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É coisa de cinema!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dizem que a cereja do bolo deve ser o último bocado a ser comido. Difícil decisão já que ela está ali, no prato, olhando pra gente e se fazendo de sedutora desde que o bolo é bolo…

Em relação a Torino, Itália, uma dessas cerejas é, sem dúvida, o Museo Nazionalle del Cinema localizado na Mole Antonielliana, no centro Histórico da cidade.

O prédio, quem diria, foi construído para ser uma sinagoga. Em 1848, Carlos Alberto de Savoia assina o Estatuto Albertino que libera os cultos não católicos e em 1863 começam as obras do templo encomendado pela comunidade judaica, conforme o projeto de Alessandro Antonelli. Previsto inicialmente para ter 47 metros, com várias alterações sofridas, hoje tem 167 metros de altura. Por muito tempo foi edifício mais alto da Europa. É  um símbolo da “Cittá di Torino”.

A Mole Antonielliana com seu estilo neoclássico oitocentista proporciona dois grandes espetáculos. Um é a vista para quem sobe até o terraço nos elevadores panorâmicos. Tanto a externa que permite uma visão em 360 graus da cidade, como a interna durante a subida e descida. A impressão é estar num prédio de Gothan City onde, em alguns momentos, haverá um embate entre o Morcego Negro e o Coringa. Mas o interior da Mole tem mais, muito mais.

O projeto do Museo Nazionalle del Cinema começou em 1941 em pleno regime facista que impulsiona o cinema italiano, cria os estúdios da Cinecittà… A base da coleção é da estudiosa da história do cinema Maria Adriana Prollo. Sua história se mistura a do Museo, fundado em 27 de setembro de 1958. Em julho de 2000 é inaugurada sua nova sede, um projeto do arquiteto Gianfranco Gritella, com concepção interna do suíço François Confino, ocupando toda a Mole Antoniellina.

E é aí que mora o segredo que transformou o local num dos mais visitados de Torino e da Itália, com recordes sucessivos de público na última década. São 3.200 metros quadrados distribuídos em 5 pavimentos que apresentam não apenas a história do cinema…

Para começar, é preciso entender o processo que permite a “invenção” da imagem em movimento. Desde os rudimentos da ótica, até a criação das máquinas que permitiriam a nós, a criação da chamada sétima arte.

Após a fabricação dos aparelhos de movimentar as imagens outras etapas se apresentam entre a transformação de instrumentos artesanais no que viria a ser a indústria cinematográfica, uma marca do século XX.

Dissecando o processo cinematográfico em todos os seus aspectos técnicos de modo didático (como roteiro, stoyboard, produção, filmagem, som, imagem e, finalmente, edição) nos corredores da Mole o visitante descobre e identifica o longo processo produtivo necessário para fazer um filme.

O Museo também homenageia de forma muito equilibrada os mais famosos cineastas do mundo: americanos, europeus e asiáticos, com um destaque merecido para, por exemplo, o grande diretor italiano Federico Fellini.

O passeio termina num grande espaço, onde estão apresentadas, de forma interativa, cenários e ambientes reconhecidos nas telas. Uma grande brincadeira, depois de uma aula muito séria sobre a fantástica indústria cinematográfica.

Dois detalhes: um italiano desaconselhou a visita ao Museo “por que tem muitas fotos de gente que nunca vi nem ouvi falar”. Certamente, ele não era um cinéfilo. Uma das brincadeiras mais legais no passeio é, justamente, reconhecer entre as imagens filmes e ícones do mundo do cinema.

O segundo detalhe foi a frase escrita numa das salas: “…uma pequena máquina/ que revela aos nossos olhos tamanhas maravilhas/ e graças ao cristal ótico/ faz com que as imagens marchem como cavalos/ Muitas vezes vemos esses dispositivos/ Multiplicados com seus inventores/ E especialmente no carnaval as pessoas chegam/ perto e ficam loucas ao vê-los. – Carlo Goldino – Il Mondo Novo.

Ou seja: carnaval e cinema sempre andaram juntos. E assim será em 2014. Feliz ano novo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Parece… E não é que é?

Torino 1311 03 026 Sayang Ku colar pregador de roupa Texto e fotos de Valéria del Cueto

Alguns movimentos são inquestionáveis na história da humanidade. Eles se alternam ao longo dos períodos: o egocentrismo e o teocentrismo, o universal e o individual e assim por diante…

No mundo de hoje esse movimento, que antes acontecia de uma forma mais lenta, alcança uma velocidade exponencial. Um exemplo? Outro dia a onda era a globalização e nos enquadramos nesse tsunami de forma tão completa que, em alguns setores, já podemos observar um movimento em sentido inverso.

Quem viaja tem uma grande chance de observar in loco essa “teoria”. Em alguns momentos é muito bom que haja um padrão de comportamentos. Cansa menos. Os aeroportos, trens e outros meios de transporte são  exemplos em que a uniformização gera enormes facilidades para seus usuários.

A regra deixa de ser confortável quando, por exemplo, ao passear por outras terras nos deparamos sempre com as mesmas lojas e possibilidades de compras, onde o padrão shopping/franchise nivela e iguala todos os lugares. Graças a Deus, nem sempre por baixo.

Mas, afinal, qual é a graça de ver as mesmas vitrines, os mesmos produtos em todas as ruas mais famosas, assim  como no shopping center ou o mall ao lado da sua casa?

Tem gente que não acha graça nenhuma nesse status quo  e transforma seu roteiro numa tentativa de fugir dessa mesmice. Mas é difícil! Na verdade, um grande desafio. Ainda mais quando não ha tempo de explorar de forma mais profunda os atrativos oferecidos nas viagens turísticas pinga-pinga.

Turin, Veneza, Verona, Milão: Prada, Hermès, Zara e assim por diante… Ou não?

Nem sempre, se há uma intenção objetiva de procurar não as semelhanças, mas valorizar as diferenças! É assim que verdadeiros tesouros ser apresentam, (normalmente em lugares menores, situados em ruas transversais), no entorno das áreas de maior circulação.

Partindo desse princípio na Itália, em Verona, no Veneto, pra quem gosta de gastronomia já foi citado o restaurante Enocibus.

Em Torino, Piemonte, foi numa bateção de pernas  exploratória que surgiu a loja 71/1000 (settantunmillesimi) de montagem de bijuterias com milhares de opções de peças, vitrilhos, tipos de fios e outros acessórios para quem quer ter a certeza que não entrará num lugar com um adorno de uma marca famosa, correndo o risco de virar elemento de composição, por exemplo… de um par de jarros.

Na mesma área, na mesma ruela de uma sensacional loja de bonecas de porcelana feitas a mão, outra surpresa. Essa bem original.

A Sayang Ku é uma loja de acessórios. E seria mais uma não fossem os originalíssimos objetos que compõe os adornos expostos, para lá de divertidos: pregadores de roupa, tampas coloridas de caneta Bic, lápis de cor, (aqueles bem miúdos). Isso tudo “reinterpretado” como brincos, colares, pulseiras…

Uma grande ginástica criativa que, como uma brincadeira, transforma uma coisa em outra.

Imaginem bolsas de teclados de computador! Pois são charmosíssimas. E colares feitos com zípers coloridos? É impossível não se surpreender com a criatividade da design que consegue transcender o objeto utilizado e, reutilizá-lo dentro de um contexto diferente, com uma nova concepção.

Para quem viaja procurando singularidades são trabalhos como esse que estimulam, inclusive, uma forma alternativa de encarar o simples ato, tão corriqueiro e apreciado, de viajar no que todo mundo “olha”, mas pouca gente “vê”…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.comTorino 1311 03 013 setantumilesimi colares

Naquela janela, é ela?

Texto e foto de Valéria del Cueto

É ela, a janela e seu balcão, o maior destaque turístico de Verona, a cidade italiana que teria sido fundada pelos celtas sabe-se lá quando e, em 89, viraria colônia romana.

Fica incrustrada numa vila da Via Capelo, onde morava  a doce Julieta, a enamorada de Romeu. Dali a jovem escuta umas das mais célebres juras de amor da literatura. É por ali que sobe o amante apaixonado e, no quarto, após uma noite juntos, ouve da amada os famosos versos de William Shakespeare: “Já vai embora? Mas se não está nem perto do amanhecer! Foi o rouxinol, não a cotovia que penetrou o canal receoso do teu ouvido. Toda noite ele canta lá na Romãzeira. Acredite-me, amor, foi o rouxinol.”

Hoje o pátio da vila é quase um cenário de Disneylândia e o coitado do Romeu jamais poderia encantar sua amada com suas palavras no meio da multidão que acorre ao lugar. Ele certamente também não ia gostar dos homens que tiram foto pegando nos seios da estátua que homenageia sua amada. Corria o risco de ter outras ordens de prisão contra ele, como a que desencadeia a tragédia teatral!

É muita gente de todos os lugares do mundo lotando o pequeno espaço e procurando novos ângulos para fotografar os mais incríveis tipos de turistas que passam pelo balcão, mediante uma módica quantia para entrar na casa.

É uma injustiça que essa seja a referência mais comum ao se falar de Verona, próspera capital do então ducado Lombardo, detentora de tesouros artísticos e declarada Patrimônio Histórico da Humanidade por sua arquitetura e urbanismo integrado.

Não é só centro da área histórica, onde se destaca imponente a Arena Romana e outras preciosidades, que guarda tesouros artísticos e points gastronômicos e de compras fora do circuito da via Manzzini.

Basta sair poucas ruas para fora deste miolo para descobrir lugares como o Enocibus, surpreendente restaurante, na Vícolo Pomodoro, uma ruela silenciosa no entorno da zona nervosa e sempre lotada de animados grupos turísticos que passam como ondas.

A surpresa começa pelo fato de sermos recebidos depois da hora de fechar, normalmente às 3 da tarde. Foi apenas uma tentativa (de sucesso), entrar e perguntar se ainda atendiam naquele horário, a porta para um tratamento quase incomum de acordo com a conhecida fama italiana de mal tratar os clientes, quase como no Bar Lagoa, no Rio de Janeiro. A simpatia do casal é deliciosa e a formalidade fica de lado num ambiente acolhedor e bem decorado. Tudo isso deixa a comida e o vinho típico da região ainda melhor, se é que isso é possível…

No quesito obras de arte, Verona, deteve, por um período, a supremacia artística de toda a península italiana (Verona é incorporada a Itália em 1866). As obras estão espalhadas por excelentes museus, caso do castelo medieval que abriga o Museo di Castelvecchio, um passeio por diferentes períodos do romano ao medieval e romântico. (Depois de pencas de representações com temática religiosa como virgens, anjos e cenas sacras, é instigante se deparar com o quadro “Menino com desenho de fantoche”, do artista Giovanni Franchesco Caroto que viveu em Verona entre 1480 e 1555 que faz parte da coleção do museu).

Novamente, a receita que mistura obras antigas com mostras contemporâneas é aplicada para valorizar ainda mais o espaço e garantir a visita de todos os tipos de apreciadores das artes. Desta vez de maneira radical com a mescla, entre as peças distribuídas pelos salões da exposição permanente no Castelvecchio, das bolhas que caracterizam as obras expostas do artista contemporâneo Giorgio Vigna na mostra “Stati Primitivi” que pode ser vista até o dia 6 de janeiro.

Verona é muito mais que a cidade do balcão de Julieta…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Tiro ao alto

Milano131111 017 Duomo tiro ao alto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Sabe tudo aquilo que os moradores conscientes cariocas lutam para que não aconteça na Cidade Maravilhosa com a realização de grandes eventos, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas de 2016, como distribuição indiscriminada e desembestada dos espaços públicos para a propaganda de seus patrocinadores, aquela que polui e adultera o visual do Rio de Janeiro?

É o que acontece em Milão, na Lombardia, Itália, nesse momento. É um exercício físico e mental tentar fotografar a parte central da cidade sem que apareça uma profusão de fachadas, propagandas e marcas – famosas pelos produtos e bregas no posicionamento de suas logos e fachadas. Idênticas as que pululam em shoppings, malls ou ruas “famosas” de qualquer cidade do mundo.

Por cima disso, pelo menos mais duas camadas da cebola decorativa que vai transformar as imagens captadas no centro milanês em autênticas torres de babel ou lançar o autor das imagens num desafio feroz para tentar esconder a poluição visual invasora. A primeira camada é a dos totens e bandeiras da futura Exposição Mundial de Milano, em 2015, espalhadas pelas ruas. A segunda, os telões e reclames colocados em locais como o Duomo di Milano, a sensacional Catedral de Milão.

Sua construção começou em 1.386 e foi concluída por ordem de Napoleão Bonaparte (olha ele aí de novo!) em 1813, cinco séculos depois – claro que ela vive precisando de conservação, mecenas e contrapartidas para as obras de sua restauração, assim como os outros  monumentos históricos e religiosos da cidade.

O Duomo… o Duomo é lindo e arisco, por que fotografá-lo é uma arte. A arte de tentar esconder as “intervenções” que poluem, por exemplo, o lado esquerdo de sua imponente fachada em estilo gótico francês, com um imenso telão povoado de vídeos dos queridos patrocinadores da obra. Lá se foi a chance de um registro integral do monumento.

Para quem se habilita a um passeio pela parte superior da catedral outra gincana, além do esforço de subir – mesmo que em parte pelo elevador -, os degraus que conduzem ao topo do Duomo. São 12 euros para ver muitos andaimes, plásticos protetores e, também, banners com os nomes dos apoiadores da reforma, impedido a visão e “sujando” as imagens gerais das delicadas 136 torres de mármore que apontam para o céu e o horizonte milanês.

Por isso, a solução é tiro ao alto se a intenção for tentar capturar o espírito e as linhas arquitetônicas históricas da efervescente cidade italiana. Porque, se baixar a mira, o que aparecerá será o de sempre: lojas famosas, marcas conhecidas e gente com sacolas de compras nas mãos além, é claro, de turistas do mundo inteiro.

A salvação está num passeio dentro dos muros do Castelo Sforzesco, construído no século XV e com intervenções de Leonardo da Vinci que, entre 1496 e 1497, se dedicou a pintar os troncos de árvores da Sala dele Asse. Hoje, o castelo fortificado abriga os Museus Cívicos como o da Pré-História, o Egípcio, de Arte Antiga, do Móvel, dos Instrumentos Musicais, a Coleção de Arte Aplicada e mostras itinerantes.

Já em Torino, a Villa della Regina, o palácio barroco seiscentista encrustado na colina ás margens do Rio Pó que tem o mesmo nome da cidade piemotesa, que também está sendo restaurado, é aberto gratuitamente ao público para visitas a seus jardins e ao museu, composto pelos preservados aposentos em que Duques de Savóia costumavam passar o mês de setembro, nas comemorações da libertação de Torino.

Checando essas informações no site da Villa Regina, um alerta em destaque no topo da página: o espaço estará fechado até o dia 15 de dezembro. O motivo? As filmagens do longa-metragem “A Bela e a Fera”, produzido pela  LUX VIDE. Pelo tempo e permanência na locação, quase duas semanas, dá para apostar que será lá o palácio da fera do clássico infantil.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Villa Manin e Capa, dupla jornada

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Passariano, na comuna de Codróipo, província de Udine é quase lá. Na Croácia. Fica na região de Friulli-Venezia Giulia, Itália, parada quase involuntária, numa visita a Camino del Tagliamento.
O vazio do grande pátio se descortinava cercado por arcos das construções que ladeiam a área central. Antes, duas torres com pequenos espelhos d’água vigiam o portão de acesso à Villa Manin, residência do último doge de Veneza, Ludovico Manin.
Dali, Napoleão Bonaparte comandou por dois meses a fase final da campanha contra o estado de Veneto. Ali, onde aquartelou suas tropas, foram feitas as negociações para a rendição. Com a assinatura do tratado de Campo Formio (17 de Outubro de 1797), entre a Áustria e a França, alteravam-se os limites da Europa e era encerrada a história milenar da República de Veneza Serenísima. Época registrada nos restaurados salões e galerias do palácio. Como era a Villa naquele tempo? O quarto onde dormia, gabinetes e salas onde circulava com seu staff no desenrolar dos acontecimentos, em 1797. A Villa Manin de hoje resguarda e exibe sua arquitetura e seus tesouros como as exposições permanentes do acervo do Muzzeo dele Carroze e Armeria, com sua respeitável coleção de armas e armaduras de várias partes do mundo.
Mas isso não é tudo. O segredo parece ser misturar a tradição com a contemporaneidade. Villa Manin é um grande centro de artes e recebe, até 19 de janeiro de 2014, a retrospectiva “ROBERT CAPA, da realidade ao front”, coincidindo com o centenário de nascimento do artista húngaro, naturalizado nos EUA e, trazendo um diferencial proporcionado por parcerias com Magnum Photos em Paris e Centro Internacional de Fotografia, em Nova York, revela um lado pouco explorado do fotógrafo e explorado pela curadoria de Marco Minuz.
Claro que são apresentadas as principais experiências que caracterizam o trabalho de Capa: os anos em Paris, a Guerra Civil Espanhola, entre a China e o Japão, a Segunda Guerra Mundial, com o desembarque na Normandia, a Rússia após a Segunda Guerra Mundial, o nascimento do estado de Israel e, finalmente, o conflito na Indochina, onde Capa morreu prematuramente em 1954. O pulo do gato é a coleção fotografias dedicadas ao mundo do cinema.
Capa, desde 1936, está por trás das câmeras cinematográficas. Na Espanha documenta algumas sequências da Guerra Civil, com o cinegrafista russo Roman Karmen, do filme “Espanha 36”, dirigido por Jean -Paul Le Chanois e produzido por nada menos que Luis Buñuel. No ano seguinte, filma mais sequências para o noticiário americano “March of Time”. Em 1938 vai para a China contratado como assistente do diretor Joris Ivens no documentário “Os 400 milhões” sobre a guerra no Sino – japonesa.
Seu encontro com a atriz Ingrid Bergman, em junho de 1945, em Paris, e o caso de amor que durou 2 anos, permite a Capa fazer fotos no set do filme “Notorious” (1946) de Alfred Hitchcock, estrelado por Bergman. Em 1948 fotografa o “Arco do Triunfo” de Marcos Lewis. Também fotografa, na Itália, o set do filme de Arroz Giuseppe de Santis ” Bitter ” (1949). Em 1950 roda em Israel o documentário “The Journey”, sobre os sobreviventes do Holocausto que imigraram para lá.
Em 1952, em Roma, fotografa “The Golden Coach” de Jean Renoir, com Anna Magnani, e os sets “Moulin Rouge”, dirigido por seu amigo John Huston. Em 1953, “O Tesouro da África”, estrelado por Humphrey Bogart e Gina Lollobrigida, e colaborando com Truman Capote, “A condessa descalça” com Ava Gardner.
O fim da Segunda Guerra e criação da agência fotográfica Magnum fundada por Capa, Henri Cartier- Bresson, David Seymour e George Rodgers coincidem com suas incursões em Holliwood, tão bem exploradas em Villa Manin.
É ver pra crer em mundos que já não existem mais. Mas marcaram e transformaram a realidade…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

SMH: marca do “bota abaixo” vira arte

Texto e foto de Valéria del Cueto

Torino, Itália, tem por tradição respirar arte contemporânea no início de novembro. Além da Artissima, feira das galerias de artes contemporâneas, que chegou a sua vigésima edição, também aconteceram outros grandes eventos, como “The Others” e a Paratissima, com a participação de 480 expositores.

E eis que no meio do caos das obras espalhadas no imenso espaço do Borgo Filadelfia-MOI, da Paratissima,  realizada de 6 a 10 de novembro, surgem cores e um desenho facilmente reconhecidos para olhos já saudosos dos tons quentes das terras tupiniquins.

Lá estamos nós, a bandeira brasileira estampada numa pipa pendurada num varal em plena exposição.

E não é tudo, por que, ali, no varal pregado na parede meio destruída tem de um tudo: boné, calção de jogar futebol, fotos, muitas fotos, presas por pregadores de roupas, gambiarras…

A parede é remendada por fita gomada e fios quase desencapados sustentam bocais com lâmpadas precárias.

Já vimos esse filme em algum lugar…

Em várias fotos se repetem três letras SMH, sempre perto do número da habitação retratada nas fotos, algumas coloridas, outras em preto e branco. Além das letras, o que chama a atenção são os olhos e as expressões das pessoas retratadas.

Mas não termina por aí. Se a parede parece uma confusão, o que dirá do piso em frente? Escada caída, roupas largadas, um velho colchão, lata de lixo, sacolas, pedaços de plásticos, fotos esmaecidas, fios enrolados, um balde.

Restos de vidas emaranhados e empoeirados delimitados por uma fita de duas cores, das que demarcam obras.

No canto direito da instalação – por que é disso que se trata – uma canga estampa a imagem da bandeira do Brasil.

Duas folhas explicam o conceito da obra que, nas fotos penduradas nos varais, mostra os personagens de uma tragédia carioca.

A reportagem mostra as vítimas das alterações que estão sendo feitas na zona portuária do Rio de Janeiro, provocadas pelas intervenções urbanas que estão sendo realizadas na cidade para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

O mote do trabalho é a sigla SMH, estampadas nas casas marcadas pela Secretaria Municipal de Habitação da prefeitura carioca comandada por Eduardo Paes, na região. As marcas foram colocadas nas 832 habitações destinadas a serem demolidas para as intervenções de valorização da área.

O texto também explica que, para as famílias que deveriam deixar suas moradias, eram oferecidos seis mil reais e um auxílio aluguel de 400 reais até que fossem realocadas em casas populares, em data indefinida. O registro foi feito na área do no Morro da Providência, Morro do Pinto, Morro da Conceição, Morro do Valongo, Pedra Lisa e na zona portuária da Perimetral.

A instalação é da arte-educadora italiana, Gisella Molino. Ela passou uma semana fazendo uma imersão fotográfica no local das remoções.

A intervenção dividiu opiniões já que, segundo a artista, alguns espectadores reclamaram por ela mostrar uma face do país que “não representa toda a nossa realidade”.

O apelo no olhar das pessoas retratadas não foi suficiente para justificar, para essas pessoas que, se hoje somos “um país que vai pra frente”, isso se dá com o sacrifício dos que mais precisam de ajuda.

