia, causada pelo COVID 19… É um mundo que alguns terapeutas chamam de Mundo VUCA, (Volatile, Uncertain, Chaotic , Ambiguous)  ….Ninguém sabe quando isso tudo vai acabar, se é que vai acabar. O sociólogo Zygmunt Bauman fala de um mundo líquido, de relações e amores líquidos …

E eu luto contra a depressão.

E uma coisa que me ajudou muito foi dormir com sons da natureza, bem baixinho na TV. Pensando nisso fiz um vídeo numa cachoeira do rio Tapajes, em Porto Velho, capital de Rondônia, para meditação, combate à depressão, ansiedade e insônia.

O objetivo é relaxar e dormir profundamente por 8 horas. Depois de belas imagens da cachoeira, fica uma tela preta prá escurecer o ambiente. Se alguém quiser ou precisar para cura, taí.

Serve para acalmar a mente, enfim relaxamento.  Depois de 10 minutos de belas imagens, uma tela preta com o som ( vc vai linkar com o que viu na mente) que dura 8 horas ininterruptas.

Se gostar, compartilha com os amigos ! Talvez algum possa estar precisando e vc não sabe, porque a vergonha de confessar o seu estado psíquico com receio da opinião alheia é uma das características da doença. #depressão #ansiedade #panico #insonia #desesperança #suicidio. Durma com o som gostoso da cachoeira e depois me conta !

A história do piso de caquinhos das casas paulistas (via Biblioteca da FAU-USP)

Pode algo quebrado valer mais que a peça inteira? Aparentemente não. Mas no Brasil já aconteceu isto, talvez pela primeira vez na história da humanidade. Vamos contar esse mistério.
Foi na década de 40 / 50 do século passado. Voltemos a esse tempo. A cidade de São Paulo era servida por duas indústrias cerâmicas principais. Um dos produtos dessas cerâmicas era um tipo de lajota cerâmica quadrada (algo como 20x20cm) composta por quatro quadrados iguais. Essas lajotas eram produzidas nas cores vermelha (a mais comum e mais barata), amarela e preta. Era usada para piso de residências de classe média ou comércio.

Foto: Mika Lins

No processo industrial da época, sem maiores preocupações com qualidade, aconteciam muitas quebras e esse material quebrado sem interesse econômico era juntado e enterrado em grandes buracos.

Nessa época os chamados lotes operários na Grande São Paulo eram de 10x30m ou no mínimo 8 x 25m, ou seja, eram lotes com área para jardim e quintal, jardins e quintais revestidos até então com cimentado, com sua monótona cor cinza. Mas os operários não tinham dinheiro para comprar lajotas cerâmicas que eles mesmo produziam e com isso cimentar era a regra.

Certo dia, um dos empregados de uma das cerâmicas e que estava terminando sua casa não tinha dinheiro para comprar o cimento para cimentar todo o seu terreno e lembrou do refugo da fábrica, caminhões e caminhões por dia que levavam esse refugo para ser enterrado num terreno abandonado perto da fábrica. O empregado pediu que ele pudesse recolher parte do refugo e usar na pavimentação do terreno de sua nova casa. Claro que a cerâmica topou na hora e ainda deu o transporte de graça pois com o uso do refugo deixava de gastar dinheiro com a disposição.

Agora a história começa a mudar por uma coisa linda que se chama arte. A maior parte do refugo recebida pelo empregado era de cacos cerâmicos vermelhos mas havia cacos amarelos e pretos também. O operário ao assentar os cacos cerâmicos fez inserir aqui e ali cacos pretos e amarelos quebrando a monotonia do vermelho contínuo. É, a entrada da casa do simples operário ficou bonitinha e gerou comentários dos vizinhos também trabalhadores da fábrica. Ai o assunto pegou fogo e todos começaram a pedir caquinhos o que a cerâmica adorou pois parte, pequena é verdade, do seu refugo começou a ter uso e sua disposição ser menos onerosa.

Mas o belo é contagiante e a solução começou a virar moda em geral e até jornais noticiavam a nova mania paulistana. A classe média adotou a solução do caquinho cerâmico vermelho com inclusões pretas e amarelas. Como a procura começou a crescer a diretoria comercial de uma das cerâmicas descobriu ali uma fonte de renda e passou a vender, a preços módicos é claro pois refugo é refugo, os cacos cerâmicos. O preço do metro quadrado do caquinho cerâmico era da ordem de 30% do caco integro (caco de boa família).

Até aqui esta historieta é racional e lógica pois refugo é refugo e material principal é material principal. Mas não contaram isso para os paulistanos e a onda do caquinho cerâmico cresceu e cresceu e cresceu e , acreditem quem quiser, começou a faltar caquinho cerâmico que começou a ser tão valioso como a peça integra e impoluta. Ah o mercado com suas leis ilógicas mas implacáveis.

Aconteceu o inacreditável. Na falta de caco as peças inteiras começaram a ser quebradas pela própria cerâmica. E é claro que os caquinhos subiram de preço ou seja o metro quadrado do refugo era mais caro que o metro quadrado da peça inteira… A desculpa para o irracional (!) era o custo industrial da operação de quebra, embora ninguém tenha descontado desse custo a perda industrial que gerara o problema ou melhor que gerara a febre do caquinho cerâmico.

