Morre o ator Adam West, o eterno Batman

Adam West, ator que interpretou o super-herói Batman na clássica série de TV americana, entre 1966 e 1968, morreu nesta sexta (9), aos 88 anos após lutar contra uma leucemia.

A notícia foi divulgada por meio de um comunicado de parentes do ator, publicado no site da revista “Variety” neste sábado (10).

Retrocesso em São Paulo : prefeito Dória apaga mais duas ciclovias

Após apagar a ciclofaixa da Rua Amarilis, a gestão atual, agora, apagou as estruturas da rua Curuçá, na Vila Maria e da Rua Silva Pinto, no Bom Retiro.

No caso da primeira, o trecho coberto possui a extensão de um quarteirão, entre a Rua Guaranésia e a Praça Santo Eduardo. O local servia, principalmente, aos deslocamentos de ida e retorno do trabalho.

Na ciclovia localizada no bairro do Bom Retiro, a parte próxima à Rua Anhaia foi fresada e recapeada, com o asfalto novo enterrando os tachões refletores. A estrutura era utilizada tanto pelos moradores da região quanto por entregadores de comércios do local.

com Bikeélegal.com

Vão de céu

Texto e foto de Valéria del Cueto

Abriu as cortinas. Seu olhar escalou janelas e aberturas de serviço da babel arquitetônica de salas, quartos, cozinhas, elevadores e escadas. Ia em direção a cor do céu e o brilho dos raios solares rebatidos nos últimos andares do quadrado que emoldurava o vão. Azul profundo e amarelo alegre. Tudo mais que perfeito para uma vibração praiana, sem o fog que havia baixado nos dias anteriores.

Caderninho na mão e mil ideias na cabeça lá se foi em direção ao mar. Camisa branca de mangas compridas e bermuda. Para não se enganar com o frescor no final da tarde que, já sabia, estava caindo cedo. Tudo, menos facilitar a chegada de um resfriado ou gripe.

Do arvoredo que sombreia a subida em direção ao Arpoador, atravessando o Parque Garota de Ipanema, é um pouco mais que um pulo grande. Similar a um despetalar de problemas, um aprumar de coluna vertebral, a respiração se aprofundando de acordo com o ritmo harmônico dos passos.

Primeiro com interrupções aleatórias nos sinais e esquinas, depois com a entrada nas alamedas da área verde. Tudo para o grand finalle. A passagem pelos portões em direção da praia, mar e o vasto horizonte.

Depois, é abrir o peito, respirar bem fundo e deixar a brisa marinha encher cada alvéolo pulmonar. Uma delícia interior que se adequa perfeitamente ao visual circundante. Circundante mesmo. Tipo 360 graus. Com opções para todos os gostos.

O ritual começa por uma fiscalizada nas condições da areia, seu relevo e extensão no canto do Arpoador. Há pouco espaço para ocupar junto a murada, com direito a falésia para alcançar a água. Dá para ver pedras faz pouco encobertas pela areia de uma maré distante.

Não há surfistas no mar ali no canto. Muito baixo para grandes aventuras. Mas as bandeiras vermelhas se agitam em intervalos na areia. Só de olhar o movimento da água dá para ver que o mar está puxando, traiçoeiro.

O que leva a uma caminhada rumo a Praça Millor. Acesso à Praia do Diabo do outro lado da Ponta do Arpoador. Lá sim, mar alto e surfistas deslizando no topo das ondas. Nem pensar em se aventurar quem não é PHD nas manhas do pedaço. Só profissional para cair para os lados do Forte de Copacabana onde estão os melhores picos. Na também pouca areia do Diabo, os personagens de sempre. Jogadores de frescobol, o pessoal expert no slackline, vulgo corda bamba…

Sintonia, com alegria. Essa é a essência para aproveitar tanta beleza. Só que nem sempre ela chega de estalo. É preciso aguçar os sentidos, um a um.

Depois da respiração e de limpar a visão é hora de deixar o mantra do mar e do vento embalarem seu pensamento. Passo seguinte: se largar na areia e se entregar ao prazer do calor do sol sobre a pele.

Para isso, o ideal é estender a canga num ponto em que seja possível se perder em distrações como os albatrozes que passeiam pelo céu ou o reflexo que desenha uma sombra peculiar na fina lâmina da marola que se recolhe, retrocedendo para o mar.

É chegado o momento sublime de tirar o caderninho e traduzir em palavras a sensação de gratidão por – ainda – conseguir se despir do estado de alerta geral dominante e abrir o verbo para descrever o dia espetacular que embala nosso pequeno paraíso em meio a terra desolada.

Mergulha a mão na mochila em busca do único instrumento necessário para curar os males do seu mundo. Adia os planos quando descobre que, apesar de tanto tudo, lhe falta o essencial. Cadê a caneta???

Conta até três. Relaxa. E aproveita. Desiste da crônica escrita e se dedica a fotografar a vida. Se chegou até ali, foi para ampliar seu vão de céu…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A força

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quero vagabundear. É isso que preciso fazer para encontrar um distanciamento adequado e precavido dos acontecimentos do entorno. Sério.

Olha para o chão e é a aventura de morar no Rio de Janeiro. Tá danado. É tiro para todo lado. Literalmente. Aqui, ali, lá e acolá.  

Olha para o céu e o que temos no horizonte? Esse imenso Brasil e suas inimagináveis e praticamente inenarráveis contradições.

Como driblar o estresse nosso de cada dia? Não, não dá mais para andar despreocupada, olhando a vida passar. Há perigo na esquina. Nessa mesmo. Na outra também.

Está na hora de vagar e bundear.

Na guerra, há que saber a hora de observar. A distância. Especialmente se os movimentos são tantos e tão inesperados que não há tempo hábil para uma análise aprofundada das causas e consequências dos fatos que se desenrolam aos borbotões.

Respirar fundo. Limpar o pensamento. Despir os pré-conceitos. Selecionar os ingredientes antes de picar, botar o conteúdo no liquidificador e tentar fazer algo saudável do mix incrementado. Tá difícil.

Tentei me mover para lá, não deu. Parti para outra opção. Está enrolado, amarrado. Mas vai sair.

Enquanto não sei para onde vou, nem quais das Valérias sairão para brincar por aí, a solução é ir mergulhando na sempre disponível (graças a Deus) imaginação. Sozinha ela já nos levava a qualquer lugar. Agora, com um computador e o mundo nas mãos, as possibilidades são infinitas.

Não que as coisas andem muito melhores nesse mundão de Deus. Com homem bomba se explodindo na entrada de show de cantora adolescente, precisa mais o que?

Botar a boca, como dizem os gaúchos. No mais claro sentido da expressão. E é isso que marca o calendário desse domingo carioca. Voltamos ao ponto de origem. Rio de Janeiro, cidade 40 graus…

A busca prossegue. Por favor, um vagabundear positivo, criativo para animar a crônica. E eis que do passado remoto (!) surge o fato redentor. Aquele que te tira do lugar e desloca para uma outra dimensão…  

Meninos eu vi. Morram de inveja. Passou diante dos meus olhos arregalados e sedentos das imagens futuristas que se desenrolavam na tela. Estive lá. Falo do lançamento de Star Wars há 40 anos atrás!

A vida vai passando e numa hora ou na outra as contas parecem ficar muito grandes. Sorte que sempre parece que foi ontem.

“Te conheço desde que cheguei em Cuiabá, fazendo uma matéria sobre garimpo!”

Ops, de 1984 para hoje lá se vão uns 33 anos, a idade de Cristo! Jesus me abana.

“Quando assisti minha primeira Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a décima…” Putz, foi em 1980. Aí meu nem tão santo César Passarinho!

Entre essa época e o agora tem um monte de décadas de eventos e aventuras que se aproximam quando a gente tem o poder de “chamar” a imaginação. Algumas coisas fazem isso acontecer mais facilmente, profundamente.

Um exemplo? A trilha sonora de Star Wars, de John Williams. Quem tem uma saga para acompanhar na vida, sabe, nas primeiras notas, que pode ter a Força. E que sim, ela pode estar ao seu lado quando mais precisa e menos espera…

Eis o link para a viagem musical. Que a Força esteja com você! https://youtu.be/Nz6H_pm_isw

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Inferno na “casinha de Deus”: dois padres estupravam crianças surdas ajudados por uma freira

Eram crianças, surdas e muito pobres. As vítimas ideais. Foi fácil convencê-las a não contar nada. E se contassem, como aconteceu com algumas, ninguém iria acreditar nelas. Ainda hoje, com vinte e poucos anos, surpreendem advogados e promotores pelos rostos de terror que fazem em rodadas de reconhecimento quando veem o padre Corradi, de 82 anos. Colocam a mão na boca e fecham o punho. Ainda têm medo mesmo com ele na cadeia. São as crianças do Provolo de Mendoza (oeste da Argentina), um instituto para surdos onde foram cometidos abusos sexuais de todos os tipos durante anos contra menores, inclusive de cinco anos. Realizados principalmente por sacerdotes, às vezes com a ajuda de uma freira que testava meninas e meninos para encontrar os mais fracos e entregá-los aos sacerdotes.

Aqueles que resistiam, se salvavam. Os que eram submissos acabavam sendo abusados

Há seis pessoas detidas e o centro foi fechado em dezembro. Nem a Igreja tem coragem de negar o que acontecia lá dentro. Os estupros e as humilhações de todo tipo – uma adolescente denuncia que foi acorrentada e abusada por quatro pessoas ao mesmo tempo – quase sempre aconteciam em um sótão, em uma sala que chamavam de “a casinha de Deus”. A polícia encontrou as correntes e material pornográfico. “Ao subir as escadas em uma inspeção, uma vítima apontou uma imagem da Virgem e disse: ‘Sempre que passava por aqui, a freira malvada fazia o sinal da cruz’. Como podia ser tão hipócrita?”, pergunta o promotor do caso, Gustavo Stroppiana, que tem problemas para dormir à noite – tem filhos pequenos – depois das coisas que ouviu na investigação. A freira foi presa esta semana pelas provas encontradas.

Leia matéria completa em El País

É sério ?

Texto e foto de Valéria del Cueto

É praia, é mar, é dia, é Rio. Tudo substantivo perfeito se não fossem… os adjetivos que acompanham. É praia xoxa, é mar gelado, é dia nublado. É Rio…

Só rindo para sobreviver. Sorte que sempre há razões para ele, o riso…

No meio a tantos acontecimentos e ventos, mais uma vez, vem do carnaval o enredo que nos faz dar risada da própria (des)graça. E mistura tudo: celebridades, política, carnaval…

Finalmente chegamos a 2018. Demorou mas conseguimos dobrar o cabo da Boa Esperança e partir para a preparação da próxima folia. E foi aí, já na fase de definições dos enredos, que despontou um saboroso imbróglio momesco da nova temporada.

Diz a lenda que algumas agremiações foram sondadas, vamos dizer assim, para serem premiadas com um polpudo (e nada desprezível) aporte de 6 milhões de reais caso aceitasse desenvolver seu carnaval exaltando uma incrível e imprescindível personalidade nacional, o apresentador global Luciano Huck!

Segundo a imprensa especializada as escolas de samba do grupo de elite do carnaval carioca procuradas para tal empreita foram o Salgueiro e a Estação Primeira de Mangueira.

Afinal, o que o Huck tem a ver com o carnaval do Rio de Janeiro, além de ser o promotor do concurso que elege todos os anos a Musa do Caldeirão?

Não pescou? Acontece que o mauricinho paulista tem pretensões (altas, diga-se de passagem) de se lançar no pleito eleitoral do ano que vem. Nada como uma over exposição planetária, embalada por um samba exaltação conduzido por uma bateria nota 10, tendo como coadjuvantes destaques, passistas e componentes de uma agremiação tradicional carnavalesca, para consolidar e amplificar a imagem do espevitado futuro “novo” na política brasileira.

Os ecos dessa oferta reverberaram nos meios de comunicação. Logicamente não apenas entre os ligados a festa carioca.

Com o vazamento das recusas das duas agremiações, a assessoria do apresentador negou a iniciativa. Informou que ele foi procurado por um compositor, uns três ou quatro meses atrás, que queria escrever um samba-enredo sobre ele e oferecer para as escolas. Luciano não aceitou. Algumas publicações abriram aspas: “Usaram meu nome indevidamente”. É claro que tal informação só veio a público após as recusas, não quando ainda havia “diálogo” entre as partes.