A ironia é que cabe a uma artista italiana ser a nossa voz para mostrar lá fora, o que acontece aqui dentro.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Não dá pra (en)cantar no chuveiro

Milano131111-036-Castello-Sforzerco-fonteTexto e foto de Valéria del Cueto

Aparentemente um bólido do futuro. Cromado e preto, um design arrojado. Uma haste, alguns encaixes, um chuveiro. No meio, um inteligente recipiente para abrigar o sabonete. Sofisticado! Pensou ela, pensou ele, e, certamente, seu engenhoso, inteligente e inspirado criador. Só esqueceu-se de explicar para o objeto como ele tinha que se comportar.
Por aqui, na Itália, são mais comuns banheiras com duchas do que chuveiros, aqueles de chuê-chuá, vidro e ou cortinas protetoras. Por isso, quando descobriu ser a coo-possuidora de um box completo, partiu para a luta corporal para garantir seu uso e não ficar restrita a opção banheira.
Com a vitória, a comemoração era óbvia depois de uma série de recomendações: quanto tempo antes ligar a água para ela esquentar, o truque para tentar a missão impossível de não molhar o chão do lado de fora e assim por diante. Por uma chuveirada, valia qualquer aula de pilotagem. O chão era só secar.
O instante glorioso assim permaneceu por alguns momentos. A ducha presa bem lá no alto depois de ser seguida a instrução inicial de voltá-la para a parede enquanto a água atingia a temperatura ideal.
Só que, segundos depois, a mágica começou! Ela, a ducha do chuveiro, tinha vontade própria. Ia escorregando, escorregando pela haste de metal cromado a seu bel prazer, até que o tubo flexível que levava a água quase estrangulasse a tal prateleira dos apetrechos, provocando uma resistência que contivesse a velocidade inconstante do movimento. E rodava.
Ficou só observando o percurso, tentando entender a dinâmica da coisa. Só que não havia lógica na sequencia por mais que fosse estudada. A cada experiência a parte ducha se movimentava de uma forma diferente – e isso não foi apenas na primeira de tantas tentativas de diálogo. É, por que foi uma convivência de mais de um mês.
Cada vez que parecia que os mistérios do danado do chuveiro estavam decifrados, uma nova surpresa. Se era para ficar no alto pra lavar a cabeça, lá vinha ele, como um macaco feliz e curioso escorregando coqueiro abaixo.
Quando a ideia era manter os cabelos secos ele se aboletava no alto e não efetuava o movimento previsto enquanto a água esquentava. O burro empacava. Como era fã de molhar a cabeça, passou a observar os desejos do danado do chuveiro e quando ele ficava firme e forte, mesmo que a intenção fosse apenas um banho rápido, preferia aceitar o topete da ducha e parar a vida pra que as águas rolassem de acordo com o a vontade primeira e única do objeto pseudo inanimado. E assim foi a peleia que durou mais de 40 dias. Sem que fosse possível racionalizar a disputa ou tentar qualquer acordo.
Pelos lugares que passou, viu fontes maravilhosas, capazes de encantar os olhos mais insensíveis com a beleza do movimento das águas em palácios e castelos, como as da Venaria Reale, das Piazzas de Torino, Verona e Milão. Foi nessa cidade no espetacular Castello Sforzesco que a ficha caiu. Vendo a linda fontana na piazza em frente da residência do século XV do Duque de Millano, construída na década de 1990, inspirada numa mais antiga que ficava no local, entendeu finalmente o espírito do chuveiro de Torino.
Ele, que queria ser uma fonte – era mais que uma ducha de banheira – mas nunca atingiria seu objetivo. Fazia as águas dançarem em seu pequeno mundo de design moderno, para mostrar que, mesmo sem a suntuosidade arquitetônica e apesar da falta de praticidade do design, ali estava um espírito livre, disposto a ser xingado dia a dia para deixar bem claro o que não era o que gostaria de ser.
Voltou pra casa, entrou no chuveiro rebelde e o deixou molhá-la inteira, do jeito que ele decidiu. Tinha que, ao menos, respeitar suas frustrações…
**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Torino: corso dell’Arte Contemporânea

Artissima-131107-028-Thiago-Rocha-Pitta

Texto e foto de Valéria del Cueto

Imagine um mapa da mina da arte contemporânea. É com eles que os apreciadores contaram para fazer o percurso dos museus e galerias da cidade que participam da Artissima, feira especializada no setor que chega a sua vigésima edição nesse final de semana.

O percurso ganha mais um atrativo com a abertura de todo esse circuito no sábado até a meia noite. Torino respira esse movimento, a partir da sede do evento, o pavilhão da Linguote Fiera.

E aqui, estamos muito bem representados por três galerias brasileiras: Mendes Wood DM e a Vermelho, de São Paulo e A Gentil Carioca, do Rio de Janeiro.

A Mendes Wood faz sua segunda participação com obras de vários artistas: Matheus Rocha Pitta, Marina Simão, Sonia Gomes, Adriano Costa, Tunga, do catalão Daniel Steegmann Mangrane e do espanhol Secundino Hernandes, enquanto nossas outras duas representantes estreiam  no evento.

A Vermelho apresenta duas obras: uma constelação de Detanico Lan e outra peça de Nicolás Robbio. Esta, um instigante trabalho de equilíbrio e tensão de um único fio, que passeia e faz curvas apoiado em diversos pequenos objetos. Difícil de explicar, mais complicado ainda para fotografar.

Já a Gentil Carioca apostou todas as suas fichas numa grande obra de Thiago Rocha Pitta, artista brasileiro que fez residência em Milão e produziu um trabalho especial para a galeria na Artissima. Para Márcio Botner a aposta num obra única cria um diferencial, principalmente pela ligação do artista escolhido com a região.

Provavelmente você já notou a semelhança do sobrenome de dois artistas citados acima: Rocha Pitta. Eles são dois irmãos gêmeos e filhos de outro artista plástico, Fernando Rocha Pitta.

Mas não é apenas nas galerias brasileiras que estamos representados: obras de Tunga, Matheus Rocha Pitta e Paulo Nazareth estão presentes em stands de galerias como Franco Noero, de Torino, Pilar Corrias e Sprovieri de Londres. A galeria Graça Brandão, de Lisboa, que participa da sessão “Back to The Future”, apresenta obras de Lygia Pape.

Ainda para Márcio a divisão em sessões tematizadas da Artissima como “Back To the Future”, “Present Future” e “News Entries”,  ajuda a compreender a passagem do tempo e as expectativas existentes em relação a arte contemporânea.

Eliana Finkelstein, da galeria Vermelho, destaca a seleção das peças expostas, contabilizando a participação da galeria paulista em 11 feiras do circuito, a maioria no continente americano. A próxima será a Art Basel, em Miami Beach, USA.

Se temos artistas e galeristas aqui em Torino também se ouve o português pelos corredores, já que existem colecionadores brasileiros explorando o espaço.

O mineiro Marcel Jung – que também visita a Artissima pela primeira vez –  ressalta a organização do evento que chega a sua vigésima edição com uma grande variação de linguagens e discussões sobre o assunto.

A partir daí, o que vale é olhar e as sensações causadas pelas provocações de artistas de todos os cantos do mundo caso, por exemplo, do espaço madrilenho Sabrina Amrani, criada há 3 anos e uma das selecionadas para a sessão “New Entries”.

Sabrina trouxe trabalhos de artistas do Paquistão, Índia, Tunísia e da Palestina Ela conta o milagre, ainda sem relevar o santo: em breve, um artista brasileiro fará parte da lista de artistas da galeria.

E diz estar interessada em conhecer nosso mercado para, então, decidir-se pela participação numa feira brasileira: a Rio ou de São Paulo.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Alegro, por Los Trupis…

vale-002Texto e foto de Valéria del Cueto

Bordolino olhava pela janela do trem que cruzava o norte da Itá lia de leste a oeste. Ao seu lado, a bruxa fazia de conta que não prestava atenção ao que acontecia, ao que se passava em volta.

Era duro deixar a casa onde nascera em direção a uma nova vida.

Sempre soube que seria assim desde o dia que sentira aquele monte de cócegas, enquanto Anna Truppo o transformava de um pedaço de espuma num fantoche cheio de ideias. Viera ao mundo com uma missão, disso tinha certeza. A questão era: qual?

A bruxa continuava impassivel, cheirando o ar seco e profilá tico do trem Frecciabianca que corria para o oeste. Parecia paralizada sabendo que seu destino era Turin, unica cidade por onde passavam os dois circulos de magia na Europa: o negro e o branco. Concentrava a força do seu pensamento para que, ao chegar lá, fosse envolvida pela magia do lugar, mas que fosse a das forças do bem…

Não que Bordolino não acreditasse, mas ainda estava sob o impacto de trocar as mãos carinhosas de sua criadora, Anna e seu companheiro Adilson de Souza, por outras, talvez não tão sensiveis.

Eram a tradução e a sintese do trabalho da artista que, ainda criança, se encantara com a possibilidade de criar infinitas fantasias usando seus talentos para o desenho, a pintura, a escultura e a costura.

Primeiro foram bonecas de pano e roupinhas. O mundo ganhou novas possibilidades quando, numa praça qualquer da Argentina, assistiu extasiada um espetáculo de teatro de bonecos. Fantoches!

Do que viu criou o que seria. Autodidata, experimentou materiais, manipulou diferentes tipos de espuma estudando sua densidade e flexibilidade.

Há 22 anos atrás Anna encontrou Adilson, companheiro de vida e labuta. Com ele, em 2005, veio para a Itália, onde nasceram centanas de fantoches vendidos em feiras e eventos tipicos das cidades italianas.

Aqui forma esculpidos, pintados, vestidos e manipulados Bordolino e a Bruxa. Ambos parceiros na viagem inevitavel destinadas aos fantoches de “ Los Trupis”, nome adotado pela dupla sul-americana. Viajantes, todos viajantes. Do tempo, das terras e, se possivel, da felicidade e cumplicidade que une o casal.

A produção dos titeres é pequena. Seleta. São seis personagens. Entre eles a bruxa, o mago, o velho e alguns animais. Mas tudo é uma questão de inspiração e das mãos mágicas de “Los Trupis” tudo pode surgir: a emoção brota do olhos expressivos e brilhantes dos fantoches que, quando manipulados, ganham vida propria pelos dedos ágeis (ou não) de quem os adota.

O trem segue, como a vida. Bordolino observa sua companheira e, pouco a pouco, ve em seu rosto que o pior já passou. As correntes estão sendo rompidas. A bruxa está perdendo o medo, deixando a curiosidade das terras que nunca viu – nem mesmo em seus mais loucos sonhos de feitiçeira animada – dominar seus pensamentos.

E assim, pela face sem disfarçe da bruxa, Bordolino ve passar a esperança e da força da fantasia, esculpidas por Anna e Adilson, numa mensagem que será levada para outras terras, depois de muitos mares.

Ela diz que o bem sempre vencerá o mal e encontrará seu rumo. Outro, agora…

Bordolino ve que que a bruxa sabe. Mensageira do bem e da verdade, sua magia leva um recado de luta, cOnquista e vontade para todos o que, acima de tudo, acreditam no poder da fantasia e, por isso, não abrem mão de sonhar…

*essa cronica é dedicada a Caca de Souza e sua generosidade que colocou em mau caminho mais um irmão…

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Falhei…

Borgo-M-1301012-046-escadas-e-luzTexto e foto de Valéria del Cueto

Tinha me prometido que os textos publicados aqui não seriam mais na primeira pessoa. Mas, infelizmente, sou obrigada a quebrar minha jura. E fiquem certos, não é por um motivo de que me orgulhe.Falhei com quem mais amo e respeito: o povo do carnaval…

Sinto-me como o componente que vê sua escola pisar na avenida após uma chuva destruidora, ou o carro mais elaborado perder pontos decisivos no desfile.Fui até ali na beira da avenida e vi todos os meus esforços e o de tantos outros que estavam comigo serem transformados em apenas mais um sonho de conquistar o campeonato.

Foram 10 meses de trabalho, o tempo da preparação de uma escola de samba, para lançar na Paratissima, em Turim, Itália, a Mostra Carnevaledi Rio, trabalho realizado no barracão da Mocidade Independente, em 2010/11. Foram tantas as pessoas que torceram por mim e pelo meu sonho…

Muito mais do que os incontáveis apoios que recebi de gente que, na época da captação do material, estava na produção do enredo Parábola dos Divinos Semeadores: no barracão, na quadra e na Sapucaí.Gente do mundo do samba como Cid Carvalho e sua incrível equipe (não dá para citar todos nesse espaço); Maurício d’Paula, grande destaque carnavalesco; o presidente da Mocidade, Paulo Vianna; Ricardo Dias,que apostou no trabalho – inédito no carnaval, divulgando semanalmente fotos da construção do enredo verde e branco. Na longa jornada de produção da Mostra a eles se juntaram José Antônio Rodrigues, do Plumas e Paetês Cultural; Levi Cintra, responsável pela parte gráfica do projeto; Gus Cid, montador das videografias que compõem a instalação; Felipe Ferreira, com seu lindo texto de apresentação e a chancela do Centro de Referência do Carnaval;Fábio Fabato e seu amor pela Mocidade;MdCsuingue, do Caipirinha AppreciationSociety; Luca Esposito que fez o site; Sara Fiorentino, responsável pelas traduções, MassimoFinocchiaro, meu agente na Itália e a Sportnet, a patrocinadora.

Foi assim que cheguei a Turim. Pronta para botar o pé na Paratissima 2013. Só que a realidade aqui era outra! Nada com que já não estivéssemos acostumados, não fosse o fato de que teria que descaracterizar o lindo “enredo” sobre o barracão que havia criado.

E foi aí que falhei… Falhei por não concordar com as condições em que deveria trabalhar: reduzindo as dimensões de um projeto de 160 metros quadrados para mínimos 20 metros quadrados, trocando um espaço de arte pelo dos patrocinadores.A grandeza da proposta não caberia nos 2 metros e 60 centímetros de altura que foram disponibilizados.Ouvi todos os argumentos. Incluindo o de que o mais importante era fazer alguma coisa, porque no Brasil ninguém saberia o que realmente seria apresentado.

E falhei… Por não poder ser desleal com quem me inspirou e me trouxe, com sua energia maravilhosa, até aqui. Por não poder trair cada sorriso que vi nas milhares de fotos que editei para Gus Cid usar nas videografias. Não consegui descontruir a enorme energia e o carinho imensurável que recebi de todos vocês, que confiaram no meu trabalho.E assim, antes de entrar na pista, preferi desistir do desfile a ser responsável pela perda de pontos que poderia macular a essência do que pretendia apresentar para 100 mil visitantes.

Peço desculpas por ser fiel a nossa obra e, por isso, abrir mão de participar do evento italiano. Assumo a responsabilidade da derrota. Ela é tão dura e amarga quanto ver a agremiação que amamos não conseguir botar na avenida o sonho de um ano de suor e trabalho apaixonado.

Meu consolo é que, como todos do mundo do carnaval, sei que sempre resta uma esperança: a de que da próxima vez eu consiga fazer mais e melhor! Agora, sei que faço parte desse povo do carnaval porque, como vocês,começarei de novo… Sabendo que sempre haverá outro desfile. No meu caso espero que com o mesmo enredo: a Mostra Carnevaledi Rio.

*Valéria delCueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.comVenariaR-1301013-036-Corso-del-Rei-vencedor

Party in the air

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Texto e foto de Valéria del Cueto

As portas da aeronave se abriram para acolher os passageiros do enorme avião. Seu semblante sorridente recebia os viajantes desejando a todos uma boa viagem.

Esta situação se repetiu durante milhares de voos pela mesma companhia aérea nos últimos 41 anos.

Uma rotina que a levara a conhecer o mundo inteiro. Ali, passara por situações inusitadas, algumas inclusive perigosas que se misturavam num looongo filme.

Num longo filme, não, numa saga que passava por  rotas diversas, em diferentes países.

Lidara com todos os tipos de pessoas, com costumes variados, línguas distintas, motivações algumas vezes indescritíveis.

Alguns passavam pelas aeronaves da companhia felizes por poderem sair de férias, preocupados com os negócios, alquebrados por alguma ausência…

Perdera a conta de quantas vezes reconhecera, por exemplo, aquele olhar medroso de quem entrava pela primeira vez num avião, sem saber os procedimentos de bordo, a quem ajudou a colocar corretamente o cinto de segurança, a ajustar a poltrona para decolagem ou como escolher o menu das refeições.

Isso falando apenas do que era essencial e necessário para se sentir bem durante, por exemplo, a travessia de um oceano.

Com os anos de trabalho ascendera de comissária da classe econômica para um posto mais nobre. Agora atendia a business class.

Fora uma vida de dedicação que lhe rendera momentos que gostaria de esquecer, como as turbulências da viagem, os que abusavam da bebida, potencializadas pela altitude, e outras situações limites.

Quantas histórias! Agora, apenas para serem contadas, por que a dela terminava ali. Seria seu último voo pela KML, a empresa a qual fora fiel por toda uma vida.

A escala da comissária definira que seu último trecho aéreo seria num voo Rio de Janeiro/ Amsterdam…

O anúncio de sua despedida foi feito pelos alto-falantes do avião, logo no início da jornada.

Tudo correu normalmente, até a hora de ser servido, já no último trecho do trajeto, o café da manhã continental.

Logo depois, a rotina se alterou. Os comissários passaram pelos corredores, explicando mais uma vez, que haveria uma homenagem à antiga funcionária e pedindo aos passageiros que a saudassem a sua passagem pelos corredores de todas as classes do avião. Ao mesmo tempo distribuíam balões e uma espécie de serpentina holandesa para quem quisesse saudá-la. Alguns aceitaram, outros se recusaram a fazer parte da festa.

Vale registrar que a maioria dos passageiros era de estrangeiros e, certamente, nórdicos.

Eis que surge um alegre cortejo de comissários pedindo passagem para a colega. Um trazia um rádio para animar a parada. E lá vinha ela, sentada em cima de um dos carrinhos de serviço, dando adeus a uma vida de dedicação e serviço.

Os aplausos foram muitos durante o percurso, numa cena que as centenas de passageiros dificilmente assistirão novamente. Imagine como seria essa despedida se fosse num avião repleto de brasileiros?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Viva São Paulo, a maior cidade nordestina do Brasil! (via blog da Raquel Rolnik)

Desde 2009, no dia 8 de outubro, São Paulo comemora o Dia do Nordestino. A data foi incluída no calendário de eventos da capital paulista por um motivo óbvio: a importância do contingente populacional de migrantes nordestinos e seus descendentes na cidade. Considerando o impacto dos milhões de nordestinos que migraram para a cidade, principalmente a partir dos anos 1940, e seus descendentes, podemos considerar São Paulo a maior cidade nordestina do Brasil. Na semana passada, aliás, o IBGE divulgou novos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que mostram mudanças no fluxo migratório entre São Paulo e o Nordeste. Ao contrário da leitura dos dados feita por boa parte da imprensa – anunciando que o fluxo de imigrantes diminuiu – não é exatamente isso que demonstram os dados.

Se hoje a proporção de migrantes no total da população é menor (nos anos 1970, a proporção era de 6 para cada 10 habitantes; hoje, é de 3 para cada 10), isso tem a ver com o tamanho da cidade – incluindo os filhos dos migrantes que já nasceram aqui – e com um tipo de migração diferente do que vimos no século XX, agora marcada por idas e vindas e também por retornos definitivos. Mas, em termos absolutos, o saldo migratório da última década na região metropolitana foi de 500 mil pessoas, enquanto na década de 1990 foi de 291 mil.

