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Frente a frente

Ponta 130611 006 debret camelo meia barracaTexto e foto de Valéria del Cueto

Olho para ele, ele olha para mim…
Há, sim, uma empatia entre nós. Aquilo que nos une é o que nos mantém ali. Olho no olho, imóveis. Esperando para ver quem vai reagir primeiro e para onde essa reação levará a energia que será despendida no movimento.
Também pode não acontecer nada. O momento passar, a fila andar e o que poderia acontecer ficar ali, largado, perdido no meio do caminho por inércia.
O fio do tempo estica até soar. Tenso como uma corda de guitarra. Poderia ser de violino, baixo, violão, viola de cocho. Sinto saudades de um dedilhado nervoso nas cordas tensas de uma viola.
A afinação depende do tom escolhido pelo instrumentista. Antigamente o diapasão servia apenas para conduzir o ouvido. Hoje, umas luzinhas digitais indicam se o instrumento está perfeitamente afinado.
Tecnologia…
Foi ela que deu um susto, merecido por sinal, em quem achava que dominava a mente e a vida do país. Assim, como um todo.
Não prestaram atenção aos códigos que brotavam nas telas dos celulares que todo mundo tem, ignoraram os novos meios de fazer o de sempre: dialogar, reunir, expandir.
O vareio foi generalizado. E todo mundo tenta se preparar para dar respostas e corrigir as falhas de interpretação.
Aí é que a atenção tem que ser redobrada. E, se necessário, o grito ainda mais forte. Por que os caras podem ser ruins de gingado, mas que vão tentar das uma reboladinha e reinterpretar de forma tendenciosa o que está sendo jogado na cara do governo a cada manifestação, isso vão.
Plebiscito, referendo, reforma política? Conversas vãs para tentar botar pra dormir a “boiada” perambulante pelos gramados da Praça dos Três Poderes.
Renan dizendo que se o povo decidir prescinde das normas constitucionais é piada. De mau gosto, é claro. Como o presidente do Senado pode considerar a hipótese do seu poder abrir mão de seu próprio papel constitucional?
Fumaça branca, antes da chegada do Papa. Que, se ainda está longe da maioria da população, já faz parte da paisagem do Leme, alterada por imensos painéis de metal que cercam uma enorme faixa da areia, mais um menos na altura do Zona Sul, o supermercado. Isso que ainda falta quase um mês para o evento.
Com ou sem campeonato na Copa das Confederações…
Ele me olha e eu olho pra ele. Nada mudou. Nada parece mudar. Mas é só a aparência.
O entorno se modifica animadamente. Quase de forma orgânica, envolvendo, entremeando, costurando.
Pode ser que saia até uma colcha de retalhos, disforme, quiçá. Mas que servirá para envolver, aquecer e embalar os desejos de muitos, a vontade de todos, traduzidos pelo mar de gente que invadiu as avenidas brasileiras.
Nos olhamos. Ouço o som das suas mãos batucando levemente. É um tantan? E, veja, nem é carnaval…

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vento que venta lá venta cá

Ponta-130611-023-barcos-e-ilhaTexto e foto de Valéria del Cueto

No início da semana passada me perguntaram o que eu queria fazer no dia do meu aniversário. Não seria um grande dia analisei diante das imensas saudades que, sabia, iria sentir. Da diferença de acordar e não poder me atirar nos abraços de quem me amou incondicionalmente. E que, durante toda a minha vida, jogou em várias posições sabendo ser polivalente, ocupando todos os espaços do campo o tempo todo da partida. Como Claudio Coutinho, técnico da seleção de 82, pregou. Avó, madrinha e amiga. Minha. Sem ela seria o que, como e por quê? Como aplacar a sensação de um tiro de 12 no peito?
Assim pensava eu, pensas tu, pensariam eles. Se o mundo não fosse surpreendente. E tudo – eu disse tudo – não pudesse mudar com uma batida de asa de borboleta de vinte centavos.
Não entendo a surpresa com os últimos acontecimentos. Era uma questão de química aplicada. Os componentes estavam ali. Expostos, públicos, nus. Crus. Parecia que o lombo do povo era insensível as lambadas que faz tempo estão esvaziando seu bolso, castigando o corpo, dilacerando sua dignidade.
Um homem pode ser bobo, alguns podem ser enrolados, mas um país inteiro, até quando? Ou será quanto?
Não é possível que não houvesse uma leitura que apontasse a hipótese que as mesmas ferramentas usadas para tentar manobrar a opinião pública, poderiam ser usadas em sentido contrário.
É muita soberba! E ela levou os governantes a esse estado de perplexidade patética diante da força da voz das ruas.
Claro que agora todo mundo quer puxar a brasa para sua sardinha e um monte de pretendentes começa a aparecer querendo pedir a mão da noiva. Afinal, o dote é grande e por mais que a moça seja xucra, rebelde, o desafio de conquista-la é irresistível. Difícil vai ser convencê-la…
Vou dar um palpite sobre esse presente de aniversário tão inesperado que acabei ganhando. Afinal, como comemorar em petit comité se logo ali um país inteiro se mobilizava? Considerei que não poderia ganhar presente melhor. Eu e as centenas de milhares de pessoas que expunham seus anseios e sim, sua revolta.
Primeiro: não é por 20 centavos! Segundo: essa massa multifacetada vai se encontrar. E, por meio de núcleos independentes, ligados por interesses comuns se (re)organizar assumindo o papel de antigas entidades, totalmente esvaziadas por que subservientes e escravas do status quo adquiridos quando deixaram se representar seus interesses afins e passaram a atender aos companheiros.
Se não essas entidades e outras instituições, surgirão grupos que preencham as lacunas deixadas. Tudo isso usando os recursos que, agora os senhores do poder sabem, podem ser letais das redes sociais. Não duvidem. Será apenas o começo.
Para as gerações que estiveram nas Diretas Já e no sacode do Fora collor há uma árdua missão. Mostrar que talvez essa história pudesse ser outra. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, disse Thomas Jefferson. Essa premissa básica esteve adormecida por tempo demais. E, já que começamos de novo, tomara que seja evitando os erros do passado.
Vida longa e constância aos ventos que sopram e acordam o gigante Brasil em cada um de nós.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vai que é tua, tira a bola da rua.

Ponta 130611 014 pranchas e surfistas

Texto e foto de Valéria del Cueto

É tudo correlato. Será? Faz sol. Venta, mas não demais. É calor na praia e friozinho na Gustavo Sampaio, rua de dentro do Leme, aqui na Ponta, Rio de Janeiro. O mar anda alto, o que garante momentos de atenção para a linha dos atletas que aguardam a hora de se posicionar nas ondas e assegurarem o espaço adequado para desenvolverem suas manobras radicais.

É um balé para pouquíssimos espectadores privilegiados como eu. Divido meu tempo entre ler Catarina, a Grande, biografia da czarina da Rússia, escrever e apreciar os surfistas e afins deslizando nas ondas. Como tirar os olhos do mar?

O tempo está lindo. O céu azul e o oceano cor de esmeralda. Confesso que nem vi se a água estava fria. Pelas roupas de neoprene da rapaziada dá para  deduzir a resposta. Não é época do tempo estar, assim, radiante. Não na lua nova de junho. Estranho, muito estranho. Parece que o mundo rodou mais devagar no eixo, por que o clima está mais para veranico de maio do que o tempo cinzento, chuvoso e frio que costuma emoldurar esse período.

Se fosse só aí… o mundo está virado. Por mais que a gente corra daqui para lá, desvie e tente se refugiar de tanta informação é impossível não ser sugado pelo “roto-rooter” da vida brasileira. Como um todo ou em particular.

Senão vejamos: remédios quase vencidos, pilar encolhido… Vai Lá Trazer uma boa notícia, pelo amor de Deus! Licitações e pregões pros amigos? Votê, cobra, mangalô “treizveiz”. “A cultura é o patinho feio do estado”, é mole?

É por essas e por outras que procuro e, um dia, hei de encontrar uma forma de fazer cultura sem precisar de sequer passar na porta da tutela do estado. Quero respeito por quem peleia e procura novos caminhos para sair do rumo de quem chega a uma conclusão dessas assim, depois que assumir o cargo máximo do setor no estado. O tempo passa, a vida anda e o bonde já passou por essa estação.

Do outro lado é pau, é pedra é o começo do caminho, para desespero de alguns e pressa de outros. Em nome de evitar a “baderna” o negócio é endurecer. De novo? Acho que já disse nessa crônica que já vi o filme dessa reprise classe B.

Nunca tão poucos centavos representaram tanto para  multidões espalhadas por várias capitais do país. Multidão que só aumenta a cada apresentação especial  dos poderes militares constituídos. É daí para pior. E já deu pra ver que não vai ser sopa pra ninguém, incluindo aí vários coleguinhas da Folha de São Paulo,  agredidos na última quinta-feira.

Segunda, em plena Copa das Confederações, com o mundo já tendo acompanhando pelas TVs, jornais e as redes sociais os primeiros capítulos da novela PASSE LIVRE, parece que haverá outra rodada de manifestações pelo país. Boa hora para a panela de pressão continuar a chiar.

Ai meus santos canarinhos com cabelos de cacatua. Façam o milagre do esquecimento das mazelas inflacionárias, da alta do dólar, da queda do mercado, da falta de saúde, educação, segurança, infra-estrutura e outros probleminhas mais.

Chutem para o gol dos adversários nossos recalques e essa sensação estranha de que no final,  ganhando ou perdendo, estamos entrando pelo cano…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Espelho, espelho seu…

Lad PLeme130516 047 onda ponta do leme por do solTexto e foto de Valéria del Cueto

Quando a “coisa” começa assim meio marola já sei que vou ter que rebolar fazer crescer a onda que costuma rebentar toda semana nesse espaço privilegiado. Não é falta de assunto, gente. São tantas opções…

Parece que o mundo está caindo na cabeça de escrivinhadores como eu essas semanas. Primeiro, com a informação de que redações importantes do país e do exterior estão demitindo seus jornalistas e fechando veículos. Segundo ,com as notícias mundiais dão conta que estão mandando seus fotógrafos para casa e passando o trabalho de registro de imagens para os… jornalistas.

Não é um caso isolado. O que me faz pensar que há sim, uma mudança “climática” abalando o mundo dos veículos de comunicação espalhados mundo a fora.

É ruim? Não sei não… Faz tempo que procuro novos formatos de distribuição de conteúdo. Trabalho possibilidades com bases mais gerais e brinco de pique como com nichos direcionados. Atiro em várias direções em busca de novos mares e picos onde possamos deslizar e interagir com novas tecnologias.

Afinal, se o formato jornalístico que dominou o mercado está se esgotando, alguém precisa fazer expedições precursoras, tentar descobrir para onde irá essa onda. A onda das informações. Um tsunami querendo se espraiar.

Uma coisa é certa: pode haver falta de empregos para jornalistas nos veículos… jornalísticos mas a necessidade de conteúdo de qualidade além de não haver diminuído, só tende a aumentar.

O mundo via internet e outros meios, está ávido de saber. E quem detiver a informação e conseguir filtrá-la e traduzi-la para seu público alvo estará nadando de braçada nessa nova era.

Assim como eu, os jornalistas sentirão saudades do antigo formato. É horrível ver seus postos ocupados por copiadores de releases assessóricos, sem ao menos uma checagem básica nas informações contidas nos mesmos. Só pra citar um problema crônico e intransferível. Tenho visto coisas de doer. E que ninguém contesta. Quem se limita a reproduzir as barbaridades recebidas, sem checar a veracidade do conteúdo, corre o risco de vender a ignorância alheia sem titubear.

Vou citar um fato como exemplo: a incrível e relevante notícia de que “pela primeira vez” na história da capital do maior estado do centro-oeste a bandeira de São Benedito (aquele) havia entrado na sede do paço municipal em questão. Do jeito que a informação veio da assessoria do novo prefeito foi três palitos: imediatamente reproduzida por órgão de imprensa, sem dó nem piedade com os festeiros de anos anteriores que, sim, sempre levaram a bandeira e a coroa para abençoarem antigos prefeitos e a sede do órgão municipal.

