Arquivos da categoria: Crônicas certeiras

A Comandante e o Navio

Ilustração de Rodrigo Melo/oilustrador.com

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

No meu porto havia um navio sempre à espera, parado, intacto, quase morto. O navio estava pronto para a partida mas a tripulante não sabia se queria viajar ou não. Às vezes, entrava no navio, quando bem queria, içava a vela e falava para si mesma. “- Vou viajar!” Ligava tudo, de bombordo a estibordo com ar de satisfação nos olhos. Quando se aproximava do alto – mar, recuava satisfeita com o pouco que velejara e voltava para a terra deixando o navio ao sabor das ondas inconstantes do porto vazio. Precisava cuidar da tripulação que havia ficado em terra sem querer saber se quem mais necessitava dela era o navio ou a tripulação que tripudiava em cima de suas emoções. O navio batia, desesperado, de encontro ao cais, levado ao sabor inconstante do vento e da solidão. Num desses momentos, o navio soltou as amarras que o prendiam ao nada. E liberto disse “não”. Não ao cais vazio, não à espera longa e cansativa. O navio queria viajar de encontro ao mar. O navio queria amar no mar de si mesmo. Que fosse só à Antártida, mas queria viajar. Não mais satisfazer aos caprichos de  comandante indecisa, autoritária e que não sabia o que queria. Ela amava o navio 15 minutos por dia. Sentia saudades dele no entanto não se interessava se o navio queria viajar. Seu prazer era sentir que o navio estava perto, atracado a ela, e que nele poderia embarcar quando bem o quisesse.
Um dia deixou a tripulação viajar (de avião) e falou consigo mesma: – Vou velejar! Trouxe todos os apetrechos necessários à viagem repentina. Sumiu da terra disposta a ir ao mar, se entregar, sonhar, gozar. Não esqueceu nada: Levou luneta porque no navio não tinha, levou combustível  à base de álcool porque o navio não tinha. Entrou no navio com uma predisposição incomum mesmo estando em dias de enjôo comuns a comandantes terrestres. O navio não se fez de rogado. Deixou a capitã invadi-lo e invadiu-a também num prazer sem fronteiras, prá lá do oceano Pacífico.
Ela amou o navio embora sentisse vergonha de dizer que ele era dela. Não o levava à praia onde habitava, exceto à noite, de madrugada, quando todos dormiam e só ela sonhava. O navio queria o mar (amar) também. Ela pouco se importou com o navio encalhado e brincou de velejar com ele em plena terra esquecendo-se que o navio é também oceano, mas não mais pacífico.
O navio encontra-se no estaleiro reparando os fios partidos da ignição do motor, seu coração. Soldando o casco que ameaçava seu equilíbrio. Recuperando a rigidez e suavidade do mastro, antes abandonado, esquecido, largado.
O navio vai velejar sozinho por outros mares. Soltou as amarras, libertou-se. Ouviu a música das gaivotas e adentrou por mares nunca dantes navegados.
O nome do navio (ela o batizou) era Cafôfo.

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, do autor :

A ilustração é de Rodrigo Melo, ilustrador e designer gráfico sul matogrossense, de coração mineiro, formado em Brasília e agora residente no Rio de Janeiro. www.oilustrador.com

A epopéia de uma nota de R$ 50,00

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Nasci num dia especial de junho, na Casa da Moeda do Brasil. Eu, parte de uma folha imensa de papel especial, cheia de assinaturas lavradas em cartório, marcas d’água, selos de segurança, era uma nota de R$ 50,00, de no 43389778, Série “D”. A funcionária da Casa da Moeda, ao separar-me de tantas notas similares, fingiu indiferença. Colocou-me imprensada no meio de outras tantas irmãs, todas com o mesmo destino: PAPEL MOEDA EM PODER DO PUBLICO.  Transportada em carro blindado, com toda a segurança que tenho direito, fui enviada para o Banco Central que, depois de alguns dias armazenada no silêncio sepulcral da Casa Forte, fui encaminhada ao Banco do Brasil e logo depois me vi, quentinha, num aconchegante box de caixa automático  de uma agência do BB, no interior do estado de Pernambuco.   Depois de barulho ensurdecedor, senti desprender-me das minhas “irmãs”,  sem tempo para despedidas, e caí, juntamente com mais poucas notas de R$ 50  e de R$ 10, nas mãos de uma professora de curso primário estadual.  Nós estávamos representando o que alguns chamam de salário, e muitos de miséria.   Sumir da mão da triste e conformada professora foi num abrir e fechar de olhos. Dinheiro nas mãos de assalariado injustiçado voa rápido: Ora para pagar empréstimos contraídos a terceiros (incluindo agiotas que nessas horas de desespero é o que não faltam…), ora para pagar carnê das Casas Bahia ou para comprar o minguado mantimento que a sustentaria, juntamente com a família (marido desempregado) por um interminável e enfadonho mês.   Fui a vários cantos do País. Participei ativamente de golpes, lavagem de dinheiro, fui propina no bolso de figurões, passei pelo Jogo do Bicho na esperança de ser multiplicada, fui o motivo principal do aparecimento de alguns corruptos, passei por meias e cuecas (não agüento nem lembrar o cheiro…), andei pelo bolso do Sílvio Santos (virei aviãozinho em pleno programa), fiz parte de alguns pacotes fechados de notas de R$ 50 enviados a “mensaleiros” , manchei-me de sangue em brigas de prostitutas, fui alegria de tantos e a desgraça de muitos. Depositaram-me na cestinha de coleta no momento do ofertório em uma missa, fui negociada várias vezes “por debaixo dos panos”.  E cá estou eu, depois de tanto giro, no bolso do escritor que me traduz. Amanhã, provavelmente, ele irá ao Banco do Brasil e trocar-me-á por outra nota de R$ 50,00 novinha em folha, pois o meu estado de conservação é lastimável. De volta à origem, sinto que estou condenada a ser repassada por uma máquina DLRS selecionadora de cédulas do Departamento do Meio Circulante do Banco Central, que dará o implacável veredicto final de “imprópria para uso”, incluindo-me no rol de outras tantas notas velhas cujo destino irreversível é passar por uma barulhenta máquina destruidora de cédulas, que, de forma sorridente e gulosa me triturará em seu estômago e me condenará à triste realidade de virar confete e depois caixa de papelão.

Internet Móvel 3G – A esculhambação precisa acabar. Quando será?

Por Beto Bertagna

A falta de legislação da banda larga móvel conhecida como 3G tem causado diversos aborrecimentos para os usuários. O uso comercial das redes via celular começou depois de 2002, época em que houve a regulamentação específica sobre a questão da telefonia celular e o uso da bandas. Por conta disso, as operadoras deitam e rolam em cima dos pobres mortais usuários e os tratam como pobres antas.   E não adianta nem reclamar para o bispo ! ( Ainda mais no nosso caso, do bravo   Dom Moacir Grechi, que já anda preocupadíssimo vendo os  candidatos ficha-suja na eleição 2010).  A maior reclamação é que o serviço é caro e de péssima qualidade, e isto vale para todas as operadoras. Você pode pendurar o modem na janela, colocar bombril, fazer malabarismo. Não adianta. O sinal não chega onde a operadora diz que chega. E se chega é tão fraco que cai a cada instante. Reclamar no 0800 ? Nem tente ! Vai tocar “musak” até você vomitar.  Os $ite$ e outros veículos que posam de “jornalísticos” se calam, em especial os especialistas em achaque ,  porque recebem verbas publicitárias para ficarem quietos. Mas por conta do recorde de reclamações, surgiu a  proposta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para  que a legislação seja atualizada a partir de uma  consulta pública para revisão do Plano Geral de Metas de Qualidade do Serviço Móvel Pessoal (PGMQ-SMP).  Entre as inovações  há uma proposta de exigir que as tentativas de conexão à banda larga móvel sejam estabelecidas em 98% dos casos, no mês. Já a taxa de queda do acesso deve ser inferior a 5%. A velocidade de conexão, tanto para download quanto para upload deve ser de, no mínimo, 30% do valor máximo previsto no contrato . (Quá…Hoje, prá se ter uma idéia a maioria só garante 10 % da velocidade contratada).  A partir de um ano da entrada em vigor do novo regulamento, a velocidade mínima exigida subirá para 50% do contratado. A exigência é válida para os horários de pico. Nos demais horários, o mínimo garantido deve ser de 50%, assim que as regras entrarem em vigor, e 70%, um ano depois.O novo regulamento valerá 180 dias depois de publicado. A consulta pública fica no site até o dia 26 de agosto no endereço http://sistemas.anatel.gov.br. Esperamos que antes da adoção do 4G aqui pelo Norte deste país as empresas de telecomunicação parem de  tratar os nortistas como cidadãos de segunda categoria e já estejam mais civilizadas. Quando será ?

É a vida, continua…

Texto e foto de Valéria del Cueto
O dia amanhece e o sol se esparrama ainda frio pela porta aberta do chalé na beira da piscina. Sentada no sofá observo seu desenho espalhado no balcão da cozinha, passando pelos bancos altos, a cesta cheia de cachos de flores de primavera multicoloridas ressecadas, o piso de taboa corrida que tanto trabalho, alegria e orgulho deram para Dona Elza, a ponta do sofá onde escrevo e a mesa do centro da sala.

Ainda é cedo, muito cedo, mas é hora da partida. Ao contrário de muitas outras manhãs de segunda feira não me despeço da casinha amarela com um singelo “até mais, daqui a alguns dias eu volto, me espera…”

É um adeus, em que nada fica para trás.

Vejo na porta meus últimos pertences embalados. Como disse anteriormente, em outra crônica, são discos, livros e um pouco mais. Tudo seguirá para Cuiabá, até o próximo pouso.

A porta e os portões deste paraíso se fecham vagarosamente na medida em que, passo a passo, vou saindo do espaço, até então mágico, em que andei refugiada no último ano.

Não há tristeza na partida por que sei que a porta de um paraíso só se fecha para que a de outro possa ser aberta. Eles, os paraísos, são vários. Mas há apenas uma passagem aberta de cada vez para alcançá-los. E, só quando uma se fecha, é possível com muita sorte, vale ressaltar, encontrar outra.

Foi assim na ilha do Brandão em Angra e o ritual se repete aqui, na Chapada dos Guimarães.

O segredo, para não doer muito o momento da partida do paraíso, é não olhar para trás e saber, só com o coração, sem a visão, que, apesar de tudo ficar como está, nada será como antes ali.

Ouço a buzina que atrapalha o canto dos pássaros na manhãzinha. Recolho a mala, o pacote bem embrulhado das tralhas (sou expert em embalar sonhos, esperanças e poucas, mas muito preciosas lembranças), o notebook recheado de fotos ainda inéditas por puro zelo (no sentido hispânico da palavra), a bolsa e os jornais cariocas que vou deixar para o Juliano e a Louriza, meus ex e futuros anfitriões no lugar que escolhi para viver meus momentos de inspiração e produção criativa.

Puxo a porta, passo a chave, ligo o alarme, olho em frente e desço os degraus de tijolinhos equilibrando as emoções, em direção ao portão de lateral de madeira.
Mal levanto a cancela e as duas bandas se abrem sozinhas impulsionadas por um golpe inesperado de ventania que escancara o mundo a minha espera e me desafia a uma nova busca, por outro portão, de outro jardim que ainda não conheço.

Não olho para trás, já disse, mas sei que a camuflagem enfeitiçada, a névoa de proteção, se dissolve. Um lugar volta a ser o lugar.

A mim só cabe agradecer o privilégio de ter ancorado no paraíso que encantou a Travessa da Piscina, sem número, no ano da graça de 2010.

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Laranjeiras carregadas de laranjas boas

Querido P,

Há um ano que não te encontrava. Não sei se já tinha te visto antes para falar a verdade. Nós dois, dois dias, as palavras e alguma embriaguez, e meu bom senso que diz que és tu. Eu sou muito tu. E tu falas sobre mulheres. Eu penso sobre os homens e tento aprender em quarenta e oito horas tudo o que nunca me ensinaste sobre ti e sobre todos vocês. Espera um pouco: Moço! Quero esse Proust aqui. Uma dose desse tempo perdido, por favor. Tá. Enquanto me olhas, vejo teu sangue voltar pela contramão. Em mim, alguma coisa não é mais minha, eu estranho e alegro. Alegria séria de quem agora entende que o encontro e a perda são tão íntimos quanto nós e que nosso amor vive de tropeços, entre as fumaças e os ruídos de um boteco qualquer. Agora eu fecho a porta e ouço teus passos intensos na escada. Aqui nessa ausência te, me vejo e te, me percebo melhor. Obrigada, não vou esquecer.

Com carinho,

L.

Anjos da Madrugada ou o cão chupando manga ?