De um produto economicamente negativo passou a um produto sem valor comercial a um produto com algum valor comercial até ao refugo valer mais que o produto original de boa família…

A história termina nos anos sessenta com o surgimento dos prédios em condomínio e a classe média que usava esse caquinho foi para esses prédios e a classe mais simples ou passou a ter lotes menores (4 x15m) ou foram morar em favelas.

São histórias da vida que precisam ser contadas para no mínimo se dizer:
– A arte cria o belo, e o marketing tenta explicar o mistério da peça quebrada valer mais que a peça inteira

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Pausas

Por Patricia Ravena, artesã e professora

Estamos atravessando um período tenso da História mundial. Assim como a peste negra, gripe espanhola, as duas Grandes Guerrras. Momentos ímpares que nos trazem reflexões sobre o planeta em que vivemos.
É um momento de pausas. E parar no atual contexto mundial é desesperador, visto que as esconomias, as cidades, as pessoas não podem parar.
As informações nos chegam rápido, e a atualização das mesmas nos chegam como um turbilhão de emoções. É difícil parar quando somos estimulados a não ter mais parada certa. Passada a infância, pausar é quase um crime, pois correr é a fonte de toda a economia e onde, estar parado é sinônimo de fracasso. A vida é um constante correr: acorda, trabalha, cuida-se dos seus, ama-se ás pressas, perde-se o brio. Esta correria nos paralisa quando não superamos as nossas e as vossas expectativas, visto o surgimento de tantas síndromes e depressão.
Agora, nos pedem calma. É um grande filme rodado no grande cinema que é o Planeta Terra , agora, simplesmente parado! Ruas, shoppings, escolas, turismo, grandes estradas, aeroportos, tudo, tudo em pausa.
A vida pede calma. A fauna, a flora, a atmosfera. Adoecemos a Humanidade, onde o importante não é ser; é ter. Se olharmos ao nosso redor com carinho, podemos perceber como precisamos cuidar de nosso interior, de como tratamos as pessoas e como nos relacionamos com elas. Ou não. É o momento de sentir saudade, de se perguntar porque parou-se de amar, de observar.
Reaprender a olhar o outro, e não apenas ignorar. Esta pausa, é sim, momento de reflexão.
Tenho visto em tantas redes, tantos anônimos, gestos de solidariedade com que passa por momentos difíceis frente a esta pandemia de Covid19. Notícias sobre músicos e artistas entretendo quem estáem isolamento social e têm vivido momentos de ansiedade, presos em seu próprio lar. O mundo vê, agora, a importância de parar, de se importar, de amar e se importar com quem se quer por perto, ou simplesmente se preocupar com tantas mortes planeta afora. É hora de internalizar a melhora de atitudes, de zelo, de carinho e de paciência, pois somos acometidos pela falta da mesma.
Que possamos, ao fim de tudo isto, comemorar uma vitória pessoal interna, e não somente para que outros vejam. Abrace seu filho, ligue para aquele amigo que você ama e não tem tido tempo, faça uma chamada de vídeo com os avós ou idosos que conheça, ore independente da religião, dance e vibre coisas positivas, porque o universo percebe. Utilize esta pausa para ser positivo. Doe algo, pois há tantos em nada na sociedade que não para nunca. Desentulhe sua casa, pois uma casa sem entulho é um lar sempre aconchegante para você e sua alma. Corra da maldade das notícias falsas, pois elas envenenam gente boa e aumenta o caos. Seja consciente, pois sua saúde e dos seus é importante para que possamos voltar á nossa rotina tão desejada. Use sua ansiedade para o bem, pois ao fim desta pausa, estaremos todos lutando para o retorno á normalidade. E que esta, seja agora, positiva e vibre amor. Pois, acredite. Ainda precisamos de amor.

O buraco

osPor Patricia Ravena, artesã e professora

Sabe quando tua vida chega num ponto em que você inventando coisas pra fazer pra não enlouquecer?
Se você não passou por isso ainda, parabéns!
É péssimo. O dia não passa. Tic tac. Tic Tac.
Acorda.
Abre os olhos. Vai ao banheiro. Escova os dentes. Xixi. Banho.

E depois?

Vazio. Nada. Nadinha pra fazer. No máximo encher a cara. E engordar. Isso eu tô fazendo bem. Até fumar perdeu a graça. Acredita?????

Minha vida agora é um enorme vazio. Sou o próprio vácuo. Um buraco sem graça e sem formas definidas.

Já sei, vou pintar uma camiseta!!!!!!
Lá vou eu, toda feliz. Mas dá tudo errado. Rasgo o stencil, borra a tinta. perdí a camiseta. caralho!

Já sei, vou ler. Isso!. Nem isso. Primeira página eu paro. Não consigo. Não entendo nada do que está escrito. Juro! Desespero. Tá na cara. Coisa tá feia feito puta de beira de estrada.

Escrever, vou escrever!!!!
Tenho a seguinte mania: quando penso algo legal pra escrever, anoto em algum lugar e vou guardando. Depois, pimba! Sai alguma coisa legal. Lembro do tempo em que eu fazia poesia, uns poeminhas legais. Agora nem isso. As frases estão soltas aqui por dentro. Juntá-las é dificil como um estudante iniciante.