E olha que não precisava ir muito longe para alcançar as pernas curtas da mentira pregada assim, na maior cara de pau! Uma simples e singela busca no google indicaria que por ali já passaram várias bandeiras do santo, sempre empunhadas pelos festeiros do ano que, como eu, rezam – e muito – para que os caminhos municipais se abram, não apenas para os amigos do rei mas para toda a população da cidade a quem, em primeira e última análise, o alcaide jurou servir.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador cuyabano”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

O barquinho vai…?!

imageTexto e foto de Valéria del Cueto

Já vi esse filme. Estava no Rio de Janeiro nos anos que antecederam o PAN de 2007. E como a maioria dos cariocas ainda procuro o tal “legado”. Hoje, anos depois, posso dizer que ele é para poucos.
Uns, como é o caso do Flor Ribeirinha, grupo de cururu e siriri de Cuiabá, aproveitam a onda para, no impulso, se firmar no lugar que sempre mereceram e fortalecer a imagem de ícone cultural.
Símbolo inconteste da tradicional cultura cuiabana, Dona Domingas trabalha há anos na comunidade de São Gonçalo Beira Rio para preservar e disseminar a cultural nativa local. Se alcança o sucesso que vem alcançando e que projeta o grupo e seu trabalho é por mérito, persistência e muito suor.
Outros são como o caso de um dos responsáveis pelo fim do nosso ex-maior estádio do mundo aquele que virou lenda e foi posto a venda: o espetacular e lendário Maracanã!
Pois não é que lá está ele? O mesmo que na próxima semana poderá(?) obter do IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico Nacional a autorização para modificar um bem tombado e orgulho dos cariocas, o Aterro do Flamengo, projeto original, do arquiteto Afonso Eduardo Reidy, para ali desenvolver um “empreendimento”. Usando para isso a Marina da Glória, parte integrante do maravilhoso parque utilizado gratuitamente por toda a população carioca.
A gente olha e reclama muito, até de forma organizada, mas dura a realidade é que estaríamos sendo patrolados pela máquina de gerar dinheiro para uns, usando os bens públicos de muitos, apoiados pro aqueles que, em última análise, deveriam representar e proteger nosso patrimônio!
Fomos salvos graças ao juiz Vigdor Teifel, da 11ª Vara da Justiça Federal do Rio. Imaginem que em 1999 foi impetrada uma ação popular contra a Empresa de Terraplanagem e Engenharia (EBTE), que administrou o local entre 1996 a 2009. A decisão proferida para ação cancela seu contrato com a Prefeitura do Rio.
A EBX, de Eike Batista, comprou a EBTE e a REX, empresa de desenvolvimento imobiliário do grupo, pretendia “reformular” a Marina, construindo, entre outras coisas, um prédio de 15 metros de altura, um centro de convenções e 50 lojas.
“A exploração comercial da Marina da Glória está diretamente relacionada com sua aptidão natural (eminentemente náutica) e com a observância dos interesses coletivos dos usuários do local, não se concebendo que o desenvolvimento de atividades comerciais em uma marina se identifique com a exploração de empreendimentos e complexos comerciais”, escreveu o juiz Vigdor Teifel.

A sentença foi em 1ªinstância e cabe recurso, mas deveria (a esperança e a fé nunca morrem) ser levada em consideração na reunião do IPHAN que, afinal, está aí para preservar nosso patrimônio.

O projeto em pauta, de 2010, é do arquiteto Índio da Costa, o dos quiosques da orla. Aprovado pelo Conselho Consultivo e, depois, rejeitado pela Superintendência do IPHAN no Rio de Janeiro. Uma versão revisada passou pela Câmara de Análises de Recursos. Agora, o projeto executivo de revitalização da Marina deverá ser submetido à aprovação do Iphan e do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

A sentença do juiz muda um pouco o rumo da prosa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Ó de casa?!

cop valTexto e foto de Valéria del Cueto

Vamos cair na real: não será hoje. Mas quase ontem. A Copa está aí. Alguma novidade? Talvez para quem nunca comeu melado. Por que, ao contrário do ditado, é justamente quem já comeu que está se lambuzando. E o faz de caso pensando, por que sabe que é agora… ou já! As comportas estão abertas e jorra dinheiro para tentar fazer em alguns meses o que não foi executado em anos.

Lembro-me sim, do dia em que saiu o resultado das cidades escolhidas para serem sedes da Copa de 2014. Meninos eu, vi, estava voltando (de novo) para Mato Grosso e uma das tarefas do retorno era registrar em vídeo a agitação da Praça do Chopão, onde Cuiabá em peso se reuniu para assistir a declaração da FIFA.

Acompanhei colada com os “artistas” que ali estavam para, mais que comemorarem, mostrarem à gente brasileira, por um link ao vivo da rede Globo, o que Cuiabá tinha para oferecer ao mundo: cururu, siriri, o boi e, como todo o Brasil, o samba.

Lembro que havia uma tenda vip, para as autoridades. Só que a reação desse povo a “conquista” não me interessava, já sabia qual seria. Preferi me encostar nos cururueiros que afinavam, nervosos, as violas de cocho e arranhavam insistentemente seus ganzás. Ali, sentia a tensão do povo de Cuiabá para a realização de um sonho, apenas de um sonho: o de que a Copa do Mundo chegasse àqueles que teriam  imensas dificuldades na vida para irem até ela.

Para o trabalho, havia várias câmeras espalhadas: Na tenda, na área das apresentações ao lado da praça. A subida da Getúlio havia sido impedida e um trio elétrico ocupava a rua. Imagina a briga que era pra saber que iria subir no caminhãozão. Muita gente conseguiu sair na foto, mas claro, o espaço não foi suficiente para tanto ego. Do lado de fora do Chopão, o povo. Lá dentro, meia sociedade cuiabana, que aquela não era festa pra perder. Só comemorar. Faz quatro anos no dia 31 de maio!

Não quero ser derrotista, por que acredito na capacidade de organização e, apesar de não ser devota, nos milagres capazes de serem realizados pelo Santo RDC (Regime Diferenciado de Contratação, pra quem não ligou a sigla ao seu bolso), mas a coisa mais pronta que pude ver nesse período, é o trabalho do mesmo grupo Flor Ribeirinha que rodopiou cheio de alegria e emoção para nos representar para o mundo naquela praça.

Pois não é que a Domingas, mãe, pai, tia e madrinha do projeto de excelência, nascido no São Gonçalo Beira Rio, soube pilotar sua canoa com maestria e organização e, um ano antes do evento, mostrou para os cuiabanos como o cururu e o siriri os apresentará para o planeta? Ocupou com maestria todos os espaços que pode e fez sim, um lindo trabalho, levando sua trupe das águas do seu Cuiabá para mares e oceanos distantes. Claro que enfrentou corredeiras e calmarias, mas dá gosto ouvir falar do seu sucesso.

Pena que nem todo mundo esteja jogando aberto como a artista Domingas. Li que o Tribunal de Justiça suspendeu a licitação organizada pela SECOM/MT para escolher as agências de propaganda que atenderiam a SECOPA. O mandado de segurança foi impetrado com o argumento do o não cumprimento da Lei 12.232/2010 e do uso em uso em vão do nome, ao que parece do Santo RDC!

Indica que já estamos no período do pega pra capar e  do Deus nos acuda! Tem gente rodopiando  e dançando qualquer ritmo e batida para levar de lambuja uma beira da nossa festa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Crescei e multiplica-vos, os viajantes agradecem!

WTMSP-130424-023-Marco-na-palestra

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se tudo no mundo evolui, imaginem como anda a forma de fazer turismo? E se o jeito de viajar se transforma, por que o mesmo não ocorreria com a maneira de escolher os destinos e fazer roteiros?
Esta semana a Associação Brasileira de Blogs de Viagem, ABBV, completou seu primeiro aniversário. Sua consolidação indica que há, sim, algo de muito interessante na forma dos viajantes interagirem no mundo virtual. Primeiro com seus desejos de informações sobre viagens e, depois, com os meios e possibilidades de torna-los (ou não) realidade. Quando uma viagem realmente começa e termina?
A exposição das impressões pessoais sobre viagens – aí incluídos roteiros, hospedagem, alimentação e atrações visitadas – foi a tendência que impulsionou e posicionou no mercado sistemas com o Trip Advisor, uma gigantesca base de dados alimentado – também – pelas opiniões e descrições de viajantes, sedentos de compartilharem experiências e preferências. As dicas ganham relevância e permitem um posicionamento instantâneo do serviço avaliado.
Na World Travel Market, em São Paulo, acompanhei palestras e seminários muito interessantes. Entre elas as Sam Thompson, Diretor Trip Advisor Americas, do querido cuiabano Marco Jorge, Territory Manager Trip Advisor LatAm, e as do “time” da Associação de Brasileira de Blogs de Viagem.
O que chamou a atenção foi a diferença de públicos nos eventos. No primeiro, muitos paletós, tailleurs e saltos altos. Agências, representantes de hotéis e estabelecimentos turísticos tentando decifrar o fenômeno que abre as portas dos negócios à avaliação pública imediata e interativa. Um pulo do gato para expor produtos diretamente aos interessados, com direito a elogios e cobranças. Como lidar com novas ferramentas e tirar proveito delas, eis a questão…
No caso da ABBV, a plateia era diferente. Informal e alternativa. Ali, as particularidades faziam a diferença. O auditório estava lotado para a apresentação da pesquisa da entidade que procura situar o fenômeno dos blogs na via láctea da indústria do turismo brasileiro. Alguns detalhes interessantes: as mulheres de 25 a 34 anos, com curso superior e renda de mais de 10 salários mínimos, maioria entre os usuários dos blogs, são viajantes experientes e independentes.
Perguntei a Silvia Oliveira, presidente da ABBV, se sistemas como o Trip Advisor não seriam concorrentes. Ela explicou que, ao contrário, os sistemas são complementares. O Trip é geral e os blogs trabalham com segmentos, particularidades que os tornam específicos para internautas que sabem o que procuram: informações e impressões pessoais.
Estas novas janelas ainda são vistas com cuidado pelos integrantes do sistema tradicional desta indústria que movimenta mais de um trilhão de dólares por ano, segundo a Organização Mundial do Turismo. Mas certamente sua evolução e, principalmente, o perfil dos viajantes que utilizam  seus recursos para decidirem que tipo de experiência turística terão, só tende a crescer e se multiplicar.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

 

No trecho a pergunta: e o eixo?

RioNotAer_130422_006_Santos_Dumont_pista_aviao_Pão_de_aç-ucarTexto e foto de Valéria del Cueto

Sempre fui assim, adepta do “me chama que eu vou”. Para longe ou para perto, ao botar o pé pra fora do Leme e deixar a minha Ponta, já me considero em trânsito.
Isso, desde os tempos que meiava um barco, lá para as bandas de Angra dos Reis. Na época, meu parceiro (por pouco tempo) vivia reclamando, por que com barco a gente nunca sabe se ele vai andar ou não. Só pra começar (no caso dele) a aventura. Isso o fazia sofrer horrores no meio longo caminho até a marina onde o Corisco ficava ancorado. Ele deixava de aproveitar a maravilhosa paisagem que íamos percorrendo, numa viagem de, pelo menos 3 horas, antes de alcançarmos o ancoradouro onde, como sempre, o motor poderia virar ou não.
De cara saquei a armadilha que fazia com que as belezas da saída do Jardim Botânico, a Lagoa Rodrigo de Freitas, Gávea, São Conrado, Barra, Recreio, a Grota Funda, Sepetiba, Santa Cruz, Itaguaí e toda a espetacular Rio-Santos, até chegarmos a Angra, fossem apenas passando pelas janelas do carro, sem nenhum olhar mais apurado pelas belezas e mazelas que íamos deixando pelo caminho, até chegarmos à nossa maior incógnita.
No caso, o truque era considerar que a aventura começava quando fechava o portão da garagem da casa. Sei lá se o barco pegaria, o tempo estaria bom, a temperatura da água agradável, o mar virado… Eram tantas as (maravilhosas?) possibilidades!
Foi então que passei a jogar o Jogo do Contente desde o momento em que saía de casa. A brincadeira de Poliana, a menina órfão da história, é muito instigante. Principalmente para quem precisa lidar com um caso de insatisfação quase permanente que acaba podendo contaminar um final de semana inteiro, quiçá o restante da semana e até uma relação.
Para evitar esse “desvio” da imaginação que virou um verdadeiro vício que parei de viajar, pelo menos no sentido físico. Foi em setembro e, de lá para cá, acho que passei um dos meus maiores períodos contínuos que recordo estacionada na Ponta do Leme.
Houve um motivo, reconheço. Verguei para não quebrar. Precisei abstrair do corpo físico para que a alma pudesse se alinhar novamente. O processo não terminou. Mas uma parte, a que me paralisava, parece que começou a passar.
Voltar foi um dos motivos que me impedia de ir. Por que quando vinha, sempre tive com quem dividir o que vi e vivi. Sabia que as viagens não terminavam quando o avião pousava no aeroporto Santos Dumont. Ainda haveria uma oportunidade especial e única para reinterpretar tudo o que eu conseguisse capturar nas estradas e lugares por onda andava.
Agora com o retorno, vi o tamanho vazio que escondi de mim mesma desde a penúltima viagem. E, definitivamente, que não sei lidar com ele.
Nunca fui de contar publicamente o que vi no mundão que já andei, mas acho que, se quiser continuar fazendo o que sempre amei, vou precisar mudar essa maneira de agir.
Se meu mundo não pode mais me escutar, não vou mais do que vergar – novamente. E só até começar a contar para vocês, que faz tanto tempo me acompanham, o que tenho visto por aí, não mais apenas os fragmentos inconsequentes dos meus sonhos…
Começa aqui, a série “No trecho”, do Sem Fim…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No trecho”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Sem noção, com muita emoção, só na propul$ão!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