Por um lado, diante da crise instalada no carnaval carioca alguns anos antes da quebradeira geral brasileira(desde 2013 os grandes eventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, que aconteceram no Rio e no país, disputam centavo a centavo as verbas de patrocínios com o carnaval), deve ser aplaudido o negaceio a uma “bufunfa” garantida e a mega/hiper/exposição que teria a escola do filho dileto da Globo, detentora dos direitos de transmissão do evento.

As agremiações sondadas devem ter feito um balanço das perdas e danos, inclusive o desgaste na imagem, por sucumbir ao “l´argent” e incluir no seu histórico de enredos um tema tão relevante, original e, cá para nós, rico em significado cultural.

Por outro lado, a reação do pretendente à negativa, jogando a responsabilidade para terceiros, já nos mostra que uma lição da política ele aprendeu e aplica direitinho. Quando nas cordas, apele para a infalível versão do “eu não sabia”. É quase lona, mas fica a dúvida.

É sério? Pela cabeça de quem passaria um enredo desses nas comemorações dos 90 anos da verde e rosa, a Estação Primeira de Mangueira?

Mas… como o samba é generoso apareceu na rede um presente de consolação. O “clip” do samba exaltação ao evento não consolidado. Eis a obra:

Na aristocracia desponta um nariz descomunal

Com vontade de se enfiar no pleito eleitoral

És abastado,  dotado de milhões

O Brasil vai entrar na linha com o pai da Tiazinha

Firma o batuque que eu pago um duque,

Luciano Hulk…

Sou play boy, mas e daí?

Trago comigo o faz-me rir

Para quem me levar para Sapucaí!

(#marcheiros) https://youtu.be/yh7Yzx0bfNU

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A última sopa (lá no Arapuca)

Por Altair Santos (Tatá)

Aos pavios primeiros dos luminosos de 80, quando aqui abundavam aventureiros atrás de minas de ouro se entregando febris e obstinados à cata e comercialização do cobiçado metal extraído nos garimpos do Madeira, a cidade vivia um otimista frenesi financeiro onde até desempregado e vagal andava forrado, esbanjando saúde monetária e cachorro “pirento,” sem dono, enjeitava contrafilé no almoço.

As avenidas Nações Unidas e Jorge Teixeira, esta ex Presidente Kennedy, sentido centro-sul, desembocavam em forma de seta no fervilhante Trevo do Roque cuja névoa empoeirada do entardecer, sem licença, soprava invadindo as narinas e levando direto ao cérebro o viciante éter do prazer causando incontido rebojo nas estruturas de quietude de muita gente, acendendo as libidos até o plano máximo das labaredas desejosas. Noutras, todos ali, de cabeça, corpo e membro eram sexo puro.

A Churrascaria Arapuca, por lá fincada, tinha o status de oásis alimentício e repositor das energias perdidas, uma afamada e fundamental casa de apoio aos trêmulos e cambaleantes madrugadores exaustos e vitimados pelas fraquezas e outros efeitos do sexo sem freio, cuja lei era o dinheiro. Lá se reuniam os notívagos tupiniquins e forasteiros para aquela apetitosa, proteica e revigorante sopa, antes de descortinar o amanhecer. De tão sopa e tão vitamínica certas pessoas, quando iam ao local, diziam ressuscitar seus corpos já que as suas almas e espíritos pervertidos e condenados irremissíveis, queimavam e ardiam convertidos ao torto e aloprado anjo daquela Sodoma e Gomorra.

Alguns jovens mancebos daqui, com idade entre os 18 e 20 anos, estudantes da noite nos cursos colegiais, já vivendo o despertar dos arroubos de enxerimentos se arvoravam para incursões mais audazes no campo dos prazeres e, vez por outra, se aventuravam a pé, de vários bairros da região central ou mais distante até o epicentro do canibalismo erótico da época, qual fosse, o Trevo do Roque.

Naquela praça dos eflúvios libidinosos em 12 de junho, noite dos namorados, apareceu o Zenildo, valentão e destemido, cabra jurado de morte nos garimpos da região, feio a ponto de recusar olhar-se no espelho, alto feito um poste e ignorante na mesma estatura. O minerador desceu de um táxi bem na porta do Clube Copacabana, cumprimentou o porteiro, pediu umas quatro mesas e ordenou que chamasse as “profissas” do sexo, inclusive as que estivessem acompanhadas pois, todas, naquela noite de idílio, eram suas namoradas e festejariam com ele. À medida que se achegavam ele oferecia copos de cerveja ou uísque e lhes entregava mimos como pulseiras, relógios, perfumes, cortes de tecido, quantias em dinheiro e pequenas pepitas que lhes reforçavam a gastança mensal.

Os demais fregueses impotentes, assistiam aquilo sem reagir afinal, além de “estar com a pedra” o homem tinha a fama de exímio atirador e agia na segurança de ter sempre, ao alcance da mão, dois trabucos calibre 38 deitados sobre a mesa, prontos pra cuspir fogo contra intrometidos e desafetos. Sob luz tênue, no canto oposto do salão, estava Chico Boca, rival declarado de Zenildo e também garimpeiro padrão barra pesada de cujo, diziam, contabilizar singelos 18 homicídios no currículo, por feitura própria e outros mais por encomenda.

Igualmente afamado por não perder uma só bala das muitas que mandou contra alvos oponentes, Chico a tudo assistia e, movido pelas pendengas antigas com o então filantropo-putanheiro Zenildo, aos goles e olhares de esguelha para o antagonista, Chico parecia algo de ruim matutar.

O sucesso do Zenildo com o mulherio e a forma antiética, fora dos padrões e nocivas, à constituição cabareana e o jeito exibicionista com que arrebatou as damas da noite pro seu domínio, sinalizaram uma inevitável e nada diplomática contenda naquela noite que desnudava sobre as ruas e tetos de Porto Velho um céu estrelado, propício e inspirador a um solo e pontilhado pelo Jorge Andrade ao violão. Por sorte lá, eram raríssimas as idas do seresteiro. Mesmo assim escapou de ser obrigado a dedilhar em tom maior, um fúnebre e melódico aqui jaz.

Em meio ao furdunço de risos, abraços, beijinhos e olhares insinuantes, Zenildo posava de rei. Chico Boca, em desvantagem no placar “cabareísta” até esboçou reação e mandou chamar algumas putas pro seu redor mas, Zenildo, parecendo estar com o tinhoso de plantão e impregnado no seu couro, ordenou que ficassem consigo, cobriria qualquer proposta. Aquilo soou como desafio ao tudo ou nada e derreteu qualquer possibilidade da bandeira branca ser içada e tremular festiva ao vento, sinalizando a paz.

Pra aumentar o fogaréu daquele inferno ambiente, Zenildo convidou alguns rapazes daqui os quais, aprendizes dos segredos e emoções do sexo debutavam na putaria e por ali zanzavam curiosos, porém lisos e ainda tímidos. Sob o patrocínio do bamburrado garimpeiro, os jovens foram autorizados a beber e escolher meninas para estagiarem em sessões de completo sexy menu com direito a indecifrável êxtase e deleite noturno. Tudo isso, na intimidade e desconforto dos úmidos e sombrios aposentos instalados nos fundos onde mal se ouvia os trololós, faniquitos e outras efervescências ocorridas nas entranhas do puteiro.

Lá pelas tantas com todos rumando pelo orvalho da madrugada Chico Boca deixa o recinto, não sem antes, dispensar demorado olhar ameaçador contra Zenildo que devolveu a gentileza, encarou o contrário. Do lado de fora, o retirante dirigiu-se a uma banca de comida onde uma mal humorada e enorme senhora de uns quatro costados, vendia um exótico prato “baiazonense,” mistura de comida baiana e amazonense composto de jaraqui frito com vatapá. Ao cheiro da fritura e, em tom severo, Chico cochichou ao ouvido dum sujeito para que fosse nas imediações da rodoviária, num hotel de baixa categoria, buscar Gaguinho, um matador infalível que lá pernoitava.

Obediente o homem foi num pé e outro e deu conta do recado, Gaguinho estava ali pra receber ordens e despachar mais um, como era o seu ofício. Em sua apresentação, disse o seu preço, narrou uma apólice de direitos que o mandante tinha pra opinar sobre como queria o serviço, quantos tiros, em que parte do corpo e coisa e tal e revelou já ter sido tomado de aguda vontade de alvejar o boçal e valentão Zenildo.

Tratativas ligeiras, “sem conversa de chora minha nega” logo o dinheiro do serviço fora enfiado fundo no bolso do matador que também recebera um revólver com a seguinte recomendação: escute só meu chapa, com esse aqui eu já derrubei pra mais de dez, então faça bonito, faça como você sabe fazer. Agora vá, ele está lá no Arapuca bebendo com aquelas putas ingratas duma figa, chegue e anuncie a morte e, antes de qualquer reação, queime o desgraçado. Eu vou ficar de longe apreciando tudo.

No Arapuca Zenildo ocupava o centro da mais animada mesa, cercado das felizes damas da noite que folgavam se encharcando de cerveja e se empanturrando num lauto rega-bofe. Em dado momento o mecenas da noitada pediu uma sopa bem quente no que de pronto fora atendido. O matador, que a tudo “mancuricava” resolveu inserir certo drama àquela trama e, puxou um papel e nele escreveu “a última sopa” e deu ao garçon para entregar ao destinatário certo, o Zenildo. Enquanto o prato apetitoso esfumaçava à sua frente, Zenildo leu o papel umas três vezes e foi surpreendido quando Gaguinho, o atirador fatal, apareceu e, a média distância, anunciou no seu fluente linguajar próprio: “… e-e-e-ildo e-e-eu iiioo da u-u-uta, i-i-i e-e-ara u-u ai o-o-rrer a oraaaaa!” Traduzindo do “gaguez” pro português: “Zenildo seu filho da puta, te prepara tu vai morrer agoraaaa!”

Após o brado da morte o gago sacou o cano e disparou uma, duas, três vezes mas o colt bateu catolé em todas elas. Quando tentou novo disparo Zenildo já havia rastejado por debaixo da mesa e, entre cadeiras e pernas das putas em polvorosa, disparou fatal contra o peito de Gaguinho que já tombou defunto, empacotado pra viagem. Naquela hora quatro e meia da madrugada, o Arapuca era o salão do medo, gritaria, desespero e incerteza. Zenildo ainda de arma em punho mal levantou e, dum canto escuro, três pipocos tiniram alto e misteriosas azeitonas quentes cortaram o ar indo se alojar certeiras e mortíferas no seu peito.

Segundos depois, em meio ao “quem foi, quem não foi,” Chico Boca passa ao lado do Garçon e lhe diz ao ouvido: eu não sabia que esse matador era gago até pra atirar, e quanto ao outro, se a polícia perguntar, diga que ele veio tomar a última sopa, mas nem deu tempo.

tatadeportovelho@gmail.com

Do mural de Alberto Lins Caldas

nel mezzo del cammin di nostra vita

● de mãos dadas ●
● sob a ponte a toalha rasgada ●
● no mangue dos caranguejos mortos ●

● latas de cerveja ●
● cascas de ovo sob cascas de banana ●
● pedras sempre pedras demais ●

● de mãos dadas ●
● ali o sol se fode na terra ●
● o mar violento ficando negroazul ●

● ja basta é bom terminar ●
● largar os dentes os sexos a pele ●
● lingua contra lingua e so consumir ●

● de mãos dadas ●
● deixar o sangue a saliva a porra ●
● secar sem criar nada q faça doer ●

● quem sabe agora as ruas ●
● consigam nos engolir sem vomitar ●
● sem nos dissolver ou nos espancar ●

*

foto: reprodução Facebook

Poesia e fé

Texto e foto de Valéria del Cueto

De acordo com Pluct, Plact, o extraterrestre exilado na Terra, é o que resta. Poesia e fé.

O diagnóstico é solidamente embasado num Aleph zero número de informações e dados coletados nas viagens intergalácticas multidimensionais realizadas pelo involuntário personagem das Fábulas Fabulosas da cronista que você costuma acompanhar. Aquela, recolhida por livre e espontânea vontade do outro lado do túnel.