Leia Mais via Blog da Raquel Rolnik

Duelo de Titãs : eu e a gripe

Por Altair Santos (Tatá)

Essa é pra não dizerem que só falo dos outros. Ou seja, nem eu mesmo escapo da minha comprida e envenenada língua. Acontece que esse amigo de vocês está em luta ferrenha, com uma gripe daquelas de fazer gemer e chorar os trilhos da histórica EFMM. Pensem numa gripe maluca, dói o as juntas, os músculos, os olhos, os ossos da face e até os dentes, deixando o camarada jogado na lona. A gripe é tão forte que é arriscado alguém passar a dez metros de mim e seus ossos logo começarem a doer e a pessoa cair estatelada, dando apenas como sinais vitais de sobrevivência, sessões incontidas de espirros e gemidos quase inaudíveis. Pense na gripe braba! Pra me acudir nessa agonia dona Luzia, minha dedicada, carinhosa e amável mãezinha, do alto dos seus 80 anos de idade, entrou em cena e, sem pestanejar, tratou de convocar o seu poderoso exército anti-gripe pra agir em defesa de seu avariado e indefeso rapaz. De imediato, lá da pequena horta no fundo do quintal foi chamado um numeroso pelotão cujos soldados atendem pelos nomes de alfavaca, manjericão, folha de eucalipto, capim santo, erva cidreira, cabacinha, mucuracaá, limão galego, pião jalapa, galhos de melão são caetano e até raiz de corageira, a planta da coragem (existe essa planta?) Pena que por lá não tinha um pé de cana! Esse valente efetivo da flora medicinal brasileira uniu-se a dentes de alho, rodelas de cebola, lascas de preciosa e pau tenente, além de ganhar o reforço e poderio dos mais afamados fármacos que habitam a ciência e conhecimento interiorano da dona Luzia e que, segundo ela, são tiro e queda nesses casos. Botando fé na variedade curativa, tomei goles e mais goles da receita, me besuntei com óleos e ungüentos, fiz gargarejos e até simpatias mas… não rolou! O resultado não veio e a noite avançou rumo à madrugada. O pobre e avariado Tatá não dormiu, estava à mercê da força e domínio da então implacável gripe. Com o amanhecer, eu, a vítima, me vi com cara de zumbi anêmico e com aquele bafo de tirador de espírito, causado pela ingestão da mistura que além do alho, associa outros tantos ingredientes daquele menu medicamentoso. A tal gripe, dura na queda, forte e resistente como um lutador de MMA, se fez bravia, feroz. Heroicamente, resistiu ao pesado bombardeio e a artilharia do coquetel que tinha chá de alho com limão, aspirina, folha disso e raiz daquilo, infusão de não sei o quê, casinha de besouro misturada com mel, num melaço até gostosinho, vick vaporub pra passar no peito, na testa e nas costas, além de outras gororobas. As sete da manhã eu estava ali na mesa do café, leso, tonto, zonzo, guenzo e quase jogando a toalha. Placar do jogo, por enquanto: Gripe 1X 0 Tatá. Mas a coisa não podia ficar assim! Após um demorado banho e uma xícara de café e pão com ovo, levantei a moral! Chamei a gripe num canto, fiz cara feia e disse a ela em conversa e tom nada familiar: olha aqui sua sem vergonha, hoje é tudo ou nada, vamos tirar isso a limpo e encerrar essa peleja de vez, esteja pronta sua vagabunda, sua égua, sua vadia e infeliz transeunte urbana. Isso mesmo, a tratei com ofensas em plano rasteiro, em nível baixo, sacaneei verbalmente sem dó, a gripe indesejável. E já me preparando pro grande pega de logo mais, me pus a planejar uma ação, uma saída eficiente, funcional, infalível, o golpe certeiro e fatal, o tiro de misericórdia no quengo da maldita gripe. Mas como seria essa minha reação? O que faria eu para o combate derradeiro e decisivo já que as armaduras medicinais e naturais, dadas por minha mãe não surtiram o efeito desejado? E me pus a pensar! No calor e dúvida do pré-combate, quando já não esperava por uma luz, uma bússola norteadora, eis que se me veio um estalo à mente! Já sei, vou levá-la a um bar, lá é território onde esse amigo de vocês conhece, passeia e trafega como poucos. Lá ela será encurralada e terá o seu destino selado numa mesa de bar, tipo como na música ronda, de Paulo Vanzolini. Pra não estragar a surpresa e pra que ela não nos ouça, em silêncio vamos confidenciar: hoje no final do dia, sairei de casa com uns trocados no bolso e rumarei pra Avenida Calama, rumo ao Bar do Pernambuco. No local, outra vez a gripe será chamada a sentar-se á mesa, como fosse uma convidada ilustre, desejada. E quando ela nem bem esperar, como cartão de visita, só pra assustá-la, mandarei pros peitos uma considerada dose conhaque, precedida de uma caipirinha caprichada no limão. Sem dar refresco, pedirei pitu e velho barreiro, tatuzinho, januária e katira, algumas afamadas cachaças pra estufar o peito. Aí sim é um esquadrão de peso, de gabarito. Depois, pra sacramentar a conquista, já a bordo de umas tantas cervejas na idéia, é só ficar de olhos grudados na TV e assistir a reviravolta do Botafogo no brasileirão, pra cima do perigosíssimo Náutico Capibaribe, de Recife. Duro haverá de ser, se a gripe insistir em ficar e o time pernambucano achar de tirar o meu glorioso fogão pra brincadeira. Saúde!

tatadeportovelho@gmail.com

Birth Day

Por Edu Aiello

Se engana quem diz que conhece o Brasil.
O Brasil é muito grande. Muito diverso. Extenso. Multifacial.
Por analogia , se engana quem diz que conhece o enduro no Brasil.
Muito além das manchetes nas revistas e dos clicks na internet , existe uma verdadeira nação de treieiros anônimos neste país.
Difícil uma cidade do interior que não tenha dois , três , dez , vinte caras , percorrendo cartões postais , em bases regulares , no anonimato.
Anônimos , mas , não menos habilidosos ou apaixonados , estes caras demonstram sua força traduzida no crescimento exponencial do mercado de motocicletas e equipamentos.
Por sorte , temos também um brasileiro , na verdade um grupo de brasileiros , tão apaixonado quanto , no comando dos negócios direcionados a este setor.
Pouco a pouco , ano após ano , nossos equipamentos ganham qualidade , diversidade e , a identidade Brasileira.
Eu sou um bicho do mato confesso.
Meu negócio é descarregar , vestir o equipo , dar quantas voltas forem possíveis , carregar e sair fora. Pra casa. Comer arroz/feijão , descansar e …… , SONHAR COM AS CURVAS…!!!
Social , nunca foi minha praia.
Ontem , mais uma vez , pude ter a noção exata do que se “perde” , agindo assim.
Estive numa confraternização. O aniversário de fundação da marca brasileira numero 1.
Qualquer um do off road , de norte a sul , rico ou pobre , roia ou pró , usa , usou , ou usará , uma peça confeccionada por estes caras.
Um evento único.
Uma imagem verdadeira do que é , de quem faz , o enduro no Brasil.
Como de costume , fui pensando na pista. Só.
Como pude perceber. Tava enganado.
O BirthDay é um dia em que , a “social” , o reencontro com os compadres , é tão legal quanto o rolê.
Mesmo para um bicho do mato , motohead , incurável.
Desci do carro cumprimentando figuras ilustres e amigos queridos. Dividi o circuito com “motoheads” de respeito e troquei longas idéias com gente que fala , com muita fluência e propriedade , nossa língua pátria: MOTO!
Adorei! Era muita gente boa no mesmo lugar…..!
Poderiam ter sido SIX BIRTH DAYS , que não faltaria assunto.
O circuito , assinado por outro ícone do off road (um sujeito que teve a capacidade e a teimosia de abrir uma pista de XC que NUNCA fechou) , tava ……. , do jeito!
Do jeito , que tem que ser. Seguro , bem traçado e …. difícil.
O “difícil” ficou a cargo da mãe natureza que , chorando como tem feito , não deixou nada seco.
A parada tava lisa… Bem lisa….
Eu , adoro!
Uma pista tem que ter um atrativo fundamental. A velocidade , a beleza do site , o nível técnico dos obstáculos , enfim , algo que faça valer.
Um “desafio” , como dizem os homens de gravata permanente.
As primeiras voltas foram de “transposição”. Tipo…. , “vou me ater a completar a volta”.
Fui um dos primeiros a entrar. Não conhecia o traçado e , tava liso.
Na sequencia , a familiarização e os “trilhos” formados , foram gradativamente dando espaço para o “vou tentar estabelecer um ritmo”.
E assim , foram várias voltas de curtição total.
Não , não deu pra dar pau. Não deu pra escutar a ignição cortando.
Mas , deu pra se concentrar , tentando manter a trajetória num lugar que tava difícil , muito difícil , até pra andar a pé.
Depois , a chuva caiu. Forte.
Nos recolhemos prum barracão daqueles …. “segurança máxima”….!
Se cai um meteoro ali , acaba com boa parte da história do enduro no Brasil.
Por sorte , só o que rolava ali dentro , eram picolés de chocolate e espetinhos espertos.
Fui intercalando….: uma personalidade , um picolé , uma personalidade , um espetinho , outra figura , mais um gelado , uma parte da história , outro espetinho.
Lá pelas tantas , em meio à água , trovões ecoaram na encosta.
Fortes e repetidos , para o espanto de alguns.
Quando todo mundo achou que já era o bastante por um dia , surgi uma DR 400 , numa pista vazia , dominada pela água.
Uma cena surreal…. Um grupo enorme de “motoheads” , observando um só piloto , dando infinitas voltas sob forte chuva , aparentemente , alheio a todas as vistas.
E assim , permaneceu por vários minutos. Sem tirar a mão.
Perfeitamente adaptado ao mar de lama.
Como se aquilo fosse algo assim…. comum.
Andar sozinho , literalmente embaixo d água , com uma enorme platéia , comendo espetinhos…!!!
A camisa , não pude deixar de reparar , dizia Limonta.
Ninguém ao meu redor duvidou. O ritmo e o gosto eram condizentes.
Qual não foi minha surpresa , quando vejo o próprio , a metros de distancia , limpinho , de roupa “social”.
Seu “sósia” era na verdade , Nielsen que estava , até onde pude entender , usado outra camisa.
Enfim , este cara , Nielsen , Limonta , Zanol (que tb estava lá…!) , José , João , Pedro….
Este cara , seja ele quem for , me deixou a melhor imagem da festa.
A imagem da nossa essência , do nosso amor.
Diante do “silencio” da tempestade , de alma literalmente lavada , ignorando tudo (até mesmo a camisa que estava usando) , esse cara andou…. Andou forte , com paixão e concentração.
Fez naquele momento o que todos nós temos como ideal: Andou por ele mesmo , ignorando tudo , vivendo com intensidade o momento.
Simplesmente andou de moto , sem se importar com o que estava acontecendo ao seu redor.
Ride. Just ride. That´s all about it.

Leia também:

> Minha vó operô das vista
Dream another dream

Pluct, Plact, POW!

UPP 130928 027 PM na quina da Ribeiro da CostaTexto e foto de Valéria del Cueto

E não é que o Tum, do Pluct, Plact ainda não conseguiu dar seu Zum? Bem que tentou. Carregou as baterias, esquentou os motores, mas a tal da gravidade poluente alterada interferiu de novo impedindo sua passagem para outras plagas do sistema solar, a caminho de outras galáxias.

Subiu, bateu e voltou. Pra outro lugar, no mesmo planeta Terra.

Lindo lugar, diga-se de passagem. Cheio de construções antigas, misturadas a um emoldurado (de  certo mau gosto, registre-se) de prédios modernos, espelhados e pretensiosos. Mas o que ele viu um pouco antes de cair desajeitadamente compensava esses exageros tão humanos. Que deslumbramento, que contorno! Quanta sensualidade explícita inclusive na paisagem geográfica.

Precisava não se esquecer de dar um pulo direcionado mais tarde. Tinha que checar o que pensava ser um sinal dos deuses. Uma marca desgastada, como uma tatuagem em relevo mitológica em forma de Íbis, encrustada numa montanha a beira de uma enseada paradisíaca. Se aquilo fosse realmente o que ele pensava que era… Seria um dos sinais da benção divina deixada por antigos viajantes celestes?

Precisava averiguar, mas isso mais tarde. Por que agora o mais urgente era decifrar os sinais que recebia a sua volta.

Estava num enorme espaço vazio. Entre uma escadaria de um prédio antigo imponente e muitos homens de costas para ele. Uniformizados. Protegidos. Com capacetes e armas, registrou. Seus escudos formavam uma barreira compacta que impedia que ele conseguisse ver direito o que havia do outro lado.

Sua atenção foi desviada para o humano do grupo que passou correndo, vindo detrás das grades que formavam uma barreira entre a vida e o edifício.

Chegou perto um de contingente de iguais, se perfilou fazendo um cumprimento e disse alguma coisa. Todos se agitaram e o grupo se desmanchou.

Ouvia vozes, cantos, gritos do outro lado da barreira uniformizada. De tudo, conseguiu entender as palavras educação e professores. Também entendeu cabral e paz. Não tinha muito nexo falarem de “paz” com aquela agressividade toda. Certamente não era a verdadeira paz que se referiam.

Não podia ser mesmo constatou ao ver os primeiros movimentos dos fardados em direção a massa humana. Quando ouviu os primeiros estampidos olhou em volta procurando abrigo. Não havia pra onde correr. Do outro lado começaram a jogar artefatos. Alguns eram devolvidos após serem atirados pelos homens fardados. Um caiu ao seu lado. Os sensores começaram a registrar alterações enlouquecidas. Aquilo estava afetando seu sistema central.

Mas isso era apenas um detalhe que passava desapercebidamente na confusão geral que se instalava no entorno. A barreira havia partido para cima da multidão. E batia. Indiscriminadamente. Usando seu aparato de forma eficiente contra quem passasse pela frente. Homem ou mulher. Velhos e jovens.

Um dos homens chegou perto dele e fez uma pergunta. Com o barulho ensurdecedor de bombas e a gritaria, não entendeu o que dizia. Outros se juntaram ao primeiro, mas esses não conversaram. Partiram para o ataque, tentando imobiliza-lo de forma violenta. Levou chutes e pontapés. No chão sem enxergar nem respirar, por causa do gás, ouviu apenas uma voz que dizia: “Mais um black bloc fêdape. Está com o rosto escondido. Recolhe.” Preferiu fazer TUM enquanto dava. No meio da balbúrdia, ninguém se deu conta do sumiço de mais um manifestante. Melhor procurar os sinais divinos. Os humanos já estavam decifrados. Prenunciam o caos.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Dream another dream

Por Edu Aiello

Já ouvi dizer que a Terra é um planeta , “auto limpante”…
Mais uma vez , alguém quis se eximir das responsabilidades.
Mais uma vez , alguém quis que “mamãe” resolvesse os problemas…
O fato é que , nunca mais parou de chover.
Também , não deu mais pra assistir o noticiário , que também de fato , nunca foi bom.
Difícil acompanhar o sofrimento de pessoas que perderam praticamente tudo o que tinham , na enxurrada…
Enfim , a lama é parte intima do Off Road. E a gente , não é feito de açúcar. Amém!
Show must go on.
Prefiro o “hard-pack” , ou , na pior das hipóteses , um mix de pisos.
Mas , nos últimos meses , não há nada que se possa fazer.
O jeito é molhar as botas.
Confesso que até gosto , da concentração e antecipação extra , que a pilotagem na lama requer.
Porém , o efeito destes rolês nas partes móveis externas das bikes , é punk.
Relações , pastilhas , rolamentos , comandos , retentores….
Dia destes , por acaso , pude constatar isso de maneira “clara”.
O horímetro marcava algo como 7 horas e a relação (OEM) , já apresentava claros sinais de desgaste.
Honestamente , não imaginei que a lama “comece” peças desta qualidade , tão rapidamente.
Troquei relações minha vida inteira , mas confesso , nunca havia parado pra traduzir isto em horas…
Enfim , era sábado e o rolê estava armado.
Um grande amigo , das antigas , iria se deslocar do interior pra capital no findê. Movimento sem lógica no Off Road.
Ligou na terça e estabeleceu:
“Cê que manda. Vamo andá. Diz aí aonde.”
Não tinha como sartar.
Ia ter que por os pés , naquela bota que nunca mais secou , outra vez.
Passei a semana sem olhar a previsão. Eu já previa…
O sábado chegou.
Acertei.
Chovia. Chovia forte.
Esse cara , o que veio do interior , gosta de moto.
Mesmo diante do céu “preto” e da chuva constante , o cara tava curtindo…
Assim sendo , ia tentando me consolar:
“Seu Edu … , não é um dia ruim. É só um dia chuvoso…”
As palavras faziam todo o sentido , mas , tava difícil de convencer a mim mesmo.
Olhando as bikes novas e limpas pelo retrovisor , até tentei….:
“Cê não tá precisando de uma bota? Vamos pra cidade comprar uns equipos… , comer um filé no Moraes…!”
Por sorte , ele ignorou.
“Toca logo pra esta pista rapaz!”
Sem saída , eu procurava uma razão pra curtir.
Na caçamba , uma KTM SX150.
Há muito tempo não andava de 2T.
Esta era uma boa razão pra por os equipos molhados!
Mesmo porque , já tava chovendo mesmo…
Como todo e qualquer offroader “VET” , queimei um bocado de óleo 2T na vida.
Duques eram minha escolha. Sempre.
Sempre , até conhecer esse cara.
Eu o conheci andando de 250 e ele de 125.
Na sequência , tive outras várias bikes.
Ele também! Todas 125….!
Sempre me dizia:
“De 125 , ao final do dia , a gente se sente um herói….!!!”
Detalhe: o cara anda na serra e , praticamente , só anda de trilha
Por conta deste “conselho” acabei andando de 125 2T uns três anos…
Quem teve a oportunidade única de conviver com uma , por algum tempo , conhece bem a realidade.
São maquininhas maravilhosas…!
Na motinho , não existe baixa.
Só anda “no grito” , motor cheio , nada mais. On/off.
Na minha opinião , uma 125 2T é a melhor escola de pilotagem que existe.
O sujeito tem que olhar pra frente , queira ou não.
Não é bom frear uma 125. Não é bom quebrar a inércia do movimento.
É difícil “fazer” motor numa 125.
Por isso , cabo enrolado , embreagem e foco adiante.
Se chegar ao obstáculo “sem motor” , seja este uma enorme poça , um degrau , ou um salto……
Pensa em algo que começa com FU e acaba com EU.
Não tem outra palavra mais apropriada…
Todo bom piloto de 125 2T tem calo nos dedos da mão esquerda.
Todo bom piloto de 125 2T, sabe usar a embreagem como se deve.
Todo bom piloto de 125 2T, é bom piloto de qualquer moto.
O rolê seguiu. Molhado.
Escorregadio , com vários trechos muito lisos , “tenso”.
Destes do tipo…. não freie , não faça movimentos “bruscos” , procure algo mais “denso” pra apoiar os pneus e mantenha a inércia.
Aceleramos. Eu de 450 , ele de 150.
Fizemos três baterias de 50min sem conversas , só parando pra tomar água e trocar os óculos.
Uma 450 é um transporte apropriado pra este tipo de situação.
Uma marcha acima e …. : tudo bem.
O negócio traciona muito e nesta condição de marcha , não “espana”.
Se algo der errado e for preciso atravessar um “lago” , basta sentar pra trás , girar o comando rotativo , travar os joelhos e …. , até logo.
O trator fica “em casa” , na lama.
Segunda , terceira , leveza nos comandos , inércia , progressividade.
Vai-se longe e relativamente rápido , numa 450 , nestas condições de piso.
Já na 150…. , no liso , a história e outra , bem diferente. Especialmente numa SX.
Se não acelerar (ou andar uma marcha acima) , ela “engole” na primeira poça ou degrau.
Se mandar mão , ela “espana” , perde tração.
Se frear , não consegue grip pra retomar a velô na sequência.
Se não frear….. , deposite sua confiança nas extraordinárias WP e … torça pra não bater em nada muito duro no mato.
Vantagem?
Uma. É leve.
Muito leve.
Imagina como “põe” uma bicicleta na curva. Imaginou?
É igual.
Imagina como passa uma bicicleta por cima de um tronco. Imaginou?
É muito parecido.
Todo “VET” do Off Road , já experimentou a sensação de trocar , pela primeira vez , uma 125 ou Duque 2T , por uma 450 ou 250 , “F”.
É uma sensação indescritível…. , maravilhosa!
É como se você dormisse sendo quem você é e , acordasse andando como o Bissinho.
Espetáculo!
A transição de uma 2T para uma 4T é como um sonho.
Infelizmente , esta “mágica” , só acontece uma vez na vida.
Any way , eu estava com saudade. Muita.
Não demorou , propus uma troca de montarias.
KTM´s são KTMS´s….. , são diferentes , “customizadas”. “Maneiras” , como bem diriam os cariocas!
Já de saída , não “achei” o motor…., nem no chão , nem na embreagem.
De fato ele é tão pequeno que o cilindro inteiro , é quase do tamanho do carburador.
Tentei colocar o motor no giro pra sair e , a parada não saiu do lugar.
O chão tava muito liso.
Muitos RPMs não combinam com chão muito liso.
Lembrei pra que é que servia a tal da embreagem.
Na primeira session mais cascuda , uma sequência de poças enormes , aliviei pra achar uma “rota” e esqueci de trabalhar no cambio , no giro e na embreagem….
A 450 passa lá em segunda…. Passa lá em terceira…. Passa lá em quarta…. , deve passar até em quinta…!
Tô mal acostumado.
A motinho não. Só passa na marcha e na rotação certa.
Na sequência , um trecho de cotovelos muito liso.
Uma pra cima e a parada ficava “chocha” o ritmo diminuía e eu começava a escutar os caras se aproximando.
Uma pra baixo e a cadeira elétrica parecia uma minhoca no asfalto quente.
Me lembrei outra vez: Embreagem!
Mas …. , como é mesmo que usa isso?
Esqueci.
Há anos andando de “F” , acostumei a fazer tudo no controle de aceleração.
Errado , eu sei.
Preguiça. Confesso.
Tem dia que eu praticamente só uso embreagem pra sair , pra acertar a tangencia das curvas de “alta” ou pra por a frente em cima de um degrau ou tronco. Mais nada.
Na minha terra , no carreador , tem muito pouca areia e quase nada de lama bruta.
Manete de embreagem lá , encalha na prateleira…
O sonho acabou.
Um amigo , veterano , chegou e deu o recado.
“Sair das 2T pra as 4T é muito bom. Voltar , nem tanto…”
Tá coberto de razão.
Havia me esquecido.
Ao final , encontrei um sentido nisso tudo.
Pense:
É natural que , a partir de um determinado momento , com o passar dos anos , nossa velocidade diminua (diminua mais…).
Quando isso acontecer , vamos ter que lançar mão de alguns “artifícios” pra manter o ritmo.
Quando essa hora checar , meu amigo “Centoevintecincoman” , estará na vantagem. Certamente irá montar numa 250F e “fritar” a concorrência.
Seus dedos da mão esquerda estarão calejados e familiarizados com o trabalho intenso.
Sua referencia do comando rotativo será precisa. Tudo aberto , enrolado , sempre.
Seu olhar estará habituado a focar vinte , trinta metros adiante.
Seu pé direito , “flexível” , de tanto “ajudar” o quase inexistente freio motor.
Enfim , torça pra que as 125 2T nunca mais voltem a ser populares , isto poderia vir a trazer frustração para muitos.
Respeite os caras que sabem andar rápido com uma delas.
Se a sua meta é evoluir , compre uma.
Temos , nos que vivemos esta transição , a sensação de estar andando mais rápido.
Ilusão.
Mesmo diante dos incontáveis sábados , nossa evolução foi modesta , se comparada à evolução de nossos equipamentos.
A diferença , a evolução , talvez esteja mais neles do que em nós.
Peça uma 125 2T emprestada e vá entender o porque…
Como diriam os caras do Van Halen : “Dream another dream… This dream is over…!”

Leia tembém > Minha vó operô das vista

Pluct, plact, TUM!

LingPort 130428 025 grafismo pessoasTexto e foto de Valéria del Cueto

Queria não ser assim quando passou por ali. Poder andar pelas nuvens e não pelo chão, saltitar nas estrelas, como uma bolinha de pin ball enlouquecido das luzes noturnas. Lá, onde astros sedutores acenam com seus brilhos pisca-piscas pedindo atenção e atraindo incautos como ele. É mais um impulso em direção a um novo qualquer coisa.

Caiu na real e viu que estava na Terra. Que sua capacidade de pulação tinha sido extremamente reduzida pela gravidade poluída e pesada. Daqui não sai, daqui ninguém o tira.

Alto lá que isso é um castigo muito pesado para um pulador de galáxias, acostumado a percorrer distâncias impossíveis em saltos acrobaticamente calculados. Com direito a repique nos satélites adjacentes. Afinal, quem não quicou pelas luas de Júpiter e resvalou nos anéis de Saturno não pode ter a menor ideia do que estamos tratando aqui. Fala de sistemas estrelares, galáxias, dimensões. Fala do tudo e do todo que permeia.

Agora, se vê assim. Procurando não uma, mas a saída para a cilada atual. Chegou pensando em fazer um tour e acabou sugado, atraído por um imã de um planeta que, por alguma razão inexplicável, sofreu um deslocamento e ficou preso entre duas dimensões.

