Cabo Eleitoral (um narrador de briga)

Por Altair Santos (Tatá)

O que não faz um fiel cabo eleitoral nessas épocas de caça aos votos! Pois vejamos! Ia o sujeito dirigindo o seu carro pela periferia da cidade, fazendo a campanha do seu candidato. Da pequena caminhonete com uma caixa de som sobre a capota se ouvia o nome e o número do postulante, repetidamente permeados por um apedrejamento aos ouvidos e ao quengo, com a execução de um jingle de péssimo gosto e igual qualidade. Resolveu parar numa taberna perto de um campo de futebol pra descansar um pouco e, estrategicamente, naquela esquina bem movimentada, deixar rolar o som da campanha. Pediu água e aproveitou pra distribuir alguns santinhos. Perto dali avistou uma intrigante aglomeração em pleno sol quente, quase no meio do campo.
Curioso, aproximou-se e se pôs a observar. Era uma efervescente discussão entre duas jovens exaltadas, cada uma, aparentado 26 anos de idade. O motivo da contenda era a disputa pelo amor dum certo Ronaldo, também morador do bairro e, por lá, apelidado de “Nóia”. Pelo dito cujo, ambas discutiam num “ele é meu, ele é meu”, sem resolução! À medida que a discussão esticava mais pessoas se achegavam ao cerco daquele trololó infindo. Gritos, vaias e incentivos, saiam de todos os lados dando pilha para as duas se atracarem ali mesmo e, no braço, tirarem a questão a limpo e sacramentar de vez, quem realmente seria a dona do cobiçado Ronaldo, o ladrão de corações, o afamado Nóia, como “artisticamente” é conhecido lá no seu território!
O cabo eleitoral manteve-se perto do sururu pra também ver qual seria o desfecho. E como o vai não vai, o bafafá, já durava mais de meia hora, as duas oponentes resolveram dar por esgotados os modos republicanos do diálogo, partindo para o maior sapeca Iaiá, um verdadeiro samba de pau pra ninguém botar defeito. Aí a coisa ficou feia, o bicho pegou!
O cabo eleitoral, esperto como ele só, ao ver as primeiras investidas, de parte a parte, sacou o microfone sem fio do bolso e que estava conectado à caixa de som do carro. Incorporando um narrador de MMA, passou a transmitir ao vivo para aqueles arrabaldes os detalhes da peleja, assim: a gorda jogou a magra no chão e a ossada dela estalou toda, acho que não sobrou uma só costela, a magra contra-atacou dando uma rasteira na gorda que também caiu e o chão tremeu igual num terremoto. Que gorda mais feia, aliás, as duas são feias pra c….., elas tão puxando os cabelos, uma puxou os peitos da outra, elas gritam muito minha gente, elas chamam palavrão pra porra, égua… essas vadias são alopradas, a magra mordeu o braço da gorda e a gorda rolou por cima da magra, cuidado, tu vai matar a outra sufocada sua baleia!
E dizia mais: eita da briga feia da moléstia meu pessoal, a poeira ta subindo e as penas tão voando, a galera ta vibrando, essas vadias tinham que ir lavar roupa meus eleitores em vez de brigarem por macho, elas são boas na porrada e continuam rolando no chão, credo das malucas, a calcinha da gorda é azul, a outra eu nem sei se tem calcinha, elas são doidas, e eu quero ver quem vai ganhar, a magra ta com a venta quebrada e a gorda sangrando pela boca, e tome porrada meu povo, venham todos, venham ver, iuuhhhhuuuuu delirava o locutor!
Num dado instante, enquanto a peia comia no centro, eis que do nada, como um raio, surge no local um esbaforido magricela transfigurado, olhos esgazeados, parecendo ter dado de proa com o capeta pelo caminho e entra na briga para apartar as duas indomadas. Era Ronaldo, o Nóia, que ao saber do babado forte fora, com mais de mil, tentar apaziguar os ânimos naquela faixa de gaza da periferia local. Corajosamente ao entrar no epicentro do conflito, Nóia, um pálido, esquálido e combalido cidadão, notadamente o mais franzino dos três em conflito não sabia a sorte que o aguardava naquela batalha. De cara levou um direto no olho seguido de tapas e pontapés, caiu umas quatros vezes, teve suas puídas vestes rasgadas e reduzidas a tirinhas e molambos, levou umas três mordidas além de incontáveis chutes na bunda.
Ao saber que ali no meio do bombardeio, apanhando feito cachorro sem dono, estava o pivô do conflito, o locutor manteve a sua intrépida narração: eita “pau pereira”, lascou-se tudo minha gente, agora o caldo engrossou, entrou um cavernoso na briga, sai daí esqueleto ambulante tu vai se quebrar todo, esse homem vai morrer nas mãos dessas duas safadas! Alguém acode esse corno infeliz, ele só apanha! Vixe agora as vadias bateram na cara dele, ninguém entende mais nada, a polícia ta chegando e eu vou é embora daqui dessa porra que o barraco é grande, vai dar B.O e pode sobrar pra mim, mas eu espero senhores eleitores que vocês votem no fulano de tal, número tal e jogou pra cima um monte de santinhos que revoavam na poeira.
Ao toque da sirene da viatura a briga fora interrompida. Nisso, o cabo eleitoral já ia longe com o seu jingle maldito, as desafetas recolhidas e o Nóia, misteriosamente sumira como que levado pelo vento afinal, a tirar pelo pseudônimo, a sua ficha deve não ser das mais limpas lá praquelas bandas!

tatadeportovelho@gmail.com

1 pensou em “Cabo Eleitoral (um narrador de briga)

  1. norma7 – Rio de Janeiro - Brasil
    norma7

    Oi Beto,
    Nunca li nada do ‘Tatá de Porto Velho’ que eu não ficasse ligeiramente abobada, rindo para paredes. A crônica (crônica? Isso é TEATRO) – levou-me a esse momento:

    http://youtu.be/HJJ5I8TQY5g

    “Nonsense song” (“Canção sem sentido” em inglês), que Charlie Chaplin canta no final de Tempos Modernos – seria a trilha sonora.
    (Francês e Italiano misturados fazendo sucesso entre os frequentadores do restaurante – rs).

    Depois de ler “O Cabo Eleitoral”, eu posso jurar em cima de uma pilha de livros: Eu vi a briga. Eu estava lá!
    Fiquem bem, Bjo Norma

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