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O enredo desse samba

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Na reta final dos preparativos do Sambódromo Darcy Ribeiro, na Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro, para os desfiles do Grupo Especial é hora da benção e dos ajustes finais, neste domingo. A benção será dada, como em anos anteriores,  pelas baianas de todas as escolas. Elas lavam a pista com água de cheiro, abrem os caminhos com defumadores, distribuem palmas e arruda para a plateia embaladas por sambas de terreiro. Abrem o cortejo mestre-salas e porta-bandeiras trazendo os pavilhões das agremiações cariocas. No final, a imagem do protetor do Rio de Janeiro, São Sebastião.

Só essa cerimônia já vale a viagem até o centro da Cidade logo mais, mas a festa ainda guarda um evento esperado por todos. Depois que o povo do samba passar e dos testes finais de som e de luz, vem o ensaio técnico da escola campeã do ano anterior.

A Unidos da Tijuca, agora sem o carnavalesco Paulo Barros, fará o reconhecimento das condições finais da pista onde defenderá o enredo “Um conto marcado no tempo – o olhar suíço de Clóvis Bornay”, do departamento de carnaval composto por Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim, Marcus Paulo e Carlos Carvalho. Nas redes já há um viral da Nestlé com um trecho do samba e a visita de componentes da escola a fábrica de chocolates na… Suiça, indicando a origem patrocinada do tema.

Essa seria uma das razões da troca do carnavalesco Paulo Barros. ele deixou a escola do Borel após o campeonato sobre o piloto Aírton Senna. Na Mocidade Independente de Padre Miguel emplacou seu enredo autoral “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?”. Baseada na música de Paulinho Moska, a pergunta pode render um desfile que permita ao carnavalesco dar vazão a sua criatividade, questionada por quem vê em seus últimos carnavais a repetição de fórmulas de sucessos anteriores.

Quem também trocou de casa foi a campeoníssima Rosa Magalhães. Da Mangueira foi para a São Clemente e lá homenageará Fernando Pamplona, “pai dos carnavalescos” (levou Rosa e muitos outros talentos, como Joãozinho Trinta, para o mundo das escolas de samba), com o enredo “A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Perera, da Tocandira e da Onça de pé de boi” que começa no Acre e passeia pelo imaginário infantil e adulto do criador genial.

A verde e rosa vem com um enredo louvando sua própria comunidade. Cid Carvalho parte da força motriz do  morro de Mangueira e abre o leque, avisando: ”Agora chegou a vez vou cantar: mulher de Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar”

Outra referência ligada ao mundo do carnaval será feita pela Viradouro: “Nas Veias do Brasil, é a Viradouro em um Dia de Graça!” Dois sambas do compositor Luiz Carlos da Vila, “Nas veias do Brasil” e “Por um dia de Graça” são a base da sinopse criada por Milton Cunha e desenvolvida pelo  carnavalesco João Vitor Araújo para falar da negritude brasileira.

“Axé, Nkenda! Um ritual de liberdade e que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz” levará os componentes da Imperatriz do carnavalesco Cahê Rodrigues a uma viagem pela história da África, dos negros e dos preceitos de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando uma pessoa por sua cor de pele ou religião. Pessoas são ensinadas a odiar. E se elas aprendem a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”  A mesma linha abordada pela comissão de Carnaval da Beija- Flor: Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo, com o recorte que fala da Casa de Guiné e da reconstrução africana “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guina Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”. Tudo para superar o resultado do ano passado, cujo enredo sobre Boni, o  da televisão, deixou a azul e branca fora do desfile das campeãs, uma raridade.

Max Nunes tenta recuperar a Vila Isabel que passou um perrengue ano passado falando de Isaac Karabtchevsky “O maestro brasileiro na Terra de Noel…. tem partitura azul e branca da nossa Vila Isabel”

Em “A Grande Rio é do baralho” as cartas estão na mesa no enredo de Fábio Ricardo, para a escola de Duque de Caxias. No Salgueiro, Renato e Márcia Lage, fazem uma viagem pelo universo culinário mineiro com “Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí”.

A linha da irreverência é explorada por Alex de Souza, ao explicar os aspectos da beleza moderna na União da Ilha do Governador. É o enredo com o título mais sucinto do ano: “Beleza Pura”.  