É pau, é pedra e qualquer hora dessas o editor me pega. Esse tal de deadline é um inferno na vida de qualquer pretendente a entregar uma obra com prazo marcado.
É dura essa vida de ter compromisso. Imaginar é ótimo, planejar é legal. Mas executar nem sempre depende só da nossa atuação. Ou não?
Das duas uma: ou você chuta o balde e reza pra água cair direto no jardim que precisa ser regado ou sua consciência nunca estará tranquila até conseguir fechar a tampa e enterrar o defunto.
Que horror! É muita maldade comparar um filho parido a cada semana, no meu caso, a um morto. Mas é o velho ditado cuiabano que diz: “Quem beijou, beijou, quem não beijou beijasse, por que vai fechar o caixão” a primeira imagem que me vem à mente quando penso em entregar alguma coisa em cima do laço.
Isso, meus queridos leitores, que sou uma pessoa ciente e ciosa dos meus deveres para com meu reduzido público e procuro adiantar minha vida para não passar um perrengue a cada semana, justo às sextas-feiras, dia sagrado que antecipa o que virá de melhor no final de semana.
Mas o que fazer quando, por exemplo, como acontece hoje, estou no aeroporto, em São Paulo, tentando embarcar para o Rio e, consequentemente desembarcar na minha Ponta do Leme sagrada?
Diz que foi o nevoeiro, mas vejo as outras companhias mandando e trazendo passageiros de um lado para o outro, enquanto a minha se limita a mudar os numerinhos horários, em ordem crescente, no painel de partidas.

Assim, foi que planejei escrever esse texto confortavelmente. Sentada na poltrona do avião voando na ponte aérea. Mas não previ a possibilidade de atraso após atraso ver o tempo se escoando e o voo atrasando diante dos meus olhos preocupados.
Então, resolvi adiantar o trabalho. Acabei descobrindo que não daria tempo de terminar e enviá-lo antes da chamada do voo. Foi assim que me vi torcendo para… o voo atrasar ainda mais!
Como é só um voo, tudo bem.
Mas vocês já imaginaram como estão os que deveriam entregar coisas mais sérias e inadiáveis que uma crônica???? Sem desmerecer o meu humilde trabalho, é claro!
Pelo bem dos compromissos assumidos, deve ter muita gente perdendo o sono por aí. Afinal, algumas coisas não dão pra deixar para depois, ou simplesmente largar de mão. Estádios, aeroportos, instalações, obras de mobilidade urbana, segurança e saúde para turistas. Vixe! Só fazendo mais e não tão melhor para ser rápido.
É claro que uma ajuda monetária, financeira e/ou econômica ajuda. Só que isso não é a solução para todos os problemas. O nível do stress vai lá em cima e, pelo bem ou pelo mal, é melhor ser excelentemente remunerado pela aporrinhação, mesmo que o dinheiro não resolva diretamente o problema…
Aí, vem aquela velha pergunta: e o que temos nós com isso? Tudo! Alguém tem que pagar a puuuuuta conta… Falimos nós e ganham eles, mesmo sem entregar o prometido. E viva o mais nvo santo da praça, o RDC, Regime Diferenciado de Contratação!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano ”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Se não agora, será quando?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

De novo, no laço. Seja como for, tipo sem régua, esquece o compasso.
A culpa é do que me tirou do caminho que faço para trazer a você, leitor, a crônica nossa de todas as semanas. Já disse e repito: não é fácil, haja assunto e motivação.
Foi em busca de tudo isso e mais um pouco que abandonei a Ponta de Leme e rumei para São Paulo. Um grande evento de turismo, a Word Travel Market Latin América, atraiu minha atenção.
Um ano e pouco antes da Copa do Mundo achei que seria uma boa oportunidade para ver o que o Brasil e o mundo tinham para mostrar no setor.
Ali estavam reunidos representantes do segmento do mundo inteiro. Isso imaginava eu ao adentrar o Transamérica Expo Center onde 1.245 expositores vendiam seu peixe.
Eram tantas opções que, antes de começar uma exploração mais detalhada, preferi me refugiar na sala de imprensa para organizar o que faria durante os três dias do evento que também incluía o 39º Encontro da Braztoa – Associação Brasileira de Operadoras de Turismo. Havia atividades para qualquer modalidade: conferências, seminários, rodadas de negócios, etc, etc…
Decidi ser racional e objetiva diante de tantas opções. Eleger minhas prioridades.
A primeira, pouco profissional e mais emocional, era verificar como estava o material de divulgação da sede pantaneira da Copa do Mundo de 2014.
Explico o porquê da minha curiosidade: em outubro do ano passado havia ido ao encontro anual da ABAV, Associação Brasileira de Agentes de Viagem, no Riocentro, Rio de janeiro. E, diante de uma acanhada e mal localizada bancadinha lateral do stand conjugado com Brasília e Goiás, fiquei chocada e decepcionada com a folheteria que tinha a vã pretensão de apresentar à indústria turística as exuberantes atrações dos três ecossistemas que compõe Mato Grosso.
Lá, disseram-me que aquela participação pífia se devia ao fato de que uma nova campanha seria lançada visando atingir os promotores do setor para vender Mato Grosso para a Copa do Mundo.
Tolinha que sou, acreditei…
Ainda na entrada da WTM no setor que reunia os estados brasileiros um enorme stand plotado com as belezas do pantanal atraiu minha atenção.
A medida que me aproximava aparecia em letras garrafais o nome do estado. M+A=MA, T+O=TO, G+R+O=GRO, S+S+O=SSO. Mato Grosso! Exultei. Só que as letras não terminavam por aí. Havia mais. D+O=DO S+U+L=SUL. Mato Grosso do Sul…
Ao passar foi que resolvi subir para a sala de imprensa, guardando o gostinho de ver o que a gente bronzeada de Mato Grosso havia preparado para o megaevento para depois deixando a cereja do bolo por último, pra ficar com seu bouquet como uma recordação nas papilas gustativas.
Já no press room, nas estantes repletas de informações, brindes e panfletos, procurando nossa nova campanha, de longe vi uma belíssima pasta com uma foto maravilhosa na capa de algo que parecia uma aérea do Pantanal. Meu coração bateu mais forte! Seria esse nosso material?
Quando me aproximei, descobri que era um material de Botswana. Já ouviram falar?
Pois até este pequeno país africano estava lá. Impecável, irresistível, encantador, com seus alagados, animais exóticos e maravilhosos resorts.
Do meu estado querido tive o prazer de reencontrar o Seiji e a Nizilda, amigos queridos… e nada mais!
Por isso, sofismando, se o ditado que diz “onde há fumaça há fogo” é verdadeiro, onde haverá Copa do Mundo há divulgação intensa. O que não acontece nem com Cuiabá nem com Mato Grosso…
Espero, sinceramente, ter entendido mal o recado claríssimo dado por nossa inacreditável ausência na WTM.
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Tragédia grega

Preto_Leme130117_002_bueiro_e_homens_ladeira_tragédia_gre gaTexto e foto de Valéria del Cueto

Já que não dá para ser de lá, vai daqui que está de bom tamanho! É duro trocar o som murmurante e inconstante do mar ressaqueado da Ponta do Leme pela monotonia do motor quase ensurdecedor do enxuga lama do Eduardo Paes aqui no pé da Ladeira Ari Barroso, mas fazer o que?

É claro que isso influencia até no desenho das mal traçadas linhas imaginárias do meu quase extinto caderninho. A diferença entre os dois é que sei, sinto e vejo que as páginas presas no espiral que me acompanha há meses estão chegando ao final, se esgotando inexoravelmente, mais uma vez.

Quanto a malfadada e malfeita obra prefeitural, não sei não… Não há bolão capaz de adivinhar por quanto tempo os dois motores seguirão rugindo embaixo da janela; os cinco ou seis funcionários, com suas roupas de borracha amarelas, claramente sujas por fora (é óbvio) e por dentro (é nojento e insalubre) e suas grossas mangueiras permanecerão, no horário comercial, das 9 às 12 e das 13 às 17, enxugando a lama que não para de brotar das tubulações. Sempre cheias de lodo, terra negra de sujeira e outras cositas que afloram, dia após dia, no asfalto poeirento da Rua Ribeiro da Costa, parcialmente interrompida para a espetacular performance (des)construtiva.

Enquanto os peões a retiram, a Dimensional, empreiteira (ir)responsável pela execução da odisseia carioca do prefeito Eduardo Paes, recebe pelo serviço de tecer o tapete (negro), tal e qual O sudário de Laerte, pai de Ulisses, laboriosamente tramado e desfeito por nossa Penélope eduardiana, e a natureza faz aquilo que sempre fez e se espera dela: a cada chuva despeja ladeira e tubulação abaixo a lama nossa de cada dia!

A gente? Fica aqui com ar de palhaço, fazendo cara de paisagem, como se o barulho ensurdecedor não fizesse mal nenhum à saúde e pudesse ser ignorado durante as oito horas diárias de tortura chinesa a que somos involuntariamente submetidos pelo motor que ruge esbravejante nos nossos ouvidos.

Outro dia, ouvi uma pérola de um dos funcionários da Dimensional. Ele disse que a operação continuaria até que eles conseguissem esgotar a terra que escorregava lá de cima. Foi aí que cheguei à conclusão que a comparação com a Odisseia, no início apenas uma piada, era realmente séria!

Os caras levarão anos chupando a lama. Não sei se este era o objetivo inicial e consciente dos augustos engenheiros que planejaram e executaram os trabalhos de infraestrutura do bairro, mas lipoaspirar o morro inteiro levará milênios e, mesmo assim, acho difícil que consigam realizar a hercúlea tarefa a que se propõem.

Uma coisa, meio assim a lá Garrincha, sabe? Quando ele pergunta se o técnico combinou com os “Joões”  como eles deveriam jogar, para que a tática imaginada pudesse ser desenvolvida e aplicada.

É, por que até lipoaspirar a terra é possível, mas como impedir as nascentes existentes lá em cima de jorrarem e escorrerem encosta abaixo suas águas, trazendo junto areia e lama? Também tem o bom e velho oceano e suas marés maravilhosas que fluem, refluem e explodem em determinadas épocas do ano, avançando por dentro das galerias.

Ai meu santo pagador de obras! Provenha-nos para que possamos seguir bancando financeira e pacientemente o cavalo de Tróia que nos impuseram.

Isso, até que os deuses do Ministério Público, da Justiça e/ou do Tribunal de Contas tomem providências e contabilizem o prejuízo causado aos cofres do povo. Afinal, alguém precisa nos ajudar a tirar esse dromedário troiano da nossa chuva!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vai de que?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou preferindo desenhar. Ando com pouca disposição para escrever. As linhas andam muito tortas e irregulares.

