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Uma carta de amor – ao lume de certos escritos, extraídos da pátria facebook

Por Altair Santos (Tatá)

Alzerina Souza (nome fictício) é uma cidadã simples, de português elementar, domínio gramatical diminuto. Carrega consigo a insígnia e fama de ser consumidora inveterada do produto virtual facebook. Lá conforme o seu poderio e alcance ela interage Infalivelmente compartilhando, seguindo, curtindo e comentando. No popular, ela deita e rola! Num dia desses resolveu fazer diferente e recorreu ao velho mecanismo de escrever e mandar uma carta. Casada com Rogério, também muito simples e igualmente de formação mínima, o marido assim como a esposa, é pessoa do bem, muito espirituoso embora, neste caso, tenha ele rompido a barreira da calmaria e chutado o pau da barraca. Na carta o endereço assinalado por Alzerina foi justo o de sua residência, o destinatário da missiva, nada menos do que Rogério, seu esposo. Na mensagem um convite para um passeio, no dia dos namorados. Lindo, não? Então, flores, canções, poesias e muito amor a este e a todos os casais enamorados, no 12 de junho que se aproxima. Felicitações prévias, à parte, ao chamado do carteiro Rogério corre para atender. Antes de abrir o envelope, ainda na leitura do endereçamento, uma pequena amostra do conteúdo que esconde nítidas “mal traçadas linhas”. Certa dúvida e, um breve disse me disse, entre os dois, expôs a dificuldade inicial logo na identificação do seu próprio nome, quase o levando a recusar o documento, mas não o fez. Cidadão nascido e batizado como Rogério Alberto Azevedo de Assunção, o moço quase dá um “chilique” e cai de costas. Meio que fora de si, o zonzo amparou-se no ombro do trabalhador dos correios, que nada entendia. Incrédulo fitou o escrito externo daquele envelope pardo e balançava a cabeça em sinal de negação passando, repetidamente, as vistas, no seu nome aposto na parte contrária ao lacre, onde ele passou a chamar-se Rojério Auberto de Açumção. De imediato fez-se mudo, inerte, boquiaberto, leso, bilé da cuca! Tentando ler, entender e se reconhecer, com o seu nome de um jeito nunca antes grafado, viu o mensageiro, intrigado, virar as costas e zarpar, deixando Rogério só, sem estrutura no campo da solidão. Visivelmente abalado, fez os passos do portão até a sala levando enorme peso nos ombros e uma torturante indefinição, das maiores, até então vividas. Aquele senhor e sabedor de si mesmo era, agora, um re-nominado indeciso, cuja certeza da identidade lhe fugiu. Prostrado no sofá, possuído de dúvida cruel, inflado em insegurança olhou pros lados e, sem ninguém por perto, sacou a carteira do bolso e checou no Rg, no CPF, na CNH e no reservista, como querendo tirar a limpo! Refletiu que há mais de 10 anos, sem estímulo e vontade nenhuma, não lia e nem escrevia sequer um bilhete e, agora, tinha nas mãos uma correspondência, com seu nome às avessas. Não contente correu pro quarto puxou uma velha pasta de cima do guarda-roupa espalhou papéis no chão e achou a cópia da certidão de nascimento, a certidão de batismo (batistério), o boletim escolar e fez ali, uma acareação documental que, ao final, não lhe confortou. Temendo pelo pior, foi no espelho, olhou-se detidamente numa imagem pálida, que lhe refletia também um traço fisionômico intranqüilo. Mas não cedeu! Fez um face a face consigo mesmo tentando dirimir a dúvida, desfazer-se do medo e descobrir-se de vez entre o “Rogério” e o “Rojério”! De cara pensou pedir ajuda, mas logo retrocedeu! Aquela parada era pra ele mesmo resolver! Já suando frio, sentou à mesa para, de uma vez por todas, desvendar aquilo. Incerto, se abria ou não o envelope e com o cérebro feito vulcão, pronto a cuspir lavas, o cara franziu a testa, “mordeu os beiço” esmurrou a mesa e abriu com descuido o lacre feito com bastante goma. Começava a se irritar! Do interior do envelope puxou uma folha de papel dobrada ao meio. Corajosamente, agora destemido e macho pra mais de mil, foi direto ao assunto quando, outro susto, quase faz desmoronar de vez o enfurecido Rogério. O teor da carta, uma escrita longe de sua interpretação, impossível ao seu cotidiano, linhas não afeitas ao seu potencial e alcance literário, quase lhe leva ao desmaio, ao piripaque! Perdido em pensamentos concluiu que aquilo exigia a presença e ajuda superior, o auxílio maior de um tradutor. Entender aquilo só mesmo na companhia de um poliglota ou um especialista em línguas remotas, quase perdidas, dialetos extintos. Totalmente desconcertado, impotente e sem ter como avançar no texto, as reservas de paciência se esgotaram. Rogério emputeceu de vez! Pra lá de injuriado vestiu o manto da paciência zero e, fulo da vida, soltou um grito aterrador que fora ouvido, além de sua casa, em toda a vizinhança. Filho da puuuttttaaa! Pôrrrraaaaa! Quem é o puto desse gringo escroto que escreve e manda essa merda? E que língua é essa, é latim, é inglês, francês, espanhol, ou é a língua dos trópicos? É o vocabulário de marte ou é a fala de Mãe Joana? Via-se dali então, um Rogério furioso, encolerizado, à beira de um ataque de nervos, um touro indomável. Ainda aos brados, chamou em socorro a mulher e o filho: Alzerina, Charles, cadê vocês? Corram aqui! Pôrraaa venham logo! Dirigindo-se aos dois, em visível descontrole, o irado reclamou, vejam isso! O baitola dum estrangeiro mandou uma carta que só pode ser do país da mãe dele, não entendi uma só palavra, nunca vi um escrito desses nem no puteiro! Se eu pego esse amaldiçoado ele ia se f… comigo, ia aprender o português era na porrada! E agora o que faço com isso? Hein, o que faço! Atenciosa a esposa pegou a carta leu, reconheceu ser a sua e disse com muito jeito: meu amor essa fui eu que lhe escrevi, é um convite pro dia dos namorados. Leia com atenção, tenha calma, pode soletrar se quiser… Fez-se um breve silêncio! Agora em posição de estátua, imóvel ante a revelação da remetente ao destinatário, Rogério ou Rojério, era a tradução e resposta viva do infortúnio gramatical. Acometido de momentânea paralisia disse a si mesmo, em sussurro: cacete, e eu lá sabia que ela entende outra língua! Abaixo o teor da singela correspondência de Alzerina Souza ao seu amado Rogério. Quirido e amado Rojerio, No procimo dia 12 de junio vai ser um dia muito felis, é o dia dos namorados, vamos fazer uma comemorasão! Resseba esti comviti apaichonado, pragenti irmos comê uma pitça goztoza e toma unz xopis bein jeladin. Seu prezente é uma sur prezinha. Nesse dia, naum isqueça de pasar na loucadora, o noço filho Xarlis vai ficar na caza da vó acistindo um fiume de fiksão sientista. Não presiza mandar flor, bazta a sua prezencia au meu lado. Com amor e emossão, A çua Auzerina Solza! Mais tarde saindo pro trabalho, ainda abatido pelo drama e agonia lingüística, Rogério é abordado pela carinhosa esposa que se despede lhe beijando o rosto e enfiando no bolso da camisa um bilhete. Já no trabalho, lança mão do escrito e tenta: Mel amor, cei que a vida naum é facio, maz não fique açim xatiado, afnal tantu faiz comu tantu feiz! Voçe é um pessoa boua que não tem enveja de ninguém e meresi ser muito felis. Goztou ou naum goztou? Bejo da çua, Auzerina Solza!