Só pode ser essa a explicação para tantos paradoxos. O belo e o terrível, o elevado e o rasteiro, o auto suicídio com o esgotamento das impressionantes reservas planetárias. A maldição de ser supremo e vil. Como tantas criações geniais podem gerar incontroláveis impulsos destruidores… É como se a quinta dimensão dos gibis do Superboy, aquela que todos falam de traz para frente e onde todos os valores são invertidos coexistisse não paralelamente, mas integrada a outra, a natural do planeta.

Isso pode ser a causa de desequilíbrios do sistema terráqueo, onde são testemunhadas maravilhas sendo alcançadas e coisas que apenas a natureza bidimensional dos humanos pode explicar: matança, ganância, destruição, corrupção gerando o caos inexorável e cruel.

Essa semana os líderes mundiais se reuniram e ouviram uma presidente que quer normatizar a espionagem. Mal sabe ela… Todos os passos de todos os seres existentes estão registrados nos anais divinos. Não apenas os da internet, mas até os dos pensamentos, das atitudes e especialmente os das consequências de seus atos. Lá não tem esse negócio (nossa, ele já fala como eles) de duas dimensões, duas caras, duas versões. Lá segurança é segurança, controle é controle. Lá também se mede, quantifica e codifica milimétricamente – para falar no sistema de medidas daqui, não apenas o que é dito, pensado e feito. E a contagem de pontos não é pela lista dos mais ricos, espertos, ou dominadores. Ela é pelo que cada um recebe e o que isso gera para o coletivo.

Essa senhora, por exemplo, chamou a atenção pelo trânsito fácil entre essas duas dimensões que coabitam esse planeta. Diz, desdiz, se contradiz, sem se dar conta que sua conta está para lá de negativada. Poderia ter feito. Mas não fez sua lição ao desperdiçar os meios que teve em suas mãos: saúde, segurança, educação… Como alguém consegue botar a cabeça no travesseiro sabendo que está deixando como legado uma nação e povo mais mal-educado, com um lixo de saúde e vivendo  inseguramente, ameaçado pela gananciados dos que ela escolheu como companheiros de jornada?

WALDEINSAMKEIT. Em alemão é a sensação de estar sozinho numa floresta, segundo o perfil de Alba Regina Ricci, numa rede social. Não é apenas ela que tem essa sensação. Ele também a (re)conhece. Não de uma floresta, mas de um mundo perdido que não o deixa sair, nem pular, nem sonhar…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Eira e beira

Praia Leme130901 002 rosas sem tirar nem porTexto e foto de Valéria del Cueto

A porta aberta era um convite. Passou por ela. Do lado de fora um corredor. Seguiu até a escada. Olhou para cima, pensou em subir. Olhou para baixo, deduziu que a saída era por ali. Desceu para a vida.

Na portaria viu o outro lado do vidro: calçada de pedras portuguesas, asfalto, carros, árvores… Tudo depois da grade. Achou o acesso à saída. Mal tocou, um sinal indicou que o portão estava liberado. Abriu e saiu. Ouviu o barulho da grade se fechando rapidamente. Não havia como retroceder.

O caminho para a rua liberado. Várias opções: esquerda, direita ou em frente, cruzando a linha de carros que subia por cima dos canteiros e fazia das árvores sobreviventes do sufoco urbano. Abusadas, que são insistindo em resistir.

Sujeira, lixo, abandono. Calçadas mal cuidadas, com armadilhas para pedestres, desrespeitados cada vez que, ao fazer a curva da ladeira, graças ao ângulo para desviar dos carros que ocupam indevidamente o espaço público, sob as barbas complacentes e cúmplices dos representantes da lei e da ordem, os caminhões vão comendo sua beirada, subindo pela quina e afundando as tampas dos bueiros e afins. Ironicamente, cada invasão da calçada é presenciada por um atento policial militar. Destacado para vigiar as pessoas e ignorar solenemente as irregularidades que não são de sua competência. Mesmo sendo justamente sua viatura uma das que contribuem para o afunilamento e consequente destruição do bem público.

O olhar vai subindo para acompanhar o caos e a desordem daquela que já foi uma rua tranquila e bucólica. As marcas da degradação não são suficientes para encobrir o encanto que persiste nos pequenos detalhes da arquitetura, na graciosidade das árvores centenárias que formam um corredor de sombras onde passarinhos se divertem no meio da selva de pedra.

Pode parecer clichê, mas foi assim que viu e descreveu o entorno.

Um último detalhe chamou sua atenção: no alto das árvores as orquídeas floresciam brancas e lilases, agarradas aos troncos e sustentadas pelo carinho dos porteiros dos prédios. Quase um sinal. Aquele que procurava.

Mas não valia. Afinal, a florada acontecia anualmente e fazia parte do ciclo local.

Tomou o rumo do final da curta rua e ao dobrar viu, acima dos tapumes invasores da empreiteira, o azul do céu sem limites emoldurado pelas copas de amendoeiras confusas.

Suas vidas agora são assim. Num tempo especial. Suas folhas amarelam e caem quase na primavera, deixando o outono sem suas cores avermelhadas. Fazer o que?

Para frente segue o caminho que passa pelo calçadão, atravessa as pistas asfaltadas, atinge as ondas de pedras portuguesas de Burle Marx e, finalmente, chega na faixa de areia branca da praia quase deserta.

O vento sopra, os coqueiros balançam, o mar resmunga. Um deserto sem miragens, atravessado em passadas lentas. O mar chegando.

Na beira da imensidão, marcas de pés tatuam o terreno há pouco lambido por uma onda mais atrevida. Elas ajudam a contar a história das duas hastes com algumas poucas folhas que sustentam as flores espetadas na areia. Rosas vermelhas. Solitas e dramaticamente emolduradas pelo colorido de dia espetacular, sem meio tom.

Olhou as rosas. E se armou de cor, de paz e um pouco do amor alheio. Continuou.  Era o sinal…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Turista e/ou viajante

Paraty 130821 065 mare alta rua coqueiro mo+ºaTexto e foto de Valéria del Cueto

Cansaram de Paraty? Cansa não. Ainda tem um tanto pra contar. Melhor que meditar sobre os últimos acontecimentos, não é? Quer saber? Não há luz no fim do túnel. E, dito isso, vamos procurar novos interesses para aplicar as energias.

Viajar é sempre bom ainda mais quando há tempo para abordar o lugar por uma perspectiva não apenas “standard”, mas também conhecer o ritmo de vida dos locais. Depois de muito analisar, começo a chegar a brilhante e nada inédita conclusão que existem dois tipos distintos: os turistas e os viajantes. Acho que me enquadro no segundo sem, de maneira nenhuma, desmerecer o primeiro

Engraçado é que essa atitude é quase igual a andar de bicicleta. Depois que a gente descobre, vicia. Não consigo sossegar enquanto não interajo com moradores, exploro seus desejos, convivo com seu dia-a-dia. Só fazer turismo não me satisfaz.

Normalmente começo no próprio lugar em que me hospedo ao descobrir que a encarregada do café mora longe e preferia o sistema de saúde da cidade grande. É lá que fico sabendo da peregrinação pelos supermercados, em busca das ofertas e preços baixos.

Ainda é pouco, mas já dá pra começar. Andando pelo point do comércio fica explícito o domínio de estrangeiros competindo com franquias da Richard’s e outras marcas de lojas que existem em qualquer shopping. Dizem os locais que tem um grupo comprando um quarteirão inteiro do centro histórico.

Engraçado é que parecem que eles chegam em levas. Artistas abrem ateliês, profissionais liberais estabelecem seus negócios. Argentinos, muitos argentinos. Um francês aqui, outro ali.

Saindo um pouco da área mais valorizada, encontrei os nativos. Pra falar a verdade, comecei minha busca num local bem óbvio: na Casa da Cultura, conversando com os funcionários. Ali, descobri que as duas livrarias e a revistaria do centro histórico são da mesma dona. Gostei do que vi nas prateleiras.

Também fora da muvuca fica o Teatro Espaço onde o “Grupo Contadores de Histórias” fez a sua e se tornou referência internacional no teatro de bonecos, num trabalho de mais de 30 anos.

No penúltimo dia de viagem, por causa da maré alta que invade as ruas centenárias, descobri o tamanho da loja que vende os produtos feitos pelos pescadores artesãos do Saco de Mamanguá. Quer ver as fotos? Aguarde uma próxima viagem porque, ao descobrir o caminho por dentro da loja, que vai de um quarteirão ao outro, fui soterrada de informações e imagens e preferi deixar pra explorar tanta riqueza numa próxima oportunidade. E já aviso. É lindo, exuberante e surpreendente!

Mais lindo porque, ao contrário dos barcos no porto, a maioria mantem suas cores tradicionais e puras: o azul, amarelo, vermelho e verde. O que já não se verifica no porto. Ali fui surpreendida com uma releitura do colorido das embarcações: cor de rosa, lilás, fúcsia, verde água… Segundo um marujo, o dono de um barco inventou a novidade atraindo os turistas que procuram passeios marítimos e um monte de outros barqueiros a seguiram. Virou moda. Sinceramente? Não sei não. Espero que a onda passe.

A busca da viajante não privilegia os atrativos turísticos, mas também não os exclui quando eles surgem diante das lentes fotográficas. Foi assim com a maré que me levou ao abrigo da loja de barcos. Primeiro ela se espelhou, com ares de “resista, se for capaz”. Não resisti.

Assim como não pude fazê-lo diante da cena do artista que pinta os recantos da cidade. Para meu deleite e- espero – seu também.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Paraty 130821 169 pintor na rua palheta e flores pes cruzados

Agora em Olinda, um MIMO para ti

Texto e fotos de Valéria del Cueto

11:01 é a hora e o minuto do tudo ou nada. Sempre às sextas. É assim. Com variante.
Essa semana o motivo de catar milho no dead line do querido Nei Ferraz, heroico diagramador do Ilustrado do Diário de Cuiabá, não foi falta de assunto. Esse sabia qual era desde a ida a Paraty, semana passada.
O encalacre, ao contrário, era como falar de tudo o que vi em tão pouco espaço. Caí – quase de paraquedas, na primeira semana do Festival MIMO – Movimento Internacional de Música de Olinda.
Foi na co-irmã pernambucana que nasceu, em 2004, a caravana de artistas que se apresenta nas igrejas de Patrimônios Históricos brasileiros. Esse ano a festa começou em Paraty, esteve em Ouro Preto, Minas Gerais, desaguará em Olinda dia 02 e por lá se espalhará até o dia 8 de setembro.
Disse “se espalhará” por que é assim. Concertos nas igrejas, nos palcos montados nas praças, curtas, médias e longas cinematográficos brasileiros com temáticas musicais, no Festival Mimo de Cinema, workshops, máster classes… E mais os eventos paralelos, como a Exposição MIMO 10 anos, a Chuva de Poesia e só em Olinda, o Spasso Escola Popular de Circo. Acabou? Não. Faltou o Fórum de Ideias.
O dilema do Mimo é que dá vontade da gente ir seguindo junto, tal a qualidade das atrações espalhadas pelas três cidades históricas da edição. O caminho? Cada um tem e faz o seu. Graças a Deus…
Dos espetáculos que assisti em Paraty três estarão em Olinda: o MANdolinMAN, um jovem quarteto de bandolinistas belgas que mistura música folclórica do pais e algumas peças de “bossa nova”.
O duo Milewski, composto pelo violinista Jerzy Milewski e a pianista Aleida Schweitzer que, frequenta o MIMO desde sua primeira edição e dá um show não apenas de música, mas se conectando com o público de maneira muito especial e arrancando calorosos aplausos da plateia.
O terceiro espetáculo que se repetirá em Olinda é o de Stephen Micus, músico e compositor que toca e compõe usando mais de 100 instrumentos recolhidos em suas andanças pelo mundo. Aguardado ansiosamente, esta é a primeira vez que vem ao Brasil.
Um detalhe: todas as atividades do Mimo são gratuitas e a organização é realmente muito boa. As senhas para assistir aos concertos sempre são distribuídas às 17 horas pontualmente. Em todos os espetáculos que assisti tanto na igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios, quanto na Nossa Senhora das Dores, em Paraty, os lugares se esgotaram.
Apesar de não estarem na programação de Olinda, destaco mais três “espetáculos”. No primeiro a cravista Rosana Lanzelotte, o percussionista Caíto Marcondes e o violonista Luis Leite comemoram os 150 anos de Ernesto Nazareth. Sou fã de carteirinha de Rosana e seu maravilhoso instrumento desde que tive o prazer de fazer uma das câmeras de seu DVD com o violoncelista pernambucano Antônio Meneses, gravado numa igreja histórica do centro do Rio anos atrás.
Para fechar, dois shows no palco da praça: os de Rum Tareq Al Nasser, jordaniano que se consagrou por revitalizar a música árabe e se apresentou com o grupo RUM, e de Herbie Hancock, aquele, um dos maiores pianistas norte-americanos.
Passo, mais uma vez, por Paraty sem sair incólume aos sopros de arte, música e literatura que passeiam pelas ruas calçadas de “pés de moleque” com suas pedras irregulares onde foram parar os pingos da Chuva de Poesias de sonetos Gregório de Mattos, o Boca Maldita. Isso, quando não ficaram pendurados nas árvores centenárias da Praça da Matriz…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Para mim, Paraty.

Valeria 054Texto e foto de Valéria del Cueto

Troquei o “P” da Ponta pelo “P” de Paraty por alguns dias. Voltei a um lugar que sempre fez parte dos meus roteiros. Nunca turísticos, no sentido clássico da palavra, porque nunca os conseguirei fazer.

Conheci Paraty quando a cidade, Patrimônio Histórico Nacional, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, passou a fazer parte da minha rota de fuga pós-campanha política em Mato Grosso. E foram muitas… Um dia, por acaso, em vez de pegar a Dutra para fazer o trajeto Rio/São Paulo acompanhada em um parceiro que, como eu, adorava uma estrada e um desvio, resolvemos descer por Santos e vir bordejando o litoral dos estados de São Paulo e Rio de janeiro, até chegarmos a Cidade Maravilhosa.

Levamos para percorrer esse percurso mais de uma semana. Parando onde achávamos que iríamos descobrir lugares especiais e recantos. Fugindo, como sempre das muvucas, exaustos que estávamos dos meses de trabalho pesado eleitoral.

Bertioga e Ilha Bela, ainda em São Paulo, fizeram minha cabeça e consumiram alguns dias, até chegarmos a quina sul do Rio de Janeiro, Paraty Mirim, onde chegamos por uma estradinha safada de terra e aproveitamos para não perdermos a manha de dirigir nesse tipo de condições adversas como fazíamos direto pelas quebradas mato-grossenses.

Batemos em Paraty em clima de semi-exaustão e despencamos numa das melhores pousadas, na área restrita à circulação de automóveis, para recuperarmos nossas energias exauridas, não na viagem, mas no trabalho. Éramos “nobres” chegando melhor estalagem da colônia e assim fomos tratados.

Apaixonei-me por Paraty para sempre. Principalmente por que chegamos num domingo a noite e pudemos re-conhecer o lugar e os caiçaras sem a interferência dos visitantes de final de semana. Isso foi nos idos do milênio passado. E, de lá para cá, para me levar a Paraty, bastava um convite. Fosse para o que fosse: alambiques, Estrada do Ouro, praias do continente…

Depois, quando me considerava uma quase especialista no pedaço, conheci outra Paraty, com atrações incríveis e paisagens únicas.

Na minha vida al mare, velejando e andando para cima e para baixo nas 365 ilhas da Baía de Angra dos Reis, por uma necessidade burocrática tivemos que levar a escuna Corisco a capitania da Marinha para regularizar o barco. E a mais próxima era em…

Foi como olhar uma imagem que já conhecia por um ângulo totalmente novo – e mais – com a possibilidade de explorar o sensacional e recortado litoral de Angra até lá.

Se fosse usar a técnica exploratória que praticamos nas viagens de carro pelas famosas curvas da estrada de Santos, desembarcando em cada praia ou recanto que me encantava no caminho, levaríamos meses, quiçá um ano (caso abríssemos o raio de ação até Paraty-Mirim como, é claro, cheguei a propor ao comandante. Tive minha proposta rechaçada pela sempre apertada agenda das fugas para os paraísos e pela existência de Ilha Grande, nosso objeto exploratório prioritário)

Entre outras idas e vindas, a mudança mais significativa dos perfis de minhas visitas foi quando a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty me fisgou por dois costados. O do local que adoro e a atividade que venero: a literatura. Tudo ótimo. Mas ver o paraíso entupido de gente me incomodou e dificultou minha sintonia local.

Agora, volto para o MIMO – Mostra Internacional de Música de Olinda. Mas, como não sou iniciante, antecipei a chegada e, durante dois dias, pude fazer o que mais amo: conviver com os moradores locais. Ouvir suas histórias (o que é praticamente impossível na correria dos finais de semana) e, do silêncio das ruas, desertas extrair imagens quase puras do nosso longínquo e rico passado colonial.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Nada aquém

FloripaN 120831 328 Cost+úo do Santinho lindaTexto e foto de Valéria del Cueto

Depois de me dedicar a dificílima arte de não fazer nada na semana passada, fazer o que?
O mundo anda lá fora, mas aqui dentro tudo está quase parando. Tem que esperar. Mas esperar o que?
Os sinais não estão claros. As forças que “puxam” as correntes que observo não estão definidas, mas existem.
Existem e estão por lá. Mexendo a água, a areia e quem se aventura a enfrentar as temperaturas inconstantes dos últimos dias.
Mais que cumprindo tabela, fazendo o papel de feiticeiras do tempo. Mesmo que seja do tempo invisível. Aquele que, quando vemos, já passou e a gente nem viu…
Por isso valorizar a sintonia entre o ser e o entorno. Quando a onda vem, surfar nela, como se não houvesse amanhã. Usar a força natural para se projetar em direção aos deuses do Universo, quase dialogando com eles. Assim, num tête-à-tête. Quando a onda vem…
Só que para detectá-la a tempo de poder usar sua energia a seu favor é preciso estar ali, a postos. Preparado para fazer o movimento correto, na hora certa. A palavra é sintonia.
E aí o exercício é permanente. Estar com os canais abertos para perceber, receber e acumular (para os momentos menos luminosos) os sinais emitidos é uma ginástica. Ela ajuda, limpa o organismo, purifica o sangue, aumenta os batimentos e carrega a adrenalina.
Mas… como tudo, tem seu tempo.
Continuo aqui, olhando o movimento. Esperando sentir na ponta dos pés o frêmito que vai se espalhar por todo o corpo no momento de fazer a minha parte. Usar toda a energia disponível para acompanhar a inspiração que explodirá logo ali na frente, num mar de espumas, uma parede de água.
Como tudo na vida pendendo entre o movimento e a imobilidade.
O problema é a água fria, no caso do mar, e o marasmo, no caso da terra. É aprender a fazer do tempo um aliado em que podemos aproveitar para organizar o passado e preparar o futuro.
Como um atleta que se prepara para uma prova. Momentos antes do sinal da largada.
Naquele instante em que pesamos o que fizemos para chegar até ali e projetamos o que faremos no decorrer do percurso.
O momento. Do tudo ou nada.
Ali, ainda há uma possibilidade. É a hora da verdade. Da sua verdade, de mais ninguém.
Primeira pergunta: fiz tudo o que podia? (geralmente me ferrava nessa, com a impaciência e a inquietude que carrego). Segunda: posso contar com isso para alcançar meus objetivos? Terceira: o que mais existe no meu corpo e na minha mente para explorar, extrair e transformar em energia?
Se a preparação foi pouca isolo a “falha”, zero a ficha e, vazia de minhas deficiências, por que as ignoro – jogadas que estão para escanteio, projeto minha vontade.
Porém… Se no balanço de perdas e danos considero o trajeto produtivo incorporo suas qualidades, esqueço seus defeitos e aí, sim, me dedico ao prazer de estar em sintonia.
O caminho? Cada um tem e faz o seu. Graças a Deus…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

And now…

Leme Papa130723 016 sombrinha rio quebrada

Texto e foto de Valéria del Cueto

O vácuo entre os megaeventos deveria chegar a essas mal traçadas páginas.

Uma pausa entre o arrasa quarteirão eclesiástico e o da música, uma caminhada nextélica e cheia de lama entre a Cidade da Fé e a Cidade do Rock.

Pra começar nada de Cidade da Fé, que essa ficou atolada em Guaratiba. Foi um caso em que a arte imitou a vida, que aprimorou a arte.

Refiro-me a arte cinematográfica do delicioso filme franco-uruguaio “O Banheiro do Papa”, de 2007, escrito e dirigido por César Charlone e Enrique Fernández.

Uma história real, que virou ficção para ser ampliada exponencialmente na malograda Cidade da Fé: a de um contrabandista de fronteira que usa tudo o que tem para construir um banheiro, atender as necessidades básicas dos peregrinos e arrumar algum. Lá, deu tudo errado, igual aqui.

Isso é claro, não tem nada a ver com a alegria do Papa Francisco, sua empatia e a forma com que cativou as multidões por onde passou. Seu carisma é sua mensagem são inquestionáveis. A questão é mais palpável e real. Ela é financeira e econômica.

Foi nesse quesito que a parte Zona Oeste do Rio levou um banho. De água fria. A parte Zona Sul ficou sem transporte, desabastecida, porém feliz. Afinal o Papa é pop.

E já se foi. Para nós, ficou a realidade, a espera e um novo megaevento para breve.

A diferença está, justamente, nesse intervalo, agora habitado por uma gama variadíssima de manifestações populares. E, com as perspectivas futuras, em curto ou largo espaço de tempo, a tendência é que essa agenda venha a ficar ainda mais intensa. Afinal dólar subindo, bolsa em queda, e a inflação… Deixa pra lá.

Esses fatores, aliados ao descompasso dos dirigentes políticos, agora já preocupados em tirar proveito da revolta da população, já que estão definitivamente mal na foto popular, só tendem a agravar o quadro.

Não falo do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, estados por onde costumo circular com mais frequência. A questão é nacional.

Até Amarildo, o desparecido da Rocinha, não é mais um apelo carioca. O Brasil inteiro pergunta ao (des)governador Sérgio Cabral: ONDE ESTÁ O AMARILDO?

E, quanto mais fuçam pior fica. As câmeras que pagamos e eles anunciaram e alardearam nas propagandas milionárias em horário nobre da TV, simplesmente não funcionavam. Assim como o transporte, a saúde…

Alguém tem que pagar por isso. É muita irresponsabilidade, muito desperdício.

