Arquivos da categoria: Crônicas certeiras

O que atravanca são “ozoutro”

Ponta 130314 034 Nilson Marques onda subindoTexto e foto de Valéria del Cueto
A ressaca está braba!Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.
Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá – creio eu – logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.
Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.
O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.
A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu. Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.
Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.
Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.
A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.
O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece – que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária saírem em menos de dois meses?
É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPonta 130314 042 onda linda

O rolo rola pelo ralo

Leme 1300302 024 Rib bueiro escada UPP Texto e foto de Valéria del Cueto

Minha rota de fuga já é conhecida. Diante de qualquer abalo me procurem na Ponta, embaixo da pedra do Leme. O entorno guarda resquícios da tempestade que fez da máxima do prefeito Eduardo Paes uma dolorosa e triste realidade. Mais do que nunca, somos um rio. De lama e lixo, ele esqueceu-se de avisar.
Aqui, o mar alto que chegou com a chuvarada faz a feste do povo da água que se arrisca em altas ondas coladas a pedra. Para encurtar a rota e economizar braçadas a rapaziada do bodyboard pula do meio do Caminho dos Pescadores, já na boca da fera! E faz a festa.
Troquei sim o barulho ensurdecedor do rotorooter do Eduardo Paes pelo som delicioso das ondas do mar.
Já reparou? É a segunda vez que cito o nome do indigesto alcaide do Rio de Janeiro nesse texto. A culpa é dele que não me deixa esquecer sua atuação de Penélope Pavorosa, como diz um jornalista amigo, testemunha intermitente da obra mal feita da Dimensional, empreiteira contratada pela Secretaria Municipal de Habitação, do engenheiro Jorge Bittar. Ela, que tentou a façanha de exigir que o esgoto do Chapéu Mangueira e da Babilônica fizesse a curva no pé da Ladeira do Leme e seguisse obediente pela Rua Ribeiro da Costa, descobriu que a ordem não seria seguida assim, de bom grado, de acordo com o excelente projeto planejado e executado pela referida empresa.
Resumindo: a curva entope e a língua negra da praia em frente, continua lá, como uma careta, escarnecendo da incompetência comprovada dos obristas do pedaço.
Assim é que, mesmo que me esforce para esquecer as trapalhadas eduardianas, uma em cada quatro semanas, lá estão os diligentes operários da extraordinária Secretaria de Habitação, vestindo (agora) um incrível macacão amarelo “olha eu aqui” e suas respectivas galochas de borracha, chafurdando na lama contaminada do mega bueiro existente justo embaixo da minha janela.
Não bastasse o cheiro de podridão que me leva a uma associação imediata ao resumo das obras malfeitas e pagas com o dinheiro suado de nossos impostos, também sou obrigada a conviver com a poluição sonora no horário comercial, propiciada pelo motor constante do chupa lama necessário para desobstruir o joelho da tubulação do esgoto da prefeitura. No dos outros é refresco, senhor. Aqui, mal dá pra respirar.
Acontece que o conteúdo elameado, composto de dejetos, detritos e componentes afins içados das entranhas do asfalto ficam ali, no meio da rua, secando ao sol, sendo levado pelo vento marinho para as residências adjacentes. Enfim, nosso querido prefeito traz mensalmente, por uns 5 dias, a poluição, as doenças e a contaminação do esgotamento sanitário até nós, sortudos moradores do entorno. Quem não seria inesquecível com uma atuação exemplar como essa?
Mas, como sou uma pessoa justa, tenho que reconhecer: o sistema de coleta vem se aperfeiçoando a cada nova incursão dos operários ao fantástico mundo das tubulações mal feitas. Além das roupas de borracha (daqui a pouco serão escafandros, por que respirar aquele ar merece mais do que um trocadinho de insalubridade), trocaram o carrinho de mão sem rodas, içado por cordas, que era o subidor da lama por uma sensacional escada para facilitar o sobe e desce do peão. (veja a foto ilustrativa do equipamento de última geração e grande precisão). Arrumar a engenharia e punir o (i)responsável pela empreita mal executada, nem pensar! Afinal, como Penélope enrolará as finanças e desfiará mais um trocadilho dos idiotas de plantão? É por isso que eu… rio!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Jogo… feito! Não dá mais.

ThiK-120726-074-vitrine

Texto e foto de Valéria del Cueto

Tão vendendo tudo. A alma já foi faz tempo, agora o negócio da vez é vender o que não lhes pertence.
É arrasa quarteirão, qualquer coisa é milhão pra ser “colhido” maduro mesmo por cima do muro, pelo primeiro esperto que se habilitar.
E não adianta reclamar, por que não há mais papa para ouvir o bispo, qualquer manifestação é risco, um grito perdido no ar. É muita pressão, meu irmão.
Haja panela quando a paciência do povo se esgotar. É trem, metrô, bonde, VLT; é lei seca pra pegar táxi, heliponto para resolver a saúde, empreiteira mandando às favas as obras interrompidas em plena construção. Aí tem ladrão!
A vida não é um lego, mas é assim que uns e outros a levam, achando que podem montar e desmontar, mandar e desmandar, esticar, extirpar, fracionar. Abrir, fechar, puxar, esticar e… vender.
Se bobear até a mãe entra nessa se tiver uma boa e generosa oferta. A sua, é claro.
Por que o público agora tem dono, que se dane o entorno. Barulho, entulho, bagulho, vale tudo na barganha em que muitos perdem tudo e a panelinha de sempre – aquela – ganha.
É assim!
Que paga o pato é o gato que leva fama sem deitar na cama e nem ao leite tem direito, por que lhes falta respeito até pelo reino animal. Quer falar no vegetal?
Não faz mal, ele é o tal! Cada lugar tem o seu especialista no quero o meu, pronto pra abocanhar, enganar, roubar, enrolar e desacreditar o trouxa indignado que esboçar reação.
É ação, coação, expulsão, exclusão e tudo na contra mão do justo e do direito.
Por que lhes falta respeito ao seu senhor, o cidadão.
Cá entre nós é atroz aturar tanto absurdo, fazer de conta que é surdo quando as arbitrariedades explodem no colo de cada um.
Sou eu, és tu, é você, somos nós, sois vós, serão eles capazes de a tantos enganarem sem ao menos – sequer – explicarem por que acham melhores que toda a população?
É bando, corja, matilha quem faz parte da quadrilha que prossegue impunemente achando que somos palhaços fazendo graça pro mundo enquanto esses vagabundos limpam os nossos bolsos, como se não tivessem um fundo?
Mas podem ter a certeza um dia a gente vira a mesa, e jogando com destreza acaba com essa pobreza que insiste em pensar que é mais.
Alguém há de se capaz, com a ajuda – que Deus nos acuda – de dar um basta nessa sorte que é de morte. Ninguém merece sofrer por males que não são seus, padecer, nem esquecer, afrontas que não pediu.
Por que quem procura acha! Um dia depois do outro… Pouco a pouco quem paga o pato vai cansar de bancar o rato e tomar uma atitude.
Não que seja virtude lutar pelo que é seu. É direito obrigação, defender nossa nação de tanta iniquidade. Alguém vai gritar bem alto, acima de toda a mentira. Um grito de liberdade há de alcançar seus ouvidos e vai fazer todo o sentido quando o povo se juntar.
E será em cada olhar, que vamos saber lá no fundo que é hora de mudar o mundo, se não o deles, o seu.

…………………
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM…
delcueto.cia@gmail.com

Estou na dele

Areia 121220 165 pipa s+¦Texto e foto de Valéria del Cueto

Saudades do meu caderninho, simplesinho, queridinho e tão útil. Pronto para receber de páginas abertas impressões e expressões de maneira serena, democrática, independente de linha ou assunto.
Estou me rendendo com alegria ao deslizar da tinta, o ritmo do desenho das palavras, o prazer de quem se entrega a escrevinhar no papel.
O caderninho é o momento em que o pensar só é mais rápido que a ideia que brota os décimos de segundos necessários para descarregar, linha afora tão soltamente a ponto de não haver dúvida(s) sobre a grafia correta, as palavras feiticeiras. Elas, que surgem saltitantes e se deitam preguiçosas, libertas e cheias de disposição, até aquela destinada a ser a flecha certeira que atinge o alvo do ponto final da frase.
Pode parecer delírio – e talvez seja – provocado por fortíssimos sintomas de felicidade intrínseca, dos que só podem ser provocados por uma sensação efêmera e quase única. – como tudo que é bom.
Falo do meu mar é azul, verde esmeralda cristalino e da minha praia é a mais limpa do Rio. Não é pouco.
Tenho observado esses tempos estranhos. E agora, sinto começou o verão no Rio. Temperaturas altíssimas, enquanto que no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Uruguaiana, onde o verão costuma ser escaldante, o clima da estação anda ameno.
Aqui, o calor começou nos últimos dias de carnaval deixando para trás um janeiro ranheta que não fez jus a nossa fama de paraíso na terra. Parecia praga! Tanta gente de fora querendo ver o que faz do Rio um lugar abençoado por Deus e, no céu só nuvens passando, em sentido único, sempre de lá para cá, o caminho do mau tempo. E mais… a água do mar estava horrorosa. Foi isso que os visitantes viram. Meio caldo de cana em alguns dias.
Mas isso foi antes. Bastou passar a temporada pra que o cara lá de cima, vendo o paraíso mais vazio, mais disponível, resolvesse aproveitar uns dias especiais na sua maravilhosa cidade. E caprichou no ambiente!
Subiu a temperatura da terra, pra que queiramos o mar. Para torna-lo irresistível, deixou tépida a sensação na pele até na hora do mergulho, aquele, na corrida, sem testar antes com a pontinha do pé o que te espera. Também como resistir ao apelo daquela cor que era, sim, do mar, e apenas dele, celestialmente, por assim dizer?
Filtrou a água a ponto de fazê-la brilhar como esmeralda translúcida e transparente, capaz levar qualquer um a viajar nas suas profundezas até alcançar, lá no fundo o relevo da areia.
Deu uma soprada no vento e amenizou, com uma ajuda substancial da maré, as ondas e movimentos. Ondas sim, mas no tamanho certo para não turvar demais o que os olhos podiam notar, sem sei lá não sei não.
Para não dizer que não obteve ajuda humana, soprou os ouvidos dos garis do bairro um pedido de ajuda para que dessem uma geral na areia e… pronto!
É o paraíso da Ponta do Leme. Em pleno meio da semana que é para garantir o testemunho. Há muito aprendi a não esperar para usufruir amanhã o que me é oferecido hoje. E vocês sabem mesmo ele, o senhor, um dia precisa descansar, relaxar e aproveitar o lado bom da vida que arduamente tenta nos dar.
Por que sei, ele está aqui agora em minha companhia, usufruindo o sucesso do melhor de sua concepção. Aqui representado por esta vivente feliz, na Ponta do Leme.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

É pra dar em doido!

Mangueira 130211 275 CF placa Mangueira Cuiab+í

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quero mudar de assunto, mas rodo, rodo e lá está ela, a verde e rosa, malemolente e bela, executando seus passos e volteios no meu campo de visão e incendiando minha imaginação. Se não para louvá-la, como gostaria, para esclarecer alguns pontos que tem causado polêmica em relação a seu desfile.

Quando vejo, por exemplo, as manifestações de moradores de Cuiabá chicoteando o jequitibá, citado na letra do samba de 2013, chego a conclusão que sim, os 3,6 milhões de reais, destinados a Escola de Samba, deveriam ter ido para a… educaçãoem Cuiabá. É incrível a incapacidade vigente de interpretar um texto, coisa que a gente aprende no colégio, ao contrário do samba, como já dizia Noel Rosa em um de seus clássicos, “Feitio de Oração”:“Batuque é um privilégio / Ninguém aprende samba no colégio / Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia / Dentro da melodia…”.

Ora, vejamos o que diz o segundo refrão da composição deLequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalhoque tanta celeuma tem provocado, incluindo aí uma discussão acalorada sobre os locais em que o tal Jequitibá é natural ou está plantado na cidade:

“Mangueira…O trem da emoção /Viaja na imaginação / Meu samba é madeira, é jequitibá / É poesia dedicada a Cuiabá”
Senão, vejamos:

Mangueira – não a árvore, mas a escola de sambaGres. Estação Primeira de Mangueira.

O trem da emoção – observem que não diz que é o trem da razão. A emoção nos permite… imaginar! E o que é a Mangueira? A estação primeira, onde se realiza o embarque rumo a ela.

Viaja na imaginação – até por que assim dá pro tremchegar, ou melhor chegar mais rápido, o que só pode ser no imaginário, já que a gente sabe que esse trem verdadeiro está “devagar, quase parando”, como a Maria Fumaça, de Kleyton& Kledir.

Meu samba… – o feito pelos compositores da Mangueira, a escola de samba, e escolhido após uma acirrada disputa que dura meses.

é madeira, é jequitibá. – quer dizer que o ritmo, a música da Mangueira é de lei, é nobre, principalmente se for de jequitibá rosa, uma madeira duríssima!

É poesia… – poesia não é reportagem, nem documentário histórico. É imagem, ritmo, sensação e também pode ser idealização.

Dedicada á Cuiabá – dedicar não é descrever. Significa consagrar, tributar, oferecer, destinar.

Enfim não há nenhum lugar que diga que o Jequitibá é cuiabano, existe nas terras do Sutil ou algo assim. “Jequitibá” é o samba mangueirense, “madeira de dar em doido”, segundo José Ramos e Marcelino Ramos, na música que todo mangueirense de fé já cantou:

Mangueira é uma floresta de sambista / Onde o jequitibá nasceu / Veio fogo, queimou
veio vento, tombou /machado, o jequitibá ficou

Resumindo: precisamos muito do verdadeiro Jequitibá pra dar nos doidos que deixaram o povo cuiabano incapaz de interpretar um simples texto!

* Link das músicas citadas: Feitio de oração http://youtu.be/d_-dZqnlABM //Maria Fumaça http://youtu.be/Yd51SuxyA1w //Jequitibá – http://youtu.be/QPRp7di0thQ

Quem não pode com mandinga não carrega patuá.

Mang_prot_12101_091_baiana_cabeça_delirio

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se não sabe brincar, não desce pro play. Captou?
A Mangueira é expert em amor, raça, paixão e superação. Desfile de carnaval, tradição e samba. Cuiabá precisa de divulgação no exterior para atrair turistas na Copa do Mundo disputando espaço com as outras sedes brasileiras de 2014.
Não existe vitrine com um custo benefício mais vantajoso do que a focalizada, nos 700 metros de pista do Sambódromo Darci Ribeiro, pelas centenas de câmeras espalhadas pelo caminho que o trem verde e rosa cruzará na noite de segunda feira. Elas massificam durante os 80 minutos de desfile imagens, conceitos, tendências, um lugar. No caso, Cuiabá. R$3.600 milhões é um custo baixo investir numa campanha publicitária internacional. Imaginem estar no DVD com o compacto do desfile Grupo Especial das Escolas de Samba cariocas distribuído por todo o planeta. É entrar para a posteridade da maior festa popular do planeta.
Até por que, é com tristeza que informo: se pouquíssima gente, quase ninguém, sabe que existe um paraíso chamado Pantanal – pergunta que faço em todos os lugares onde vou, em vários continentes-, o que dizer de Cuiabá, um de seus portais de entrada?
O viés do enredo definido, segundo o contrato em conjunto entre as partes, foi meramente turístico. E, peneirado demais, virou um clichezão. Mas a grita funcionou e a sinopse foi substituída. Agora é texto de Cid Carvalho, o carnavalesco.
Discordou do enredo, não gostou do samba? Paciência. Deixa a Mangueira passar. Quanto mais marola, mais feio fica. Pra cidade, é claro. Por que para a Mangueira é apenas mais um entre dezenas de carnavais que ela já apresentou. Queria ver alguém ir lá e fazer melhor.
E, justiça seja feita, durante todo o tempo entre o namoro, o noivado e a troca de alianças, daria para ter tomado providências, como aconteceu no caso da sinopse.
Detonar a Mangueira na véspera do carnaval é, no mínimo, irresponsável, desrespeitoso e, me perdoem, uma grande estupidez. É burrice dar tiro no próprio pé. Desvalorizar seu próprio produto! Enfim, bancar o “bobó tcheira tcheira”, abusando do cuiabanês.
Agora passam recibo do mau uso do dinheiro público. Reclamam, e o estopim não foi a ausência dos cursos de capacitação para sambistas, ou a quantidade dos eventos – tratava-se de uma carta de intenções, lembrem-se. Mas, sim, da falta de 100 vagas prometidas na Sapucaí. O que configura que nosso dindin seria para bancar as mordomias de poucos! Assim, na lata. E, enquanto metem o malho, os membros da comissão, responsáveis pela perna cuiabana do projeto, ficam caladinhos. Aqueles que mostraram sua ginga ao lado dos componentes da verde e rosa no lançamento do projeto no Cine Theatro Cuiabá. Os que presenciei, nas minhas andanças fotográficas na agremiação, acenando empolgados e cheios de moral para a plateia do camarote cuiabano, nos ensaios no Palácio do Samba. Ninguém me contou, eu vi!
Por isso, peço encarecidamente. Deixem a Mangueira passar. Torçam por ela e, se puderem, cantem com ela. Por que outra oportunidade como essa para, diante do mundo, bater no peito cheio de orgulho por ser cuiabano, não vai aparecer tão cedo. Que o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, São Benedito e São Sebastião abençoem esta jornada.

Só dá Lalá(u)

ET Vila 130120 153 geral torre

Texto e foto de Valéria del Cueto

A gente rema, rema e morre na praia! Escrevo ouvindo por um site de notícias a transmissão ao vivo da eleição do novo presidente e da mesa diretora do Senado Federal.
Uso um site de notícias por que a TV “Senada”, bancada por nós contribuintes, simplesmente não dá conta do recado. Pagamos caro por um serviço que, assim como outros no país, é apenas uma caricatura grotesca do que deveria ser. Transcrevo a resposta da própria Agência Senado, via twitter ao meu apelo por um link que não dê numa página em branco: “@delcueto aqui funciona normalmente. Pode ser que a rede não esteja conseguindo atender ao grande número de acessos”. Pode parecer irônico, mas não é. É vergonhoso.
Depois de acompanharmos o julgamento do Mensalão pelo site do Supremo Tribunal Federal e pelo hangout GRATUITO do Google, é inaceitável que o Senado não consiga fazer chegar ao povo brasileiro, democraticamente, as opiniões, posições e motivos que levarão os senadores brasileiros a conduzir à presidência da casa um membro que já renunciou a este mesmo cargo. Como disse o líder do governo, senador Eduardo Braga, do Amazonas, “o maior partido do país tem o direito de indicar o presidente da casa”.
A gente compreende a pequeneza do maior partido brasileiro. Aceitar a imposição da imoralidade é outra história, contestada pelas centenas de milhares de assinaturas de cidadãos brasileiros que pediram que Renan não fosse o presidente do Senado Federal por meio de petições públicas! Por que temos vergonha na cara, decência, moral e ética.
E, se os votantes escolhem um “camarada” capaz de usar o dinheiro público para bancar com notas frias sua filha fora do casamento, lamento, mas dane-se a maioria.
A denúncia do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao Supremo Tribunal Federal (STF) é clara: pelos crimes de falsidade ideológica, uso de documentos falsos e peculato. Se acatada, Calheiros passará da condição de investigado à de réu. Quanta honra, quanta dignidade…
Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito…. Pedro Taques, o senador em que votei e honrosamente me representa, candidato da oposição, cita Manoel de Barros e mais, um dos maiores brasileiros que tive a honra de conhecer: Darci Ribeiro…
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
Darci pode ter fracassado em muitas coisas, mas sua memória é honrada no meu templo de trabalho. Chama-se Sambódromo Darci Ribeiro, a passarela do Samba carioca. Obra feita por ele e Leonel Brizola. Aquele, lembram?
Com o fim da palhaçada,(desculpa ae, Tiritica, por usar em vão o termo que designa uma categoria tão especial) vamos ao carnaval que, afinal, é assunto sério!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

As águas rolaram, o povo cantou… o santo abençoou!

Lav Sap 130120  062 S+úo Sebasti+úo Apoteose Lav Sap 130120 034 setor 1 arquibancada chuva povo grita Lav Sap 130120  061 S+úo Sebasti+úo baianas reflexosTexto e foto de Valéria del Cueto

Estava indo, mas acabei ficando por que o tempo está virando de novo. Será praga de madrinha esse janeiro carioca, totalmente encharcado? São Pedro parece decidido a fazer uma lavagem geral, pra entrar na era de Aquário livre de impurezas.

E nós aqui, valorizando os guarda-chuvas e as capas impermeáveis, evitando os sapatos delicados e pedindo a Deus proteção para as chapinhas e escovas.

Esse, na verdade, não é o meu caso particular, adepta que sou da liberdade e da selvageria da minha cabeleira. Quanto mais molhado, maltratado e salgado, mais bonito ficam meus, agora, longos e rebeldes cachos. A mulherada em geral está sofrendo horrores!

A chuva abunda e prejudica o dia-a-dia da cidade, provocando a revolta dos moradores que sentem na carne a ineficiência dos órgãos públicos e o agravamento gradual do que a propaganda oficial diz que está sendo melhorado. Será nosso dinheiro jogado fora que entope os bueiros e provoca alagamentos cada vez mais intensos e rigorosos na cidade maravilhosa?

Sei não… só sei que os camelôs acabam se dando bem e as sombrinhas com imagens de pontos turísticos do Rio, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o bom, velho e, agora, inoperante Maracanã passeiam sobre as cabeças que tentam se protegerem da água que Deus nos manda com abundância e intermitência nas últimas semanas.

O aguaceiro afeta a vida, mas não a interrompe. Alguns hábitos se transformam, outros sobrevivem e superam as intempéries ignorando a molhação.

Rodei, arrodeei, mas sei onde quero chegar, igual a essa chuva persistente de pancadonas e pancadinhas.

Semana passada, matei o ensaio técnico das escolas de samba na Sapucaí no sábado – estava chovendo(!), mas não fugi da raia no domingo, dia de São Sebastião e  da lavagem do Sambódromo pelas maravilhosas baianas cariocas. A cada ano, o cortejo fica maior e mais emocionante!

Lá fui eu, com meu kit “pode cair o mundo”, rezando pra que os deuses do samba e do carnaval protegessem ao menos meu equipamento. Fotografia é assim, um vício delicioso em que a gente procura registrar de um jeito diferente o que está ali, pra todo mundo ver.

Os atabaques nem precisaram soar e o céu já estava caindo, desafiando os fotógrafos a protegerem seus equipamentos, ou arriscarem suas lentes, naquela que pode ser a foto derradeira. Quando os tambores firmaram descia água a vontade.

Corri pra onde todo mundo correu e, é claro, não havia proteção pra tanta gente. Voltei pra baixo d’água, conformada com minha sina de pinto molhado e temendo que a festa fosse prejudicada.

Foi quando ouvi. Um canto. O canto. De todos! Sem amplificação, só do coração. Das milhares de almas que estavam ali. Se sentindo abençoadas e fazendo questão absoluta de manifestarem por meio dos sambas entoados, a fé na manifestação religiosa que ali acontecia.

Larguei de mão todos os meus medos, o receio de perder minha única câmera fotográfica, a que usarei durante o carnaval que se aproxima. Se, ali, cada um representava seu papel, o meu era de registrar aquela sintonia celestial. E se havia – e há – a famosa proteção, as bênçãos dos meus santos me guiariam pela tempestade, afinariam meu olhar e dariam passagem para as imagens emocionantes que refletiam na pista alagada da Avenida do desfile principal, a Marquês de Sapucaí.