Se não bastassem as viagens, junte a esse feedback a base de dados para pesquisa literalmente universal, com direito a todas as vias – lácteas e galácticas – de informações geradas pelo Big Bang quântico que desandou nessa bagaça toda.

Primeiramente, vamos colocar na balança e considerar o fato de que nenhuma forma alienígena viria para a Terra a passeio. Podemos deduzir que não é só por aqui que o bagulho anda doido.

O que explicaria a “missão” terráquea de Pluct, Plact, mas não a falta de força propulsora para, vencendo as amarrações e demandas mecânicas interestelares, sua nave poder partir em paz para outras pernadas nas estrelas.

Cientificamente falando os motivos seriam físico, químico e biológico. Uma combinação de fatores que transforma a ação em reação infalível cada vez que a missão interplanetária direciona suas energias, faz seus cálculos propulsionantes e objetiva um básico “pode ficar aqui que eu vou pra PQP”, ou o clássico “parem o mundo que eu quero descer”.

Nada acontece. A nave faz ping e… pong ricocheteia e volta para a Terra!

Não é um fenômeno único ou particular. Está assim para todo mundo, em todo lado. Não há ninguém que, nesse momento, não tenha noção do perigo. A maioria está apertando firmemente o START. Mas o resultado, ou melhor, a ausência dele, é o mesmo para geral.

Daí a conclusão de Pluct, Plact de que não, não pode ser somente um fenômeno científico inexplicável que está reduzindo a ação a uma reação lamentável.

Tipo aquela cena clássica de quando alguém cai na areia movediça e o primeiro alerta, depois daquele grito de surpresa, diante da situação é: ”NÃO SE MEXA”. E vai tudo afundando. Especialmente o horizonte de quem recebeu o conselho de que manter a imobilidade é essencial para aumentar por preciosos segundos a sobrevivência. Até que…

Enquanto isso, as informações continuam a chegar em profusão e vão sendo catalogadas e indexadas. O visitante costume leva-las para a amiga em suas visitas noturnas.

São tantas e tão complexas que não caberão no curto tempo em que os raios de luar banharão o interior da cela da cronista. São eles que iluminam o contato imediato entre os dois seres quase inexistentes, mas ligados pelo nó cego de uma amizade improvável.

Somando, multiplicando, subtraindo, dividindo, tirando a raiz quadrada, analisando a incógnita cartesiana da função pitagórica aplicada às condicionais e variantes de abordagens científicas, incluindo as da quântica mais avançada, Pluct Plact chegou a uma assombrosa conclusão.

É a de que a força capaz de bagunçar o equilíbrio planetário e impedir sua partida é a da maldade pura e simples. Aquela, cada vez mais sem filtro, a que esse mundão que já foi de Deus está exposto.

E contra ela não há remédio, lei ou ação violenta que resolva. Não é assim que se ameniza, amansa e doma a fera da maldade. Violência gera violência que nada mais é do que uma filial do mal que aflige a todos.

Poesia é fé, em todas as suas formas e variantes, podem ser a solução. Pelo menos para o ingênuo viajante que ainda crê na espécie humana. Até quando?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Hoje é o dia das Comunicações, cujo patrono é o Mal Rondon

Rondon foi duas vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, em uma delas pelo físico Einstein

O dia nacional das comunicações é comemorado em 5 de maio, numa homenagem ao nascimento, em 1865, do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon , patrono das comunicações do Brasil.

Rondon foi responsável pela criação de linhas telegráficas importantes, integrando regiões do centro-oeste e norte ao sudeste do Brasil. Rondon viveu na época em que o principal meio de comunicação à distância era o telégrafo elétrico, inventado por Samuel Morse e instalado pela primeira vez no Brasil em 1852. Para que ele funcionasse, postes e fios tinham que ser instalados por milhares de quilômetros. Em 1876, Graham Bell  obteve a patente da invenção do telefone. Em 1877, dom Pedro 2º solicitou a instalação das primeiras linhas telefônicas no Rio de Janeiro. Em 1896 os primeiros sinais radiofônicos foram transmitidos pelo físico italiano Marconi. No Brasil, a primeira transmissão aconteceu em 1922, mas o rádio só foi ao ar comercialmente em 1923.

O Brasil se tornou o primeiro país da América a emitir selos postais, os olhos-debois, em 1843. Em 1921 começou o transporte de malas postais por via aérea no país. Na primeira metade do século 20, centrais telefônicas foram instaladas em todo o país. Foram criados o Departamento de Correios e Telégrafos (DCT) e o Correio Aéreo Militar, que deu origem ao Correio Aéreo Nacional. O sistema de discagem direta à distância (DDD) data de 1958 e, em 1965, foi criada a Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel). Dois anos depois, criou-se Ministério das Comunicações, o que dá uma ideia da dimensão que o setor atingia para o país. Em 1969 o Departamento de Correios e Telégrafos foi transformado na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). No mesmo ano, o Brasil inaugurou a primeira estação de comunicação com satélites em Itaboraí, RJ. Em 1972 foi criada a Telebrás (Telecomunicações Brasileiras S/A) e os primeiros “orelhões” foram instalados no Rio de Janeiro e em São Paulo

Três anos mais tarde, o Brasil se integrou ao sistema de discagem direta internacional (DDI). Nos anos 1980 chegaram ao país os cabos de fibra óptica e, uma década depois, os celulares. Em 1995 foi implantada a internet comercial no Brasil.

Ontem, (4/5/2017), Foi lançado  ao espaço o primeiro satélite geoestacionário brasileiro para defesa e comunicações estratégicas. O lançamento, feito do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, foi acompanhado no Brasil pelo VI Comando Aéreo Regional, em Brasília. O lançamento ocorreu na base de Kourou, na Guiana Francesa.

Até então, depois de uma onda de privatizações no governo FHC , o governo e o sistema de defesa dependiam do aluguel de satélites estrangeiros para suas comunicações estratégicas.

O satélite foi enviado dentro do foguete Ariane 5, que também lançou ao espaço o KOREASAT-7, da operadora sul-coreana Ktsat.

Com 5,8 toneladas e 5 metros de altura, o satélite brasileiro ficará posicionado a uma distância de 36 mil quilômetros da superfície da Terra, cobrindo todo o território brasileiro e o Oceano Atlântico. A capacidade de operação do satélite é de 18 anos.

O Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas foi fabricado em Cannes, na França, e começou a ser construído em janeiro de 2014, durante o governo Dilma.

A construção do equipamento foi feita pela Visiona, uma joint venture entre a Telebras – estatal federal do setor de telecomunicações – e a Embraer – empresa privada líder nos setores aeroespacial e de defesa. A criação da Visiona, em 2012, corresponde a uma das ações selecionadas como prioritárias no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) para atender aos objetivos e às diretrizes da Política Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (PNDAE) e da Estratégia Nacional de Defesa (END).

O projeto é uma parceria entre os ministérios da Defesa e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e envolve investimentos de R$ 2,7 bilhões. O equipamento foi adquirido pela Telebras e será utilizado para comunicações estratégicas do governo e para ampliar a oferta de banda larga no país, especialmente em áreas remotas.

O satélite vai operar nas bandas X e Ka. A primeira é uma faixa de frequência destinada exclusivamente ao uso militar, correspondendo a 30% da capacidade total do satélite. Já a banda Ka será usada para comunicações estratégicas do governo e implementação do Plano Nacional de Banda Larga, especialmente em áreas remotas.

Já Cândido Mariano da Silva Rondon, Marechal da Paz e das Comunicações, nasceu em 05 de maio de 1865, na cidade de Mimoso – MT e faleceu em 19 de janeiro de 1958, no Rio de Janeiro..
Engenheiro, formado pela Escola Militar, na Praia Vermelha, Rondon foi professor de Matemática, Ciências Físicas e Naturais, além de ter sido um dos nossos pioneiros e mais importantes indigenistas, etnólogos, antropólogos, geógrafos, cartógrafos, botânicos e ecologistas.
Durante 40 anos, percorreu a pé,em lombos de mulas ou em frágeis canoas, cerca de 77.000 km, desbravando o sertão brasileiro.
Nessas expedições, implantou o telégrafo, nosso primeiro sistema de Telecomunicações, nas completamente isoladas regiões Centro-Oeste e Norte e, assim, conseguiu integrar dos “brasis”, que não se falavam, o brasil do Litoral com o Brasil do interior, além das estações telegráficas que construiu no Pantanal e na Floresta Amazônica, que se tornaram importantes cidades.

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O antes no depois

Texto e foto de Valéria del Cueto

Essa crônica sai, na melhor das hipóteses, no sábado. Dia seguinte ao da greve geral convocada para o dia 28.
Só agora ao começar a redigi-la me dou conta que a mesma só sairá “na melhor das hipóteses” ou seja, no sábado, caso os empregados do jornal não… entrem em greve!
Pois não é que é na sexta-feira que o caderno é montado, editado e impresso para estar nas bancas na manhãzinha de sábado?
Vou situá-lo: é que escrevo na noite de quinta-feira acompanhando a movimentação para a greve geral do dia seguinte.
Amanhã ou ontem, conforme o ponto de vista…
Sim, vai (ou teve) greve. Dependendo da fonte consultada e das informações recebidas, o sucesso foi garantido, ou não.
O que desperta a atenção é a data da aprovação das mudanças nas leis trabalhistas. Alguns poucos dias antes do dia 1 de maio, o Dia do Trabalhador. E não se fala mais nisso.
Ou melhor, não se falou até a hora em que escrevo ouvindo o barulho da chuva que cai no Rio de Janeiro, trazendo ventos e fazendo o mar subir, para a alegria dos surfistas. Não faz frio mas os dias, dizem, ficarão cinzentos…
É assim mesmo. Não há nenhum pudor em mutilar a legislação de Getúlio Vargas e dá-la de presente ao trabalhador brasileiro no seu dia. Para soprar a velinha na sequência, assim, de carreirinha, vem a Reforma da Previdência.
Não dá para o trabalhador bater palmas. Estão na mesma canoa furada que os índios que andaram pela frente do Congresso Nacional dias atrás pedindo Demarcação Já.
Tem gente que se preocupou com a origem da manifestação de ontem. O mais importante eram as causas que levaram os brasileiros à greve.
Pode ser até que demore. Mas um dia a pressão será tanta que, finalmente, o povo vai entender que ninguém vai fazer por ele.
Não há santos distribuidores de benesses, jeitinho, atalhos ou mágica. Há esforço, suor e dedicação permanente para aprimorar (ou sugar até a exaustão, dependendo do ponto de vista) o sistema.
É um escárnio, um tapa na cara aprovar a “Reforma” Trabalhista na véspera do dia do Trabalhador.
Esse que vai pagar a conta da ladroagem explícita e declarada dos que legislam em causa própria em Brasília.
Os mesmos que condenam o brasileiro comum a morrer trabalhando para pagar suas mordomias.
Enquanto isso, Adriana Anselmo fica! Se dizendo “mulher do lar” de Cabral que diz que é tudo caixa 2, Bruno volta para o xilindró e um monte de gente espera.
Espera sobreviver a uma guerra que não é deles, dos morros cariocas ao outro lado da fronteira, em cima do aquífero guarani.
Diante dos 47 mil presos na Turquia, o que representam meia dúzia de corruptos e/ou uns a mais ou a menos lá para as bandas do Morro do Alemão?
Era uma vez um reino de faz de contas, cheio de contas a pagar.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpex”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Luto na MPB : BELCHIOR morre aos 70 anos

O cantor e compositor Belchior morreu aos 70 anos na madrugada deste domingo, 30, na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul . Familiares confirmaram o falecimento, entretanto, a causa ainda é desconhecida. O corpo deve ser trazido para o Ceará ainda hoje. O sepultamento deve ocorrer em Sobral, cidade natal do cantor.

O Governo do Estado do Ceará confirmou a morte e decretou luto oficial de três dias.

Natural do Ceará, Belchior fez fama nos anos 1970 com álbuns como Alucinação (1976). Só neste disco, estão clássicos como Velha roupa colorida, Como nossos pais, A palo seco e Alucinação. O músico é da mesma geração de outros artistas nordestinos como Raimundo Fagner, também cearense. Nos últimos anos, no entanto, Belchior ficou recluso, se ausentando dos palcos há mais de sete anos.