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Se em Olinda tem o famoso Bacalhau do Batata, nós temos o bloco Pirarucu do Madeira. Se o Rio de Janeiro se gaba de ter a Banda de Ipanema, nós possuímos a Banda do Vai Quem Quer. E se na cidade de São Paulo tem os Demônios da Garoa, nós aqui em Porto Velho temos os Anjos da Madrugada. Com eles dando um show na calçada do Bar do Zizi, no Mercado Cultural, a noite de sexta-feira ficou hiper-animada, levando as pessoas que viram a balada a aplaudirem com entusiasmo o grupo musical que passionalmente incendiou o terreiro do samba. Eles chegaram assim de mansinho, como quem não quer nada, e quiseram e conseguiram tudo: entornar a boa dosagem de lirismo e nostalgia que a civilização brasileira herdou do sangue lusitano – além da sífilis, claro, como diria Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra.   Eles tocam essencialmente bolero, mas isso não lhes impede de contemplar o público com uma série de outros gêneros musicais da lavra brasileira e internacional. No palco, o grupo se apresentou vestido todo de branco, querendo transparecer uma certa pureza angelical, mas de anjos eles não têm nada, pois são o cão chupando manga, tocando o zaraio no meio do mundo, quando acionam seus baixos, suas vozes carregadas de emoção, suas congas, bongôs, violões e teclados para detonar o baixo-astral e pregar no púlpito da diversidade musical sua mensagem seiscentista: carpiem die. Isto é, aproveitem o dia de hoje na paradoxal página do presente eterno. Latinos são os Anjos: cantam com o coração em apaixonada performance interpretativa. Saltam de um “Bésame Mucho” para um “Tell me Once Again” com espantosa naturalidade, deixando um único liame explicativo – o romantismo, em alguns momentos piegas, que lhes transborda o caldeirão sentimental. Proclamam-se seresteiros por excelência, mas fazem bem humoradas incursões no xote, no samba de Noel Rosa e no território da Jovem Guarda como se Meu Carro é Vermelho fosse um hit parade inventado na semana passada. Boêmios versáteis é o que são.   Arregaçando o espaço do samba pelo avesso, a companhia musical Anjos da Madrugada esteve em cena, dia 20 de agosto, no projeto cultural mais badalado do final de semana em Porto Velho : a Final Flor Samba, capitaneado pelo “Poeta da Cidade”, o cantor e compositor Ernesto Melo. A mostra musical acontece toda sexta-feira, a partir das 20 horas, no Mercado Cultural, no centro histórico da capital, com o patrocínio da Fundação Iaripuna.   Apresentando-se no quadrilátero cultural do centro antigo de Porto Velho, todos eles estavam impecáveis, é vero. Mas é preciso separar o joio do trigo e distribuir o pão do talento a cada um, segundo o quinhão que cada um desses artistas merece: o intérprete Waldemar Nazareno, cativante e cavalheiresco, vencedor de um concurso regional que o levou a se apresentar no programa do Raul Gil, como representante do Estado de Rondônia, conquistou o público o presenteou com toda sua competência, sensibilidade vocal e seu jeito carismático de se locomover no palco; Altair dos Santos, o Tatá, Presidente da Fundação Cultural Iaripuna , mostrou com quantos paus se faz uma cozinha bem temperada, utilizando congas apimentadas, bongôs com cheiro verde e ataques de execução precisos e graciosos, bem como a expressão de risos no ar, descontraindo o ambiente como se estivesse tocando tambor de caixa num boi-bumbá qualquer dos terreiros de Calama, na região do baixo Madeira. Roberto Matias, baterista habilidoso e afrodescendente, tranqüilizou o grupo ao garantir a cadência e o fluxo rítmico que as músicas requerem para provocar agradabilidade entre os ouvintes da troupe; o tecladista e também vocalista Charles Kazan, dono de voz poderosa e bem tonificada, é músico de mão cheia, contribuindo para que os arranjos tivessem requinte e personalidade na apresentação dos angelicais. Dando um show de suporte harmônico à banda, encontramos Edmar Jucá. O experiente guitarrista, esperto e antenado no que o povo gosta, usou e abusou de seqüências harmônicas e acordes que dão qualidade e comunicabilidade ao discurso plástico das peças musicais. No baixo, a tranqüilidade em pessoa: o tarimbado Sérgio Santos fazendo a cobertura dos acordes sonoros produzidos pela guitarra de Jucá e pelo teclado de Kazan. Não se sabe ontologicamente qual o sexo dos anjos em geral, mas em se tratando de Anjos da Madrugada cada um tem o seu bem definido. Priscila, por exemplo, vocal do pelotão de frente da companhia musical, é a única, dentre esses espíritos celestes e mensageiros de Deus, a representar o sexo feminino na pândega. Afinada, animada, simpática e plugada no que faz, ela encantou aos olhos e aos ouvidos do respeitável público que tomou de assalto quase todos os recantos da Praça Presidente Getúlio Vargas.   Os Anjos da Madrugada têm esse nome porque no nascedouro da carreira musical desses bambas do bolero e da MPB está o fato de terem pertencido ao Movimento da Juventude Católica, que tinha por base eclesial a paróquia de Nossa Senhora das Graças, depois do bairro Quilômetro Um. Hoje, comemorando vinte e dois anos de pé na estrada, eles vão de peito aberto aonde o povo está. Não têm medo da crítica. Não têm medo da vida. Tocam de tudo. Até brega, se o brega é de boa qualidade e agrada ao público. Executam boleros se preciso for, para que a romântica atmosfera da noite cresça no coração do homem e ele se sinta satisfeito e realizado, amante e amado, entre um trago no copo e o balanço de um corpo bom colado ao seu, no desvairio da eterna busca pela felicidade.   Dizem que são anjos, e são mesmo. Com suas poções mágicas cuidam das pessoas. Com suas beberagens melódicas e farmacológicas curam as chagas e as dores dos populares que os assistem. Sob suas asas, por um breve momento o mundo é tomado pela bandeira branca das colcheias, fusas e semifusas que decolam do pentagrama como se fossem pombas da paz derramando bênção musical sobre o corpo de quem os vê assim maduros, de bem com a vida e cheios de vontade de fazer o povo feliz. Cantando, são embaixadores da esperança. Se apresentando nos palcos da vida, são operários do fazer artístico, saltimbancos do lúdico, invadindo a praia da Fina Flor do Samba. Tocando, são espíritos de luz em meio ao irracionalismo político-administrativo que está lançando este Estado ao fogo desmedido da ganância. Concebendo sua arte, são deuses terráqueos fazendo das tripas coração para que o homem se redescubra divino também, e não ataque a natureza de forma cruel como eles bem testemunharam na esfumaçante noite em que se apresentaram, sob o olhar perdido e triste do Pai dos Pobres, cujo busto chorou de tristeza vendo a sensibilidade humana virar cinzas.   O fato é que na exibição do último capítulo da maior novela musical do Estado de Rondônia, a Fina Flor do Samba, sexta-feira passada, no Mercado Cultural, anjos que voam na hora da garoa, ao som de boleros, mambos, rumbas, xotes e samba-canção, exorcizaram os demônios da madrugada com a entonação de cânticos sacros e profanos das únicas igrejas que são unanimidades entre os tupiniquins: os seguidores do bolero dos últimos dias e a santa música popular brasileira.  Quem são eles, final? São Anjos da Madrugada ou o Cão chupando manga meio dia em ponto? Não se sabe.  Diz a lenda que são gente como a gente, que pecam, que sonham, que amam e que cantam…

A emocionante história do morador de rua mais famoso do bairro mais caro de Brasília

Ele chegou de mansinho, foi ficando e conquistou as pessoas. Criou um vira-lata como se filho fosse. Morreu de frio, numa madrugada, ao lado do fiel companheiro, que chorou e o velou até o fim.

Por Marcelo Abreu

Ele era um lorde maltrapilho. E ainda assim continuava lorde. Bebeu tudo que pôde. Bebeu até cansar de beber. E de viver. Morreu de frio, ao relento, perto de uma árvore. E ainda assim morreu lorde. E não há poesia em dizer isso. Como alguém, maltrapilho, que morre de frio, pode ser lorde? Good Night era. E da melhor qualidade. Era um lorde às avessas, sem terno bem cortado, champanhe francês, charuto ou carro importado. Era um homem que ainda emocionava aquela gente rica, de pouca conversa com estranhos e quase sempre apressada do nobre Sudoeste.

O maltrapilho Good Night os fez pensar em si mesmos. E fez essa gente — dos que moram ali aos que trabalham na região — se render a um homem que andava com um cachorro vira-lata pelas ruas do bairro, esnobava no inglês e lia jornal achando que todas as notícias eram iguaizinhas. Good Night sabia o que dizia. Era um show. Morreu há um mês, enquanto dormia, naquela semana em que as madrugadas chegaram a registrar entre nove e 12 graus.

The Dog, como ele chamava o cão que o velou até fim, chorou. Foi difícil tirá-lo de junto do corpo do amigo. Mas, afinal, quem era este tal de Good Night? Pouco se sabe. E tudo que se sabe foi o que ele permitiu saber. Há pelo menos 14 anos, aquele homem chegou ali. Chegou do nada, vindo do nada. O bairro nobre começava. Good Night acampou na região. Junto, trouxe uma garrafa de cachaça e um jornal debaixo do braço — companheiros inseparáveis.

O jornal não servia de cobertor. Good Night o lia com interesse muito particular. Aos poucos, mesmo que a gente apressada não o visse, ele foi se chegando. Cumprimentava as pessoas, mesmo que a maioria não respondesse. Ria para elas, quando sentia vontade rir. E fez do bairro a última morada. A voz grossa e meio rouca, sua característica mais marcante, não combinava com aquele tipo mirradinho. Good Night não media mais que 1,60m.

O homem que bebia todo dia obrigou aquela gente a percebê-lo. Ele podia usar o banheiro dos prédios comerciais. Quando estava no auge dos devaneios etílicos, danava-se a falar inglês. E sacava, quando passava para cumprimentar as pessoas, suas frases de efeito: “Good Night, boys!” Ou, se era pela manhã: “Good morning, girls! I love you, girl!” Pedia licença, em inglês: “Excuse me”. E agradecia, quando lhe davam alguma coisa, também na língua do Tio Sam: “Thank you! God reward you!” (Deus lhe pague).

Não tardou para ser chamado de Good Night. E Good Night começou a quebrar o gelo daquela gente do nobre Sudoeste. Aos poucos, passou a ser visto com condescendência. Sua presença já não causava tanto incômodo. Nem medo. Nem estranheza. Nem ameaça. Quando estava sóbrio, geralmente só pela manhãs, era de poucas palavras. Quase mudo. Lia jornal, revista, o que chegasse às suas mãos, sempre dada pela caridade alheia. E ficava horas pensando. Good Night gostava de ficar com ele mesmo.

The Dog

O Sudoeste cresceu. Good Night continuou ali. A avenida comercial era toda sua — especificamente as quadras 102/302 e 103/303. O mendigo virou morador do bairro mais caro da terra de JK. E, creiam, o mais popular. O mais divertido. O mais verdadeiro. Caiu no gosto das pessoas. Good Night amoleceu corações. Chegaram outros moradores de rua. Ele tornou-se uma espécie de líder. Todos lhe obedeciam. Ele nunca permitiu desordem e confusão. Levou isso até o fim.

Há cinco anos, um cão vira-lata, feioso, de pelo vermelho, cheio de pulga, apareceu ali. Não se sabe como. Afeiçoou-se a Good Night. Ambos se adotaram. Um cuidou do outro. Um era a referência do outro. Lorde como era, Good Night batizou o animal. Chamou-o de The Dog. E, creiam de novo, ensinou o vira-lata a sorrir e cumprimentar as pessoas levantando a pata.

O cachorro logo aprendeu a elegância do dono. Só atravessava na faixa de pedestre. Não entrava nas lojas. Não fazia cocô perto da gente elegante. E nunca, nunca brigou na rua. Na madrugada em que Good Night morreu, The Dog cuidou dele até que os bombeiros chegassem. Lambia-o. Mexia para que ele levantasse dali. Hoje, vive com uma menina moradora de rua, que cuida dele porque prometeu isso a Good Night.

Good Night bebeu até o dia em que morreu. “Oito dias antes da morte, ele me disse que ia dar um tempo, que a bebida tava fazendo mal”, conta o cearense Antônio Aurismar Pimenta, 39 anos, o Mazinho, segurança do Edifício Rhodes Center 1, na comercial da 103 do Sudoeste. Ele trabalha na região há 14 anos. “Comecei como açougueiro. E, desde que vim pra cá, conheço o Good Night. Ele era uma pessoa muito boa, todo mundo gostava dele.”

Saudoso, Mazinho lembra as tiradas pitorescas de Good Night: “Ele gostava de falar umas coisas em inglês. Era inteligente, parecia ser estudado. Sempre beijava a mão da síndica e chamava ela de condessa. Nunca perturbou a vizinhança e ainda exigia que os outros moradores não perturbassem também. Ele era o xerife de todos eles”.

O porteiro Eliézio Cardeal, maranhense de 38 anos, há 13 naquele endereço, elogia o carisma que Good Night despertou nos moradores e na gente que trabalha na região: “Do rico do pobre, todo mundo gostava dele. Era inteligente. Falava de política melhor do que os políticos. E me explicava muita coisa. Vai fazer falta por aqui”.

Lenda urbana

Pouco se sabe de Good Night. Desconfia-se que ele seria carioca. Pelo sotaque cheio de ‘s’. Contam que ele teria parado na rua por conta de um acidente de carro, onde morreram a mulher e os dois filhos. Seria ele o motorista. Há quem tenha ouvido que ele teria sido funcionário da falida Encol. Que uma desilusão amorosa o levou às ruas. Que seria formado em direito. E que teria parentes no nobre Sudoeste, na 102.

Pouco importa o que Good Night teria sido. Ele foi o lorde do Sudoeste. Fez gente tão distante dele olhar pra ele. E isso já seria seu melhor currículo. “Ele falava umas línguas que eu não entendia”, espanta-se, até hoje, o lavador de carros Maikon Michel Santos, 21 anos. E emenda: “Mas era humilde com as pessoas”.

Na Confeitaria Monjolo, na 103, as funcionárias tinham ordem para dar um salgado pra ele. “A dona deixava. Ele era boa pessoa”, diz a caixa Cristiane Santos, 21 anos. Iolanda Lucena, 20, balconista da padaria Pães e Vinhos, tenta imaginar o que levou aquele homem a perder-se dele mesmo. “A gente percebia que teve uma condição boa na vida. Talvez sofreu uma decepção, teve depressão”.

No restaurante Nautilus, Good Night fez muitos amigos. E foi responsável por muitas gargalhadas.”Ele só não gostava de madames. Principalmente as peruas. Imitava todas elas e a gente morria de rir. Era uma graça”, lembra a atendente Elma Veloso, 25 anos. “Tinha gente que chamava ele para se sentar e conversar. Uma doutora que trabalha aqui fazia muito isso”, diz o garçom Fábio Bonfim, 18.

José Lucimar Ribeiro, 31 anos, também atendente, admirava a honestidade dele: “Ele nunca pedia nada. Quando pedia, era um real. E falava: ‘É pra comprar cachaça mesmo. Não é pra comida, não’. Ele nunca enganou ninguém”. Na tarde de ontem, Otalino Firmino, 63, morador da 304, soube da morte de Good Night no supermercado São Jorge. Levou um susto: “Caraca, ele morreu?”. Era uma figura. Ia comprar pão e a gente conversava”.

Good Night era tão Good Night que nunca aceitou ir para abrigo do governo. “Tentamos várias vezes, mas ele não aceitava”, conta a ex-diretora de serviços da Administração Regional do Sudoeste, Ivana Natividade, 46 anos, que cuidava do projeto Anjos da Noite. E elogia: “Ele tinha cultura, era diferente dos outros”.

Sentir-se gente

O dono do chique restaurante San Lorenzo, na 103, Carlos José de Moura, 47, tornou-se uma espécie de protetor de Good Night, um homem de 60 anos, cabelos brancos e pele clara castigada pelo sol do Planalto Central. “A maneira de se expressar dele me fez perceber que ele tinha conhecimento. A concordância verbal era perfeita.” Carlos procurou descobrir por que aquele homem havia parado na rua e se largado tanto. “Tentei resgatar o passado dele, mas ele me dizia que não gostava de falar disso. Talvez o mistério desse passado seja o início dessa fuga. Não quis mais entrar no mérito.”

Good Night contou a Carlos José que se chamava Frederico. Naquele dia, Fred — como os mais íntimos o chamavam — entrou no seu restaurante e comeu sempre que quis. “Uma vez, um playboy acusou o Fred de ter roubado o CD-player do carro dele. Foi lá, no saco de latinha que ele carregava, e chutou tudo. Eu me meti e disse que ele jamais teria feito aquilo. E não fez.”

Ao lado de Carlos José, Good Night sentiu-se forte. Encarou o playboy do Sudoeste e devolveu: “Você tá pensando que não conheço as leis que me protegem?” E continuou, cheio de si: “Vou agora ao seu carro, anotar a placa e dar pro meu advogado. Ele vai te procurar”. Dá-lhe, Good Night! O playboy? Saiu sem dizer mais nada. Envergonhou-se do papelão e vazou. “Naquele dia, ele me disse: ‘Você me fez eu sentir gente’. Nossa amizade nasceu ali.” Emocionado, o dono do restaurante badalado admite: “Só me arrependo de não ter resgatado a história dele”. E agradece: “Ele me ensinou que a vida tava sempre boa”.

E assim Good Night viveu. Encantou quem se deixou ser encantado. Fez piada de si mesmo. Riu dele e da hipocrisia dos muitos ricos. Ensinou The Dog a atravessar só na faixa, a não sujar o chão e a cumprimentar as pessoas. Bebeu todas. Fez uma gente olhar pra ele. E, numa madrugada, morreu de frio, ao lado do seu fiel companheiro, que chorou sua morte. Viva, Good Night!

God bless him (Deus o abençoe!)


Eu conheci um lorde

Moro no bairro onde as pessoas não gostam de falar com as pessoas. Um dia, na confeitaria Monjolo, um sábado à tarde, conversei com Good Night. Tomava café. Há muito o via, mas nunca havíamos conversado. Lia um jornal e ele chegou e me perguntou, com sua voz rouca e grave, se eu podia emprestar um pouco pra ele. Não estava bêbado.

Convidei-o para se sentar. Ele estranhou. Não sentou, mas conversou em pé mesmo. Disse que as notícias eram muito iguais e que elas se repetiam. Good Ningth sabia o que dizia. Falou do calor. E contou que desejava ter asas para voar. Perguntei por quê? Ele riu e disse que asas levariam ele para muito longe. Insisti pra onde ele queria ir. Ele disse que era um lugar que não existia. E olhou distante.

The Dog, que eu só soube o nome apurando esta matéria, estava ao lado, ouvindo a conversa atentamente. Good Night não disse seu nome, não me perguntou o meu, leu o que quis, aceitou uma garrafa de água mineral, agradeceu e foi embora, chamando o fiel companheiro e pedindo pra ele “se comportar com classe”. Eu estive diante de um lorde.

——-

Marcelo Abreu é Repórter Especial de Cidades do Correio Braziliense e gentilmente autorizou a reprodução do seu texto neste blog.

A velha locomotiva

Por Daiane Kowalesk (“Daiane Fumaça”)

A velha locomotiva a vapor rangia em seu suplício de aço a que era novamente submetida. Homens chegaram e a amarraram com grande pressa em cabos de aço e, aos gritos, corriam freneticamente pra lá e pra cá, alguns com ferramentas e mãos sujas da imundície acumulada em sua superfície metálica, outros gritavam ordens.