Meu refúgio, a Ponta do Leme. A areia ainda úmida do sereno da madrugada, misturado com a bruma da maresia do amanhecer, acolhe o flanar preguiçoso da canga sacudida para ser estendida na praia.

Sinto cheiro de mofo misturado com o ar da manhã. Sinal de que faz tempo que os pavões misteriosos estampados no tecido não saem do armário lá de casa. O cheiro me incomoda, mas é por pouco tempo, sabemos. O necessário para o sol quarar meu quadrado, comigo dentro.

Há uns dois ou três dias venho pensando nessa crônica. O que não é muito comum. Gosto simplesmente de abrir a torneira da imaginação e deixar as ideias escorrerem pelo papel sem muita preparação para, depois, só enxugar os excessos, secar uns poucos respingos. Normalmente são pontos, vírgulas, exclamações e reticências. Foram as pausas da respiração, entre os pensamentos que se atiravam abusados pela corrente sem muita ordem, como quem não pede licença. Fazem cócegas quando são alegres e arranham se violentos, até que sejam polidos e enfileirados nas linhas imaginárias do meu caderninho sem pauta.

Quase sempre é assim, e como é bom! Acontece que, umas trezentas aberturas na torneira da fonte da imaginação depois, a gente se pergunta se o conteúdo despejado não está se tornando repetitivo. Pode ser chato para o leitor ler sempre sobre a mesma ponta/pedra/praia. O mar esmeralda, a bola colorida que rola para um lado e para o outro entre os pés ágeis dos garotos que capricham no altinho,aguardandoa chegada dos novos parceiros para completar o time e darem início a pelada clássica na linha d’água, e o surfista que, sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus, de frente para as ondas, seus objetos de desejo, arruma concentrado a tira do strep, preparando o velcro para prende-la no tornozelo, segundos antes de se entregar de corpo e alma ao mar que murmura sua musica, qual Flautista de Hamerlim.

Como o atleta, que já corre em direção a água, sou uma ratinha, atraída pelo feitiço musical, efeito mágico para meu coração cheio de dúvidas.Por que faz dias que ando preocupada com o tema dessa crônica… Falar de que? Tentei estabelecer parâmetros, e, por eles, eliminar algumas hipóteses.

Sem saber o que abordar, decidi definir o que evitar.Isso depois que surgiu a questão da repetição. Prontamente esse conceito foi substituído por outros. Substituído não, complementado. O bom humor e a leveza seriam essenciais. O texto não falaria de…, nem de…, muito menos abordaria…, …,…( não posso escrever as coisas a que me refiro sob pena de deixar de lado meu objetivo excludente). A lista de possibilidades plausíveis foi diminuindo, diminuindo…com o passar dos dias e o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos.

Até que resolvi reconsiderar as opções. Para encurtar, aboli o impedimento quanto a repetições, pelo menos no quesito Ponta do Leme. Foi ele o mais concreto, superlativo e fundamental (não posso usar essa palavra sem lembrar-me de Dante de Oliveira) mote para uma crônica quase outonal. Para terminar em grande estilo só falta descrever o desenho feito pelos rastros das pranchas que serpenteiam abusadas nas ondas lindas, tentadoras, mas perigosas – por que hoje paredes inexpugnáveis, já que quebrando sem piedade. Mesmo convidativas, são um sinal explícito de que a maré não está para peixe, pelo menos para certas espécies.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,do SEM FIM… delcueto.wordpress.com 

Estica, puxa, encolhe e manda

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Andei, andei, andei e, apesar de não estar cansada, sentei. É isso mesmo: obrigada. Afinal, nesse caso, para alcançar meu objetivo, só me resta esperar. E você com isso?
Pode não parecer, mas você tem tudo a ver com minha espera, esse hiato entre atividades 100% produtivas. Explico: como tenho que esperar, sem nada para fazer, faço-o sentada escrevendo e para quem espremo palavras e enxugo vírgulas, pontos e interrogações, correndo para alcançar ideias e laçar conceitos? Para você que acompanha as crônicas do Sem Fim… Que mais sem fim, do que esta espera obrigatória?
O motivo da necessidade do uso irrestrito de uma dose cavalar da minha paciência de Jó é anual: a busca dos resultados dos exames do check up.
Já cheguei a conclusão que isso é mais um teste da bateria de ultras, raios e tomos solicitadas pelos médicos. Mais um menos como a coroa de louros, usadas pelos Césares em seus desfiles triunfais pelas ruas de Roma. “Você é humano, a glória passa e a humildade e paciência devem ser exercitadas de vez em quando”. Só isso justifica a demora na liberação o que já está pronto. Pensando bem, ainda é pouco. Tanto que a senhora do lado reclama da troca de resultas e aconselha uma checagem cuidadosa para ver se está tudo em ordem. Que assim seja: vamos verificar. Eis-me aqui, Lei de Murphy, velha parceira!
Até que não foi mau. A espera não passou de uma página e meia de caderninho. Na mesma medida do chá de banco na Polícia Federal. O caso lá era tirar um passaporte novo.
Parece piada, mas, em vez de aumentar a validade do documento, seu prazo encolheu para 5 anos. Efeito da era Lulla.
Poxa, gente, assim nem dá tempo de desmanchar o pacotinhho de documentos da maratona passada. Março de 2008 não foi ha tanto tempo assim!
Estava tudo juntinho: certidões de casamento uruguaianense, sentença de divórcio cuiabana e averbação no local de origem do evento. Provavelmente intocado desde minha última visita a Polícia Federal sem ser a serviço (digo isso por que como repórter comparecia com frequência nas dependências da referida repartição).
Pois foi lá que o meu périplo burocrático anual atingiu seu ápice. Imaginem que o funcionário disse que minha certidão de casamento, aquele que começou em Uruguaiana, em 1981, se não me engano, e foi desfeito oficialmente em Cuiabá, em 1991, idem, idem, tinha que ser… ATUALIZADA.
Como assim, revalidar algo que já terminou há mais de 20 anos? Sinceramente, achei surreal demais. Segundo ele, minha certidão de ex casamento tem que ser refeita a cada 5 anos!
Ou seja: a cada passaporte novo terei que dar um pulinho a Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina para requentar a ex papelada! Por que não me avisaram isso quando escolhi o marido, lá atrás? Teria prestado mais atenção no lugar em que oficializaria meu matrimônio. Bali, talvez?
É por essas e por outras que estou pensado em me exilar. Minha dúvida está em relação ao país escolhido para me abrigar. O Paraguay sempre foi minha primeira opção, por afinidade e amor a terra. Mas, agora, estou numa dúvida cruel. Tenho gostado muito do Uruguai, com seu presidente liberal, super sincero e com opiniões pertinentes sobre nossa vizinha argentina: “esta velha é pior que o caolho, disse Mujica “O caolho era mais político, essa é teimosa”, acrescentou o presidente uruguaio.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Upa neguinho na estrada!

Chapada-110903-005-Estrada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Está aberta a temporada do checkup, o que faz do querido e indispensável caderninho, onde escrevinho minhas crônicas, o campeão imbatível de audiência literária e cotidiana.
Ele é a melhor companhia enquanto aguardo a vez de ser atendida e evita que eu tente descobrir por que agora a clínica que frequento criou mais um balcão para que os pacientes atinjam o nirvana dos sofisticados aparelhos ultrassonográficos e afins.
Chama-se “pré-atendimento” informa a placa e faz com que percamos mais tempo numa nova, emocionante e inútil fila. Segura, peoa!
Estou quieta. Mas não me deixam em paz. Acabo de ser informada que a Golden Cross não autorizou a realização dos exames solicitados pelo médico.
O motivo? É automático: faz menos de um ano que fiz a última volta olímpica nas clínicas e laboratórios. Eles querem saber por que adiantei em 2 meses meu último checkup.
Pensei em várias respostas, umas mais educadas, outras com alguma picardia… Mas, nenhuma tão boa quanto a da atendente da clínica que resumiu assim minha última pendenga:
– Alguém faz exames médicos por esporte? – pergunta.
O melhor foi a envesgadinha do olhar que acompanhou a observação da moça.
Falou e disse menina! Resumiu perfeitamente a ópera bufa dos clientes de planos de saúde no nosso Brasil varonil…
Ou seja: é ele, o plano, que decide quando você pode precisar usá-lo!
É claro que isso, mediante a módica quantia de quase um salário mínimo de mensalidade.
Alguém pode chamar a polícia pra fazer o seu papel? Botar em cana essas quadrilhas homologadas pelo governo federal?
Enquanto me informo sobre o procedimento, finalmente autorizado, a senhora do guichê ao lado me parabeniza, com os olhos cheios de inveja (boa):
– Parabéns, milha filha, sorte sua. Pelo mesmo motivo tive de adiar meus exames ano passado. Não consegui essa autorização – diz ela, com olhos cansados.
Ah, se fosse comigo! Quer dizer que se tiver que viajar no mês que o plano bondosamente decidiu que estou apta para fazer os exames e magnanimamente se dispõe a autorizá-los, ou, quem sabe, meu médico tenha conseguido um encaixe na sua lotadíssima agenda antes da temporada autorizada, perdi?
Sei não. Talvez seja melhor mandar os planos de saúde catar coquinhos e procurar uma UPA!
Tão lindas, tão vazias e eficientes! Tão cheias de recursos e de médicos e enfermeiras sorridentes nos reclames institucionais (pagos com nosso suado e vilipendiado dinheiro) do governo…
Quem diz e mostra essas ilhas de tranquilidade e bom atendimento é a propaganda oficial, disseminada e massificada nos horários nobres das TVs, rádios, jornais e redes sociais.
Bom, diante dessa última reflexão e suas inúmeras possibilidades, decidi pedir ao meu médico outras autorizações. Acho que preciso de novas avaliações, desta vez, numa especialidade inédita no meu prontuário medico/hospitalar.
Só um psiquiatra para me ajudar a cair na realidade e deixar de aventar hipóteses e possibilidades mirabolantes que existem apenas nos contos da carochinha, nas propagandas enganosas e nos discursos de políticos sem vergonhas!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

É Sem Fim…

Ponta 130314 015 bandeira perigo correntezaTexto e foto de Valéria del Cueto

Agora deram pra perguntar o que é. O Sem Fim… é registro de aventuras e suas respectivas produções que podem – e costumam – ser aventuras maiores ainda.
Começou lá atrás, em Cuiabá, 1997, com a criação do “Diário de Bordo” da produção e filmagens do curta “História Sem Fim… do Rio Paraguai – o relatório”.
Era preciso criar um canal de comunicação com quem tinha interesse no projeto e em acompanhar as ações necessárias (e foram tantas) para sua realização. Impresso em papel ofício colorido, o fanzine (era isso?) trazia nas margens superior e inferior os bichinhos do pantanal criados por Josué Moreira e chegava aos leitores pelo correio.
No início umas 30 pessoas faziam parte da listagem. O “Diário de Bordo” feito na impressora lá de casa, chegou a ser enviado a mais de 500 endereços, em várias cidades do país.
O filme veio e a divulgação passou a ser feita via email numa newsletter, já com outro formato, acompanhando a evolução da internet. Foram inúmeras edições. Muitas histórias contadas. Que passaram a ser publicadas em jornais e sites.
Delas, nasceu o Sem Fim…. Um grande container de impressões coletadas por este e outros caminhos. Ele é som, imagem, palavra, a ideia de que qualquer meio é válido, se contiver uma mensagem. É vídeo, áudio, foto, texto, tudo junto e misturado.
O resumo das viagens pelo Brasil é passeio turístico permanente e informativo das quebradas do país, especialmente das fronteiras. É observação e narrativa da vida, da lida cotidiana, política, esporte, economia, ecologia, fala do dia a dia. Explora, descreve, contextualiza e poetiza. Está distribuído nas séries:
“Ponta do Leme”, a leitura carioca da gema do ponto de observação da sua praia, entorno e horizonte.
“Parador Cuyabano” é a base no Cerrado para a convivência com o interior de Mato Grosso e outros caminhos do centro-oeste.
“Fronteira Oeste do Sul” abrange a tríplice fronteira Brasil/Argentina/Uruguai e visita a cultura pampeana pelos laços familiares.
“É carnaval” são crônicas, artigos, reportagens e fotos, muitas fotos, referentes à maior festa popular do planeta, o carnaval carioca e, também, ao carnaval de Uruguaiana/RS.
“Vagabinhas” são os delírios dadaístas fotográficos. Só vendo pra entender.
E, finalizando as “Photo graphias”. Dos meios foi último a chegar, mas é o mais satisfatório artisticamente. O problema é a edição, já que os ensaios são duplos. Além dos artísticos, no mesmo pacote, sempre é feito um estudo imagético com viés antropológico, do objeto e seu ambiente.
Filosófica e sociologicamente o que impulsiona o projeto é uma brincadeira infantil de contação de histórias chamada “História Sem Fim…”, onde um começa a contar, depois o seguinte pega o fio, o outro vai adiante, mais um… e lá se foi.
São esses fios que o Sem Fim… tenta preservar, indexar e quando pode, difundir. Hoje, não mais em folhas ofício amarelas com letras azuis, mas nas redes sociais e outros meios multimídias.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… http://delcueto.wordpress.com