Minha vida parou.

Não trabalho. Adoeci trabalhando. Não Demais. Os dias passam lentos, lentos, lentos.
Agora deixa eu voltar pra minha caminha.
Dormir.
O sono artificial dos trouxas. Babar no travesseiro e repetir o dia. Um drama que dura meses, dias e horas e eu não sei mais como reagir a isto.
Espero poder acordar melhor. Durmo pensando assim.
Quem sabe???????
Quem sabe não levanto, quem sabe não reajo, quem sabe eu aceite aquilo que eu não consigo aceitar e encontrar em coisas simples a felicidade de ser quem eu sou! E buscar serenidade e paz frente as adversidades enfrentadas por mim e por todos nesta longa travessia que se chama vida e entender que viver é entrega. Se entregue…ame, viva, corra, sofra, mas sofra com dignidade, com olhos no futuro, pois não se deve cultivar o sofrimento.
Sejamos todos resilientes!

Lembrando Lennon

por Ismael Machado

É natural que o passar do tempo nos remova de coisas que muito nos foram importantes ou até mesmo fundamentais na construção do que somos e pensamos. Novos interesses, novas encruzilhadas na vida. Hoje fui levado de volta a um tempo definitivo, a um momento crucial de minha existência. E dada as dificuldades da vida atual, com pandemias, crises econômicas e morais, com a luta pela sobrevivência física, mental, monetária, social sendo uma encarniçada batalha para não sucumbir, vi a foto de Paul McCartney e John Lennon, sentados lado a lado, rindo e debruçando-se sobre a letra de uma canção. Que canção seria? E fui lembrado então que hoje, se vivo estivesse, John Lennon estaria completando 80 anos. E, desculpem a tolice piegas, chorei. Talvez não pela lembrança de Lennon em si, mas pela minha própria. Pelos 13, 14 anos que um dia já tive e que me fizeram entender em plenitude a importância beatle na minha vida.
John Lennon foi assassinado dois dias antes de eu completar 14 anos. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que esse dia foi o ponto crucial para mudar minha experiência do viver. Percebi que aquelas canções estavam presentes em minha vida desde a mais tenra idade. Elas faziam parte do repertório de vida de minha única irmã e percorriam sulcos de vinis – compactos principalmente- de dois irmãos vizinhos, João e Jurandir. Ao me embrenhar nas histórias de John Lennon e dos Beatles, descobri um caminho a seguir. Fui abandonando aos poucos o interesse pelas festinhas de aparelhagem em quermesses de fim de semana e me debruçando com mais afinco ao rock. E isso me abriu portas para tanta coisa…mpb, teatro, cinema, amizades.
Minha irmã, que tanto amo, começa a enfrentar agruras de uma idade que começa a cobrar pedágio. Os amigos que conheci que também amavam Beatles e similares, muitos perdi de vista, na poeira do tempo e da distância. Não deixo de amá-los.
Decidi, enquanto as preocupações com a falta de dinheiro, com a ausência de trabalho, com a necessidade de terminar um projeto acadêmico que às vezes me soa sem sentido, ouvir John Lennon. E percebi o quanto há ali, naquelas canções, não tanto respostas, mas perguntas, as perguntas que sempre julguei necessárias. Há confissões e entrega. Uma sinceridade áspera. Do cara que se admite ciumento, possessivo e inseguro em Jealous Guy, ao que se diz cansado de políticos e suas mentiras, da hipocrisia das religiões e da insensibilidade da ganância do capital em Gimme Somme Truth. Há muitas canções que me tocam diretamente, como God, por exemplo, mas foi Working Classe Hero que me fez parar, suspender o momento, paralisar as ações e apenas ouvir a canção folk de protesto que poderia ter sido composta por Dylan, Joan Baez, Pete Seeger. E talvez nada seja mais completa para mim atualmente que essa canção. Nesse dia de hoje. E mais uma vez, agradeço a John Lennon. Feliz aniversário.
Herói da Classe Trabalhadora
Assim que você nasce eles te fazem se sentir pequeno/Não te dando tempo nenhum em vez disso tudo/Até que a dor é tão grande que você não sente mais nada/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Eles te machucam em casa e te batem na escola/Eles te odeiam se você é inteligente e desprezam um tolo/Até que você fica tão maluco que não consegue seguir as regras deles/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Depois que eles te torturam e te assustam por uns 20 anos estranhos/Então eles esperam que você escolha uma carreira/Quando você não consegue se encaixar você fica tão cheio de medo/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Eles te mantêm dopado com religião, sexo e TV/E você pensa que você é tão esperto, elitizado e livre/Mas você ainda é um camponês fodido pelo que eu vejo/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Há vaga no alto eles continuam te dizendo/Mas primeiro você precisa aprender a sorrir enquanto mata/Se você quer ser como os caras da montanha/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Se você quer ser um herói, bem, basta me seguir.

Reconstruindo a vida. Um TDAH de volta a Ritalina

Quando se soma a insatisfação com a desatenção o resultado é nitroglicerina pura.