A locomotiva sofria. Estava certa de que esse seria seu fim. Sabia o destino que tiveram suas irmãs. Lembrava com pavor do brilho do maçarico cortando muitas outras locomotivas, carros e também vagões. Agora tinha certeza de que teria semelhante final.

Despiram-na de suas braçagens. Retiraram várias de suas peças e as colocaram em caixas. Um grande caminhão plataforma se aproximou.

Era chegada a hora. Os rangidos de seu metal cansado e enferrujado demonstravam sua agonia. Não tinha como lutar. Há muito tempo fora colocada em um pedestal, que se tornou seu leito de morte. E lá ela morreu, completamente só.

Naquele momento, quando foi içada para cima da carreta, lembrou de todos esses momentos, desde deu auge na ferrovia até seu sucateamento. Lembrou de seu maquinista, senhor risonho, sempre muito cuidadoso. Lembrou também das belas paisagens por onde passava, das pessoas que carregava, do sorriso das crianças… Lembrou ainda do pesar dos funcionários da ferrovia quando foi retirada do tráfego. Sua memória refez a linha do tempo, acreditava ela, pela última vez.

Levaram-na. O caminhão que a transportava andou durante todo dia. Já era de tardinha quando parou. Estavam em frente a uma antiga estação.

Suada com a brisa fria da tarde, foi retirada de cima da plataforma do caminhão e colocada com cuidado nos trilhos.

Surpresa, a locomotiva viu ao seu redor outras locomotivas a vapor. E grande parte delas estava em ótimo estado e seus metais rebrilhavam ao sol da tarde. Mais surpresa ficou ainda ao ver na sua frente mais adiante, uma grande vaporosa acesa, arfando, chegando perto. A máquina que se aproximava cumprimentou-a com um vigoroso apito e parou a alguns metros.

Que lugar era aquele onde máquinas como ela ainda funcionavam? Viu os mesmos homens que retiraram suas braçagens e peças cercando-na. Sentiu uma pontada aguda. Estavam remontando os componentes.

Durante vários dias teve sua chaparia trocada, partes que haviam sido roubadas foram repostas. Seus tubos, fornalha e caldeira foram consertados e, por último, foi repintada.

Em um ato quase solene foi reacesa. O fogo voltou a arder em sua fornalha. Sentia a água e o vapor circularem em seu interior. Seu compressor de ar chiava, como uma respiração profunda.

A locomotiva moveu-se por alguns metros. Sentiu golfadas de vapor quente invadirem seus cilindros. Quase se esquecera de como era movimentar-se.

A mão suave do maquinista foi a extensão de sua vontade. O apito ecoou longo e lamentoso nos barracões e na fileira de seringueiras mais adiante, mas expressava sua imensa alegria e exaltava seu renascimento.

O apito desencadeou vivas e palmas dos presentes que a cercavam. Um dos homens saiu do meio do grupo, com uma reluzente placa de metal nas mãos. Em dourado, com fundo vermelho, estavam impressas quatro letras. A placa foi fixada na lateral de sua cabine.

A grande Mikado que estava na sua frente recuou ruidosamente. Retornou trazendo três carros de madeira, lindíssimos em seus detalhes. Depois do desengate, seguiu para um desvio próximo.

Dócil ao comando do maquinista, a locomotiva engatou os carros e os tracionou por pelo menos um quilômetro. Voltaram à estação em seguida. Os carros desacoplados foram novamente manobrados pela locomotiva que aguardava no desvio.

Novamente a euforia tomou conta do grupo que observava atentamente. Essa mesma euforia também invadiu a renovada locomotiva. Mais adiante avistou um letreiro. Agora entendia o que aquelas quatro letras da placa em sua cabine significavam. Agora sabia o nome de seu destino. No letreiro estava escrito: “ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária”.

O pão de mucunã do Coronel Apolônio

Por Aparício Secundus Pereira Lima

O coronel Apolônio costumava sentar-se na varanda da sua casa de fazenda, à noitinha, depois do jantar. Reunia-se  sempre com vaqueiros, capataz, homens das redondezas, para tocarem viola, escutarem repentistas, contarem estórias.

Os vaqueiros, sentados ao redor do coronel, uns mascando fumo, outros fumando cigarro de palha de milho, ouviam, atentos, estórias de lobisomem, da caipora, feitos de outros vaqueiros famosos, a admiração por Raimundo Jacó, vaqueiro bom que morreu assassinado no exercício da profissão.

–       Vâmicê se alembra, Cumpade Niqueleto, do caso do Zé Lixande, cum a Caipora lá nas brenha do Serrote do Urubu, no ano de 59? – indagou o velho vaqueiro Antenoro, chapéu de palha, barba branca e rala, poucos dentes amarelados na boca.

E o vaqueiro Niqueleto:

–       Num me alembro não, meu cumpade. O que si assucedeu?

–       Ora, cumpade, foi da veiz que ele foi caçá tatu mais os cumpanhêro de roça. Já era tardizinha, eles no mêi do mato e aquele silenço di cimitéro. Zé Lixande sempre contano vantage de home valente, qui pega onça braba cu’as mão, todo chei de prosa. Quando tava iscureceno eles uviro um urro medonho e umas gaitada, umas risada qui fazia isfriá os ispinhaço de quarquer valentão. Intão alguém gritô qui era a Caipora qui vinha infrentá todo mundo cum a foice na mão. Foi um bafafá da mulesta, home pisano in home, cachorro sumino na mata. Zé Lixande, qui si quexava de umas dô nas perna, tratô logo de subi no tronco de uma arve e lá ficô inquanto o pessoá si afastava do locá na carrêra. Foi aí qui apareceu a tá da Caipora, aquele bicho medonho, fumando cachimbo, e ficô bem imbaixo do pé de pau qui tava o Lixande. Ele começô a tremê, a ficá amarelado, a pidí pelo Santo Padim Ciço, e si sigurô prá num caí im cima da diaba da Caipora. E lá ficô o Zé, um tempão, já num si aguentano mais nas perna. E a Caipora lá, dano risada e fumando um cachimbão. De repente, o pessoá, aperriado por causa do Lixande, cumeçô a gritá: “Ó Zé Lixande, onde tu tá, home de Deus! Caipora num ixisti, foi só um vento qui bateu nuns gaio”. E o Zé lá im cima, oiando cuns zóio abutucado prá baxo. Foi aí qui a Caipora olhô prá riba e dixe: “Nóis nem liga, né, Zé?” E cumeçô a ri, dando umas gaitada medonha que doía no pé do ispinhaço. O Zé, coitado, ficô branco qui nem cêra, fechô os ói e deçeu si arranhano todo na arve saino numa carrêra qui nem boi bravo pegava. Chegô im casa, feito lôco, num cunsiguiu dizê uma palavra durante três dia. A premera coisa qui fez quando chegô im casa foi trocá as carça, qui tava numa catinga de dá dó.

Risos gerais. O falatório aumentou. Entraram em outras discussões, até que o vaqueiro Galdêncio lembrou-se da sêca de 32, uma das piores que assolou e matou muita gente no sertão pernambucano.

–       Pois é, minha genti, aquela foi uma sêca da mulesta. Num têvi cristão qui não sofreu cum ela. A mardita acabô cum gado, isturricô tudo nesse mundão de Deus. Só si via muié chorano, minino pariceno uns gravêto. De gordo, só mermo os urubu, qui paricia praga. Eles si dava o luxo de iscoiê os garrote morto prá cumê. Qui disgraça, meu Deus! Procês terem uma idéia, inté pão de Mucunã nóis foi obrigado a cumer pra não morrer de fome…

E o coronel Apolônio, que até então era mero espectador:

– O que? Pão de mucunã? Mas vocês são mesmo uns analfabetos, uns imbecis. O pão de mucunã só é ruim prá quem não sabe prepará-lo. Vocês têm que fazer o seguinte: Pegar a raiz da mucunã, raspar bem, passar em nove águas, trocando-as sempre que ferver, depois bate bem, passa num ralo, faz a massa, leva-a depois ao forno e faz o pão. Depois é só colocar mel, manteiga e açúcar que fica uma delícia!

– O vaqueiro Galdêncio retrucou, com zombaria:

– Ora, seu Coroné Polonho, passano im nove água, cum mel, mantêga e açúca, inté bosta é bom.

Mais risos. O coronel levantou-se, trincou os dentes no charuto apagado e entrou em casa. A reunião havia terminado por aquela noite.

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sigla Partidária

O Comício…

O Comício…

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Povo aglutinado na praça à espera do candidato.

19 horas e 30 minutos. Calor escaldante. Homens sem camisa, suor jorrando pelos poros, a bater em tambores e zabumbas, gritam o nome do partido e dos seus candidatos.

Candidatos reunidos em um restaurante luxuoso, traçando as metas prioritárias para o Estado, separando-o em fatias, distribuindo cargos entre os “afilhados”. Vitória consumada, só aguardar a posse.

Homens e mulheres que saíram do trabalho para a concentração popular, na praça comem cachorro – quente frio. Outros passam fome mas ficam extasiados diante da anunciada apresentação de dupla sertaneja de sucesso que se apresentará em seguida.

Multidão inquieta. 21 horas.

Carro importado preto, chapa “branca”, estaciona entre os favelados. Gritos, urros, saudações entusiastas. O candidato dirige-se ao palanque sob ovações do público, carregado nas costas encurvadas dos estivadores. Mãos querendo tocar mão, tirar pedaço, guardar lembrança. Afagos sem fim.

Chega ao palanque. Dificuldade em subi-lo tal a multidão ao redor.

Desabotoa o paletó de linho sueco, deixa barriga saciada descansar sobre o cinto de couro legítimo adquirido na última excursão a Paris.

Abre o verbo. Emocionado, pensando no palácio e com  lágrimas de crocodilo descendo pela face, fala da fome, da seca, de educação, casa e comida para todos, de… Trovão chiou lá no céu  e um relâmpago iluminou por instantes orador e ouvintes apavorados. O toró, de repente, caiu brabo como um o prenuncio de um dilúvio. Homens e mulheres correndo, esquivando-se da chuva. Pandemônio. Faixas pelo chão, sapatos esquecidos, folhetos molhados.

Praça vazia. Ar de cemitério. Só a chuva a cair sobre o palanque e praça abandonados.

Deus antevia o futuro e chorava pelos homens. Pobres homens inocentes, sujos de barro e lama …

————————————————————————————————————————–

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sigla Partidária

Sigla Partidária

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Sala de reuniões do clube da comunidade repleta. Zum-zum-zum infernal. Conversas paralelas, ninguém se entendendo. Todos a espera do líder da comunidade, Dr. Pafúncio, figura querida.

Vinte horas e Dr. Pafúncio chega e as palmas ecoam em uníssono vindas do auditório.Toma a palavra:

–  Silêncio, por favor. Minhas senhoras, meu senhores, estamos aqui, mais uma vez reunidos, para tomarmos uma decisão importantíssima para o País. Vamos fundar e escolher o nome, democraticamente, do nosso partido, fruto dos anseios nacionais. Seremos, dentre em breve, o vigésimo quinto partido inscrito na Justiça Eleitoral. Porém, nosso partido, não será apenas um nome a mais nesse emaranhado de siglas que está bagunçando a cabeça do eleitor. O objetivo primordial do nosso partido, é a união nacional, para que possamos empurrar este País para frente. Todas as propostas serão debatidas, todos os nomes analisados. Convido agora o candidato a secretário geral do nosso futuro partido, Dr. Fulgêncio Boavida, a sentar-se junto a mim.  Aplausos entusiastas, assovios, algumas vaias.

–   Silêncio, por obséquio. Vamos proceder ao início da nossa reunião propriamente dita. Quem primeiro se manifesta sobre o nome do partido? Alguém se levanta no meio da multidão, o povo cala.

–  Meu nome é Antônio Salário Lascado Júnior. Sou bancário e trabalho no Banco da Exploração S/A. Proponho que o nome do Partido seja P.B.B. (Partido dos Banqueiros e dos Bancários). Nesse partido, banqueiros se infiltrariam no Sindicato dos Bancários e bancários seriam convidados para fazer parte da diretoria dos Bancos. Assim não haveria qualquer problema de impasse nos reajustes salariais dos bancários do País.

Gritaria geral, balbúrdia, mãe sendo ofendida a torto e a direito. – Silêncio, por favor, gritou Dr. Boavida. – Seu nome não será aceito porque nossa comunidade não é composta só de bancários. Tenho dito. Qual a próxima proposta? Sugiro alguma que represente os anseios nacionais, o retrato do País. Um gaiato se manifesta lá atrás: Proponho então, P.F.C. (Partido da Fome Crônica). Risos, rolos de papel jogados na cabeça do engraçadinho.

Nomes e mais nomes foram lançados a público e rejeitados. O cansaço era geral. Duas horas da manhã. Suor escorrendo de rostos abatidos. Nisso, João Carreteiro, que havia comido um cachorro–quente (cujo cachorro já devia estar em estado de decomposição), sofrendo problemas constantes de gazes, e cuja flatulência não deixava dúvidas em relação ao seu estado, levantou-se e exclamou aos berros e com terrível bafo de onça:

– Proponho que o nome do Partido seja P.U.N. (Partido da União Nacional). Sorriso nos lábios de todos. A idéia era boa. Antônio Narigão, que havia sentado ao lado de João Carreteiro e sofreu, calado, a absorção irremediável dos gases desprendidos pelo seu amigo, pediu a palavra, e, com a voz no último volume:

– Proponho que o nome do Partido seja P.E.I.D.O. (Partido Especial Institucional Direitista Onipresente).

Aplausos gerais, a fanfarra começa a tocar. O nome do partido estava finalmente escolhido.

————————————————————————————————————————————

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sobre o assunto :

O fedor que nos irmana pode matar o amor

A nova FESEC

Por Altair Santos (Tatá)

Em meio ao frisson da hora, o pleito eleitoral do dia 3 de outubro, a Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas – FESEC fez a sua eleição no último sábado e elegeu o professor e artista plástico Ariel Argobe, o novo Presidente. Para fechar consenso sobre o nome do eleito, as escolas tiveram que sentar à mesa e promover um debate sobre a instituição, a sua realidade e os seus rumos. O Ariel também é do ramo. É carnavalesco e traz na sua linha de conduta o forte interesse em promover o trabalho das escolas para além da simples apresentação na passarela do samba. Entendemos também que assim deve ser. Entretanto, para cumprir metas e objetivos à frente da instituição, a nova diretoria precisa mergulhar nas águas da re-engenharia e discutir, repensar, projetar e atualizar a FESEC. Escola de samba deve e merece espraiar o seu raio de atuação para horizontes além do asfalto da avenida ao som da bateria e sob o brilho das fantasias para exibir o seu lume noutros campos, contextualizando melhor a sua existência. É a vida e seu dinamismo. Ela (a escola de samba) deve trabalhar a sua inserção no contexto comunitário e lá, no seu espaço, promover ações que animem crianças, jovens e adultos, conquistando-os à participação. Faz-se o ponto, criar-se a identidade. Isso é interatividade. Não mais cabe no processo cotidiano da efervescente e acelerada Porto Velho de hoje, Escolas de Samba nômades de si mesmas, ou seja: desfilam na avenida e residem onde mesmo? Um exemplo disso é a atual bicampeã do carnaval local, a Diplomatas do Samba que, do alto dos seus 50 anos de existência, muitos títulos e glórias, ainda não têm residência fixa. Talvez nenhuma das nossas agremiações de carnaval tenha concorrido no Edital dos Pontos de Cultura do Governo Federal que recentemente contemplou grupos folclóricos e de teatro, dentre outros, em todo o estado. Nada pejorativo mas, algumas escolas, ainda estão sediadas na residência ou nas pastas dos seus próprios presidentes e diretores.  Os novos enunciados culturais nacionais que advém dos órgãos de cultura (MINC e seus tentáculos), associam a linha da produção cultural ao campo da inclusão social, da valorização das comunidades e da mão-de-obra lá existente, fortalecendo a economia da cultura, re-paginando e qualificando a produção artística e versando em favor do dueto cidadão/cidadania. Escola de samba antes de ser braço social é berço. De lá, convém, entoar novos cânticos de enredo para a remodelação da FESEC e suas afiliadas pelas vias de novos e audazes projetos. As escolas de samba têm história e seus currículos lhes credenciam a alçar novos vôos. O inquieto Ariel que conhecemos haverá sim de discutir com seus pares de diretoria, os novos traços fisionômicos e jurídicos para o carnaval local primando pelos contidos da autogestão, encampando uma política de ação onde, o repasse de recuso público para as agremiações seja apenas um, dentre os tantos itens de interesse e o velho livro de ouro uma peça a contar o passado cadenciado pelo rufar do surdo e colagem da lantejoula no estandarte. Parabéns e força Ariel.

