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Arquitetura em Porto Velho

Por Giovani Barcelos

A arquitetura de Porto Velho merece uma discussão mais aprofundada, pois mistura estilos americano, inglês, europeu e, claro, local, com suas características vernaculares riquíssimas. Faço aqui uma colocação bem superficial, devendo ser aprofundada com tempo.
A arquitetura de Porto Velho começou o seu caminho com a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Construções em madeira, adaptadas ao clima da região, fazem parte das primeiras imagens da cidade, somando-se a construções efêmeras executadas para dar suporte à construção da linha férrea. No meu entender, de alguém que mora aqui há pouco tempo, sem as láureas de muitos que tratam disso, é a principal referência de arquitetura local, somando-se aos ribeirinhos, com suas casas também em madeira totalmente adaptadas ao local.
Depois desse momento, mais local e adaptado à região, temos os estilos tardios que construíram a imagem arquitetônica que a maioria tem da cidade. Chamo de estilos tardios, pois quando chegam aqui no século XX, já não são mais os estilos utilizados nos locais que servem de imagem aos que aqui chegam. Nesse conjunto, destaco os prédios com referências neoclássicas e ecléticas. Ainda fazem parte dos estilos utilizados no Brasil no século XX o neocolonial, ainda guardando as raízes da colonização brasileira e sendo um dos estilos utilizados por Lúcio Costa antes de aderir as linhas modernas. Anterior ao modernismo temos o Art Decó (presentes em prédios na Av. Sete de Setembro) e o Protomodernismo (que observamos no Prédio do Relógio e na Escola Carmela Dutra).
A arquitetura contemporânea em Porto Velho não possui uma linha de elementos que possam caracterizá-la. Existem construções que seguem modismos com fachadas envidraçadas, inclusive voltadas para o oeste, bem como edificações que já estariam prontas, mas o profissional insiste em encher de elementos, enfim, exageros. Gosto da arquitetura residencial produzida aqui, pois mescla soluções que se adequam à região. Os conjuntos habitacionais, assim como em outras cidades, se proliferam, onde a quantidade não é acompanhada pela qualidade.
A fase mais rica que considero da arquitetura Portovelhense refere-se ao período associado a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, mas é uma discussão para outra oportunidade.

A história do piso de caquinhos das casas paulistas (via Biblioteca da FAU-USP))

Pode algo quebrado valer mais que a peça inteira? Aparentemente não. Mas no Brasil já aconteceu isto, talvez pela primeira vez na história da humanidade. Vamos contar esse mistério.
Foi na década de 40 / 50 do século passado. Voltemos a esse tempo. A cidade de São Paulo era servida por duas indústrias cerâmicas principais. Um dos produtos dessas cerâmicas era um tipo de lajota cerâmica quadrada (algo como 20x20cm) composta por quatro quadrados iguais. Essas lajotas eram produzidas nas cores vermelha (a mais comum e mais barata), amarela e preta. Era usada para piso de residências de classe média ou comércio.

Foto: Mika Lins

No processo industrial da época, sem maiores preocupações com qualidade, aconteciam muitas quebras e esse material quebrado sem interesse econômico era juntado e enterrado em grandes buracos.

Nessa época os chamados lotes operários na Grande São Paulo eram de 10x30m ou no mínimo 8 x 25m, ou seja, eram lotes com área para jardim e quintal, jardins e quintais revestidos até então com cimentado, com sua monótona cor cinza. Mas os operários não tinham dinheiro para comprar lajotas cerâmicas que eles mesmo produziam e com isso cimentar era a regra.

Certo dia, um dos empregados de uma das cerâmicas e que estava terminando sua casa não tinha dinheiro para comprar o cimento para cimentar todo o seu terreno e lembrou do refugo da fábrica, caminhões e caminhões por dia que levavam esse refugo para ser enterrado num terreno abandonado perto da fábrica. O empregado pediu que ele pudesse recolher parte do refugo e usar na pavimentação do terreno de sua nova casa. Claro que a cerâmica topou na hora e ainda deu o transporte de graça pois com o uso do refugo deixava de gastar dinheiro com a disposição.