Fistulação | Como a indústria mutila e tortura vacas para garantir a qualidade do leite e da carne

Vacas são exploradas pela indústria pecuária em todo o mundo. Elas tornaram-se um dos produtos mais rentáveis para agricultores, que estão sempre desenvolvendo práticas novas e cruéis para garantir a máxima qualidade de sua carne e laticínios.

Um processo cruel e muito utilizado chama-se fistulação, que consiste em abrir cirurgicamente um canal entre um órgão e o exterior através da remoção de um pedaço do abdome destes animais para expor seus estômagos e, em seguida, equipá-los com um anel de plástico para manter o buraco aberto. Embora eles afirmem que é por motivos de saúde, este processo é absolutamente deplorável. Eles mutilam seres vivos e, sem dúvida, causam-lhes grande desconforto e estresse, no mínimo.

Esta cruel ‘técnica’ permite aos investigadores aumentar a longevidade do período leiteiro de uma vaca ao observar a rapidez com que ela digere os alimentos, observando os processos químicos que cada alimento sofre. Através deste processo os produtores de leite sabem qual o ritmo de “produção” de leite de uma vaca, permitindo alterar a sua alimentação nos diferentes dias de produção.

A alegação é que fistulação pode melhorar a saúde das vacas, já que os buracos são utilizados para coletar amostras de material em processo de digestão e analisar a saúde do animal. No entanto, os principais beneficiários deste procedimento são as indústrias de carne e produtos lácteos, que contam com o assassinato dos animais, não o prolongamento de suas vidas.

Leia a matéria completa em ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

Da quintessência de Z


Gostos retidos pelos olhos

Escuto a paisagem como se obtivesse a sensibilidade dos poetas
Sinto os tons das cores agrupadas docilmente no céu da boca
Saciando uma fome, até a pouco desconhecida, com um belo arco íris
Entorpecida com os sentidos aguçados e lindamente trocados
Lanço-me num abismo florido
Despenco com movimentos envoltos por uma luz neon
Embora tenha medo, os reflexos cintilantes me acalmam
Devaneando entre o obscuro e a claridade que eu encontrei a liberdade !

…………………………………………………………..

Quintessência (quinta essência) é uma alusão à Aristóteles, que considerava que o universo era composto de quatro elementos principais – terra, água, ar e fogo-, mais um quinto elemento, uma substância etérea que permeava tudo e impedia os corpos celestes de caírem sobre a Terra.  A dinamicidade é a propriedade mais atraente da quintessência. O maior desafio de qualquer teoria de energia escura é explicar o fato de ela existir na medida exata: numa quantidade não tão grande para impedir a formação das galáxias no universo primordial, e nem tão pequena que não pudesse ser detectada agora. A energia do vácuo (a constante cosmológica de Einstein), é totalmente inerte, mantém a mesma densidade o tempo todo. Portanto, para explicar a quantidade de energia escura hoje, os valores da constante cosmológica deveriam ter sido muito bem sintonizados na criação do universo para ter o valor adequado com as observações de hoje. Em contraste, a quintessência interage com a matéria e evolui com o tempo, de forma que se ajusta naturalmente aos valores observados na época atual.

Arte de rua : grafite em Floripa

Lindo grafite numa rua de Florianópolis. Enquanto isso em São Paulo….

GRAFITE X PICHO X MURAL

Grafite: arte normalmente feita de desenhos coloridos em muros e locais que podem ser autorizados ou não autorizados

Picho: escritos, com letras retas, feitos em muros e locais não autorizados. A maior diferença entre o grafite e a pichação, palavras que os adeptos pretendem grafar com x, é a intenção de quem faz. Normalmente a pichação é feita mais pelo aspecto do vandalismo, do ataque à sociedade, e o grafite já é algo que busca conteúdo artístico, mesmo que que tenha questões de protesto..

Mural: arte feita nos locais autorizados pelos proprietários.

Reflexos do frasco de letrinhas

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dia de escrever crônica adiantada. Elas existem e são provocadas pelos feriados. Inúmeros. Ultimamente caindo sempre as sextas, meu deadline usual.

Requerem uma mudança básica no andar das atividades semanais com menos tempo para acumular impressões a serem impressas semana sim e, quase sempre, na seguinte também. Falho, mas elas fazem parte da regra que tem que ter exceções.

Isso requer um estímulo extra para não perder o tom e o dom de escribar com uma certa constância. Ainda mais nesse formato incerto e pouco sabido apesar da brincadeira já estar rolando desde 24 de agosto de 2004.

Por ser uma data significativa sempre será um marco na história das crônicas do Sem Fim. Foi na abertura da exposição dos 50 anos da morte de Getúlio Vargas que elas começaram a serem escritas.

Foram os olhos dos visitantes ao Museu da República que destamparam meu frasco de letrinhas. Ele me foi dado anos antes por Emília, a boneca de pano falante do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato.

Na ocasião participando de uma das incríveis aventuras com Narizinho, Pedrinho e a turma do sítio, aceitei o presente sem ter noção do alcance do seu significado.

Joguei no fundo da minha frasqueira de viagens infantis e deixei por lá rolando de um lado para o outro. Até que, como a boneca que falava asneiras advertiu, ele pudesse – e como – ser útil.

Nesse meio tempo de muitos anos e algumas décadas pipocamos por muitas histórias e lugares aprendendo um pouco sobre quase tudo. Eu, a malinha e, dentro dela, a máquina fotográfica e o frasco de letrinhas.

Algumas vezes tentei abri-lo e derramar um pouco do seu conteúdo em papéis, áudios e até em vídeos. O resultado não foi nada mau.

Mas ainda sentia que faltava um ingrediente para deixar fluir o que via, lia e apre(e)ndia. Não, não estava faltando forma nem expressão que essas foram lapidadas desde sempre.

Era algo na essência, no olhar. No desembestar como dizia Emília, ao destravar a língua falando que nem louca, tagarelando pelos cotovelos quando ganhou o dom da fala numa das Reinações de Narizinho.

O dom chegou para mim num reflexo. Os vi nos olhos de quem vagava nos lugares onde Getúlio viveu seus últimos dias cinquenta anos depois. Histórias de devoção, amor e intimidade de vidas inteiras. Ali, esse reflexo ganhou forma. Precisou ser incontrolavelmente extravasado.

Ele se mantém até hoje nos sinais que fazem a caneta deslizar ligeira pelas páginas em branco do caderninho. Sem linhas para delimitarem o tempo e o espaço ou impedirem o voo inquieto e ágil da imaginação.

Serve para quem, como eu, consegue ver nos reflexos (olha eles de novo aí) dos vidros e gradeados que cercam a vida dos habitantes encarcerados da selva de pedra que virou Ipanema, um convite irrecusável.

Aquelas ilhas ensolaradas do Atlântico refletidas nos vidros indicam o caminho irresistível para deixar de lado a realidade assustadora que nos cerca e quase domina.

É o momento de concretizar o texto da semana deixando aberto o frasco de letrinhas, destampado nas areias convidativas do Arpoador.

Dessa vez sai dele uma homenagem a todos os dias dos livros. Especialmente os infantis. Aqueles que, se você tiver a mesma sorte, nos acompanharão pela vida.

Viva o Sítio. O do Picapau Amarelo. Salve Monteiro Lobato!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Ônibus sem cobrador: mais um passinho atrás, por favor

Neste momento, a Prefeitura de São Paulo está testando viagens de ônibus sem a presença do cobrador, em uma linha que vai do Metrô Jabaquara até o Terminal Santo Amaro, na Zona Sul, e que tem em média 2% das passagens pagas em dinheiro. Já faz algum tempo, especialmente depois da implantação da bilhetagem eletrônica, que a gestão municipal tenta eliminar os cobradores dos ônibus da cidade.

Atualmente, em média, 6% das viagens são pagas em dinheiro vivo e, por isso, a Prefeitura entende que os cobradores ficam ociosos na maior parte do tempo. A eliminação dessa atividade impactaria positivamente em uma redução de custos, o que em tese,  teria efeitos benéficos no preço da passagem.

A princípio, esse raciocínio parece fazer sentido. No entanto, desconsidera outras funções que esses trabalhadores exercem nos ônibus, como auxiliar pessoas com mobilidade reduzida, oferecer aos usuários informações que deveriam constar nos pontos de embarque ou dentro dos veículos, mas não constam, entre outras atividades que fazem com que os motoristas não fiquem sobrecarregados.

Esta mudança também sinaliza para outra questão, muito mais ampla: a substituição do trabalho humano por sistemas automatizados e robotizados. Nos Estados Unidos, já circulam em algumas cidades carros sem motorista, que vêm sendo testados pela Uber e o Google. As duas empresas competem para desenvolver a tecnologia, que, para a Uber, por exemplo, seria uma forma de transformar seu negócio em algo ainda mais lucrativo. Um dos carros da empresa, no entanto, capotou há alguns dias em Tempe, no Arizona, colocando a Google à frente da corrida. Carros sem motoristas, portanto, não são nenhuma ficção, e sim um processo em curso.

Aplicadas nos mais diversos setores, tecnologias desse tipo poderão substituir parte significativa da mão de obra na próxima década. Tal cenário levou Bill Gates, dono da Microsoft, uma das empresas responsáveis pela revolução tecnológica que vivemos, a propor que seria necessário cobrar uma espécie de imposto dos fabricantes de robôs que substituem pessoas. O tributo, segundo Gates, deveria então ser aplicado na recolocação dos humanos no mercado de trabalho. Outras pessoas já falam em cotas obrigatórias de empregos para humanos!

Se não precisarmos mais de cobradores, nem de motoristas, nem mesmo dos “auto”-empregados motoristas de Uber, qual será o futuro do trabalho humano? Em uma sociedade onde a renda – e a sobrevivência – está ligada ao trabalho e, nos últimos cinquenta anos, a mecanismos de proteção social, a destruição destes mecanismos, aliada também à obsolescência do trabalho, desenha um cenário tenebroso…

Comentário feito originalmente na última quinta-feira (6) na Rádio USP.  Confira a íntegra.

via blog da Raquel Rolnik

Embaixador da Coréia do Norte diz que o mundo está a beira de uma guerra nuclear

 

Para o embaixador norte-coreano Kim In-ryong, a Casa Branca está “perturbando a paz e a estabilidade” de todo o mundo com a sua resposta “injusta e desproporcional” ao líder do país, Kim Jong-un.

Além disso, Ryong garantiu que o seu país conduzirá novos testes com armamentos nucleares “no momento oportuno”, fazendo referência ao recente lançamento fracassado de mísseis pelo país asiático.

Na opinião do embaixador, está “muito claro” que Washington está “empenhado” em entrar em guerra com a Coreia do Norte, o que pode acontecer “a qualquer momento”, segundo Ryong.

As declarações do representante norte-coreano na ONU foram feitas durante uma conversa com jornalistas nesta segunda-feira.

A escalada das tensões na Península Coreana se intensificou devido aos últimos episódios envolvendo a gestão do presidente norte-americano Donald Trump, e também à persistência de Pyongyang em seguir em frente com o seu programa nuclear.

Na semana passada, o Pentágono determinou o deslocamento do porta-aviões USS Carl Vinson e o seu grupo de ataque – composto por um cruzador e dois destroieres armados com mísseis de cruzeiro Tomahawk, além de pelo menos um submarino nuclear – para a região da Península Coreana.

Tal movimento, somado aos exercícios conjuntos com as formas militares da Coreia do Sul, são tratados como uma “ação agressiva” pelo governo norte-coreano, no que pode desembocar em uma “guerra real”.

Além disso, o vice-presidente dos Estados Unidos Mike Pence disse nesta segunda-feira, em visita a Seul, que a “paciência estratégica” com a Coreia do Norte acabou e que “todas as opções estão na mesa” para lidar com Pyongyang.

fonte: Agência Sputnik

Caldo quente

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, plact está rezingando para cronicar. Puxando fios de lá, juntando com fios de cá pra ver se a trama ganha alguma consistência e consegue suportar o peso dos últimos e nem tão surpreendentes acontecimentos.

Que droga a falta de um lastro positivo para conseguir esticar a corda até quase arrebentar de tantas, tão variadas e excessivamente robustas informações, ou deformações, melhor dizendo.

