A difícil arte de ser ateu (via blog da revista espaço acadêmico)

Por Marcelo Gruman

Quando meu avô materno morreu, em 2000, eu, sentado no sofá de sua casa, tentando assimilar a perda de alguém que eu admirava muitíssimo e que deixava um vazio na minha vida, ouvi de uma vizinha, cuja intenção era consolar-me, uma frase curta do tipo “Deus quis assim” ou “ele foi pra um lugar melhor”. Tempos depois, conversando com um rabino ortodoxo na época em que realizava trabalho de campo para minha dissertação de mestrado, quase fui fazer companhia a meu avô, naquele “lugar melhor”, ao ouvir que o assassinato dos judeus pelos nazistas, incluindo bebês recém-nascidos, era fruto de pecados neste ou noutro mundo. E Deus puniu a todos, perdoar pra quê, escreveu não leu, o pau comeu. Em ambos os casos, por culpa da educação recebida em casa, não respondi à altura os insultos.

Num pequeno texto, intitulado Abraão e Isaque, Luis Fernando Veríssimo imagina um diálogo entre pai e filho, em que o filho, magoado, questiona a submissão do pai e sua disposição de imolá-lo porque alguém ou algo mandou que assim procedesse. Um trecho do diálogo segue assim:

– O fio do cutelo encostou na minha garganta.

– Mas eu não o matei!

– Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

– Meu filho…

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

– O que eu sei?

– Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

– Ele estava me testando.

– Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

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1 pensou em “A difícil arte de ser ateu (via blog da revista espaço acadêmico)

  1. norma7

    Beto,
    Tive dificuldades em postar na pp página. :/
    Quote
    Professo (mais estudo e alguma pratica) um Budismo de uma vertente japonesa laica, já (muito) olhada de esguelha. “Mas você não crer em Deus, em Jesus, hein?”. “Tá limpo. Aparentemente, ele anda me retribuindo na mesma moeda…”, facilita o desenrolar da conversa. (Até que ponto o próprio Deus não é uma solução ex machina, isto é, uma ficção oportunista criada pelo homem para resolver os seus dilemas e problemas?)

    Vou passeado pelo seu texto, tentando não me influenciar, por sua qualificação acadêmica (lida primeiro, pois fui linkada pelo Blog BB a 24 quadros e queria saber quem conta o ‘causo’), quando trazes o Allen Stewart Konigsberg, vulgo W. Allen. Estou salva! O ‘mar’ se abriu e fez-se Lux ao lembrar-me de sua peça “Deus” e um belo posicionamento:

    “Para você eu sou ateu; para Deus eu sou a sua leal oposição.” – W.Allen, do filme “Memórias”

    Obrigada, foi um prazer lê-lo, Norma
    Unquote
    Bom finde para todos.

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