Agora a história começa a mudar por uma coisa linda que se chama arte. A maior parte do refugo recebida pelo empregado era de cacos cerâmicos vermelhos mas havia cacos amarelos e pretos também. O operário ao assentar os cacos cerâmicos fez inserir aqui e ali cacos pretos e amarelos quebrando a monotonia do vermelho contínuo. É, a entrada da casa do simples operário ficou bonitinha e gerou comentários dos vizinhos também trabalhadores da fábrica. Ai o assunto pegou fogo e todos começaram a pedir caquinhos o que a cerâmica adorou pois parte, pequena é verdade, do seu refugo começou a ter uso e sua disposição ser menos onerosa.

Mas o belo é contagiante e a solução começou a virar moda em geral e até jornais noticiavam a nova mania paulistana. A classe média adotou a solução do caquinho cerâmico vermelho com inclusões pretas e amarelas. Como a procura começou a crescer a diretoria comercial de uma das cerâmicas descobriu ali uma fonte de renda e passou a vender, a preços módicos é claro pois refugo é refugo, os cacos cerâmicos. O preço do metro quadrado do caquinho cerâmico era da ordem de 30% do caco integro (caco de boa família).

Até aqui esta historieta é racional e lógica pois refugo é refugo e material principal é material principal. Mas não contaram isso para os paulistanos e a onda do caquinho cerâmico cresceu e cresceu e cresceu e , acreditem quem quiser, começou a faltar caquinho cerâmico que começou a ser tão valioso como a peça integra e impoluta. Ah o mercado com suas leis ilógicas mas implacáveis.

Aconteceu o inacreditável. Na falta de caco as peças inteiras começaram a ser quebradas pela própria cerâmica. E é claro que os caquinhos subiram de preço ou seja o metro quadrado do refugo era mais caro que o metro quadrado da peça inteira… A desculpa para o irracional (!) era o custo industrial da operação de quebra, embora ninguém tenha descontado desse custo a perda industrial que gerara o problema ou melhor que gerara a febre do caquinho cerâmico.

De um produto economicamente negativo passou a um produto sem valor comercial a um produto com algum valor comercial até ao refugo valer mais que o produto original de boa família…

A história termina nos anos sessenta com o surgimento dos prédios em condomínio e a classe média que usava esse caquinho foi para esses prédios e a classe mais simples ou passou a ter lotes menores (4 x15m) ou foram morar em favelas.

São histórias da vida que precisam ser contadas para no mínimo se dizer:
– A arte cria o belo, e o marketing tenta explicar o mistério da peça quebrada valer mais que a peça inteira

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Projeto Casa Flutuante Vitória Régia

por Nadja Irina Cernov de Oliveira Siqueira 

A casa flutuante é hoje considerada uma opção atraente na maioria dos países desenvolvidos, quer por cultura, por absoluta falta de terra para construir, ou mesmo por simples modernismos. No Brasil, a visão ainda é preconceituosa, sendo considerada como uma moradia provisória ou último recurso, assim como os barracos nas favelas. A casa flutuante tem seus atrativos, sendo o maior deles sua mobilidade e seu custo, pois a ausência de gastos com terrenos e impostos já são em si um bom fator de decisão por sua construção. E um conceito mais moderno pode definitivamente tirar o estigma de casa precária. Para sua eficiência, materiais modernos e a adoção de conceitos de sustentabilidade e ecologia a tornam ainda mais atraente, o que pode contribuir não somente para a conquista de novos adeptos como para garantir um financiamento social. É claro que, com a abundância de solo no Brasil, o poder público não considera a construção de moradia sobre a água uma opção atraente, principalmente porque os impostos são pequenos. Ocorre que a casa flutuante é a maneira ideal de se morar para os pescadores na região norte, especialmente os que utilizam os chamados tanques-rede. Eles podem residir no mesmo ambiente em que trabalham, não teriam custos de transportes, e sua presença na água não seria considerada inoportuna para as espécies nativas, não gerando poluição. Quando um agrupamento de pescadores forem suficientes para atender uma demanda, eles podem, a custos baixos e em regime de mutirão, construir uma plataforma que sirvam para processar e congelar os peixes, diminuindo os custos ainda mais. Poderia assim ser considerada como um estímulo à produção de peixes no Brasil, tanto para consumo interno como para exportação. O projeto completo você pode ver aqui, em PDF  > CASA VITORIA REGIA