E assim aconteceu com quem, com fé e oração, se deixou levar pelas águas purificantes de São Sebastião…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Realidade cruel

Preto-Leme130117-028-rib-equipamentoTexto e foto de Valéria del Cueto

Estou tentando ser zen. Mas tá difícil. O sol ilumina minha vida enquanto as copas das árvores que enfeitam minha janela no segundo andar acenam animadas me convidando para ir à praia.
Tenho muito o que fazer, inclusive escrever essa crônica, e um tempo reduzido a ponto de não poder ir até a Ponta do Leme e mal traçar essas linhas no meu caderninho. Nesse momento, o trabalho duplo, escrever/digitar faz diferença.
Se o visual é perfeito, o mesmo não se pode dizer do motor da obra de Penélope do Eduardo Paes prefeito do Rio de Janeiro. Ele continua enxugando esgoto aqui na quina da ladeira.
Que obra! Que perfeição. Era, entre outras coisas, pra acabar com a língua negra que se estende preguiçosa pela areia em direção ao mar há muitos anos. Quando fui pra Cuiabá, em 2011 a buraqueira era embaixo da minha janela da casinha, o apartamento da Gustavo Sampaio. Mexeram na parte de saneamento básico e, para ajudar no conjunto da incomodação, desrespeitaram os moradores ao não seguirem as regras para as obras impostas pela própria prefeitura nos quesitos segurança, sinalização e ordenamento urbano, ditadas pela própria Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos.
Agora, anos depois, consigo detectar a inutilidade do sacrifício dos moradores do bairro. Além de consumir o dinheiro da população, a obra, tocada pela empresa Dimensional para a Secretaria de Habitação do Município do Rio de Janeiro, é um desastre e criminosa. No sentido mais puro da palavra. Foi numa barbeiragem dela que minha avó caiu e quebrou o fêmur.
Quando me mudei para o novo apartamento, um mês e meio antes da Rio +20, todo o cronograma da bagaça já tinha ido pro book naturalmente. A coisa piorou mais ainda com a maquiagem feita pra mostrar o morro pra gringo, no caso o prefeito de New York. Logo depois, é claro que tiveram que, usando britadeiras, quebrar o asfalto recém feito para, então, passarem as tubulações. Coisa de mestre!
Quando tudo parecia assim, meio assado, caiu a primeira chuvinha e a Ribeiro da Costa virou um rio/mar de lama desaguando na Gustavo Sampaio. Metade claro, metade escuro. Esqueceram que 2+1 dá 3 e não 2 e esgoto não faz a curva do joelho. Portanto a tubulação tinha problemas. Na segunda chuva, filmei a tampa do bueiro da ladeira descendo pelo asfalto, depois de ter sido levantada pela força das águas.
Aí eles começaram a enxugar o esgoto. Tipo assim, como quem enxuga gelo. De manhã e de tarde. Vários homens, alguns mergulhados num bueiro de cada vez, outros puxando os dejetos misturados com areia com os instrumentos mais esdrúxulos possíveis e imagináveis.
Tudo isso em meio a falta de segurança, higiene e de sinalização adequada, ao uso indevido do espaço público como canteiro de obras, as denuncias no Ministério Público que promoveram ações cíveis e processos contra tanto abuso. E tudo é pouco, por que a luta é desigual e cruel. Nada detém o rio de dinheiro que está sendo sugado aqui. Meu consolo é o registro sistemático do andamento dos “trabalhos”.
E assim, sem solucionar os problemas existentes, a tal empreiteira ainda está construindo mais 200 apartamentos no Chapéu Mangueira. É pedra cantada que vai dar (mais) problemas.
Isso é pra vocês, caros leitores, não pensarem que o Rio de Janeiro é só a cidade maravilhosa que povoa os meus sonhos quando desligam o maldito motor aqui na esquina…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPreto-Leme130117-030-ladeira-geral-bueiro

Simples, pra mim

Areia 121220 159 pipa e trave

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou com síndrome de pipa. Não das gordas, das que voam. Tudo que quero traduzir em imagem se resume a uma delas.
Se digo que quero voar, lá estão elas, bailando no meu céu. Serelepes e abusadas.
Quando falo em liberdade, penso na sabedoria maior que elas me ensinaram: a sempre dar linha. Nunca tencionar sem necessidade. É, por que se na linha, pipas dançam, na puxada, elas rebolam.
Desde que me conheço por gente sou fascinada por pipas, pandorgas, arraias (não possuem rabiola), papagaios, ou chame você como quiser as chinesinhas, usadas a dezenas de milhares de ano como sinalizadoras militares. Que ironia. Meu símbolo de liberdade…
Cresci ajudando e atrapalhando experts a alinhar as varetas, fazer a cola de goma, recortar os gomos e enfeites no papel de seda e as tiras da rabiola, preparar a linha e enrolar o carretel. Aqui, pulo o capítulo do cerol, por que não poderei atirar a primeira pedra contra quem já brincou de cortar as vizinhas no céu.
Como na vida, tem gente que solta pipa, outros, preferem empinar o papagaio.
Prefiro quando a vida me dá menos trabalho. Pode parecer coisa de gente preguiçosa, mas não é. É coisa de gente que sabe que mais vale um luar do que lutar. Até por que, ultimamente, lutas tendem a ser inglórias, o que é bem pior do que uma simples derrota.
Estou na levada da pandorga. Seguindo o vento, se deixando guiar pelos puxões e safanões caprichosos da molecada. De preferência pedindo muita linha, que é pra ter a sensação de espaço aberto. De poder saracotear.
Isso não quer dizer que perdi o rumo, larguei de mão meus objetivos. De jeito nenhum. Apenas sinto que o momento não é o ideal para determinadas abordagens. Até por que, pedir o impossível é somente um requisito para a frustração eminente, pela qual não pretendo passar.
E lá vem a pipa novamente. O que me falta agora é quem conduza minha linha. Sempre tão livre, mas segura na Ponta do meu Leme.
Daqui pro mundo era um pulo, o passo da confiança, o espaço da certeza plena de que, nesse fio, só passavam ordens e comandos gerados no mais profundo e incondicional amor eterno.
Agora, o fio está sem mando. A pipa não tem mais limites.
Mas tem objetivos. Se não imediatos e palpáveis, de conduta e caminho. Que é pra não desperdiçar o que aprendeu, nem deixar de saber que se o rumo é o prumo, a meta tem que ter valor e valer o preço da, agora, infinita solidão. O tempo é senhor.
A vida segue como um mar que se limita somente pelo nome que leva, já que suas águas, sem divisas, se confundem pelas correntes que cortam e se misturam oceano adentro.
Agora, só com a rabiola como ponto de equilíbrio, sem o fio que guia seus movimentos, o céu é infindável.
Muda o ritmo, os estímulos, muda o todo, tudo foi. Nada existe. Só vento, que carrega a pipa, quem sabe lá para onde? O qual será o por quê?
Só não dá pra admitir a hipótese de, ao perder a linha externa, esquecer que há algo mais, capaz de ser fio e ser luz que não quebra nem dilui.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Com qualquer tinta eu tento…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se me lês, é por que não foi dessa vez. Não chegamos ao fim do mundo. Mas temos e estamos no inferno na terra de sempre, com uns laivos de esperança para quem tem fé. E olhe lá.
Praia, praia, praia e nada mais. Ou melhor: piscina. Dupla jornada. Hidroginástica. Preparação física à vera. Como não rolava há muito tempo. Juntou a fome com a vontade de doer. E, se é pra ser por que é inevitável, que renda bons frutos físicos e mentais. Esmurrar a água não provoca dor alheia ou maiores danos por ter baixo impacto. Só cansa e faz dormir.
Por que a vida passa, a fila anda e esse não é um bom momento para parar o mundo e tentar descer. Ele passou! E, como já disse, se me lês é por que a porra do mundo não parou quando devia. Agora é que o bicho vai pegar. E ele, o bicho, já está botando as manguinhas de fora, diga-se de passagem.

Nos últimos dias, duas crônicas foram interrompidas por uma mesma razão peculiar em pleno parto (aí, Gabriel Novis!): por falta de tinta na(s) caneta(s). O primeiro impedimento foi na praia e me obrigou a interromper a escrevinhação. Así no más. Terminei o texto direto no computador, em cima do laço para cumprir o horário das editorias (repararam como tenho falado nelas, as editorias e neles, os editores ultimamente?)
Agora, de novo! Lá se vai a caneta. Engraçado é que a única coisa que faço a mão religiosamente é preencher caderninhos após caderninhos de crônicas. Acabarem duas cargas em três manuscritos? Ai, ai, ai…
“>Por via das dúvidas puxo do porta-tudo a caneta comemorativa de São Judas Tadeu que ganhei de minha mãe no dia do santo, 26 de outubro. Aperto o pino e… Nada. Desmonto a caneta. Está tudo lá, inclusive a tinta que havia transbordado da carga, lambuzando minhas mãos. Meleca.
Aí, meu Deus! Mensagem recebida. Meu texto não tem a guarida do santo protetor de quem, acabo de me lembrar, perdi a medalhinha que sempre uso num cordão, junto com um crucifixo e Nossa Senhora..
Parto para a ignorância e apelo para uma BIC. Prateada, como o surfista da história em quadrinhos. Valho-me dos seus superpoderes por que, como já disse, a fila anda e, se eu der mole, perco a levada.
E aí… volto ao ponto: se o mundo ia acabar, não precisaria me preocupar com a próxima narrativa. Era essa e deu! Beijou, beijou, não beijou, beijasse. Danem-se editores.

Como ainda não chegamos ao fim dessa sexta feira, 21 de dezembro, prefiro não contrariar os deuses alterando meu próprio ritual. Crônica e praia, praia e crônica.

Me apego a pedra, meu leme verdadeiro, olhando o tempo – que a tudo espera – a espera do tempo passar…

Está tudo aqui. Meu céu, meu mar. Quase tudo no seu devido lugar.
Menos eu que, como a tinta da caneta de São Judas, apenas escorro entre os dedos do destino deixando algumas marcas croniqueiras enquanto dou adeus ao fim do mundo, como quem diz: “Mais um segundo, uma hora, mais um dia. Outra vida, quem sabe? Não importa. Como meu mar vou para onde o vento me levar. Haja biquíni!”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

El Cid, a flecha e o alvo Sebastião

Moc Bar 121213 0111 João tela 01Texto e foto de Valéria del Cueto

Pra variar, engatei a quinta procurando. Só que tem hora em que são eles, os assuntos, por assim dizer, que te atropelam. É isso mesmo. O assunto firmou quando ouvi o antigo hino de São Benedito, aquele, em horário quase nobre na TV. Arrepiei. A seta mirou o alvo e acertou meu coração guerreiro um pouco santo. Sebastião. No Rio, Oxossi, o caçador que me protege e cuida da mata.
A bandinha tocando e eu comemorando. Feliz pela notícia de que o olhar e a sensibilidade de Cid Carvalho alcançaram João Sebastião. Se já estava interessante, agora ficou bom demais! Cuiabá vai chegar como e com quem deve na Sapucaí. Por que anjos e santos se juntaram aos cajus e as onças. E João, aquele que ferveu e agitou nos calientes carnavais de Cuiabá, vai estar ali. Apresentado e representado de alguma forma no cortejo do desfile principal.
Conheci João logo que cheguei em Cuiabá e fui seduzida pela explosão das artes plásticas que refletiam em suas cores o calor da terra. Sempre presto atenção e (re)conheço um lugar por aspectos que me atraem de sua cultura. Me orgulho de jogar nas 11: vou de literatura e poesia à música. Traço escultura, pintura; sou fissurada por grafite, fotografia, audiovisual…, tudo sem titubear. Foi assim com a Califórnia da Canção, de Uruguaiana, a polca e o artesanato paraguaio, é igual com a carioquice (minha cultura) em geral. Ouvi, vi, estudei e ainda pesquiso. De vez em quando, tento e faço.
Volto à Cuiabá e ao João. De quem tenho algumas obras. A menor, uma joaninha vermelha feita de pet que enfeitava minha instalação de natal (chamar aquela galharada de árvore é uma ofensa à natureza). Também tenho uma onça marota olhando à lua, com ar de “te pego”. Mas meu objeto preferido é um pano que deveria ser canga. Porém que, diante da importância da obra, foi ensanduichado e enquadrado. É a síntese de uma linda história. Mostra uma onça inteirinha, sedutora e esbelta, te olhando fixamente. Ela usa um colar com cajus vermelhos ornados com suas folhas verdes. Sob uma das patas dianteiras há uma folha presa, do enorme caju lilás que a olha em primeiro plano já no “laço” para ser juntado aos outros, no colar.
É uma obra original. Primeira e única. No desenho, os traços feitos pelo João, são facilmente reconhecidos. O olhar e as proporções do felino, sua posição. Mas a pintura não é a dele. Nela, há um trabalho primoroso de pontilhismo em parte da tela. Quem pintou minha onça quase canga foi Chico Amorim. Amigo de vida, teatrólogo famoso e meu orientador no doutorado de cidadã cuiabana. São dele pérolas como o dito: “Tudo evolui no mundo, menos a baixaria”; o excitante desafio de “ficar sem fazer nada”; as fugas loucas para as águas límpidas, deliciosamente refrescantes dos rios que cortam a estrada da Chapada durante a semana e outras cositas mais.
Pois a obra ficou tão especial que João fez questão de assinar a tela. É única e tem uma linda história que inclui o autor da surpresa espetacular. É, por que é claro que babei com o presente!
Pois é esse João, o Sebastião, que – soube hoje – vai se juntar a grande festa verde e rosa na avenida. Que me perdoem seus promotores do centro oeste, agora sim, temos um “muxirum” cuiabaníssimo com a cara do que mais amo nessa terra: o povo CUIABANO! Do qual João é síntese e expressão, por meio de suas maravilhosas e originais criações.
Trazidos pelo trem conduzido por Jamelão e coloridos, também, pelo que há de mais autêntico e representativo nas artes plásticas de Cuiabá, os frutos dessa mangueira estarão perpitolas de cuiabanidade!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “é Carnaval” e “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Da janela da alma vem a luz que me acalma

Texto e foto de Valéria del Cueto
Tudo igual. Constato passeando pelo bairro, no caminho entre a padaria e a Pedra do Leme, onde vejo a bandeira tremulando a meio mastro. Mas diferente.
Vinha procurando um assunto quando passei embaixo da janela do meu antigo apartamento, a “casinha” (o novo ainda não tem nome), no primeiro andar. Aquela onde, quando fui para lá, há mais de dez anos, achei ideal para receber serenatas.
É, sou do tempo e de lugares de serenatas na janela. Para desespero do meu pai, milico ainda, que precisava acordar cedo para trabalhar. Como somos duas filhas, a Gisela e eu, as homenagens românticas eram múltiplas, muito mais pra Gi do que pra mim.
Em Bela Vista, naquele tempo Mato Grosso, serenata era assunto muito sério e recorrente, principalmente nas férias, quando a garotada baixava na princesinha do Apa. Tinha que agradecer, abrir a janela…
A ordem dos fatores alterava todo o produto. Era uma romaria crescente por que quem recebia a serenata costumava se juntar a turma para ir cantar noutra janela, depois noutra.
Nunca fui de ir atrás das violas enfeitiçadas. Primeiro, por que meu pai não deixava. Segundo, por que nossa casa sempre ficava por último, mesmo que fosse visitada noutra altura da ronda musical. Afinal, eu namorava Preto, o violeiro – mor, peça quase fundamental para o sucesso da empreitada (sem tirar os méritos dos dedilhados e doces palavras do Vanderley, do Gão do Bermudes e, por que não incluí-lo, pelo esforço frequente, o Tadeu Palmieri). Eu não me incomodava mas, meu pai, sim. Não foi nem uma nem duas vezes que recebeu as românticas caravanas ameaçando premiá-las com panelas cheias d’água. Isso, lá pela terceira ou quarta serenata. No meio da semana!
Quase infelizmente no prédio da Gustavo Sampaio nunca recebi uma serenata. Também nunca pedi, por achava que o mimo deveria vir de forma natural, sem forçar a barra.
A vida é assim, não nos dá aquilo que pedimos. Porém… De vez em quando, nos chega um presente muito melhor. Acontece que a janela do meu quarto era só um pouco acima do nível da rua. Não precisava de gritos para que eu ouvisse se alguém me chamasse.
E, assim, nos últimos 10 anos, passou a ser feito. Todos os domingos e, algumas vezes, durante a semana. “Maria Valéeeeeria, Maria Valéeeeeria…” Aos domingos, depois da missa, um pequeno desfio de caminho, permitia que minha avó me desse o melhor despertar do mundo, o mesmo que tive durante os anos que morei com ela, (naquele tempo acrescido de um copão de Nescau morninho).
Não importava meu estado matinal ou o peso da janela de guilhotina que me fazia me xingar mentalmente, temendo dar um mau jeito nas costas levantando o janelão. Como a cama ficava colada, a segunda dificuldade era encontrar os óculos pra poder dar um tchauzinho pra minha amada e combinar o almoço de domingo. Simples assim.
Tive a minha serenata por uns de dez anos. Até precisar mudar de apartamento, no último mês de maio. Mudei pra perto, para a rua de trás e entrei no caminho natural de dona Ena para a igreja. Só que… Fui morar no segundo andar. Muito mais difícil de ouvir meu mantra de bom dia. Passei a colocar o despertador e, tal como Januária, esperar que a maré cheia do meu mar de amor me alcançasse. Ficou mais difícil e por contingências da vida, o costume não firmou.
Hoje, na minha janela, sou apenas Carolina, a que não viu o tempo passar. E, dizendo mentalmente nosso “segredo”, junto com ele prometo: nos meus olhos, agora, fundos, não vou guardar a dor. Uma rosa pode morrer, a festa acabar, um barco querer partir. Nossa história não merece o sofrer, amada. Não faz assim quem foi só carinho, amor, tanta alegria! É Sem Fim…
*Valéria del Cueto, neta de Dona Ena, que sempre vai viver no SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Na dúvida, cante, sambe e celebre

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei se peço ajuda aos santos, apelo para meus orixás, adoto a postura de meditação dos budistas, entoo um mantra hindu ou tudo ao mesmo tempo. Assim, junto e misturado que é pra fazer efeito.
Estou igual a minha canga, toda embolada quando tento acomodá-la nas areias cálidas da minha praia recém saída de um longo período de quase uma semana de chuva fina e/ou tempo nublado e/ou tempestade, a escolher no período a que me refiro. Estou como o mar, querendo se ajeitar, amansando seus desejos e rompantes mas, ainda, turvo com os resquícios da chuvarada.
Respiramos fundo, o mar e eu, procurando dominar nossos instintos mais selvagens e profundos, cuspindo o lixaredo que tentam nos impingir. Corpos vivos seletivos que ambos somos.
Cheguei aqui com uma história carnavalesca na cabeça, mas relutante em conta-la esta semana. Preocupada com meus assíduos leitores, talvez cansados do meu eterno carnaval. Minha anti-auto-censura argumentando que nunca fui nem serei escrava das efemérides ocasionais para tratar de qualquer assunto. É claro que procuro não desagradar meus editores e, antes de qualquer observação nesse sentido, lembro que o público tem o direito de tomar conhecimento de que carnaval se faz o ano inteiro. O que, inclusive, explica essa verdadeira cachaça cultural do brasileiro.
O gran finalle é lembrar que estamos no Dia Nacional do Samba, em pleno 2 Congresso Nacional do dito cujo na abençoada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
E aqui, faço dos versos do samba da Gres. Mangueira 2012 as minhas orgulhosas palavras: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou…” E se prepare, acrescento eu, sem nenhuma pretensão poética, mas cheia de moral profética: Aguarde, por que o céu é o limite e as estrelas nossas guias nessa viagem que, cada vez atinge mais lugares no mundo, agregando novos e apaixonados adeptos.
Somos a maior vitrine da cultura popular brasileira, alavanca de signos e tendências nacionais. Pela festa e para a festa expomos e traduzimos em arte nossa pra gringo ver, opiniões, mazelas e orgulhos, discutidos e esmiuçados em forma de enredo.
E isso não se faz só na temporada do “vamos falar de carnaval”. Tá bom que também é preciso descanso, uma pausa para respirar, um tempo para tirar a fantasia do carnaval que passou e começar a imaginar o que será o tema da festa que virá, antes de cair de boca na sua produção. Isso é lá pelo mês de abril e já com algumas escolas de samba tendo anunciado seu enredo seguinte.
Esse é um dos segredos do sucesso do carnaval carioca: um calendário de trabalho. Nem que seja imaginário, por ele só se torna real com as entradas de dinheiro para sua execução. E chegamos, assim, ao próximo ponto. O patrocínio que acaba possibilitando o desenvolvimento e o crescimento da festa é o mesmo que interfere e aprisiona as temáticas e enredos das agremiações que o recebem.
Olho pro alto. Enquanto escrevia o tempo fechou sobre o céu da minha canga esticada na marra. O espaço ficou exíguo no meu minifúndio semanal de duas laudas para desenrolar essa história!
Por isso, informo que, as séries “Ponta do Leme”, “Parador Cuyabano” e “Fronteira Oeste do Sul”, a bordo no Sem Fim… acrescento uma nova linha.
“É carnaval” vai juntar o que escrevi, desde 2005 sobre o tema e o que, com a concordância dos meus leitores, a quem peço humildemente passagem, ainda relatarei sobre a parte que mais amo na folia: o fazer carnavalesco.
Salve o Dia Nacional do Samba, dedicado a todos os bambas que fazem da festa nossa de cada dia uma eterna folia!
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Quem te viu, não pode mais ver..

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Existem coisas que os olhos não devem mirar, aquelas que pra entender… Sei lá, não sei não, por que não cabe explicação.

Foi assim na homenagem à Delegado, lendário Mestre Sala e Presidente de Honra da Estação Primeira de Mangueira, no sábado seguinte da sua partida. Tudo era igual, mas muito diferente.

Na abertura da noite, a imensa bandeira mangueirense que cobre o fundo da quadra, se abriu ao som da Surdo Um, a bateria comandada por Mestre Aílton. Como sempre… A roda se armou, os segmentos se posicionaram e abriram espaço para que as baianas pudessem iniciar os trabalhos.

Todos sentiam a falta de Delegado, sempre sério e compenetrado com seu bastão, apito, chapéu e a faixa de Presidente de Honra da escola para a qual trouxe, durante tantos carnavais, as notas máximas no seu quesito. Estava nos olhos de cada um, assim como nas vozes que, em uníssono, louvavam o amor maior do Mestre Sala. Era um canto forte, um canto alto. Para ser ouvido por todo lado. Inclusive lá onde, agora, Delegado se encontra cercado de bambas que fizeram a história da festa que virou o maior espetáculo popular da terra.

Era do lado direito da quadra, numa mesa de pista que ele costumava acompanhar os ensaios, antes e depois de comandar a roda. Ali, agora, só Suluca, sua irmã, cercada de crianças e adolescentes da família, até ser convocada para receber as reverências, depois de Ézio, um dos filhos de Delegado, cantar um samba (é claro!) inspirado em Hegio, que virou Delegado por “prender” as mulheres. Era hora de homenagear!

Do lado oposto, embaixo do palco, a Porta Bandeira Marcella Alves recebeu o pavilhão da Mangueira e saudou seu par, Raphael Rodrigues. O casal atravessou bailando o espaço aberto no meio da roda. O público vibrava, cantando e dançando sambas que fizeram de Delegado a lenda por todos cultuada.

Estranho não encontra-lo, mãos estendidas para o alto, o bastão apontando o céu, antes de cruzar os braços sobre o peito e baixar a cabeça para saudar, com um beijo, o pavilhão que sempre apresentou e protegeu.

O teto retrátil da quadra estava aberto. O detalhe foi notado apenas por que, quando o casal se aproximou para saudar o grupo, uma garoinha começou a cair, quase imperceptível. E rapidamente aumentou… Ivo Meirelles, presidente da escola gesticulava, pedindo para que o fechassem. Mas não era isso que os deuses do samba e seus representantes celestiais queriam. O sistema não funcionava. E a água, que lavava corpos e almas dos mangueirenses saudosos, só apertava!

O piso molhado era riscado pelos pés ágeis, num bailado possuído pelas forças da Mangueira que se juntavam no céu e na terra. Cada gesto, cada voleio de Marcella e Raphael passou, literalmente, a ter um peso diferenciado. O pavilhão encharcado ganhava uma nova força. Nele, se concentrava o encontro dos bambas do passado com os sambistas do presente da verde e rosa. E ele voava nas mãos da Porta Bandeira, seus súditos aspergidos e abençoados com chuva que, agora, despencava do céu, sem dó nem piedade…

Muitos viram. Não sei quantos sentiram o momento em que, ao som cada vez mais forte e apaixonado do cantar do Morro da Mangueira, fomos todos elevados à categoria de uma nação. Um povo que, diante da perda de um baluarte, se une, supera e celebra seu mundo, o do samba, através da música, da dança e do amor por sua história, ali reverenciada.

As lágrimas corriam, misturadas ao suor, e se diluíam com a chuva redentora, mensageira e pacificadora. A dor da ausência aliviada pela mensagem celestial.

De alma lavada, o peso da perda ficou mais leve diante da beleza dos reflexos da água da chuva nos corpos e  gestos do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira que, ali, representava e cultuava a arte maior de Delegado, o Mestre Sala nota dez da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Quem semeia sonho colhe carnaval

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na apresentação das agremiações elementos obrigatórios e também as inovações são julgados pelos jurados que escolhem a escola campeã do Carnaval Carioca.

Mas como se constrói o sonho apresentado no desfile, que, em seus quesitos, bota em julgamento a Porta Bandeira e o Mestre Sala, que carregam e zelam pelo estandarte do pavilhão da escola, a Comissão de Frente, grupo que a apresenta para o povo, a bateria responsável pela cadência dos desfilantes, e tantos outros?

A parte plástica dos carros alegóricos, alegorias, adereços e fantasias, usadas pelos foliões, é feita com o esforço conjunto de ferreiros, carpinteiros, pintores, aderecistas, costureiras, escultores e outros artesãos que trabalham meses a fio (olha ele!) na construção da proposta imaginada, planejada e desenvolvida pelo carnavalesco no barracão da Cidade do Samba. É o corpo pulsante por onde circula o sangue da folia bombado pelas centenas de trabalhadores que transformam materiais primários, brutos, em elaborados trabalhos artísticos para  retratar o enredo proposto pela escola de samba e apresentado na Sapucaí.

O projeto do desfile é criado, desenvolvido e construído com muita disciplina, criatividade e técnica. Da criação à finalização do trabalho uma série de etapas tem que ser vencidas de forma mais ou menos sincronizadas, mas com data marcada para  brilharem na passarela carnavalesca.

A Cidade do Samba, na zona Portuária do Rio de Janeiro, próximo ao Sambódromo, é, desde 2006, a conquista mais significativa para a evolução da festa. Nela, estão reunidos os 12 barracões das Escolas do Grupo Especial. Projetados para transformar em realidade com tecnologia e num espaço apropriado os sonhos e delírios dos criadores do espetáculo.

As instalações dos barracões aprimoram o processo produtivo. Ele evolui do desenho para o projeto técnico, ferragem, madeira, empastelamento, pintura, adereçamento, iluminação e o deslocamento para o local do desfile, no caso dos carros alegóricos. Nas fantasias, do desenho para o desenvolvimento dos protótipos, modelagem, corte, costura, montagem, adereçamento, embalagem e sua distribuição para os componentes.