Lua cheia no céu, luz intensa entrando pela fresta da janela daquela cela do outro lado do túnel onde se esconde a cronista das vicissitudes dos mundos.

Tem gente que ainda não sabe mas ela, cansada como Teresa Batista das guerras desse mundão, escolheu o isolamento. Desistiu de ser um objeto teste com uma incrível quantidade (impossível de ser decifrada integralmente) de imagens projetadas diante de sua estarrecida e estatelada visão de cenas desconexas, porém, verdadeiras.

Elas aconteciam em todos dos planos. Pessoal. Consciente e inconsciente. Do ambiente, do entorno, do país, do continente e do mundo. Do vizinho, do distante. Do amigo, inimigo e do desconhecido em geral. Cenas, cenas, imagens, raciocínio, sentimento, sonho, sobrevivência. Realidade.

Cansou e pediu para sair. Foi parar no lugar que habitava seu caminho durante anos. Desde os 12 mais precisamente nas idas e vindas para o colégio. O Pinel. De um lado, o ex Canecão. Templo da música carioca dramaticamente abandonado, deserto. Em ruínas.

Do outro, sua ex Universidade. O local onde o conhecimento e o saber transformaram, anos antes, a vestibulanda bem colocada na tabela do Cesgranrio numa participante do grupo de criação conceitual que a levaria à TV Tupi. Isso, depois de uma apresentação da instalação exposta numa das salas de pés altos e paredes grossas do antigo manicômio, então Escola da Comunicação da UFRJ.

Estava em casa. Bem situada nas proximidades da sede do Botafogo. E dela, a cela, só costumava se conectar com o (já citado no início do texto) Pluct, plact. Ele é um extraterrestre perdido na atmosfera terráquea graças a péssima qualidade do ar. Tenta ir, vai, bate na camada poluída e… volta, quicando e se recompondo em outro ponto do planeta.

Preparado para a missão de coletar dados e tentar entender o “funcionamento” do ser humano se surpreende a cada novo lance que registra. Sabedor que é da necessidade de manter um canal de conexão com a realidade de sua amiga e confidente, a cronista encarcerada, tenta fazer um resumo dos acontecimentos para tentar atraí-la novamente para o mundo verdadeiro.

Mas está difícil. Trump ataca o Estado Islâmico com uma bomba quase atômica. Tipo a largada pelo Ministro do Supremo Edson Fachin ao autorizar a abertura de inquéritos contra uma parte significativa e representativa do mundo político brasileiro.

Se a Odebrecht é o diabo de rabo e chifres o inferno está lotado de seguidores até então entusiasmados e dispostos a fazerem tudo que seu mestre mandava por uma módica quantia. Creditada nas contas bancárias nacionais, internacionais e, caso seja conveniente, as baseadas no nepotismo puro e simples: ajudando parentes também.

Tudo bancado com dinheiro que deveria ir para o povo brasileiro. Centenas de milhões, bilhões!

Dias antes o inocente do Ministro Blairo Maggi descansava da semana pesada de tanta “Carne Fraca”  contando num vídeo caseiro como prepara sua receita de arroz carreteiro.

Mal sabia que seu “caldo” estava sendo depurado e apurado em mais de uma das delações premiadas dos responsáveis pelas operações nada republicanas da maior empreiteira do país…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

O assassinato do artista de rua uruguaio Matias Ziatriko em Ji-Paraná/RO

foto: Samira Lemes

Era 8 horas da manhã, do sábado (8 de abril) e ele (Matías Galindez Rodríguez ) estava contente. Conversando sobre política e outras questões da vida nas ruas num posto de gasolina na região norte do Brasil, Matias acabou irritando um jovem, que estava passando de carro no local. A discussão terminou com 10 tiros a queima roupa e o assassinato intolerante e xenofóbico do uruguaio, que viajava trabalhando com a arte circense pelo Brasil e pela América Latina.

A artista Samira Lemes, que têm ajudado a família a conseguir os recursos para levar Matias ao Uruguai, conta que ele era um jovem de muita paz e serenidade, e servirá de inspiração para  muitos. “Ele semeava amor. E temos que mostrar que esses artistas de rua são os anjos do mundo. São os ‘busca vidas’. Se doam para mudar essa realidade do mundo.”

Filho de família humilde, ele perdeu a vida aos 29 anos em Ji-Paraná/Rondônia, no noroeste do Brasil  enquanto falava sobre ser artista de rua, profissão da qual conheceu já adulto, após ter trabalhado em muitas outras e ter descoberto e aperfeiçoado seu dom ao longo dos últimos 10 anos.

Leia a matéria completa em Jornalistas Livres 

A Globo transborda de hipocrisia

Texto atribuído à juíza federal do Trabalho, Roberta Araujo, que se formou pela Faculdade de Direito do Recife, UFPE, com doutorado na instituição de ensino Universidade Federal de Pernambuco, que teria publicado em sua rede social um questionamento sobre as contradições apresentadas pelo Grupo Globo que resolveu afastar das suas funções o ator José Mayer por assédio e o apresentador do Video Show, Otaviano Costa por “rir de atitude machista no BBB.

Leia o testemunho: “Queridas, antes de divulgar e exultar com a postura da Globo em “ punir” José Mayer por assédio ou afastar Otaviano Costa do vídeo show por rir de atitude machista do Big Brother lembrem-se de que foi a Globo que universalizou entre nós a cobiça por Anita, apresentada como uma “ ninfeta” ousada que seduzia um homem casado e com idade de ser seu pai. Foi a Globo que nos apresentou Angel, uma adolescente que permeou o imaginário dos desejos mantendo um ardoroso caso com o marido da sua própria mãe. Foi a Globo que em Laços de Família envolveu o Brasil na polêmica trama em que a jovem filha rouba Edu, o namorado da mãe, interpretado por Reynaldo Gianecchini. Foi a Globo que em Avenida Brasil nos trouxe como núcleo de comédia a trama com três mulheres envolvidas com o mesmo homem- o empresário Cadinho – e que declinam da suas vidas e dignidade para se sujeitarem a viver com ele, mesmo após se descobrirem enganadas. Em Império, a Globo preencheu o imaginário de desejos com a trama do charmoso Comendador que mesmo casado com Marta mantinha um fogoso affair com uma menina mais jovem que sua própria filha. Foi a Globo que fez o Brasil se divertir com o programa Zorra Total, que tinha em seu quadro principal duas amigas em um vagão, sendo uma delas, a Janete, bolinada de várias formas e tocada em suas partes íntimas com a batuta de um maestro enquanto a sua amiga Valéria , ao invés de defendê-la, dizia: “aproveita. Tu é muito ruim, babuína. Se joga.” Então queridas, quando essa emissora diz em nota que “repudia qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito” esta em verdade sendo dissimulada e ofensiva por nos considerar alienadas ou parvas. A verdade é que a Rede Globo coisifica as mulheres, naturaliza a violência, os abusos e assédios, incentiva o desrespeito, ridiculariza o papel e a posição da mulher e subalterna nossa dignidade. São mensagem explícitas e subliminares como as que esta Rede Globo universaliza e crava no imaginário masculino brasileiro que estupram, abusam, ferem e vitimam milhares de Mirellas que habitam entre nós”.

A Globo, cínicamente, leu um pedido de desculpas, tanto no caso do ator José Mayer como no caso BBB, dizendo que “repudia toda e qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito. … “.

O mistério do sumiço de Bruno e dos livros criptografados do Acre

Uma estátua de Giordano Bruno, o teólogo, cosmólogo e filósofo italiano nascido em 1548 e queimado vivo na fogueira pela inquisição romana em 1600. Giordano Bruno também era perito em mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória.

Nas paredes , de forma totalmente simétrica – no teto e chão do quarto muitos escritos criptografados feitos à mão .

Este é o cenário do quarto de Bruno Borges, um jovem de 24 anos, estudante de psicologia que saiu de casa e sumiu em Rio Branco, capital do Acre, no noroeste do Brasil.

Bruno Borges, em foto de família.

Bruno falava de um projeto que iria revolucionar o mundo e a forma de pensar dos seres humanos. O dinheiro, possivelmente para adquirir a estátua de Giordano Bruno, foi conseguido com o seu primo, o médico Eduardo Veloso que lhe emprestou R$ 20 mil, baseado nas conversas iniciais que teve com Bruno sobre o projeto misterioso.

Rivasplata e Bruno durante a produção da escultura.

A estátua de Giordano Bruno, uma réplica da existente no Campo de Fiori, em Roma , onde ele foi queimado na fogueira é de autoria do artista peruano Jorge Rivasplata de La Cruz . o “Rivas”,  de 84 anos que chegou a Rio Branco na década de 80 e nunca mais saiu. Por seus trabalhos filantrópicos como uma escolinha de artes para crianças recebeu da Assembléia Legislativa do Acre os títulos de Cidadão Riobranquense e Cidadão Acriano

Desaparecido há dias, ele deixou algumas chaves para quebrar a criptografia. Baseado nessas informações, sua irmã mais velha já descobriu que um dos livros supostamente é chamado de “A teoria da absorção do conhecimento” e um outro “A busca da verdade absoluta”.

Nesses momentos , as teorias pipocam nas redes sociais. Giordano Bruno, o teólogo italiano era acusado dentre outras coisas de “reivindicar a existência de uma pluralidade de mundos e suas eternidades.”.

Um site foi lançado na internet http://decifreolivro.com/ para tentar descriptografar os escritos e sinais deixados nas paredes e livros.

O site de tecnologia Tecmundo procurou dois experts em criptografia, Rincon e Renoir que colocaram os caracteres criptografados sobre um teclado físico para entender melhor como o padrão de criptografia. Segundo Renoir, a ideia agora é “centralizar todos esses documentos, quebrar a criptografia e disponibilizar a todos”.  O diretor da Antecipe, plataforma de gerenciamento de vulnerabilidades, Igor Rincon, e o líder de desenvolvimento, Renoir dos Reis, montaram o site para ajudar a descriptografar outras páginas que venham a surgir.

Na Internet também foi divulgado o número de telefones caso alguém encontre Bruno ou sabe onde ele está:  (68)9 9985 2775 ou (68)9 8401 1151

Uma nova teoria sobre os códigos chama atenção para a semelhança com “O Manual do Escoteiro Mirim”, HQ com aventuras de Huguinho, Zezinho e Luisinho, sobrinhos do Pato Donald.As investigações do caso permanecem em sigilo pela Polícia Civil do Acre e nós do blog desejamos que o Bruno volte logo prá casa de seus pais com saúde . E que as teorias de conspiração não transponham os limites da Internet.

Ou se revelem de vez.

por Beto Bertagna.

NR: O blog sofreu um ataque hacker nesta madrugada e saiu do ar por algumas horas. A equipe de suporte já identificou o IP criminoso que é da região de Porto Velho. Não é a primeira vez que isso acontece. Conseguimos colocar o blog no ar novamente, suprimindo algumas funcionalidades por motivo de segurança, pelo qual pedimos desculpas. Em breve, teremos o blog com todas os seus recursos normalmente. 

A lo largo

Texto e foto de Valéria del Cueto

É muito bom ser geminiana e gostar de ter diversas vidas. Isso faz que seja uma metamorfose tranquila trocar de ares como quem muda de roupa. Depois do carnaval de Uruguaiana é a hora de reacender as raízes pampianas. Para isso, nada melhor que um mergulho no silêncio das suaves colinas da fronteira oeste, na Estância São Lucas.

Tudo programado e preparado “au grand complet” com uma passagem na La Bodeguita pra providenciar um rancho a altura do cenário: queijo e salame da colônia, costelinhas de bovino, cebola para assar, bala de goma e alfajores para sobremesa e, vindo do outro lado da fronteira, no caso do Uruguai, algumas garrafas de vinho  a serem degustadas enquanto o fogo é feito, a carne fica no ponto e  um picado engana a fome que só aumenta enquanto ouvimos o trepidar do carvão em brasa. Vida mansa no final do dia.

Na chegada na estância no meio da tarde damos passagem ao gado da raça braford que vai sendo recolhido à mangueira. No dia seguinte os animais serão apartados pelos peões pilchados a cavalo para trabalharem o rebanho. Ali já dá para saber que o tão almejado silencio noturno será substituído pelo coro de mugidos  que ponteará madrugada afora, como uma sinfonia.

