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Luiz Brito apresenta a exposição “Queimadas” em Porto Velho/RO

A exposição Queimadas pendura nas paredes do palácio do governo estadual de Rondônia imagens de 20 anos do trabalho do fotógrafo Luiz Brito. Lá estava ele: filho de uma mulher de 90 anos, que cresceu num seringal pra dentro desse rebolado de mato todo, na beira do Guaporé, rio que teima em se insinuar como uma sucuri enrolada em frondosas castanheiras, samaúmas, e terrenos alagados, que mais parecem cultivados por ciumentos jardineiros. Luiz sabe disso. A gente não falou de eleições, a gente não falou de poder, nem de esquerda e nem de direita. A gente falou de suas fotos, não de todas. A gente falou daquelas fotos. Contou-me ter chegado por centenas de vezes no dia seguinte às queimadas. A sola do pé estrondava de calor, a fumaça invadia as ventas, as vísceras ardiam. “É o horror!” ele me disse. “Parece um cemitério”. A imagem feito um radiofone. Dava pra escutar os gritos dos pássaros desesperados, voando, em chamas, deixando para trás seu ninho e a prole. Uma preguiça, que não morreu queimada, mas tentando atravessar um deserto sem água e sem alimento. Os rastros de pequenos animais, que já não existiam. As formas geométricas dos troncos abatidos pelo fogo e pela motoserra, se equilibrando uns sobre os outros. Isso tudo ele me contou. “É o horror”, ele repetiu. “São corpos. Estão incinerados”. Não duvidei. Lembrei do relato autobiográfico de Primo Levi, um homem que foi oprimido até o fundo num campo de concentração durante a segunda Guerra Mundial. Ali, a lógica rigorosa de humilhação, tortura e aniquilação se revela com tanta força, que já não é possível terminar a leitura sem ter sentido vergonha, e uma centena de náuseas. “Estão incinerados”, dizia-me Luiz. E a fumaça me invadiu.

Nicole Soares

queimadas

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A exposição acontece a partir do dia 3 de outubro, na Galeria do Edifício Pakaas Novas (térreo) , Palácio Rio Madeira em Porto Velho, capital de Rondônia. Queimadas em Rondônia. Uma realidade protagonizada pela ignorância e ganância de alguns que lucram com esta tragédia que mata sem piedade a vida. Uma das fotos da exposição, abaixo, em p & b processo analógico (filme) . Local do registro , municipio de Porto Velho