O que atravanca são “ozoutro”

Ponta 130314 034 Nilson Marques onda subindoTexto e foto de Valéria del Cueto
A ressaca está braba!Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.
Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá – creio eu – logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.
Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.
O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.
A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu. Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.
Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.
Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.
A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.
O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece – que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária saírem em menos de dois meses?
É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPonta 130314 042 onda linda

O rolo rola pelo ralo

Leme 1300302 024 Rib bueiro escada UPP Texto e foto de Valéria del Cueto

Minha rota de fuga já é conhecida. Diante de qualquer abalo me procurem na Ponta, embaixo da pedra do Leme. O entorno guarda resquícios da tempestade que fez da máxima do prefeito Eduardo Paes uma dolorosa e triste realidade. Mais do que nunca, somos um rio. De lama e lixo, ele esqueceu-se de avisar.
Aqui, o mar alto que chegou com a chuvarada faz a feste do povo da água que se arrisca em altas ondas coladas a pedra. Para encurtar a rota e economizar braçadas a rapaziada do bodyboard pula do meio do Caminho dos Pescadores, já na boca da fera! E faz a festa.
Troquei sim o barulho ensurdecedor do rotorooter do Eduardo Paes pelo som delicioso das ondas do mar.
Já reparou? É a segunda vez que cito o nome do indigesto alcaide do Rio de Janeiro nesse texto. A culpa é dele que não me deixa esquecer sua atuação de Penélope Pavorosa, como diz um jornalista amigo, testemunha intermitente da obra mal feita da Dimensional, empreiteira contratada pela Secretaria Municipal de Habitação, do engenheiro Jorge Bittar. Ela, que tentou a façanha de exigir que o esgoto do Chapéu Mangueira e da Babilônica fizesse a curva no pé da Ladeira do Leme e seguisse obediente pela Rua Ribeiro da Costa, descobriu que a ordem não seria seguida assim, de bom grado, de acordo com o excelente projeto planejado e executado pela referida empresa.
Resumindo: a curva entope e a língua negra da praia em frente, continua lá, como uma careta, escarnecendo da incompetência comprovada dos obristas do pedaço.
Assim é que, mesmo que me esforce para esquecer as trapalhadas eduardianas, uma em cada quatro semanas, lá estão os diligentes operários da extraordinária Secretaria de Habitação, vestindo (agora) um incrível macacão amarelo “olha eu aqui” e suas respectivas galochas de borracha, chafurdando na lama contaminada do mega bueiro existente justo embaixo da minha janela.
Não bastasse o cheiro de podridão que me leva a uma associação imediata ao resumo das obras malfeitas e pagas com o dinheiro suado de nossos impostos, também sou obrigada a conviver com a poluição sonora no horário comercial, propiciada pelo motor constante do chupa lama necessário para desobstruir o joelho da tubulação do esgoto da prefeitura. No dos outros é refresco, senhor. Aqui, mal dá pra respirar.
Acontece que o conteúdo elameado, composto de dejetos, detritos e componentes afins içados das entranhas do asfalto ficam ali, no meio da rua, secando ao sol, sendo levado pelo vento marinho para as residências adjacentes. Enfim, nosso querido prefeito traz mensalmente, por uns 5 dias, a poluição, as doenças e a contaminação do esgotamento sanitário até nós, sortudos moradores do entorno. Quem não seria inesquecível com uma atuação exemplar como essa?
Mas, como sou uma pessoa justa, tenho que reconhecer: o sistema de coleta vem se aperfeiçoando a cada nova incursão dos operários ao fantástico mundo das tubulações mal feitas. Além das roupas de borracha (daqui a pouco serão escafandros, por que respirar aquele ar merece mais do que um trocadinho de insalubridade), trocaram o carrinho de mão sem rodas, içado por cordas, que era o subidor da lama por uma sensacional escada para facilitar o sobe e desce do peão. (veja a foto ilustrativa do equipamento de última geração e grande precisão). Arrumar a engenharia e punir o (i)responsável pela empreita mal executada, nem pensar! Afinal, como Penélope enrolará as finanças e desfiará mais um trocadilho dos idiotas de plantão? É por isso que eu… rio!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Jogo… feito! Não dá mais.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Tão vendendo tudo. A alma já foi faz tempo, agora o negócio da vez é vender o que não lhes pertence.
É arrasa quarteirão, qualquer coisa é milhão pra ser “colhido” maduro mesmo por cima do muro, pelo primeiro esperto que se habilitar.
E não adianta reclamar, por que não há mais papa para ouvir o bispo, qualquer manifestação é risco, um grito perdido no ar. É muita pressão, meu irmão.
Haja panela quando a paciência do povo se esgotar. É trem, metrô, bonde, VLT; é lei seca pra pegar táxi, heliponto para resolver a saúde, empreiteira mandando às favas as obras interrompidas em plena construção. Aí tem ladrão!
A vida não é um lego, mas é assim que uns e outros a levam, achando que podem montar e desmontar, mandar e desmandar, esticar, extirpar, fracionar. Abrir, fechar, puxar, esticar e… vender.
Se bobear até a mãe entra nessa se tiver uma boa e generosa oferta. A sua, é claro.
Por que o público agora tem dono, que se dane o entorno. Barulho, entulho, bagulho, vale tudo na barganha em que muitos perdem tudo e a panelinha de sempre – aquela – ganha.
É assim!
Que paga o pato é o gato que leva fama sem deitar na cama e nem ao leite tem direito, por que lhes falta respeito até pelo reino animal. Quer falar no vegetal?
Não faz mal, ele é o tal! Cada lugar tem o seu especialista no quero o meu, pronto pra abocanhar, enganar, roubar, enrolar e desacreditar o trouxa indignado que esboçar reação.
É ação, coação, expulsão, exclusão e tudo na contra mão do justo e do direito.
Por que lhes falta respeito ao seu senhor, o cidadão.
Cá entre nós é atroz aturar tanto absurdo, fazer de conta que é surdo quando as arbitrariedades explodem no colo de cada um.
Sou eu, és tu, é você, somos nós, sois vós, serão eles capazes de a tantos enganarem sem ao menos – sequer – explicarem por que acham melhores que toda a população?
É bando, corja, matilha quem faz parte da quadrilha que prossegue impunemente achando que somos palhaços fazendo graça pro mundo enquanto esses vagabundos limpam os nossos bolsos, como se não tivessem um fundo?
Mas podem ter a certeza um dia a gente vira a mesa, e jogando com destreza acaba com essa pobreza que insiste em pensar que é mais.
Alguém há de se capaz, com a ajuda – que Deus nos acuda – de dar um basta nessa sorte que é de morte. Ninguém merece sofrer por males que não são seus, padecer, nem esquecer, afrontas que não pediu.
Por que quem procura acha! Um dia depois do outro… Pouco a pouco quem paga o pato vai cansar de bancar o rato e tomar uma atitude.
Não que seja virtude lutar pelo que é seu. É direito obrigação, defender nossa nação de tanta iniquidade. Alguém vai gritar bem alto, acima de toda a mentira. Um grito de liberdade há de alcançar seus ouvidos e vai fazer todo o sentido quando o povo se juntar.
E será em cada olhar, que vamos saber lá no fundo que é hora de mudar o mundo, se não o deles, o seu.

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* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM…
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Estou na dele

Areia 121220 165 pipa s+¦Texto e foto de Valéria del Cueto

Saudades do meu caderninho, simplesinho, queridinho e tão útil. Pronto para receber de páginas abertas impressões e expressões de maneira serena, democrática, independente de linha ou assunto.
Estou me rendendo com alegria ao deslizar da tinta, o ritmo do desenho das palavras, o prazer de quem se entrega a escrevinhar no papel.
O caderninho é o momento em que o pensar só é mais rápido que a ideia que brota os décimos de segundos necessários para descarregar, linha afora tão soltamente a ponto de não haver dúvida(s) sobre a grafia correta, as palavras feiticeiras. Elas, que surgem saltitantes e se deitam preguiçosas, libertas e cheias de disposição, até aquela destinada a ser a flecha certeira que atinge o alvo do ponto final da frase.
Pode parecer delírio – e talvez seja – provocado por fortíssimos sintomas de felicidade intrínseca, dos que só podem ser provocados por uma sensação efêmera e quase única. – como tudo que é bom.
Falo do meu mar é azul, verde esmeralda cristalino e da minha praia é a mais limpa do Rio. Não é pouco.
Tenho observado esses tempos estranhos. E agora, sinto começou o verão no Rio. Temperaturas altíssimas, enquanto que no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Uruguaiana, onde o verão costuma ser escaldante, o clima da estação anda ameno.
Aqui, o calor começou nos últimos dias de carnaval deixando para trás um janeiro ranheta que não fez jus a nossa fama de paraíso na terra. Parecia praga! Tanta gente de fora querendo ver o que faz do Rio um lugar abençoado por Deus e, no céu só nuvens passando, em sentido único, sempre de lá para cá, o caminho do mau tempo. E mais… a água do mar estava horrorosa. Foi isso que os visitantes viram. Meio caldo de cana em alguns dias.
Mas isso foi antes. Bastou passar a temporada pra que o cara lá de cima, vendo o paraíso mais vazio, mais disponível, resolvesse aproveitar uns dias especiais na sua maravilhosa cidade. E caprichou no ambiente!
Subiu a temperatura da terra, pra que queiramos o mar. Para torna-lo irresistível, deixou tépida a sensação na pele até na hora do mergulho, aquele, na corrida, sem testar antes com a pontinha do pé o que te espera. Também como resistir ao apelo daquela cor que era, sim, do mar, e apenas dele, celestialmente, por assim dizer?
Filtrou a água a ponto de fazê-la brilhar como esmeralda translúcida e transparente, capaz levar qualquer um a viajar nas suas profundezas até alcançar, lá no fundo o relevo da areia.
Deu uma soprada no vento e amenizou, com uma ajuda substancial da maré, as ondas e movimentos. Ondas sim, mas no tamanho certo para não turvar demais o que os olhos podiam notar, sem sei lá não sei não.
Para não dizer que não obteve ajuda humana, soprou os ouvidos dos garis do bairro um pedido de ajuda para que dessem uma geral na areia e… pronto!
É o paraíso da Ponta do Leme. Em pleno meio da semana que é para garantir o testemunho. Há muito aprendi a não esperar para usufruir amanhã o que me é oferecido hoje. E vocês sabem mesmo ele, o senhor, um dia precisa descansar, relaxar e aproveitar o lado bom da vida que arduamente tenta nos dar.
Por que sei, ele está aqui agora em minha companhia, usufruindo o sucesso do melhor de sua concepção. Aqui representado por esta vivente feliz, na Ponta do Leme.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

É pra dar em doido!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Quero mudar de assunto, mas rodo, rodo e lá está ela, a verde e rosa, malemolente e bela, executando seus passos e volteios no meu campo de visão e incendiando minha imaginação. Se não para louvá-la, como gostaria, para esclarecer alguns pontos que tem causado polêmica em relação a seu desfile.