Pais ou heróis?

Por Erika de Souza Bueno

Quando transferimos aos nossos pais a ideia de heroísmo, não podemos de maneira alguma impor sobre eles a condição de seres inabaláveis, pois cada pai é um ser como qualquer outro. O que o difere, na verdade, é a forma tão especial como um dia ele se assumiu como pai, como nosso pai.

Contudo, a ideia de heroísmo pode ser perfeitamente defendida se, como herói, quisermos dizer que ele, nosso querido papai, é (co) protagonista de uma grande história, a história da nossa vida, que foi e está sendo construída sobre as bases de ensinamentos indispensáveis para cada um de nós.

Cada pai é um herói que não tem poder de vencer, sozinho, os muitos obstáculos impostos a nós pela vida, mas, em todos os momentos em que alguma pedra quiser nos impedir de continuar, bem sabemos que o nosso herói estará ali por perto, sempre disposto a nos confortar, ainda que seja apenas com a sua presença, a sua indispensável presença em cada instante de nossas vidas.

O heroísmo que por muitos é defendido só existe na ficção. Mesmo assim, ainda podemos identificar traços de um verdadeiro “homem de ferro”. Não obstante se imaginar tão forte como as características desse precioso metal, o que o torna forte de fato é o amor sem reservas que ele tem por nós, apesar de não saber muitas vezes demonstrar esse sentimento.

É comum este amor tentar embaraçá-lo nos passos do dia a dia. Às vezes, a mamãe precisa ser mãe dele também, puxando a orelha quando nos ajuda a bagunçar a casa, depois de momentos em sua amada companhia. Dá o maior trabalho colocar as coisas novamente no lugar depois de um domingo em casa com o papai.

O mais engraçado é que não há amor sem reservas nos super-heróis que aparecem na TV. Como, então, podemos chamá-lo assim? Ele é o nosso herói porque é e sempre será lembrado por nós pelas atitudes de coragem, ainda que essa coragem seja para nos acompanhar na hora de tomar uma injeção quando estamos doentes.

Às vezes nosso herói tira seu uniforme e vai conosco, numa tarde de domingo, ao parque perto da nossa casa para nos ajudar a fazer um gol ou a soltar pipa. Engraçado é quando ele age como nós. Deve ser por isso que é tão complicado impor sobre ele uma imagem de algo distante como são os super-heróis da TV.

Pai é herói porque busca ser nosso companheiro a todo custo, nem que seja por meio de um telefonema fora do horário comercial, quando já estamos cansados e querendo dormir. Pai tem mesmo dessas coisas e é isso que o diferencia de todos os demais homens. Ele é especial em ser tão comum em muito do que faz, mas mesmo assim consegue atrair nossa atenção para ele. Será que tem superpoderes para conseguir tal proeza?

Pai, com o seu dia sendo comemorado, é importante lembrá-lo de que nenhum herói vai fazer por nós o que o senhor já fez. O senhor é muito mais forte quando está consertando o carro que quebrou a caminho do passeio do fim de semana do que os super-heróis que conseguem erguer carros gigantes apenas com a força do braço e poderes especiais. Os seus poderes são muito mais especiais quando determina o horário de voltarmos para casa, ainda que façamos cara feia quando isto nos é imposto.

Não somente neste dia tão especial! O senhor sempre será o herói que dá mais audiência na história da nossa vida, a qual foi e está sendo edificada e sustentada pelos seus poderes mais do que especiais.

* Erika de Souza Bueno é Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br).

A velha mídia está derretendo

Por Antônio Lassance

Pesquisa aponta que quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa brasileira são tendenciosas. Oito em cada dez brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro, maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula.

Como um iceberg a navegar em águas quentes e turbulentas, a velha mídia está derretendo. O mundo está mudando, o Brasil é outro e os brasileiros desenvolvem, aceleradamente, novos hábitos de informação.

Um retrato desse processo pode ser visto na recente pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom-P.R.), destinada a descobrir o que o brasileiro lê, ouve, vê e como analisa os fatos e forma sua opinião.
A pesquisa revelou as dimensões que o iceberg ainda preserva. A televisão e o rádio permanecem como os meios de comunicação mais comuns aos brasileiros. A TV é assistida por 96,6% da população brasileira, e o rádio, por expressivos 80,3%. Os jornais e revistas ficam bem atrás. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% são leitores diários dos jornais tradicionais.

Quanto à internet, os resultados, da forma como estão apresentados, preferiram escolher o lado cheio do copo. Avalia-se que a internet no Brasil segue a tendência de crescimento mundial e já é utilizada por 46,1% da população brasileira. No entanto, é preciso uma avaliação sobre o lado vazio do copo, ou seja, a constatação de que os 53,9% de pessoas que não têm qualquer acesso à internet ainda revelam um quadro de exclusão digital que precisa ser superado. Ponto para o Programa Nacional da Banda Larga, que representa a chance de uma mudança estrutural e definitiva na forma como os brasileiros se informam e comunicam-se.

A internet tem devorado a TV e o rádio com grande apetite. Os conectados já gastam, em média, mais tempo navegando do que em frente à TV ou ao rádio. Esse avanço relaciona-se não apenas a um novo hábito, mas ao crescimento da renda nacional e à incorporação de contingentes populacionais pobres à classe média, que passaram a ter condições de adquirir um computador conectado.

O processo em curso não levará ao desaparecimento da TV, do rádio e da mídia impressa. O que está havendo é que as velhas mídias estão sendo canibalizadas pela internet, que tornou-se a mídia das mídias, uma plataforma capaz de integrar os mais diversos meios e oferecer ao público alternativas flexíveis e novas opções de entretenimento, comunicação pessoal e “autocomunicação de massa”, como diz o espanhol Manuel Castells.

Ainda usando a analogia do iceberg, a internet tem o poder de diluir, para engolir, a velha mídia.

A pesquisa da Secom-P.R. dá uma boa pista sobre o grande sucesso das plataformas eletrônicas das redes sociais. A formação de opinião entre os brasileiros se dá, em grande medida, na interlocução com amigos (70,9%), família (57,7%), colegas de trabalho (27,3%) e de escola (6,9%), o namorado ou namorada (2,5%), a igreja (1,9%), os movimentos sociais (1,8%) e os sindicatos (0,8%). Alerta para movimentos sociais, sindicatos e igrejas: seu “sex appeal” anda mais baixo que o das(os) namoradas(os).

Estes números confirmam estudos de longa data que afirmam que as redes sociais influem mais na formação da opinião do que os meios de comunicação. Por isso, uma informação muitas vezes bombardeada pela mídia demora a cair nas graças ou desgraças da opinião pública: ela depende do filtro excercido pela rede de relações sociais que envolve a vida de qualquer pessoa. Explica também por que algo que a imprensa bombardeia como negativo pode ser visto pela maioria como positivo. A alta popularidade do Governo Lula, diante do longo e pesado cerco midiático, talvez seja o exemplo mais retumbante.

Em suma, o povo não engole tudo o que se despeja sobre ele: mastiga, deglute, digere e muitas vezes cospe conteúdos que não se encaixam em seus valores, sua percepção da realidade e diante de informações que ele consegue por meios próprios e muito mais confiáveis.

É aqui que mora o perigo para a velha mídia. Sua credibilidade está descendo ladeira abaixo. Segundo a citada pesquisa, quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa são tendenciosas.

Um dado ainda mais grave: 8 em cada 10 brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro (que é o rumo da atual trajetória do país), maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula – ou “inocula”.

A velha mídia está se tornando cada vez mais salgada para o povo. Em dois sentidos: ela pode estar exagerando em conteúdos cada vez mais difíceis de engolir, e as pessoas estão cada vez menos dispostas a comprar conteúdos que podem conseguir de graça, de forma mais simples, e por canais diretos, mais interativos, confiáveis, simpáticos e prazerosos. Num momento em que tudo o que parece sólido se desmancha… na água, quem quiser sobreviver vai ter que trocar as lições de moral pelas explicações didáticas; vai ter que demitir os pit bulls e contratar mais explicadores, humoristas e chargistas. Terá que abandonar o cargo, em que se autoempossou, de superego da República.

Do contrário, obstinados na defesa de seus próprios interesses e na descarga ideológica coletiva de suas raivas particulares, alguns dos mais tradicionais veículos de comunicação serão vítimas de seu próprio veneno. Ao exagerarem no sal, apenas contribuirão para acelerar o processo de derretimento do impávido colosso iceberg que já não está em terra firme.

viaEcoDebate

Candidatos de Rondônia querem trocar o Ibope pelo polvo que adivinhou toda a Copa da África

UM PESQUISADOR HONESTO O polvo "Paul" aponta a Espanha como vencedora da Holanda. Ele poderia indicar pela foto quem se elegerá em Rondônia. Sem mentir, sem enganar.

Um pesquisador honesto. O polvo "Paul" aponta a Espanha como vencedora da Holanda. Ele poderia indicar pela foto quem se elegerá em Rondônia. Sem mentir, sem enganar.

Por Nelson Townes, do NoticiaRo.com, sobre textos da Eband e Agência Estado

Corre o boato em Porto Velho, que um grupo de políticos de Rondônia está fazendo uma “vaquinha” para financiar a viagem de um emissário até a cidade de Oberhausen, região oeste da Alemanha, onde se localiza o aquário “Sea Life”, onde vive o polvo que adivinhou que a Espanha seria a Campeã Mundial de Futebol de 2010.

O objetivo é pedir à direção do aquário que permita usar o molusco para adivinhar, através de fotos, quem será eleito governador, senador, deputados federais e deputados estaduais de Rondônia.

“É mais confiável do que as pesquisas de intenção de votos” – justificou um suposto membro do grupo eleitoral que quer consultar o polvo. “Afinal, os resultados das pesquisas são mesmo nós que encomendamos ”, ponderou.

O polvo “Paul” acertou tudo em relação à Copa da África . Ele havia previsto a vitória da seleção da Espanha sobre a Holanda, e terminou a Copa do Mundo com 100% de previsões corretas.

O polvo “Paul” ficou famoso como adivinhador porque, sem estar na África do Sul, acertou todos os resultados dos jogos da seleção alemã e se tornou um dos astros desta Copa do Mundo.

Como se não bastasse, o molusco também cravou na última sexta-feira que o time espanhol bateria a Holanda e seria campeão do torneio.

Ele previu com sucesso todos os resultados de partidas da seleção alemã, na Copa do Mundo. E quase virou “paella”, quando anunciou a derrota dos alemães, diante da Espanha.

A ministra do Meio Ambiente espanhola, Elena. Espinosa, brincou pedindo para os alemães não comerem “Paul.”

Mas “Paul” estava certo: os espanhóis estavam mesmo destinados a conquistar a Copa do Mundo. Diante do sucesso das previsões, o polvo também foi solicitado sobre o resultado da final do mundial… Apontou a Espanha como grande vitoriosa e se tornou um dos “personagens” mais citados da Copa da África do Sul

Após o apito final no jogo deste domingo, o primeiro ministro da Espanha, José Luiz Zapatero, brincou dizendo que iria mandar uma equipe para proteger o polvo na Alemanha, fazendo menção ao risco que “Paul” correria por ter previsto a desclassificação da Alemanha pela Espanha na semifinal.

Agora, quanto a usar o polvo para adivinhação política, quem conhece o pessoal que dirige o aquário “Sea Life” disse que dificilmente o pedido dos políticos rondonienses será atendido – se for verdadeiro esse boato.

Primeiro, porque o polvo está acostumado a ver bandeiras de países e não fotos de políticos estrangeiros – ainda mais de latino-americanos que têm negócios com um país que apedreja e mata mulheres e tem mistérios nucleares como o Irã.

Além do mais, como é um molusco paranormal, as fotos de alguns políticos de Rondônia poderão fazer-lhe mal. O polvo está acostumado a ver gente de alto astral, esportistas, futebolistas, de bom caráter, honrados.

Ver fotos de gente com passado criminoso, como o da grande maioria dos políticos rondonienses, poderá fazer o polvo adivinhador vomitar ou expelir um jato de tinta preta sobre a foto – o que não poderia significar indicação de vitória do candidato.

Um segundo problema seria isso causar um problema diplomático. A direção do aquário, vendo o molusco vomitando após olhar para as fotos dos políticos de Rondônia, e pensando que o emissário rondoniense estaria querendo matar o polvo famoso, telefonaria para a Polícia e chamaria a UCT (Unidade Contra o Terrorismo.)

Um terceiro problema: mesmo que o emissário rondoniense provasse não ter nenhum antecedente criminal perante a Polícia Alemã, a Interpol, à CIA e ao Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia, a sucessora da KGB, ele seria considerado suspeito de conspiração, após os serviços de Inteligência, checando os nomes dos políticos das fotos que ele queria mostrar ao polvo, verificarem suas fichas sujas.

Campeão da sustentabilidade

Por Juan Quirós

A Copa do Mundo da África do Sul resgata a Pátria de Chuteiras no cotidiano dos brasileiros Porém, a justificada euforia ante a expectativa do hexacampeonato não pode empanar a consciência de que, conforme alerta feito pela própria Fifa, estamos atrasados na agenda de uma competição ainda mais importante para o País: a Copa do Mundo de 2014, cuja realização no Brasil deve resultar em avanços significativos na infraestrutura.

Para que isso ocorra, é premente que os setores público e privado assumam suas responsabilidades. O Estado terá papel preponderante na viabilização das obras, pois boa parte delas será financiada com seus recursos. Estamos, sem dúvida, diante de excelentes perspectivas para o desenvolvimento de esforço conjunto entre os governos federal, estaduais e municipais, empresários, clubes de futebol e federações, com foco na construção, recuperação e modernização de rodovias, ferrovias, aeroportos, hotéis, logradouros urbanos e arenas esportivas. A Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, compõem um fator de estímulo aos investimentos nessas áreas e conferem ao País prestígio e credibilidade no cenário internacional.

Por outro lado, não basta cumprir os prazos e executar o expressivo volume de empreendimentos previstos. É importante, também, que os grandes eventos suscitem mudança cultural do mercado na direção das construções sustentáveis, essenciais na luta pela salubridade do habitat e contra as mudanças climáticas. É imprescindível, portanto, atender à expectativa de que os novos estádios e obras de mobilidade urbana respondam às demandas da preservação do meio ambiente, consolidando essa tendência também na execução de obras comerciais e residenciais, compensando integralmente as emissões de carbono. É preciso ter sempre em mente a ameaça das mudanças climáticas e a contribuição de cada setor produtivo para mitigar o risco.

São imensos os benefícios dos chamados empreendimentos verdes quanto à qualidade da vida de seus ocupantes, pureza do ar, luminosidade, temperatura e sequestro de carbono. Neste contexto, são cinco suas principais características: a eficiência na prevenção e redução da degradação ambiental na atividade construtiva, em especial no controle da erosão e sedimentação do solo; o uso de tecnologias para o controle do desperdício de água potável e preservação dos lençóis freáticos; utilização de sistemas elétricos capazes de reduzir o consumo de energia; o desenvolvimento de atividades para armazenagem e coleta de resíduos recicláveis; e o uso de sistemas de climatização voltados ao controle ambiental do ar interno.

Para que uma construção seja adequada ao tripé do conceito mais avançado de sustentabilidade (ser ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável), deve atender às normas LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), mundialmente aceitas e reconhecidas no Brasil. Sua certificação é feita pelo United States Green Building Council (USGBC), que tem um conselho encarregado de suas adaptações em nosso país.