Precisei de 1200 imagens para traduzir, em sessões, a evolução da construção de um único carnaval de um só barracão, o da Mocidade Independente de Padre Miguel. Também fotografei os ensaios técnicos e o desfile da escola no Sambódromo. Estas, são outras tantas centenas de imagens.

Dissequei o processo seguindo uma norma: nunca interferir, dirigir ou compor as imagens a serem captadas. Apenas explorar numa sequencia semi-ordenada (a ordem no espaço se modifica com o andamento dos trabalhos), em 16 visitas, cada centímetro dos 7 mil metros quadrados dos 4 andares do barracão que construía o enredo de Cid Carvalho, A PARABOLA DOS DIVINOS SEMEDORES, apresentado em 2011.

Outros já exploraram os barracões. Poucos por tanto tempo. Nenhum, acho eu,  com tanta regularidade e tão detalhadamente.

É um mundo. Quente, suado, com cheiros fortes das resinas, colas, fibras e tintas. Surpreendentemente caloroso e amigo depois que os artesãos se acostumam com a peregrinação semanal pelos setores de trabalho e começam a interagir com a câmera fotográfica.

É a vida plena, absoluta em seu momento catártico de explosão e construção criadora. Ingrata e inconstante por, a cada ano, trocar de enredo e fantasia para seduzir seus foliões.

Dizem que esse trabalho é um “acervo imagético”. Prefiro dizer que é um imenso e delicado tecido composto por fios tramados pelo amor e a dedicação do incrível e generoso povo do samba carioca. Maravilhoso, como a minha cidade!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Nossas intimidades mudando de nome

Por Marli Gonçalves

Antes a gente dizia: “Quer aparecer? Amarra uma melancia no pescoço!” E dava risada com a ideia improvável de ver essa cena. Hoje, ao contrário, há controvérsias. O cara pode seguir o conselho. E coitadas das frutas, hortaliças e legumes! Agora entraram definitivamente no descritivo de partes do corpo humano. Não bastassem as mulheres fruta, melancia, pera, morango, homem berinjela, essa semana apareceu a mulher couve-flor, ou melhor, a mulher com uma couve-flor. Ops, mais: a mulher ex-couve-flor.

Eu já estava cansada, era tarde, quando fui dar uma espiadinha no Twitter, ver o que rolava, quais eram os assuntos do dia. Ao ver nos trending topics, (termos mais comentados) o nome da Geisy Arruda, a rosácea loirosa sempre em busca de retorno à fama, que lhe é sempre efêmera porque bate mais a cabeça do que a usa, e ir saber do que se tratava, fiquei meio em choque com a insanidade humana. Dei de cara com uma foto dela, deitada, toda estropiada, cara remendada, olho inchado. Acompanhava uma entrevista na qual o QI de sempre-viva amarela anunciava ter feito de uma vez só várias plásticas, inclusive uma íntima. Mas logo definiu o termo “cirurgia íntima”.  Informava exatamente que tinha operado a vagina porque esta parecia uma couve-flor, ela a achava feia, emboladinha. Que os lábios eram todos grandes, muito volumosos, e por isso até pedia para que seus parceiros não olhassem. Socorro!
Nem preciso dizer o nível dos comentários gaiatos que se espalharam, dos quais me absterei. Mas não posso deixar de pensar que o conceito de intimidade mudou completamente. Terá ela combinado com o médico que a operou que daria uma declaração dessas, “todo mundo” ia comentar e ela pagaria assim as tais cirurgias que duraram sete horas – verdadeira imolação; quase mutilação?
Se for, não há mais limites mesmo.
Mas boba eu, né? Já faz tempo que ninguém precisa mais da melancia para aparecer. Basta se deixar fotografar assim como quem não quer nada. Viu as fotos da tal Nana Gouveia posando de bonita no meio da catástrofe nos Estados Unidos? Pode-se também soltar a voz sem pensar. Distrair-se sem calcinhas.
Ou aparecer como Lady Gaga que, depois de ver que nem tinha tanto brasileiro otário para comprar ingresso para o show megalomaníaco dela, chegou aqui que só faltou, sei lá, dar no meio da rua, num lance e golpe de marketing surpreendente. Chegou dando tchauzinho. Foi pro hotel e começou a tuitar que nem louca. Botou faixa I Love na fachada. Apareceu de topless coberta só com uma toalha. Deu mais tchauzinhos para os coitados que estavam lá embaixo. Jogou lanche daquela rede americana pela sacada. Pôs peruca cor de rosa. Subiu no salto plataforma. E, claro, foi para a favela ver os pobres. Jogou bola. Tô dizendo: faltou dar; inclusive uma de Madona, sua rival, e arrumar um namorado brasileiro instantâneo. Um Maomé podia ele se chamar, talvez, para ser irritante com o Jesus que a outra usou e jogou por aí.
Mudaram também o sentido de exótico.
As tais redes sociais que se expandem a cada dia devem ser culpadas. Só podem ser. Tem gente que precisa tanto dar satisfação do que faz, que passa o dia dizendo “vou até ali…”, volto tal hora, comi isso aqui ( e taca foto do sanduíche horroroso,porque comida tem que ter fotografia especial para ser atrativa), meu cachorro piscou, meu cachorro dormiu. Já vi caso de gente xingando a mãe, postando documentos jurídicos, juro! Isso sem contar na manipulação de relacionamentos. Eu te excluo se rompo com você, para você saber, para sofrer – me explicaram como funciona.
Lembrei-me de uma professora, Claudia, que amava muito, do primeiro ano da faculdade de comunicação, e que dava aula de Teoria da Informação. Como se fosse hoje, recordei da aula sobre espaços íntimos e o comportamento humano. Os espaços sociais. Entendi ali os comportamentos dentro de um elevador, quando a gente não sabe para onde olha, o que faz, quando está com mais alguém estranho. Esse é o espaço íntimo, do grudado, até uns 15 centímetros, nossa couraça, que a gente fecha e só deixa entrar quem quer, se possível for escolher. Dos 15 cm a 1m20 é o espaço pessoal, pode ter toque, avaliação física, uma conversa mais particular. O espaço social vai de cerca de 1m20 a 3m60, para interações com mais pessoas ou palestras. Já o espaço público, distância de 3m60 ou mais de nosso corpo, serve para reuniões com estranhos ou mesmo para fazer discursos. A gente aqui e a plateia lá.
Essas novas subsubcelebridades estão subvertendo a coisa e o que é pior, isso está pegando. Basta correr os olhos nos portais. Ver os motivos dados aos papparazzis, esse pega para capar e fotografar. O importante é ser notado.
Nessa mesma semana, por outro lado, foi aprovado um projeto importante de punição para crimes cibernéticos, garantindo a inviolabilidade de certos meios e penalizando quem se enfia em espaços íntimos – digamos, não liberados. Condena quem calunia e difama por meios eletrônicos, quem invade sistemas, seja para o crime, com uso de senhas, seja para o roubo de informações, como foi o caso das fotos da atriz Carolina Dieckmann, que inclusive dá nome à lei, que só andou porque ela gritou mais alto. Repercutiu.
Pensando bem, quem sabe essa lei também não possa nos proteger – a nós todos – de informações e imagens como essa da couve-flor?
Senão, teremos de nos mobilizar rapidamente para incluir uma emenda garantindo a nossa sanidade diante da loucura. Loucura que fez virar fichinha o girassol da lapela do Falcão, as roupas e a buzina do Chacrinha, as perucas da Elke Maravilha.
Esse povo novo quer que a gente saiba coisas muito internas deles, até se usam ou já usaram, como virgindade leiloada em praça pública. Internas até demais.

São Paulo, sacolão, 2012

Marli Gonçalves é jornalista Descobriu que tem um site http://desciclopedia.org/wiki/Deslistas:Nomes_populares_para_a_vagina– que listou quatro mil nomes para o órgão sexual feminino, do qual muitas das próprias tem vergonha e, pasmem, muitas nunca nem olharam para a sua própria. Nem para compará-las a qualquer hortifruti.

E ai, tá todo mundo?

Texto e foto de Valéria del Cueto

A pergunta vem enquanto procuro a ponta. Não a Leme que me abriga, mas desse extenso fio que passa pelo tear do meu carnaval de imagens e crônicas nos últimos 3 anos, a partir de quando, depois de fotografar desde 2005 os desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, no Sambódromo carioca, tive o prazer e a confiança dos responsáveis por umas das fábricas de sonho que criam e constroem os carros alegóricos, adereços e fantasias apresentados na avenida, de começar a fotografar este imenso trabalho.

Quem assiste ao espetáculo ao vivo ou pela TV, não tem noção do tempo, esforço e organização necessários para encantar os olhos e demais sentidos das dezenas de milhares os foliões presentes na Passarela do Samba e dos milhões que acompanham a festa pelas imagens daqui geradas!

Cheguei a Mocidade Independente de Padre Miguel pelas mãos do destaque Maurício de Paula, meu colega na primeira turma de Gestão Carnavalesca, a inédita faculdade de Carnaval da Universidade Estácio de Sá. Foi ele que me apresentou ao carnavalesco Cid Carvalho, responsável pela criação e desenvolvimento do enredo da escola verde e branca, em 2011.

Queria uma autorização para registrar a confecção de uma única fantasia, a de destaque do Maurício. Sabendo que o barracão é um local quase sagrado por guardar os segredos que serão apresentados em primeiríssima mão no dia do desfile o apoio de Cid era essencial, afinal o trabalho era dele. Como foi dele que veio o desafio de tentar fazer um registro geral do barracão. Como eu quisesse!

Ele abriu, com a anuência do presidente da escola, Paulo Vianna e dos diretores de carnaval e de barracão, as portas de um incrível mundo em construção que pude acompanhar a cada semana, durante os meses que antecederam o carnaval de 2011.

Mas afinal do que falamos?

Imagine uma história, um libreto narrado numa ópera em movimento. Cada escola de samba, por 80 minutos desfila apresentando para o público seu enredo do ano embalado pelo samba cantado pelos aproximadamente 4.000 componentes acompanhado por uma bateria de 300 ritmistas tocando instrumentos de percussão.

Falo do Sambódromo Darci Ribeiro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, na Marques de Sapucaí, centro do Rio de Janeiro. A Passarela do Samba, inaugurada em 1984, onde as 12 Escolas de Samba do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro desfilam no domingo e na segunda feira de carnaval e protagonizam a maior festa popular do mundo.

São em média 4.000 componentes, divididos em alas, distribuídas em setores narrativos, que se encerram com os carros alegóricos.

A escola é apresentada ao público por sua Comissão de Frente seguida pelo Abre Alas, saudando o público e pedindo passagem. Atrás dela, os elementos podem alternar sua ordem, mas sempre estão presentes o mestre-sala e a porta bandeira, conduzindo o pavilhão da escola, as alas das baianas, representando a tradição da comunidade, assim como a velha guarda – ambas reverenciadas pela herança cultural popular que deixam para as novas gerações do samba e do carnaval; as alas dos passistas – com seu gingado especial -, a das crianças e muitas outras, num total que varia de escola para escola, mas gira em torno de 50 alas.

A bateria, comandada por seu mestre e seus diretores é apresentada pela rainha, que desfila a frente dos 300 ritmistas. São os instrumentos que cadenciam o canto da nossa ópera a céu aberto.

O enredo proposto é descrito através das fantasias e alegorias e narrado pela música e a cantoria que toma a avenida e contagia as arquibancadas, frisas e camarotes.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM.

delcueto.cia@gmail.com

 

Charadinha

Texto e foto de Valéria del Cueto

Tiro do meu amplo (?) microcosmo da Ponta do Leme elementos para refletir sobre a vida como um todo e em geral.
É muita pretensão, eu sei. Mas, o que fazer se esses ditos elementos saltitam a minha volta quando (como boa fiscal da natureza) estou aqui, ao pé da Pedra do Leme, apenas a aproveitar o “dolce far niente” do meu carpe diem literário, desta quinta feira?
É de quinta essa sensação de não conseguir deixar de pegar o bonde da reflexão galopando entre os sinais da natureza que me cercam.
Só ele já faz a festa, sem necessidade alguma do dedo do bicho homem para intervir na situação circundante.
Há que ser artista para não se deixar enganar pelos referidos sinais…
Venta, reparei antes mesmo de adentrar ao campo de jogo, delimitado pelo mar, a Pedra do Leme, os prédios e aquela visão paradisíaca de Copacabana que nunca canso de fotografar.
Pelos carneirinhos de espuma que saltitam entre a praia e o horizonte, sempre da direita para a esquerda do meu campo visual oceânico, dá para dizer que a intensidade das rajadas não é baixa.
Caminhando entre os quiosques do calçadão e as barracas, na faixa de areia ocupada pelas redes de vôlei e as traves dos campos de futebol de areia, começo a imaginar a melhor posição para estender a canga sem entrar em conflito direto e contrariar a força da natureza dominante.
No céu não há uma única nuvem e o sol da tarde, nessa antevéspera de horário de verão, mostra toda sua força e energia. Dá para vê-lo, mas não para senti-lo imediatamente.
Depois de escolher o local onde montarei meu escritório de cronista essa semana, paro para decidir a posição ideal para a canga, de modo a ficar na posição certa em relação a luz solar. Penso com meus laços do biquíni e botões do vestidinho/saída de praia que seu trajeto muda rápido nessa época do ano.
Pode parecer desnecessário estudar tanto o posicionamento do meu retângulo praiano. Mas, num dia como esse, é fundamental (sempre que uso essa palavra me lembro de Dante de Oliveira).
Troco as lembranças do homem das diretas pelo cálculo exato da minha exigência geográfica e uma forma de alcança-la surfando nas ondas do vento, sem precisar nem tentar, que não sou louca, remar contra a maré da ventania, capaz de conduzir, inclusive, o bando de carneirinhos/marolas anteriormente citados.
Me esmero no alinhamento, capricho na arrumação e… voilá! A canga aterrissa obediente. Me atiro em cima garantindo o peso nas extremidades: chinelo, chinelo, bolsa e eu. Em posição. De frente para o sol, com o mar à esquerda. Só podia ser assim. Você entende por quê? O sol brilha, o vento faz cócegas e… parece que não está calor.
Então, o bronzeamento não incomoda, nem o alarme para a torração inclemente é ligado. Quando os incautos reparam, danou-se. Tostaram! E, pior, normalmente, só de um lado, a banda duramente atingida pelo sol para quem fica sentado de frente para o marzão apreciando os carneirinhos, tão bonitinhos…
Igualzinho nas eleições! Nelas, a tostada é inerente, distraídos que estamos com as divagações “climáticas” perpetradas pelo mar e pelo sol. Esquecidos do vento que muda o rumo da prosa e só mostra seus efeitos danosos posteriormente, quando não dá mais para tentar um bronzeado equilibrado, por que a tarde chega ao fim, obedecendo a inexorabilidade do tempo que voa…
Depois, haja Caladril para tentar aliviar as queimaduras, manchas na pele e o descascar inevitável.
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Ótimo por um átimo

Texto e foto de Valéria del Cueto

A vida é assim. Conduz a gente. Claro que há espaço para uma substancial colaboração no conjunto da obra. Mas, na hora do vamos ver, pode ter certeza: ela dá o seu pitaco e vira o jogo.

Quer um exemplo?

Cheguei numa praia repleta de atrações fotografáveis. De longe, procurei com o olhar o rumo do meu prumo, a Ponta do Leme. E lá, na Pedra, vejo que começaram a dar o ar da graça as florezinhas amarelas que recobrem as copas das árvores do perfil do morro por um curto espaço de tempo, um quase agora. É a florada dos Ipês.

De longe saco a máquina fotográfica. Cheia de gás e inspiração constato que não só as alterações da paisagem – mas o entorno como um todo – pedem um registro cuidadoso. Sinto-me leve. É a hora!

Começo num plano médio. Vou para o detalhe, pegando a bandeira que tremula no Forte Duque de Caxias e as flores, abro para um geralzão e…

A vida intervém. Poderia dizer, inclusive, que de forma muito antidemocrática. Lá se vão as baterias da câmera. Mais arriadas que pneu em caixa prego.

O que fazer com as bandeiras coloridas dos quiosques, as pipas, o tabuleiro de cuscuz, a leitora distraída? Sem falar no sol, na praia e nas ondas arrojadas que enchem o mar de surfistas.

A vida impõe. Quem pode, responde. Capto o sentido da restrição. Puramente fotográfica, ela não se estende à literatura.

Por isso estou aqui, olhando de dentro dos meus olhos para esse marzão adentro e desafiando minha capacidade de narradora para descrever, mais uma vez, o meu lugar. Meu e de muita gente que venho descobrindo através desse Sem Fim… de histórias que me seduziu. E de quem hoje sou uma escrava feliz que surfa pelas palavras tentando capturar o sentido das ondas por onde deslizam e evoluem homens e pranchas a minha praia.

Pensa que é fácil? Olha e escrever ao mesmo tempo é PHoda. Uma briga incessante. Dois polos te atraem ao mesmo tempo. Aqui, as frases e parágrafos exigem a sua atenção e rapidez, antes que passem batidas, engolidas pela velocidade dos pensamentos que, em décimos de segundos se projetam impacientes num passeio mental vertiginoso.

Lá, aí, lá. Lá é cá, no mar. Também um ciclo de imagens e manobras únicas que, a mim, seduzem desde a formação distante das ondulações que se revelarão boas ou más para a prática do surf, bodyboard e/ou do jacaré, o de peito. Até o momento em que a última espuma da antes poderosa força da natureza se espraia, lambendo preguiçosamente as areias do Leme.

Para mim, onda é um resumo da vida e mar uma síntese dos ciclos existenciais. Como um I Ching natural, aparentemente simples, porém tão complexo quanto os meandros mais profundos do oráculo chinês.

Mobilidade, volatilidade e instantaneidade. Assim são as ondas, movidas de acordo com o humor das correntes, das luas, dos ventos…

É atento a todos esses elementos que se joga na água o atleta. Na busca da sintonia com o mar. O desafio é a integração, por que dela vai depender a capacidade de ousar e criar suas manobras.

O sol, que brilhou até agorinha está se escondendo encoberto por nuvens desanimadoras. Mas como? Ainda não falei das roupas de neoprene penduradas na barraca para secarem. Nem mencionei minha paixão de sempre, as peladas na beira da praia…

É a vida, mais uma bateria que se esgota. Assim como o espaço dessa crônica, a única ditadura imposta pelos meus amados editores para os meus voos literários. Até a próxima!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

A flora aflora

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vou começar pelo fim: Vote. Vote assim, da melhor maneira que puder. Não desista, insista e saiba: que não será o único a votar por convicção e a certeza de escolher o melhor. É a sua hora!

O mundo estava virado de cabeça para baixo. Andando ao contrário. Aliás, se estivesse só parado estaria tudo bem. Sabe tempo de subtração? Em que por mais que se respire pausadamente, mansamente, a sensação é a de que até o não movimento teria o poder de sacudir levemente a asa da borboleta, aquela capaz de alterar radicalmente o desenrolar e o sentido dos acontecimentos?

Minha nossa! Gripe é previsível com esse tempo maluco. Distensão é possível, os músculos e nervos das costas, na linha da coluna,  já estavam uma rede mal trançada. Bastou um espirro para acabar de embolar.

A descoberta de manchas e fungos nas lentes da câmera fotográfica, uma hipótese cuidadosamente evitada no antigo apartamento, tornou-se realidade na casa nova. E deu geral! Meio em confusão, a decisão tomada teve reflexos insanos (nome do energético vendido pelas webjetetes nos vôos áereos). Ela, a decisão, foi de mandar todas as lentes para serem limpas em São Paulo. Mas precisava ser ao mesmo tempo? Pois foi desafiando a Lei de Murphy, que deu adeus ao equipamento achando que era uma boa ocasião para “descansar” o olhar. É claro que ninguém podia imaginar que a greve dos Correios cruzaria o caminho e faria piquetes na entrega da encomenda.

Então, foi assim que, com o espaço externo restrito, já que não estava nada agradável lá fora, com um vento danado de gelado, descabelante e desgovernado, que se dedicou a olhar a vida da janela, quase uma alma, de tantas imagens passavam pela sua esquina.

Falei em imagens? Ops… A primeira vista podia parecer uma eterna rotina: o carro da UPP, com seus guardinhas e as luzes do giroscópio piscando incessantes, noite adentro. O vai e vem das motocicletas, pilotadas pelos boys e seus passageiros. O sobe-desce de gente: moradores, turistas, visitantes e hóspedes em direção ao Chapéu Mangueira e a Babilônia, no Leme. Tudo isso acontecendo lá no chão, no pé da ladeira, entre os carros parados em fila dupla nos ex-canteiros do meio da rua, sombreada por árvores enormes, que alcançam a altura de vários andares dos prédios que as cercam.

Olhando à frente a parte baixa das copas das árvores forma desenhos, como rendas, na enorme quantidade de janelas dos apartamentos vizinhos, onde a vida se desenrola, ou não. Voltando a rua, seu movimento e as inúmeras variações  possíveis de acontecimentos nesse cenário, dá para ver que tudo –  carros, calçadas e asfalto – está coberto por uma camada grossa da poeira, resultado do encontro das águas que ocorreu nas últimas chuvas e deixou no trecho resíduos de lama e esgoto que afloraram, secam e se transformam, qual casulo/borboleta, num mal que aflige a todo o entorno.

Aqui, não se enxuga gelo, como diz o ditado. Se enxuga a lama e o esgoto, que viram poeira empesteando o ar e/ou entopem os bueiros, já deixando o cenário pronto para a próxima chuvarada. É rua cheia e o encontro das águas, nossa mais nova atração turística na certa.

E é no meio dela, quando tudo parece meio cinzento que suas cores límpidas se destacam. Abusadas, as orquídeas penduradas nos troncos das antigas árvores que sombreiam a pequena rua pelos porteiros e garagistas e diligentemente cuidadas durante o ano todo, explodem em tons de lilás e branco num determinado período do ano. É agora! Basta tirar os olhos do chão, e da poeira de lama para elas sorrirem pra você balançando ao vento para chamarem sua atenção para o ritual do renascimento, da regeneração.

Como seu voto, único e intransferível, capaz de mudar o destino da sua cidade, as orquídeas são joias raras que têm o poder  transformador dos milagres, que só a gente, que planta e vota, pode fazer!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Porque considero Fátima Cleide & Miguel de Souza a melhor escolha para Porto Velho

Na reta final das campanhas os ânimos se exaltam, o sangue ferve mais rápido e as ilusões e fantasias voam com mais facilidade.

E justamente é nesta hora que se precisa uma análise fria e racional pra escolher com sabedoria aqueles que vão governar com propostas concretas esta cidade , que hoje faz aniversário, pelos próximos 4 anos.

Acho Fátima Cleide e Miguel de Souza a melhor escolha pra Porto Velho, para uma juventude cheia de expectativas e toda uma sociedade que vai enfrentar a ressaca do pós-usinas com uma conjuntura econômica mundial que não se sabe ao certo onde vai chegar.

Conheço Fátima, pessoa íntegra e honesta, há bastante tempo e nunca soube de nada que desabonasse sua conduta política. Aos contrário, sempre foi transparente nas suas ações, em defesa da cultura, da educação, combatendo as desigualdades sociais, uma autêntica ficha-limpa.

“É impossível resolver os problemas de 100 anos em 8 anos, mas Porto Velho teve um dos maiores crescimentos econômicos do Brasil, gerando milhares de empregos e atraindo indústrias”

Acredito que Fátima deve impulsionar a educação do jeito que a capital Porto Velho precisa . Tem competência e experiência para isso e uma de suas propostas divulgadas na mídia é  atingir 50% da demanda de crianças de 0 a 5 anos no ensino integral , ampliando o atendimento com a construção de mais creches e escolas. A idéia é aumentar os recursos investidos na educação de 25% para 27% , 2% de diferença que representam muito quando olhamos para o orçamento global da Prefeitura de Porto Velho.

Gosto da sua idéia de implantar o orçamento participativo, que deu certo em outras cidades como Porto Alegre, onde a população tem o direito de decidir as prioridades de aplicação dos recursos públicos municipais, elegendo também seus representantes pra acompanhar a execução dos projetos.

Ela é hoje uma liderança articulada e sua proximidade com a presidenta Dilma e com vários ministros e ministras  em Brasília devem a facilitar a vinda de mais programas sociais visando o crescimento da cidade e a melhoria da vida das pessoas. E olha que a briga por recursos em Brasília é grande, afinal são mais de 5.000 prefeitos atrás de verbas para seus municípios. Fátima também pretende ser uma atenta fiscal destes recursos,como por exemplo, a execução das redes de água e esgoto que hoje encontram-se em andamento, executadas pelo Governo Estadual, através da Caerd.

Outra proposta muito interessante é a construção de ciclovias como forma alternativa de transporte, permitindo uma forma saudável de locomoção e desafogando o trânsito, pois as cidades brasileiras estão entupidas de carros.

O engenheiro Miguel de Souza, o vice,  poderá trazer para Rondônia e Porto Velho, a redenção da nova fronteira econômica, por ele articulada há muito tempo atrás com seus contatos peruanos, e que finalmente hoje tem a grande via de escoamento de produtos, através da rodovia Interoceânica podendo transformar a nossa cidade num grande centro geopolítico amazônico brasileiro.