Imagine a seguinte situação: Você, TDAH, chega no trabalho em determinado dia e se lembra de um comunicado que enviou por e-mail dias antes e um dos destinatários teve o e-mail devolvido por erro de endereço. Feliz com essa lembrança espontânea você começa a prospectar o endereço de e-mail correto. Até que decide contatar um cliente que lhe informa o número de whatsapp da pessoa. Você salva o número em seus contatos e clica em conversar. O aplicativo de contatos te joga para o whatsapp e você fica perplexo ao descobrir que já havia uma conversa sua com aquele contato. Estupefato, relê aquela troca de mensagens ocorrida dez dias antes em que, você não apenas enviou o tal comunicado à pessoa como corrigiu o endereço de e-mail e acertou o cadastro no sistema da empresa. A primeira reação é de incredulidade; não é possível que eu fiz isso. Mesmo diante da troca de mensagens você não se recorda. A segunda reação é vergonha. Vergonha de que alguém possa ter percebido e vergonha de si próprio, tal a magnitude do erro. Depois vem a revolta, a raiva de si mesmo, do transtorno, de si mesmo, da desatenção, de si mesmo, de si mesmo… Quando me lembro desse episódio a imagem do whatsapp volta nítida em minha mente. O sentimento de incredulidade. Aquele episódio desapareceu da minha cabeça como se jamais houvesse existido.
Um misto de irritação, frustração, vergonha, cansaço, desânimo, vontade de sumir…
Quem não é TDAH pode pensar: mas isso tudo por causa de um erro sem consequências. Que bom que já havia resolvido a questão antes…
Não é o tamanho do erro que incomoda; é sua infindável repetição. Quantos esquecimentos na mesma semana… No mês não dá pra contar…
Naquele dia cheguei em casa disposto a procurar um médico, um bom médico e retomar a Ritalina abandonada há muito tempo. Mais de um ano. Depois, mais calmo, concluí que, pela enésima vez, me auto sabotei ao abandonar o tratamento medicamentoso. E reconheci tardiamente todo o percurso que nós, TDAHs, repetimos à exaustão:
A primeira ‘constatação’ é a de que o remédio não funciona mais. Depois, a dificuldade de conseguir receita; o remédio é até muito barato, mas pagar uma consulta por mês pesa muito. Mais um passo é dado ao começar a economizar no consumo da Ritalina; em lugar de dois comprimidos por dia, concentrei-me em apenas um, na parte da tarde quando sou menos produtivo. Logo passei para dia sim, dia não, e parei…
Com tantos anos de estrada, escrevendo e vivenciando o TDAH, como pude cair nessa?
Simples, o TDAH é incurável e está dentro de nossas mentes. Ele é um componente indissociável de nossa vida e, confesso, é cansativo viver o tempo todo em estado de alerta. Em alguns momentos optamos conscientemente por deixar o TDAH agir. E esse conscientemente, já não sei se foi por nosso próprio livre arbítrio, ou se já era a influência nefasta do TDAH. Creio que foi no excelente livro do Dr. Barkley Russel sobre TDAH em adultos (que a Amazon espertamente está anunciando num blog de TDAH), que ele afirma textualmente que o portador de TDAH tem seu livre arbítrio prejudicado. Nem todas as nossas escolhas são nossas realmente, grande parte delas, ou a sua totalidade, são feitas sob a influência do TDAH.
Sinto-me hoje como Sísifo, a personagem do mito grego, que como punição aos seus erros era obrigado a rolar uma enorme pedra de mármore montanha acima e ao se aproximar do cume, via a pedra rolar montanha abaixo até seu ponto inicial. E Sísifo era obrigado a empurrá-la montanha acima diariamente. Sinto-me no ponto de partida novamente.
A grande vantagem que tenho sobre Sísifo é ter TDAH. Sim, ao esquecer-me da maioria das minhas experiências passadas, apago a maior parte do sofrimento que foi empurrar a pedra morro acima, e volto a empurrá-la alegremente na certeza de que atingirei o cume da montanha com facilidade.
A mesma falta de memória que nos prejudica e envergonha, nos dá o antídoto à depressão e ao desespero do eterno recomeço. Ciclicamente, como fênix, renascemos das cinzas, reerguemo-nos do mais profundo e escuro abismo e atingimos  o brilho do sol, onde passamos a acariciar com estranheza e curiosidade o enorme número de cicatrizes que trazemos na alma. Sim, somos incapazes de aprender com nossos próprios erros, e muito menos aprendemos com os erros alheios. Simplesmente esquecemos aquilo que vivenciamos, e voltamos a cometer os mesmos erros.
Se a mão que afaga é a mesma que apedreja, a mão que apedreja é a mesma que afaga.
Aqui vou eu; ao infinito e além!

Ouça em áudio :

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Maior petroleiro da Venezuela passa a navegar sob bandeira russa

osO maior petroleiro da Venezuela passará a navegar sob a bandeira russa, segundo o jornal econômico russo RBC. O acontecimento é extraordinário, já que das mais de 800 embarcações que levam a bandeira venezuelana, há raros casos de passagem para outra jurisdição, como a Libéria ou Panamá, de acordo com o banco de dados de embarcações marítimas da “Equasis”.