É fundamental que haja uma inversão cultural do mercado, no sentido de se perceberem as vantagens e ganhos econômicos proporcionados por um empreendimento verde. No Brasil, construções industriais e comerciais estão mais avançadas no contexto dessa nova concepção arquitetônica. A ideia é que esses empreendimentos tornem-se, paulatinamente, um padrão da construção civil. Os ganhos são muito relevantes: redução de 39% na emissão de dióxido de carbono, 40% do consumo de água potável e até 50% de energia elétrica e 70% dos resíduos sólidos.

Felizmente, a comunidade empresarial brasileira está muito consciente com relação à necessidade de se realizarem obras enquadradas no conceito de projeto sustentável. No entanto, a partir do momento em que a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 passarem a semear canteiros de obras em todo o País, é imprescindível articulação entre os atores econômicos e sociais para a consolidação do modelo “verde”.

Considerando que o Brasil tem posição estratégica quanto à produção de alimentos e de energia renovável, detém a mais abundante reserva hídrica e possui a maior biodiversidade do Planeta, as construções ecologicamente corretas lhe garantiriam o título mundial da sustentabilidade.

*Juan Quirós é presidente do Grupo Advento e vice da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da ABDIB (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).

Dunga e o time de anões

Por Rud Prado

Antes da Copa começar lancei uma previsão. Meu lado Mãe Diná, que droga, estava certo. Os meninos do Brasil pisaram na Jabulani. Mas não dá para criticar a coitada da pelota. Não foram poucos os que se deram muito bem com ela. Então o que aconteceu com nosso time, ou com o time do Dunga? Bom, já tinha previsto que a coisa iria começar meia boca. E que depois  de uma boa apresentação até quem estivesse como eu,  barbinha de molho, se animaria com uma bela apresentação. Mas ela não veio. Sofremos na primeira fase com a falta de criatividade do nosso ataque. Contra times retranqueiros – e a maioria é – nos mostramos incompetentes.  Ficamos torcendo pelo lampejo de talento de jogadores que não estavam na sua melhor fase. Ficamos dependendo da fragilidade de nossos adversários. Nosso banco sem opção. Nosso técnico sem paciência, sem educação. Comemoramos a vitória contra o Chile, como se eles fossem o bicho papão. Eles abriram as pernas e estávamos diante da Holanda. Aí, depois de um primeiro tempo digno do futebol que se espera da seleção do Brasil, não apenas do time do Dunga, o chão se abriu na falha do melhor goleiro do mundo. O time encolheu. Um time todo de Dungas. Jogadores descontrolados. Como se tomar um gol fosse o fim. Era o começo da nossa derrota. Mas esse descontrole já estava patente no primeiro tempo. Um técnico ensandecido esmurrando, xingando. E estávamos ganhando! Robinho abria uma boca maior que o mundo, querendo engolir o juiz, ao invés de jogar apenas o bom futebol que enfim jogava.  Foi esse mesmo Robinho, o Fabuloso e companhia, que antes do jogo contra o Chile fizeram declarações nada modestas. A despedida da nossa seleção estava anunciada mais uma vez. Disseram os nossos craques em falar pelo cotuvelo que os adversários tremem diante da camisa amarelinha, que viram o rosto, que desviam o olhar no túnel. Triste conclusão: de novo a soberba nos tirou do páreo no momento em que começamos a jogar de verdade. Nos encolhemos diante da primeira adversidade porque nos julgamos maiores do que somos realmente. E, principalmente, pelo péssimo hábito de nos julgarmos maiores do que nossos adversários. Esquecidos de que a real grandeza se conquista a todo o momento, superando a dificuldade presente. Não é uma camisa que nos dá a grandeza, seja ela amarela ou não. É o modo como a dignificamos. Sem essa compreensão quem tremeu foi um time todo. Não no túnel, mas diante do mundo. Nem a camisa azul nos impediu de amarelar diante dos Laranjas. Mais uma lição. Perder é parte do futebol, é  parte da vida. Então percamos também, de uma vez por todas, a empáfia que nos apequena e que tantas derrotas nos dá.

Somos suicídas?

Por Rud Prado

Tragédias como esta enchente  que levou de água abaixo as vidas e sonhos dos irmãos alagoanos e pernambucanos deixam alguma lição?  Começo a refletir sobre as palavras encharcadas de angústia da prefeita de Branquinhas, no Alagoas. Ao ver que sua cidade foi varrida do mapa, Ana Renata disse que é melhor esquecer a cidade e construir outra longe do rio e dos escombros que a todos impressionam. Imagina ela que esquecida a dor e enterrados os mortos, esta será uma solução para a nova cidade não viver sob o medo da eminência de uma outra tragédia. Mas a sucessão de tragédias que assistimos me leva a retomar a pergunta lá de cima. Estamos aprendendo alguma coisa com tudo isso? Ou continuaremos apenas contando mortos e depois os esquecendo em covas, cavadas às pressas, tão rasas quanto nossas consciências? Logo teremos outra tragédia, e, de olho na bola da vez, ficaremos cegos para as lições que a natureza nos dá. E são lições que custam caro. Custam patrimônios, histórias de vidas, e a própria vida. Todos sabem que construir em cima do chorume  é uma loucura, mas o poder público do Rio de Janeiro incentivou a ocupação dos lixões e ofereceu “infraestrutura” para  a indignidade se edificar. Quem é que não sabe que desmatar as encostas é burrice pura? Quem é que não sabe que o desmatamento das matas ciliares e que o avanço da cidade sobre rios e igarapés é um convite a tragédias desse tipo? Mas vai-se se fazendo vista grossa. Melhor isso do que um programa realmente sério de moradia popular, isso custa caro. Acontece que poucos, muito poucos estão realmente preocupados com a natureza. Até ela bater em nossa porta com a força de uma enchente. Com a fúria de um deslizamento de terra. Até ela entregar a fatura do descaso com o meio ambiente.  Pensamos quadrado. Não aprendemos ainda que a terra é redonda. Que nela uma ação é conseqüência de outra . Que tudo é continuidade. Causa e efeito.  E continuamos a repetir os mesmos erros. Cultivando as mesmas práticas ancestrais. Esquecendo que hoje não temos meia dúzia de gatos pingados nômades passeando por um planeta onde nada parecia ter fim. Éramos livres para não pensar no amanhã, no outro, no planeta. Nossa inconseqüência não nos atingia.  Agora isso mudou. Mas não mudamos. Ainda não. A reciclagem de lixo é pífia. Continuamos a desperdiçar recursos naturais e a pressionar cada vez mais a natureza. Coleta seletiva é programa sério de algum prefeito desse Brasil? Vamos além: quantos governantes por esse mundo, presidentes, governadores, prefeitos estão pensando, não na futura eleição, mas num modelo de gestão que respeite a vida? Por aqui usamos a  justificativa de que os gringos  já desmataram tudo, mas nós ainda não atingimos a nossa cota. Cota de quê meu Deus!  De burrice? E vamos queimando a floresta, desmatando as encostas, a mata ciliar . Vamos ocupando as margens do rio, como os nômades faziam. Mas não somos nômades. O que somos então?  Suicídas?

Vasectomia – um “textículo” que virou conto

Por Aparicio Secundus

Primeiro quis saber o significado de Vasectomia: um método contraceptivo através da ligadura dos canais deferentes no homem por meio de uma pequena cirurgia feita com anestesia local em cima do escroto. Depois de muito matutar, sondar, pesquisar e entrevistar amigos que fizeram vasectomia resolvi encarar o processo e parar de vez  as angústias que advinham justamente na época do período fértil da minha mulher: fazer contas, usar camisinhas, ejaculação  postergada, verificar calendários e coitos interrompidos quando descobríamos que estávamos avançando o  sinal vermelho  em pleno colóquio amoroso e os corpos engatados num abraço suado de poros esfregando-se. Fabriquei  seis filhos varões os mais recentes com 5  e 4 anos de idade.  Deduzi então que, pela fabricação em série de machos, os meus espermatozóides masculinos de tão rápidos atravessam o canal seminal de Boeing e os femininos vão de Fusca. Daí, por certo, não ter tido nenhuma filha embora sempre meu desejo. Agora é contentar-me em curtir as netas quando chegarem (se é que virão… já tenho um neto no pedaço, o Vinícius). Após os procedimentos de praxe, pedido médico, documento assinado  pelo casal com reconhecimento de firma em cartório e aguardar  60 dias para não haver arrependimento, resolvi encarar de vez o processo e acabar  com a dúvida. Posterguei até onde pude. Muitos fizeram pilhérias dizendo que o cabra fica brocha, que não vai mais ejacular, que perde a vontade de “transar” , que afina a voz, que diminui o tamanho do pênis e outras sacanagens similares. Resolvi encarar o processo e marquei a cirurgia para uma fatídica terça-feira. Minha mulher acompanhou-me em apoio moral e para ser testemunha quase ocular do processo de esterilização  que eu iria me submeter.Numa sala pequena, deitei-me na cama olhando para o teto (meno male) e a enfermeira pediu para eu baixar as calças até os pés. Passou um líquido amarelado na região escrotal e na área pubiana já desprovida de pêlos,  raspados na véspera por orientação médica. Travei tudo que não passava nem grão de alpiste embebido em azeite. No período que fiquei só no quarto, num relance de minutos, passou-se o filme  de toda a minha vida de fabricante de espermas desde a primeira masturbação sem esperma,  a primeira com um pingo despontando do canal para minha alegria e satisfação,  concursos de punheta (esperma à distância),  romances feitos e desfeitos, casamentos, filhos, até chegar ao coito da noite anterior regada a  carinhos especiais e com direito a uma ejaculação farta com os últimos espermatozóides a dar-me  um adeus melancólico numa despedida final e sem sucesso na derradeira empreitada. Essas reflexões deram-me uma sensação de impotência que foi superada pela certeza de não querer mais filhos e de fazer do instrumento peniano um objeto de prazer sem nenhuma preocupação conceptiva. Em meio a essas reminiscências sentimentais e bucólicas chega do Dr. Eduardo todo sorridente, e, cheio de gracejos,  fala para um  enfermeiro que estava ao lado: – “Veja aqui, temos mais um  candidato a virar mocinha… Prepare os instrumentos e vamos fazer a incisão…”Só não o mandei para aquele lugar repleto de outros adjetivos que o momento propiciava tendo em vista que minha situação, prostrado e indefeso  e com o órgão que mais quero bem à mostra, prudente era ficar caladinho.- Doutor, você está bem, não bebeu nenhuma ontem à noite, suas mãos não estão tremendo? Foi o que consegui responder ao gracejo dele.- Tá tudo bem, respondeu. Fique tranquilo que esse procedimento é rapidinho e indolor. Começou o processo sem maiores delongas. De cara apareceu com uma baita de uma seringa que parecia que ia anestesiar um cavalo no cio. Segurou um dos bagos e eu disse:- Doutor, não vai doer enfiar essa  injeção toda  nos meus ovos, vai?E ele,  meio que rindo, sarcástico:- É só uma picadinha de formiga… E começou a injetar o líquido no meu bago esquerdo. Gritei e retruquei:-  Doutor, tá doendo prá caralho!!!E ele na maior tranquilidade:- Não é no caralho é nos ovos mesmo. E quando eu disse que era só uma picadinha de formiga, a formiga é das cabeçudas… E começou a rir o sacana. Começou a cirurgia, fio cirúrgico prá lá, agulha prá cá e perguntou-me quantos filhos tinha eu. Quando respondi que tive seis filhos, todos varões,  ele retrucou, comentando com a enfermeira que agora estava na sala:- Seis filhos? Se eu soubesse disso antes, ao invés de cortar seu saco eu tinha era tirado seus ovos… E começou a rir novamente.Terminada a cirurgia, mostra-me, em uma das mãos, duas tripinhas de aproximadamente dois centímetros cada, com diâmetro similar ao de um macarrão normal.  Sem nenhum constrangimento ou remorso joga os antigos canais da minha fertilidade na lata do lixo, o que me deu, novamente, uma sensação de vazio na alma.Já no consultório,  ele orientou-me na presença de minha mulher:- Gelo no saco 3 vezes ao dia,  anti-inflamatório por 10 dias, 15 dias de abstinência sexual e 20 ejaculações com o cuidado de usar preservativo no período fértil da sua mulher e posterior espermograma para constatar a esterilidade. Vejo você daqui a 10 dias.Pensei em lhe dizer: – Doutor, 15 dias sem dar “umazinha”? Melhor ir logo pro Tibete e virar monge…Pensando bem, acho que o primeiro cara que fez essa cirurgia tinha o nome de Zé. Metido a machão resolveu fazer a cirurgia… Um amigo assim lhe falou: – Vai Zé, que tu mia…

VASECTOMIA…

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

O fedor que nos irmana pode matar o amor

Quem tem carro velho tem história prá contar

O suplicio de um primeiro encontro

Sigla Partidária

O Comício…

Instalem enfermarias nos grandes presídios, não mandem bandidos para policlínicas na cidade

Por Nelson Townes, do NoticiaRo.com

O grave incidente ocorrido neste domingo na Policlínica Ana Adelaide, um dos mais procurados pelos moradores de Porto Velho, onde bandidos tentaram resgatar a tiros presos que ali eram atendidos, pode se repetir – com conseqüências que podem ser trágicas.

A solução não é militarizar o centro de Saúde, com a presença de soldados da PM prontos para batalha contra novas tentativas de resgate de presos que ali estejam sendo medicados – e que certamente ocorrerão ante o aumento da população da cidade, e dos bandidos que se infiltram entre os novos migrantes.

Quando os serviços de segurança elegem um local como área de risco, estão dizendo ao povo: cuidado, aqui pode haver conflitos, procurem outro centro de saúde, evitem os riscos das balas perdidas em tiroteios – essas anônimas e aterradoras balas perdidas que tanto podem partir da arma de um policial como de um delinqüente, mas igualmente fatais.

A solução é as autoridades da Segurança Pública instalarem enfermarias nos grandes presídios. Ao menos uma enfermaria central no Urso Branco, por exemplo, o de maior população carcerária.

Não existem médicos ou enfermeiros dispostos a enfrentar os riscos de trabalhar numa enfermaria no Urso Branco? Existem. São os médicos e enfermeiros do hospital da Polícia Militar.

A simples presença de forças militares vigiando a Policlínica Ana Adelaide já assusta o povo. Só a PM, acostumada a tratar mal os cidadãos e brincar com spray de pimenta nos olhos dos outros por qualquer motivo já é uma preocupação.
É mais um sofrimento para aqueles que geralmente são precariamente atendidos pelos serviços de Saúde (por falta de recursos) e ainda tem que dividir os poucos recursos com bandidos perigosos que são levados para lá para pequenos curativos.

Toda grande cadeia em qualquer Capital tem uma enfermaria interna bem equipada até para pequenas cirurgias, até mesmo por uma questão humanitária. Ali serão prestados os primeiros socorros a presos realmente em estado grave, enquanto se remove (aí se justifica) para um atendimento hospitalar adequado.

E atendimento hospitalar em unidades militares, não em estabelecimentos civis como o pronto socorro e hospital João Paulo 2º e Hospital de Base. Ah, o hospital da PM é só para militares? Então, comandante Angelina, honre seu título de cidadã honorária de Porto Velho, e por respeito ao povo crie uma ala só para os bandidos.

Afinal, o Estado tem a obrigação de garantir aos presos sob sua custódia o bem estar e a vida. Centro de Saúde não é lugar para atender presos e, muito menos vigiar presos e enfrentar bandidos a tiros. O lugar é civil, e não para agentes penitenciários abrutalhados que querem tratamento vip e urgente para criminosos, e PMs sádicos ansiosos para sacar as armas porque se sentem desacatados por suas próprias sombras.
Respeitem o povo.

O estupro da criança é renovado pela própria Polícia

Por Nelson Townes, do noticiaRo.com

Quando as autoridades policiais anunciam que estão ouvindo ou pretendem fazer uma criança depor sobre a violência sexual que sofreu podem estar, verdadeiramente, submetendo a vítima a uma segunda experiência tão traumática quanto o estupro.