É isso aí e no dia do seu aniversário e sempre, Porto Velho , parabéns !

A mala abalada – ação e reação

Texto e foto de Valéria del Cueto

Onde estava eu? Num lindo início de tarde de sábado, com sol brilhando lá fora e João, do Rei das Malas, a me avisar que, apesar de ter meu contato e prestar serviço para a Web Jet, a mala verde que havia apanhado no aeroporto, ao contrário da minha, simplesmente não tinha puxador, o tal que havia quebrado na viagem Florianópolis/Rio…

Sabe quando você não quer fazer uma coisa, mas tem a sensação de que deve fazê-la para não deixar furo e/ou se arrepender muito depois por não tê-la feito?

Na segunda crônica da série “percalços aéreos 2012” (já houve outra, com outra companhia, antes), mencionei a possibilidade de fotografar a entrega da mala no próximo aeroporto, já que o funcionário havia informado que eu teria que levar a mala até a loja, no centro do Rio, ou entrega-la ali, na hora. Pois então, depois pedir um tempo para montar a câmera e ele concordar em busca-la em casa, senti minha espinha dorsal ser percorrida por aquela sensação do “faça agora ou arrependa-se para sempre”. Tirar fotos mesmo que com o celular da detonação do material reclamado foi um desses casos felizes em que fiz o que deveria ter feito, conforme ordenava minha intuição.

Comprovei o fato no meio da conversa só de um pé e meia cabeça com a loja monárquica de malas, quando lembrei que de checar as fotos feitas no aeroporto, o que confirmou, inclusive, a existência de uma identificação com nome e telefone na parte de baixo da bagagem, entre as duas hastes do puxador gambeta.

Definitivamente, a mala de lá não é a mala de cá, João decretou, após comparar sua hóspede com a foto que mandei por email no início da tarde daquele sábado radioso, segundo o texto que aqui reproduzo (para não acharem que essa narrativa é apenas fruto da minha  imaginação): “A MALA QUE ESTA AQUI NA MINHA LOJA NÃO É A DA SENHORA. DEVE TER VINDO ERRADA, VOU A AEROPORTO PEDIR MAIORES INFORMAÇÕES. ABRAÇOS JOÃO FARID. VOU COMUNICANDO A SENHORA DO ANDAMENTO”

E nada mais aconteceu no final de semana, além de umas tuitadas para a Web Jet passando o número do protocolo e pedindo providências. Eis a resposta: “@delcueto Envie um e-mail para o falecom@webjet.com.br, informando o localizador e número de RIB, para que possamos verificar o ocorrido”. Traduzindo: “continue trabalhando para nós, trouxa”. Preferi ignorar e aguardar os acontecimentos. Na terça pedi notícias por email à loja. Fui informada que João havia entrado de férias e que ainda não havia notícias do rastro da mala. Nesta mesma tarde – vejam que sintonia – recebi uma ligação em que perguntavam quando poderiam entregar minha mala. Pelo que pude entender era a moça da primeira loja, de onde a dita cuja nunca havia saído e se mantinha alheia ao drama que protagonizava e aqui descrevo…

Assim teria terminado a novela não fosse o ato final da Brasil Malas, a que havia vindo buscar a original, nem primeira, nem única. Quando ela chegou  veio coberta por um camada de poeira, tipo de rua.  Muito suja. O puxador que motivou o desenrolar de metade da quase novela desta praticamente indescritível aventura que é voar pela Web Jet, não é mais o mesmo, substituído por um genérico, com um shape bastante diferente do tragicamente danificado, com menos possibilidades de regulagem. A fixação não ficou exatamente encaixada, o que deixa um vão de alguns milímetros perfeito para enganchar objetos em momentos de confusão aeroviária. Em contrapartida colocaram uma ponteira de zíper no fecho que estava faltando. Cansada, aceitei a entrega. Tudo ficaria bem se o rapaz não me pedisse para assinar um termo que terminava assim: ”…razão pela qual dou pena quitação a MALA BRASIL Comércio e Serviços para nada mais pedir ou reclamar em juízo ou fora dele a esse respeito”. Fiquei com a mala abalada, mas não assinei o termo.

A vida é assim, o momento em que vivemos: as eleições. Aqui e aí localizo os mesmos elementos: vítimas, algozes, ações e alguma possibilidade de reação. Dessa, que nunca devemos desistir! Falta uma semana…

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

A semente e o cimento

Por  Aparicio Secundus Pereira Lima

De uma mamoneira plantada no quintal lá da casa do pai Aparicio e mãe Rosália em Petrolina-PE, uma semente eclodiu do fruto da mamona já madura e como num passe de mágica, alojou-se justamente por entre as frestas e fendas  do muro lateral do quintal e lá permaneceu, intacta, quieta, em uma hibernação  quase letárgica no silencio das sombras e na expectativa das horas, envolta em terra seca  e cimento abrasivo até o surgimento triunfal de pequenino broto da planta, que de forma tímida, silenciosa e segura, expandia-se pelas frestas a procura de luz, na solidão de uma batalha sem fronteiras em busca de seu ideal: uma nova planta, novos cachos, frutos, flores e sementes.
Não satisfeita em apenas ter brotado de forma tão inusitada, dado a sua própria natureza de cultura resistente, viável para a região semi-árida,  ungiu-se da essência do seu próprio óleo de propriedades químicas atípicas cuja matéria prima é própria para o biodiesel e com força e resistência incomuns saiu rasgando paredes, desbravando caminhos, adaptando-se às conveniências, suportando intempéries e ataques furtivos de formigas, pragas e outros males sazonais e continuou obstinadamente crescendo pelo milagre da fotossíntese, em busca do seu ideal.
Uma simples semente de mamona atingiu o seu intento: rasgou o cimento, contrariou prognósticos e subiu ao céu de encontro ao seu próprio destino natural.

A mala que abala – o diz a lenda

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na sexta feira retrasada, estava rabiscando a crônica dominical, “Assalto ao Alto” e, pensava ingenuamente, estar dando por finalizada a prova da gincana “a mala vai para o conserto” ali citada.Enquanto escrevia as palavras “Antes da publicação desse registro… a mala estará no abrigo do meu lar”, diante dos meus irrequietos pensamentos – sempre mais velozes que a esferográfica – dançava o velho termo cinematográfico familiar, o “diz a lenda”.

Ele é uma brincadeira utilizada quando temos uma informação e muito pouca, quiçá nenhuma certeza, de que algo vá se concretizar ou se tornar uma verdade. Quando o termo já estava fazendo piruetas e coreografias da Dança do Passinho diante dos meus olhos, cansei de resistir e  anexei as fatídicas três palavrinhas querendo dar um ar engraçadinho ao meio da frase final sobre o episódio da mala danificada. “Afinal, o que mais poderá acontecer?”, pensei otimista na ocasião.

Mal sabia eu, ser descrente da poderosa capacidade intrínseca e mediúnica de prevenção daquelas célebres peripécias lei de Murphianas, que perseguem os puros de espírito, porém destinados a toda sorte, seja ela boa ou má… (Afinal, sem estas aventuras, o que seria dos anos dessas crônicas praticamente interruptas? Um tédio ou o paraíso.) No momento, por exemplo, estamos num processo kafkaniano. Enquanto lá, no original homem vira barata, aqui, se transforma em mala. É, por que na Web Jet, malas andam, se escondem, se disfarçam e se atrasam. Quase vivas, com vontade própria.

Durou pouco a minha alegria. Até João voltar à vaca fria e insistir em saber qual era o problema da bagagem e eu citar a quase moída do punho do puxador. A coisa embolou quando o João fez aquela célebre e odiada pergunta: “Tem certeza? Sua mala é verde?” A cor era essa, mas havia algo errado. A mala que estava lá, não tinha um puxador.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Diz a lenda – quem se lembra do cheiro da casa da sua avo ?

Por Beto Ramos

Hoje, senti saudades da casa de minha avó.
Senti o desejo de chegar e abrir aquele portão barulhento, rangendo junto com o latido do cachorro Veludo.
Senti saudade de chegar à janela de madeira, bem larga, e pedir a benção de minha avó.
Na casa antiga, construída por meu avô, existia de tudo.
Lembro-me do pequeno fogão sempre cozinhando alguma coisa.
No centro da cozinha, uma mesa quadrada com uma farinheira de madeira, uma fruteira sempre com muitas bananas prata.
Dentro da petisqueira, a garrafa de café bem forte.
Na parede um antigo quadro do Sagrado Coração de Jesus.
Perto da janela sempre respondendo com bom humor, ficava minha velhinha numa cadeira de balanço, pra lá e pra cá.
Senti saudades do cheiro da casa de minha avó.
Ela sempre usando os vestidos largos e coloridos, com anágua.
Amarradas na alça do califon, as chaves que abriam os baús da casa.
Somente ela abria tudo.
Sempre no ar um cheiro de Vick Vaporub .
E ali ficava o paraíso que hoje me faz tanta falta.
Quando minha avó substituiu o pote pelo filtro, o sabor da água mudou.
Hoje, guardo na minha casa o filtro que era da casa da minha avó.
Não me desfaço dele por nada.
Muitas vezes minha avó ficava lendo algum livro ou revista por muito tempo.
Detalhe: A revista ou o livro de cabeça para baixo.
Mas, ela já vinha com a resposta pronta.
– Quem sabe ler, lê de qualquer jeito!
Nos jogos do Brasil, quando apareceu televisão por estas bandas, minha avó torcia muito.
Acendia vela, rezava e soltava alguns palavrões ao mesmo tempo.
O engraçado é que após muito tempo do jogo começar ela perguntava:
– Pra que lado o Brasil está atacando?
Hoje senti saudades do cheiro da cama da minha avó.
Dos perfumes usados no domingo quando éramos obrigados a frequentar a missa.
O tempo passou tão rápido.
Estranho é ter que fechar os olhos para lembrar coisas tão simples e que fazem tanta falta.
As ruas continuam iguais, e não existe mais a casa rodeada de plantas e pés de frutas de todo o tipo.
Hoje, vejo minha neta entrar na minha casa sorrindo.
Será que a minha casa possui o cheiro da casa de minha avó?
Será que minha netinha vai guardar lembranças do que sou?
Como diz o Toquinho em uma de suas canções, “Só não me esqueça num canto qualquer”.
Aqui na minha casa pode faltar tudo, menos café.
Café forte durante o dia inteiro.
Talvez seja uma forma de trazer para dentro da minha casa o cheiro da casa da vovó Raimunda.
Será que sou um bom avô?

Diz a lenda

Tudo ótimo

 Texto e foto de Valéria del Cueto

– Bom dia, como vai, senhora? – (essa senhora sou eu).

– Tudo ótimo – respondo sorrindo ao pensar que não reparei o momento exato em que virei “senhora”.

– Nossa, que coisa incrível – diz a atendente do balcão da padaria. – Que milagre! – Exclama com um sincero “ar” de surpresa.

– Como assim? – pergunto intrigada com sua reação – Não entendi…

– Me desculpa, dona, acontece que nunca ninguém respondeu com um “tudo ótimo” ao meu bom dia – explica a moça enquanto para de esfregar furiosamente a superfície do balcão. Seus olhos brilham tão úmidos quanto pano que ela tem nas mãos.

E eu, que na noite anterior havia sido despachada do bonde que me trouxe à Florianópolis, abro o meu mais caloroso e especial sorriso. Era isso ou tê-la que ajudar o balcão inundado de nossas ameaçantes lágrimas.

Como não estaria tudo ótimo? Na véspera, ao sair pela última vez do local em que trabalhei arduamente, em média 12 horas por dia, desde que aqui cheguei (campanha é assim mesmo) uma ENORME lua cheia desenhava o contorno de uma das montanhas da Ilha da Magia, enchendo o céu quase claro de feitiço noturno.

Foi com ela me guiando que, pela primeira vez, pude entrar num maravilhoso restaurante a beira mar onde um filho de Oxalá se apresentou e me abrigou com uma conversa tão deliciosa quanto o gnocchi da fortuna que saboreei com um dia de atraso, “firmando” e pensando na simpatia que é de lei na casa da minha avó.

A conversa, embalada por uma garrafa de um excelente vinho português, de matar de inveja minha maninha  Maria Lima, fluiu gostosa. Como aquelas que temos com velhos amigos que se reencontram mesmo sem nunca terem se visto anteriormente. Cercada de atenção e carinho por Andrade, o encarregado de nos levar pelos caminhos das delícias do restaurante Macarronada Italiana.

Quando abri a janela, na manhã seguinte, o sol, que há dias andava de castigo encoberto por pesadas nuvens que traziam as chuvas e um frio de bater os dentes, daqueles que penetram até pelos pespontos da costura lateral da calça jeans, resplandecia abusado. Aquecendo meu corpo ele me intimava a um esforço extra para, ao menos, tirar dois dias de folga antes de rodar a roleta e jogar a bolinha que definirá meu próximo pouso.

Foi assim que cheguei ao pão com queijo na chapa e ao expresso duplo que me levou ao “tudo ótimo”.

Enquanto tomo o café e conto um conto pra você, fiel leitor(a) e confidente, ouço o toque do celular que interrompe e quebra minha concentração.

A voz que escuto vem de longe, bem de longe. Vem do Rio. É minha mãe que, atendendo a um pedido meio impossível, passa o telefone para Dona Ena. Minha avó, minha madrinha, minha mais antiga e mais querida amiga. O amor incondicional da minha vida.

Ela, que está no hospital, quase tão perto de Deus quanto de nós, que tanto a amamos, me chama de “Maria Valéria” e diz que me ama muito. Como sempre. Muitas vezes. Pedindo pra que eu me cuide, diz baixinho outras palavras carinhosas enquanto, tentando disfarçar a voz, sinto as lágrimas do “tudo ótimo” querendo deslizar pelo meu rosto. Ali, em plena padaria do posto de gasolina. Sei que ela vai sair dessa! Tenho fé e rezo para isso.

Não sei como está a sua vida, querido leitor, mas para mim, ainda que triste, ela sorri. E se alguém me perguntar, mesmo que só por gentileza, como estou, a resposta, você já sabe: Está tudo ótimo! E com você?

PS A minha foto de hoje é um ato. Feche os olhos e imagine quem está nesse retrato.

*Valéria del Cueto é acima de tudo, uma neta amorosa e apaixonada. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

 

Pegando o bonde andando

Texto e foto de Valéria del Cueto

Já passou por essa situação? Emocionante, estressante e… sei lá. Peguei o bonde, sem saber muito bem pra onde. É vida nova, paisagem diferente, outras pessoas e perspectivas. Um sacode e tanto.

Quando meu rumo era o centro, vim parar nos sul. Troquei o oeste pelo leste. O cerrado pelo litoral, emoldurado pela serra do Mar, no lugar da sempre bem vinda e aguardada silhueta da Chapada dos Guimarães. O calor seco e inclemente foi substituído primeiro por um dia de sol na beira da praia. Agora, pelo vento frio e a chuva fina que anuncia a chegada de uma frente fria.

Morram de inveja, amigos mato-grossenses. Do centro geodésico que povoava meu primeiro sono do início da semana, vim bater na ilha paradisíaca que abriga a capital de Santa Catarina, Florianópolis.

Ah, se fosse só uma mudança de paisagem… Aí não seria coisa minha, daquelas que fazem a vida ter mais que graça, ser maravilhosa. A ponto de valer cada sacrifício feito numa vida inteira para não ter amarras. Poder sair para ir ali e acabar chegando lá, sem medo de ser feliz. Sem deixar pendências ou gente insatisfeita. Fui!

Quer dizer, vim!  Por que, mesmo sem conseguir regular as coordenadas do meu GPS interno, sei que estou bem na foto. Afinal, já palmilhei essas terras em outras produções. Tudo é apenas uma questão de apertar a tecla F5 e atualizar a página do Google Map. “Muderno”, né?

É engraçado como as lembranças de verões maravilhosos, amizades da vida inteira e aventuras ainda inenarráveis, pelo simples fato que suas narrativas podem comprometer pessoas ainda vivas, ativas e atuantes, voltam com uma rapidez incrível.

Isso, antes mesmo de sair do aeroporto da ilha em direção à nova base. Quando o motorista pergunta qual o caminho que prefiro, a resposta sai assim, de pronto. Deixo o pantanal pra depois e peço que ele siga em direção a Ponte Hercílio Luz (como lembrei o nome?) e siga pela Beira Mar.

Me lembro de duas coisas do centro: a rodoviária, onde despachei um amor de verão para a Argentina em priscas eras e tantas vezes fui e vim de Bombinhas, Quatro Ilhas e adjacências ou fiz baldeação de lá para Garopaba e a Praia do Rosas. Quando a conheci, era novinha, recém-inaugurada. Agora, me conta o motorista, ela está pra lá de decadente. A segunda coisa era o grande Mercado Público Municipal, um conjunto antigo, construído pelos idos de 1898, que adorei percorrer explorando suas peculiaridades. Isso foi antes. Depois, já no novo milênio, uma parte pegou fogo, o que fez com que ele fosse revitalizado. Enfim, o que era novo e tinindo ficou velho e o que era antigo e decadente foi revigorado. Definitivamente faz tempo que não venho pra essas bandas, penso com o zíper do meu casaco, largado ao meu lado no banco do carro. A última vez que passei por aqui foi antes do incêndio fatídico.

Fala sério, está estranhando o teor desse texto, não é? Estranha não. A vida é assim. Num hora observações causticas, críticas inspiradas, pílulas de sabedoria política. Na outra, a constatação de que tudo é nada diante da chance (imperdível no meu caso) de começar tudo de novo! Que seria d’eu se não topasse essas reVIRAvoltas e fizesse delas assunto e mote das minhas crônicas semanais?

Certamente não a geminiana que vos escreve às pressas, numa madrugada chuvisquenta, na véspera da data limite para entregar minhas polidas palavras às mãos revisentas dos meus a-ma-dos editores, em vez de ir dormir e entregar pra Deus a minha ausência justificadíssima das páginas dominicais, impressas e internéticas, que publicam essas crônicas. A culpa é sua, caro leitor, que tanto amo. Para  desespero dos meus novos empregadores que amanhã terão uma simpática zumbi assombrando a equipe que será minha família pelos próximos meses. Depois conto mais!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Simples, assim…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Houve um tempo em que não era. Escrevia muito, escrevia sempre e ia liberando aos poucos as crônicas semanais de acordo com o astral da ocasião. Sexta a tarde, na Ponta do Leme, era pule 10 fartura da produção. O tempo passou e o que nunca acreditei ser possível, aconteceu: as crônicas que, pensava eu, teriam um caráter transitório, viraram um hábito de anos.
Já não sei quem nasceu primeiro: os textos ou o prazer de escrevê-los qual um ritual que, a princípio, era meio AA (Alcóolatras Anônimos). “Uma de cada vez”, dizia a cada nova publicação. Se funciona com o processo literário, é por que faz efeito para situações mais sérias e delicadas…
Não que não haja seriedade no que faço, ao escrever. Tanto há que depois de muitas luas a fome se juntou a vontade de comer e todos os meus queridos editores definiram o meu deadline, o limite para entrega do material, para a sexta-feira, às 15 horas, horário de Brasília.
Uma beleza e a certeza de que as mal traçadas linhas no caderninho nem terão tempo de secarem direito antes de serem digitadas para seu envio às prensas e sites.
Por isso, informo, estou aqui. Plena na praia da Ponta do Leme, sob um sol de rachar e uma ventania teimosa e enganosa.
Teimosa por descabelar o mar, adornar seu azul-esmeralda de carneirinhos brancos, obrigando as gaivotas a darem um duro danado para manter o rumo desejado, deixando os surfistas a verem os navios que esperam a maré alta para entrarem na Baia de Guanabara. Por que o mar, apesar de batido, cheio de correntezas e valas, está uma droga para os atletas, com ondas baixas disformes e mexidas.
Isso é o entorno, por que o contorno está um caos. Não há barreira nem peso que segure a canga, lotada da areia que passa – enlouquecida e desgovernada – levada pela ventania. Aquela que pinica nas partes do corpo em que bate, gruda e vai com a gente pra casa escondida nos cabelos, nos cantos da bolsa, do bolso do short, nas dobras da camiseta, no meio do livro, no caderninho…
Essa é a parte da teimosia. A do engano, além de tudo, pode ser dolorosa. Especialmente para os turistas desavisados e despreparados que não conhecem as manhas da praia em dias de viração. Eles, que de tão fortes provocam arrepios de frio, por que vem do sul, são os mesmos ventos que mascaram a força dos raios solares que estão tinindo no veranico de meio do ano. O resumo da ópera são as queimaduras inesperadas, aquelas que só descobrimos quando a água quente do chuveiro toca na pele castigada pelo sol inclemente.
Para fechar meu espaço literário dominical, duas observações. Uma nunca havia visto, outra, que fazia tempo não via.
A primeira, os grãos de areia abusados grudado na tinta da ponteira da caneta que estou usando que fazem falhas minha escrita praiana.
A segunda, as várias piscinas na beira da água, onde crianças se divertem e, protegidas pelos caprichos esculturais da maré baixa, não se incomodam com o desconfortável entorno provocado pela tempestade de areia que assola a minha Ponta, sob um sudeste poderoso. A ponto de tirar da paisagem a enorme bandeira brasileira que sempre tremula hasteada no Forte Duque de Caxias, no alto da Pedra do Leme. Sinal dos tempos, aviso dos dias que estão para chegar…
Agora peço licença, caro leitor, mas vou ali, até uma das piscinhas naturais, formadas pela maré, brincar de fazer castelos de areia e olhar o mundo sob o ponto de vista das crianças. Simples assim…
Por que hoje é sexta, estou na Ponta e a crônica já está misturada, só falta descansar para poder ir pro do forno.

…………………………..

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Faroeste urbano

Por Marli Gonçalves

Desvia! Olha para o lado! Para! Mãos para cima! Documentos! Cuidado com o portão! Passa tudo para cá!Olha a liquidação! O cara vai cair do andaime! Pápápá! Ratatá! Olha o buraco! Roubaram a tampa do bueiro! Boom! Eu disse para passar tudo-para-cá! Poin! Bibibibibibibi! Pare, olhe, compre! Oferta, somente hoje! Daqui a pouco teremos até duelos pelas ruas, porque gente sendo jogada na calçada por seguranças, para fora do saloon, isso já temos… Tente sair de casa e voltar, sem se aborrecer.

Nasci em plena área urbana, das mais movimentadas da Capital; pouco conheço da tranquila e bucólica vida fora disso e o que sei é meio fantasioso já que até explosão de caixas eletrônicos já chegou onde antes só havia o footing, o tédio e o coreto da praça. Também não dá para dizer que o problema – pelo menos esse – é nacional, já que o mundo todo está em pé de guerra, e a barbárie espalhada. Mas se não fizermos algo na linha do agir localmente, e logo, sei não.

As cidades parecem aqueles jogos de minas terrestres. Pisou em uma, Boom! Você não sabe se vai ou se fica. Se usa um vestidinho ou um colete à prova de bala. Se põe capacete ou chapéu. Se leva a bolsa ou um porrete. Se põe perfume ou joga spray de pimenta. E – cuidado! – se for usar o celular. Essa semana a polícia matou um à queima-roupa porque confundiu um celular (descarregado, não dava nem para fritar pipoca) com arma, e “porque ele estava com um negócio preto na mão”… Meninas, cuidado. Inclusive dentro do carro.

De forma geral, ninguém mais fala bom dia, obrigada, dá licença, olha na sua cara direito, responde de bom grado alguma pergunta. Se gentileza gera gentileza, imagine o que é capaz de nascer de um estado de espírito de confronto, inclusive de classes, que vem sendo proposto e incentivado nas nossas fuças. Está todo mundo devendo na praça, ou querendo comprar e não pode. Mas as ofertas chovem, e as necessidades também.

O trabalho anda escasso, periclitante, e quem tem, tem medo. A gente não quer ver bandido, mas se vê polícia sente pavor. Não sabemos mais o que é de verdade e que não é. Roubam-nos, de perto, de longe. Vai no restaurante, bar, padaria e pode ser arrastado. Até quando estamos em casa entram em nossos computadores e nos lesam. Bancos nos arrancam centavos, e somam bolinhas nos juros, e as companhias que nos servem os essenciais são essencialmente é muito descaradas. Quem mais se lembra dos meninos de rua que arrancavam cordões de ouro? Quem mais se lembra dos trombadinhas?

Como dizia, difícil é sair e voltar para casa no fim do dia sem ter tido pelo menos um aborrecimento, seja de carro, a pé, no metrô, trem ou avião. Ou no elevador, mesmo. Pisou no cocô. Ou no chiclete. Deu uma topada na pedra solta. O carro passou e jogou água do meio-fio. Torceu o pé no buraco. Foi atravessar e veio uma bicicleta na contramão ou aquele apressado do farol amarelo. Ficou esperando e o sinal de pedestre, aquele que você aperta o botãozinho várias vezes, não ficou verde. Ou ficou, por segundos. Corra, pessoa, corra! O guarda? Está lá anotando a placa de alguém, mas não daquele que quase te atropelou – ele prefere coisas menos, digamos, trabalhosas, tipo cinco minutos a mais da Zona Azul.

Fura fila. O portão da garagem abre ao contrário, na sua cabeça. Olha o cara varrendo o chão – e os seus pés – com água, com mangueira. O táxi passou. Vazio, mas não parou. Não, não mude de faixa senão os motoqueiros malucos podem promover um linchamento. Inferno esse bibibibi deles cortando as faixas. Já não bastassem os carros dos funkeiros que fazem questão que você os ouça, agora candidatos distribuem alto-falantes gritando seus nomes.