A imagem, impressionante para quem nunca viu a movimentação, é um colírio aos olhos saudosos que ficaram mais de um ano longe da lida campeira. Ao final do dia, uma mateada e algumas fotos dos gaúchos reunidos no galpão proseando ao cair da tarde.

A luz é muito especial. As sobras se alongam fazendo desenhos no campo, delineando o relevo das árvores contra as cores impressionantes do entardecer outonal.

Basta percorrer a cerca que protege a casa principal até a porteira para captar várias configurações da paisagem. O sol vai se pondo, ora no meio do arvoredo, ora no contorno suave da planície, dependendo do ponto de vista. O lusco fusco avermelha o horizonte e cria outras imagens dramáticas quando se acrescentam os contornos das porteiras e cercas dos bretes.

Quando resta penas um fiapo de luminosidade mais uma surpresa. A lua nova que dá as caras fininha, obriga a uma rápida mudança nos parâmetros da câmera fotográfica para que o sorrido do gato de Alice (a do País das Maravilhas) imprima nos sensores. Todo esse movimento acontece sem trégua. Deixa uma sensação de urgência para que tudo seja devidamente registrado. Mal comparando, é como uma escola de samba que passa na sua frente. A gente sabe que não pode perder nenhuma ação pois ela não se repetirá novamente. É hoje só, amanhã não tem mais, pelo menos daquela maneira exata.

O próximo ato é cair de boca no churrasco ao som de um programa de música nativa dos Pampas. Uma vingança à Carne Fraca que habita o cotidiano dos brasileiros em geral. E que se dane o colesterol, porque a gordurinha tostada é irresistível e o vinho dilui as incertezas futuras.

Coragem mesmo é mudar o fuso horário e, em busca da imagem perfeita, sair da cama por volta das 6 da matina, enfrentar o friozinho da madrugada partindo, de pilcha e botinas, em busca de ângulos que valorizem o prateado do orvalho que – ainda – molha os campos. O trabalho com o gado sendo apartado para a pesagem e a avalição rende registros de um estilo de vida fatigante, normalmente narrado de forma poética. Não é fácil a vida campeira. Essa conclusão se fortalece a medida em que o dia vai “adelante” e o calor castiga os animais e quem labuta na terra.

A poeira levantada pelas patas dos animais poderia ser apenas um filtro que deixa as imagens mais “doces” se não impregnasse a roupa, as peles suadas dos animais, de quem se dedica ao trabalho da pecuária e – ai de mim -, o delicado equipamento fotográfico.

Nada que não valha a pena quando o resultado do dia no campo ficar guardado, não apenas na memória de quem estava na lida, mas ao alcance dos que, sem passarem por todas as etapas aqui narradas, puderem viver esses momentos visitando os registros que trago de lá…   

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Gente que encontrei por aí… Valéria del Cueto

Fotógrafa,  jornalista e cineastaValéria del Cueto é formada em Gestão de Carnaval pelo Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá.

Repórter, cronista e documentarista é correspondente do Diário de Cuiabá e trabalha como fotógrafa de pista na Sapucaí. Em  2010, convidada pela Mocidade Independente de Padre Miguel,  começou acompanhar a construção dos carnavais no barracão verde e branco.

Estudiosa do processo de realização do carnaval do Rio de Janeiro desenvolve, desde 2011, uma pesquisa fotográfica sobre formato de uso e espacialidade dos barracões da Cidade do Samba.

Atua como fotógrafa da Bateria da Mangueira  e colaboradora do Getty Image.

Veneza

Por Carlos Moreira

Veneza é um imenso romance. E pronto. Foi engendrado em outro mundo. Em outra língua. Veneza inaugura uma linguagem além do barroco, além de Vieira, além-simetrias: o labirinto é um monstro repleto de vazio, o fora próprio da linguagem. Em Veneza nada é, tudo vem e passa sem o estado de presença. A chama seria a forma deste romance, mas uma chama vista através de um espelho d’água. Uma chama apaixonada pela água, amante do fluir cristalino. Daí sua violência. Nada é mais violento que a beleza.
Veneza está em todo lugar que se despreze. Depois de amar. Em todo lugar que anda e que afunda, já que, não existindo o tempo, só o lugar pode afundar. Nessa geografia movediça, nesse lugar nômade, nessa água viva que queima mesmo quando morre, ou ainda mais depois de morta, é que se movem Pierre Bourdon e o Mouro, um claro o outro escuro, um palavra o outro silêncio, um água o outro fogo, um sombra o outro corpo. E que Tao épico-sardônico, que novela sangrenta e hilária eles tecem juntos. Byron e Proust, Chaucer e Nava.
O que potencializa a narrativa é a própria máquina-linguagem, máquina-língua, estrangeira como todos em Veneza, mesmo os lá nascidos. Porque em Veneza tudo é mangue, tudo é plâncton e palavra, tudo nasce da água e morre no fogo primordial. Entre o mestre e o mouro até o silêncio é literatura. Em “Kafka: por uma literatura menor”, Deleuze e Guattari afirmam que “Mesmo aquele que tem a infelicidade de nascer no país de uma grande literatura deve escrever em sua língua como um judeu tcheco escreve em alemão, ou como um uzbeque escreve em russo. Escrever como um cachorro que faz seu buraco, um rato que faz sua toca. E, para isso, achar seu próprio ponto de subdesenvolvimento, seu próprio dialeto, seu próprio terceiro mundo, seu próprio deserto.”
É na travessia desse deserto que se dá “o relato vivo do muito que pensou, sofreu e sonhou o cavaleiro Pierre Bourdon”, numa magistral lição borgeana. Desde a frase inicial, uma das mais geniais enquanto início de um livro, até o desdobramento final, a linguagem se metamorfoseia junto com o narrador: estamos diante de uma imensa literatura menor, muito mais potente de sentido e criação do que supõe nossa Grande Literatura. Ler este livro lança um mundo no mundo, como um jogo de espelhos que vai do dito real até “O nada, o caos e o nada novamente.” Levados pela narrativa de Pierre e na companhia do Mouro, vamos descobrindo o que Veneza é: um grande romance. E ponto.

Túnel do Tempo : filmagem do documentário “Povo Amondawa”

foto : Luiz Brito

Fazendo a fotografia do filme “Povo Amondawa”, do diretor Luiz Brito. produzido entre 1992 e 1997.

A nação indígena Amondawa, ramificação dos Uru eu wau wau,  como tantas outras existentes em Rondônia, foi mais uma das vítimas do avanço da civilização através dos projetos de colonização  ocorridos no estado, a partir do final da década de 70.

Uma das principais características vividas em Rondônia naquela  época foi  o intenso fenômeno da migração trazendo consequências sociais profundas não só para as sociedades indígenas.

O filme documentário “Povo Amondawa”   com 12 minutos registrou um pouco desse processo que teve como meta principal  o progresso a qualquer custo, e que foi maléfico para os Amondawa e outros povos indígenas que não tiveram  tempo e nem direito de se pronunciar como cultura  amazônica no processo.

foto : Luiz Brito

Voa, águia portelense…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Já deu pra ver que não sou boa de previsões. Pensar que só a chuva poderia atrapalhar o espetáculo carnavalesco carioca… São tantas informações que dividirei esse espaço dois lados: o bom e o outro. Como sempre e mais que nunca, lembro que sou uma só e não onipresente. Só posso relatar o que vi.

O lado bom

Vi o rio da Portela levar o campeonato, merecidamente depois de 33 anos, com o enredo “Quem nunca sentiu seu corpo arrepiar ao ver esse rio passar”. É a quarta vitória do carnavalesco Paulo Barros. Foi emocionante.

Quase que a mágica das arábias de Padre Miguel com “As mil e Uma Noites de uma Mocidade pra lá de Marrakesh” surpreende e “rouba” o título. A decisão veio nas notas do último quesito, enredo. Um gostinho especial o carnavalesco Alexandre Louzada levará novamente. A imagem do carnaval 2017 é a do Aladim sobrevoando o Sambódromo no tapete voador. O público foi ao delírio.

Aliás, a festa em Madureira foi dupla. O Império Serrano, campeão do grupo de Acesso, garantiu sua vaga no Especial em 2018. A verde e branca da Serrinha soube explorar as pequenas delicadezas do enredo “ Meu quintal é maior que o mundo”, sobre o poeta pantaneiro Manoel de Barros. Neguinho, por uma janela, espiava todo o imaginário de seu universo poético passeando pela Sapucaí. Chorei.

Se o enredo sobre Xingu não deu o resultado esperado pela Imperatriz Leopoldinense, a comissão de frente, por exemplo (que achei maravilhosa), não teve boas notas, tribos povoaram a Beija-flor e, imponentes, índios guardavam a coroa imperiana no abre-alas.

Vi o Salgueiro na terceira posição após sua presidente, Regina Célia, avisar que sua escola não entraria se não houvesse uma limpeza no piso. A Vila Isabel perdeu o tom do “Som da Cor”, teve problemas e derramou óleo na pista. Ah, “A Divina Comédia do Carnaval”, em que uma mulher tem coragem para peitar o regulamento. Isso não aconteceu nem quando a Paraíso do Tuiuti e a Unidos Tijuca socorriam as vítimas dos lamentáveis acidentes ocorridos diante do público do Setor 1, na armação.

Vi a reação do povo da Mangueira, quarta colocada graças a travada do carro de São João, o da cantora Alcione. Fez um buraco que nem com a ajuda do santo (que, afinal, costuma ser justo) poderia deixar de ser “canetado” nos quesitos evolução e harmonia.  Torcendo no Palácio do Samba a comunidade aplaudiu, ao final da apuração, o campeonato da coirmã de Madureira. Mais uma vez, fotografei a empolgante passagem da verde e rosa e, especialmente, a bateria. Um privilégio carinhoso proporcionado pelos Meninos da Mangueira!

Vi Ivete na Grande Rio passar duas vezes, igualzinho Fafá de Belém, em 2013, no enredo sobre o Círio de Nazaré. Foi também na comissão de frente, onde ela atuou, que a escola de Caxias perdeu alguns preciosos décimos. A bateria foi penalizada, a velocidade do samba pipoca acabou provocando a perda de outros décimos. Ficou em quinto.

A Beija-Flor foi a sexta colocada e abrirá o desfile das Campeãs. A escola de Nilópolis tentou inovar criando tribos misturadas em vez de alas definidas entre os setores. A novidade não agradou aos jurados que pegaram pesado inclusive no quesito enredo, baseado em Iracema, clássico de José de Alencar!

O outro lado

Não, não havia nas dependências do sambódromo os mesmos cuidados de finalização de anos anteriores. Caí no vão entre a porta e a escada mal ajustada da sala de imprensa; desdobrei a atenção com cabos estendidos no corredor para a torre de transmissão (sem a proteção nos dois primeiros dias, os do grupo de Acesso); a pintura da pista não havia secado até o início das apresentações do Grupo Especial…

Abrindo o desfile no domingo, a Paraíso do Tuiutí protagonizou o primeiro desastre. O último carro alegórico bateu nos dois lados da armação, atropelando quem trabalhava no local! Apesar da gravidade, a ordem foi não interromper o espetáculo.

Quem crê que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, reveja seus conceitos. Na mesma Armação    despencou, com mais gente ferida, a parte superior de outro carro alegórico. O de News Orleans, da Unidos da Tijuca, na segunda-feira. Novamente, apesar da seriedade do acidente, foi ordenado que o desfile continuasse. A expressão dos torcedores no Setor 1 dava noção da perplexidade do público. Imaginem o clima dos componentes da escola do Borel.

Outros episódios lamentáveis para a credibilidade do Desfile do Grupo Especial comprometeram o evento. Apesar da justiça no topo das classificadas, o julgamento está definitivamente em cheque. As notas da União da Ilha, São Clemente e Imperatriz Leopoldinense não corresponderam ao que foi apresentado. Para coroar os equívocos, representantes das agremiações decidiram que não haverá rebaixamento. Surpreendentemente a Unidos da Tijuca ainda conseguiu notas mais altas que a Paraíso do Tuiuti! Última colocada acabou, por tabela, sendo beneficiada pela “anistia”.