Quando vejo, por exemplo, as manifestações de moradores de Cuiabá chicoteando o jequitibá, citado na letra do samba de 2013, chego a conclusão que sim, os 3,6 milhões de reais, destinados a Escola de Samba, deveriam ter ido para a… educaçãoem Cuiabá. É incrível a incapacidade vigente de interpretar um texto, coisa que a gente aprende no colégio, ao contrário do samba, como já dizia Noel Rosa em um de seus clássicos, “Feitio de Oração”:“Batuque é um privilégio / Ninguém aprende samba no colégio / Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia / Dentro da melodia…”.

Ora, vejamos o que diz o segundo refrão da composição deLequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalhoque tanta celeuma tem provocado, incluindo aí uma discussão acalorada sobre os locais em que o tal Jequitibá é natural ou está plantado na cidade:

“Mangueira…O trem da emoção /Viaja na imaginação / Meu samba é madeira, é jequitibá / É poesia dedicada a Cuiabá”
Senão, vejamos:

Mangueira – não a árvore, mas a escola de sambaGres. Estação Primeira de Mangueira.

O trem da emoção – observem que não diz que é o trem da razão. A emoção nos permite… imaginar! E o que é a Mangueira? A estação primeira, onde se realiza o embarque rumo a ela.

Viaja na imaginação – até por que assim dá pro tremchegar, ou melhor chegar mais rápido, o que só pode ser no imaginário, já que a gente sabe que esse trem verdadeiro está “devagar, quase parando”, como a Maria Fumaça, de Kleyton& Kledir.

Meu samba… – o feito pelos compositores da Mangueira, a escola de samba, e escolhido após uma acirrada disputa que dura meses.

é madeira, é jequitibá. – quer dizer que o ritmo, a música da Mangueira é de lei, é nobre, principalmente se for de jequitibá rosa, uma madeira duríssima!

É poesia… – poesia não é reportagem, nem documentário histórico. É imagem, ritmo, sensação e também pode ser idealização.

Dedicada á Cuiabá – dedicar não é descrever. Significa consagrar, tributar, oferecer, destinar.

Enfim não há nenhum lugar que diga que o Jequitibá é cuiabano, existe nas terras do Sutil ou algo assim. “Jequitibá” é o samba mangueirense, “madeira de dar em doido”, segundo José Ramos e Marcelino Ramos, na música que todo mangueirense de fé já cantou:

Mangueira é uma floresta de sambista / Onde o jequitibá nasceu / Veio fogo, queimou
veio vento, tombou /machado, o jequitibá ficou

Resumindo: precisamos muito do verdadeiro Jequitibá pra dar nos doidos que deixaram o povo cuiabano incapaz de interpretar um simples texto!

* Link das músicas citadas: Feitio de oração http://youtu.be/d_-dZqnlABM //Maria Fumaça http://youtu.be/Yd51SuxyA1w //Jequitibá – http://youtu.be/QPRp7di0thQ

Quem não pode com mandinga não carrega patuá.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Se não sabe brincar, não desce pro play. Captou?
A Mangueira é expert em amor, raça, paixão e superação. Desfile de carnaval, tradição e samba. Cuiabá precisa de divulgação no exterior para atrair turistas na Copa do Mundo disputando espaço com as outras sedes brasileiras de 2014.
Não existe vitrine com um custo benefício mais vantajoso do que a focalizada, nos 700 metros de pista do Sambódromo Darci Ribeiro, pelas centenas de câmeras espalhadas pelo caminho que o trem verde e rosa cruzará na noite de segunda feira. Elas massificam durante os 80 minutos de desfile imagens, conceitos, tendências, um lugar. No caso, Cuiabá. R$3.600 milhões é um custo baixo investir numa campanha publicitária internacional. Imaginem estar no DVD com o compacto do desfile Grupo Especial das Escolas de Samba cariocas distribuído por todo o planeta. É entrar para a posteridade da maior festa popular do planeta.
Até por que, é com tristeza que informo: se pouquíssima gente, quase ninguém, sabe que existe um paraíso chamado Pantanal – pergunta que faço em todos os lugares onde vou, em vários continentes-, o que dizer de Cuiabá, um de seus portais de entrada?
O viés do enredo definido, segundo o contrato em conjunto entre as partes, foi meramente turístico. E, peneirado demais, virou um clichezão. Mas a grita funcionou e a sinopse foi substituída. Agora é texto de Cid Carvalho, o carnavalesco.
Discordou do enredo, não gostou do samba? Paciência. Deixa a Mangueira passar. Quanto mais marola, mais feio fica. Pra cidade, é claro. Por que para a Mangueira é apenas mais um entre dezenas de carnavais que ela já apresentou. Queria ver alguém ir lá e fazer melhor.
E, justiça seja feita, durante todo o tempo entre o namoro, o noivado e a troca de alianças, daria para ter tomado providências, como aconteceu no caso da sinopse.
Detonar a Mangueira na véspera do carnaval é, no mínimo, irresponsável, desrespeitoso e, me perdoem, uma grande estupidez. É burrice dar tiro no próprio pé. Desvalorizar seu próprio produto! Enfim, bancar o “bobó tcheira tcheira”, abusando do cuiabanês.
Agora passam recibo do mau uso do dinheiro público. Reclamam, e o estopim não foi a ausência dos cursos de capacitação para sambistas, ou a quantidade dos eventos – tratava-se de uma carta de intenções, lembrem-se. Mas, sim, da falta de 100 vagas prometidas na Sapucaí. O que configura que nosso dindin seria para bancar as mordomias de poucos! Assim, na lata. E, enquanto metem o malho, os membros da comissão, responsáveis pela perna cuiabana do projeto, ficam caladinhos. Aqueles que mostraram sua ginga ao lado dos componentes da verde e rosa no lançamento do projeto no Cine Theatro Cuiabá. Os que presenciei, nas minhas andanças fotográficas na agremiação, acenando empolgados e cheios de moral para a plateia do camarote cuiabano, nos ensaios no Palácio do Samba. Ninguém me contou, eu vi!
Por isso, peço encarecidamente. Deixem a Mangueira passar. Torçam por ela e, se puderem, cantem com ela. Por que outra oportunidade como essa para, diante do mundo, bater no peito cheio de orgulho por ser cuiabano, não vai aparecer tão cedo. Que o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, São Benedito e São Sebastião abençoem esta jornada.

Só dá Lalá(u)

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Texto e foto de Valéria del Cueto

A gente rema, rema e morre na praia! Escrevo ouvindo por um site de notícias a transmissão ao vivo da eleição do novo presidente e da mesa diretora do Senado Federal.
Uso um site de notícias por que a TV “Senada”, bancada por nós contribuintes, simplesmente não dá conta do recado. Pagamos caro por um serviço que, assim como outros no país, é apenas uma caricatura grotesca do que deveria ser. Transcrevo a resposta da própria Agência Senado, via twitter ao meu apelo por um link que não dê numa página em branco: “@delcueto aqui funciona normalmente. Pode ser que a rede não esteja conseguindo atender ao grande número de acessos”. Pode parecer irônico, mas não é. É vergonhoso.
Depois de acompanharmos o julgamento do Mensalão pelo site do Supremo Tribunal Federal e pelo hangout GRATUITO do Google, é inaceitável que o Senado não consiga fazer chegar ao povo brasileiro, democraticamente, as opiniões, posições e motivos que levarão os senadores brasileiros a conduzir à presidência da casa um membro que já renunciou a este mesmo cargo. Como disse o líder do governo, senador Eduardo Braga, do Amazonas, “o maior partido do país tem o direito de indicar o presidente da casa”.
A gente compreende a pequeneza do maior partido brasileiro. Aceitar a imposição da imoralidade é outra história, contestada pelas centenas de milhares de assinaturas de cidadãos brasileiros que pediram que Renan não fosse o presidente do Senado Federal por meio de petições públicas! Por que temos vergonha na cara, decência, moral e ética.
E, se os votantes escolhem um “camarada” capaz de usar o dinheiro público para bancar com notas frias sua filha fora do casamento, lamento, mas dane-se a maioria.
A denúncia do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao Supremo Tribunal Federal (STF) é clara: pelos crimes de falsidade ideológica, uso de documentos falsos e peculato. Se acatada, Calheiros passará da condição de investigado à de réu. Quanta honra, quanta dignidade…
Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito…. Pedro Taques, o senador em que votei e honrosamente me representa, candidato da oposição, cita Manoel de Barros e mais, um dos maiores brasileiros que tive a honra de conhecer: Darci Ribeiro…
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
Darci pode ter fracassado em muitas coisas, mas sua memória é honrada no meu templo de trabalho. Chama-se Sambódromo Darci Ribeiro, a passarela do Samba carioca. Obra feita por ele e Leonel Brizola. Aquele, lembram?
Com o fim da palhaçada,(desculpa ae, Tiritica, por usar em vão o termo que designa uma categoria tão especial) vamos ao carnaval que, afinal, é assunto sério!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

As águas rolaram, o povo cantou… o santo abençoou!

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Estava indo, mas acabei ficando por que o tempo está virando de novo. Será praga de madrinha esse janeiro carioca, totalmente encharcado? São Pedro parece decidido a fazer uma lavagem geral, pra entrar na era de Aquário livre de impurezas.

E nós aqui, valorizando os guarda-chuvas e as capas impermeáveis, evitando os sapatos delicados e pedindo a Deus proteção para as chapinhas e escovas.

Esse, na verdade, não é o meu caso particular, adepta que sou da liberdade e da selvageria da minha cabeleira. Quanto mais molhado, maltratado e salgado, mais bonito ficam meus, agora, longos e rebeldes cachos. A mulherada em geral está sofrendo horrores!

A chuva abunda e prejudica o dia-a-dia da cidade, provocando a revolta dos moradores que sentem na carne a ineficiência dos órgãos públicos e o agravamento gradual do que a propaganda oficial diz que está sendo melhorado. Será nosso dinheiro jogado fora que entope os bueiros e provoca alagamentos cada vez mais intensos e rigorosos na cidade maravilhosa?

Sei não… só sei que os camelôs acabam se dando bem e as sombrinhas com imagens de pontos turísticos do Rio, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o bom, velho e, agora, inoperante Maracanã passeiam sobre as cabeças que tentam se protegerem da água que Deus nos manda com abundância e intermitência nas últimas semanas.

O aguaceiro afeta a vida, mas não a interrompe. Alguns hábitos se transformam, outros sobrevivem e superam as intempéries ignorando a molhação.

Rodei, arrodeei, mas sei onde quero chegar, igual a essa chuva persistente de pancadonas e pancadinhas.

Semana passada, matei o ensaio técnico das escolas de samba na Sapucaí no sábado – estava chovendo(!), mas não fugi da raia no domingo, dia de São Sebastião e  da lavagem do Sambódromo pelas maravilhosas baianas cariocas. A cada ano, o cortejo fica maior e mais emocionante!

Lá fui eu, com meu kit “pode cair o mundo”, rezando pra que os deuses do samba e do carnaval protegessem ao menos meu equipamento. Fotografia é assim, um vício delicioso em que a gente procura registrar de um jeito diferente o que está ali, pra todo mundo ver.

Os atabaques nem precisaram soar e o céu já estava caindo, desafiando os fotógrafos a protegerem seus equipamentos, ou arriscarem suas lentes, naquela que pode ser a foto derradeira. Quando os tambores firmaram descia água a vontade.

Corri pra onde todo mundo correu e, é claro, não havia proteção pra tanta gente. Voltei pra baixo d’água, conformada com minha sina de pinto molhado e temendo que a festa fosse prejudicada.

Foi quando ouvi. Um canto. O canto. De todos! Sem amplificação, só do coração. Das milhares de almas que estavam ali. Se sentindo abençoadas e fazendo questão absoluta de manifestarem por meio dos sambas entoados, a fé na manifestação religiosa que ali acontecia.

Larguei de mão todos os meus medos, o receio de perder minha única câmera fotográfica, a que usarei durante o carnaval que se aproxima. Se, ali, cada um representava seu papel, o meu era de registrar aquela sintonia celestial. E se havia – e há – a famosa proteção, as bênçãos dos meus santos me guiariam pela tempestade, afinariam meu olhar e dariam passagem para as imagens emocionantes que refletiam na pista alagada da Avenida do desfile principal, a Marquês de Sapucaí.