É nosso dinheiro sendo usado não em benefício do povo, para sua proteção, mas para enriquecer as firmas A e B, que simplesmente não cumprem o exigido nos contratos assinados e nem mal e nem porcamente fiscalizados.

Assim como as câmeras do Amarildo, as da CETRio também falham quando acionadas pela população. Especialmente as da casa do Sérgio Cabral…

Por essas e por outras é que haverá uma data especial no calendário dos megaeventos, no mês que vem, inserida por motivos alheios a vontade popular. Será o 7 de setembro.

A data em que todo brasileiro vai entender Dom Pedro,  quando bradou com revolta no coração e a voz cheia de razão: “INDEPENDÊNCIA OU MORTE”!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Quem vai querer?

 Texto e fotos de Valéria del Cueto

Somos uma ilha cercada de peregrinos na nossa única saída. O resto vocês já sabem: morro, pedra e mar.

Estamos abençoados por tabela e ricochete. Não precisa nem chegar no palco Rock in Rio de Francisco.

Ele nem deve ter notado os “patrocinadores” pendurados em seu cangote. Nextel na concepção “solideridade” do VT exaustivamente exibido e Rock in Rio na Cidade da Fé e outras alusões conceituais. Os de sempre, né, gente? Devem ter sido chamados a colaborar, mas como o Vaticano já tem seus próprios e apropriados apoiadores, tipo  Allitália e Fiat – italianos como o Vaticano  original – tiveram que se desdobrar pra pegar uma beira no merchandising de Francisco.

Um destaque especial para a Coca-Cola que colou seus adesivos nos isopores de água e refri. Por que cerveja, nem pensar! (evento no Rio sem cerveja?)

E foi pensando nesses detalhes que resolvi desenvolver a crônica de adieu a Francisco. O cara, sem dúvida, é gente boa. Além da benção e do perdão dos pecados conseguiu o milagre de apagar as propagandas explícitas invasivas e de mau gosto que pululam nos eventos na Cidade Maravilhosa. Provou que dá pra fazer a festa sem escancarar e empurrar goela abaixo a poluição visual que descaracteriza o Rio a cada nova atração.

No quesito decoração é assim que o Rio deveria ser se não fossem os vendilhões de cabeça curta e bolso largo. Os que não se dão conta que ao encher o Rio de penduricalhos cada vez mais acintosos e invasivos, só depõem contra nossa beleza natural, desvalorizam nosso corpinho.

Mal comparando, é a nobreza aristocrática de Paris (já viu banner na Torre Eiffel? Propaganda no Arco do Triunfo?) perto da Garota de Ipanema, transformada em quenga de quinta carioca. Aquela que se depender de seus gestores, abre as pernas e empresta seu corpo pra qualquer um que aparece com um troquinho. Não para a cidade, mas para os amigos.

Pois esse é um dos legados de Francisco que tantas coisas nos ensinou e com tanto carinho nos tratou: a prova de que é possível, sim, realizar festa sem vender nosso patrimônio visual, sem poluir a cidade com tanta propaganda invasora.

Quanto mais limpo melhor e mais caro. Aproveitamos para botar os publicitários de plantão para exercerem seu papel que é criar, inventar alternativas mais atraentes e menos poluentes.

Foi quando vi a caixa de isopor padrão que escolhi qual seria meu olhar (míope) quando saísse pra fazer fotos: procuraria o Rio entre os ambulantes.

Afinal, é possível sentir o pulsar da cidade por suas ofertas. Isso não é novidade. Debret já retratava os ambulantes em 1800 e lá vai pedrinha.

As condições do tempo e temperatura impuseram os hits da temporada: guarda-chuva e capa. As cangas, especialmente as da bandeira do Brasil, viraram proteção para o frio. Acho que se estivesse fazendo um calorzinho a tendência teria sido mais, digamos, liberal. Não que as moças usassem biquínis, mas um topzinho básico ia rolar. Depois, confessionário! Um item bem avaliado foram os banquinhos de quinze reais, pra quem não quisesse sentar na areia úmida.

A essa altura eu já estava preocupada. Onde andavam os produtos tipicamente cariocas? (A estampa da sombrinha/cartão postal não conta). Rodei bastante até achar um vendedor de Biscoito Globo. Quanto ao Mate Leão, tão genuíno… Lamento informar. Procurei muito. Mas mate por aqui, só a erva (mate) do chimarrão oferecido por um peregrino a  Francisco, o Papa argentino mais brasileiro do mundo.

 *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Coisa de cinema

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Texto e foto de Valéria del Cueto

E assim, no meio do quase tudo, em que nada é estático ou irremovível como pudemos ver nos últimos dias no arrasa quarteirão do bairro mais chique do Rio de Janeiro, lá (ou aqui?) está a cronista.

Sem saber se vai ou vem. Fala, age ou vai pra praia, corre ou enfrenta seu desafio semanal de contar um conto, de preferência sem aumentar um ponto. Complicado. Delicado. Porém, necessário.

E entre tantas possibilidades, por mais que procure um assunto lúdico e ameno, as imagens do passeio treme terra dos vândalos e liberação do quebra-quebra, provocados pela ausência eficaz de ação policial, não saem da cabeça (ia dizer do foco, mas seria uma licença “vídeo produtiva” forçada demais, já que foco não foi uma constante no material amplamente distribuído ao vivo e a cores durante os atos registrados nos últimos dias).

Apreendo tudo ali pensando que, se ainda não chegamos aos tempos de “Matrix”, as projeções de “Soylent Green”, filme estrelado em 1973 por Charlton Heston, dirigido por Richard Fleischer, já batem a nossa porta. No Brasil o filme foi rebatizado de “No mundo de 2020”. Pois então, tirando o efeito alimentar, já estamos quase lá…

Não é por acaso que menciono esse filme. Também não sou a única a fazê-lo. A obra que assisti com uns 14 anos é citada e relida no filme “A Viagem”, estrelado por Tom Hanks, disponível em qualquer locadora. Se fosse só cinema…

E aí chego à questão principal dessa crônica. O que está acontecendo com a polícia, especialmente a carioca, nas últimas manifestações? Parece que dos manuais dos valorosos homens do Bope e do Choque foram extirpados os ensinamentos apresentados à sociedade, inclusive pelo cinema, nos espetaculares Tropa de Elite 1 e 2. Mas esses, obedecem ordens!

Não é possível que alguma lavagem cerebral tenha apagado das mentes das autoridades policiais constituídas táticas clássicas de guerra tão antigas como as usadas desde os tempos de Esparta e Atenas e do gênio militar da Macedônia, Alexandre o Grande.

As cenas da coletiva dos representantes do governo estadual do Rio de Janeiro, na quinta feira, exaustivamente disseminadas em enormes matérias pelas redes concessionárias de televisão, foram patéticas, constrangedoras e preocupantes.

Um comandante reclamando que os policiais recebem cusparadas durante as manifestações é surreal! Agradeçam e digam amém. Se fosse numa guerra, seriam atiradas balas de verdade e não escarros de desprezo. A declaração de que policiais treinados durante anos também são cidadãos é uma balela. Se eles fossem cidadãos, estariam do lado oposto desse cabo de guerra. Estão ali e são tratados pelas autoridades como máquinas da lei e da ordem. Não têm direito a opinião, só a obedecer. E seu comandante em chefe, pasmem, é Cabral!

Os depoimentos colhidos pelos ninjas alertam que os policiais militares estão trabalhando direto. Um deles, disse que estava na rua desde 6 da manhã. Isso já durante a madrugada! Se não me engano, foi no dia em que o gás lacrimogênio ou de pimenta foi atirado em direção a um hospital, na rua Pinheiro Machado, em frente a residência oficial do governador.

Falta tática, estratégia e comando para definir as prioridades. A polícia que protege, agora, a casa do governador Sérgio Cabral no Leblon, não pode “delimitar um perímetro de proteção” e deixar que as coisas saiam e fiquem fora de controle do lado de fora da risca de giz definida pelas autoridades que, em última análise, deveriam fazer com que a PM cumpra seu papel constitucional de proteger o cidadão comum e o patrimônio público.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

O Papa é pop, já a Igreja…

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Texto e foto de Valéria del Cueto

O mundo está rodando. Lá fora.

Aqui, no meu canto do Leme, olho pra tudo e não vejo quase nada, por que os tapumes de Cristo fecham a visão de alguns quarteirões e isso não é pouco para um pequeno bairro que tem em sua extensão não mais que meia dúzia de três ou quatro deles.

A obra para louvar a Deus é gigantesca, maior do que o palco dos Stones, montado em frente ao Copacabana Palace, na primeira década do novo milênio.

Os moradores do Leme, é claro, só têm a reclamar contra a invasão da nossa pequena e humilde praia. E com razão. E muitas razões…

Por que nada justifica a mania de grandeza dessa igreja que não me representa e – parece – nem ao próprio Papa Francisco.

A soberba chegou ao ponto da Arquidiocese carioca, pedir e a Fundação Parques e Jardins da cidade autorizar a retirada das palmeiras que, imaginem, estavam plantadas há anos justamente na lateral do local onde ficará a boca do palco voltado para a praia de Copacabana.

Isso que estamos falando de mais uma imensa multidão numa área tombada, de acordo com o Inepac, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, que assim descreve a região: “O calçadão de Copacabana, de autoria de Roberto Burle Marx, foi executado no início da década de 1970, sendo o maior exemplo de obra de arte aplicada existente no mundo. Pensado como um painel contínuo em escala urbana passível de ser visualizado em grandes trechos oferece aos pedestres a possibilidade de desfrutar de uma variedade de desenhos e composições. Adota motivos do abstracionismo formal que caracteriza a pintura de Roberto Burle Marx a partir da década de 1950. O projeto paisagístico agrupa árvores de copas amplas em conjuntos, cuja distribuição se integra ao desenho do calçadão. O trabalho em pedra portuguesa das calçadas incorpora a figura tradicional das ondas que simbolizam o bairro…”

Tudo bem que as palmeiras abusadas não estão no calçadão. Mas a, no máximo, uns metros areia adentro.

Não tão bem assim porque, senão, o prefeito Eduardo Paes não teria revertido a ordem de transplantação dos coqueiros, contrariando a Arquidiocese e a sua própria Fundação de Parques e Jardins. Ponto para ele. Mas só um. Antes de sua contra ordem as palmeiras já haviam passado por muito sufoco, literalmente, servindo de apoio involuntário para parte dos ferros que formarão a estrutura papal.

Pensando bem, a palmeira sufocada é uma metáfora do estilo do novo papa Francisco, diante das exigências do cargo. Um cara simples, tentando se livrar do aparato luxuoso e exagerado que o cerca, cheio de penduricalhos e salameleques desnecessários, mas servindo de apoio para a estrutura que o sufoca.

Vai ser uma longa luta, na qual, a visita ao Rio é apenas um round. Um round que obrigará o pontífice argentino, entre outras coisas, a comer um “churrasco brasileiro”.

Faremos meio assim como a presidente do país vizinho ao levar de presente, quando da sua elevação ao trono de São Pedro, um cuia e um bomba de chimarrão! Como se não soubesse que, para o mateador, nada supera seu equipamento pessoal, aquele que carrega campanha afora, esteja ela no Pampa que for…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

A vexação de um povo

Por Jacob Fortes

O Senado Federal e a Câmara dos Deputados são colegiados dignos de veneração porque, criados pela SAGRADA CARTA CONSTITUCIONAL, expressam a trincheira do povo brasileiro; a logomarca do civismo e da democracia. Os seus membros, senhores de aspectos bem postos, têm suas condutas pautadas, presumivelmente, pela retidão, inclusive porque tal particularidade é da essência do cargo. Os que optaram por se eleger para esses colegiados o fizeram movido, supõe-se, pela vocação, quase sacerdotal, de servir, de zelar e de proteger os interesses da coletividade brasileira.

Apesar desses pressupostos, alojados na mente dos brasileiros, políticos, vez por outra, agem em direção oblíqua; se portam contrariamente ao molde da imaginação do povo. Exemplo disso são os presidentes do Senado e da Câmara, que, invocando regalias do cargo, recentemente utilizaram aviões da Força Aérea Brasileira para viagens particulares. Contrastando com essa folgança, nos ares, os brasileiros das grandes cidades, vexados, submetem-se ao calvário de viajar, por longas horas, em trens e ônibus sucateados, comprimidos aos moldes de vagões boiadeiros. Ditas regalias, que permitem fitar o Brasil das alturas em olhares recreativos, faz parecer que as manifestações, fragorosas, que ecoaram no Brasil e no mundo, quase um pedido de socorro do povo, não causaram nenhuma perturbação a esses presidentes. Ao contrário, fica parecendo que agem com imperturbabilidade rara, comparada somente à de um trapezista que, em sereno estar, mas seduzido pelo abismo, cai numa depressão apenas para regozijar-se no delírio da vertigem. Também remete para a ideia de desdenhosa cusparada às legítimas reivindicações desse povo (cansado, amarrotado) que, unissonamente, grita, com a mente conflagrada, não apenas por melhores serviços públicos, mas pela ética na política e na gestão da coisa pública.

Os presidentes do Senado e da Câmara ainda hão de despertar dessa insensibilidade reinol em relação aos anseios desse povo, laborioso, que construiu para si uma pátria forte, respeitada, digna de todos os louvores e, por isso mesmo, tem o direito de indignar-se, de fazer transbordar a sua justa inconformação.

A despeito de tudo, do misto de tristeza e decepção, subsiste a esperança de que esse povo, opresso, gestado pela miscigenação de três raças e que se ufana de haver construído uma Pátria exuberante e cantante, possa, merecidamente, desfrutar de melhores serviços públicos.

Zona dividida

Texto e foto de Valéria del CuetoMoa-130620-046-andaimes-papa-palmeiras-homens

O que era mesmo?
Tantas são as emoções que está difícil firmar numa única direção. O mundo anda rápido e multi-poli-facetado, uma zona mesmo.
Tenho medo de usar esse termo.
Já contei meu problema com uma funcionária múmia que ao ouvir-me dizer que seu quadrado tumular da repartição era “uma zona” sentiu-se ofendida e, acusou-me chorosa de havê-la chamado de prostituta.
Olhei bem para seu porte, medi sua atitude (indignada) e, depois de explicar que, para mim, uma zona era apenas uma bagunça, não resisti a concluir explicando que nenhuma zona do mundo aceitaria alguém com as suas características.
Enfim, evito as zonas falsas e, quando posso e quero conhecer rapidamente uma localidade vou, aí sim, à zona.
Do Coqueiros, em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, à Rua Bahia, em Poxoréo, Mato Grosso, para Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, por lá passei.
O que quero explicar é que tenho um certo conhecimento prático e empírico do que é uma zona.
E, a partir dessa premissa, demostrar a medida, o peso e o volume da atual conjuntura política e social que observo no país e no mundo.
Zona é fichinha, é pinto!
Mal comparando, a coisa perdeu a noção de… de que mesmo?
É jatinho pra lá, aviãozinho representativo pra cá. Ninguém se entende nessa babel de final dos tempos. Só falta o raio. O Congresso é nossa Babilônia federal.
Precisamos de Stanislau. Ponte Preta, que falta você nos faz! Por que os elementos do novo Samba do Doido da vez estão todos aí querendo saracotear.
Vai ser mais minimalista, com rimas pobres ou inexistentes porque rimar plebiscito e reforma política com redução de gastos públicos é impossível. 39 ministros sabe-se lá de que com a inoperância da máquina pública a enta ainda consegue, usando na frase o adjetivo incompetência.
O problema é que não há segunda que combine o coro por saúde, educação, segurança com a ladainha da reforma política via plebiscito dentro do tempo musical. Perdeu o tempo? Desafinou…
Ainda mais quando nem eles mesmos se entendem, ou fingem não conhecerem as leis do país.
Só que chega uma hora que não dá mais para chamar urubu de meu loro sem passar por cego, surdo, mudo, burro e/ou puxa-saco. Isso sem contar o vai-e-vem, o disse-não-disse. O dar, não dar para a torcida o que o primeiro consultor jurídico já disse que não é constitucionalmente possível.
Eike cai, Cabral se desespera, ilhado no seu apartamento vendo os “ocupantes” do seu entorno usando seu adereço predileto, aquele famoso guardanapo na cabeça. Parlamentares voam em jatinhos da Fab, dinheiro vivo é roubado de assessores.
Aqui no Leme vai subindo a estrutura do mega-palco do Papa que virá. Um espetáculo a parte. Um gigantesco e complicado quebra cabeças com milhares de peças, como a vida…

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Apologia ao livro

Por Jacob Fortes

Certa feita, quando menino, fui com o meu pai à cidade; cada qual no seu jumentinho. Chegamos cedo; a cidade despertava numa pachorra de lesma, mas o Mercado Central era madrugador. Enquanto meu pai comprava o essencial nas quitandas do Mercado eu o aguardava debaixo de uma figueira folhuda, ao lado dos jumentos de doma. Próximo a essa árvore existia um quiosque no qual funcionava um biclicletário. O propósito do bicicletário consistia em alugar bicicletas; era o meio de vida do proprietário, Senhor Xudu.
Naqueles áureos anos em que esse transporte foi lançado, possuir uma bicicleta era privilégio de poucos; endinheirados. A única forma de a grande maioria, de pobres, andar de bicicleta seria por meio da alugação.
Debaixo da árvore eu reparava o movimento. Assim que o bicicletário abriu as suas portas começaram a chegar os alugatários; em pouco tempo a frota de bicicletas já havia arribado. Lembrei-me das abelhas do meu sertão, em revoada matinal para encontrar o néctar das flores silvestres. Os clientes, depois que grudavam as mãos no chifre do biciclo, saíam com ar de felicidade. Não era pra menos. Pedalar, oferecendo a face para os beijos da brisa é sempre prazeroso, mesmo quando o percurso impõe farta sudação. Vim conhecer essa sensação agradável próximo à idade adulta quando, morando na cidade, pude ter os meus ganhos parcos, porém suficientes para alugar uma bicicleta.
Daí a pouco, chega mais um freguês:
— Senhor Tadeu Xudu, eu quero alugar uma bicicleta.
— As bicicletas foram todas alugadas. — Aguarde, se puder; em breve uma delas estará de volta.
Pois bem, os livros deveriam ser tão andejos e ter a mesma mobilidade das bicicletas de aluguel, ou das abelhas: continuamente saindo e retornando às bibliotecas. Em vez disso, os livros dormitam nos seus vãos das estantes, por vezes amontoados, ostentando as marcas visíveis do desuso, inclusive grossas camadas de poeira; em completo desserviço. Pior que essa constatação (quando visitei algumas), foi ouvir diretores se gabarem das suas bibliotecas estarem entupidas de livros; todo o acervo aquartelado, circunstância que reforça as estatísticas: o Brasil continental ainda lê pouco se comparado a pequenos países da Europa. Bibliotecas públicas não deveriam expressar a caixa mortuária dos livros, mas apenas os seus locais de baldeação: marcados por um movimento de vai e vem, aos moldes das bicicletas ou das abelhas.
Se os livros dormitam, maquilados de pó nos seus ataúdes, é porque o povo não lê quanto devia. O povo pode até se encontrar de bucho saciado, mas a mente, insaciável, espera, merece e precisa de continuada leitura. A leitura — maneira barata, e até chique, de entretenimento — ensina a escrever, afugenta a ignorância, prepara, qualifica, fornece experiência, amansa a incivilidade e a grosseria, aperfeiçoa a dimensão interpessoal, possibilita conhecer o mundo, a arte, a tecnologia, amplia a capacidade de percepção, permite avaliar o melhor caminho que a vida oferece, facilita a compreensão dos direitos de si e dos outros. A incorrigível insensatez humana, via de regra resistente a qualquer catequização, por vezes se amolga ante os efeitos benéficos do desapaixonado e fiel companheiro livro, responsável, mais das vezes, por maravilhar as pessoas. Ele (“mudo que fala, surdo que responde, cego que guia, morto que vive”) tem o condão de ameigar os corações humanos. Divorciadas da leitura, as pessoas tornam-se vulneráveis aos caminhos insidiosos; às desditas.
É pesaroso constatar que os livros, mesmo os de boa semente, vão sendo rejeitados a cada dia, vencidos por inutilidades que bem se prestam a fomentar a alienação das pessoas tecnológicas. Tem-se a impressão de que a glória dos livros parece esvair-se em ânsias de morte. Houve época em que os livros eram companheiros de vigília; não se separavam dos seus amos nem mesmo no interior de coletivos ou em logradouros. Depois passaram a dormitar nos vãos das estantes e, agora, já são encontrados pelos catadores de lixo que os olham com o pensamento voltado para a balança. Esse desuso faz supor que num futuro não muito distante correrá o risco de ser detido, e encaminhado a um manicômio, aquele que, em via pública ou no interior de um coletivo, for flagrado lendo um livro.
Porém, o desábito à leitura não é culpa dos diretores das bibliotecas, mas do modelo; do poder público que não estabelece políticas de motivação à leitura. Mas isso não é insolúvel. Se houver interesse, se as escamas dos olhos forem retiradas, basta colocar o tema em discussão para as ideias acudirem. Exemplificativamente: que tal se ao alunado brasileiro, em todos os níveis, fosse concedido pontos, como parte da avaliação continuada, pela leitura de livros? Evidentemente a leitura seria aferida por meio de uma banca sabatineira. Que tal, ainda, se os pais vinculassem as mesadas dos filhos à leitura de livros? Que tal, também, se os pais infundissem nos filhos o hábito da leitura, principalmente naqueles que se permitem encabrestar pela internet e programas de televisão, por vezes repletos de vacuidade? Essas leituras, é claro, seriam também sabatinadas. Que tal, igualmente, se um livro retirado de uma biblioteca no estado de São Paulo pudesse ser devolvido por intermédio de uma biblioteca da cidade de Campo Maior-PI, Sobral-CE, Goiânia-GO e vice-versa?
A ideia é fazer o livro se deslocar em múltiplas direções, disseminando o saber em todos os ramos do conhecimento, procedimento similar ao das abelhas que, ao alçarem voo em busca do néctar, prestam valioso serviço à natureza e ao homem. Durante o seu trajeto, as abelhas vão espalhando, naturalmente, por sobre os ovários das flores, os grãos de pólen que carregam nas suas corbículas, realizando, desse modo, a polinização responsável pela fecundação de frutos e, consequentemente, das árvores.
A leitura — que floresceu após a escravidão rombuda — não pode morrer, ao contrário, precisa revigorar-se. Este momento, científico tecnológico e democrático, estaria conspirando contra a leitura?
Também, é preciso desmistificar; leitura não pode ser entendida como artigo de primeira classe, mas artigo de brasileiros: ricos ou pobres. Por que seria espantoso flagrar-se um boia-fria, ou uma lavadeira, fazendo palavras cruzadas ou lendo um Machado de Assis? O Brasil precisa socializar a leitura; não pode continuar lendo nanico, mas do tamanho do seu tamanho.
Com um esforço bem direcionado do poder público, da estrutura educacional e da sociedade, é possível socializar a leitura e imprimir aos livros um papel parecente ao das bicicletas de aluguel ou das abelhas.
Quando alguém busca um livro para ser seu companheiro de quem é a glória? Do livro que ressuscita do seu claustro ou de quem o fê-lo ressuscitar?