O petroleiro tem 320,8 mil dwt (a medida de porte das embarcações, “toneladas de porte bruto”), ou seja, pertence à classe VLCC (Very Large Crude Carrier). Antes chamado “Ayacucho”, em homenagem a uma cidade venezuelana chamada Puerto Ayacucho, ele mudou de nome em maio de 2020, passando a se chamar “Máximo Gorki” (Maksím Górki).

Desde junho, ele também está inscrito no registro russo e navega sob a bandeira russa, de acordo com a “Equasis” e com o “Registro Internacional de Navios da Rússia”. O superpetroleiro foi registrado na Rússia em 27 de maio de 2020, segundo a última entidade. O certificado foi emitido em 20 de agosto pelo Russian River Register.

Assim, o “Máximo Gorki” se tornou o maior petroleiro navegando sob a bandeira russa. Antes, os maiores petroleiros de armazenamento (depósitos flutuantes de óleo) na Rússia eram o “Umba” (300.000 dwt) e o “Kola” (309.000 dwt), de acordo com o banco de dados da “Equasis” e publicações de fontes abertas.

Em 2013, a petrolífera estatal “Petróleos de Venezuela” (PDVSA) recebeu solenemente um novo super-petroleiro “Ayacucho” do estaleiro chinês “Bohai Shipbuilding”, que também construiu petroleiros para a “Sovcomflot” navegando sob bandeira estrangeira.

“Ele é um navio que pode transportar 2 milhões de barris de petróleo. É quase tão grande quanto um porta-aviões. É um porta-aviões da nossa pátria, da nossa soberania”, declarou o então ministro do Petróleo da Venezuela, Rafael Ramírez.

O “Ayacucho” e três outros superpetroleiros figuravam no balanço patrimonial da “CV Shipping”, joint venture de Cingapura entre a PDVSA e a estatal chinesa “PetroChina”.

No entanto, depois que os Estados Unidos impuseram sanções contra a PDVSA e as seguradoras internacionais retiraram sua cobertura, o sócio chinês iniciou falência da joint venture em Cingapura.

A “PetroChina” ficou com três petroleiros, mas deixou o quarto, o “Ayacucho”, para os venezuelanos.

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Há 80 anos, 2 aviões bateram, ficaram enroscados, mas pousaram em segurança

Um dos acidentes mais estranhos da aviação mundial completa 80 anos na próxima terça-feira. No dia 29 de setembro de 1940, dois aviões bateram em pleno voo, ficaram enroscados um sobre o outro, mas, ainda assim, conseguiram pousar em segurança. Os aviões envolvidos no acidente eram dois bombardeiros britânicos Avro Anson, que realizavam voos de treinamento da Real Força Aérea Australiana para combates na Segunda Guerra Mundial. A colisão ocorreu quando os aviões sobrevoavam a região de Brocklesbt, no estado de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Os dois aviões voavam próximos, quando um deles fez uma curva e causou a colisão das aeronaves em pleno voo. O choque deixou os dois Avro Anson enroscados. As hélices do avião que ficou por cima ficaram completamente destruídas, mas o motor do avião debaixo continuou funcionando e fornecendo potência suficiente para permitir o voo dos dois. O piloto e o navegador do avião que ficou por baixo decidiram saltar de paraquedas logo após a colisão. Antes de saltar, no entanto, o piloto Jack Inglis Hewson travou os comandos do avião e colocou o motor em potência máxima. Isso permitiu que, no comando do avião de cima, o piloto Leonard Graham Fuller mantivesse total controle das superfícies de comando de sua aeronave.

Apesar das dificuldades de pilotar dois aviões ao mesmo tempo, Fuller conseguiu pousar os Avro Anson em segurança. Depois de alguns reparos, o avião de Fuller ainda voltaria a voar, enquanto a aeronave que ficou por baixo passou a ser utilizada somente para treinamentos em terra. Mesmo com toda a complexidade da situação, na época, Fuller descreveu com tranquilidade como agiu naquela situação. “Fiz tudo o que nos disseram para fazer em um pouso forçado —aterrissar o mais próximo possível de uma habitação ou casa de fazenda e, se possível, contra o vento. Eu fiz tudo isso”, disse.

O acidente inusitado ganhou grande repercussão na época. Fuller recebeu diversas homenagens por sua habilidade de conseguir salvar os dois equipamentos de uma destruição total. Como recompensa, foi promovido ao posto de sargento da Real Força Aérea Australiana. Depois de se formar no mês seguinte ao acidente, Fuller serviu no Oriente Médio e na Europa. Em 1942, recebeu a “Distinguished Flying Medal” por suas missões em Palermo (Itália). A carreira militar de Fuller estava em ascensão. Ao retornar à Austrália, foi promovido à função de instrutor de voo. A vida de Fuller, no entanto, foi interrompida de forma trágica, mas nada relacionado à aviação. O piloto morreu em março de 1944 , aos 26 anos, ao ser atropelado por um ônibus enquanto andava de bicicleta.

via Encanto do Rio

Homenagem a Salvador Allende em um Chile diferente #AllendeVive

A grande marcha  em homenagem ao ex-presidente Salvador Allende e às vítimas do pinochetismo que ocorre todos os anos não acontecerá em 2020 devido à pandemia.