E assim aconteceu com quem, com fé e oração, se deixou levar pelas águas purificantes de São Sebastião…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Realidade cruel

Preto-Leme130117-028-rib-equipamentoTexto e foto de Valéria del Cueto

Estou tentando ser zen. Mas tá difícil. O sol ilumina minha vida enquanto as copas das árvores que enfeitam minha janela no segundo andar acenam animadas me convidando para ir à praia.
Tenho muito o que fazer, inclusive escrever essa crônica, e um tempo reduzido a ponto de não poder ir até a Ponta do Leme e mal traçar essas linhas no meu caderninho. Nesse momento, o trabalho duplo, escrever/digitar faz diferença.
Se o visual é perfeito, o mesmo não se pode dizer do motor da obra de Penélope do Eduardo Paes prefeito do Rio de Janeiro. Ele continua enxugando esgoto aqui na quina da ladeira.
Que obra! Que perfeição. Era, entre outras coisas, pra acabar com a língua negra que se estende preguiçosa pela areia em direção ao mar há muitos anos. Quando fui pra Cuiabá, em 2011 a buraqueira era embaixo da minha janela da casinha, o apartamento da Gustavo Sampaio. Mexeram na parte de saneamento básico e, para ajudar no conjunto da incomodação, desrespeitaram os moradores ao não seguirem as regras para as obras impostas pela própria prefeitura nos quesitos segurança, sinalização e ordenamento urbano, ditadas pela própria Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos.
Agora, anos depois, consigo detectar a inutilidade do sacrifício dos moradores do bairro. Além de consumir o dinheiro da população, a obra, tocada pela empresa Dimensional para a Secretaria de Habitação do Município do Rio de Janeiro, é um desastre e criminosa. No sentido mais puro da palavra. Foi numa barbeiragem dela que minha avó caiu e quebrou o fêmur.
Quando me mudei para o novo apartamento, um mês e meio antes da Rio +20, todo o cronograma da bagaça já tinha ido pro book naturalmente. A coisa piorou mais ainda com a maquiagem feita pra mostrar o morro pra gringo, no caso o prefeito de New York. Logo depois, é claro que tiveram que, usando britadeiras, quebrar o asfalto recém feito para, então, passarem as tubulações. Coisa de mestre!
Quando tudo parecia assim, meio assado, caiu a primeira chuvinha e a Ribeiro da Costa virou um rio/mar de lama desaguando na Gustavo Sampaio. Metade claro, metade escuro. Esqueceram que 2+1 dá 3 e não 2 e esgoto não faz a curva do joelho. Portanto a tubulação tinha problemas. Na segunda chuva, filmei a tampa do bueiro da ladeira descendo pelo asfalto, depois de ter sido levantada pela força das águas.
Aí eles começaram a enxugar o esgoto. Tipo assim, como quem enxuga gelo. De manhã e de tarde. Vários homens, alguns mergulhados num bueiro de cada vez, outros puxando os dejetos misturados com areia com os instrumentos mais esdrúxulos possíveis e imagináveis.
Tudo isso em meio a falta de segurança, higiene e de sinalização adequada, ao uso indevido do espaço público como canteiro de obras, as denuncias no Ministério Público que promoveram ações cíveis e processos contra tanto abuso. E tudo é pouco, por que a luta é desigual e cruel. Nada detém o rio de dinheiro que está sendo sugado aqui. Meu consolo é o registro sistemático do andamento dos “trabalhos”.
E assim, sem solucionar os problemas existentes, a tal empreiteira ainda está construindo mais 200 apartamentos no Chapéu Mangueira. É pedra cantada que vai dar (mais) problemas.
Isso é pra vocês, caros leitores, não pensarem que o Rio de Janeiro é só a cidade maravilhosa que povoa os meus sonhos quando desligam o maldito motor aqui na esquina…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPreto-Leme130117-030-ladeira-geral-bueiro

Simples, pra mim

Areia 121220 159 pipa e trave

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou com síndrome de pipa. Não das gordas, das que voam. Tudo que quero traduzir em imagem se resume a uma delas.
Se digo que quero voar, lá estão elas, bailando no meu céu. Serelepes e abusadas.
Quando falo em liberdade, penso na sabedoria maior que elas me ensinaram: a sempre dar linha. Nunca tencionar sem necessidade. É, por que se na linha, pipas dançam, na puxada, elas rebolam.
Desde que me conheço por gente sou fascinada por pipas, pandorgas, arraias (não possuem rabiola), papagaios, ou chame você como quiser as chinesinhas, usadas a dezenas de milhares de ano como sinalizadoras militares. Que ironia. Meu símbolo de liberdade…
Cresci ajudando e atrapalhando experts a alinhar as varetas, fazer a cola de goma, recortar os gomos e enfeites no papel de seda e as tiras da rabiola, preparar a linha e enrolar o carretel. Aqui, pulo o capítulo do cerol, por que não poderei atirar a primeira pedra contra quem já brincou de cortar as vizinhas no céu.
Como na vida, tem gente que solta pipa, outros, preferem empinar o papagaio.
Prefiro quando a vida me dá menos trabalho. Pode parecer coisa de gente preguiçosa, mas não é. É coisa de gente que sabe que mais vale um luar do que lutar. Até por que, ultimamente, lutas tendem a ser inglórias, o que é bem pior do que uma simples derrota.
Estou na levada da pandorga. Seguindo o vento, se deixando guiar pelos puxões e safanões caprichosos da molecada. De preferência pedindo muita linha, que é pra ter a sensação de espaço aberto. De poder saracotear.
Isso não quer dizer que perdi o rumo, larguei de mão meus objetivos. De jeito nenhum. Apenas sinto que o momento não é o ideal para determinadas abordagens. Até por que, pedir o impossível é somente um requisito para a frustração eminente, pela qual não pretendo passar.
E lá vem a pipa novamente. O que me falta agora é quem conduza minha linha. Sempre tão livre, mas segura na Ponta do meu Leme.
Daqui pro mundo era um pulo, o passo da confiança, o espaço da certeza plena de que, nesse fio, só passavam ordens e comandos gerados no mais profundo e incondicional amor eterno.
Agora, o fio está sem mando. A pipa não tem mais limites.
Mas tem objetivos. Se não imediatos e palpáveis, de conduta e caminho. Que é pra não desperdiçar o que aprendeu, nem deixar de saber que se o rumo é o prumo, a meta tem que ter valor e valer o preço da, agora, infinita solidão. O tempo é senhor.
A vida segue como um mar que se limita somente pelo nome que leva, já que suas águas, sem divisas, se confundem pelas correntes que cortam e se misturam oceano adentro.
Agora, só com a rabiola como ponto de equilíbrio, sem o fio que guia seus movimentos, o céu é infindável.
Muda o ritmo, os estímulos, muda o todo, tudo foi. Nada existe. Só vento, que carrega a pipa, quem sabe lá para onde? O qual será o por quê?
Só não dá pra admitir a hipótese de, ao perder a linha externa, esquecer que há algo mais, capaz de ser fio e ser luz que não quebra nem dilui.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Com qualquer tinta eu tento…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se me lês, é por que não foi dessa vez. Não chegamos ao fim do mundo. Mas temos e estamos no inferno na terra de sempre, com uns laivos de esperança para quem tem fé. E olhe lá.
Praia, praia, praia e nada mais. Ou melhor: piscina. Dupla jornada. Hidroginástica. Preparação física à vera. Como não rolava há muito tempo. Juntou a fome com a vontade de doer. E, se é pra ser por que é inevitável, que renda bons frutos físicos e mentais. Esmurrar a água não provoca dor alheia ou maiores danos por ter baixo impacto. Só cansa e faz dormir.
Por que a vida passa, a fila anda e esse não é um bom momento para parar o mundo e tentar descer. Ele passou! E, como já disse, se me lês é por que a porra do mundo não parou quando devia. Agora é que o bicho vai pegar. E ele, o bicho, já está botando as manguinhas de fora, diga-se de passagem.

Nos últimos dias, duas crônicas foram interrompidas por uma mesma razão peculiar em pleno parto (aí, Gabriel Novis!): por falta de tinta na(s) caneta(s). O primeiro impedimento foi na praia e me obrigou a interromper a escrevinhação. Así no más. Terminei o texto direto no computador, em cima do laço para cumprir o horário das editorias (repararam como tenho falado nelas, as editorias e neles, os editores ultimamente?)
Agora, de novo! Lá se vai a caneta. Engraçado é que a única coisa que faço a mão religiosamente é preencher caderninhos após caderninhos de crônicas. Acabarem duas cargas em três manuscritos? Ai, ai, ai…
“>Por via das dúvidas puxo do porta-tudo a caneta comemorativa de São Judas Tadeu que ganhei de minha mãe no dia do santo, 26 de outubro. Aperto o pino e… Nada. Desmonto a caneta. Está tudo lá, inclusive a tinta que havia transbordado da carga, lambuzando minhas mãos. Meleca.
Aí, meu Deus! Mensagem recebida. Meu texto não tem a guarida do santo protetor de quem, acabo de me lembrar, perdi a medalhinha que sempre uso num cordão, junto com um crucifixo e Nossa Senhora..
Parto para a ignorância e apelo para uma BIC. Prateada, como o surfista da história em quadrinhos. Valho-me dos seus superpoderes por que, como já disse, a fila anda e, se eu der mole, perco a levada.
E aí… volto ao ponto: se o mundo ia acabar, não precisaria me preocupar com a próxima narrativa. Era essa e deu! Beijou, beijou, não beijou, beijasse. Danem-se editores.

Como ainda não chegamos ao fim dessa sexta feira, 21 de dezembro, prefiro não contrariar os deuses alterando meu próprio ritual. Crônica e praia, praia e crônica.

Me apego a pedra, meu leme verdadeiro, olhando o tempo – que a tudo espera – a espera do tempo passar…

Está tudo aqui. Meu céu, meu mar. Quase tudo no seu devido lugar.
Menos eu que, como a tinta da caneta de São Judas, apenas escorro entre os dedos do destino deixando algumas marcas croniqueiras enquanto dou adeus ao fim do mundo, como quem diz: “Mais um segundo, uma hora, mais um dia. Outra vida, quem sabe? Não importa. Como meu mar vou para onde o vento me levar. Haja biquíni!”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

El Cid, a flecha e o alvo Sebastião

Moc Bar 121213 0111 João tela 01Texto e foto de Valéria del Cueto

Pra variar, engatei a quinta procurando. Só que tem hora em que são eles, os assuntos, por assim dizer, que te atropelam. É isso mesmo. O assunto firmou quando ouvi o antigo hino de São Benedito, aquele, em horário quase nobre na TV. Arrepiei. A seta mirou o alvo e acertou meu coração guerreiro um pouco santo. Sebastião. No Rio, Oxossi, o caçador que me protege e cuida da mata.
A bandinha tocando e eu comemorando. Feliz pela notícia de que o olhar e a sensibilidade de Cid Carvalho alcançaram João Sebastião. Se já estava interessante, agora ficou bom demais! Cuiabá vai chegar como e com quem deve na Sapucaí. Por que anjos e santos se juntaram aos cajus e as onças. E João, aquele que ferveu e agitou nos calientes carnavais de Cuiabá, vai estar ali. Apresentado e representado de alguma forma no cortejo do desfile principal.
Conheci João logo que cheguei em Cuiabá e fui seduzida pela explosão das artes plásticas que refletiam em suas cores o calor da terra. Sempre presto atenção e (re)conheço um lugar por aspectos que me atraem de sua cultura. Me orgulho de jogar nas 11: vou de literatura e poesia à música. Traço escultura, pintura; sou fissurada por grafite, fotografia, audiovisual…, tudo sem titubear. Foi assim com a Califórnia da Canção, de Uruguaiana, a polca e o artesanato paraguaio, é igual com a carioquice (minha cultura) em geral. Ouvi, vi, estudei e ainda pesquiso. De vez em quando, tento e faço.
Volto à Cuiabá e ao João. De quem tenho algumas obras. A menor, uma joaninha vermelha feita de pet que enfeitava minha instalação de natal (chamar aquela galharada de árvore é uma ofensa à natureza). Também tenho uma onça marota olhando à lua, com ar de “te pego”. Mas meu objeto preferido é um pano que deveria ser canga. Porém que, diante da importância da obra, foi ensanduichado e enquadrado. É a síntese de uma linda história. Mostra uma onça inteirinha, sedutora e esbelta, te olhando fixamente. Ela usa um colar com cajus vermelhos ornados com suas folhas verdes. Sob uma das patas dianteiras há uma folha presa, do enorme caju lilás que a olha em primeiro plano já no “laço” para ser juntado aos outros, no colar.
É uma obra original. Primeira e única. No desenho, os traços feitos pelo João, são facilmente reconhecidos. O olhar e as proporções do felino, sua posição. Mas a pintura não é a dele. Nela, há um trabalho primoroso de pontilhismo em parte da tela. Quem pintou minha onça quase canga foi Chico Amorim. Amigo de vida, teatrólogo famoso e meu orientador no doutorado de cidadã cuiabana. São dele pérolas como o dito: “Tudo evolui no mundo, menos a baixaria”; o excitante desafio de “ficar sem fazer nada”; as fugas loucas para as águas límpidas, deliciosamente refrescantes dos rios que cortam a estrada da Chapada durante a semana e outras cositas mais.
Pois a obra ficou tão especial que João fez questão de assinar a tela. É única e tem uma linda história que inclui o autor da surpresa espetacular. É, por que é claro que babei com o presente!
Pois é esse João, o Sebastião, que – soube hoje – vai se juntar a grande festa verde e rosa na avenida. Que me perdoem seus promotores do centro oeste, agora sim, temos um “muxirum” cuiabaníssimo com a cara do que mais amo nessa terra: o povo CUIABANO! Do qual João é síntese e expressão, por meio de suas maravilhosas e originais criações.
Trazidos pelo trem conduzido por Jamelão e coloridos, também, pelo que há de mais autêntico e representativo nas artes plásticas de Cuiabá, os frutos dessa mangueira estarão perpitolas de cuiabanidade!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “é Carnaval” e “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Da janela da alma vem a luz que me acalma