jacobfortesdecarvalho@gmail.com

Frente a frente

Ponta 130611 006 debret camelo meia barracaTexto e foto de Valéria del Cueto

Olho para ele, ele olha para mim…
Há, sim, uma empatia entre nós. Aquilo que nos une é o que nos mantém ali. Olho no olho, imóveis. Esperando para ver quem vai reagir primeiro e para onde essa reação levará a energia que será despendida no movimento.
Também pode não acontecer nada. O momento passar, a fila andar e o que poderia acontecer ficar ali, largado, perdido no meio do caminho por inércia.
O fio do tempo estica até soar. Tenso como uma corda de guitarra. Poderia ser de violino, baixo, violão, viola de cocho. Sinto saudades de um dedilhado nervoso nas cordas tensas de uma viola.
A afinação depende do tom escolhido pelo instrumentista. Antigamente o diapasão servia apenas para conduzir o ouvido. Hoje, umas luzinhas digitais indicam se o instrumento está perfeitamente afinado.
Tecnologia…
Foi ela que deu um susto, merecido por sinal, em quem achava que dominava a mente e a vida do país. Assim, como um todo.
Não prestaram atenção aos códigos que brotavam nas telas dos celulares que todo mundo tem, ignoraram os novos meios de fazer o de sempre: dialogar, reunir, expandir.
O vareio foi generalizado. E todo mundo tenta se preparar para dar respostas e corrigir as falhas de interpretação.
Aí é que a atenção tem que ser redobrada. E, se necessário, o grito ainda mais forte. Por que os caras podem ser ruins de gingado, mas que vão tentar das uma reboladinha e reinterpretar de forma tendenciosa o que está sendo jogado na cara do governo a cada manifestação, isso vão.
Plebiscito, referendo, reforma política? Conversas vãs para tentar botar pra dormir a “boiada” perambulante pelos gramados da Praça dos Três Poderes.
Renan dizendo que se o povo decidir prescinde das normas constitucionais é piada. De mau gosto, é claro. Como o presidente do Senado pode considerar a hipótese do seu poder abrir mão de seu próprio papel constitucional?
Fumaça branca, antes da chegada do Papa. Que, se ainda está longe da maioria da população, já faz parte da paisagem do Leme, alterada por imensos painéis de metal que cercam uma enorme faixa da areia, mais um menos na altura do Zona Sul, o supermercado. Isso que ainda falta quase um mês para o evento.
Com ou sem campeonato na Copa das Confederações…
Ele me olha e eu olho pra ele. Nada mudou. Nada parece mudar. Mas é só a aparência.
O entorno se modifica animadamente. Quase de forma orgânica, envolvendo, entremeando, costurando.
Pode ser que saia até uma colcha de retalhos, disforme, quiçá. Mas que servirá para envolver, aquecer e embalar os desejos de muitos, a vontade de todos, traduzidos pelo mar de gente que invadiu as avenidas brasileiras.
Nos olhamos. Ouço o som das suas mãos batucando levemente. É um tantan? E, veja, nem é carnaval…

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vento que venta lá venta cá

Ponta-130611-023-barcos-e-ilhaTexto e foto de Valéria del Cueto

No início da semana passada me perguntaram o que eu queria fazer no dia do meu aniversário. Não seria um grande dia analisei diante das imensas saudades que, sabia, iria sentir. Da diferença de acordar e não poder me atirar nos abraços de quem me amou incondicionalmente. E que, durante toda a minha vida, jogou em várias posições sabendo ser polivalente, ocupando todos os espaços do campo o tempo todo da partida. Como Claudio Coutinho, técnico da seleção de 82, pregou. Avó, madrinha e amiga. Minha. Sem ela seria o que, como e por quê? Como aplacar a sensação de um tiro de 12 no peito?
Assim pensava eu, pensas tu, pensariam eles. Se o mundo não fosse surpreendente. E tudo – eu disse tudo – não pudesse mudar com uma batida de asa de borboleta de vinte centavos.
Não entendo a surpresa com os últimos acontecimentos. Era uma questão de química aplicada. Os componentes estavam ali. Expostos, públicos, nus. Crus. Parecia que o lombo do povo era insensível as lambadas que faz tempo estão esvaziando seu bolso, castigando o corpo, dilacerando sua dignidade.
Um homem pode ser bobo, alguns podem ser enrolados, mas um país inteiro, até quando? Ou será quanto?
Não é possível que não houvesse uma leitura que apontasse a hipótese que as mesmas ferramentas usadas para tentar manobrar a opinião pública, poderiam ser usadas em sentido contrário.
É muita soberba! E ela levou os governantes a esse estado de perplexidade patética diante da força da voz das ruas.
Claro que agora todo mundo quer puxar a brasa para sua sardinha e um monte de pretendentes começa a aparecer querendo pedir a mão da noiva. Afinal, o dote é grande e por mais que a moça seja xucra, rebelde, o desafio de conquista-la é irresistível. Difícil vai ser convencê-la…
Vou dar um palpite sobre esse presente de aniversário tão inesperado que acabei ganhando. Afinal, como comemorar em petit comité se logo ali um país inteiro se mobilizava? Considerei que não poderia ganhar presente melhor. Eu e as centenas de milhares de pessoas que expunham seus anseios e sim, sua revolta.
Primeiro: não é por 20 centavos! Segundo: essa massa multifacetada vai se encontrar. E, por meio de núcleos independentes, ligados por interesses comuns se (re)organizar assumindo o papel de antigas entidades, totalmente esvaziadas por que subservientes e escravas do status quo adquiridos quando deixaram se representar seus interesses afins e passaram a atender aos companheiros.
Se não essas entidades e outras instituições, surgirão grupos que preencham as lacunas deixadas. Tudo isso usando os recursos que, agora os senhores do poder sabem, podem ser letais das redes sociais. Não duvidem. Será apenas o começo.
Para as gerações que estiveram nas Diretas Já e no sacode do Fora collor há uma árdua missão. Mostrar que talvez essa história pudesse ser outra. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, disse Thomas Jefferson. Essa premissa básica esteve adormecida por tempo demais. E, já que começamos de novo, tomara que seja evitando os erros do passado.
Vida longa e constância aos ventos que sopram e acordam o gigante Brasil em cada um de nós.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vai que é tua, tira a bola da rua.

Ponta 130611 014 pranchas e surfistas

Texto e foto de Valéria del Cueto

É tudo correlato. Será? Faz sol. Venta, mas não demais. É calor na praia e friozinho na Gustavo Sampaio, rua de dentro do Leme, aqui na Ponta, Rio de Janeiro. O mar anda alto, o que garante momentos de atenção para a linha dos atletas que aguardam a hora de se posicionar nas ondas e assegurarem o espaço adequado para desenvolverem suas manobras radicais.

É um balé para pouquíssimos espectadores privilegiados como eu. Divido meu tempo entre ler Catarina, a Grande, biografia da czarina da Rússia, escrever e apreciar os surfistas e afins deslizando nas ondas. Como tirar os olhos do mar?

O tempo está lindo. O céu azul e o oceano cor de esmeralda. Confesso que nem vi se a água estava fria. Pelas roupas de neoprene da rapaziada dá para  deduzir a resposta. Não é época do tempo estar, assim, radiante. Não na lua nova de junho. Estranho, muito estranho. Parece que o mundo rodou mais devagar no eixo, por que o clima está mais para veranico de maio do que o tempo cinzento, chuvoso e frio que costuma emoldurar esse período.

Se fosse só aí… o mundo está virado. Por mais que a gente corra daqui para lá, desvie e tente se refugiar de tanta informação é impossível não ser sugado pelo “roto-rooter” da vida brasileira. Como um todo ou em particular.

Senão vejamos: remédios quase vencidos, pilar encolhido… Vai Lá Trazer uma boa notícia, pelo amor de Deus! Licitações e pregões pros amigos? Votê, cobra, mangalô “treizveiz”. “A cultura é o patinho feio do estado”, é mole?

É por essas e por outras que procuro e, um dia, hei de encontrar uma forma de fazer cultura sem precisar de sequer passar na porta da tutela do estado. Quero respeito por quem peleia e procura novos caminhos para sair do rumo de quem chega a uma conclusão dessas assim, depois que assumir o cargo máximo do setor no estado. O tempo passa, a vida anda e o bonde já passou por essa estação.

Do outro lado é pau, é pedra é o começo do caminho, para desespero de alguns e pressa de outros. Em nome de evitar a “baderna” o negócio é endurecer. De novo? Acho que já disse nessa crônica que já vi o filme dessa reprise classe B.

Nunca tão poucos centavos representaram tanto para  multidões espalhadas por várias capitais do país. Multidão que só aumenta a cada apresentação especial  dos poderes militares constituídos. É daí para pior. E já deu pra ver que não vai ser sopa pra ninguém, incluindo aí vários coleguinhas da Folha de São Paulo,  agredidos na última quinta-feira.

Segunda, em plena Copa das Confederações, com o mundo já tendo acompanhando pelas TVs, jornais e as redes sociais os primeiros capítulos da novela PASSE LIVRE, parece que haverá outra rodada de manifestações pelo país. Boa hora para a panela de pressão continuar a chiar.

Ai meus santos canarinhos com cabelos de cacatua. Façam o milagre do esquecimento das mazelas inflacionárias, da alta do dólar, da queda do mercado, da falta de saúde, educação, segurança, infra-estrutura e outros probleminhas mais.

Chutem para o gol dos adversários nossos recalques e essa sensação estranha de que no final,  ganhando ou perdendo, estamos entrando pelo cano…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Espelho, espelho seu…

Lad PLeme130516 047 onda ponta do leme por do solTexto e foto de Valéria del Cueto

Quando a “coisa” começa assim meio marola já sei que vou ter que rebolar fazer crescer a onda que costuma rebentar toda semana nesse espaço privilegiado. Não é falta de assunto, gente. São tantas opções…

Parece que o mundo está caindo na cabeça de escrivinhadores como eu essas semanas. Primeiro, com a informação de que redações importantes do país e do exterior estão demitindo seus jornalistas e fechando veículos. Segundo ,com as notícias mundiais dão conta que estão mandando seus fotógrafos para casa e passando o trabalho de registro de imagens para os… jornalistas.

Não é um caso isolado. O que me faz pensar que há sim, uma mudança “climática” abalando o mundo dos veículos de comunicação espalhados mundo a fora.

É ruim? Não sei não… Faz tempo que procuro novos formatos de distribuição de conteúdo. Trabalho possibilidades com bases mais gerais e brinco de pique como com nichos direcionados. Atiro em várias direções em busca de novos mares e picos onde possamos deslizar e interagir com novas tecnologias.

Afinal, se o formato jornalístico que dominou o mercado está se esgotando, alguém precisa fazer expedições precursoras, tentar descobrir para onde irá essa onda. A onda das informações. Um tsunami querendo se espraiar.

Uma coisa é certa: pode haver falta de empregos para jornalistas nos veículos… jornalísticos mas a necessidade de conteúdo de qualidade além de não haver diminuído, só tende a aumentar.

O mundo via internet e outros meios, está ávido de saber. E quem detiver a informação e conseguir filtrá-la e traduzi-la para seu público alvo estará nadando de braçada nessa nova era.

Assim como eu, os jornalistas sentirão saudades do antigo formato. É horrível ver seus postos ocupados por copiadores de releases assessóricos, sem ao menos uma checagem básica nas informações contidas nos mesmos. Só pra citar um problema crônico e intransferível. Tenho visto coisas de doer. E que ninguém contesta. Quem se limita a reproduzir as barbaridades recebidas, sem checar a veracidade do conteúdo, corre o risco de vender a ignorância alheia sem titubear.

Vou citar um fato como exemplo: a incrível e relevante notícia de que “pela primeira vez” na história da capital do maior estado do centro-oeste a bandeira de São Benedito (aquele) havia entrado na sede do paço municipal em questão. Do jeito que a informação veio da assessoria do novo prefeito foi três palitos: imediatamente reproduzida por órgão de imprensa, sem dó nem piedade com os festeiros de anos anteriores que, sim, sempre levaram a bandeira e a coroa para abençoarem antigos prefeitos e a sede do órgão municipal.

E olha que não precisava ir muito longe para alcançar as pernas curtas da mentira pregada assim, na maior cara de pau! Uma simples e singela busca no google indicaria que por ali já passaram várias bandeiras do santo, sempre empunhadas pelos festeiros do ano que, como eu, rezam – e muito – para que os caminhos municipais se abram, não apenas para os amigos do rei mas para toda a população da cidade a quem, em primeira e última análise, o alcaide jurou servir.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador cuyabano”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

O barquinho vai…?!

imageTexto e foto de Valéria del Cueto

Já vi esse filme. Estava no Rio de Janeiro nos anos que antecederam o PAN de 2007. E como a maioria dos cariocas ainda procuro o tal “legado”. Hoje, anos depois, posso dizer que ele é para poucos.
Uns, como é o caso do Flor Ribeirinha, grupo de cururu e siriri de Cuiabá, aproveitam a onda para, no impulso, se firmar no lugar que sempre mereceram e fortalecer a imagem de ícone cultural.
Símbolo inconteste da tradicional cultura cuiabana, Dona Domingas trabalha há anos na comunidade de São Gonçalo Beira Rio para preservar e disseminar a cultural nativa local. Se alcança o sucesso que vem alcançando e que projeta o grupo e seu trabalho é por mérito, persistência e muito suor.
Outros são como o caso de um dos responsáveis pelo fim do nosso ex-maior estádio do mundo aquele que virou lenda e foi posto a venda: o espetacular e lendário Maracanã!
Pois não é que lá está ele? O mesmo que na próxima semana poderá(?) obter do IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico Nacional a autorização para modificar um bem tombado e orgulho dos cariocas, o Aterro do Flamengo, projeto original, do arquiteto Afonso Eduardo Reidy, para ali desenvolver um “empreendimento”. Usando para isso a Marina da Glória, parte integrante do maravilhoso parque utilizado gratuitamente por toda a população carioca.
A gente olha e reclama muito, até de forma organizada, mas dura a realidade é que estaríamos sendo patrolados pela máquina de gerar dinheiro para uns, usando os bens públicos de muitos, apoiados pro aqueles que, em última análise, deveriam representar e proteger nosso patrimônio!
Fomos salvos graças ao juiz Vigdor Teifel, da 11ª Vara da Justiça Federal do Rio. Imaginem que em 1999 foi impetrada uma ação popular contra a Empresa de Terraplanagem e Engenharia (EBTE), que administrou o local entre 1996 a 2009. A decisão proferida para ação cancela seu contrato com a Prefeitura do Rio.
A EBX, de Eike Batista, comprou a EBTE e a REX, empresa de desenvolvimento imobiliário do grupo, pretendia “reformular” a Marina, construindo, entre outras coisas, um prédio de 15 metros de altura, um centro de convenções e 50 lojas.
“A exploração comercial da Marina da Glória está diretamente relacionada com sua aptidão natural (eminentemente náutica) e com a observância dos interesses coletivos dos usuários do local, não se concebendo que o desenvolvimento de atividades comerciais em uma marina se identifique com a exploração de empreendimentos e complexos comerciais”, escreveu o juiz Vigdor Teifel.

A sentença foi em 1ªinstância e cabe recurso, mas deveria (a esperança e a fé nunca morrem) ser levada em consideração na reunião do IPHAN que, afinal, está aí para preservar nosso patrimônio.

O projeto em pauta, de 2010, é do arquiteto Índio da Costa, o dos quiosques da orla. Aprovado pelo Conselho Consultivo e, depois, rejeitado pela Superintendência do IPHAN no Rio de Janeiro. Uma versão revisada passou pela Câmara de Análises de Recursos. Agora, o projeto executivo de revitalização da Marina deverá ser submetido à aprovação do Iphan e do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

A sentença do juiz muda um pouco o rumo da prosa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Ó de casa?!

cop valTexto e foto de Valéria del Cueto

Vamos cair na real: não será hoje. Mas quase ontem. A Copa está aí. Alguma novidade? Talvez para quem nunca comeu melado. Por que, ao contrário do ditado, é justamente quem já comeu que está se lambuzando. E o faz de caso pensando, por que sabe que é agora… ou já! As comportas estão abertas e jorra dinheiro para tentar fazer em alguns meses o que não foi executado em anos.

Lembro-me sim, do dia em que saiu o resultado das cidades escolhidas para serem sedes da Copa de 2014. Meninos eu, vi, estava voltando (de novo) para Mato Grosso e uma das tarefas do retorno era registrar em vídeo a agitação da Praça do Chopão, onde Cuiabá em peso se reuniu para assistir a declaração da FIFA.

Acompanhei colada com os “artistas” que ali estavam para, mais que comemorarem, mostrarem à gente brasileira, por um link ao vivo da rede Globo, o que Cuiabá tinha para oferecer ao mundo: cururu, siriri, o boi e, como todo o Brasil, o samba.

Lembro que havia uma tenda vip, para as autoridades. Só que a reação desse povo a “conquista” não me interessava, já sabia qual seria. Preferi me encostar nos cururueiros que afinavam, nervosos, as violas de cocho e arranhavam insistentemente seus ganzás. Ali, sentia a tensão do povo de Cuiabá para a realização de um sonho, apenas de um sonho: o de que a Copa do Mundo chegasse àqueles que teriam  imensas dificuldades na vida para irem até ela.

Para o trabalho, havia várias câmeras espalhadas: Na tenda, na área das apresentações ao lado da praça. A subida da Getúlio havia sido impedida e um trio elétrico ocupava a rua. Imagina a briga que era pra saber que iria subir no caminhãozão. Muita gente conseguiu sair na foto, mas claro, o espaço não foi suficiente para tanto ego. Do lado de fora do Chopão, o povo. Lá dentro, meia sociedade cuiabana, que aquela não era festa pra perder. Só comemorar. Faz quatro anos no dia 31 de maio!

Não quero ser derrotista, por que acredito na capacidade de organização e, apesar de não ser devota, nos milagres capazes de serem realizados pelo Santo RDC (Regime Diferenciado de Contratação, pra quem não ligou a sigla ao seu bolso), mas a coisa mais pronta que pude ver nesse período, é o trabalho do mesmo grupo Flor Ribeirinha que rodopiou cheio de alegria e emoção para nos representar para o mundo naquela praça.

Pois não é que a Domingas, mãe, pai, tia e madrinha do projeto de excelência, nascido no São Gonçalo Beira Rio, soube pilotar sua canoa com maestria e organização e, um ano antes do evento, mostrou para os cuiabanos como o cururu e o siriri os apresentará para o planeta? Ocupou com maestria todos os espaços que pode e fez sim, um lindo trabalho, levando sua trupe das águas do seu Cuiabá para mares e oceanos distantes. Claro que enfrentou corredeiras e calmarias, mas dá gosto ouvir falar do seu sucesso.

Pena que nem todo mundo esteja jogando aberto como a artista Domingas. Li que o Tribunal de Justiça suspendeu a licitação organizada pela SECOM/MT para escolher as agências de propaganda que atenderiam a SECOPA. O mandado de segurança foi impetrado com o argumento do o não cumprimento da Lei 12.232/2010 e do uso em uso em vão do nome, ao que parece do Santo RDC!

Indica que já estamos no período do pega pra capar e  do Deus nos acuda! Tem gente rodopiando  e dançando qualquer ritmo e batida para levar de lambuja uma beira da nossa festa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Crescei e multiplica-vos, os viajantes agradecem!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Se tudo no mundo evolui, imaginem como anda a forma de fazer turismo? E se o jeito de viajar se transforma, por que o mesmo não ocorreria com a maneira de escolher os destinos e fazer roteiros?
Esta semana a Associação Brasileira de Blogs de Viagem, ABBV, completou seu primeiro aniversário. Sua consolidação indica que há, sim, algo de muito interessante na forma dos viajantes interagirem no mundo virtual. Primeiro com seus desejos de informações sobre viagens e, depois, com os meios e possibilidades de torna-los (ou não) realidade. Quando uma viagem realmente começa e termina?
A exposição das impressões pessoais sobre viagens – aí incluídos roteiros, hospedagem, alimentação e atrações visitadas – foi a tendência que impulsionou e posicionou no mercado sistemas com o Trip Advisor, uma gigantesca base de dados alimentado – também – pelas opiniões e descrições de viajantes, sedentos de compartilharem experiências e preferências. As dicas ganham relevância e permitem um posicionamento instantâneo do serviço avaliado.
Na World Travel Market, em São Paulo, acompanhei palestras e seminários muito interessantes. Entre elas as Sam Thompson, Diretor Trip Advisor Americas, do querido cuiabano Marco Jorge, Territory Manager Trip Advisor LatAm, e as do “time” da Associação de Brasileira de Blogs de Viagem.
O que chamou a atenção foi a diferença de públicos nos eventos. No primeiro, muitos paletós, tailleurs e saltos altos. Agências, representantes de hotéis e estabelecimentos turísticos tentando decifrar o fenômeno que abre as portas dos negócios à avaliação pública imediata e interativa. Um pulo do gato para expor produtos diretamente aos interessados, com direito a elogios e cobranças. Como lidar com novas ferramentas e tirar proveito delas, eis a questão…
No caso da ABBV, a plateia era diferente. Informal e alternativa. Ali, as particularidades faziam a diferença. O auditório estava lotado para a apresentação da pesquisa da entidade que procura situar o fenômeno dos blogs na via láctea da indústria do turismo brasileiro. Alguns detalhes interessantes: as mulheres de 25 a 34 anos, com curso superior e renda de mais de 10 salários mínimos, maioria entre os usuários dos blogs, são viajantes experientes e independentes.
Perguntei a Silvia Oliveira, presidente da ABBV, se sistemas como o Trip Advisor não seriam concorrentes. Ela explicou que, ao contrário, os sistemas são complementares. O Trip é geral e os blogs trabalham com segmentos, particularidades que os tornam específicos para internautas que sabem o que procuram: informações e impressões pessoais.
Estas novas janelas ainda são vistas com cuidado pelos integrantes do sistema tradicional desta indústria que movimenta mais de um trilhão de dólares por ano, segundo a Organização Mundial do Turismo. Mas certamente sua evolução e, principalmente, o perfil dos viajantes que utilizam  seus recursos para decidirem que tipo de experiência turística terão, só tende a crescer e se multiplicar.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

 

No trecho a pergunta: e o eixo?