O cara está socando a mochila em você, aquele ser. Como tão bem lembrou Ruy Castro outro dia, todo mundo com mochila nas costas, e como elas fedem! Morrinha. Cheiro de chulé. Tenta passar pela direita, pela esquerda… Tem quem acredita que comprou a rua. Cuidado com o cachorro solto, que o dono pensa que não morde, e sempre pode ter uma primeira vez. O arremesso de bituca acesa não é mais só de cima. Mais comum ainda agora que todo mundo fuma nas portas ela atingir sua perna.

Segura sua onda. Calma. Quem te aporrinha pode ser da minoria, qualquer uma, que essa hora aparece para justificar, como se velhinhos, mulheres, crianças, pobres fossem imediatamente inocentes, anjos celestiais.

A vendedora trata com desdém quem entra na liquidação – a verdadeira queima, fogueira, que está havendo, para onde se olha, para ver se o dinheiro circula nas veias do país, que ora vai bem, ora se afoga na marolinha. E leva o dicionário! Sale, Off, winter off. Até 70%! Quando é que a gente vai entender que, se dá para dar desconto de 70%, a exploração era braba, e o melhor mesmo é esperar que eles nos atraiam com as plaquinhas.

Não ser enganado, não ser morto, não matar. Não cair, não dar uns petelecos por aí.

Não saia sem fazer o sinal da cruz, sem orar por São Jorge guerreiro. Não viva sem pensar que temos de mudar, em busca da civilização, e que isso pode levar gerações.

São Paulo, obstáculos olímpicos, 2012Marli Gonçalves é jornalista– Criada em megalópoles conurbadas, conturbadas e estressantes. 

Os curibocas

Por  Francisco Bezerra Siqueira

Somente as verdades não são suficientes para contar toda a história de um povo, pois cada povo tem sua mentira particular. Esta é, portanto, uma história incompleta, pois será contada somente a verdade – verdade viva e vezeira, a história dos Curibocas. As mentiras serão contadas em uma próxima vez.

É uma história verdadeira, repita-se, contada em todos os seus detalhes. Até os bichos já sabiam esta história no tempo em que falavam. E a contavam aos seus descendentes, como forma de perpetuá-la e para seus filhotes dormirem. Não foi escrita antes, claro, porque os bichos não escreviam, só falavam. Mesmo assim, não há bicho, mesmo os de hoje – que não falam nem escrevem – que não saiba esta história. Eles já nascem sabendo e tudo todos sabem desde que nascem, sem que seus pais precisem contar. São os bichos dos novos tempos! Dizem que é por isto que eles deixaram de falar. Em tempos imemoriais, eles concluíram que a fala é dispensável, já que nada garante e, volta e meia, inventa mentira, pois toda história, antes de ser escrita, é contada – pela fala. Ninguém é capaz de contar (falando) a mesma história duas vezes, sabiam os bichos. Além do mais, para garantir o que diziam, os bichos teriam que inventar papel, tinta, caneta, computador, internet, borracha; criar cartórios, estudar Direito, Gramática e se preocupar com outras invencionices, igualmente perigosas, como jornal e prospecto de remédio. Depois, verificariam que, mesmo escrita, a história nada valeria – era história de bicho, diriam os homens, jogando o papel amassado na lixeira. Aliás, eles nunca quiseram convencer os homens de nenhuma verdade. Eles, que se dizem racionais, que busquem seus próprios rumos – pensavam. Por fim, os bichos tiveram medo que história igual à dos homens pudesse acontecer a eles, pois, certo dia, ouviram de uma sombra sonora:

O que te assemelha aos homens é a fala

O que te diferencia dos bichos é a alma

Então, os bichos calaram. Perderam o dom da fala. Ficaram com os ouvidos para ouvir o que mais tarde com os olhos constataram: grande tropel de cavalos com homens neles montados, em trajes esfarrapados sobre corpos muito fortes, dizendo que era ali, no meio daquele mato, que um dia ergueriam o Reino dos Curibocas; o reino dos libertários, onde “jorra leite e mel”, longe dos homens de leis que, feitas do jeito deles, só a eles vão servir. O reino dos que fugiram da moenda do engenho, do chicote e do trabalho dobrado na casa-grande. Um reino de Curibocas de sangue dosado à cama de índio com preta ardente. Aquele ambiente hostil, de cobras e lagartixas, seria – quem sabe? – um dia transformado em paraíso para os que precisassem conviver em harmonia. E a quem lá chegasse, ninguém se atreveria a perguntar quem já foi, de onde vem ou o que naquelas plagas queria. Bastava se apossar das benesses do lugar, sem ganância e sem orgulho e a todos respeitar, estabelecer convivência sob as regras do lugar – as regras do bem viver! Precisa que algo mais este escriba explique?

Este Reino foi fundado onde o vento fez a curva, onde a chuva nunca andou, onde o cão anda montado num redemoinho açoitado do oco do cu do mundo; onde a justiça passou montada na besta fera, onde o bucho não produz a merda de cada dia. O nome desse lugar? Tente você descobrir, onde fica e como era. Para lhe facilitar, diminuir seu engano, uma pista vou lhe dar: não procure onde tem terra, nem localize num mapa; veja aonde tem gente injustiçada e ganância, aonde não tem partilha e aonde a bonança é pra uns e as mazelas pro resto; saiba que este Reino, não tem vizinho ao lado, sempre esteve oprimido, muitas vezes misturado a outro reino de cima; o que os delimita – estabelece fronteiras – é a riqueza de um em detrimento do outro; é o canto de protesto do reino que nada têm; é a justiça do rico reino todo poderoso sobrepujando o dos pobres; é a diferença da cor do cabelo, olho e pele. Que outros reinos tivessem por lá se estabelecido nunca pra eles foram qualquer forma de perigo. Sabiam de ouvir falar de outros reinos e reis. Que para as bandas do leste havia a Pedra do Reino; que muitos dali temiam um tal de Rei do Cangaço; que o Rei Zumbi dos Palmares morava muito distante. Aplaudido e respeitado somente o Rei do Baião. Misturado tudo isso fica fácil definir o Reino dos Curibocas, do qual estou lhe falando.

Ali nasceu, floresceu e hoje somente arqueja – já que nem a morte quis – a terra dos enjeitados, o mundo dos esquecidos, o inferno que não tem cão, o céu que Deus esqueceu, o lugar onde só vai quem tem mãe e gosta dela. Pois foi lá naquelas plagas – exatamente ali onde tudo parecia desfavorável à vida – que um ferrenho feitor, feio, fraco e fedorento de porte pequeno e pedante, porreta palestrador, destemido e petulante fundou e denominou o Reino dos Curibocas. Um Curiboca da Gema, ele próprio se dizia, depois de verificar que para ter alma salva não precisa renegar quem é ou foi Curiboca. Isto é o que você vai ler no mote e no tema.

Já tem mais de quatrocentos anos que os Curibocas habitam aqueles sertões. Até hoje ninguém sabe, o tempo que pra trás fica, o dia em que o primeiro deles por lá fincou pé. Se era branco ou mulato, preto ou mameluco, fugidio do seu dono, assassino condenado, degredado lusitano. Parece que todos eram aventureiros capazes de qualquer vida infeliz desde que lá tivessem a liberdade, o trabalho e com suas próprias leis julgassem e condenassem; estabelecessem direitos que deles também fizessem donos daqueles sertões. Por todos aqueles anos, cruzaram com índio bravo, com pretos e com cafuzos, com Curibocas também e muitos e outros tantos Curiboquinhas geraram – contados em dúzia, dezena, às vezes, até chegando a uma vintena ou mais. O filho é Deus quem manda e Deus em sua bondade, dá um jeito de criá-lo.  Rejeitá-lo é pecado. É recusar a ajuda que mais cedo ou mais tarde um dia vai precisar – é assim que o Curiboca vê a família crescer.

Viveram em uma terra distante e ignota, sem despertar uma linha de quantos fizeram História. Escribas, claro, vieram (ainda os há por lá) para relatar somente o que cabe por inteiro nas regras dos seus conceitos: sociologicamente, daqueles que dominaram; antropologicamente, das castas que lá formaram. Os Curibocas – Ah! Os Curibocas? – se quiseram ser lembrados e se sobreviverem ao tapete que cobre muitas verdades, terão, por eles próprios, que contar a sua História, sob pena de um dia vê-la desvirtuada, de outra forma contada, quem sabe, até esquecida. Pois aos Galegos de lá nunca interessou contar história “daquela ralé” que pudesse em um só fato, genealogicamente, manchar passado e presente, daqueles que se fizeram, pela força do chicote, novos donos do lugar. Contados em verso e prosa, somente os que carregam W no seu sobrenome ou se lá em Trás os Montes tiver o seu pedigree. Somente os de pele branca, olhos verdes ou azuis e sobrenome lenhoso – Carvalho ou Oliveira – serviram de referências àqueles que escreveram a História dos Sertões. Que me permitam dizer – e sem querer contestar o Jorge de todos os santos, nem o Lins e seus engenhos, o Graciliano da seca, o Euclydes dos messiânicos – mas a história completa dos Curibocas de então – verdade useira e vezeira – foi contada por inteiro, pela mais emocionante forma de literatura que o sertão conheceu – o folheto de cordel. Dele foram autores os mais perfeitos poetas, cantadores e cronistas, destemidos jornalistas, filósofo de toda sorte. Não houve um fato bíblico ou catástrofe natural, acontecimento político, desilusão amorosa que não tenha sido algum dia versado para a linguagem dos Curibocas de lá. Na forma escrita p’r’aqueles, com abc dominado; no canto e no recital, para os desafortunados da leitura e do saber. Se a História Oficial tivesse sido contada pelo dom dos Curibocas, seria a História completa. Que diria que eles são “antes de tudo um forte”; mas se diria também que muitas conquistas lhes faltam, apesar de serem fortes; que apesar das mazelas lá sobra muita altivez, capacidade de luta, pra começar outra vez.

Foi o gênio inventivo dos Curibocas de então que moldou o mais antigo – inusitado também – tipo de convivência de entidades fantásticas, reais e imaginárias de que aquele sertão hoje tem conhecimento. Por anos a fio viveram do que a mãe natureza, ainda que muito ingrata, a eles ofereceu. Pois quando por lá chegaram, se nada consigo tinham, tiveram que tudo inventar; se nada então sabiam, tiveram que tudo aprender. Para explicar o que não conseguiram entender e o que a eles foi impossível aprender, criaram seus deuses pródigos, fartos em proteção e entidades satânicas, misteriosas, malignas, horrendas e vingativas. E foi assim que de tudo, todos eles inventaram: para comer, a buchada, para a comida, o alforje; para montar, o muar, para a cozinha, a trempe; para beber, o aluá, para dançar, o xaxado; para cantar, a toada, para a promessa, a novena; para a morte, a incelência, pra proteger, a arruda; para a fiança, o bigode, para vestir, o gibão; para a boiada, o aboio, para morar, a tapera; para curar, a meizinha, pra competir, a corrida; para fumar, o palheiro, para vingar, a tocaia; para impor, a peixeira, para bicho, a caipora; para esconder, a botija, para dormir, a esteira; pra transportar, o jumento para adoçar, o mascavo; para cheirar, o torrado, para contar, o cordel.

O Reino, por sua vez, foi todo ele prodígio. E todos os Curibocas souberam aproveitar, com tino, engenho e arte as benesses do lugar. Em abundância encontraram: caroá, para amarrar, caldeirão cheio de água, aroeira para linha, urucum para corante, cabaça pra botar água, chapadas para plantar, imbu para tira-gosto, ervinhas para curar, carnaúba pra varrer, lagoas para pescar, malhada pra criar gado, faveleira que fazia rim de bode criar sebo, camaratuba de monte, para o gado engordar, caça de todos os tipos, para a mesa fartar. Que delícia este lugar!

Com as benesses da terra, braço forte e coragem, criaram lá nos sertões os currais do São Francisco. Subiram o Velho Chico, chegaram no Piauí e fundaram feitorias nas fraldas do Araripe. Pulando a serra chegaram ao Vale do Cariri. (Mas isto é outra história pra ser contada outra vez). Nos Currais do São Francisco, criaram boi de tração para o engenho banguê moer cana e produzir melaço de rapadura e mascavo para os D’Avilas açúcar branco fazer. E nos currais das caatingas, longe das águas do rio, produziram boi erado pra boiadeiro tanger nos rumo do litoral. De carnes abasteceram as mesas das capitais e os garimpos longínquos das belas Minas Gerais.  Fizeram roupa de couro, era de couro a cadeira, a cama, a porta, o surrão, o chapéu e a botina, o currulepe, o chicote. Tanto gado produziram, tanto couro utilizaram, que este tempo ficou na História nominado a Civilização do Couro.

No Reino dos Curibocas, todos tinham profissão. Se homem, veja então a lida de cada um: Becisa era vaqueiro, Rufino campeador, Luizão bom curtidor, Zé do Baixão o ferreiro; Juvenal era roceiro, Adalberto carpinteiro, Anísio bom sanfoneiro, Totonho o pescador; Tião era funileiro, Agostinho bodegueiro, Zezinho bom zabumbeiro, Terêncio o pistoleiro; Benedito era seleiro, Agostinho sapateiro, Deno bom violeiro, Valdemar o cantador; Bento era rezador, Galdino amansador, Claudivar bom alfaiate, Lourival o repentista; Josué era vaqueiro, Severino lavrador, Claudionor bom roceiro, Juventino o coveiro; Luiz era carvoeiro, Sebastião curador, Cazuza bom tangerino, Clementino o oleiro; Pedro era pedreiro, Cipriano tecedor, Santinho bom sacristão, Lourival o cantador; Justino era barbeiro, Osvaldino zelador, Odilon bom varredor, Valdivino o castrador; Josias era sineiro, Cipriano tecedor, Celestino bom vigia, Jeremias o capanga; Manuel era queijeiro, Jesuíno garrafeiro, Lucas bom lenhador, Arlindo o morador; Elias era marchante, Severiano feirante, Afonso o bom tropeiro, Otoniel o feirante; Juvenal era mascate, Aureliano leiteiro, Lucas o bom cerqueiro, Francisco o serralheiro.   Não era ofício de homem fazer roupa de mulher; e mulher ir para o eito era uma covardia de marido preguiçoso, o que lá não existia.

Se mulher, assim vivia cada qual, em cada qual, na lida de cada dia: Dora era cozinheira, Dulcinéia costureira, Santinha a benzedeira, Zefa era lavadeira; Lurdes era passadeira, Terezinha fiadeira, Carolina a doceira, Marinalva era copeira; Socorro era parteira, Albertina costureira, Carlota a carpideira, Luzia era rendeira; Graça era professora,Sebastiana a vidente, Arlete a merendeira, Vilani era babá; Rosa era ama de leite, Iraídes bordadeira, Iraci a varredeira, Camila era boleira.

Que outro ofício houvesse – vez por outra aparecia – sempre tinha um Curiboca capaz de ser o seu mestre. Claro, menos aquele, que não combina com homem, quanto mais se ele for, Curiboca de valor, o que todos de lá são.

Viviam em harmonia, sem se negar a favores. Em mutirão resolviam o que um só não podia. Nem a seca resistia ao trabalho em união: mandacaru para o gado, cacimba para beber, botar vaca no jirau, curar bicheira de boi, eram trabalhos de todos, quando a seca inclemente a todos vinha atingir; comida, roupa e calçado, era tudo dividido. Sabiam que sofrimento quando é compartilhado pra cada um sobra pouco. E “pouco com Deus é muito”, costumavam repetir, em inabalável fé. Curiboca nunca foi de deixar ninguém na mão, mesmo não tendo sobras para atender ao pedido. “Seu pedido é uma ordem”, era a resposta de sempre, a qualquer necessitado.

A seca, sempre inclemente, chegava todos os anos – mais branda ou mais cruel, como acontece até hoje. Era desígnio de Deus. Não há como recusar aquilo que Ele manda. Enquanto a água não vinha pelos riachos correndo, nos seus leitos arenosos perfuravam as cacimbas. Como se fosse um milagre, brotavam das profundezas os fartos veios de água – veios que são as lágrimas da terra tão generosa. Não tinham desesperança: sabiam que por debaixo daquela paisagem cinza, com cheiro e cor de morte tudo teima em renascer na hora que santo Pedro abrir as portas do céu. É esperar para ver: pasto crescendo e gado engordando; caatinga florando e imbuzeiro botando; açude enchendo e sapo cantando; bezerro nascendo e leite jorrando; a asa branca voltando e o vaqueiro aboiando. A seca? Ora, qual seca? Uma lembrança distante. Dali pra frente somente trabalheira prazerosa: campear, curar, ferrar; ordenhar, coalhar, curar; roçar, queimar, coivarar; cercar plantar, limpar; colher, bater, soprar; consertar guardar, vender. Na festa da ferra do ano, a buchada a carne seca, o requeijão, a coalhada, o milho verde, a pinga, o riso solto, o sossego.

Tiveram na honradez a pauta de suas vidas. Nunca se viu Curiboca dever a alma ao diabo, dever aposta de jogo, dever honra de menina, dever cachaça na esquina, dever favor a amigo, dever a bênção à mãe, dever pecado ao padre, dever o coito a quenga, dever dinheiro emprestado, dever sem se desculpar. Foi dispensável cartório e juiz pra resolver pendências e compromissos. Pra eles o que bastava era a palavra de homem. Nem um fio de bigode precisava empenhar – para um cabra da peste o que conta é sua honra; não fique desconfiado quando ele lhe falar que tudo está combinado. Mas tinha a faca peixeira, o rifle, o bacamarte pra todo cabra safado que não sustenta a palavra; que bole com moça virgem sem a bênção do vigário ou sem pedir ao juiz. Se não tinha o vigário ou o Juiz de Direito, que fosse um Juiz de Paz. Não podia era ficar o feito pelo não feito. Quando mais tarde visse o santo Frei Damião celebrar suas mões, a bênção do matrimônio tiraria do pecado aqueles amancebados. Pois casamento de fato, só era considerado o que era celebrado com padre e sacristão.

Mas teve herói Curiboca. Daqueles que não suportam usurpador de poder. Em busca da liberdade, correu mundo defendendo quem precisava de bala pra se fazer respeitar. Inspirou-se em Jenipapo, conspirou em Juazeiro, defendeu Pau de Colher. Foi capanga de Silvino, coiteiro de Virgulino, trocou tiro com milico no dia Nove de Julho. Acompanhou a Coluna, lutou pela Intentona, resistiu em Trinta e Sete, foi preso do Estado Novo. Aliou-se a Julião e combateu com Lamarca. E até na Grande Guerra Curiboca defendeu a liberdade e a paz. Só não lutou na FRELIMO nem no MPLA. Perderam-no os que ganharam aquelas guerras de lá. Na volta para o sertão, quanto verso de cordel a sua história compôs!

Nas artes, se destacaram. Criaram cultura própria. Seus gêneros musicais, seus ritmos e suas danças, são formas de expressão não vistas até então. A poesia popular, na forma de verso e música é um dos mais belos ecos dos belos cantos jograis. O Baião e o maxixe, cantiga de roda infantil, forrobodó e o xote, cordel cantado e falado, história de caipora contada em boa prosa, desafio de viola improvisado na hora. Que delícia é o canto do martelo agalopado! E belas bandas de pífanos, com zabumba e reco-reco, pra novenas festejar; e o livro de cordel que lhe conta a fiel história de Lampião; e o canto de viola que lhe conta em verso e prosa como vive o catingueiro: de promessa o ano inteiro. Nas rodas de São Gonçalo, onde ponteia a viola, pagam promessas com cantos, danças e muita comida. Tudo isto e outras tantas manifestações de raiz – como diz o folclorista – de beleza engenho e arte, forma o caldo cultural – como diz o reticente – dos Curibocas de lá dos sertões do São Francisco.

Ainda hoje, autores – poetas e literatos, artistas bem renomados – têm suas inspirações em temas lá dos sertões. Pesquisam e lá encontram – em inesgotável fonte – motivos pra recriar em formas, motes e temas, façanhas do Nego D’Água, histórias de Caipora. Todas de pura verdade. E ai de quem duvidar – e quem duvidar verá: Nego D’Água virar barco, Caipora espantar caça. É pena que o machado com sua fome de lenha e de madeira de lei tenha tudo devastado, ficando a Caipora sem lugar para morar. Com tanta ingratidão, ameaça se mudar.  Que o assoreamento não expulse o Nego D’Água das águas do Velho Chico. Valente como ele é, não tarda em procurar outro rio pra morar. Um rio de águas claras, fartas e sem esgoto – se é que ainda tem tão gostosa moradia. Por enquanto vai ficando, disse ele a um pescador – um pescador que não mente.

O Pastoril no Natal, a festa dos três Reis Magos, Semana Santa e São João, são festas nacionais, que lá no sertão também, já eram comemoradas nos tempos dos Curibocas. Com folguedos festejavam os santos daqueles dias. Mas a festa de São João – aquele do carneirinho – ficou sendo a principal. Fogo de Zé Fogueteiro, dança de par e quadrilha, casamento de mentira, compadrio sem afilhado; e as comidas do milho de tanta variedade – bolo, canjica e pamonha, cuscuz, angu e curau; pra completar o banquete, beiju de coco e cocada. A cachaça de cabeça rola solta a noite inteira, sanfoneiro animado só toca xote e baião, pra dançar apertadinho. Sem falar no namorinho no escuro do oitão.  Se faltar par, ora essa! Dança mulher com mulher.  Se faltar mulher então, tem rixa certa no baile. Pois Curiboca não dança nem só nem com outro homem, nem é de ficar em baile parado pensando asneira. De carnaval nunca ouviram, naqueles tempos, falar. Se ouvissem, tenham certeza, seria considerada a festa de satanás.

Na culinária então, que sabores têm lá! Paçoca socada em pilão, buchada e sarapatel, miúdos de bode assado, macaxeira cozinhada – assada, então, que delícia – servida com carne frita.  Feijão verde temperado com farinha misturada na raspa daquele tacho onde foi cozido queijo de coalho ou de manteiga, rapadura e alfenim, são delícias que têm cheiro das cozinhas das caatingas. Pra temperar e dar gosto, cebolinha e pimentão, cebola que faz chorar, tomate coentro e salsinha, colhido verde e fresquinho na horta lá do quintal. Pra preparar tudo isso, um belo fogão de lenha, panela de barro e tacho.

Mas chegou a exaustão – coisa que este escriba nem gosta de se lembrar – pois durante quatro séculos tudo tiraram de lá. Sem nada repor, a terra, a flora, a fauna e os rios começaram a definhar e com eles, claro, os Curibocas também, pois “o martírio do Homem, ali, é reflexo de tortura maior… nasce do martírio secular da terra” – já dizia, sabiamente, o nosso Euclydes da Cunha. E os pastos rarearam, as madeiras se acabaram, as aguadas, quase secas… Veio o êxodo rural – inexorável seria – para constatar o que Joaquim Nabuco dizia: “poucos são os netos de agricultores que se conservam à frente das propriedades que de seus pais herdaram”. Também ficou confirmado, segundo o mesmo autor, o adágio popular: “pai rico, filho nobre, neto pobre“.  Os sinais de esgotamento podem ser detectados pelas desigualdades que foram aprofundadas entre as classes sociais, pela escassez crescente dos recursos naturais e pela degradação daqueles ecossistemas. É desolador o abandono de tantas fazendas de gado dos sertões dos Curibocas, como de resto ficaram todas de lá do Nordeste.

Nem todos se retiraram – não viraram retirantes em terra distante e alheia. E os que lá ficaram, muito arraigados à terra, tocam a vida pra frente, no rumo de seus abismos – abismos que eles próprios sempre souberam evitar, conhecedores que são da vida lá dos sertões. Há ainda os que trocaram a chuva do santo Pedro, pela chuva que os homens fazem jorrar dos seus canos. E vejam só que ironia: tem Curiboca colhendo fruta fresca no sertão para fartar europeu que nem sabe que ele existe…que no sabor dessas frutas está também embutida toda uma história de vida.

Tivesse sido este reino cercado e bem conservado, por certo seria um bem para ser visto e gozado e pra servir de exemplo pra muito homem malvado. Não precisava de cerca feita de mourão e vara e nem arame farpado, que não havia por lá, precisava ser usado. Bastava a cerca da Vida: a cerca que, destruída, sempre teima em renascer.

………………………………………….

Referências Bibliográficas

Euclydes da Cunha – Os Sertões. Livraria Francisco Alves. 27ª edição, p. 43, 48

Joaquim Nabuco – O Abolicionismo. Nova Fronteira p. 162

Francisco Bezerra Siqueira – Editora Verano – Rumo Reverso

O riso alegre do Rio

Por Valéria del Cueto, texto e foto

“Hoje eu não quero chorar, hoje eu não quero sofrer. Guardei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar…” Por que, lá do fundo do profundo poço, surgiu um sorriso. O sorriso.

Vi na capa de um jornal. Nela um personagem exultante, vestido de laranja segurando sobre os ombros uma bandeira do Brasil, rasga  o espaço de corpo inteiro. Corpo e alma. Trata–se de Renato Sorriso, o gari carioca que vai encerrar as  Olimpíadas de 2012, em Londres, representando o Rio de Janeiro, próxima parada dos jogos mundiais.

Conhecia o Sorriso de vista de alguns carnavais quando, em 2000, fui trabalhar na produção de um filme institucional sobre a Cidade Maravilhosa, chamado “Rio Incomparável”.