Que estranho paradoxo sobre Allende, apontou o escritor chileno Antonio Skármeta: “Um homem que teve três funerais e se mantém muito vivo no coração de seu povo”.

Relembrando…

Dois atentados. Dois fatos históricos diferentes. O do Chile foi cometido há 32 anos e anda meio esquecido. Vale relembrá-lo.
Em 11 de setembro de 73, a mais sólida democracia da América do sul sofreu um atentado que deixou uns 30 mil mortos no seu rasto. O Chile foi vítima de um golpe militar, perpetrado pelas três Forças Armadas, com o objetivo de quebrar a esperança de se construir um país socialista pela via eleitoral.
Salvador Allende, após três derrotas, venceu as eleições presidenciais em 1970. O imperialismo americano não podia permitir que a “via chilena para o socialismo” vingasse e fosse um exemplo para a América Latina. Por isso, junto com a burguesia chilena conspirou e chamou os militares para acabar com aquela experiência. Allende foi derrubado. O Palácio de la Moneda, assim como várias fábricas onde estavam trabalhadores dispostos a resistir, foram bombardeados.
Com o golpe, dezenas de milhares de pessoas foram presas, torturadas e exiladas. Se calcula que de 10 a 30 mil foram assassinados ou se tornaram os famosos desaparecidos, vitimas da ditadura do general Pinochet. A esquerda foi quebrada. Com isso os Estados Unidos puderam dirigir tranqüilamente a economia chilena, sem freios. O Chile foi o primeiro país do mundo onde se implantou o projeto neoliberal. Os famosos Chicago Boys, os defensores da doutrina neoliberal, liderados pelo economista Milton Friedman ali testaram os resultados dos planos neoliberais.

Tudo isso exigiu um atentado terrorista contra a esquerda e o povo chileno que custou 30 mil mortos. Dez vezes mais do que o número de mortos no atentado em Nova Iorque em 2001, quando caíram as duas Torres Gêmeas e que, com razão, comoveu o mundo.

Victor Jara, o cantor de Venceremos

Há vários filmes dobre o Golpe do Chile de 1973. O mais recente é Machuca, mas há outros quase clássicos: ‘Chove sobre Santiago’, ‘Missing – O desaparecido’ e ‘A Casa dos Espírito’. Em ‘Chove sobre Santiago’, uma das cenas mais chocantes é a de milhares de presos, no dia 11 de setembro, amontoados no Estádio Nacional de Santiago. Muitos foram mortos sob tortura ou com um tiro na nuca ali mesmo. Outros seguiram para várias prisões ou acabaram sendo jogados vivos ao mar de aviões militares.

No estádio um dos presos era o cantor e poeta Victor Jara. Os torturadores lhe deram um violão e o forçaram a cantar o Hino da Unidade Popular que tantas vezes ele tinha cantado junto com o povo. Victor Jara teve suas mãos cortadas para nunca mais, com seu violão, cantar Venceremos.

Santa Maria de Iquique: um massacre em 1907

A matança da Escola Santa Maria, na cidade de Iquique, no norte do Chile é um dos fatos mais trágicos vividos pelos trabalhadores chilenos. Foi no dia 21 de dezembro de 1907. Foram assassinados mais de 3.000 trabalhadores do salitre, que estavam em greve por melhores salários e para que se mudasse o sistema de pagamento de vales para dinheiro.

Trecho da Cantata Santa María de Iquique, de Luis Advis

“Vamos mujer / Partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, confía, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.
Toma mujer mi manta, te abrigará.
Ponte al niñito en brazos, no llorará.
va a sonreir, disle cantarás un canto,
se va a dormir.
Qué es lo que pasa?, dime, no calles más.
Largo camino tienes que recorrer,
atravesando cerros, vamos mujer.
Vamos mujer, confía, que hay que llegar,
en la ciudad, podremos
ver todo el mar.
Dicen que Iquique es grande como un salar,
que hay muchas casas lindas te gustarán.
Te gustarán, confia como que hay Dios,
allá en el puerto todo va a ser mejor.
Qué es lo que pasa?, dime, no calles más.
Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, confía, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.”

via Prensa Latina & Núcleo Piratininga, com os meus sinceros agradecimentos a Heloisa Helena Rousselet de Alencar(Nininha), por ter me apresentado o Quilapayún, nos idos anos 70…

NR: Em estava participando do  Festival Chileno de Curtas-Metragens de Santiago, junto com meu amigo também cineasta Robinson Roberto e assistimos à estréia de um documentário chamado “Fernando está de volta.”, de Silvio Caiozzi. Muitos anos depois, Ricardo Aronovich , (diretor de fotografia de “Missing – O Desaparecido”, de Costa-Gavras ) foi meu professor num Estágio Avançado da FEMIS na UnB e nas rodas de café contou muitas outras histórias sobre o filme e a ditadura chilena.

O documentário “Fernando ha vuelto” mostra como médicas legistas trabalhando no necrotério de Santiago (Oficina de Identificación del Instituto Médico Legal) conseguem identificar os corpos de  desaparecidos prisioneiros da ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1990).