RioNotAer_130422_006_Santos_Dumont_pista_aviao_Pão_de_aç-ucarTexto e foto de Valéria del Cueto

Sempre fui assim, adepta do “me chama que eu vou”. Para longe ou para perto, ao botar o pé pra fora do Leme e deixar a minha Ponta, já me considero em trânsito.
Isso, desde os tempos que meiava um barco, lá para as bandas de Angra dos Reis. Na época, meu parceiro (por pouco tempo) vivia reclamando, por que com barco a gente nunca sabe se ele vai andar ou não. Só pra começar (no caso dele) a aventura. Isso o fazia sofrer horrores no meio longo caminho até a marina onde o Corisco ficava ancorado. Ele deixava de aproveitar a maravilhosa paisagem que íamos percorrendo, numa viagem de, pelo menos 3 horas, antes de alcançarmos o ancoradouro onde, como sempre, o motor poderia virar ou não.
De cara saquei a armadilha que fazia com que as belezas da saída do Jardim Botânico, a Lagoa Rodrigo de Freitas, Gávea, São Conrado, Barra, Recreio, a Grota Funda, Sepetiba, Santa Cruz, Itaguaí e toda a espetacular Rio-Santos, até chegarmos a Angra, fossem apenas passando pelas janelas do carro, sem nenhum olhar mais apurado pelas belezas e mazelas que íamos deixando pelo caminho, até chegarmos à nossa maior incógnita.
No caso, o truque era considerar que a aventura começava quando fechava o portão da garagem da casa. Sei lá se o barco pegaria, o tempo estaria bom, a temperatura da água agradável, o mar virado… Eram tantas as (maravilhosas?) possibilidades!
Foi então que passei a jogar o Jogo do Contente desde o momento em que saía de casa. A brincadeira de Poliana, a menina órfão da história, é muito instigante. Principalmente para quem precisa lidar com um caso de insatisfação quase permanente que acaba podendo contaminar um final de semana inteiro, quiçá o restante da semana e até uma relação.
Para evitar esse “desvio” da imaginação que virou um verdadeiro vício que parei de viajar, pelo menos no sentido físico. Foi em setembro e, de lá para cá, acho que passei um dos meus maiores períodos contínuos que recordo estacionada na Ponta do Leme.
Houve um motivo, reconheço. Verguei para não quebrar. Precisei abstrair do corpo físico para que a alma pudesse se alinhar novamente. O processo não terminou. Mas uma parte, a que me paralisava, parece que começou a passar.
Voltar foi um dos motivos que me impedia de ir. Por que quando vinha, sempre tive com quem dividir o que vi e vivi. Sabia que as viagens não terminavam quando o avião pousava no aeroporto Santos Dumont. Ainda haveria uma oportunidade especial e única para reinterpretar tudo o que eu conseguisse capturar nas estradas e lugares por onda andava.
Agora com o retorno, vi o tamanho vazio que escondi de mim mesma desde a penúltima viagem. E, definitivamente, que não sei lidar com ele.
Nunca fui de contar publicamente o que vi no mundão que já andei, mas acho que, se quiser continuar fazendo o que sempre amei, vou precisar mudar essa maneira de agir.
Se meu mundo não pode mais me escutar, não vou mais do que vergar – novamente. E só até começar a contar para vocês, que faz tanto tempo me acompanham, o que tenho visto por aí, não mais apenas os fragmentos inconsequentes dos meus sonhos…
Começa aqui, a série “No trecho”, do Sem Fim…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No trecho”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Sem noção, com muita emoção, só na propul$ão!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

É pau, é pedra e qualquer hora dessas o editor me pega. Esse tal de deadline é um inferno na vida de qualquer pretendente a entregar uma obra com prazo marcado.
É dura essa vida de ter compromisso. Imaginar é ótimo, planejar é legal. Mas executar nem sempre depende só da nossa atuação. Ou não?
Das duas uma: ou você chuta o balde e reza pra água cair direto no jardim que precisa ser regado ou sua consciência nunca estará tranquila até conseguir fechar a tampa e enterrar o defunto.
Que horror! É muita maldade comparar um filho parido a cada semana, no meu caso, a um morto. Mas é o velho ditado cuiabano que diz: “Quem beijou, beijou, quem não beijou beijasse, por que vai fechar o caixão” a primeira imagem que me vem à mente quando penso em entregar alguma coisa em cima do laço.
Isso, meus queridos leitores, que sou uma pessoa ciente e ciosa dos meus deveres para com meu reduzido público e procuro adiantar minha vida para não passar um perrengue a cada semana, justo às sextas-feiras, dia sagrado que antecipa o que virá de melhor no final de semana.
Mas o que fazer quando, por exemplo, como acontece hoje, estou no aeroporto, em São Paulo, tentando embarcar para o Rio e, consequentemente desembarcar na minha Ponta do Leme sagrada?
Diz que foi o nevoeiro, mas vejo as outras companhias mandando e trazendo passageiros de um lado para o outro, enquanto a minha se limita a mudar os numerinhos horários, em ordem crescente, no painel de partidas.

Assim, foi que planejei escrever esse texto confortavelmente. Sentada na poltrona do avião voando na ponte aérea. Mas não previ a possibilidade de atraso após atraso ver o tempo se escoando e o voo atrasando diante dos meus olhos preocupados.
Então, resolvi adiantar o trabalho. Acabei descobrindo que não daria tempo de terminar e enviá-lo antes da chamada do voo. Foi assim que me vi torcendo para… o voo atrasar ainda mais!
Como é só um voo, tudo bem.
Mas vocês já imaginaram como estão os que deveriam entregar coisas mais sérias e inadiáveis que uma crônica???? Sem desmerecer o meu humilde trabalho, é claro!
Pelo bem dos compromissos assumidos, deve ter muita gente perdendo o sono por aí. Afinal, algumas coisas não dão pra deixar para depois, ou simplesmente largar de mão. Estádios, aeroportos, instalações, obras de mobilidade urbana, segurança e saúde para turistas. Vixe! Só fazendo mais e não tão melhor para ser rápido.
É claro que uma ajuda monetária, financeira e/ou econômica ajuda. Só que isso não é a solução para todos os problemas. O nível do stress vai lá em cima e, pelo bem ou pelo mal, é melhor ser excelentemente remunerado pela aporrinhação, mesmo que o dinheiro não resolva diretamente o problema…
Aí, vem aquela velha pergunta: e o que temos nós com isso? Tudo! Alguém tem que pagar a puuuuuta conta… Falimos nós e ganham eles, mesmo sem entregar o prometido. E viva o mais nvo santo da praça, o RDC, Regime Diferenciado de Contratação!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano ”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Se não agora, será quando?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

De novo, no laço. Seja como for, tipo sem régua, esquece o compasso.
A culpa é do que me tirou do caminho que faço para trazer a você, leitor, a crônica nossa de todas as semanas. Já disse e repito: não é fácil, haja assunto e motivação.
Foi em busca de tudo isso e mais um pouco que abandonei a Ponta de Leme e rumei para São Paulo. Um grande evento de turismo, a Word Travel Market Latin América, atraiu minha atenção.
Um ano e pouco antes da Copa do Mundo achei que seria uma boa oportunidade para ver o que o Brasil e o mundo tinham para mostrar no setor.
Ali estavam reunidos representantes do segmento do mundo inteiro. Isso imaginava eu ao adentrar o Transamérica Expo Center onde 1.245 expositores vendiam seu peixe.
Eram tantas opções que, antes de começar uma exploração mais detalhada, preferi me refugiar na sala de imprensa para organizar o que faria durante os três dias do evento que também incluía o 39º Encontro da Braztoa – Associação Brasileira de Operadoras de Turismo. Havia atividades para qualquer modalidade: conferências, seminários, rodadas de negócios, etc, etc…
Decidi ser racional e objetiva diante de tantas opções. Eleger minhas prioridades.
A primeira, pouco profissional e mais emocional, era verificar como estava o material de divulgação da sede pantaneira da Copa do Mundo de 2014.
Explico o porquê da minha curiosidade: em outubro do ano passado havia ido ao encontro anual da ABAV, Associação Brasileira de Agentes de Viagem, no Riocentro, Rio de janeiro. E, diante de uma acanhada e mal localizada bancadinha lateral do stand conjugado com Brasília e Goiás, fiquei chocada e decepcionada com a folheteria que tinha a vã pretensão de apresentar à indústria turística as exuberantes atrações dos três ecossistemas que compõe Mato Grosso.
Lá, disseram-me que aquela participação pífia se devia ao fato de que uma nova campanha seria lançada visando atingir os promotores do setor para vender Mato Grosso para a Copa do Mundo.
Tolinha que sou, acreditei…
Ainda na entrada da WTM no setor que reunia os estados brasileiros um enorme stand plotado com as belezas do pantanal atraiu minha atenção.
A medida que me aproximava aparecia em letras garrafais o nome do estado. M+A=MA, T+O=TO, G+R+O=GRO, S+S+O=SSO. Mato Grosso! Exultei. Só que as letras não terminavam por aí. Havia mais. D+O=DO S+U+L=SUL. Mato Grosso do Sul…
Ao passar foi que resolvi subir para a sala de imprensa, guardando o gostinho de ver o que a gente bronzeada de Mato Grosso havia preparado para o megaevento para depois deixando a cereja do bolo por último, pra ficar com seu bouquet como uma recordação nas papilas gustativas.
Já no press room, nas estantes repletas de informações, brindes e panfletos, procurando nossa nova campanha, de longe vi uma belíssima pasta com uma foto maravilhosa na capa de algo que parecia uma aérea do Pantanal. Meu coração bateu mais forte! Seria esse nosso material?
Quando me aproximei, descobri que era um material de Botswana. Já ouviram falar?
Pois até este pequeno país africano estava lá. Impecável, irresistível, encantador, com seus alagados, animais exóticos e maravilhosos resorts.
Do meu estado querido tive o prazer de reencontrar o Seiji e a Nizilda, amigos queridos… e nada mais!
Por isso, sofismando, se o ditado que diz “onde há fumaça há fogo” é verdadeiro, onde haverá Copa do Mundo há divulgação intensa. O que não acontece nem com Cuiabá nem com Mato Grosso…
Espero, sinceramente, ter entendido mal o recado claríssimo dado por nossa inacreditável ausência na WTM.
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Tragédia grega

Preto_Leme130117_002_bueiro_e_homens_ladeira_tragédia_gre gaTexto e foto de Valéria del Cueto

Já que não dá para ser de lá, vai daqui que está de bom tamanho! É duro trocar o som murmurante e inconstante do mar ressaqueado da Ponta do Leme pela monotonia do motor quase ensurdecedor do enxuga lama do Eduardo Paes aqui no pé da Ladeira Ari Barroso, mas fazer o que?

É claro que isso influencia até no desenho das mal traçadas linhas imaginárias do meu quase extinto caderninho. A diferença entre os dois é que sei, sinto e vejo que as páginas presas no espiral que me acompanha há meses estão chegando ao final, se esgotando inexoravelmente, mais uma vez.

Quanto a malfadada e malfeita obra prefeitural, não sei não… Não há bolão capaz de adivinhar por quanto tempo os dois motores seguirão rugindo embaixo da janela; os cinco ou seis funcionários, com suas roupas de borracha amarelas, claramente sujas por fora (é óbvio) e por dentro (é nojento e insalubre) e suas grossas mangueiras permanecerão, no horário comercial, das 9 às 12 e das 13 às 17, enxugando a lama que não para de brotar das tubulações. Sempre cheias de lodo, terra negra de sujeira e outras cositas que afloram, dia após dia, no asfalto poeirento da Rua Ribeiro da Costa, parcialmente interrompida para a espetacular performance (des)construtiva.

Enquanto os peões a retiram, a Dimensional, empreiteira (ir)responsável pela execução da odisseia carioca do prefeito Eduardo Paes, recebe pelo serviço de tecer o tapete (negro), tal e qual O sudário de Laerte, pai de Ulisses, laboriosamente tramado e desfeito por nossa Penélope eduardiana, e a natureza faz aquilo que sempre fez e se espera dela: a cada chuva despeja ladeira e tubulação abaixo a lama nossa de cada dia!

A gente? Fica aqui com ar de palhaço, fazendo cara de paisagem, como se o barulho ensurdecedor não fizesse mal nenhum à saúde e pudesse ser ignorado durante as oito horas diárias de tortura chinesa a que somos involuntariamente submetidos pelo motor que ruge esbravejante nos nossos ouvidos.

Outro dia, ouvi uma pérola de um dos funcionários da Dimensional. Ele disse que a operação continuaria até que eles conseguissem esgotar a terra que escorregava lá de cima. Foi aí que cheguei à conclusão que a comparação com a Odisseia, no início apenas uma piada, era realmente séria!

Os caras levarão anos chupando a lama. Não sei se este era o objetivo inicial e consciente dos augustos engenheiros que planejaram e executaram os trabalhos de infraestrutura do bairro, mas lipoaspirar o morro inteiro levará milênios e, mesmo assim, acho difícil que consigam realizar a hercúlea tarefa a que se propõem.

Uma coisa, meio assim a lá Garrincha, sabe? Quando ele pergunta se o técnico combinou com os “Joões”  como eles deveriam jogar, para que a tática imaginada pudesse ser desenvolvida e aplicada.

É, por que até lipoaspirar a terra é possível, mas como impedir as nascentes existentes lá em cima de jorrarem e escorrerem encosta abaixo suas águas, trazendo junto areia e lama? Também tem o bom e velho oceano e suas marés maravilhosas que fluem, refluem e explodem em determinadas épocas do ano, avançando por dentro das galerias.

Ai meu santo pagador de obras! Provenha-nos para que possamos seguir bancando financeira e pacientemente o cavalo de Tróia que nos impuseram.

Isso, até que os deuses do Ministério Público, da Justiça e/ou do Tribunal de Contas tomem providências e contabilizem o prejuízo causado aos cofres do povo. Afinal, alguém precisa nos ajudar a tirar esse dromedário troiano da nossa chuva!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vai de que?

Leme 130302 057 Lingua cut

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou preferindo desenhar. Ando com pouca disposição para escrever. As linhas andam muito tortas e irregulares.

Meu refúgio, a Ponta do Leme. A areia ainda úmida do sereno da madrugada, misturado com a bruma da maresia do amanhecer, acolhe o flanar preguiçoso da canga sacudida para ser estendida na praia.

Sinto cheiro de mofo misturado com o ar da manhã. Sinal de que faz tempo que os pavões misteriosos estampados no tecido não saem do armário lá de casa. O cheiro me incomoda, mas é por pouco tempo, sabemos. O necessário para o sol quarar meu quadrado, comigo dentro.

Há uns dois ou três dias venho pensando nessa crônica. O que não é muito comum. Gosto simplesmente de abrir a torneira da imaginação e deixar as ideias escorrerem pelo papel sem muita preparação para, depois, só enxugar os excessos, secar uns poucos respingos. Normalmente são pontos, vírgulas, exclamações e reticências. Foram as pausas da respiração, entre os pensamentos que se atiravam abusados pela corrente sem muita ordem, como quem não pede licença. Fazem cócegas quando são alegres e arranham se violentos, até que sejam polidos e enfileirados nas linhas imaginárias do meu caderninho sem pauta.

Quase sempre é assim, e como é bom! Acontece que, umas trezentas aberturas na torneira da fonte da imaginação depois, a gente se pergunta se o conteúdo despejado não está se tornando repetitivo. Pode ser chato para o leitor ler sempre sobre a mesma ponta/pedra/praia. O mar esmeralda, a bola colorida que rola para um lado e para o outro entre os pés ágeis dos garotos que capricham no altinho,aguardandoa chegada dos novos parceiros para completar o time e darem início a pelada clássica na linha d’água, e o surfista que, sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus, de frente para as ondas, seus objetos de desejo, arruma concentrado a tira do strep, preparando o velcro para prende-la no tornozelo, segundos antes de se entregar de corpo e alma ao mar que murmura sua musica, qual Flautista de Hamerlim.

Como o atleta, que já corre em direção a água, sou uma ratinha, atraída pelo feitiço musical, efeito mágico para meu coração cheio de dúvidas.Por que faz dias que ando preocupada com o tema dessa crônica… Falar de que? Tentei estabelecer parâmetros, e, por eles, eliminar algumas hipóteses.

Sem saber o que abordar, decidi definir o que evitar.Isso depois que surgiu a questão da repetição. Prontamente esse conceito foi substituído por outros. Substituído não, complementado. O bom humor e a leveza seriam essenciais. O texto não falaria de…, nem de…, muito menos abordaria…, …,…( não posso escrever as coisas a que me refiro sob pena de deixar de lado meu objetivo excludente). A lista de possibilidades plausíveis foi diminuindo, diminuindo…com o passar dos dias e o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos.

Até que resolvi reconsiderar as opções. Para encurtar, aboli o impedimento quanto a repetições, pelo menos no quesito Ponta do Leme. Foi ele o mais concreto, superlativo e fundamental (não posso usar essa palavra sem lembrar-me de Dante de Oliveira) mote para uma crônica quase outonal. Para terminar em grande estilo só falta descrever o desenho feito pelos rastros das pranchas que serpenteiam abusadas nas ondas lindas, tentadoras, mas perigosas – por que hoje paredes inexpugnáveis, já que quebrando sem piedade. Mesmo convidativas, são um sinal explícito de que a maré não está para peixe, pelo menos para certas espécies.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,do SEM FIM… delcueto.wordpress.com 

Estica, puxa, encolhe e manda

Carna-UGN110326-300

Texto e foto de Valéria del Cueto

Andei, andei, andei e, apesar de não estar cansada, sentei. É isso mesmo: obrigada. Afinal, nesse caso, para alcançar meu objetivo, só me resta esperar. E você com isso?
Pode não parecer, mas você tem tudo a ver com minha espera, esse hiato entre atividades 100% produtivas. Explico: como tenho que esperar, sem nada para fazer, faço-o sentada escrevendo e para quem espremo palavras e enxugo vírgulas, pontos e interrogações, correndo para alcançar ideias e laçar conceitos? Para você que acompanha as crônicas do Sem Fim… Que mais sem fim, do que esta espera obrigatória?
O motivo da necessidade do uso irrestrito de uma dose cavalar da minha paciência de Jó é anual: a busca dos resultados dos exames do check up.
Já cheguei a conclusão que isso é mais um teste da bateria de ultras, raios e tomos solicitadas pelos médicos. Mais um menos como a coroa de louros, usadas pelos Césares em seus desfiles triunfais pelas ruas de Roma. “Você é humano, a glória passa e a humildade e paciência devem ser exercitadas de vez em quando”. Só isso justifica a demora na liberação o que já está pronto. Pensando bem, ainda é pouco. Tanto que a senhora do lado reclama da troca de resultas e aconselha uma checagem cuidadosa para ver se está tudo em ordem. Que assim seja: vamos verificar. Eis-me aqui, Lei de Murphy, velha parceira!
Até que não foi mau. A espera não passou de uma página e meia de caderninho. Na mesma medida do chá de banco na Polícia Federal. O caso lá era tirar um passaporte novo.
Parece piada, mas, em vez de aumentar a validade do documento, seu prazo encolheu para 5 anos. Efeito da era Lulla.
Poxa, gente, assim nem dá tempo de desmanchar o pacotinhho de documentos da maratona passada. Março de 2008 não foi ha tanto tempo assim!
Estava tudo juntinho: certidões de casamento uruguaianense, sentença de divórcio cuiabana e averbação no local de origem do evento. Provavelmente intocado desde minha última visita a Polícia Federal sem ser a serviço (digo isso por que como repórter comparecia com frequência nas dependências da referida repartição).
Pois foi lá que o meu périplo burocrático anual atingiu seu ápice. Imaginem que o funcionário disse que minha certidão de casamento, aquele que começou em Uruguaiana, em 1981, se não me engano, e foi desfeito oficialmente em Cuiabá, em 1991, idem, idem, tinha que ser… ATUALIZADA.
Como assim, revalidar algo que já terminou há mais de 20 anos? Sinceramente, achei surreal demais. Segundo ele, minha certidão de ex casamento tem que ser refeita a cada 5 anos!
Ou seja: a cada passaporte novo terei que dar um pulinho a Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina para requentar a ex papelada! Por que não me avisaram isso quando escolhi o marido, lá atrás? Teria prestado mais atenção no lugar em que oficializaria meu matrimônio. Bali, talvez?
É por essas e por outras que estou pensado em me exilar. Minha dúvida está em relação ao país escolhido para me abrigar. O Paraguay sempre foi minha primeira opção, por afinidade e amor a terra. Mas, agora, estou numa dúvida cruel. Tenho gostado muito do Uruguai, com seu presidente liberal, super sincero e com opiniões pertinentes sobre nossa vizinha argentina: “esta velha é pior que o caolho, disse Mujica “O caolho era mais político, essa é teimosa”, acrescentou o presidente uruguaio.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Upa neguinho na estrada!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Está aberta a temporada do checkup, o que faz do querido e indispensável caderninho, onde escrevinho minhas crônicas, o campeão imbatível de audiência literária e cotidiana.
Ele é a melhor companhia enquanto aguardo a vez de ser atendida e evita que eu tente descobrir por que agora a clínica que frequento criou mais um balcão para que os pacientes atinjam o nirvana dos sofisticados aparelhos ultrassonográficos e afins.
Chama-se “pré-atendimento” informa a placa e faz com que percamos mais tempo numa nova, emocionante e inútil fila. Segura, peoa!
Estou quieta. Mas não me deixam em paz. Acabo de ser informada que a Golden Cross não autorizou a realização dos exames solicitados pelo médico.
O motivo? É automático: faz menos de um ano que fiz a última volta olímpica nas clínicas e laboratórios. Eles querem saber por que adiantei em 2 meses meu último checkup.
Pensei em várias respostas, umas mais educadas, outras com alguma picardia… Mas, nenhuma tão boa quanto a da atendente da clínica que resumiu assim minha última pendenga:
– Alguém faz exames médicos por esporte? – pergunta.
O melhor foi a envesgadinha do olhar que acompanhou a observação da moça.
Falou e disse menina! Resumiu perfeitamente a ópera bufa dos clientes de planos de saúde no nosso Brasil varonil…
Ou seja: é ele, o plano, que decide quando você pode precisar usá-lo!
É claro que isso, mediante a módica quantia de quase um salário mínimo de mensalidade.
Alguém pode chamar a polícia pra fazer o seu papel? Botar em cana essas quadrilhas homologadas pelo governo federal?
Enquanto me informo sobre o procedimento, finalmente autorizado, a senhora do guichê ao lado me parabeniza, com os olhos cheios de inveja (boa):
– Parabéns, milha filha, sorte sua. Pelo mesmo motivo tive de adiar meus exames ano passado. Não consegui essa autorização – diz ela, com olhos cansados.
Ah, se fosse comigo! Quer dizer que se tiver que viajar no mês que o plano bondosamente decidiu que estou apta para fazer os exames e magnanimamente se dispõe a autorizá-los, ou, quem sabe, meu médico tenha conseguido um encaixe na sua lotadíssima agenda antes da temporada autorizada, perdi?
Sei não. Talvez seja melhor mandar os planos de saúde catar coquinhos e procurar uma UPA!
Tão lindas, tão vazias e eficientes! Tão cheias de recursos e de médicos e enfermeiras sorridentes nos reclames institucionais (pagos com nosso suado e vilipendiado dinheiro) do governo…
Quem diz e mostra essas ilhas de tranquilidade e bom atendimento é a propaganda oficial, disseminada e massificada nos horários nobres das TVs, rádios, jornais e redes sociais.
Bom, diante dessa última reflexão e suas inúmeras possibilidades, decidi pedir ao meu médico outras autorizações. Acho que preciso de novas avaliações, desta vez, numa especialidade inédita no meu prontuário medico/hospitalar.
Só um psiquiatra para me ajudar a cair na realidade e deixar de aventar hipóteses e possibilidades mirabolantes que existem apenas nos contos da carochinha, nas propagandas enganosas e nos discursos de políticos sem vergonhas!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