Não é um interrogatório comum, não é um adulto narrando como foi assaltado – ou mesmo violentado sexualmente. Trata-se de uma menina ou um menino psicologicamente abalado sendo forçado a reviver cenas que talvez marquem para sempre sua vida.

Por isso, é obrigatório que as tomadas de depoimentos, oitivas, testemunhos ou seja lá o nome que o delegado queira dar seja acompanhado por oficiais do juizado da Infância e da Adolescência e, principalmente, por psicólogos.

Melhor seria que os psicólogos fizessem tais horríveis interrogatórios que, embora necessários para a identificação dos criminosos, fazem a criança violentada novamente sofrer ao ser forçada a lembrar o terror, a dor e a vergonha.

Em Porto Velho, raramente uma vítima de estupro – criança, adolescente ou adulto – tem assistência psicológica antes, durante e após o interrogatório.

Uma criança vítima de exploração ou atentado sexuais, são indivíduos com a infância ultrajada, ou, se preferirem usar um clichê antigo, mas real, com a inocência perdida.

O que seria a inocência perdida? Uma criança descobrir que não é uma pessoa que deve ser respeitada, é apenas um objeto num mundo poderoso, uma coisa fraca que pode ser usada para sentir dor, obrigada a fazer coisas reougnantes e assustadoras. É uma criança que aprende a também não respeitar os outros seres humanos.

Daí a delicadeza, a sensibilidade, a paciência com que os depoimentos de menores vítimas de pedófilos ou de prostituição infantil, devem ser conduzidos.

Infelizmente, são raríssimos, praticamente inexistentes os policiais capazes de realizar tais interrogatórios em Rondônia. Teriam que ser profissionais altamente qualificados, especializados nessa área que é uma das mais críticas da Segurança do Estado de Rondônia.

Felizmente, uns poucos, pouquíssimos delegados estaduais e federais são sensíveis a isso. Por isso um deles removeu imediatamente de sua delegacia o policial que ao tomar o depoimento de uma menina estuprada perguntou:

“E quando ele tocou em você, você gostou?
A menina olhou o policial como havia olhado para o estuprador. Com horror.

O inusitado acontece

Por Aparício Secundus Pereira Lima

Estive de férias recentemente e fui passear pela maravilhosa, paradisíaca e afrodisíaca ilha de Floripa. Sou um fanático por
fotografia (tenho mais de 20.000 fotos de qualidade entre razoável e boa – algumas excelentes, todas de autoria minha) e sempre ando com a máquina a tira – colo (como o Juruna andava com o gravador…). Depois de 7 dias de férias eu já havia filmado 30 minutos
com a minha JVC e batido 10 filmes de 36 poses. Florianópolis, Camboriú, Blumenau e circunvizinhanças estavam todas nos compartimentos da minha bolsa aguardando serem reveladas aos meus ávidos olhos quando do meu regresso a Brasília.
Na quinta – feira, resolvi dar uma caminhada com minha mulher pela Praia dos Ingleses, na ilha de Florianópolis. Minha intuição falou-me baixinho: “leve a máquina
de filmar”. Minha preguiça gritou aos brados: “Chega de filmagens e fotos, seu panaca”. Atendi ao segundo apelo e abandonei as máquinas fotográfica e de filmar no hotel.
No meio da caminhada deparamos com uma multidão de pessoas olhando em direção ao alto mar. Ao longe eu via uma cabeça de animal, peixe ou pessoa e dois homens
em um Jet-Sky jogando a corda para o ser que lutava desesperadamente pela vida no meio de ondas a uns 300 metros da praia.
Num dado momento eles conseguiram jogar a corda ou laçar o ser que se debatia a arrancaram com o Jet-Sky em direção a praia.
Todo mundo correu para perto para ver do que se tratava. Pensei, a princípio, em alguém que estava se afogando. À medida que se aproximava da praia eu ia mudando
minha certeza para um filhote de baleia, tartaruga gigante, até que o animal surgiu para os meus olhos escancarados de espanto. Pasme, meu caro leitor, pela luz dos olhos meus, era uma vaca! Uma vaca em toda a sua plenitude. Uma vaca com tetas e tudo que faz
daquele animal, uma simples vaca. Uma vaca marítima que lutou até a exaustão completa para não ser tragada pelo mar.
Depois de um alvoroço dos diabos conseguiram trazer a vaca até a praia. Sua barriga estava tremendamente dilatada em decorrência da água ingerida. Ela arfava
agonizante, olhos esbugalhados de pavor e encontrava-se totalmente estressada. Alguns mais afoitos, começaram a espremer-lhe a barriga tentando tirar a água, quando um gaiato gritou: “- Faz respiração boca – a – boca”…
15 minutos se passaram naquela agonia. De repente, a vaca levantou-se e saiu dando chifrada em todo mundo. Foi um corre – corre dos diabos. Um cara estava correndo
de costas, escorregou e levou um tremendo tombo arrancando risadas da multidão. Depois de certo tempo conseguiram segurar a vaca pela corda com que a haviam laçado no mar. Enquanto a vaca continuava bufando, ciscando as patas na areia quente da Praia dos Ingleses
eu me lamentava por não ter levado a câmera para documentar fato tão extraordinário.
Recordando os fatos:
* Vaca sendo laçada em alto mar por duas pessoas em um Jet-Sky;
* Vaca sobrevive e transforma a Praia dos Ingleses numa arena onde vivenciamos uma verdadeira tourada, similar, em grau bem inferior, às de Madrid.
Creio que o amigo leitor deve estar me achando um tremendo mentiroso, e que tudo não passa de conversa para boi dormir. Como faz falta uma máquina fotográfica ou uma
câmera para desmistificar dúvidas e lavrar em cartório o fato extraordinário ora relatado.
Se eu tivesse filmado, a cena estaria saindo no Fantástico ou nas “Pegadinhas do Faustão” e viraria celebridade nacional sobrepujando as tragédias, as calamidades
e toda espécie de sensacionalismo barato que enchem nosso estômago de fel.

Finalizando o relato, segundo explicações posteriores, a vaca estaria indo para o matadouro. No trajeto, pulou do caminhão e desembestou-se mar adentro na praia vizinha
à dos Ingleses.
O inusitado acontece. Acredite se quiser.

Os na”vi azuis dançaram. A cavalaria precisa massacrar os apaches

A verdade estava nua demais para Holywood. Guerra ao Terror venceu o Oscar de Avatar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados.

Eu acho que estava escancarado demais. Depois de uma crise como a bolha que estourou em 2008 , o fato desnudado de que o  capital integralmente domina o homem foi parar no cinema . Quando vi o filme (ainda não vi em 3 D) achei até estranho o denuncismo, neste  momento de verdadeira encruzilhada  que a Terra vive. Mas já que Obama ganhou o Prêmio Nobel da Paz e Madre Tereza de Calcutá tembém… Deixa prá lá.  Já dizia um teórico do cinema, e não me lembro quem,  um filme não pode ser uma mensagem. Mas Avatar é , e aí a porca começa a torcer o rabo, e o rabo, talqualmente aconteceu recentemente num site sensacionalista da capital, começa a roer o cachorro. Ora bolas, quem financia Holywood senão a indústria da guerra, numa deslavada (desculpem o trocadilho infame) lavagem de dinheiro legal ?

Fui dar uma fuçada na mídia tupiniquim, e , no Caderno 2 do Estadão, vi o comentário do Luiz Bolognesi, que conheci rápidamente numa van em algum Festival de Cinema  da vida. Bolognesi é casado com Laís Bodansky(os dois fizeram juntos “Bicho de Sete Cabeças”), filha do documentarista Jorge Bodansky que foi homenageado no Cineamazônia, aqui em Porto Velho. Como Bolognesi matou a cobra, mostrou o pau e o ficou segurando para a foto consagradora com o seu artigo “E ganhou a máquina de guerra”, acho que todos que viram o filme e também assistiram a entrega do Oscar merecem ler, mesmo que não tenham visto o outro , o “Guerra ao Terror”, que aliás pouca gente viu.    Bolognesi  já começa assim:  ” Filme vencedor  transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos.”  Caraio. Ou Caráleo. Tanto faz.

E ganhou a máquina de guerra. Filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.

Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o “povo da floresta”. A certa altura, eles reúnem todos os ”clãs” para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?

Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do “ao vencedor, as batatas”, Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.

Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.

Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.

Então há tempo.

Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.

No filme de Cameron, os na”vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

De Luiz Bolognesi, especial para o Estado Caderno 2 de 9/3/2010, página D4

Sejam sempre heróis, bombeiros, não suicidas

Por Nelson Townes , do noticiaRo.com

De todas as instituições fardadas, a dos Bombeiros Militares sempre foi a mais amada pelo povo. Não apenas em Porto Velho. Em São Paulo, em NovaYork, em qualquer lugar onde esses militares não combatem outros seres humanos, sua batalha é para salvar vidas e riquezas, não para matar ou destruir – e aqui não estamos discutindo o valor dos militares em geral como guardiões da segurança nacional.

Por isso, é extremamente preocupante quando vemos o extraordinário sacrifício, o heroísmo com que os bombeiros de Porto Velho enfrentam os incêndios aqui. Eles trabalham tão mal equipados, e isso vai se eternizando de tal forma, que seu heroísmo e abnegação acaba se transformando em amadorismo no enfrentamento do perigo – ou tendência ao suicídio.

E sabemos que é injusto pensar assim de nossos bombeiros. Sabemos como eles insistem em cobrar de seus superiores – dentro dos limites e entre as viseiras que caracterizam o relacionamento entre comandantes e comandados nos quartéis – melhores condições de trabalho.

E por mais que a propaganda oficial insista em dizer que houve melhorias, nenhuma diferença (quanto às condições de trabalho) se notou no combate ao incêndio que irrompeu na Farmácia Popular e numa loja de colchões na rua Dom Pedro II, esquina com a Joaquim Nabuco, a cerca de 50 metros de um posto de gasolina.

Vimos rapazes entrando no prédio de onde emanava fumaça tóxica sem a proteção de máscaras contra gases. Roupas adequadas para enfrentar o calor das chamas não eram distribuídas a todos – porque não havia. O mais elementar num combate ao fogo, a água, faltou no momento crucial, que é o início do incêndio.

Deus, em Sua misericórdia, tem poupado o povo porto-velhenses de tragédias como as que ocorrem em outras cidades. E rezemos para que este povo, que já sofre tanto com enchentes, doenças e outros martírios, seja poupado de sinistros como a queda de um avião na área urbana, de um terremoto, de qualquer um desses horrores que podem ocorrer em qualquer lugar do mundo.

Pois se isso acontecer, não será suficiente o heroísmo-suicida de nossos bombeiros. Teremos que pedir ajuda da Bolívia, pois, felizmente, o rio Madeira não tem ondas de verdade. Tem, graças a Deus, apenas banzeiros, ondas pequenas, desprezíveis.

(NR: E com a explosão imobiliária, com prédios cada vez mais altos… )