Os médicos demonstram as técnicas utilizadas em um caso recentemente resolvido: os restos de um homem encontrado enterrado, junto com muitos outros, no Pátio 29 do Cemitério Geral de Santiago, em 1991.Os restos mortais são de Fernando Olivares Mori, um chileno de 27 anos de idade que trabalhava para as Nações Unidas . Ele desapareceu em  5 de outubro de 1973. Após quatro anos de trabalho, os médicos com sucesso conseguem estabelecer a identidade de Fernando e, uma vez que já voltaram seus restos mortais para sua viúva, comunicar oficialmente a causa da morte (quase sempre tortura e execução sumária). Imagens do documentário testemunham o impacto que o retorno de Fernando tem em sua família: seu filho, seus irmãos e sua mãe. Seu testemunho ilustra como quão irrelevantes as convicções políticas podem ser quando se trata de sofrimento humano.

Um momento muito tenso, porque no Cine Pedro de Valdivia estava a família de Allende e o filme trata justamente de uma ossada que é identificada e tem , finalmente, um enterro cristão. No Chile, as feridas ainda estão abertas. Quase 40 anos depois…

#AllendeVive 

Projeto do PSL torna obrigatório exame toxicológico anual para professores da rede pública


O Projeto de Lei 3928/20 torna obrigatório o exame toxicológico para professores da rede pública de ensino. Em análise na Câmara dos Deputados, o texto estabelece que os exames para detecção do uso de drogas ilícitas sejam realizados antes da admissão do professor e depois anualmente.

A proposta concede ao professor direito à apresentação de contraprova em caso de resultado positivo. Confirmado o uso de droga pelo docente, ele será, conforme o projeto, encaminhado para tratamento a ser definido em regulamento, sem prejuízo de sanções administrativas.

Autor da proposta, o deputado Marcelo Brum (PSL-RS) entende que os professores “são peça chave na prevenção da dependência a drogas por terem contato prolongado com os alunos”. “Considerando esse fato, não é admissível que os profissionais do ensino possam ser, eles mesmos, dependentes de drogas ilícitas”, pontua Brum.

Nós comentários do site da Câmara onde aparece a notícia, há várias sugestões. ” Militares das três forças da mais baixa à mais alta patente, sem exceções nem para os ocupantes de cargos máximos. Políticos de todos os níveis, de vereadores a senadores.”,escreve um internauta. Outro comenta : ” Ao invés dessa lei, deveria ser criada uma lei que igualasse o salário do professor ao do deputado. E os exames toxicológicos deveriam começar pelos Deputados.”. Outro comentário é pitoresco : ” Em vez de fazer exame para detectar se o professor usa drogas !! Sugiro que crie uma lei que forneça remédio para matar os piolhos que os professores pegam nas escolas seria mais útil.”.

O exame proposto é o mesmo utilizado por caminhoneiros e motoristas de ônibus que possuem a habilitação CNH categoria D. Custa em média R$ 300 reais e demora de 20 a 40 dias para ficar pronto. O número de professores no Brasil passa de 2,5 milhões, segundo censos educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Filme sobre Victor Dequech desvenda mitos das lendárias Minas de Urucumacuã

DEQUECHO falecimento do engenheiro de minas Victor Dequech, ocorrido em Belo Horizonte em 2012 poderia também sepultar uma parte importante da história de Rondônia.

Conhecido por ser o fundador da Geosol, a maior empresa de sondagens do país e da Sociedade Brasileira de Espeleologia, Dequech entra para a história de Rondônia a partir da Expedição da década de 40 que visava encontrar as lendárias Minas de Urucumacuã.

A sua versão dos fatos, a fonte primária da história, estaria perdida se não fosse a ação visionária dos documentaristas Luiz Brito e Beto Bertagna(yo), que munidos de uma câmera Digital e microfones profissionais, gravaram muitas  horas de histórias na sua residência em Belo Horizonte, com apoio da TV Minas.

O depoimento de Dequech é uma verdadeira bomba e põe por terra muitos mitos criados na fértil imaginação de cutubas e peles curtas.

O filme tem o título provisório de “Urucumacuã , A Salvação do Brasil” e reedita a parceria dos dois diretores  feita no documentário “Divino, Cem Vezes Divino“.

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Brasil mais pobre : Cinema e MPB perdem Sérgio Ricardo, aos 88 anos

Morreu na manhã desta quinta-feira (23), aos 88 anos, o cantor e compositor Sérgio Ricardo, que atuou em movimentos que redefiniram a cultura brasileira, como a bossa nova e o cinema novo.  Ele estava internado no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio, desde abril, quando contraiu Covid-19, e teve uma insuficiência cardíaca nesta quinta. Ele tinha se curado do novo coronavírus, mas precisou permanecer no hospital.

Cara, é o seguinte… Ele era da pesada !

João Lutfi, ou mais simplesmente , Sérgio Ricardo, diretor de cinema, ator, cantor e compositor.

Descendente de família libanesa, em 1940, aos 8 anos, foi matriculado no Conservatório de Música de Marília para estudar piano e teoria musical; mudou-se para São Paulo e foi locutor da rádio Cultura em São Vicente, litoral do estado.

Ao mudar para o Rio de Janeiro em 1952 conseguiu emprego como técnico de som e pianista, substituindo Tom Jobim. Familiarizado com a cidade, que foi o berço da bossa nova, passou a fazer parte do primeiro núcleo de compositores desse movimento musical. Lançou no começo dos anos 60 os LPs Não Gosto Mais de Mim e A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo.