A inabilidade do prefeito Marcelo Crivella expôs sua falta de jogo de cintura para transformar limão em limonada. Perdeu a chance, ao recusar a missão de entregar as chaves da Cidade Maravilhosa para o Rei Momo, de anunciar que abdicaria do privilégio para, simbolicamente, passá-lo à uma legítima herdeira do povo do samba, a neta de Cartola,  mulher e negra! Nilcemar Nogueira é Secretária Municipal de Cultura e acabou fazendo papel sem as honras que merecia, após o alcaide fazer forfait e não comparecer no(s) horário(s) marcado(s) para a cerimônia tão simbólica para os cariocas.

Para o bom entendedor…

Não dá para terminar essa narrativa carnavalesca, assim, pra baixo. Ficou para o final as palavras de Luis Carlos Magalhães. Ele entrou para a história do carnaval ao assumir a direção da Portela depois do assassinato de Marcos Falcon. Como a águia, planando sobre as adversidades, a levou ao tão sonhado campeonato: “A vitória não é só da Portela é de todas as escolas… Mais importante que a vitória da Portela é levantar a bandeira do samba, da cultura brasileira!”

 *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Transmissão do Desfile das Campeãs: TV Brasil e Viva.   

Ordem dos desfiles: Beija-flor, Grande Rio, Mangueira, Salgueiro, Mocidade e Portela.

Gente que encontrei por aí…Fernando Valdívia

Comunicador social e cineasta peruano, Valdívia trabalhou com The Field Museum, Calandria, TV Cultura e audiovisual Chaski em projetos comunitários que promovem a soberania audiovisual na América Latina. Ele foi diretor dos programas ecológicos Te Quiero Verde e National Geographic, o PNUD, a COICA, Deutsche Welle, ARD, Channel 4, DFID, Save the Children, WWF, The Nature Conservancy, Organização Mundial da Saúde, a CARE, Real TV, Ethno Medicina Projeto de Preservação, Jean Michael Cousteau – Ocean Futures Society, Drets dels Pobles Lliga dels.
Desde 1997 é diretor da Teleandes Productions , tendo produzido os documentários “Searching for the blue”, “Crossing chumpi”, “Shipibo, o filme da nossa memória”, “Iskobakebo, um encontro difícil”, “povos da Amazônia e Mudanças Climáticas”.

No carnaval do Rio não há crise… de alegria.

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não adianta chororô, nem mimimi. Pode ter crise econômica, protesto do “agro” e mudanças no regulamento. É do jogo. Nada atrapalhará a maior festa popular do mundo. A única coisa que não pode ser prevista nem contornada é a chuva. Ela, sim, um imponderável sem possibilidade de controle. E há previsão…

As novidades de 2017 começam na estrutura do espetáculo definida pelas alterações no regulamento da Liesa, a Liga das Escolas de Samba, para este carnaval. Menos tempo de desfile, agora são 75 minutos para cada agremiação. Um carro alegórico a menos, são 6 por escola. Menos paradas para apresentações para os julgadores, apesar de continuarem existindo 4 cabines de julgamento, as duas centrais estão no mesmo ponto. Um novo horário, agora começa às 22 horas a festa no Sambódromo Darcy Ribeiro, a mítica passarela carnavalesca carioca, na Marquês de Sapucaí.

Infelizmente quem vê o desfile pela televisão continuará sem assistir a íntegra da apresentação das primeiras agremiações. E olha que as alterações se justificavam justamente para que, ao contrário do ano passado, as escolas que abrem a festa no domingo e na segunda-feira de carnaval pudessem ser transmitidas para o Brasil e o mundo. Serão, mas parcialmente.

Domingo é dia de índio, música e comédia

No domingo o Paraíso do Tuiti, campeão da Série A do Acesso, abre o Desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro. “Carnavaleidoscópio Tropifágico”, enredo de Jack Vasconcelos, homenageia o Movimento Tropicalista. O carnavalesco já avisa: “o enredo não é político”.

A levada continua musical, porém, levantando a poeira do Axé da baiana Ivete Sangalo na única homenagem a uma personalidade deste ano. A Grande Rio vem com “Ivete de rio a Rio”. A proposta de Fábio Ricardo passeia pela vida da cantora.

Quando, no início do ano, videntes disseram que a Grande Rio, a Beija-Flor e a Imperatriz Leopoldinense estariam no páreo para o título de 2017 foi uma surpresa. Para começar, as três desfilam no domingo e, de 2.000 para cá, apenas a Vila (2006) e a Tijuca (2010) ganharam o título no primeiro dia de competição. A campeã costuma sair das escolas que se apresentam na segunda-feira.

Logo depois, a polêmica provocada pelo “Belo Monstro” e outros detalhes do enredo da Imperatriz Leopoldinense a colocaram em evidência. Xingu, o clamor da floresta” desagradou o agronegócio. Foi bravamente defendido por seu criador Cahê Rodrigues que, com o apoio do presidente Luizinho Drumond e da comunidade, manteve o projeto original. A tentativa de censurar ou modificar a proposta acabou saindo pela culatra. Popularizou o tema, mexendo com os brios dos componentes da escola de Ramos. Índio quer espaço e, se isso divide opiniões, a Imperatriz contrabalança com uma unanimidade: o retorno de Luiza Brunet como Musa à passarela do samba.

“Vila, azul que dá o tom da minha vida…” o enredo “O Som da Cor“, de Alex de Souza produziu um dos melhores sambas do ano, interpretado por Igor Sorriso e a Suingueira de Noel. A escola tenta se reerguer após chegar a anunciar que não participaria do carnaval por ter tido suas contas bloqueadas na justiça ano passado. Vem prometendo Kizombar.

O Salgueiro continua por ali. Loucos para “morder” mais um título, Renato e Márcia Lage desenvolvem o enredo “A Divina Comédia do Carnaval” enquanto, nos bastidores, se comenta que o carnavalesco teria fechado com a Unidos da Tijuca para o próximo ano.

A noite termina com a Beija-Flor e “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”. Uma das novidades da comunidade nilopolitana será a ausência de alas, já adiantou Laíla, coordenador da comissão de carnaval. Um alerta. O samba, puxado por Neguinho da Beija-flor, é um chiclete daqueles que não sai da cabeça nem os sonhos mais exaustos de quem voltará para a Sapucaí para o segundo dia de desfiles…

Mangueira em busca do bi campeonato

Marrocos aos USA nos rios do tempo da simpatia Pensar mal disso? É segunda!

O carnavalesco Severo Luzardo estreia no Grupo Especial apresentando o passado, o presente e o futuro sob a ótica africana do candomblé da nação de Angola, dos povos Bantos, “puxado” por Ito Melodia, no enredo “Nzara Ndembu – Glória ao Senhor Tempo“.

Depois da festa de encerramento das Olimpíadas, Rosa Magalhães se debruçou sobre a preparação do carnaval da São Clemente. Tenta falar aí: “Onisuáquimalipanse” Traduzind o: Envergonhe-se quem pensar mal disso. E vamos esperar para ver o que a carnavalesca campeã das campeãs trará para a Sapucaí.

Abre-te Sésamo que o samba ordenou: vindo lá do Marrocos de Padre Miguel, “As Mil e Uma Noites de uma ‘Mocidade’ prá lá de Marrakesh”, apresenta um ótimo samba para embalar o enredo das arábias de Alexandre Louzada e Edson Pereira.

A vice-campeã de 2016, Unidos da Tijuca falará sobre música, a americana. “Música na Alma, Inspiração de uma Nação”, e dá-lhe variedade! A sinopse do enredo da comissão composta por Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo, tem até um glossário para explicar termos e estilos musicais dos USA.

E aí, vem a Portela, num ano conturbado com a morte de seu presidente Marcos Falcon. O vice, Luis Carlos Magalhães teve que se desdobrar para administrar o projeto de carnaval. Já em 2017, por exemplo, foi trocado, por exigência do carnavalesco Paulo Barros, o comando da comissão de frente! Mesmo antes do desfile, seu enredo já é realidade para os portelenses: “Quem nunca sentiu seu corpo arrepiar ao ver esse rio passar”. As chances de um bom resultado aumentam com o fim do mandato de Eduardo Paes, portelense assumido e um pé-frio daqueles. Em 8 anos de torcida e apoio declarado a escola de Osvaldo Cruz não conseguiu chegar ao título.

A última escola a desfilar confirma a regra por ser exceção. Só os mangueirenses mais apaixonados apostavam no título conquistado em 2016 pelo jovem carnavalesco estreante no Grupo Especial, Leandro Vieira. Diante das previsões dos videntes, novamente, ele corre por fora. Nascido e criado para vencer demanda, cercado de todas as proteções imagináveis, conta com muita força lá de cima! Leandro avaliou suas possibilidades de chegar ao bicampeonato até no título do enredo verde e rosa. “Só com a ajuda do Santo”.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Ordem dos desfiles:

Domingo: Paraíso do Tuiuti, Grande Rio, Imperatriz, Vila, Salgueiro e Beija-flor

Segunda: Ilha, São Clemente, Mocidade, Unidos da Tijuca, Portela, Mangueira

Gente que encontrei por aí…Nair Benedicto

Ela é da pesada… Escolhendo dar voz às minorias, violência contra a mulher, o homossexual, o menor de rua e o índio são presentes nas imagens.  Nos seus 43 anos de profissão, Nair Benedicto, uma das maiores fotógrafas deste país, tem em sua obra um viés político que integra os acervos dos museus de arte moderna do Rio de Janeiro (MAM) e de Nova York (MoMa), entre outros.

Nesses tempos difíceis conviver algumas horas com uma pessoa desse naipe é um bálsamo para o cérebro, é como ela mesmo diz em sua fantástica palestra : “não desistir de si mesmo”.

Por tudo, obrigado Nair.

Louvação a Iemanjá na Praia Grande
Santos-SP
1978
Crédito: Nair Benedicto/N Imagens

Me engana !

Texto e foto de Valéria del Cueto

A lua cheia – que a tudo ilumina e renova –  chegou para banhar entre as grades da janela a cronista reclusa e encontrou uma mensagem:

“Me engana e diz que não enxergo bem, que a miopia rouba os contornos, tira a definição e deturpa as imagens que meus olhos insistem em registar.

Me engana! E explica que através das lágrimas não vejo o fim do tempo da delicadeza e da esperança.

Me engana e jura de pés juntos (mesmo que certamente com os dedos cruzados nas costas) que a brutalidade e a violência são apenas uma miragem incrementada pelo gás lacrimogênio. O gás jogado contra os que protestam por seus mais legítimos direitos, inclusive membros da mesma corporação.

Me engana e explica como as forças da lei atiram aqui!  E ali retiram seus homens deixando os cidadãos a mercê da bandidagem…

Me engana afirmando que os que surrupiaram os sonhos, venderam nossa tranquilidade, tentam (inutilmente) sufocar a vontade de todos, não são os mesmos que hoje desprezam nossos direitos e tramam para vender o bem maior. Água é vida!

Me engana e diga que nós, que votamos obrigados entre o pior e o tão ruim quanto, somos os culpados por elegermos os bandidos quesurrupiam nosso patrimônio depois de sugarem qual vampiros nossas riquezas.

Me engana, por favor, mais uma vez e afirma peremptoriamente que é legítimo, moral e ético!

Os mesmos vendilhões e aproveitadores responsáveis por abrirem a porteira da ladroagem, mandarem às favas a Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovarem o RDC – Regime Diferenciado de Contratação, as LOAS e LDOS,  Leis de Diretrizes Orçamentárias, se locupletando e  incentivando a corrupção, são aqueles que (apesar de terem seus nomes citados nas delações premiadas  de empresários corruptos, serem  indiciados e covardemente protegidos pelo foro privilegiado de seus mandatos e, claro,  também questionados por tretas mis)  negociam a venda da CEDAE, a companhia de água e saneamento do Rio de Janeiro.

Me engana. Mas faz isso direito! Porque a minha, a nossa paciência está esgotada de tanta devassidão podridão. E, se depender da minha vontade não serei mais vítima de tanta vilania.

Serei seu algoz! Não tenho mais nada a perder…

Não me lembro de ter dado autorização para vocês venderem o meu futuro para pagarem os altos custos da incompetência e da falta de vergonha na cara.

Também não me lembro de ter passado uma procuração em branco para quem aprovou as suas contas e autorizou seus orçamentos megalômanos e descompensados. Portanto, não passei recibo nem dei moral para seus cúmplices abjetos.

