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Lembrando Lennon

por Ismael Machado

É natural que o passar do tempo nos remova de coisas que muito nos foram importantes ou até mesmo fundamentais na construção do que somos e pensamos. Novos interesses, novas encruzilhadas na vida. Hoje fui levado de volta a um tempo definitivo, a um momento crucial de minha existência. E dada as dificuldades da vida atual, com pandemias, crises econômicas e morais, com a luta pela sobrevivência física, mental, monetária, social sendo uma encarniçada batalha para não sucumbir, vi a foto de Paul McCartney e John Lennon, sentados lado a lado, rindo e debruçando-se sobre a letra de uma canção. Que canção seria? E fui lembrado então que hoje, se vivo estivesse, John Lennon estaria completando 80 anos. E, desculpem a tolice piegas, chorei. Talvez não pela lembrança de Lennon em si, mas pela minha própria. Pelos 13, 14 anos que um dia já tive e que me fizeram entender em plenitude a importância beatle na minha vida.
John Lennon foi assassinado dois dias antes de eu completar 14 anos. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que esse dia foi o ponto crucial para mudar minha experiência do viver. Percebi que aquelas canções estavam presentes em minha vida desde a mais tenra idade. Elas faziam parte do repertório de vida de minha única irmã e percorriam sulcos de vinis – compactos principalmente- de dois irmãos vizinhos, João e Jurandir. Ao me embrenhar nas histórias de John Lennon e dos Beatles, descobri um caminho a seguir. Fui abandonando aos poucos o interesse pelas festinhas de aparelhagem em quermesses de fim de semana e me debruçando com mais afinco ao rock. E isso me abriu portas para tanta coisa…mpb, teatro, cinema, amizades.
Minha irmã, que tanto amo, começa a enfrentar agruras de uma idade que começa a cobrar pedágio. Os amigos que conheci que também amavam Beatles e similares, muitos perdi de vista, na poeira do tempo e da distância. Não deixo de amá-los.
Decidi, enquanto as preocupações com a falta de dinheiro, com a ausência de trabalho, com a necessidade de terminar um projeto acadêmico que às vezes me soa sem sentido, ouvir John Lennon. E percebi o quanto há ali, naquelas canções, não tanto respostas, mas perguntas, as perguntas que sempre julguei necessárias. Há confissões e entrega. Uma sinceridade áspera. Do cara que se admite ciumento, possessivo e inseguro em Jealous Guy, ao que se diz cansado de políticos e suas mentiras, da hipocrisia das religiões e da insensibilidade da ganância do capital em Gimme Somme Truth. Há muitas canções que me tocam diretamente, como God, por exemplo, mas foi Working Classe Hero que me fez parar, suspender o momento, paralisar as ações e apenas ouvir a canção folk de protesto que poderia ter sido composta por Dylan, Joan Baez, Pete Seeger. E talvez nada seja mais completa para mim atualmente que essa canção. Nesse dia de hoje. E mais uma vez, agradeço a John Lennon. Feliz aniversário.
Herói da Classe Trabalhadora
Assim que você nasce eles te fazem se sentir pequeno/Não te dando tempo nenhum em vez disso tudo/Até que a dor é tão grande que você não sente mais nada/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Eles te machucam em casa e te batem na escola/Eles te odeiam se você é inteligente e desprezam um tolo/Até que você fica tão maluco que não consegue seguir as regras deles/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Depois que eles te torturam e te assustam por uns 20 anos estranhos/Então eles esperam que você escolha uma carreira/Quando você não consegue se encaixar você fica tão cheio de medo/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Eles te mantêm dopado com religião, sexo e TV/E você pensa que você é tão esperto, elitizado e livre/Mas você ainda é um camponês fodido pelo que eu vejo/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Há vaga no alto eles continuam te dizendo/Mas primeiro você precisa aprender a sorrir enquanto mata/Se você quer ser como os caras da montanha/Um Herói da classe trabalhadora é algo para ser/Se você quer ser um herói, bem, basta me seguir.