Quem tem carro velho tem história prá contar

Por Aparício Secundus Pereira Lima

Saí às 10:30 hs de uma sexta-feira de Brasília com destino à cidade de Urucuia-MG, a 320 Km de Brasília, às margens do rio Urucuia, afluente do S. Francisco, onde
possuo juntamente com mais quatro amigos, um rancho de pesca denominado Piraquara.
O carro, objeto da viagem, uma Caravan 82, em cujo carro similar, no vidro traseiro, li, certo dia, a seguinte faixa:  “Respeite os mais velhos. Sou avó da Blazer.”
Dúvida: Ir por Unaí-MG ou por Cabeceiras-GO. Decidi ir por Cabeceiras, que embora seja 70 Km mais perto tem o problema de encarar-se 50 Km de
terra ou lama conforme a época da viagem.
A escolha fez com que eu passasse por uma das maiores aventuras de  minha vida, que passo a relatar.
Chegando em Cabeceiras-GO, por volta de meio dia, parei para almoçar. Sabia que a partir dali haveria 50 Km de estrada esburacada e caótica a me aguardar.
Geralmente esse trecho é um teste de paciência e um muro de lamentações onde até as últimas gerações dos governadores de Goiás e Minas são lembradas de forma impublicável.
A estrada era o verdadeiro portal do inferno.   Havia caído uma “tromba d’água” na noite anterior (o que não era do meu conhecimento)  e a rodovia
estava um mar de lama (literalmente) contrastando  com a beleza da verde paisagem do interior de Goiás.
Num dado momento deparei-me com um buraco que estava sendo tampado com pedras colocadas por funcionários da empresa Santo Antonio que faz a linha
entre essas cidades até São Francisco – MG. Avaliei, calculei milimetricamente a passagem que me restava para ultrapassar a barreira e, como não tinha outra opção, aventurei-me no meio da lama num rally de dar inveja aos aventureiros do Paris/Dakar.
A  “Chalana” (apelido da Caravan) estribuchava-se em cima das rodas, o motor rangia, fervia, e eu via a hora dela parar no meio do atoleiro. Para minha alegria, consegui passar a duras penas e ofereci, a título de recompensa, aos funcionários da empresa que
me incentivaram (“pode ir pois se você atolar, nóis tira você”),  uma latinha de cerveja Skol bem geladinha que naquele mundo perdido era uma verdadeira iguaria de um Oásis.
Cinco quilômetros adiante, deparei-me com outro dilema: aproximadamente 30 metros de estrada coberto de água da chuva misturada ao barro da estrada,
cujo resultado químico dessa mistura resulta em lama. O lamaçal, de profundidade desconhecida e única forma de continuar viagem. Ou atravessava ou voltava. Três opções de travessia à minha frente: esquerda, direita e centro. Optei pelo centro como todo político
astuto. Acelerei a Chalana e me veio a sensação de estar testando o carro do Rubinho Barrichello em início de prova de Fórmula 1.
Partimos para o desafio: eu, Deus, o lamaçal, a Chalana e o cenário por testemunha.  À medida que atravessava o “Mar Morto” de água barrenta a
profundidade do poço aumentava e minha certeza de que lograria êxito na travessia, diminuía.
No meio do aguaceiro a Chalana estancou. A água quase chega no vidro  das portas,   e  começou a entrar, em princípio meio tímida, pelos pedais
e buracos da base da lataria do carro. Em poucos segundos estava com os pés dentro d’água e achei que se continuasse daquele jeito, seria necessário adquirir pés de pato para procurar o acelerador da Chalana.
Tentava desesperadamente dar partida no motor sem nenhum sucesso. Sozinho na estrada às 13 horas. Nenhuma viv’alma naquele  mundo perdido de meu
Deus.
Resolvi abrir a porta para verificar o motor, limpar a tampa do distribuidor ou mesmo, caso necessário, tentar empurrar o carro. A idéia lusitana
surtiu um efeito  tremendamente contrário às minhas pretensões, tendo em vista que a água que estava quase no nível inferior do vidro entrou como enxurrada pela abertura da porta inundando tudo até ao nível da poça externa. Os mantimentos que estavam na parte
do banco traseiro, no assoalho, impregnaram-se da água da poça que já dominava absoluta o ambiente interno da Chalana. Nada escapou ao dilúvio de lama. Tentei empurrar o carro com a água na cintura, pedindo força aos céus. Consegui movimentá-la por uns dois
metros e parei exausto, vestimenta puro barro.
Abri o capô e deparei-me com o motor dentro da lama.Tirei a tampa do distribuidor e, com minha camisa branca, que, por sinal, já não era mais
branca, limpei carinhosamente o rotor como se limpa bunda de recém-nascido.
Tentei, mais uma vez, fazer o motor funcionar.  Em vão.  Apareceu, em seguida, uma Parati com duas pessoas que, vendo o meu suplício, predispôs-se
a ajudar. Não tinham corda para rebocar a Caravan. E nem coragem para entrar na poça e me prestar socorro. Pediram que eu tentasse mais uma vez fazer o carro pegar. Depois de muito custo o motor, milagrosamente, deu sinal de vida, soltando traques, puns e estalos
estranhos.  Acelerei o mais que pude sentindo que o cano de descarga (da Caravan) estava totalmente dentro da água e engatei a primeira. A Chalana saiu aos pulos e conseguiu vencer o lamaçal.
Agradeci aos céus e, com o motor ligado, comecei a tirar a água da Chalana com um galão de cinco litros. Um dos colegas da Parati pediu que
eu desligasse o carro porque já estava totalmente aquecido. Temi que tal procedimento não fosse o adequado. No entanto, acabei acatando a sugestão.
Quando consegui tirar um pouco da água de dentro do carro resolvi continuar a viagem. Ao tentar fazer o carro dar partida, nada. O motor de partida tinha “colado”
e não girava o motor nem com reza braba. Só fazia um barulhinho: tec, tec, tec.
Os dois colegas da Parati começaram a empurrar o carro e nem sinal de  pegar.
Em seguida apareceu um caminhão que fazia o mesmo trajeto que o meu. Atravessou a poça com facilidade como se estivesse zombando de mim e da minha Chalana  baixinha
e estacionou ao nosso lado perguntando se queríamos ajuda.
Forneceu uma corda, entrei debaixo da Chalana (que ainda estava na lama) e tentei amarrar a corda na suspensão dianteira. Primeiro a corda partiu-se, segundo minha coluna quase se partiu
tentando amarrar a corda e, por fim, a Chalana não quis pegar mesmo sendo arrastada pelo caminhão. O caminhoneiro resolveu rebocar-me (a Chalana sem freio tendo em vista que só funciona com o motor ligado) até um vilarejo chamado Cabeceira da Mata. Vale ressaltar
que a Chalana estava completamente sem freio tendo em vista que só breca com o motor ligado. Fui controlando o stress e a Chalana no freio de mão.
Quando chegamos ao vilarejo denominado Cabeceira da Mata,  encontrei um mecânico de uma fazenda vizinha que se prontificou a limpar o distribuidor (lá se foi outra
camiseta branca), mexeu no motor de partida e, depois de meia hora, o carro pegou. Agradeci, dei R$ 10,00 para ele tomar de cerveja ou comprar leite, sei lá, troquei toda a roupa que estava pura lama e zarpei rumo a Arinos-MG.
Cinco quilômetros adiante, estacionei atrás de uma fila de caminhões carregados com carvão vegetal. Ninguém ia nem vinha. Um caminhão estava atolado no meio da
rodovia e ninguém passava em virtude de estar atravessado na BR Barro. Os caminhoneiros movidos à enxada tentavam cobrir os buracos da estrada e tirar o caminhão do atoleiro. Depois de uma hora e meia conseguiram puxar o caminhão. Passei pelo local do atoleiro
tal qual dançarino executando um tango de Gardel. Ouvi risos e aplausos dos assistentes diante de minha proeza ralística.
A 10 Km de Arinos caiu um toró de dar dó. Não fugindo ao suspense da viagem o limpador de pára-brisas resolveu dar o ar de sua graça e pifou a 5 Km de Arinos. Reduzi
drasticamente a velocidade, colocava o rosto para fora para ver se enxergava melhor, enquanto passava outra camisa branca no pára-brisas para tirar o embaçado do vidro.
Cheguei em Arinos às 17 horas. Ao contatar o primeiro eletricista que encontrei fui informado que era o motorzinho do limpador que tinha fundido.   Procurei a peça
em várias casas de auto-peças, fui em ferro-velho e nada. Passei, finalmente, em uma loja de peças e o proprietário, compadecendo-se da minha situação, informou-me que existia um ferro-velho no outro lado da cidade que poderia ter um limpador usado, mas em
perfeitas condições.
Ligou para o proprietário do ferro-velho que confirmou possuir a peça. Trocamos a peça debaixo de chuva. Eu, segurando o guarda-chuva para o mecânico efetuar o serviço.
Até foto tirei. Só que, depois de instalado, verificamos que o limpador funcionava ininterruptamente. Só desligava quando eu desligava o motor do carro. Para desligar o limpador só retirando um “plug” acoplado no motorzinho do limpador.     Dúvida: Dormir em
Arinos ou pé na estrada. Embora a primeira opção fosse a mais sensata achei que não haveria mais emoções naquela viagem e adentrei na estrada de terra, 60 Km separando-me do meu destino.
Zarpei de Arinos por volta de 19 horas. Noite, chuva e latinhas de cerveja, minhas companheiras em contraste com a solidão da estrada enlameada.
Após 15 Km do mais puro rally, onde a Chalana desgovernava-se e dançava ao  sabor do lamaçal que mais parecia manteiga, fui passar uma marcha redutora e o motor
fez um barulho e uma rouquidão estranha. Foi diminuindo a velocidade até parar, enquanto eu continuava passando a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e nada. A marcha passava, no entanto o carro não saía do lugar. Acabou parando no meio da estrada. Passei a 1ª e nada. Pedi ao Anjo
da Guarda que me ajudasse e que a marcha funcionasse apenas para levar o carro até o acostamento e o Anjo da Guarda foi-me solidário. Devagarzinho o carro foi chegando ao acostamento e ali ficou inerte, de faróis ligados,  pura lama à minha frente. A única
testemunha da minha situação era a chuva que caía insistentemente no teto do carro, no meio da noite escura.
Desci do carro com lanterna na mão, entrei debaixo da Caravan para verificar a gravidade da situação. Apesar do carro encontrar-se barro puro por baixo, tudo parecia
normal diante da minha ignorância mecânica. Mais uma roupa toda suja de barro. Troquei de roupa dentro do carro, verifiquei a quantidade de latinhas de cerveja, abri uma e encostei-me no banco aguardando que algum bom samaritano me socorresse.
Mais ou menos uma hora e algumas latinhas se passaram e nada. Latidos de cachorro ecoavam no meio da noite molhada.
Abri a porta do carro para esticar as pernas e, nesse momento, a luz interna do teto da Chalana, que há muito tempo não funcionava, acendeu. Fiquei arrepiado e tive
uma crise de risos sem precedentes, encarando a Chalana que estava detonada no meio da chuva com a luz interna acesa, como se estivesse fazendo pilhérias comigo.
Às 10 horas da noite passou um ônibus. Peguei minha mala deixando tudo o que eu levava (galão cheio com 40 litros de gasolina, livros didáticos da Biblioteca de
Urucuia, alimentos, etc) dentro do carro. Rezei uma oração e pedi às 13 Almas Benditas que cuidassem do meu carro (ou o que restou dele).
Cheguei finalmente em Urucuia por volta das 11 horas da noite. Chovia aos cântaros.
Arrastando a mala no meio da noite chuvosa, desviando de poças d’água, fui parar no Hotel Urucuia para descansar o esqueleto moído.
No outro dia, pela manhã, procurei um mecânico e fomos verificar o que tinha acontecido com o carro.  O mecânico constatou que o defeito era na caixa de  marchas e
resolveu rebocar a Chalana por 35 Km de estrada de terra, ou melhor, de lama.      O carro do mecânico, seu Zé Bernardes, grande amigo e conterrâneo,  era um Passat velho. Estava até engraçado o cortejo: o avô do Santana (Passat) rebocando a avó da Blazer (Caravan).
Na viagem, a Caravan só faltava sair da estrada mato-a-dentro rebocada pelo velho Passat. Foram 35 Km de pura adrenalina. Pelo menos dessa vez fui com o motor ligado
e,  conseqüentemente, com freio.
Dia inteiro em Urucuia  verificando o carro, desmontando caixa de marchas. Não pude ir ao Rancho que ficava a 14 Km de Urucuia por estar a pé e não me animei a encarar
o restante da estrada em carro alugado.   O Rio Urucuia, imponente e cheio à minha frente, convidava-me a velejar sobre seu dorso barrento deixando-me com água (limpa) na boca.
Deixei um mecânico cuidando do carro e voltei de ônibus no domingo para Brasilia.
Na semana seguinte um amigo que morava em Urucuia telefonou-me dizendo-me que viria para Brasília no sábado e que poderia trazer a Caravan, o que prontamente autorizei.
Na vinda, segundo informações, a 8 Km de Cabeceiras-Go, os parafusos  do cardan estouraram e o carro despencou-se
no meio da estrada. O  condutor foi até Cabeceiras, trouxe mecânico que colocou novos parafusos e reiniciou a viagem.     Chegando no Núcleo Bandeirante, já em Brasília, o Cardan caiu novamente em virtude dos parafusos não terem sido apertados adequadamente.
O carro ficou parado no acostamento.  Nisso passou um rapaz num Pálio vermelho que viu a Caravan parada,  estacionou ao lado e perguntou:
* “Esse carro não é o do  Aparício?”
*     “É sim”, respondeu Braguinha, condutor do veículo, meio surpreso.   O  rapaz estacionou seu carro, entrou debaixo da Caravan, verificou o problema, foi ao Núcleo Bandeirante, comprou novos parafusos, colocou-os e deixou o carro em pé,  pronto para a
partida.
Quando o Braguinha perguntou quanto era o  serviço, ele respondeu:
–       Nada não. Sou amigo do Aparício e mecânico desse carro há mais de cinco anos…     Só faltou ele confessar que
falta pouco para construir uma casa em Padre Bernardo às minhas custas, graças à “bendita” Chalana…
Costumo afirmar o seguinte: existem quatro maneiras diferenciadas de sentir emoções na própria pele em uma viagem: emoções
medianas, fortes,  espetaculares e caóticas.
Primeiro passo é comprar uma Caravan (de preferência ano 1982 como a que possuo) sem verificar sua origem.
Emoções medianas: revisar o carro, calibrar pneus e partir para destino conhecido e próximo.
Emoções fortes: não revisar o carro, nem verificar níveis de óleo e água do radiador, nem calibragem dos pneus,
pneu de estepe, ferramentas, lanterna, etc. e viajar para local acima de 300 Km, de preferência com estrada de terra no percurso.
Emoções espetaculares: todos os itens acima e partir, sem destino, numa estradade poeira e pó rumo a lugar desconhecido por
mais de um dia de viagem.
O carro se encarregará do resto da história. No mínimo, o aventureiro ficará muito puto de raiva. No máximo escreverá um romance
que pode vir a ser um best-seller.                                    No entanto, cabe afirmar que, para curtir emoções caóticas,há a necessidade de se adquirir um Fiat 147 – de preferência ano1982 (possuí um que me deu 148 problemas), cuja epopéia a que passei já é uma outra estória, digna de
um romance de suspense.
Para finalizar, esclareço que mandei trocar o vestido da Chalana (pintar), os pares de sapato (pneus), o molejo (suspensão)
e coloquei novo marca-passo no coração (cabeçote do motor). Vai ficar linda. Zeradinha.Pronta para novas aventuras.
Quem tem carro velho, tem história pra contar.

O fedor que nos irmana pode matar o amor

Quem tem medo de cagar não come Cagar é o ato filosofal que realmente nos iguala, é o mais existencial dos nossos atos, pois está ligado a própria ação de comer. Cagar é viver, diria Lucini Pinheiro.”Quem tem medo de cagar não come."

Cagar é o ato filosofal que realmente nos iguala, é o mais existencial dos nossos atos, pois está ligado a própria ação de comer. Cagar é viver, diria Lucini Pinheiro.”Quem tem medo de cagar não come.”

Por Nelson Townes

Caro Aparício Secundus.

Penalizado (esta palavra significa estar com pena, e não punido, como semi-analfabetos e assemelhados usam), mas com o lenço no nariz, li no blog betobertagna.com sobre o desenlace de seu primeiro encontro amoroso com uma jovem que não suportou o prosáico e tão humano fedor de uma cagada.

Pretendia limitar-me a um simples comentário sobre o relato de Secundus. Mas, o texto acabou se transformando neste arremedo de crônica em que tento mostrar que o drama desse rapaz não foi o único, nem o primeiro, nem o maior, sobre alguns efeitos de nossa condição fisiológica.

Inicialmente, devo dizer a Aparício Secundus que não se deprima por ter usado o banheiro da casa de uma moça no seu primeiro encontro com ela, e afugentado o amor com o mau cheiro que você causou.

Houve há alguns anos um caso parecido em Rondônia. A história de um casal que tomava banho – ambos nus, numa noite de verão – numa piscina de Guajará Mirim.

Tudo avançava para um feliz desfecho amoroso, mas, de repente, a moça saiu da piscina porque sentiu vontade de ir ao banheiro e, no local, não achando o vaso sanitário, aliviou-se da rápida digestão do jantar romântico, ocorrido algum tempo antes, numa lata vazia de querosene.

O barulho da evacuação reverberando na lata, os sólidos e os líquidos caindo e se amontoando, fizeram o rapaz perceber que o objeto de seu profundo desejo era apenas uma parte do aparelho digestivo da namorada.

Quando ela voltou para a piscina, ele já estava prudentemente fora d’água, vestido e ainda traumatizado pelos sons que a moça fazia sentada sobre a lata vazia de querosene. C’est la vie.

No entanto, cagar é uma ação ligada ao ser humano desde o seu nascimento até a morte. De fato, nunca houve e nunca haverá um só dia na vida de qualquer pessoa, rica ou pobre, nobre ou plebéia, santa ou má, sem que ela tenha vontade ou ao menos pense em cagar.

Cagar é o ato filosofal que realmente nos iguala, é o mais existencial dos nossos atos, pois está ligado a própria ação de comer. Cagar é viver, diria Lucini Pinheiro, o pioneiro de Porto Velho, um filósofo popular que ensinava que “quem tem medo de cagar não come.”

Cagar é nobre. A palavra vem do latim cacare e na Roma antiga, quando o grande César ia à imperial latrina, a nobreza apenas murmurava, reverente, “rex cacare est” – que numa tradução livre seria “o rei está cagando.”

Se você fosse Secundus, o Imperador, a sua namorada jamais o chamaria de mal educado por não aprovar o odor exalado dos reais dejetos de suas entranhas. Ela saberia para onde iria rolar a cabeça dela se falasse mal do cocô de Sua Majestade.

Pior, Secundus, era o que acontecia com um amigo meu de São Paulo, que identificarei apenas como Augusto. Um cavalheiro muito educado, mas portador de umas esquisitices. Por exemplo, não viajava de avião de jeito nenhum.

E não era por medo “de avião”. Dizia: “Tenho medo de adormecer durante o vôo e acontecer uma coisa horrível comigo!” Ele não explicava o que era. Apenas recusava todas as viagens.

Mas, surgiu uma viagem inadiável, obrigatória. Ele sabia que teria que embarcar. Convidou-me para ir junto, com a condição de que eu jurasse que o manteria acordado até que o avião pousasse. E acabei testemunhando um de vários dramas que ele sofreu.

Era uma viagem curta, de menos de uma hora, de São Paulo a Curitiba. E eu queria cumprir minha promessa. Conversava o tempo todo com Augusto. E ele falava o tempo todo. Falava tanto que quem acabou cochilando fui eu.

Acordei quando o avião se preparava para pousar no aeroporto Afonso Pena. Olhei para o Augusto, que também havia adormecido. E tudo parecia tão normal.

Normal até Augusto acordar, com o avião já tocando com as rodas no chão e ele exclamar, alarmado: “Você deixou que eu dormisse!” Demorei alguns segundos para entender o motivo do medo do meu amigo. Senti o cheiro na hora em que o avião pousou em Curitiba e Augusto em pânico falou: “Estou todo obrado!”

Augusto não usava a palavra cagar, chula demais para seu vocabulário. E para não “obrar” de novo em avião (e isso só acontecia em avião) tivemos que voltar de ônibus para São Paulo. Então vi que Augusto exigiu que seu assento fosse o mais próximo possível da toalete do ônibus.

Nunca havia prestado atenção, mas notei depois que sua mesa, no jornal em que trabalhávamos, era a mais próxima da saída da redação, para diminuir a distância do corredor de acesso aos banheiros.

Essa era outra esquisitice de Augusto não almoçava no restaurante do jornal, ou qualquer outro restaurante da cidade. Não comia nada fora de sua casa. Por que? “Porque assim que como qualquer coisa sinto imediatamente vontade de ir ao banheiro.”

Não adiantou dizer que isso acontece com muita gente, é normal, que restaurantes tem sanitários etc. Augusto rebatia: “Tenho medo de deixar vestígios, de deixar fedor.”