É Sem Fim…

Ponta 130314 015 bandeira perigo correntezaTexto e foto de Valéria del Cueto

Agora deram pra perguntar o que é. O Sem Fim… é registro de aventuras e suas respectivas produções que podem – e costumam – ser aventuras maiores ainda.
Começou lá atrás, em Cuiabá, 1997, com a criação do “Diário de Bordo” da produção e filmagens do curta “História Sem Fim… do Rio Paraguai – o relatório”.
Era preciso criar um canal de comunicação com quem tinha interesse no projeto e em acompanhar as ações necessárias (e foram tantas) para sua realização. Impresso em papel ofício colorido, o fanzine (era isso?) trazia nas margens superior e inferior os bichinhos do pantanal criados por Josué Moreira e chegava aos leitores pelo correio.
No início umas 30 pessoas faziam parte da listagem. O “Diário de Bordo” feito na impressora lá de casa, chegou a ser enviado a mais de 500 endereços, em várias cidades do país.
O filme veio e a divulgação passou a ser feita via email numa newsletter, já com outro formato, acompanhando a evolução da internet. Foram inúmeras edições. Muitas histórias contadas. Que passaram a ser publicadas em jornais e sites.
Delas, nasceu o Sem Fim…. Um grande container de impressões coletadas por este e outros caminhos. Ele é som, imagem, palavra, a ideia de que qualquer meio é válido, se contiver uma mensagem. É vídeo, áudio, foto, texto, tudo junto e misturado.
O resumo das viagens pelo Brasil é passeio turístico permanente e informativo das quebradas do país, especialmente das fronteiras. É observação e narrativa da vida, da lida cotidiana, política, esporte, economia, ecologia, fala do dia a dia. Explora, descreve, contextualiza e poetiza. Está distribuído nas séries:
“Ponta do Leme”, a leitura carioca da gema do ponto de observação da sua praia, entorno e horizonte.
“Parador Cuyabano” é a base no Cerrado para a convivência com o interior de Mato Grosso e outros caminhos do centro-oeste.
“Fronteira Oeste do Sul” abrange a tríplice fronteira Brasil/Argentina/Uruguai e visita a cultura pampeana pelos laços familiares.
“É carnaval” são crônicas, artigos, reportagens e fotos, muitas fotos, referentes à maior festa popular do planeta, o carnaval carioca e, também, ao carnaval de Uruguaiana/RS.
“Vagabinhas” são os delírios dadaístas fotográficos. Só vendo pra entender.
E, finalizando as “Photo graphias”. Dos meios foi último a chegar, mas é o mais satisfatório artisticamente. O problema é a edição, já que os ensaios são duplos. Além dos artísticos, no mesmo pacote, sempre é feito um estudo imagético com viés antropológico, do objeto e seu ambiente.
Filosófica e sociologicamente o que impulsiona o projeto é uma brincadeira infantil de contação de histórias chamada “História Sem Fim…”, onde um começa a contar, depois o seguinte pega o fio, o outro vai adiante, mais um… e lá se foi.
São esses fios que o Sem Fim… tenta preservar, indexar e quando pode, difundir. Hoje, não mais em folhas ofício amarelas com letras azuis, mas nas redes sociais e outros meios multimídias.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… http://delcueto.wordpress.com

O que atravanca são “ozoutro”

Ponta 130314 034 Nilson Marques onda subindoTexto e foto de Valéria del Cueto
A ressaca está braba!Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.
Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá – creio eu – logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.
Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.
O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.
A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu. Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.
Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.
Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.
A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.
O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece – que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária saírem em menos de dois meses?
É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPonta 130314 042 onda linda

O rolo rola pelo ralo

Leme 1300302 024 Rib bueiro escada UPP Texto e foto de Valéria del Cueto

Minha rota de fuga já é conhecida. Diante de qualquer abalo me procurem na Ponta, embaixo da pedra do Leme. O entorno guarda resquícios da tempestade que fez da máxima do prefeito Eduardo Paes uma dolorosa e triste realidade. Mais do que nunca, somos um rio. De lama e lixo, ele esqueceu-se de avisar.
Aqui, o mar alto que chegou com a chuvarada faz a feste do povo da água que se arrisca em altas ondas coladas a pedra. Para encurtar a rota e economizar braçadas a rapaziada do bodyboard pula do meio do Caminho dos Pescadores, já na boca da fera! E faz a festa.
Troquei sim o barulho ensurdecedor do rotorooter do Eduardo Paes pelo som delicioso das ondas do mar.
Já reparou? É a segunda vez que cito o nome do indigesto alcaide do Rio de Janeiro nesse texto. A culpa é dele que não me deixa esquecer sua atuação de Penélope Pavorosa, como diz um jornalista amigo, testemunha intermitente da obra mal feita da Dimensional, empreiteira contratada pela Secretaria Municipal de Habitação, do engenheiro Jorge Bittar. Ela, que tentou a façanha de exigir que o esgoto do Chapéu Mangueira e da Babilônica fizesse a curva no pé da Ladeira do Leme e seguisse obediente pela Rua Ribeiro da Costa, descobriu que a ordem não seria seguida assim, de bom grado, de acordo com o excelente projeto planejado e executado pela referida empresa.
Resumindo: a curva entope e a língua negra da praia em frente, continua lá, como uma careta, escarnecendo da incompetência comprovada dos obristas do pedaço.
Assim é que, mesmo que me esforce para esquecer as trapalhadas eduardianas, uma em cada quatro semanas, lá estão os diligentes operários da extraordinária Secretaria de Habitação, vestindo (agora) um incrível macacão amarelo “olha eu aqui” e suas respectivas galochas de borracha, chafurdando na lama contaminada do mega bueiro existente justo embaixo da minha janela.
Não bastasse o cheiro de podridão que me leva a uma associação imediata ao resumo das obras malfeitas e pagas com o dinheiro suado de nossos impostos, também sou obrigada a conviver com a poluição sonora no horário comercial, propiciada pelo motor constante do chupa lama necessário para desobstruir o joelho da tubulação do esgoto da prefeitura. No dos outros é refresco, senhor. Aqui, mal dá pra respirar.
Acontece que o conteúdo elameado, composto de dejetos, detritos e componentes afins içados das entranhas do asfalto ficam ali, no meio da rua, secando ao sol, sendo levado pelo vento marinho para as residências adjacentes. Enfim, nosso querido prefeito traz mensalmente, por uns 5 dias, a poluição, as doenças e a contaminação do esgotamento sanitário até nós, sortudos moradores do entorno. Quem não seria inesquecível com uma atuação exemplar como essa?
Mas, como sou uma pessoa justa, tenho que reconhecer: o sistema de coleta vem se aperfeiçoando a cada nova incursão dos operários ao fantástico mundo das tubulações mal feitas. Além das roupas de borracha (daqui a pouco serão escafandros, por que respirar aquele ar merece mais do que um trocadinho de insalubridade), trocaram o carrinho de mão sem rodas, içado por cordas, que era o subidor da lama por uma sensacional escada para facilitar o sobe e desce do peão. (veja a foto ilustrativa do equipamento de última geração e grande precisão). Arrumar a engenharia e punir o (i)responsável pela empreita mal executada, nem pensar! Afinal, como Penélope enrolará as finanças e desfiará mais um trocadilho dos idiotas de plantão? É por isso que eu… rio!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Jogo… feito! Não dá mais.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Tão vendendo tudo. A alma já foi faz tempo, agora o negócio da vez é vender o que não lhes pertence.
É arrasa quarteirão, qualquer coisa é milhão pra ser “colhido” maduro mesmo por cima do muro, pelo primeiro esperto que se habilitar.
E não adianta reclamar, por que não há mais papa para ouvir o bispo, qualquer manifestação é risco, um grito perdido no ar. É muita pressão, meu irmão.
Haja panela quando a paciência do povo se esgotar. É trem, metrô, bonde, VLT; é lei seca pra pegar táxi, heliponto para resolver a saúde, empreiteira mandando às favas as obras interrompidas em plena construção. Aí tem ladrão!
A vida não é um lego, mas é assim que uns e outros a levam, achando que podem montar e desmontar, mandar e desmandar, esticar, extirpar, fracionar. Abrir, fechar, puxar, esticar e… vender.
Se bobear até a mãe entra nessa se tiver uma boa e generosa oferta. A sua, é claro.
Por que o público agora tem dono, que se dane o entorno. Barulho, entulho, bagulho, vale tudo na barganha em que muitos perdem tudo e a panelinha de sempre – aquela – ganha.
É assim!
Que paga o pato é o gato que leva fama sem deitar na cama e nem ao leite tem direito, por que lhes falta respeito até pelo reino animal. Quer falar no vegetal?
Não faz mal, ele é o tal! Cada lugar tem o seu especialista no quero o meu, pronto pra abocanhar, enganar, roubar, enrolar e desacreditar o trouxa indignado que esboçar reação.
É ação, coação, expulsão, exclusão e tudo na contra mão do justo e do direito.
Por que lhes falta respeito ao seu senhor, o cidadão.
Cá entre nós é atroz aturar tanto absurdo, fazer de conta que é surdo quando as arbitrariedades explodem no colo de cada um.
Sou eu, és tu, é você, somos nós, sois vós, serão eles capazes de a tantos enganarem sem ao menos – sequer – explicarem por que acham melhores que toda a população?
É bando, corja, matilha quem faz parte da quadrilha que prossegue impunemente achando que somos palhaços fazendo graça pro mundo enquanto esses vagabundos limpam os nossos bolsos, como se não tivessem um fundo?
Mas podem ter a certeza um dia a gente vira a mesa, e jogando com destreza acaba com essa pobreza que insiste em pensar que é mais.
Alguém há de se capaz, com a ajuda – que Deus nos acuda – de dar um basta nessa sorte que é de morte. Ninguém merece sofrer por males que não são seus, padecer, nem esquecer, afrontas que não pediu.
Por que quem procura acha! Um dia depois do outro… Pouco a pouco quem paga o pato vai cansar de bancar o rato e tomar uma atitude.
Não que seja virtude lutar pelo que é seu. É direito obrigação, defender nossa nação de tanta iniquidade. Alguém vai gritar bem alto, acima de toda a mentira. Um grito de liberdade há de alcançar seus ouvidos e vai fazer todo o sentido quando o povo se juntar.
E será em cada olhar, que vamos saber lá no fundo que é hora de mudar o mundo, se não o deles, o seu.

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* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM…
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Estou na dele

Areia 121220 165 pipa s+¦Texto e foto de Valéria del Cueto

Saudades do meu caderninho, simplesinho, queridinho e tão útil. Pronto para receber de páginas abertas impressões e expressões de maneira serena, democrática, independente de linha ou assunto.
Estou me rendendo com alegria ao deslizar da tinta, o ritmo do desenho das palavras, o prazer de quem se entrega a escrevinhar no papel.
O caderninho é o momento em que o pensar só é mais rápido que a ideia que brota os décimos de segundos necessários para descarregar, linha afora tão soltamente a ponto de não haver dúvida(s) sobre a grafia correta, as palavras feiticeiras. Elas, que surgem saltitantes e se deitam preguiçosas, libertas e cheias de disposição, até aquela destinada a ser a flecha certeira que atinge o alvo do ponto final da frase.
Pode parecer delírio – e talvez seja – provocado por fortíssimos sintomas de felicidade intrínseca, dos que só podem ser provocados por uma sensação efêmera e quase única. – como tudo que é bom.
Falo do meu mar é azul, verde esmeralda cristalino e da minha praia é a mais limpa do Rio. Não é pouco.
Tenho observado esses tempos estranhos. E agora, sinto começou o verão no Rio. Temperaturas altíssimas, enquanto que no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Uruguaiana, onde o verão costuma ser escaldante, o clima da estação anda ameno.
Aqui, o calor começou nos últimos dias de carnaval deixando para trás um janeiro ranheta que não fez jus a nossa fama de paraíso na terra. Parecia praga! Tanta gente de fora querendo ver o que faz do Rio um lugar abençoado por Deus e, no céu só nuvens passando, em sentido único, sempre de lá para cá, o caminho do mau tempo. E mais… a água do mar estava horrorosa. Foi isso que os visitantes viram. Meio caldo de cana em alguns dias.
Mas isso foi antes. Bastou passar a temporada pra que o cara lá de cima, vendo o paraíso mais vazio, mais disponível, resolvesse aproveitar uns dias especiais na sua maravilhosa cidade. E caprichou no ambiente!
Subiu a temperatura da terra, pra que queiramos o mar. Para torna-lo irresistível, deixou tépida a sensação na pele até na hora do mergulho, aquele, na corrida, sem testar antes com a pontinha do pé o que te espera. Também como resistir ao apelo daquela cor que era, sim, do mar, e apenas dele, celestialmente, por assim dizer?
Filtrou a água a ponto de fazê-la brilhar como esmeralda translúcida e transparente, capaz levar qualquer um a viajar nas suas profundezas até alcançar, lá no fundo o relevo da areia.
Deu uma soprada no vento e amenizou, com uma ajuda substancial da maré, as ondas e movimentos. Ondas sim, mas no tamanho certo para não turvar demais o que os olhos podiam notar, sem sei lá não sei não.
Para não dizer que não obteve ajuda humana, soprou os ouvidos dos garis do bairro um pedido de ajuda para que dessem uma geral na areia e… pronto!
É o paraíso da Ponta do Leme. Em pleno meio da semana que é para garantir o testemunho. Há muito aprendi a não esperar para usufruir amanhã o que me é oferecido hoje. E vocês sabem mesmo ele, o senhor, um dia precisa descansar, relaxar e aproveitar o lado bom da vida que arduamente tenta nos dar.
Por que sei, ele está aqui agora em minha companhia, usufruindo o sucesso do melhor de sua concepção. Aqui representado por esta vivente feliz, na Ponta do Leme.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

É pra dar em doido!

Mangueira 130211 275 CF placa Mangueira Cuiab+í

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quero mudar de assunto, mas rodo, rodo e lá está ela, a verde e rosa, malemolente e bela, executando seus passos e volteios no meu campo de visão e incendiando minha imaginação. Se não para louvá-la, como gostaria, para esclarecer alguns pontos que tem causado polêmica em relação a seu desfile.

Quando vejo, por exemplo, as manifestações de moradores de Cuiabá chicoteando o jequitibá, citado na letra do samba de 2013, chego a conclusão que sim, os 3,6 milhões de reais, destinados a Escola de Samba, deveriam ter ido para a… educaçãoem Cuiabá. É incrível a incapacidade vigente de interpretar um texto, coisa que a gente aprende no colégio, ao contrário do samba, como já dizia Noel Rosa em um de seus clássicos, “Feitio de Oração”:“Batuque é um privilégio / Ninguém aprende samba no colégio / Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia / Dentro da melodia…”.

Ora, vejamos o que diz o segundo refrão da composição deLequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalhoque tanta celeuma tem provocado, incluindo aí uma discussão acalorada sobre os locais em que o tal Jequitibá é natural ou está plantado na cidade:

“Mangueira…O trem da emoção /Viaja na imaginação / Meu samba é madeira, é jequitibá / É poesia dedicada a Cuiabá”
Senão, vejamos:

Mangueira – não a árvore, mas a escola de sambaGres. Estação Primeira de Mangueira.

O trem da emoção – observem que não diz que é o trem da razão. A emoção nos permite… imaginar! E o que é a Mangueira? A estação primeira, onde se realiza o embarque rumo a ela.

Viaja na imaginação – até por que assim dá pro tremchegar, ou melhor chegar mais rápido, o que só pode ser no imaginário, já que a gente sabe que esse trem verdadeiro está “devagar, quase parando”, como a Maria Fumaça, de Kleyton& Kledir.

Meu samba… – o feito pelos compositores da Mangueira, a escola de samba, e escolhido após uma acirrada disputa que dura meses.

é madeira, é jequitibá. – quer dizer que o ritmo, a música da Mangueira é de lei, é nobre, principalmente se for de jequitibá rosa, uma madeira duríssima!

É poesia… – poesia não é reportagem, nem documentário histórico. É imagem, ritmo, sensação e também pode ser idealização.

Dedicada á Cuiabá – dedicar não é descrever. Significa consagrar, tributar, oferecer, destinar.

Enfim não há nenhum lugar que diga que o Jequitibá é cuiabano, existe nas terras do Sutil ou algo assim. “Jequitibá” é o samba mangueirense, “madeira de dar em doido”, segundo José Ramos e Marcelino Ramos, na música que todo mangueirense de fé já cantou:

Mangueira é uma floresta de sambista / Onde o jequitibá nasceu / Veio fogo, queimou
veio vento, tombou /machado, o jequitibá ficou

Resumindo: precisamos muito do verdadeiro Jequitibá pra dar nos doidos que deixaram o povo cuiabano incapaz de interpretar um simples texto!

* Link das músicas citadas: Feitio de oração http://youtu.be/d_-dZqnlABM //Maria Fumaça http://youtu.be/Yd51SuxyA1w //Jequitibá – http://youtu.be/QPRp7di0thQ

Quem não pode com mandinga não carrega patuá.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Se não sabe brincar, não desce pro play. Captou?
A Mangueira é expert em amor, raça, paixão e superação. Desfile de carnaval, tradição e samba. Cuiabá precisa de divulgação no exterior para atrair turistas na Copa do Mundo disputando espaço com as outras sedes brasileiras de 2014.
Não existe vitrine com um custo benefício mais vantajoso do que a focalizada, nos 700 metros de pista do Sambódromo Darci Ribeiro, pelas centenas de câmeras espalhadas pelo caminho que o trem verde e rosa cruzará na noite de segunda feira. Elas massificam durante os 80 minutos de desfile imagens, conceitos, tendências, um lugar. No caso, Cuiabá. R$3.600 milhões é um custo baixo investir numa campanha publicitária internacional. Imaginem estar no DVD com o compacto do desfile Grupo Especial das Escolas de Samba cariocas distribuído por todo o planeta. É entrar para a posteridade da maior festa popular do planeta.
Até por que, é com tristeza que informo: se pouquíssima gente, quase ninguém, sabe que existe um paraíso chamado Pantanal – pergunta que faço em todos os lugares onde vou, em vários continentes-, o que dizer de Cuiabá, um de seus portais de entrada?
O viés do enredo definido, segundo o contrato em conjunto entre as partes, foi meramente turístico. E, peneirado demais, virou um clichezão. Mas a grita funcionou e a sinopse foi substituída. Agora é texto de Cid Carvalho, o carnavalesco.
Discordou do enredo, não gostou do samba? Paciência. Deixa a Mangueira passar. Quanto mais marola, mais feio fica. Pra cidade, é claro. Por que para a Mangueira é apenas mais um entre dezenas de carnavais que ela já apresentou. Queria ver alguém ir lá e fazer melhor.
E, justiça seja feita, durante todo o tempo entre o namoro, o noivado e a troca de alianças, daria para ter tomado providências, como aconteceu no caso da sinopse.
Detonar a Mangueira na véspera do carnaval é, no mínimo, irresponsável, desrespeitoso e, me perdoem, uma grande estupidez. É burrice dar tiro no próprio pé. Desvalorizar seu próprio produto! Enfim, bancar o “bobó tcheira tcheira”, abusando do cuiabanês.
Agora passam recibo do mau uso do dinheiro público. Reclamam, e o estopim não foi a ausência dos cursos de capacitação para sambistas, ou a quantidade dos eventos – tratava-se de uma carta de intenções, lembrem-se. Mas, sim, da falta de 100 vagas prometidas na Sapucaí. O que configura que nosso dindin seria para bancar as mordomias de poucos! Assim, na lata. E, enquanto metem o malho, os membros da comissão, responsáveis pela perna cuiabana do projeto, ficam caladinhos. Aqueles que mostraram sua ginga ao lado dos componentes da verde e rosa no lançamento do projeto no Cine Theatro Cuiabá. Os que presenciei, nas minhas andanças fotográficas na agremiação, acenando empolgados e cheios de moral para a plateia do camarote cuiabano, nos ensaios no Palácio do Samba. Ninguém me contou, eu vi!
Por isso, peço encarecidamente. Deixem a Mangueira passar. Torçam por ela e, se puderem, cantem com ela. Por que outra oportunidade como essa para, diante do mundo, bater no peito cheio de orgulho por ser cuiabano, não vai aparecer tão cedo. Que o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, São Benedito e São Sebastião abençoem esta jornada.