Peguei  o bonde andando, já com alguns dias de filmagem e, ao me incorporar a equipe, fiquei encarregada de  cuidar do elenco do dia composto por atores e figurantes acomodados numa van e iam sendo distribuídos nas filmagens nos pontos turísticos do roteiro. Foi entre eles que (re) conheci Renato Sorriso, o gari que encerraria o filme.

Foi um longo dia em que tive a oportunidade de constatar que o sorriso do Renato não era apenas uma expressão facial, mas um estado de espírito composto de gentileza, educação, humildade e simpatia.

Ele rodou o dia inteiro com a equipe. Sua participação, atrás do Museu de Arte Moderna, no cenário do Aterro do Flamengo, com a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar ao fundo, tinha que ser ao cair da tarde quando a luz estaria no ponto desejado pelo diretor de fotografia Lula Araújo.

Claro que meu vício jornalístico foi maior e, depois de almoçar ao lado dele, já estava com a ficha completa do gari. Sabia inclusive, a merreca que ele ia ganhar para “assinar” a produção que correria o mundo como peça de propaganda da campanha publicitária que venderia o Rio de Janeiro no exterior.

Um detalhe, diante das histórias saborosas e do carinho do Renato que, não conseguindo ficar parado, acabou de assistente da assistonta que vos narra. Finalmente, quando chegou a hora de sua participação, acabou dando uma aula sobre vassouras da Comlurb, se recusando a contracenar com um exemplar genérico para não denegrir a imagem de seu material de trabalho!

Nunca mais perdi Renato de vista. Adoro o cara e sinto modéstia a parte, a cada reencontro, sempre emocionantes e cheios de registros fotográficos, que a recíproca é verdadeira. Todos os anos nosso encontro é inevitável, tem data e local marcados: na Sapucaí, no carnaval.

É o único momento em que – sei – coloco meu equipamento em risco ao abraçá-lo bem apertado ciente de que seu suor abundante, provocado por seu desempenho ao sambar pela avenida afora, pode causar “danos enxugáveis” às lentes e máquina fotográfica, mas que sua energia boa não tem preço sendo um dos sinais que, mais uma vez, estou no local certo, fazendo a coisa certa, por mais um ano, graças a Deus!

É quando saio do meu papel de fotógrafa compenetrada e me permito “brincar”! Normalmente de roubar sua vassoura quando ele a deixa equilibrada e sai para sambar para o seu povo das arquibancadas. Foi assim que, há alguns anos, fui flagrada num desfile do grupo de acesso pelas câmeras de uma TV: de molecagem com o sorriso do Renato. A quem declaro meu representante pessoal e intransferível da alegria carioca. Por que ele, que chegou de mansinho e humildemente estabeleceu seu reinado incondicional de gentileza e amizade, merece ser reconhecido, acarinhado e coroado!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Quem faz nem se sacode, mesmo quando não pode

Por Valéria del Cueto, texto e foto

Em cima do laço, tento manter o traço e faço de meu compasso medida para decidir. É tempo de olhar, apreciar e analisar, para DEPOIS… votar!

Sou do bem e estou de mal com quem só quer o que é mau. Rebelde e guerreira que sempre fui, achava que essa força se esvairia com o tempo. Qual o quê. Sigo implacável. Não tenho um pingo de piedade com quem não faz direito seu papel, insiste em jogar pra torcida e comete todos os tipos de jogadas proibidas achando que está abafando. Entrou em campo? Conhece as regras? Então trate de segui-las. Não apenas por obrigação, mas para mostrar sua convicção em relação ao que é certo ou errado. Isso é sinal de respeito com seus opositores e quem assiste de arquibancada a partida.

Ética, a ética. Conhece essa palavra? Sabe o que significa e implica? Se não sabe, sai da reta, pega o rumo, pica a mula ou passa longe, por que não tenho mais paciência para aguentar mentirosos e embromadores capazes de qualquer coisa por um pouco mais do mesmo cesto podre: o poder! Peguei pesado? Eu não! Eles que já botaram suas garras de fora mesmo antes do tempo regulamentar e que, quando adentraram o gramado saíram cometendo infrações a torto e a direito, sem medo de serem verdadeiramente punidos!

Fez uma, duas, três? Sai de campo, meu irmão. Está provado que não há respeito ao próprio pleito. Tá, te dou uma moral: em vez da decisão ficar restrita ao apito do juiz, vamos usar também o recurso de replay. Ele não mente jamais!

Nessa eleição a farra é nacional, mas está fragmentada: não há informações gerais, por assim dizer. Então a festa come solta! Por isso sugiro que o TSE produza um mapa nacional das irregularidades para que o país possa ver como a banda vai tocar seus vários instrumentos: de sopro, percussão e as cordas. Vai ser uma cacofonia! Com a pesquisa teríamos um ranking partidário, do quesito “quem faz mais merda” e, portanto, já demonstra sua intenção de enganar o eleitor. Sim, por que quem faz para se eleger, imagina do que é capaz depois de eleito. Imagina não. Dá muito trabalho e precisa puxar pela cabeça. Abre os jornais que está tudo lá!

Seria apenas uma questão de sistematizar as decisões na medida em que fossem saindo e jogá-las num banco de dados único para nossa gente bronzeada poder ver quem está no topo da parada dura das irregularidades eleitorais. Primeiro foram Haddad e Lula, depois Serra. Todos ainda antes de começar a campanha. Se a multa é tão ridícula e ainda pode ser paga por terceiros, vale a pena errar, inclusive desumanamente, repetidamente.

O atual prefeito do Rio de Janeiro é um que pegou a manha e está com bico para exercitar seu direito(?) de ser punido. Em poucos dias de campanha já chutou várias vezes a gol: deu a largada participando de várias inaugurações Dilmisticas, inclusive de um projeto apenas 10% concluído. Vaia neles que eles merecem! Na sequência, um final de semana, fomos brindados com gravações telefônicas pedindo votos pro cara. A compra de banco de dados é proibida. Infernizar a vida alheia não. Ele deve ter usado sua vastíssima agenda pessoal. Adentrando o gramado da apelação pura e simples, o  vascaíno Eduardo Paes pegou carona na chegada ao Botafogo do jogador holandês Seedorf. O recebeu com o presidente do clube, filiado ao PMDB, no Palácio da Cidade. Cumprimentar o alcaide é praxe para todos os que aqui chegam! Tente ir lá. Ou, se for funcionário, aguarde notícias por que anexado ao contracheque de junho veio um panfleto falando dos feitos realizados. Crime eleitoral…

Enfim, se abriram as porteiras do universo da ilegalidade e pipocam irregularidades. Elas são muitas e, infelizmente, ficam voando por aí sem punição espalhadas em baixo dos tapetes processuais dos tribunais eleitorais locais, sem que possamos ter um quadro aproximado e atualizado do conjunto da obra no período em que é criada. Mais tarde, a gente sabe, Inês é morta, eles  eleitos e nós? Continuaremos fazendo papel de idiotas, pelos próximos 4 anos.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIMhttp://delcueto.multiply.com

O Violeiro e o Sargento

Por Aparício Secundus Pereira Lima

João Bilôto era um exímio tocador de violão, na década de 40, da Região Sanfranciscana, nordeste Brasileiro. Bilôto, boêmio de Juazeiro da Bahia, com seus vinte e poucos anos, resolveu dar um giro pelas cidades ribeirinhas, próximas a Petrolina e Juazeiro.

João Bilôto baixou em Pilão Arcado. Cidade pequena, pacata. “Vou ver se arranjo uns cobres por aqui” – Pensou Bilôto.

Na cidade havia um sargento da polícia, comandante do destacamento e delegado, figura importante da cidade. Era conhecido pelas redondezas por se tratar de elemento perigoso, cheio de bossa e valentia, principalmente quando tomava umas cachaças.

João Bilôto estava tocando tranquilamente, num barzinho de ponta de rua, quando o tal sargento entrou no boteco cambaleando, fumaçando de raiva, completamente bêbado. O ambiente ficou tenso. Todo mundo conhecia o gênio do sargento, mais ainda quando bebia. Olhares cruzados, silêncio de cemitério no boteco cheio de moscas e cusparadas no chão. O sargento aproximou-se a muito custo do balcão, pediu uma cana. Sem piscar, tascou a branquinha goela abaixo. Olhou pro Bilôto com cara de poucos amigos e disse: – Toca aí. Bilôto começou a tocar. – Pára! Bradou o sargento. Bilôto cessou de tocar, tremendo dentro das calças. E pro dono do bar: – Bota mais uma! Bebeu de um só trago, arrumou o enorme revólver entre a barriga e a calça. Aproximou-se do Bilôto, e, colocando a mão sobre seu ombro, indagou: – Sabe que sou maior que o prefeito dessa cidade? E exigiu confirmação. Bilôto, meio constrangido, afirmou: – O senhor é muito maior que o prefeito… O sargento, sentindo-se satisfeito, sorriu, mostrando os dentes empretecidos pelo fumo.Retirou a mão do ombro do Bilôto. E para o dono do bar: – Bota mais uma! Prá Bilôto:- Toca aí! Jogou a lapada de cana na goela engolindo-a de vez, olhos em cor de brasa. Olhou pro violeiro: – Pára! Colocou a mão esquerda pesada no ombro do Bilôto e a outra segurando o revólver: – Sabe que sou maior que o governador do Estado? E Bilôto, já temendo o pior: – O senhor é muito maior que o governador do Estado! O sargento arreganhou a cara de satisfação e ordenou que o violeiro tocasse outra música enquanto ele tratava de tomar outra pinga. E a cena repetida: – Pára de tocar! Mão esquerda no ombro do cantador, a direita coçando o coldre, mostrando a identidade do poder: – Sabe que sou maior que o Presidente da República? Bilôto, testa franzida pelo medo, quase se borrando todo: – O senhor é muito maior que o Presidente da República. Depois de alguns minutos, que se tornaram infindáveis, lá vem o sargento de novo: – Sabe que sou maior do que DEUS??? Desta vez falou mais alto o sentimento religioso do violeiro, que temendo os castigos de Deus, por proferir tamanha blasfêmia e temendo arder no fogo do inferno, retrucou: – Mamamamaior do que DEUS?? Gaguejou meio sem jeito. – Sim, sou maior do que Deus! Enquanto isso, apertava mais o ombro do violeiro, a mão coçando o gatilho. Pediu confirmação: – Como é, rapaz, sou ou não sou maior do que Deus? João Bilôto, temendo blasfemar, cometer pecado mortal e ao mesmo tempo perder a vida afirmou meio sem graça, esfregando o dedo indicador da mão direita ao da mão esquerda: Sabe que vocês dois são  assim, parelha??

Só assim o cantador Bilôto conseguiu sair ileso daquela situação angustiante, prometendo, enquanto em vida, jamais voltar a Pilão Arcado.

A Comandante e o Navio

Ilustração de Rodrigo Melo/oilustrador.com

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

No meu porto havia um navio sempre à espera, parado, intacto, quase morto. O navio estava pronto para a partida mas a tripulante não sabia se queria viajar ou não. Às vezes, entrava no navio, quando bem queria, içava a vela e falava para si mesma. “- Vou viajar!” Ligava tudo, de bombordo a estibordo com ar de satisfação nos olhos. Quando se aproximava do alto – mar, recuava satisfeita com o pouco que velejara e voltava para a terra deixando o navio ao sabor das ondas inconstantes do porto vazio. Precisava cuidar da tripulação que havia ficado em terra sem querer saber se quem mais necessitava dela era o navio ou a tripulação que tripudiava em cima de suas emoções. O navio batia, desesperado, de encontro ao cais, levado ao sabor inconstante do vento e da solidão. Num desses momentos, o navio soltou as amarras que o prendiam ao nada. E liberto disse “não”. Não ao cais vazio, não à espera longa e cansativa. O navio queria viajar de encontro ao mar. O navio queria amar no mar de si mesmo. Que fosse só à Antártida, mas queria viajar. Não mais satisfazer aos caprichos de  comandante indecisa, autoritária e que não sabia o que queria. Ela amava o navio 15 minutos por dia. Sentia saudades dele no entanto não se interessava se o navio queria viajar. Seu prazer era sentir que o navio estava perto, atracado a ela, e que nele poderia embarcar quando bem o quisesse.
Um dia deixou a tripulação viajar (de avião) e falou consigo mesma: – Vou velejar! Trouxe todos os apetrechos necessários à viagem repentina. Sumiu da terra disposta a ir ao mar, se entregar, sonhar, gozar. Não esqueceu nada: Levou luneta porque no navio não tinha, levou combustível  à base de álcool porque o navio não tinha. Entrou no navio com uma predisposição incomum mesmo estando em dias de enjôo comuns a comandantes terrestres. O navio não se fez de rogado. Deixou a capitã invadi-lo e invadiu-a também num prazer sem fronteiras, prá lá do oceano Pacífico.
Ela amou o navio embora sentisse vergonha de dizer que ele era dela. Não o levava à praia onde habitava, exceto à noite, de madrugada, quando todos dormiam e só ela sonhava. O navio queria o mar (amar) também. Ela pouco se importou com o navio encalhado e brincou de velejar com ele em plena terra esquecendo-se que o navio é também oceano, mas não mais pacífico.
O navio encontra-se no estaleiro reparando os fios partidos da ignição do motor, seu coração. Soldando o casco que ameaçava seu equilíbrio. Recuperando a rigidez e suavidade do mastro, antes abandonado, esquecido, largado.
O navio vai velejar sozinho por outros mares. Soltou as amarras, libertou-se. Ouviu a música das gaivotas e adentrou por mares nunca dantes navegados.
O nome do navio (ela o batizou) era Cafôfo.

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, do autor :

A ilustração é de Rodrigo Melo, ilustrador e designer gráfico sul matogrossense, de coração mineiro, formado em Brasília e agora residente no Rio de Janeiro. www.oilustrador.com

A epopéia de uma nota de R$ 50,00

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Nasci num dia especial de junho, na Casa da Moeda do Brasil. Eu, parte de uma folha imensa de papel especial, cheia de assinaturas lavradas em cartório, marcas d’água, selos de segurança, era uma nota de R$ 50,00, de no 43389778, Série “D”. A funcionária da Casa da Moeda, ao separar-me de tantas notas similares, fingiu indiferença. Colocou-me imprensada no meio de outras tantas irmãs, todas com o mesmo destino: PAPEL MOEDA EM PODER DO PUBLICO.  Transportada em carro blindado, com toda a segurança que tenho direito, fui enviada para o Banco Central que, depois de alguns dias armazenada no silêncio sepulcral da Casa Forte, fui encaminhada ao Banco do Brasil e logo depois me vi, quentinha, num aconchegante box de caixa automático  de uma agência do BB, no interior do estado de Pernambuco.   Depois de barulho ensurdecedor, senti desprender-me das minhas “irmãs”,  sem tempo para despedidas, e caí, juntamente com mais poucas notas de R$ 50  e de R$ 10, nas mãos de uma professora de curso primário estadual.  Nós estávamos representando o que alguns chamam de salário, e muitos de miséria.   Sumir da mão da triste e conformada professora foi num abrir e fechar de olhos. Dinheiro nas mãos de assalariado injustiçado voa rápido: Ora para pagar empréstimos contraídos a terceiros (incluindo agiotas que nessas horas de desespero é o que não faltam…), ora para pagar carnê das Casas Bahia ou para comprar o minguado mantimento que a sustentaria, juntamente com a família (marido desempregado) por um interminável e enfadonho mês.   Fui a vários cantos do País. Participei ativamente de golpes, lavagem de dinheiro, fui propina no bolso de figurões, passei pelo Jogo do Bicho na esperança de ser multiplicada, fui o motivo principal do aparecimento de alguns corruptos, passei por meias e cuecas (não agüento nem lembrar o cheiro…), andei pelo bolso do Sílvio Santos (virei aviãozinho em pleno programa), fiz parte de alguns pacotes fechados de notas de R$ 50 enviados a “mensaleiros” , manchei-me de sangue em brigas de prostitutas, fui alegria de tantos e a desgraça de muitos. Depositaram-me na cestinha de coleta no momento do ofertório em uma missa, fui negociada várias vezes “por debaixo dos panos”.  E cá estou eu, depois de tanto giro, no bolso do escritor que me traduz. Amanhã, provavelmente, ele irá ao Banco do Brasil e trocar-me-á por outra nota de R$ 50,00 novinha em folha, pois o meu estado de conservação é lastimável. De volta à origem, sinto que estou condenada a ser repassada por uma máquina DLRS selecionadora de cédulas do Departamento do Meio Circulante do Banco Central, que dará o implacável veredicto final de “imprópria para uso”, incluindo-me no rol de outras tantas notas velhas cujo destino irreversível é passar por uma barulhenta máquina destruidora de cédulas, que, de forma sorridente e gulosa me triturará em seu estômago e me condenará à triste realidade de virar confete e depois caixa de papelão.

Internet Móvel 3G – A esculhambação precisa acabar. Quando será?

Por Beto Bertagna

A falta de legislação da banda larga móvel conhecida como 3G tem causado diversos aborrecimentos para os usuários. O uso comercial das redes via celular começou depois de 2002, época em que houve a regulamentação específica sobre a questão da telefonia celular e o uso da bandas. Por conta disso, as operadoras deitam e rolam em cima dos pobres mortais usuários e os tratam como pobres antas.   E não adianta nem reclamar para o bispo ! ( Ainda mais no nosso caso, do bravo   Dom Moacir Grechi, que já anda preocupadíssimo vendo os  candidatos ficha-suja na eleição 2010).  A maior reclamação é que o serviço é caro e de péssima qualidade, e isto vale para todas as operadoras. Você pode pendurar o modem na janela, colocar bombril, fazer malabarismo. Não adianta. O sinal não chega onde a operadora diz que chega. E se chega é tão fraco que cai a cada instante. Reclamar no 0800 ? Nem tente ! Vai tocar “musak” até você vomitar.  Os $ite$ e outros veículos que posam de “jornalísticos” se calam, em especial os especialistas em achaque ,  porque recebem verbas publicitárias para ficarem quietos. Mas por conta do recorde de reclamações, surgiu a  proposta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para  que a legislação seja atualizada a partir de uma  consulta pública para revisão do Plano Geral de Metas de Qualidade do Serviço Móvel Pessoal (PGMQ-SMP).  Entre as inovações  há uma proposta de exigir que as tentativas de conexão à banda larga móvel sejam estabelecidas em 98% dos casos, no mês. Já a taxa de queda do acesso deve ser inferior a 5%. A velocidade de conexão, tanto para download quanto para upload deve ser de, no mínimo, 30% do valor máximo previsto no contrato . (Quá…Hoje, prá se ter uma idéia a maioria só garante 10 % da velocidade contratada).  A partir de um ano da entrada em vigor do novo regulamento, a velocidade mínima exigida subirá para 50% do contratado. A exigência é válida para os horários de pico. Nos demais horários, o mínimo garantido deve ser de 50%, assim que as regras entrarem em vigor, e 70%, um ano depois.O novo regulamento valerá 180 dias depois de publicado. A consulta pública fica no site até o dia 26 de agosto no endereço http://sistemas.anatel.gov.br. Esperamos que antes da adoção do 4G aqui pelo Norte deste país as empresas de telecomunicação parem de  tratar os nortistas como cidadãos de segunda categoria e já estejam mais civilizadas. Quando será ?

É a vida, continua…

Texto e foto de Valéria del Cueto
O dia amanhece e o sol se esparrama ainda frio pela porta aberta do chalé na beira da piscina. Sentada no sofá observo seu desenho espalhado no balcão da cozinha, passando pelos bancos altos, a cesta cheia de cachos de flores de primavera multicoloridas ressecadas, o piso de taboa corrida que tanto trabalho, alegria e orgulho deram para Dona Elza, a ponta do sofá onde escrevo e a mesa do centro da sala.

Ainda é cedo, muito cedo, mas é hora da partida. Ao contrário de muitas outras manhãs de segunda feira não me despeço da casinha amarela com um singelo “até mais, daqui a alguns dias eu volto, me espera…”

É um adeus, em que nada fica para trás.

Vejo na porta meus últimos pertences embalados. Como disse anteriormente, em outra crônica, são discos, livros e um pouco mais. Tudo seguirá para Cuiabá, até o próximo pouso.

A porta e os portões deste paraíso se fecham vagarosamente na medida em que, passo a passo, vou saindo do espaço, até então mágico, em que andei refugiada no último ano.

Não há tristeza na partida por que sei que a porta de um paraíso só se fecha para que a de outro possa ser aberta. Eles, os paraísos, são vários. Mas há apenas uma passagem aberta de cada vez para alcançá-los. E, só quando uma se fecha, é possível com muita sorte, vale ressaltar, encontrar outra.

Foi assim na ilha do Brandão em Angra e o ritual se repete aqui, na Chapada dos Guimarães.

O segredo, para não doer muito o momento da partida do paraíso, é não olhar para trás e saber, só com o coração, sem a visão, que, apesar de tudo ficar como está, nada será como antes ali.

Ouço a buzina que atrapalha o canto dos pássaros na manhãzinha. Recolho a mala, o pacote bem embrulhado das tralhas (sou expert em embalar sonhos, esperanças e poucas, mas muito preciosas lembranças), o notebook recheado de fotos ainda inéditas por puro zelo (no sentido hispânico da palavra), a bolsa e os jornais cariocas que vou deixar para o Juliano e a Louriza, meus ex e futuros anfitriões no lugar que escolhi para viver meus momentos de inspiração e produção criativa.

Puxo a porta, passo a chave, ligo o alarme, olho em frente e desço os degraus de tijolinhos equilibrando as emoções, em direção ao portão de lateral de madeira.
Mal levanto a cancela e as duas bandas se abrem sozinhas impulsionadas por um golpe inesperado de ventania que escancara o mundo a minha espera e me desafia a uma nova busca, por outro portão, de outro jardim que ainda não conheço.

Não olho para trás, já disse, mas sei que a camuflagem enfeitiçada, a névoa de proteção, se dissolve. Um lugar volta a ser o lugar.

A mim só cabe agradecer o privilégio de ter ancorado no paraíso que encantou a Travessa da Piscina, sem número, no ano da graça de 2010.

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Laranjeiras carregadas de laranjas boas

Querido P,

Há um ano que não te encontrava. Não sei se já tinha te visto antes para falar a verdade. Nós dois, dois dias, as palavras e alguma embriaguez, e meu bom senso que diz que és tu. Eu sou muito tu. E tu falas sobre mulheres. Eu penso sobre os homens e tento aprender em quarenta e oito horas tudo o que nunca me ensinaste sobre ti e sobre todos vocês. Espera um pouco: Moço! Quero esse Proust aqui. Uma dose desse tempo perdido, por favor. Tá. Enquanto me olhas, vejo teu sangue voltar pela contramão. Em mim, alguma coisa não é mais minha, eu estranho e alegro. Alegria séria de quem agora entende que o encontro e a perda são tão íntimos quanto nós e que nosso amor vive de tropeços, entre as fumaças e os ruídos de um boteco qualquer. Agora eu fecho a porta e ouço teus passos intensos na escada. Aqui nessa ausência te, me vejo e te, me percebo melhor. Obrigada, não vou esquecer.

Com carinho,

L.

Anjos da Madrugada ou o cão chupando manga ?