Participou do III Festival de Música Popular Brasileira transmitido pela TV Record, quando, num momento antológico, foi vaiado pelo público ao cantar “Beto bom de bola”, e nervoso, quebrou o violão e atirou-o contra a platéia.

Incentivado por Carlos Lyra, passou a inteirar-se de problemas políticos e sociais, o que o levou a compor canções retratando esses temas.

Há 3 anos atrás produziu um  show lindíssimo com seus filhos, Cinema na Música de Sérgio Ricardo, show-visual que comemorava seus 85 anos, e era por dirigido por Marina Lutfi, sua filha – designer e cantora, que também se apresentava no palco -, com as principais criações de Sérgio para o cinema, campo em que recebeu inúmeras premiações por trilhas sonoras inesquecíveis, como a de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, e de filmes próprios, como “A Noite do Espantalho”, juntamente com João Gurgel (voz e violão), acompanhados do fera da percussão Carlos Cesar.

Suas últimas apresentações eram acompanhadas por projeções de trechos dos filmes – a maioria com fotografia de Dib Lutfi, o “homem-grua” do Cinema Novo, que faleceu em outubro de 2016. Dib era o irmão caçula de Sérgio Ricardo. A cuidadosa seleção das imagens foi feita por Victor Magrath, editor dos últimos filmes de Sérgio, profundo conhecedor de sua filmografia.

Havia uma pedra

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Incêndio na Flotropi. E não é pouco fogo não. A bicharada está em pânico e entre uma tossida e outra, uma ajuda a um irmão encurralado e as tentativas de fugir das chamas que engolem a floresta se pergunta: “como chegamos a esse ponto?”

A formigas trabalhadoras já haviam sentido em suas caminhadas no leva e traz de folhas e galhinhos para os formigueiros que algo não estava bem. A começar pela falta de chuvas e o descuido com os preparativos para o período da seca, ao menos para proteger a clareira real. As cigarras estavam mais roucas por causa da fumaça!

O eleito da vez, com mania de dinastia e império, não só deixou de fazer o beabásico, como incentivou a desobediência às regras de queimadas na área florestal. Seu assessor, encarregado das ações preventivas visando proteger o habitat, já dava sinais que estava mais para coração de pedra que coração de leão. E que de protetor e mantenedor do meio ambiente da Flotropi e seus habitantes, animais, vegetais e, por que não, minerais, não tinha nada!

Começou sua obra transferindo o responsável pela proteção dos golfinhos para o lado mais seco do país, alocando-o numa parte semiárida do território.

Nessa época do ano, qualquer animal de boa cepa sabe, em vez de gastar os recursos do tesouro florestal com a medida que, logo depois, foi derrubada no tribunal dos bichos, ele deveria estar estruturando a fiscalização e punindo os infratores que, já no início do inverno e do tempo seco, se preparavam para tocar fogo nas matas. E o que o animal fez? Nada!

Se limita a desqualificar os guardiões e, devidamente motorizado nas redes sociais, agradecer os aplausos dos demais membros do conselho florestal do atual governante, todos interessados em enfraquecer e dizimar os valores primordiais do meio ambientes da Flotropi: o ar, as matas e seus habitantes.

Nem o aparecimento de imagens terríveis de animais carbonizados, da vegetação sendo engolida pelo fogo, nem os gemidos da floresta serviram para sensibilizar os cruéis e gananciosos governantes de Flotropi. Quem imaginaria que as coisas chegariam a esse ponto?

Quando os representantes de outros ecossistemas começaram a se movimentar para impedirem a destruição em massa as hienas e os chacais do conselho continuaram fazendo cara de paisagem (variadas, conforme o setor de atuação) até que o presidente da Flotrofran botou a boca no trombone e levou o caso ao conselho mundial dos mais poderosos sistemas ecológicos do planeta.

E deu no que deu. Ou seja, o eleito (bem feito!) e já não tão amado assim, como bom mico bateu boca com o líder que expôs suas mazelas, partiu para a baixaria pessoal marital, recusou ajuda para conter as queimadas e, vestindo a roupa nova de seus asseclas costureiros, achou que estava tudo dominado.

E não teve manifestação nem passeata da bicharada indignada que amolecesse a moleira e abrisse a “caixola” dos donos da clareira.

Não contaram com a reação que levou o coração de pedra para a lona. A informação de que os produtos da Flotropi estavam fora da pauta de importação de grandes consumidores dos produtos flotropicais.

Deu xabu, deu piti e terminou com uma passagem pela CTI. O que era pedra não furou (ainda), mas começou a propagar, quem nem gota n’água, as consequências de sua inconsequência. O rastilho alcançou vários setores e está fazendo a bicharada ficar de antenas e orelhas em pé.

Rapidamente começaram a operação enxuga gelo para apagar o fogo. Jogando mais lenha em outras “fofogueiras”, baboseiras e besteiras.

Mais ou menos, porque agora a floresta palpitante e o mundo vigilante não vão deixar de cuidar da natureza. Ela não tem dono. É de todos os habitantes. Pelo menos aqui, na Flotropi, onde quem manda sou eu.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com