Me engana, mas engana direito! Como foi feito com os órgãos que tinham a obrigação constitucional de defender e resguardar os interesses da Sociedade. Sigla, só siglas sem sentido e de pouca valia. A não ser na hora de levar seu “quero o meu”. Bancadas com os recursos dos impostos pagos pelo povo…

Me engana! E engana agora porque cheguei ao meu limite. Com todas as forças do meu conhecimento constitucional pleiteio um plebiscito para saber se o povo do Rio de Janeiro aceita entregar a CEDAE para pagar o rombo alheio.

Me engana, mas engana direito senão vou te devorar! Exatamente como você fez com os sonhos. Os meus e os de um povo inteiro!”

*Uma quinta-feira de TV ligada e a cronista (que estava quase concordando em se dar alta) teve um surto delirante. De seu reduzido espaço, entre as barras da janela, jogou a mensagem e a chave da cela para a Lua. Esta, depois de ler o recado, achou por bem não contrariar.  Jurou guardar o tesouro e garantir a sanidade da amiga. Mas não resistiu. Distribuiu aos quatro ventos em todas as suas fases o desafio lançado da mensagem: Me engana!

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

 

Do mural de Alberto Lins Caldas

em silencio

● assim como os olhos dos morcegos ●
● são cegos pra claridade do dia cegos ●
● são os olhos dela clitemnestra ●

● q esqueceu q a morte do homem ●
● clama irresistivelmente pela morte ●
● da mulher na balança das putas moiras ●

● ela clitemnestra não se matou ●
● agamenon rei é quem foi morto por ela ●
● o corpo torcido retalhado por espadas ●

● vejam medeia q matou jasão ●
● quando degolou os dois filhos e bem viva ●
● ficou com aqueles olhos q brilhavam ●

● quem sabe de ajax com a espada ●
● no coração no centro daquela praia ●
● pode compreender e não deixar passar ●

● assim como os olhos dos morcegos ●
● somos todos cegos demais pra claridade ●
● enquanto devoramos treva com treva ●

● a morte gloriosa deve ser aceita ●
● jamais caçada como se vai ao mercado ●
● em busca de frutas verduras e carnes ●

● espartano ou não o guerreiro se mata ●
● apenas sob os golpes frios da desonra ●
● enquanto vamos digerir treva com treva ●

● assim perdemos a sombra como a pele ●
● queimada se descama menos clitemnestra ●
● q dança nua e ri nessa noite tão opressa ●

● nela não ha a dor dos infortunios ●
● aquilo idiota destroçado foi so um marido ●
● fiquemos aqui no mercado de boca calada ●

● foram treva com trevas demais trituradas ●
● marcadas pela infamia ou pela loucura ●
● não nos cabe mais dizer o caminho ●

● nem mesmo a morte depois da vergonha ●
● vivemos outro tempo outras tantas razões ●
● engoliremos mais essa treva em silencio ●

*

Do mural de Cintia Duarte Montilla

Por Cintia Duarte Montilla

– Esconde esse absorvente
Essas espinhas
Arranca esses pelos
Da um jeito nesse seu cabelo duro
Mal cuidada
Porca

Feche esse sorriso
Sua mãe não te ensinou
Sobre o perigo de andar sorrindo na rua?
Abaixa essa cabeça
Para de encarar
Você esta chamando atenção
Assim vão achar que você esta dando mole

Delicia
Gostosa
Oh la em casa
Fecha essa boca e não reclama
Saiu de casa de saia curta
Camisa decotada
Maquiagem
Sem um homem
Tem que aguentar

Como assim não sabe cozinhar?
Você é mulher
Tem que cuidar do lar
Como assim não quer engravidar?
Você é mulher
Tem que engravidar

Faculdade? Viagem?
Mas você é mãe
Tem que cuidar
Abriu as pernas, agora não adianta
Largar na creche
Irresponsável

Mãe solteira?
O pai foi embora?
Não sabe quem é o pai?
Transou sem camisinha
Vai ter que aguentar
Vadia

Esse roxo ai
Tenho certeza que apanhou
Que teu marido te bateu
Mas você mereceu
Provocou ele
Você sabe que não pode se levantar
Mulher tem que ser submissa
O homem é que comanda o lar

Ah, mas que criança linda
É uma menina?
Toma aqui esse vestidinho rosa
Essa coberta de florzinhas
Pinta o quarto de rosa
Um rosa bem bonito
Porquê mulher é monocromática durante a infância

Ih, chegou a menarca
Essa vai dar trabalho
Ensina pra ela a se valorizar
Mulher tem que se dar ao respeito
Fala pra ela não deixar ninguém ver esse absorvente
Esse sangue sujo

Vai ter que começar a usar sutiã
Os mamilos estão aparecendo pela camisa
Que coisa horrível
Adolescente descuidada
A mãe dessa ai não ensinou nada

Foi estuprada?
Morreu no processo?
Devia estar pedindo
Sem sutiã, andava sozinha
Aquele batom vermelho
Aquela bunda enorme
Não sabe que menina tem que ficar em casa?
Deu sorte pro azar

Não foi educada
A mãe era solteira
O pai estava é certo de ir embora
Se ela era assim com a filha, imagine com o marido

Não foi respeitada
Opressão?
Imagine

Olha lá a mãe dela
Na beira do caixão
Olhando pro rosto da filha
Sem cor, sem vida
Um futuro morto antes mesmo do nascimento
Filha de mãe solteira
Sem pai, sem respeito

Morreu tão jovem
Aos 17
Uma menina tão linda
Maldita sociedade
Espero que a mãe dela aprenda a lição
E não tenha mais filhos

Suicídio?
Mas ela poderia ter começado uma vida nova
Agora que tinha perdido a filha
Poderia terminar a faculdade
Arrumar um emprego
Mas era uma fraca
Era mulher
O destino, a vida, as possibilidades
As pessoas
Cavaram a cova e jogaram ela lá dentro

Vitimismo? Preconceito?
Abuso? Agressão?
Cala essa boca e vai lavar uma louça
Você tem uma delegacia só sua
Tem seus direitos
Não luta na vida
(Mas luta na rua)
Não morre na guerra
(Mas morre em casa)

Arquitetura em Porto Velho

Por Giovani Barcelos

A arquitetura de Porto Velho merece uma discussão mais aprofundada, pois mistura estilos americano, inglês, europeu e, claro, local, com suas características vernaculares riquíssimas. Faço aqui uma colocação bem superficial, devendo ser aprofundada com tempo.
A arquitetura de Porto Velho começou o seu caminho com a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Construções em madeira, adaptadas ao clima da região, fazem parte das primeiras imagens da cidade, somando-se a construções efêmeras executadas para dar suporte à construção da linha férrea. No meu entender, de alguém que mora aqui há pouco tempo, sem as láureas de muitos que tratam disso, é a principal referência de arquitetura local, somando-se aos ribeirinhos, com suas casas também em madeira totalmente adaptadas ao local.
Depois desse momento, mais local e adaptado à região, temos os estilos tardios que construíram a imagem arquitetônica que a maioria tem da cidade. Chamo de estilos tardios, pois quando chegam aqui no século XX, já não são mais os estilos utilizados nos locais que servem de imagem aos que aqui chegam. Nesse conjunto, destaco os prédios com referências neoclássicas e ecléticas. Ainda fazem parte dos estilos utilizados no Brasil no século XX o neocolonial, ainda guardando as raízes da colonização brasileira e sendo um dos estilos utilizados por Lúcio Costa antes de aderir as linhas modernas. Anterior ao modernismo temos o Art Decó (presentes em prédios na Av. Sete de Setembro) e o Protomodernismo (que observamos no Prédio do Relógio e na Escola Carmela Dutra).
A arquitetura contemporânea em Porto Velho não possui uma linha de elementos que possam caracterizá-la. Existem construções que seguem modismos com fachadas envidraçadas, inclusive voltadas para o oeste, bem como edificações que já estariam prontas, mas o profissional insiste em encher de elementos, enfim, exageros. Gosto da arquitetura residencial produzida aqui, pois mescla soluções que se adequam à região. Os conjuntos habitacionais, assim como em outras cidades, se proliferam, onde a quantidade não é acompanhada pela qualidade.
A fase mais rica que considero da arquitetura Portovelhense refere-se ao período associado a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, mas é uma discussão para outra oportunidade.

Colisão

Texto e foto de Valéria del Cueto

Olhando o navio sem conseguir distinguir onde começa a laje e por onde se estende o mar, Pluct Plact, o extraterreste, se prepara para fazer sua primeira visita do ano à sua parceira preferida, a cronista. Reclusa do outro lado do túnel. Num lugar onde a única visão exterior é a lua que, durante alguns dias do mês, derrama seus raios pelo vão da janela da cela onde está voluntariamente (vamos deixar bem claro), alojada. Cansou do mundo. Simplesmente.
Como você já deve saber, o extraterrestre veio em missão de re-conhecimento e acabou preso na atmosfera, onde se movimenta aos pulos, batendo e rebatendo a lataria cibernética de sua nave na poluição da camada de ozônio. Ela o impede de prosseguir viagem em direção a outros universos e galáxias.
Pode dizer. É muito tempo para ficar sem dar notícias. Mas, pensando bem, foi melhor assim. Melhor porque só fica pior. É cada coisa que acontece…
Como meta de ano novo tinha se proposto a só chegar pela janelinha deslizando pelo brilho do rastro da lua, quando tivesse algo realmente empolgante e alvissaro para narrar para sua querida cronista. Depois do grand finale de 2016, com aquela incrível sequência de partidas, as coisas bem que poderia cair na normalidade.
Opa! Aí, talvez, more o problema. A normalidade anda uma verdadeira aberração. E está sobrando para todos os lados. Não há trégua nessa luta dos rochedos com os mares, males e ondas traiçoeiras. A barra está pesada e o calor também. É tanto que não dá para ir à praia. Os raios UVs estão nas alturas, prometendo derreter e adoecer até as peles mais curtidas. É melhor não facilitar.
O perigo também mora nos bondes. Não dá para andar atoa por aí. Virou moda uma modalidade de “ocupação” de espaços. Primeiro nas praias, com horários mais ou menos definidos. Depois vieram a ampliação dos períodos e o aumento da área de abordagem: ônibus, ruas, estabelecimentos, o metro…
Na outra ponta, a que deveria mostrar que o crime não compensa, reina a barbárie. É guerra de gente grande manipulando e matando gente pequena. E não tem João Batista livre de condenação pelos grupos opositores. De Norte a Nordeste e dali para baixo corre o sangue das penitenciárias superlotadas. Facções lutam por espaços cada vez menos guardados e protegidos pelos responsáveis.
Os próprios e muitos outros sufocados e estrangulados pela falta de pagamento e condições de trabalho. Pezão, no Rio, só não fechou a porta do estado e jogou a chave fora porque falta depenar o pouco que restou da rapação patrocinada por seu guru e colega de primeiro escalão, habitante do Complexo de Bangu, Sérgio Cabral. Ah, Cedae, Cedae. Água é vida e é ela que saíra das mãos do Estado do Rio para pagar a bagaceira que ninguém pretende consertar. Aliviar e olhe lá…
O que tem visto é inenarrável. Não dá para contar para a amiga tudo de uma vez, na lata. É informação demais.
A ideia era parar por aqui e sobrar uns parágrafos para fazer um carinho na reclusa. Não deu.
Falta lauda para tanta informação nefasta. A última é a queda do avião bimotor que levava o Ministro do Supremo Tribunal Teori Zavascki para Paraty, com o dono de um empreendimento hoteleiro, o piloto e outras duas vítimas. Teori era o relator dos processos relacionados a Lava Jato. No momento, analisava e ia homologar em fevereiro, depois das férias forenses, os acordos de delações premiadas dos executivos da Odebrecht. Elas envolvem mais de uma centena de nomes de políticos dos mais variados matizes…
A região da queda remete ao desparecimento do helicóptero com Ulisses Guimarães, Dona Mora e o casal Severo Gomes. O avião lembra o acidente de Eduardo Campos. Os motivos? Poderiam ser associados a várias ocorrências inexplicáveis. De JK a Celso Daniel. Ou ter sido apenas um trágico acidente.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com