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Se em Olinda tem o famoso Bacalhau do Batata, nós temos o bloco Pirarucu do Madeira. Se o Rio de Janeiro se gaba de ter a Banda de Ipanema, nós possuímos a Banda do Vai Quem Quer. E se na cidade de São Paulo tem os Demônios da Garoa, nós aqui em Porto Velho temos os Anjos da Madrugada. Com eles dando um show na calçada do Bar do Zizi, no Mercado Cultural, a noite de sexta-feira ficou hiper-animada, levando as pessoas que viram a balada a aplaudirem com entusiasmo o grupo musical que passionalmente incendiou o terreiro do samba. Eles chegaram assim de mansinho, como quem não quer nada, e quiseram e conseguiram tudo: entornar a boa dosagem de lirismo e nostalgia que a civilização brasileira herdou do sangue lusitano – além da sífilis, claro, como diria Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra.   Eles tocam essencialmente bolero, mas isso não lhes impede de contemplar o público com uma série de outros gêneros musicais da lavra brasileira e internacional. No palco, o grupo se apresentou vestido todo de branco, querendo transparecer uma certa pureza angelical, mas de anjos eles não têm nada, pois são o cão chupando manga, tocando o zaraio no meio do mundo, quando acionam seus baixos, suas vozes carregadas de emoção, suas congas, bongôs, violões e teclados para detonar o baixo-astral e pregar no púlpito da diversidade musical sua mensagem seiscentista: carpiem die. Isto é, aproveitem o dia de hoje na paradoxal página do presente eterno. Latinos são os Anjos: cantam com o coração em apaixonada performance interpretativa. Saltam de um “Bésame Mucho” para um “Tell me Once Again” com espantosa naturalidade, deixando um único liame explicativo – o romantismo, em alguns momentos piegas, que lhes transborda o caldeirão sentimental. Proclamam-se seresteiros por excelência, mas fazem bem humoradas incursões no xote, no samba de Noel Rosa e no território da Jovem Guarda como se Meu Carro é Vermelho fosse um hit parade inventado na semana passada. Boêmios versáteis é o que são.   Arregaçando o espaço do samba pelo avesso, a companhia musical Anjos da Madrugada esteve em cena, dia 20 de agosto, no projeto cultural mais badalado do final de semana em Porto Velho : a Final Flor Samba, capitaneado pelo “Poeta da Cidade”, o cantor e compositor Ernesto Melo. A mostra musical acontece toda sexta-feira, a partir das 20 horas, no Mercado Cultural, no centro histórico da capital, com o patrocínio da Fundação Iaripuna.   Apresentando-se no quadrilátero cultural do centro antigo de Porto Velho, todos eles estavam impecáveis, é vero. Mas é preciso separar o joio do trigo e distribuir o pão do talento a cada um, segundo o quinhão que cada um desses artistas merece: o intérprete Waldemar Nazareno, cativante e cavalheiresco, vencedor de um concurso regional que o levou a se apresentar no programa do Raul Gil, como representante do Estado de Rondônia, conquistou o público o presenteou com toda sua competência, sensibilidade vocal e seu jeito carismático de se locomover no palco; Altair dos Santos, o Tatá, Presidente da Fundação Cultural Iaripuna , mostrou com quantos paus se faz uma cozinha bem temperada, utilizando congas apimentadas, bongôs com cheiro verde e ataques de execução precisos e graciosos, bem como a expressão de risos no ar, descontraindo o ambiente como se estivesse tocando tambor de caixa num boi-bumbá qualquer dos terreiros de Calama, na região do baixo Madeira. Roberto Matias, baterista habilidoso e afrodescendente, tranqüilizou o grupo ao garantir a cadência e o fluxo rítmico que as músicas requerem para provocar agradabilidade entre os ouvintes da troupe; o tecladista e também vocalista Charles Kazan, dono de voz poderosa e bem tonificada, é músico de mão cheia, contribuindo para que os arranjos tivessem requinte e personalidade na apresentação dos angelicais. Dando um show de suporte harmônico à banda, encontramos Edmar Jucá. O experiente guitarrista, esperto e antenado no que o povo gosta, usou e abusou de seqüências harmônicas e acordes que dão qualidade e comunicabilidade ao discurso plástico das peças musicais. No baixo, a tranqüilidade em pessoa: o tarimbado Sérgio Santos fazendo a cobertura dos acordes sonoros produzidos pela guitarra de Jucá e pelo teclado de Kazan. Não se sabe ontologicamente qual o sexo dos anjos em geral, mas em se tratando de Anjos da Madrugada cada um tem o seu bem definido. Priscila, por exemplo, vocal do pelotão de frente da companhia musical, é a única, dentre esses espíritos celestes e mensageiros de Deus, a representar o sexo feminino na pândega. Afinada, animada, simpática e plugada no que faz, ela encantou aos olhos e aos ouvidos do respeitável público que tomou de assalto quase todos os recantos da Praça Presidente Getúlio Vargas.   Os Anjos da Madrugada têm esse nome porque no nascedouro da carreira musical desses bambas do bolero e da MPB está o fato de terem pertencido ao Movimento da Juventude Católica, que tinha por base eclesial a paróquia de Nossa Senhora das Graças, depois do bairro Quilômetro Um. Hoje, comemorando vinte e dois anos de pé na estrada, eles vão de peito aberto aonde o povo está. Não têm medo da crítica. Não têm medo da vida. Tocam de tudo. Até brega, se o brega é de boa qualidade e agrada ao público. Executam boleros se preciso for, para que a romântica atmosfera da noite cresça no coração do homem e ele se sinta satisfeito e realizado, amante e amado, entre um trago no copo e o balanço de um corpo bom colado ao seu, no desvairio da eterna busca pela felicidade.   Dizem que são anjos, e são mesmo. Com suas poções mágicas cuidam das pessoas. Com suas beberagens melódicas e farmacológicas curam as chagas e as dores dos populares que os assistem. Sob suas asas, por um breve momento o mundo é tomado pela bandeira branca das colcheias, fusas e semifusas que decolam do pentagrama como se fossem pombas da paz derramando bênção musical sobre o corpo de quem os vê assim maduros, de bem com a vida e cheios de vontade de fazer o povo feliz. Cantando, são embaixadores da esperança. Se apresentando nos palcos da vida, são operários do fazer artístico, saltimbancos do lúdico, invadindo a praia da Fina Flor do Samba. Tocando, são espíritos de luz em meio ao irracionalismo político-administrativo que está lançando este Estado ao fogo desmedido da ganância. Concebendo sua arte, são deuses terráqueos fazendo das tripas coração para que o homem se redescubra divino também, e não ataque a natureza de forma cruel como eles bem testemunharam na esfumaçante noite em que se apresentaram, sob o olhar perdido e triste do Pai dos Pobres, cujo busto chorou de tristeza vendo a sensibilidade humana virar cinzas.   O fato é que na exibição do último capítulo da maior novela musical do Estado de Rondônia, a Fina Flor do Samba, sexta-feira passada, no Mercado Cultural, anjos que voam na hora da garoa, ao som de boleros, mambos, rumbas, xotes e samba-canção, exorcizaram os demônios da madrugada com a entonação de cânticos sacros e profanos das únicas igrejas que são unanimidades entre os tupiniquins: os seguidores do bolero dos últimos dias e a santa música popular brasileira.  Quem são eles, final? São Anjos da Madrugada ou o Cão chupando manga meio dia em ponto? Não se sabe.  Diz a lenda que são gente como a gente, que pecam, que sonham, que amam e que cantam…

A emocionante história do morador de rua mais famoso do bairro mais caro de Brasília

Ele chegou de mansinho, foi ficando e conquistou as pessoas. Criou um vira-lata como se filho fosse. Morreu de frio, numa madrugada, ao lado do fiel companheiro, que chorou e o velou até o fim.

Por Marcelo Abreu

Ele era um lorde maltrapilho. E ainda assim continuava lorde. Bebeu tudo que pôde. Bebeu até cansar de beber. E de viver. Morreu de frio, ao relento, perto de uma árvore. E ainda assim morreu lorde. E não há poesia em dizer isso. Como alguém, maltrapilho, que morre de frio, pode ser lorde? Good Night era. E da melhor qualidade. Era um lorde às avessas, sem terno bem cortado, champanhe francês, charuto ou carro importado. Era um homem que ainda emocionava aquela gente rica, de pouca conversa com estranhos e quase sempre apressada do nobre Sudoeste.

O maltrapilho Good Night os fez pensar em si mesmos. E fez essa gente — dos que moram ali aos que trabalham na região — se render a um homem que andava com um cachorro vira-lata pelas ruas do bairro, esnobava no inglês e lia jornal achando que todas as notícias eram iguaizinhas. Good Night sabia o que dizia. Era um show. Morreu há um mês, enquanto dormia, naquela semana em que as madrugadas chegaram a registrar entre nove e 12 graus.

The Dog, como ele chamava o cão que o velou até fim, chorou. Foi difícil tirá-lo de junto do corpo do amigo. Mas, afinal, quem era este tal de Good Night? Pouco se sabe. E tudo que se sabe foi o que ele permitiu saber. Há pelo menos 14 anos, aquele homem chegou ali. Chegou do nada, vindo do nada. O bairro nobre começava. Good Night acampou na região. Junto, trouxe uma garrafa de cachaça e um jornal debaixo do braço — companheiros inseparáveis.

O jornal não servia de cobertor. Good Night o lia com interesse muito particular. Aos poucos, mesmo que a gente apressada não o visse, ele foi se chegando. Cumprimentava as pessoas, mesmo que a maioria não respondesse. Ria para elas, quando sentia vontade rir. E fez do bairro a última morada. A voz grossa e meio rouca, sua característica mais marcante, não combinava com aquele tipo mirradinho. Good Night não media mais que 1,60m.

O homem que bebia todo dia obrigou aquela gente a percebê-lo. Ele podia usar o banheiro dos prédios comerciais. Quando estava no auge dos devaneios etílicos, danava-se a falar inglês. E sacava, quando passava para cumprimentar as pessoas, suas frases de efeito: “Good Night, boys!” Ou, se era pela manhã: “Good morning, girls! I love you, girl!” Pedia licença, em inglês: “Excuse me”. E agradecia, quando lhe davam alguma coisa, também na língua do Tio Sam: “Thank you! God reward you!” (Deus lhe pague).

Não tardou para ser chamado de Good Night. E Good Night começou a quebrar o gelo daquela gente do nobre Sudoeste. Aos poucos, passou a ser visto com condescendência. Sua presença já não causava tanto incômodo. Nem medo. Nem estranheza. Nem ameaça. Quando estava sóbrio, geralmente só pela manhãs, era de poucas palavras. Quase mudo. Lia jornal, revista, o que chegasse às suas mãos, sempre dada pela caridade alheia. E ficava horas pensando. Good Night gostava de ficar com ele mesmo.

The Dog

O Sudoeste cresceu. Good Night continuou ali. A avenida comercial era toda sua — especificamente as quadras 102/302 e 103/303. O mendigo virou morador do bairro mais caro da terra de JK. E, creiam, o mais popular. O mais divertido. O mais verdadeiro. Caiu no gosto das pessoas. Good Night amoleceu corações. Chegaram outros moradores de rua. Ele tornou-se uma espécie de líder. Todos lhe obedeciam. Ele nunca permitiu desordem e confusão. Levou isso até o fim.

Há cinco anos, um cão vira-lata, feioso, de pelo vermelho, cheio de pulga, apareceu ali. Não se sabe como. Afeiçoou-se a Good Night. Ambos se adotaram. Um cuidou do outro. Um era a referência do outro. Lorde como era, Good Night batizou o animal. Chamou-o de The Dog. E, creiam de novo, ensinou o vira-lata a sorrir e cumprimentar as pessoas levantando a pata.

O cachorro logo aprendeu a elegância do dono. Só atravessava na faixa de pedestre. Não entrava nas lojas. Não fazia cocô perto da gente elegante. E nunca, nunca brigou na rua. Na madrugada em que Good Night morreu, The Dog cuidou dele até que os bombeiros chegassem. Lambia-o. Mexia para que ele levantasse dali. Hoje, vive com uma menina moradora de rua, que cuida dele porque prometeu isso a Good Night.

Good Night bebeu até o dia em que morreu. “Oito dias antes da morte, ele me disse que ia dar um tempo, que a bebida tava fazendo mal”, conta o cearense Antônio Aurismar Pimenta, 39 anos, o Mazinho, segurança do Edifício Rhodes Center 1, na comercial da 103 do Sudoeste. Ele trabalha na região há 14 anos. “Comecei como açougueiro. E, desde que vim pra cá, conheço o Good Night. Ele era uma pessoa muito boa, todo mundo gostava dele.”

Saudoso, Mazinho lembra as tiradas pitorescas de Good Night: “Ele gostava de falar umas coisas em inglês. Era inteligente, parecia ser estudado. Sempre beijava a mão da síndica e chamava ela de condessa. Nunca perturbou a vizinhança e ainda exigia que os outros moradores não perturbassem também. Ele era o xerife de todos eles”.

O porteiro Eliézio Cardeal, maranhense de 38 anos, há 13 naquele endereço, elogia o carisma que Good Night despertou nos moradores e na gente que trabalha na região: “Do rico do pobre, todo mundo gostava dele. Era inteligente. Falava de política melhor do que os políticos. E me explicava muita coisa. Vai fazer falta por aqui”.

Lenda urbana

Pouco se sabe de Good Night. Desconfia-se que ele seria carioca. Pelo sotaque cheio de ‘s’. Contam que ele teria parado na rua por conta de um acidente de carro, onde morreram a mulher e os dois filhos. Seria ele o motorista. Há quem tenha ouvido que ele teria sido funcionário da falida Encol. Que uma desilusão amorosa o levou às ruas. Que seria formado em direito. E que teria parentes no nobre Sudoeste, na 102.

Pouco importa o que Good Night teria sido. Ele foi o lorde do Sudoeste. Fez gente tão distante dele olhar pra ele. E isso já seria seu melhor currículo. “Ele falava umas línguas que eu não entendia”, espanta-se, até hoje, o lavador de carros Maikon Michel Santos, 21 anos. E emenda: “Mas era humilde com as pessoas”.

Na Confeitaria Monjolo, na 103, as funcionárias tinham ordem para dar um salgado pra ele. “A dona deixava. Ele era boa pessoa”, diz a caixa Cristiane Santos, 21 anos. Iolanda Lucena, 20, balconista da padaria Pães e Vinhos, tenta imaginar o que levou aquele homem a perder-se dele mesmo. “A gente percebia que teve uma condição boa na vida. Talvez sofreu uma decepção, teve depressão”.

No restaurante Nautilus, Good Night fez muitos amigos. E foi responsável por muitas gargalhadas.”Ele só não gostava de madames. Principalmente as peruas. Imitava todas elas e a gente morria de rir. Era uma graça”, lembra a atendente Elma Veloso, 25 anos. “Tinha gente que chamava ele para se sentar e conversar. Uma doutora que trabalha aqui fazia muito isso”, diz o garçom Fábio Bonfim, 18.

José Lucimar Ribeiro, 31 anos, também atendente, admirava a honestidade dele: “Ele nunca pedia nada. Quando pedia, era um real. E falava: ‘É pra comprar cachaça mesmo. Não é pra comida, não’. Ele nunca enganou ninguém”. Na tarde de ontem, Otalino Firmino, 63, morador da 304, soube da morte de Good Night no supermercado São Jorge. Levou um susto: “Caraca, ele morreu?”. Era uma figura. Ia comprar pão e a gente conversava”.

Good Night era tão Good Night que nunca aceitou ir para abrigo do governo. “Tentamos várias vezes, mas ele não aceitava”, conta a ex-diretora de serviços da Administração Regional do Sudoeste, Ivana Natividade, 46 anos, que cuidava do projeto Anjos da Noite. E elogia: “Ele tinha cultura, era diferente dos outros”.

Sentir-se gente

O dono do chique restaurante San Lorenzo, na 103, Carlos José de Moura, 47, tornou-se uma espécie de protetor de Good Night, um homem de 60 anos, cabelos brancos e pele clara castigada pelo sol do Planalto Central. “A maneira de se expressar dele me fez perceber que ele tinha conhecimento. A concordância verbal era perfeita.” Carlos procurou descobrir por que aquele homem havia parado na rua e se largado tanto. “Tentei resgatar o passado dele, mas ele me dizia que não gostava de falar disso. Talvez o mistério desse passado seja o início dessa fuga. Não quis mais entrar no mérito.”

Good Night contou a Carlos José que se chamava Frederico. Naquele dia, Fred — como os mais íntimos o chamavam — entrou no seu restaurante e comeu sempre que quis. “Uma vez, um playboy acusou o Fred de ter roubado o CD-player do carro dele. Foi lá, no saco de latinha que ele carregava, e chutou tudo. Eu me meti e disse que ele jamais teria feito aquilo. E não fez.”

Ao lado de Carlos José, Good Night sentiu-se forte. Encarou o playboy do Sudoeste e devolveu: “Você tá pensando que não conheço as leis que me protegem?” E continuou, cheio de si: “Vou agora ao seu carro, anotar a placa e dar pro meu advogado. Ele vai te procurar”. Dá-lhe, Good Night! O playboy? Saiu sem dizer mais nada. Envergonhou-se do papelão e vazou. “Naquele dia, ele me disse: ‘Você me fez eu sentir gente’. Nossa amizade nasceu ali.” Emocionado, o dono do restaurante badalado admite: “Só me arrependo de não ter resgatado a história dele”. E agradece: “Ele me ensinou que a vida tava sempre boa”.

E assim Good Night viveu. Encantou quem se deixou ser encantado. Fez piada de si mesmo. Riu dele e da hipocrisia dos muitos ricos. Ensinou The Dog a atravessar só na faixa, a não sujar o chão e a cumprimentar as pessoas. Bebeu todas. Fez uma gente olhar pra ele. E, numa madrugada, morreu de frio, ao lado do seu fiel companheiro, que chorou sua morte. Viva, Good Night!

God bless him (Deus o abençoe!)


Eu conheci um lorde

Moro no bairro onde as pessoas não gostam de falar com as pessoas. Um dia, na confeitaria Monjolo, um sábado à tarde, conversei com Good Night. Tomava café. Há muito o via, mas nunca havíamos conversado. Lia um jornal e ele chegou e me perguntou, com sua voz rouca e grave, se eu podia emprestar um pouco pra ele. Não estava bêbado.

Convidei-o para se sentar. Ele estranhou. Não sentou, mas conversou em pé mesmo. Disse que as notícias eram muito iguais e que elas se repetiam. Good Ningth sabia o que dizia. Falou do calor. E contou que desejava ter asas para voar. Perguntei por quê? Ele riu e disse que asas levariam ele para muito longe. Insisti pra onde ele queria ir. Ele disse que era um lugar que não existia. E olhou distante.

The Dog, que eu só soube o nome apurando esta matéria, estava ao lado, ouvindo a conversa atentamente. Good Night não disse seu nome, não me perguntou o meu, leu o que quis, aceitou uma garrafa de água mineral, agradeceu e foi embora, chamando o fiel companheiro e pedindo pra ele “se comportar com classe”. Eu estive diante de um lorde.

——-

Marcelo Abreu é Repórter Especial de Cidades do Correio Braziliense e gentilmente autorizou a reprodução do seu texto neste blog.

A velha locomotiva

Por Daiane Kowalesk (“Daiane Fumaça”)

A velha locomotiva a vapor rangia em seu suplício de aço a que era novamente submetida. Homens chegaram e a amarraram com grande pressa em cabos de aço e, aos gritos, corriam freneticamente pra lá e pra cá, alguns com ferramentas e mãos sujas da imundície acumulada em sua superfície metálica, outros gritavam ordens.

A locomotiva sofria. Estava certa de que esse seria seu fim. Sabia o destino que tiveram suas irmãs. Lembrava com pavor do brilho do maçarico cortando muitas outras locomotivas, carros e também vagões. Agora tinha certeza de que teria semelhante final.

Despiram-na de suas braçagens. Retiraram várias de suas peças e as colocaram em caixas. Um grande caminhão plataforma se aproximou.

Era chegada a hora. Os rangidos de seu metal cansado e enferrujado demonstravam sua agonia. Não tinha como lutar. Há muito tempo fora colocada em um pedestal, que se tornou seu leito de morte. E lá ela morreu, completamente só.

Naquele momento, quando foi içada para cima da carreta, lembrou de todos esses momentos, desde deu auge na ferrovia até seu sucateamento. Lembrou de seu maquinista, senhor risonho, sempre muito cuidadoso. Lembrou também das belas paisagens por onde passava, das pessoas que carregava, do sorriso das crianças… Lembrou ainda do pesar dos funcionários da ferrovia quando foi retirada do tráfego. Sua memória refez a linha do tempo, acreditava ela, pela última vez.

Levaram-na. O caminhão que a transportava andou durante todo dia. Já era de tardinha quando parou. Estavam em frente a uma antiga estação.

Suada com a brisa fria da tarde, foi retirada de cima da plataforma do caminhão e colocada com cuidado nos trilhos.

Surpresa, a locomotiva viu ao seu redor outras locomotivas a vapor. E grande parte delas estava em ótimo estado e seus metais rebrilhavam ao sol da tarde. Mais surpresa ficou ainda ao ver na sua frente mais adiante, uma grande vaporosa acesa, arfando, chegando perto. A máquina que se aproximava cumprimentou-a com um vigoroso apito e parou a alguns metros.

Que lugar era aquele onde máquinas como ela ainda funcionavam? Viu os mesmos homens que retiraram suas braçagens e peças cercando-na. Sentiu uma pontada aguda. Estavam remontando os componentes.

Durante vários dias teve sua chaparia trocada, partes que haviam sido roubadas foram repostas. Seus tubos, fornalha e caldeira foram consertados e, por último, foi repintada.

Em um ato quase solene foi reacesa. O fogo voltou a arder em sua fornalha. Sentia a água e o vapor circularem em seu interior. Seu compressor de ar chiava, como uma respiração profunda.

A locomotiva moveu-se por alguns metros. Sentiu golfadas de vapor quente invadirem seus cilindros. Quase se esquecera de como era movimentar-se.

A mão suave do maquinista foi a extensão de sua vontade. O apito ecoou longo e lamentoso nos barracões e na fileira de seringueiras mais adiante, mas expressava sua imensa alegria e exaltava seu renascimento.

O apito desencadeou vivas e palmas dos presentes que a cercavam. Um dos homens saiu do meio do grupo, com uma reluzente placa de metal nas mãos. Em dourado, com fundo vermelho, estavam impressas quatro letras. A placa foi fixada na lateral de sua cabine.

A grande Mikado que estava na sua frente recuou ruidosamente. Retornou trazendo três carros de madeira, lindíssimos em seus detalhes. Depois do desengate, seguiu para um desvio próximo.

Dócil ao comando do maquinista, a locomotiva engatou os carros e os tracionou por pelo menos um quilômetro. Voltaram à estação em seguida. Os carros desacoplados foram novamente manobrados pela locomotiva que aguardava no desvio.

Novamente a euforia tomou conta do grupo que observava atentamente. Essa mesma euforia também invadiu a renovada locomotiva. Mais adiante avistou um letreiro. Agora entendia o que aquelas quatro letras da placa em sua cabine significavam. Agora sabia o nome de seu destino. No letreiro estava escrito: “ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária”.

O pão de mucunã do Coronel Apolônio

Por Aparício Secundus Pereira Lima

O coronel Apolônio costumava sentar-se na varanda da sua casa de fazenda, à noitinha, depois do jantar. Reunia-se  sempre com vaqueiros, capataz, homens das redondezas, para tocarem viola, escutarem repentistas, contarem estórias.

Os vaqueiros, sentados ao redor do coronel, uns mascando fumo, outros fumando cigarro de palha de milho, ouviam, atentos, estórias de lobisomem, da caipora, feitos de outros vaqueiros famosos, a admiração por Raimundo Jacó, vaqueiro bom que morreu assassinado no exercício da profissão.

–       Vâmicê se alembra, Cumpade Niqueleto, do caso do Zé Lixande, cum a Caipora lá nas brenha do Serrote do Urubu, no ano de 59? – indagou o velho vaqueiro Antenoro, chapéu de palha, barba branca e rala, poucos dentes amarelados na boca.

E o vaqueiro Niqueleto:

–       Num me alembro não, meu cumpade. O que si assucedeu?

–       Ora, cumpade, foi da veiz que ele foi caçá tatu mais os cumpanhêro de roça. Já era tardizinha, eles no mêi do mato e aquele silenço di cimitéro. Zé Lixande sempre contano vantage de home valente, qui pega onça braba cu’as mão, todo chei de prosa. Quando tava iscureceno eles uviro um urro medonho e umas gaitada, umas risada qui fazia isfriá os ispinhaço de quarquer valentão. Intão alguém gritô qui era a Caipora qui vinha infrentá todo mundo cum a foice na mão. Foi um bafafá da mulesta, home pisano in home, cachorro sumino na mata. Zé Lixande, qui si quexava de umas dô nas perna, tratô logo de subi no tronco de uma arve e lá ficô inquanto o pessoá si afastava do locá na carrêra. Foi aí qui apareceu a tá da Caipora, aquele bicho medonho, fumando cachimbo, e ficô bem imbaixo do pé de pau qui tava o Lixande. Ele começô a tremê, a ficá amarelado, a pidí pelo Santo Padim Ciço, e si sigurô prá num caí im cima da diaba da Caipora. E lá ficô o Zé, um tempão, já num si aguentano mais nas perna. E a Caipora lá, dano risada e fumando um cachimbão. De repente, o pessoá, aperriado por causa do Lixande, cumeçô a gritá: “Ó Zé Lixande, onde tu tá, home de Deus! Caipora num ixisti, foi só um vento qui bateu nuns gaio”. E o Zé lá im cima, oiando cuns zóio abutucado prá baxo. Foi aí qui a Caipora olhô prá riba e dixe: “Nóis nem liga, né, Zé?” E cumeçô a ri, dando umas gaitada medonha que doía no pé do ispinhaço. O Zé, coitado, ficô branco qui nem cêra, fechô os ói e deçeu si arranhano todo na arve saino numa carrêra qui nem boi bravo pegava. Chegô im casa, feito lôco, num cunsiguiu dizê uma palavra durante três dia. A premera coisa qui fez quando chegô im casa foi trocá as carça, qui tava numa catinga de dá dó.

Risos gerais. O falatório aumentou. Entraram em outras discussões, até que o vaqueiro Galdêncio lembrou-se da sêca de 32, uma das piores que assolou e matou muita gente no sertão pernambucano.

–       Pois é, minha genti, aquela foi uma sêca da mulesta. Num têvi cristão qui não sofreu cum ela. A mardita acabô cum gado, isturricô tudo nesse mundão de Deus. Só si via muié chorano, minino pariceno uns gravêto. De gordo, só mermo os urubu, qui paricia praga. Eles si dava o luxo de iscoiê os garrote morto prá cumê. Qui disgraça, meu Deus! Procês terem uma idéia, inté pão de Mucunã nóis foi obrigado a cumer pra não morrer de fome…

E o coronel Apolônio, que até então era mero espectador:

– O que? Pão de mucunã? Mas vocês são mesmo uns analfabetos, uns imbecis. O pão de mucunã só é ruim prá quem não sabe prepará-lo. Vocês têm que fazer o seguinte: Pegar a raiz da mucunã, raspar bem, passar em nove águas, trocando-as sempre que ferver, depois bate bem, passa num ralo, faz a massa, leva-a depois ao forno e faz o pão. Depois é só colocar mel, manteiga e açúcar que fica uma delícia!

