Do Mural de Alberto Lins Caldas

*
1

● o jantar meu bom matthias tava pronto sempre ●
● as quatro da tarde em ponto com ou sem fome ●
● assim meu bom matthias não se perdia tempo ●

● da mesma maneira e pelos mesmos motivos ●
● o almoço tava pronto as dez horas toda manhã ●
● com sol ou chuva com doença ou com saude ●

● assim meu bom matthias não se perdia tempo ●
● se limpava a casa de manhã de tarde e a noite ●
● porq não se podia perder a luta pras ruinas ●

● galinhas degoladas no espanto dia sim dia não ●
● os porcos eram sangrados nas semanas pares ●
● as ovelhas esperavam duas vezes por ano ●

● assim meu bom matthias não se perdia tempo ●
● se bem q os ratos devoravam tudo e muito ●
● porq não havia tempo pra fome dos ratos ●

● assim nossa loucura parecia a mais pura luz ●
● havia em tudo meu bom matthias algo eterno ●
● uma aura verde amarela inesgotavel e rica ●

● assim meu bom matthias não se perdia tempo ●
● como não se perdia conversa nem migalhas ●
● porq tudo voltava pro desejo e seu corpo ●

● os ratos esses meu bom matthias eramos nos ●
● seus labirintos amigos e mazelas eramos nos ●
● suas fomes seus medos e sonhos eramos nos ●

2

● por tudo isso meu bom matthias não adianta mais ●
● ficar assim do outro lado da porta com a orelha ●
● pregada na madeira como uma lingua na outra ●

● nem ali nem aqui não ha mais nada nada a fazer ●
● nem corpos nem as boas sombras nem os sinais ●
● q as horas riscavam como brasas na madeira dura ●

● por tudo isso meu bom matthias não adianta mais ●
● afiar o metal das armas marcar os lugares vagos ●
● ou recolher os cirios derretidos pelos quartos ●

● o tempo dos reis passou porq era coisa podre ●
● agora é o tempo dos ratos esses q somos nos ●
● e não nos cansamos de roer e roer sem o porq ●

● por tudo isso meu bom matthias não adianta mais ●
● uns fazem o grande circulo outros o circulo menor ●
● outros ainda e são quase todos um simples ponto ●

● o caminho era largo demais meu bom matthias ●
● e foi breve foi brevissimo so um circulo de po ●
● coisa grande mas coisa triste coisa tristissima ●

● por tudo isso meu bom matthias não adianta mais ●
● essa roda rasga morde sempre e nos vai rasgando ●
● ?como aquietar esse destino essa coisa turbulenta ●

● ja demos a volta inteira todos vestidos agora nus ●
● ja fomos senhores e escravos agora são as folhas ●
● ja parimos o desterro e a tempestade não demora ●

3

● agora não é mais bem a hora meu bom matthias ●
● nem agora nem depois quando tudo isso findar ●
● porq as horas meu bom matthias amadurecem ●

● como as frutas e os corpos amadurecem e caem ●
● podres meu bom matthias e se tornam cinzas ●
● se torna po e o vento e a agua apaga os sinais ●

● q a hora passou meu bom matthias sabemos bem●
● sabemos todos com a força inteira desse saber ●
● isso grave e leve essa coisa tão futil tão esteril ●

● mas nada realmente se perdeu meu bom matthias ●
● nada se perde e vc sabe bem isso e mais e mais ●
● porq não ha onda não ha nada q se perca assim ●

● e passa meu bom matthias tão completamente ●
● q nem nos sonhos retorna nem a cobiça reflete ●
● o olhar triste de quem deixou passar e espera ●

● nessas horas meu bom matthias basta deitar ●
● basta tentar dormir entre os lençois abertos aqui ●
● entre tocas bem junto ao mar como se fosse antes ●

● mas não podemos mais esquecer meu bom matthias ●
● as armadilhas das sombras as armadilhas do cobre ●
● sempre afiadas sempre famintas de carnes e ossos ●

● antes meu bom matthias é melhor aproveitar ●
● essa cama esse torpor essas vozes q nada dizem ●
● essa coisa sempre idiota dando voltas sem voltar ●

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