Eu e outros amigos dele convencemo-lo a enfrentar os restaurantes e almoçar ou jantar na casa dos mais íntimos. Ele parecia tão curado de sua neurose (continuava indo ao banheiro após almoçar ou jantar, mas sem se estressar com isso) que decidiu aceitar o convite para almoçar na casa da namorada (aliás, ele pretendia pedir a moça em casamento).

E aconteceu, Aparício Secundus, um drama parecido com o seu. O almoço foi meio à antiga, com toda a família da jovem presente e Augusto propondo casamento diante de todos. Terminado o almoço, a família se dispersou, e ele e a noiva foram deixados conversando numa sala.

Então aconteceu. Ele sentiu vontade de ir ao banheiro, a moça indicou a porta e Augusto tentou ser o mais discreto possível. Tudo estava indo bem. Exceto por um resto de dejeto, pouco maior do que um dedo, que o vulgo chama de “torete”, que teimava em flutuar, por mais descargas que desse no vaso.

O “torete” flutuava como uma rolha. E para Augusto era insuportável a idéia de deixar vestígio de seus excrementos no banheiro da casa da noiva. Ele demorava no banheiro, esperando a caixa da descarga encher para nova tentativa de fazer sumir aquela coisa.

A noiva o chamou: “Algum problema aí, Augusto?”. Augusto começou a entrar em pânico: “Não! Não! Já estou saindo!”

Deu nova descarga, e o cocô permaneceu desafiadoramente flutuante. “Augustooo!” – chamava novamente a noiva. Ele respondia: “Já vou!” Augusto lembraria que suava frio, aguardando a caixa de descarga enchendo novamente.

Ele jamais deixaria a noiva ver aquilo. Se ela visse, talvez rompesse na hora o noivado que tinha começado uma hora antes. Só mais tarde, após o casamento, no futuro, deixaria de se preocupar com essas coisas.

O iimportante era fazer aquele pedaço de bosta sumir vaso adentro. E como a caixa de descarga demorava a encher, Augusto subiu no vaso sanitário para mexer dentro da caixa, para abrir mais a válvula, apressar o enchimento. Segurava-se no cano da descarga e com a outra mão mexia na caixa.

Então a caixa se soltou da parede, o cano vergou, e Augusto desabou com a caixa da descarga sobre a pia. O impacto arrancou a pia da parede e ela caiu sobre o vaso como uma bomba, quebrando-o ao meio.

A água da caixa e do vaso formaram uma onda que encharcou Augusto, alagou o banheiro e escorreu por baixo da porta. Se você viu cena igual a essa em algum filme, é mera coincidência.

A noiva, o pai dela, a mãe, o irmão caçula, a empregada, todos batiam na porta e gritavam ao mesmo tempo. Augusto diria depois que a família fazia mais barulho do que o estrondo do desastre.

Levantou-se, ensopado, atordoado, com alguma dor nas costas, mas sem ferimentos, determinado abrir logo a porta e explicar o acidente. Então, ajeitando o paletó e a calça encharcados, percebeu que havia uma coisa grudenta, pastosa, em sua roupa. Passou o dedo, cheirou e se horrorizou.

Quando caiu sobre a pia, e o vaso sanitário quebrou, a água escorreu levando junto o pedaço de cocô flutuante, e Augusto caiu exatamente sobre o dejeto. Ele percebia que o fedor se espalhava sobre sua roupa molhada.

Augusto fugiu pela janela do banheiro. Era vergonhoso demais, diria depois. Sequer telefonou para a moça. Nem ela telefonou para ele. O noivado se desfez por mútuo silêncio.

Dias depois, a ex-noiva encontra-se com Augusto na rua, por acaso, e diz: “Papai falou que se você se arrependeu de me pedir em casamento, não precisava destruir nosso banheiro por isso.”

Imagino, Secundus, que você deve estar avaliando como ficou a cabeça do nosso herói cagão. Nós o aconselhávamos a procurar um médico. Mas, ele se recolheu a uma espécie de clausura. Somente saia para o trabalho, não aceitava nenhum tipo de convite – e somente se alimentava em casa.

Somente concordou em procurar um médico quando um dos chefes convidou-o para um almoço de trabalho. Recusar seria negar-se a participar de um novo projeto e perder uma possível promoção.

Contou para o médico, e o doutor receitou-lhe um tranqüilizante. E Augusto compareceu ao almoço mais importante de sua carreira.

Ainda nesse dia, à tarde, o médico vê Augusto caminhando pela rua e pergunta:

– “Foi ao almoço?

– “Fui.”

– “Tomou o tranqüilizante?”

– “Tomei.”

– “E então, como foi o almoço?”

– “Estou todo cagado, doutor, mas estou tranqüilo, tranqüilo!”

Poderíamos encerrar aqui esta dissertação sobre cagadas. Mas, no melhor estilo dos roteiros de cinema, aqui tem mais um “ponto de virada”, uma última e inesperada cena.

O local é uma sala da Polícia Militar de Rondônia. O local está cheio de PMs.

Um superior ordena: “Mande evacuar a sala!”.

O outro oficial pergunta, indignado: “Quer que eu mande meus homens fazer cocô aqui, senhor?”

THE END

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, de Aparicio Secundus :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sigla Partidária

O Comício…

O suplício de um primeiro encontro

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Há dias vinha observando uma garota esbelta, bonitona, cabelos longos, corpo de violão, cheia de charme, que sempre passava pela minha rua.
Depois de muitos olhares e alguns sorrisos, pude finalmente oferecer-lhe uma carona até seu local de trabalho. Daí veio o número do telefone, conversas banais por e-mail e, finalmente, o tão esperado dia: sairmos juntos para jantar.
Arrumei-me todo, perfumado até nas partes íntimas e fui buscá-la em sua casa.
Fomos para um restaurante nordestino (não me recordo o nome) e pedimos, de entrada, uma cervejinha bem gelada para quebrar o gelo existente em nós dois e encurtar caminhos na expectativa do primeiro e adocicado beijo.
Papo vai, papo vem, mão cobrindo mão, dedos se tocando e a cervejinha descendo redonda goela abaixo. O cheiro gostoso da mulher me entorpecia e me deixava a mil por hora.
Num dado momento resolvemos olhar o cardápio. Ela optou por uma picanha na chapa com cebola e queijo mussarela, acompanhado de feijão tropeiro, macaxeira cozida, vinagrete, arroz e uma salada simples. Aceitei, meio desconfiado, porque aquela comida nunca foi a minha praia. Meu estômago é fraco como o de um bebê.
Coloquei, assim meio que desconfiado, pequenas porções de cada guarnição no prato e, à primeira garfada, verifiquei que a comida estava bem saborosa e, por sinal, não sabia que estava com tanta fome.
Mergulhei de cara e boca no feijão tropeiro que parecia ter sido feito para a tropa do almoço, era o verdadeiro “tropeiro de elite”. O queijo derretendo e fumaçando em cima da picanha acebolada me convidava a retirar mais uma lasca. E tome mais uma cerveja gelada.
Lá pras 23 hs., após várias cervejas e outros pedaços de picanha e feijão tropeiro, paguei a conta e fui deixá-la em casa. No trajeto deu-me uma vontade enorme de mijar em virtude de não ter ido nem uma vez ao banheiro (e nem ela). Como meu apartamento era bem distante da residência dela falei para ela do meu suplício e ela prontamente me disse:

* Você pode “fazer xixi” no banheiro lá de casa. É uma casa humilde, não repare, mas dá pra satisfazer suas necessidades mais urgentes.

Agradeci. Não era uma má idéia. Talvez, depois da mijada pudesse até rolar um clima, uns beijinhos, uns esfrega-esfrega, um cheiro no pescoço, um amasso nos peitos.
Entrei no apartamento dela (quarto, sala, cozinha e banheiro) e fui meio que às pressas em direção ao banheiro. Vi que a porta não fechava e segurei-a com uma das mãos enquanto retirava o “adormecido” pra fora. Ela, próxima à porta, esperava, ansiosamente, sua vez de desobstruir suas vias urinárias.
Nesse momento comecei a ouvir um barulho estranho na minha barriga e bolhas enormes de gás se deslocando para o viaduto do cu. Travei imediatamente o “back street boy” para evitar o pior e o esforço fez com que travasse também a urina. Suei frio tentando administrar a situação. Que situação complicada: querendo dar vazão à urina contida na bexiga e travando a “tarraqueta” para evitar a expansão do gás em ebulição que queria a todo custo sair e impregnar-se pelos cômodos da casa da futura namorada.
Suava frio aos cântaros. Senti que a moça se agoniava e gemia baixinho lá fora. E eu desesperado lá dentro, travado dos pés à cabeça. Abri a torneira da pia para induzir o mijo e um som gutural saiu das brenhas do cu. Primeiro tímido tipo apito breve. PIIIIIIIIIIIIIIIIII …..PUUUUUUUMMMM…Travei o inimigo na goela e fiz com que ele voltasse, meio contrariado, para o lugar de onde veio.
A pequena demonstração do gás exalado lembrou-me levemente o feijão tropeiro degustado, só que agora delineava-se estragado e com cheiro de mofo.
A bexiga só faltava estourar e eu concentrei-me na vazão da urina lembrando de cachoeiras, rios caudalosos passando mansamente e indo de encontro ao mar. Comecei a urinar. Uma urina tímida e fraca similar ao primeiro peido. Foi aí que me descuidei da trava psicológica e física que estava fazendo no cu e, como toda ação (retorno do gás à barriga) reflete uma reação de igual intensidade, um peido sonoro com cheiro de cadáver em decomposição inundou o ambiente. Soltei a porta que segurava e ela entreabriu-se um pouco mais dando liberdade ao gás tóxico similar ao gás mostarda lançado pelo Saddam Hussein contra os curdos do Iraque. Tentei abanar o peido para que ele fosse em sentido contrário em direção à portinhola do banheiro na esperança que ela não sentisse a catinga que impregnava minhas narinas de pura merda. Perdi o controle: mijava intensamente e emitia peidos seqüenciais fedidos e sonoros. Torci para que a dona do apartamento e possível futura dona do meu coração fosse, por momentos, surda e sem olfato.
Quando terminei de mijar previ o que mais temia: Um peido, pai de todos os outros, vinha descendo ladeira abaixo, tal qual um pedregulho de proporções meteóricas, numa velocidade que não dava para travar sob pena de presenciar lascas de minhas pregas pelo chão. Os gazes esparsos no ar faziam o Evo Morales reconhecer a queda de sua supremacia nesse recurso natural. Junto com o estrondo, um tolete pastoso melou totalmente minha cueca e senti o peso encostando-se no entre pernas, na região escrotal e ali se alojou mansamente.
A futura pretensa namorada, já tinha vazado da sala e estava “fazendo xixi” na parede do apartamento pelo lado de fora. Tirei a cueca e enrolei-a em papel e a coloquei no bolso. Limpei-me rapidamente como pude com o que sobrou do papel higiênico e saí do banheiro com a sensação de que vinte urubus me acompanhavam de perto, de olho na carniça que saía da minha bunda. Ainda soltei mais um peidinho do que sobrou do vinagrete e da picanha, a essa altura já defumada. Dessa vez, não sei porque, ela apelou e me tocou pra fora do apartamento me chamando de mal-educado.
Como as mulheres são incompreensíveis!

Durma-se com um barulho desses!

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

O fedor que nos irmana pode matar o amor

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

Sigla Partidária

O Comício…

O princípio da senilidade

Por Aparício Secundus

Já haviam me falado que depois dos cinqüenta, a descida é vertiginosa e triste. É colesterol, ácido úrico, taxa de glicose, triglicérides (está mais para “pentaglicérides”, imitando o Brasil) tudo nos píncaros, fora de controle.

Não se pode comer mais gordura, e tudo tem que ser “light”, “diet”, leve. Daqui a pouco estaremos comendo sopa de isopor ou de algodão…

A próstata dilatada sugere exame semestral (vou procurar um proctologista japonês….) e o mini-estupro torna-se, mais uma vez, inevitável.

A coluna, coitada, é um emaranhado de bicos-de-papagaio, escolioses, e hérnias de disco em c4/c5 e c5/c6. O nervo ciático é o único nervo que endurece sem que eu me preocupe nem tenha que me concentrar .

Por conta da glicose em 120, 130, 140 km/hora,  igual ao Roberto Carlos nas curvas da estrada de Santos, fico fugindo até de abelha.

Os zumbidos no ouvido lembram cigarras insistentes que com seus sons ininterruptos parecem anunciar a chegada da chuva, do sol, da noite e do dia.

Ainda bem que a labirintite só me ataca de vez em quando. A gastrite  e a  esofagite estão dando uma trégua, mostrando compreensão e companheirismo.

Minha mulher mesmo é que sempre fala: ainda bem que você não está com “paumolite”…

Vou ao médico de insistente, só para fugir da rotina e ouvir o mesmo blá-blá-blá. Já sei do diagnóstico e da receita de cor e salteado. O subconsciente, mais que consciente, já o diz e orienta sobre o tratamento adequado: caminhar, fazer exercícios, reduzir consumo de álcool, dormir cedo, etc, etc, etc.

Já havia ido ao trabalho com sapatos trocados e fui alertado por um amigo na porta do Banco. Ainda bem que os sapatos eram de pares marrons.

Às vezes não me lembro onde deixei o carro: no estacionamento do Banco ou na quadra residencial? É melhor do que não saber mais onde mora ou mesmo chegar em casa e falar pra esposa: eu lhe conheço de algum lugar…

Ontem aconteceu fato inusitado: diante do cansaço do dia de trabalho não houve prévias na relação amorosa que intentei junto a minha mulher. Foi meio na base do “abre alas para a minha bandeira” mesmo diante do bagaço em que me encontrava.

Não era lá aquela bandeira tipo  “independência ou morte”, mas estava desfraldada a meio mastro. Tinha que honrar a firma e atualizar um pouco o débito amoroso de caixa.

O preservativo clássico entrou no esquema, mesmo a contragosto, para evitar concepção indesejada (já temos, desse casamento, um bacurizinho de 1 ano e sete meses e outro de 4 meses. Fora os 4 marmanjos anteriores de outros carnavais…)

Depois do coito, saciado e detonado,  o guerreiro conversou duas ou três abobrinhas com a comadre e, na terceira abobrinha, caiu placidamente nos braços da deusa do sono que o autor desconhece o nome.

Por volta das duas da manhã, senti vontade de ir ao banheiro. Cambaleante ainda, meio que sonâmbulo, marquei o rumo do vaso e o banheiro  continuou no escuro para não acordar o bebê que havia requisitado a invasão de nossa privacidade na base do berro.

Comecei o processo entre dormindo e acordado e, instantaneamente, caí na real: Não ouvi barulho da urina caindo no vaso. E nem no ambiente ao redor do vaso. Passei as mãos pelas pernas com receio de estar urinando em mim mesmo e nada.

Foi aí que peguei no “possante adormecido” e vi que ele estava ainda encoberto pelo preservativo da farra de horas antes e eu estava urinando dentro da camisinha. Comecei  a rir. Falei para minha esposa que se bolou de rir também. Duas da manhã e eu enchendo a camisinha de urina que se misturava aos espermatozóides enjaulados e sufocados.

Pensei no prenúncio do fatídico e triste começo da senilidade, que descamba para a velhice irreversível e sem retorno.

Cada minuto precisa agora ser vivido como se fosse um século  e pedir sempre a Deus para esperar um muito mais antes de me chamar para o outro lado da ponte.

Curtir esposa, filhos e netos como se fosse a primeira vez. Gastar mais que economizar, pescar, reunir-se com os amigos sempre e não se preocupar com futilidades mundanas e passageiras.

Bem, voltando ao me ocorreu ontem, resta-me sair na esportiva e pensar:

É bem melhor mijar na camisinha que borrar as calças.

(NR:  Não conheço o Aparício pessoalmente, mas acho que fiz um amigo. Recebi seu texto por e-mail de uma outra pessoa, e imediatamente saí à sua procura para pedir autorização para publicá-lo neste bravo e eclético blog/site.

Acho que todos merecem ler o Aparício com seu  texto leve e primoroso. Diante das agruras do dia a dia,  Aparício, fica o apelo público! Manda mais coisa que nossos heróicos restos de fígado precisam de textos assim para se recomporem. Tenho dito! )