– O vaqueiro Galdêncio retrucou, com zombaria:

– Ora, seu Coroné Polonho, passano im nove água, cum mel, mantêga e açúca, inté bosta é bom.

Mais risos. O coronel levantou-se, trincou os dentes no charuto apagado e entrou em casa. A reunião havia terminado por aquela noite.

——————————————————————————————————————————————-

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sigla Partidária

O Comício…

O Comício…

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Povo aglutinado na praça à espera do candidato.

19 horas e 30 minutos. Calor escaldante. Homens sem camisa, suor jorrando pelos poros, a bater em tambores e zabumbas, gritam o nome do partido e dos seus candidatos.

Candidatos reunidos em um restaurante luxuoso, traçando as metas prioritárias para o Estado, separando-o em fatias, distribuindo cargos entre os “afilhados”. Vitória consumada, só aguardar a posse.

Homens e mulheres que saíram do trabalho para a concentração popular, na praça comem cachorro – quente frio. Outros passam fome mas ficam extasiados diante da anunciada apresentação de dupla sertaneja de sucesso que se apresentará em seguida.

Multidão inquieta. 21 horas.

Carro importado preto, chapa “branca”, estaciona entre os favelados. Gritos, urros, saudações entusiastas. O candidato dirige-se ao palanque sob ovações do público, carregado nas costas encurvadas dos estivadores. Mãos querendo tocar mão, tirar pedaço, guardar lembrança. Afagos sem fim.

Chega ao palanque. Dificuldade em subi-lo tal a multidão ao redor.

Desabotoa o paletó de linho sueco, deixa barriga saciada descansar sobre o cinto de couro legítimo adquirido na última excursão a Paris.

Abre o verbo. Emocionado, pensando no palácio e com  lágrimas de crocodilo descendo pela face, fala da fome, da seca, de educação, casa e comida para todos, de… Trovão chiou lá no céu  e um relâmpago iluminou por instantes orador e ouvintes apavorados. O toró, de repente, caiu brabo como um o prenuncio de um dilúvio. Homens e mulheres correndo, esquivando-se da chuva. Pandemônio. Faixas pelo chão, sapatos esquecidos, folhetos molhados.

Praça vazia. Ar de cemitério. Só a chuva a cair sobre o palanque e praça abandonados.

Deus antevia o futuro e chorava pelos homens. Pobres homens inocentes, sujos de barro e lama …

————————————————————————————————————————–

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sigla Partidária

Sigla Partidária

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Sala de reuniões do clube da comunidade repleta. Zum-zum-zum infernal. Conversas paralelas, ninguém se entendendo. Todos a espera do líder da comunidade, Dr. Pafúncio, figura querida.

Vinte horas e Dr. Pafúncio chega e as palmas ecoam em uníssono vindas do auditório.Toma a palavra:

–  Silêncio, por favor. Minhas senhoras, meu senhores, estamos aqui, mais uma vez reunidos, para tomarmos uma decisão importantíssima para o País. Vamos fundar e escolher o nome, democraticamente, do nosso partido, fruto dos anseios nacionais. Seremos, dentre em breve, o vigésimo quinto partido inscrito na Justiça Eleitoral. Porém, nosso partido, não será apenas um nome a mais nesse emaranhado de siglas que está bagunçando a cabeça do eleitor. O objetivo primordial do nosso partido, é a união nacional, para que possamos empurrar este País para frente. Todas as propostas serão debatidas, todos os nomes analisados. Convido agora o candidato a secretário geral do nosso futuro partido, Dr. Fulgêncio Boavida, a sentar-se junto a mim.  Aplausos entusiastas, assovios, algumas vaias.

–   Silêncio, por obséquio. Vamos proceder ao início da nossa reunião propriamente dita. Quem primeiro se manifesta sobre o nome do partido? Alguém se levanta no meio da multidão, o povo cala.

–  Meu nome é Antônio Salário Lascado Júnior. Sou bancário e trabalho no Banco da Exploração S/A. Proponho que o nome do Partido seja P.B.B. (Partido dos Banqueiros e dos Bancários). Nesse partido, banqueiros se infiltrariam no Sindicato dos Bancários e bancários seriam convidados para fazer parte da diretoria dos Bancos. Assim não haveria qualquer problema de impasse nos reajustes salariais dos bancários do País.

Gritaria geral, balbúrdia, mãe sendo ofendida a torto e a direito. – Silêncio, por favor, gritou Dr. Boavida. – Seu nome não será aceito porque nossa comunidade não é composta só de bancários. Tenho dito. Qual a próxima proposta? Sugiro alguma que represente os anseios nacionais, o retrato do País. Um gaiato se manifesta lá atrás: Proponho então, P.F.C. (Partido da Fome Crônica). Risos, rolos de papel jogados na cabeça do engraçadinho.

Nomes e mais nomes foram lançados a público e rejeitados. O cansaço era geral. Duas horas da manhã. Suor escorrendo de rostos abatidos. Nisso, João Carreteiro, que havia comido um cachorro–quente (cujo cachorro já devia estar em estado de decomposição), sofrendo problemas constantes de gazes, e cuja flatulência não deixava dúvidas em relação ao seu estado, levantou-se e exclamou aos berros e com terrível bafo de onça:

– Proponho que o nome do Partido seja P.U.N. (Partido da União Nacional). Sorriso nos lábios de todos. A idéia era boa. Antônio Narigão, que havia sentado ao lado de João Carreteiro e sofreu, calado, a absorção irremediável dos gases desprendidos pelo seu amigo, pediu a palavra, e, com a voz no último volume:

– Proponho que o nome do Partido seja P.E.I.D.O. (Partido Especial Institucional Direitista Onipresente).

Aplausos gerais, a fanfarra começa a tocar. O nome do partido estava finalmente escolhido.

————————————————————————————————————————————

Leia também, do autor :

O princípio da senilidade

Quem tem carro velho tem história prá contar

Vasectomia: um “textículo” que virou um conto

O suplicio de um primeiro encontro

Sobre o assunto :

O fedor que nos irmana pode matar o amor

A nova FESEC

Por Altair Santos (Tatá)

Em meio ao frisson da hora, o pleito eleitoral do dia 3 de outubro, a Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas – FESEC fez a sua eleição no último sábado e elegeu o professor e artista plástico Ariel Argobe, o novo Presidente. Para fechar consenso sobre o nome do eleito, as escolas tiveram que sentar à mesa e promover um debate sobre a instituição, a sua realidade e os seus rumos. O Ariel também é do ramo. É carnavalesco e traz na sua linha de conduta o forte interesse em promover o trabalho das escolas para além da simples apresentação na passarela do samba. Entendemos também que assim deve ser. Entretanto, para cumprir metas e objetivos à frente da instituição, a nova diretoria precisa mergulhar nas águas da re-engenharia e discutir, repensar, projetar e atualizar a FESEC. Escola de samba deve e merece espraiar o seu raio de atuação para horizontes além do asfalto da avenida ao som da bateria e sob o brilho das fantasias para exibir o seu lume noutros campos, contextualizando melhor a sua existência. É a vida e seu dinamismo. Ela (a escola de samba) deve trabalhar a sua inserção no contexto comunitário e lá, no seu espaço, promover ações que animem crianças, jovens e adultos, conquistando-os à participação. Faz-se o ponto, criar-se a identidade. Isso é interatividade. Não mais cabe no processo cotidiano da efervescente e acelerada Porto Velho de hoje, Escolas de Samba nômades de si mesmas, ou seja: desfilam na avenida e residem onde mesmo? Um exemplo disso é a atual bicampeã do carnaval local, a Diplomatas do Samba que, do alto dos seus 50 anos de existência, muitos títulos e glórias, ainda não têm residência fixa. Talvez nenhuma das nossas agremiações de carnaval tenha concorrido no Edital dos Pontos de Cultura do Governo Federal que recentemente contemplou grupos folclóricos e de teatro, dentre outros, em todo o estado. Nada pejorativo mas, algumas escolas, ainda estão sediadas na residência ou nas pastas dos seus próprios presidentes e diretores.  Os novos enunciados culturais nacionais que advém dos órgãos de cultura (MINC e seus tentáculos), associam a linha da produção cultural ao campo da inclusão social, da valorização das comunidades e da mão-de-obra lá existente, fortalecendo a economia da cultura, re-paginando e qualificando a produção artística e versando em favor do dueto cidadão/cidadania. Escola de samba antes de ser braço social é berço. De lá, convém, entoar novos cânticos de enredo para a remodelação da FESEC e suas afiliadas pelas vias de novos e audazes projetos. As escolas de samba têm história e seus currículos lhes credenciam a alçar novos vôos. O inquieto Ariel que conhecemos haverá sim de discutir com seus pares de diretoria, os novos traços fisionômicos e jurídicos para o carnaval local primando pelos contidos da autogestão, encampando uma política de ação onde, o repasse de recuso público para as agremiações seja apenas um, dentre os tantos itens de interesse e o velho livro de ouro uma peça a contar o passado cadenciado pelo rufar do surdo e colagem da lantejoula no estandarte. Parabéns e força Ariel.

Pais ou heróis?

Por Erika de Souza Bueno

Quando transferimos aos nossos pais a ideia de heroísmo, não podemos de maneira alguma impor sobre eles a condição de seres inabaláveis, pois cada pai é um ser como qualquer outro. O que o difere, na verdade, é a forma tão especial como um dia ele se assumiu como pai, como nosso pai.

Contudo, a ideia de heroísmo pode ser perfeitamente defendida se, como herói, quisermos dizer que ele, nosso querido papai, é (co) protagonista de uma grande história, a história da nossa vida, que foi e está sendo construída sobre as bases de ensinamentos indispensáveis para cada um de nós.

Cada pai é um herói que não tem poder de vencer, sozinho, os muitos obstáculos impostos a nós pela vida, mas, em todos os momentos em que alguma pedra quiser nos impedir de continuar, bem sabemos que o nosso herói estará ali por perto, sempre disposto a nos confortar, ainda que seja apenas com a sua presença, a sua indispensável presença em cada instante de nossas vidas.

O heroísmo que por muitos é defendido só existe na ficção. Mesmo assim, ainda podemos identificar traços de um verdadeiro “homem de ferro”. Não obstante se imaginar tão forte como as características desse precioso metal, o que o torna forte de fato é o amor sem reservas que ele tem por nós, apesar de não saber muitas vezes demonstrar esse sentimento.

É comum este amor tentar embaraçá-lo nos passos do dia a dia. Às vezes, a mamãe precisa ser mãe dele também, puxando a orelha quando nos ajuda a bagunçar a casa, depois de momentos em sua amada companhia. Dá o maior trabalho colocar as coisas novamente no lugar depois de um domingo em casa com o papai.

O mais engraçado é que não há amor sem reservas nos super-heróis que aparecem na TV. Como, então, podemos chamá-lo assim? Ele é o nosso herói porque é e sempre será lembrado por nós pelas atitudes de coragem, ainda que essa coragem seja para nos acompanhar na hora de tomar uma injeção quando estamos doentes.

Às vezes nosso herói tira seu uniforme e vai conosco, numa tarde de domingo, ao parque perto da nossa casa para nos ajudar a fazer um gol ou a soltar pipa. Engraçado é quando ele age como nós. Deve ser por isso que é tão complicado impor sobre ele uma imagem de algo distante como são os super-heróis da TV.

Pai é herói porque busca ser nosso companheiro a todo custo, nem que seja por meio de um telefonema fora do horário comercial, quando já estamos cansados e querendo dormir. Pai tem mesmo dessas coisas e é isso que o diferencia de todos os demais homens. Ele é especial em ser tão comum em muito do que faz, mas mesmo assim consegue atrair nossa atenção para ele. Será que tem superpoderes para conseguir tal proeza?

Pai, com o seu dia sendo comemorado, é importante lembrá-lo de que nenhum herói vai fazer por nós o que o senhor já fez. O senhor é muito mais forte quando está consertando o carro que quebrou a caminho do passeio do fim de semana do que os super-heróis que conseguem erguer carros gigantes apenas com a força do braço e poderes especiais. Os seus poderes são muito mais especiais quando determina o horário de voltarmos para casa, ainda que façamos cara feia quando isto nos é imposto.

Não somente neste dia tão especial! O senhor sempre será o herói que dá mais audiência na história da nossa vida, a qual foi e está sendo edificada e sustentada pelos seus poderes mais do que especiais.

* Erika de Souza Bueno é Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br).

A velha mídia está derretendo

Por Antônio Lassance

Pesquisa aponta que quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa brasileira são tendenciosas. Oito em cada dez brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro, maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula.

Como um iceberg a navegar em águas quentes e turbulentas, a velha mídia está derretendo. O mundo está mudando, o Brasil é outro e os brasileiros desenvolvem, aceleradamente, novos hábitos de informação.

Um retrato desse processo pode ser visto na recente pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom-P.R.), destinada a descobrir o que o brasileiro lê, ouve, vê e como analisa os fatos e forma sua opinião.
A pesquisa revelou as dimensões que o iceberg ainda preserva. A televisão e o rádio permanecem como os meios de comunicação mais comuns aos brasileiros. A TV é assistida por 96,6% da população brasileira, e o rádio, por expressivos 80,3%. Os jornais e revistas ficam bem atrás. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% são leitores diários dos jornais tradicionais.

Quanto à internet, os resultados, da forma como estão apresentados, preferiram escolher o lado cheio do copo. Avalia-se que a internet no Brasil segue a tendência de crescimento mundial e já é utilizada por 46,1% da população brasileira. No entanto, é preciso uma avaliação sobre o lado vazio do copo, ou seja, a constatação de que os 53,9% de pessoas que não têm qualquer acesso à internet ainda revelam um quadro de exclusão digital que precisa ser superado. Ponto para o Programa Nacional da Banda Larga, que representa a chance de uma mudança estrutural e definitiva na forma como os brasileiros se informam e comunicam-se.

A internet tem devorado a TV e o rádio com grande apetite. Os conectados já gastam, em média, mais tempo navegando do que em frente à TV ou ao rádio. Esse avanço relaciona-se não apenas a um novo hábito, mas ao crescimento da renda nacional e à incorporação de contingentes populacionais pobres à classe média, que passaram a ter condições de adquirir um computador conectado.

O processo em curso não levará ao desaparecimento da TV, do rádio e da mídia impressa. O que está havendo é que as velhas mídias estão sendo canibalizadas pela internet, que tornou-se a mídia das mídias, uma plataforma capaz de integrar os mais diversos meios e oferecer ao público alternativas flexíveis e novas opções de entretenimento, comunicação pessoal e “autocomunicação de massa”, como diz o espanhol Manuel Castells.

Ainda usando a analogia do iceberg, a internet tem o poder de diluir, para engolir, a velha mídia.

A pesquisa da Secom-P.R. dá uma boa pista sobre o grande sucesso das plataformas eletrônicas das redes sociais. A formação de opinião entre os brasileiros se dá, em grande medida, na interlocução com amigos (70,9%), família (57,7%), colegas de trabalho (27,3%) e de escola (6,9%), o namorado ou namorada (2,5%), a igreja (1,9%), os movimentos sociais (1,8%) e os sindicatos (0,8%). Alerta para movimentos sociais, sindicatos e igrejas: seu “sex appeal” anda mais baixo que o das(os) namoradas(os).

Estes números confirmam estudos de longa data que afirmam que as redes sociais influem mais na formação da opinião do que os meios de comunicação. Por isso, uma informação muitas vezes bombardeada pela mídia demora a cair nas graças ou desgraças da opinião pública: ela depende do filtro excercido pela rede de relações sociais que envolve a vida de qualquer pessoa. Explica também por que algo que a imprensa bombardeia como negativo pode ser visto pela maioria como positivo. A alta popularidade do Governo Lula, diante do longo e pesado cerco midiático, talvez seja o exemplo mais retumbante.

Em suma, o povo não engole tudo o que se despeja sobre ele: mastiga, deglute, digere e muitas vezes cospe conteúdos que não se encaixam em seus valores, sua percepção da realidade e diante de informações que ele consegue por meios próprios e muito mais confiáveis.

É aqui que mora o perigo para a velha mídia. Sua credibilidade está descendo ladeira abaixo. Segundo a citada pesquisa, quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa são tendenciosas.

Um dado ainda mais grave: 8 em cada 10 brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro (que é o rumo da atual trajetória do país), maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula – ou “inocula”.

A velha mídia está se tornando cada vez mais salgada para o povo. Em dois sentidos: ela pode estar exagerando em conteúdos cada vez mais difíceis de engolir, e as pessoas estão cada vez menos dispostas a comprar conteúdos que podem conseguir de graça, de forma mais simples, e por canais diretos, mais interativos, confiáveis, simpáticos e prazerosos. Num momento em que tudo o que parece sólido se desmancha… na água, quem quiser sobreviver vai ter que trocar as lições de moral pelas explicações didáticas; vai ter que demitir os pit bulls e contratar mais explicadores, humoristas e chargistas. Terá que abandonar o cargo, em que se autoempossou, de superego da República.

Do contrário, obstinados na defesa de seus próprios interesses e na descarga ideológica coletiva de suas raivas particulares, alguns dos mais tradicionais veículos de comunicação serão vítimas de seu próprio veneno. Ao exagerarem no sal, apenas contribuirão para acelerar o processo de derretimento do impávido colosso iceberg que já não está em terra firme.

viaEcoDebate

Candidatos de Rondônia querem trocar o Ibope pelo polvo que adivinhou toda a Copa da África

UM PESQUISADOR HONESTO O polvo "Paul" aponta a Espanha como vencedora da Holanda. Ele poderia indicar pela foto quem se elegerá em Rondônia. Sem mentir, sem enganar.

Um pesquisador honesto. O polvo "Paul" aponta a Espanha como vencedora da Holanda. Ele poderia indicar pela foto quem se elegerá em Rondônia. Sem mentir, sem enganar.

Por Nelson Townes, do NoticiaRo.com, sobre textos da Eband e Agência Estado

Corre o boato em Porto Velho, que um grupo de políticos de Rondônia está fazendo uma “vaquinha” para financiar a viagem de um emissário até a cidade de Oberhausen, região oeste da Alemanha, onde se localiza o aquário “Sea Life”, onde vive o polvo que adivinhou que a Espanha seria a Campeã Mundial de Futebol de 2010.

O objetivo é pedir à direção do aquário que permita usar o molusco para adivinhar, através de fotos, quem será eleito governador, senador, deputados federais e deputados estaduais de Rondônia.

“É mais confiável do que as pesquisas de intenção de votos” – justificou um suposto membro do grupo eleitoral que quer consultar o polvo. “Afinal, os resultados das pesquisas são mesmo nós que encomendamos ”, ponderou.

O polvo “Paul” acertou tudo em relação à Copa da África . Ele havia previsto a vitória da seleção da Espanha sobre a Holanda, e terminou a Copa do Mundo com 100% de previsões corretas.

O polvo “Paul” ficou famoso como adivinhador porque, sem estar na África do Sul, acertou todos os resultados dos jogos da seleção alemã e se tornou um dos astros desta Copa do Mundo.

Como se não bastasse, o molusco também cravou na última sexta-feira que o time espanhol bateria a Holanda e seria campeão do torneio.

Ele previu com sucesso todos os resultados de partidas da seleção alemã, na Copa do Mundo. E quase virou “paella”, quando anunciou a derrota dos alemães, diante da Espanha.

A ministra do Meio Ambiente espanhola, Elena. Espinosa, brincou pedindo para os alemães não comerem “Paul.”

Mas “Paul” estava certo: os espanhóis estavam mesmo destinados a conquistar a Copa do Mundo. Diante do sucesso das previsões, o polvo também foi solicitado sobre o resultado da final do mundial… Apontou a Espanha como grande vitoriosa e se tornou um dos “personagens” mais citados da Copa da África do Sul

Após o apito final no jogo deste domingo, o primeiro ministro da Espanha, José Luiz Zapatero, brincou dizendo que iria mandar uma equipe para proteger o polvo na Alemanha, fazendo menção ao risco que “Paul” correria por ter previsto a desclassificação da Alemanha pela Espanha na semifinal.

Agora, quanto a usar o polvo para adivinhação política, quem conhece o pessoal que dirige o aquário “Sea Life” disse que dificilmente o pedido dos políticos rondonienses será atendido – se for verdadeiro esse boato.

Primeiro, porque o polvo está acostumado a ver bandeiras de países e não fotos de políticos estrangeiros – ainda mais de latino-americanos que têm negócios com um país que apedreja e mata mulheres e tem mistérios nucleares como o Irã.

Além do mais, como é um molusco paranormal, as fotos de alguns políticos de Rondônia poderão fazer-lhe mal. O polvo está acostumado a ver gente de alto astral, esportistas, futebolistas, de bom caráter, honrados.

Ver fotos de gente com passado criminoso, como o da grande maioria dos políticos rondonienses, poderá fazer o polvo adivinhador vomitar ou expelir um jato de tinta preta sobre a foto – o que não poderia significar indicação de vitória do candidato.

Um segundo problema seria isso causar um problema diplomático. A direção do aquário, vendo o molusco vomitando após olhar para as fotos dos políticos de Rondônia, e pensando que o emissário rondoniense estaria querendo matar o polvo famoso, telefonaria para a Polícia e chamaria a UCT (Unidade Contra o Terrorismo.)

Um terceiro problema: mesmo que o emissário rondoniense provasse não ter nenhum antecedente criminal perante a Polícia Alemã, a Interpol, à CIA e ao Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia, a sucessora da KGB, ele seria considerado suspeito de conspiração, após os serviços de Inteligência, checando os nomes dos políticos das fotos que ele queria mostrar ao polvo, verificarem suas fichas sujas.

Campeão da sustentabilidade

Por Juan Quirós

A Copa do Mundo da África do Sul resgata a Pátria de Chuteiras no cotidiano dos brasileiros Porém, a justificada euforia ante a expectativa do hexacampeonato não pode empanar a consciência de que, conforme alerta feito pela própria Fifa, estamos atrasados na agenda de uma competição ainda mais importante para o País: a Copa do Mundo de 2014, cuja realização no Brasil deve resultar em avanços significativos na infraestrutura.

Para que isso ocorra, é premente que os setores público e privado assumam suas responsabilidades. O Estado terá papel preponderante na viabilização das obras, pois boa parte delas será financiada com seus recursos. Estamos, sem dúvida, diante de excelentes perspectivas para o desenvolvimento de esforço conjunto entre os governos federal, estaduais e municipais, empresários, clubes de futebol e federações, com foco na construção, recuperação e modernização de rodovias, ferrovias, aeroportos, hotéis, logradouros urbanos e arenas esportivas. A Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, compõem um fator de estímulo aos investimentos nessas áreas e conferem ao País prestígio e credibilidade no cenário internacional.

Por outro lado, não basta cumprir os prazos e executar o expressivo volume de empreendimentos previstos. É importante, também, que os grandes eventos suscitem mudança cultural do mercado na direção das construções sustentáveis, essenciais na luta pela salubridade do habitat e contra as mudanças climáticas. É imprescindível, portanto, atender à expectativa de que os novos estádios e obras de mobilidade urbana respondam às demandas da preservação do meio ambiente, consolidando essa tendência também na execução de obras comerciais e residenciais, compensando integralmente as emissões de carbono. É preciso ter sempre em mente a ameaça das mudanças climáticas e a contribuição de cada setor produtivo para mitigar o risco.

São imensos os benefícios dos chamados empreendimentos verdes quanto à qualidade da vida de seus ocupantes, pureza do ar, luminosidade, temperatura e sequestro de carbono. Neste contexto, são cinco suas principais características: a eficiência na prevenção e redução da degradação ambiental na atividade construtiva, em especial no controle da erosão e sedimentação do solo; o uso de tecnologias para o controle do desperdício de água potável e preservação dos lençóis freáticos; utilização de sistemas elétricos capazes de reduzir o consumo de energia; o desenvolvimento de atividades para armazenagem e coleta de resíduos recicláveis; e o uso de sistemas de climatização voltados ao controle ambiental do ar interno.

Para que uma construção seja adequada ao tripé do conceito mais avançado de sustentabilidade (ser ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável), deve atender às normas LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), mundialmente aceitas e reconhecidas no Brasil. Sua certificação é feita pelo United States Green Building Council (USGBC), que tem um conselho encarregado de suas adaptações em nosso país.

É fundamental que haja uma inversão cultural do mercado, no sentido de se perceberem as vantagens e ganhos econômicos proporcionados por um empreendimento verde. No Brasil, construções industriais e comerciais estão mais avançadas no contexto dessa nova concepção arquitetônica. A ideia é que esses empreendimentos tornem-se, paulatinamente, um padrão da construção civil. Os ganhos são muito relevantes: redução de 39% na emissão de dióxido de carbono, 40% do consumo de água potável e até 50% de energia elétrica e 70% dos resíduos sólidos.

Felizmente, a comunidade empresarial brasileira está muito consciente com relação à necessidade de se realizarem obras enquadradas no conceito de projeto sustentável. No entanto, a partir do momento em que a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 passarem a semear canteiros de obras em todo o País, é imprescindível articulação entre os atores econômicos e sociais para a consolidação do modelo “verde”.

Considerando que o Brasil tem posição estratégica quanto à produção de alimentos e de energia renovável, detém a mais abundante reserva hídrica e possui a maior biodiversidade do Planeta, as construções ecologicamente corretas lhe garantiriam o título mundial da sustentabilidade.

*Juan Quirós é presidente do Grupo Advento e vice da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da ABDIB (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).