O autor é músico e produtor cultural tatadeportovelho@gmail.com

A nova FESEC

Por Altair Santos (Tatá)

Em meio ao frisson da hora, o pleito eleitoral do dia 3 de outubro, a Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas – FESEC fez a sua eleição no último sábado e elegeu o professor e artista plástico Ariel Argobe, o novo Presidente. Para fechar consenso sobre o nome do eleito, as escolas tiveram que sentar à mesa e promover um debate sobre a instituição, a sua realidade e os seus rumos. O Ariel também é do ramo. É carnavalesco e traz na sua linha de conduta o forte interesse em promover o trabalho das escolas para além da simples apresentação na passarela do samba. Entendemos também que assim deve ser. Entretanto, para cumprir metas e objetivos à frente da instituição, a nova diretoria precisa mergulhar nas águas da re-engenharia e discutir, repensar, projetar e atualizar a FESEC. Escola de samba deve e merece espraiar o seu raio de atuação para horizontes além do asfalto da avenida ao som da bateria e sob o brilho das fantasias para exibir o seu lume noutros campos, contextualizando melhor a sua existência. É a vida e seu dinamismo. Ela (a escola de samba) deve trabalhar a sua inserção no contexto comunitário e lá, no seu espaço, promover ações que animem crianças, jovens e adultos, conquistando-os à participação. Faz-se o ponto, criar-se a identidade. Isso é interatividade. Não mais cabe no processo cotidiano da efervescente e acelerada Porto Velho de hoje, Escolas de Samba nômades de si mesmas, ou seja: desfilam na avenida e residem onde mesmo? Um exemplo disso é a atual bicampeã do carnaval local, a Diplomatas do Samba que, do alto dos seus 50 anos de existência, muitos títulos e glórias, ainda não têm residência fixa. Talvez nenhuma das nossas agremiações de carnaval tenha concorrido no Edital dos Pontos de Cultura do Governo Federal que recentemente contemplou grupos folclóricos e de teatro, dentre outros, em todo o estado. Nada pejorativo mas, algumas escolas, ainda estão sediadas na residência ou nas pastas dos seus próprios presidentes e diretores.  Os novos enunciados culturais nacionais que advém dos órgãos de cultura (MINC e seus tentáculos), associam a linha da produção cultural ao campo da inclusão social, da valorização das comunidades e da mão-de-obra lá existente, fortalecendo a economia da cultura, re-paginando e qualificando a produção artística e versando em favor do dueto cidadão/cidadania. Escola de samba antes de ser braço social é berço. De lá, convém, entoar novos cânticos de enredo para a remodelação da FESEC e suas afiliadas pelas vias de novos e audazes projetos. As escolas de samba têm história e seus currículos lhes credenciam a alçar novos vôos. O inquieto Ariel que conhecemos haverá sim de discutir com seus pares de diretoria, os novos traços fisionômicos e jurídicos para o carnaval local primando pelos contidos da autogestão, encampando uma política de ação onde, o repasse de recuso público para as agremiações seja apenas um, dentre os tantos itens de interesse e o velho livro de ouro uma peça a contar o passado cadenciado pelo rufar do surdo e colagem da lantejoula no estandarte. Parabéns e força Ariel.