Não poderia faltar uma ode aos 450 anos do Rio de Janeiro comemorados logo depois do carnaval, dia 1 de março. Alexandre Louzada apresenta a Cidade Maravilhosa sob perspectiva do surrealismo de  Salvador Dali no enredo “Imagina Rio, 450 janeiros de uma cidade surreal”. Não dá para negar a liga entre o local e o pintor espanhol, caminho escolhido pela Portela, para acabar com o jejum de títulos da escola de samba com o maior número de campeonatos da história do carnaval.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

É pra quem pode!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

“Eu sou Mangueira. Eu sou Mangueira sim. Eu sou Mangueira e meu amor nunca tem fim!” Assim bradam em alto e bom som, declarando seu amor pela verde e rosa, os integrantes da “Primeira Ala” e coração da tradicional escola de samba carioca. A bateria calou seus instrumentos. Seus componentes batem ritmicamente com os pés no asfalto quente da Marques de Sapucaí. Eles estão diante do Setor 1, a caminho das arquibancadas lotadas pelas torcidas que desfraldam bandeiras e estandartes e vão ao delírio com o grito uníssono e poderoso da rapaziada.

Até ali, resisti e tentei manter a imparcialidade necessária para realizar minhas tarefas na noite encalorada de ensaios técnicos. Primeiro, um registro da Mocidade Independente de Padre Miguel. Depois, desempenhar mais uma etapa da missão Carnaval 2015. Acompanhar a primeira entrada na Marques de Sapucaí, o templo do samba carioca, da Bateria da Mangueira sob o comando de seus jovens mestres: Vitor Art e Rodrigo Explosão. Junto com sua diretoria composta por Nielson Rei do Tamborim, Alex Explosão, Alexandre Marron, Reinaldo Nenem, Jaguara Filho, Maurício Macalé, Taranta Neto e Biraney, eles dirigem pela primeira vez o importante segmento mangueirense. São conhecidos como “Os Meninos da Mangueira”.

Estou com eles desde que assumiram o comando da bateria e, posso dizer, todos os nossos encontros foram pra lá de prazeirosos. A cada etapa do trabalho de registro que estamos fazendo juntos novas descobertas, emoção e ângulos inusitados a explorar.

Era a estreia deles e a minha também. Há uns anos atrás tive o prazer de fotografar dentro da bateria da Vila Isabel, no desfile das Campeãs. “Ô mulher compadre chegou! Pega o banco e vem prosear. Bota água no feijão…” O clima era de alegria e descontração na comemoração do título conquistado. Também tirei uma casquinha com Mestre Aílton na verde e rosa, mas só no esquenta. Agora, a “vibe” era outra…

Desde cedo acompanhei a montagem do grid dos instrumentos, os ritmistas chegando a concentração. Foi lá que os meninos se reuniram depois de organizar a Primeira Ala. Uma conversa final, mãos apertadas durante a oração do Pai Nosso e abraços, muitos abraços apertados de boa sorte.

Por opção do Mestre Vitor Art da concentração, do lado do Balança Mas não Cai,  emburacaram direto pela armação. Só pararam, silenciando os instrumentos,  para fazer sua declaração de amor diante do setor 1. E ele veio abaixo enquanto a bateria entrava na área do desfile e seguia em frente, apresentada por Evelyn, a rainha de bateria, até as torcidas organizadas para avisar: “Chegou, ooô, a Mangueira chegooou”, deixando claras as mais sinceras intenções dos Meninos da Mangueira: “Vamos fazer um carnaval legal, sambar é nossa tradição, cuidado que a Mangueira vem aí. É bom se segurar, que a poeira vai subir!” De lá, deram meia volta e entraram no primeiro recuo. O desafio inicial havia sido superado. Faltava o prato principal…

Quando comecei a editar as fotos, deu pra notar a tensão e a seriedade dos primeiros minutos da apresentação sendo substituídas pela sensação de conquista, a afirmação e, finalmente, a explosão de alegria, na dispersão, ao som do samba que canta o enredo “Mulher de Mangueira, Mulher Brasileira em Primeiro Lugar”, do carnavalesco Cid Carvalho.   

Juntos, os Meninos da Mangueira, sonharam, cresceram, aprenderam, planejaram e chegam a Apoteose levados pela música e pelo entrosamento que só a amizade e o entendimento podem alcançar. Vitor Art é o mais novo Mestre de Bateria do Grupo Especial. Junto com Rodrigo Explosão e outros 250 ritmistas eles vão ter muitas histórias. Elas serão contadas para os próximos meninos que virão. Afinal, é tradição na verde e rosa: só quem é da comunidade tem autoridade para conduzir a Primeira Ala, aquela que todo mundo tem que respeitar!

Graças a eles, voltei ao tempo da esperança. Cheia de orgulho, me senti, também, uma menina. Da Mangueira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com