Texto e foto de Valéria del Cueto
Tudo igual. Constato passeando pelo bairro, no caminho entre a padaria e a Pedra do Leme, onde vejo a bandeira tremulando a meio mastro. Mas diferente.
Vinha procurando um assunto quando passei embaixo da janela do meu antigo apartamento, a “casinha” (o novo ainda não tem nome), no primeiro andar. Aquela onde, quando fui para lá, há mais de dez anos, achei ideal para receber serenatas.
É, sou do tempo e de lugares de serenatas na janela. Para desespero do meu pai, milico ainda, que precisava acordar cedo para trabalhar. Como somos duas filhas, a Gisela e eu, as homenagens românticas eram múltiplas, muito mais pra Gi do que pra mim.
Em Bela Vista, naquele tempo Mato Grosso, serenata era assunto muito sério e recorrente, principalmente nas férias, quando a garotada baixava na princesinha do Apa. Tinha que agradecer, abrir a janela…
A ordem dos fatores alterava todo o produto. Era uma romaria crescente por que quem recebia a serenata costumava se juntar a turma para ir cantar noutra janela, depois noutra.
Nunca fui de ir atrás das violas enfeitiçadas. Primeiro, por que meu pai não deixava. Segundo, por que nossa casa sempre ficava por último, mesmo que fosse visitada noutra altura da ronda musical. Afinal, eu namorava Preto, o violeiro – mor, peça quase fundamental para o sucesso da empreitada (sem tirar os méritos dos dedilhados e doces palavras do Vanderley, do Gão do Bermudes e, por que não incluí-lo, pelo esforço frequente, o Tadeu Palmieri). Eu não me incomodava mas, meu pai, sim. Não foi nem uma nem duas vezes que recebeu as românticas caravanas ameaçando premiá-las com panelas cheias d’água. Isso, lá pela terceira ou quarta serenata. No meio da semana!
Quase infelizmente no prédio da Gustavo Sampaio nunca recebi uma serenata. Também nunca pedi, por achava que o mimo deveria vir de forma natural, sem forçar a barra.
A vida é assim, não nos dá aquilo que pedimos. Porém… De vez em quando, nos chega um presente muito melhor. Acontece que a janela do meu quarto era só um pouco acima do nível da rua. Não precisava de gritos para que eu ouvisse se alguém me chamasse.
E, assim, nos últimos 10 anos, passou a ser feito. Todos os domingos e, algumas vezes, durante a semana. “Maria Valéeeeeria, Maria Valéeeeeria…” Aos domingos, depois da missa, um pequeno desfio de caminho, permitia que minha avó me desse o melhor despertar do mundo, o mesmo que tive durante os anos que morei com ela, (naquele tempo acrescido de um copão de Nescau morninho).
Não importava meu estado matinal ou o peso da janela de guilhotina que me fazia me xingar mentalmente, temendo dar um mau jeito nas costas levantando o janelão. Como a cama ficava colada, a segunda dificuldade era encontrar os óculos pra poder dar um tchauzinho pra minha amada e combinar o almoço de domingo. Simples assim.
Tive a minha serenata por uns de dez anos. Até precisar mudar de apartamento, no último mês de maio. Mudei pra perto, para a rua de trás e entrei no caminho natural de dona Ena para a igreja. Só que… Fui morar no segundo andar. Muito mais difícil de ouvir meu mantra de bom dia. Passei a colocar o despertador e, tal como Januária, esperar que a maré cheia do meu mar de amor me alcançasse. Ficou mais difícil e por contingências da vida, o costume não firmou.
Hoje, na minha janela, sou apenas Carolina, a que não viu o tempo passar. E, dizendo mentalmente nosso “segredo”, junto com ele prometo: nos meus olhos, agora, fundos, não vou guardar a dor. Uma rosa pode morrer, a festa acabar, um barco querer partir. Nossa história não merece o sofrer, amada. Não faz assim quem foi só carinho, amor, tanta alegria! É Sem Fim…
*Valéria del Cueto, neta de Dona Ena, que sempre vai viver no SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Na dúvida, cante, sambe e celebre

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei se peço ajuda aos santos, apelo para meus orixás, adoto a postura de meditação dos budistas, entoo um mantra hindu ou tudo ao mesmo tempo. Assim, junto e misturado que é pra fazer efeito.
Estou igual a minha canga, toda embolada quando tento acomodá-la nas areias cálidas da minha praia recém saída de um longo período de quase uma semana de chuva fina e/ou tempo nublado e/ou tempestade, a escolher no período a que me refiro. Estou como o mar, querendo se ajeitar, amansando seus desejos e rompantes mas, ainda, turvo com os resquícios da chuvarada.
Respiramos fundo, o mar e eu, procurando dominar nossos instintos mais selvagens e profundos, cuspindo o lixaredo que tentam nos impingir. Corpos vivos seletivos que ambos somos.
Cheguei aqui com uma história carnavalesca na cabeça, mas relutante em conta-la esta semana. Preocupada com meus assíduos leitores, talvez cansados do meu eterno carnaval. Minha anti-auto-censura argumentando que nunca fui nem serei escrava das efemérides ocasionais para tratar de qualquer assunto. É claro que procuro não desagradar meus editores e, antes de qualquer observação nesse sentido, lembro que o público tem o direito de tomar conhecimento de que carnaval se faz o ano inteiro. O que, inclusive, explica essa verdadeira cachaça cultural do brasileiro.
O gran finalle é lembrar que estamos no Dia Nacional do Samba, em pleno 2 Congresso Nacional do dito cujo na abençoada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
E aqui, faço dos versos do samba da Gres. Mangueira 2012 as minhas orgulhosas palavras: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou…” E se prepare, acrescento eu, sem nenhuma pretensão poética, mas cheia de moral profética: Aguarde, por que o céu é o limite e as estrelas nossas guias nessa viagem que, cada vez atinge mais lugares no mundo, agregando novos e apaixonados adeptos.
Somos a maior vitrine da cultura popular brasileira, alavanca de signos e tendências nacionais. Pela festa e para a festa expomos e traduzimos em arte nossa pra gringo ver, opiniões, mazelas e orgulhos, discutidos e esmiuçados em forma de enredo.
E isso não se faz só na temporada do “vamos falar de carnaval”. Tá bom que também é preciso descanso, uma pausa para respirar, um tempo para tirar a fantasia do carnaval que passou e começar a imaginar o que será o tema da festa que virá, antes de cair de boca na sua produção. Isso é lá pelo mês de abril e já com algumas escolas de samba tendo anunciado seu enredo seguinte.
Esse é um dos segredos do sucesso do carnaval carioca: um calendário de trabalho. Nem que seja imaginário, por ele só se torna real com as entradas de dinheiro para sua execução. E chegamos, assim, ao próximo ponto. O patrocínio que acaba possibilitando o desenvolvimento e o crescimento da festa é o mesmo que interfere e aprisiona as temáticas e enredos das agremiações que o recebem.
Olho pro alto. Enquanto escrevia o tempo fechou sobre o céu da minha canga esticada na marra. O espaço ficou exíguo no meu minifúndio semanal de duas laudas para desenrolar essa história!
Por isso, informo que, as séries “Ponta do Leme”, “Parador Cuyabano” e “Fronteira Oeste do Sul”, a bordo no Sem Fim… acrescento uma nova linha.
“É carnaval” vai juntar o que escrevi, desde 2005 sobre o tema e o que, com a concordância dos meus leitores, a quem peço humildemente passagem, ainda relatarei sobre a parte que mais amo na folia: o fazer carnavalesco.
Salve o Dia Nacional do Samba, dedicado a todos os bambas que fazem da festa nossa de cada dia uma eterna folia!
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Quem te viu, não pode mais ver..

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Existem coisas que os olhos não devem mirar, aquelas que pra entender… Sei lá, não sei não, por que não cabe explicação.

Foi assim na homenagem à Delegado, lendário Mestre Sala e Presidente de Honra da Estação Primeira de Mangueira, no sábado seguinte da sua partida. Tudo era igual, mas muito diferente.

Na abertura da noite, a imensa bandeira mangueirense que cobre o fundo da quadra, se abriu ao som da Surdo Um, a bateria comandada por Mestre Aílton. Como sempre… A roda se armou, os segmentos se posicionaram e abriram espaço para que as baianas pudessem iniciar os trabalhos.

Todos sentiam a falta de Delegado, sempre sério e compenetrado com seu bastão, apito, chapéu e a faixa de Presidente de Honra da escola para a qual trouxe, durante tantos carnavais, as notas máximas no seu quesito. Estava nos olhos de cada um, assim como nas vozes que, em uníssono, louvavam o amor maior do Mestre Sala. Era um canto forte, um canto alto. Para ser ouvido por todo lado. Inclusive lá onde, agora, Delegado se encontra cercado de bambas que fizeram a história da festa que virou o maior espetáculo popular da terra.

Era do lado direito da quadra, numa mesa de pista que ele costumava acompanhar os ensaios, antes e depois de comandar a roda. Ali, agora, só Suluca, sua irmã, cercada de crianças e adolescentes da família, até ser convocada para receber as reverências, depois de Ézio, um dos filhos de Delegado, cantar um samba (é claro!) inspirado em Hegio, que virou Delegado por “prender” as mulheres. Era hora de homenagear!

Do lado oposto, embaixo do palco, a Porta Bandeira Marcella Alves recebeu o pavilhão da Mangueira e saudou seu par, Raphael Rodrigues. O casal atravessou bailando o espaço aberto no meio da roda. O público vibrava, cantando e dançando sambas que fizeram de Delegado a lenda por todos cultuada.

Estranho não encontra-lo, mãos estendidas para o alto, o bastão apontando o céu, antes de cruzar os braços sobre o peito e baixar a cabeça para saudar, com um beijo, o pavilhão que sempre apresentou e protegeu.

O teto retrátil da quadra estava aberto. O detalhe foi notado apenas por que, quando o casal se aproximou para saudar o grupo, uma garoinha começou a cair, quase imperceptível. E rapidamente aumentou… Ivo Meirelles, presidente da escola gesticulava, pedindo para que o fechassem. Mas não era isso que os deuses do samba e seus representantes celestiais queriam. O sistema não funcionava. E a água, que lavava corpos e almas dos mangueirenses saudosos, só apertava!

O piso molhado era riscado pelos pés ágeis, num bailado possuído pelas forças da Mangueira que se juntavam no céu e na terra. Cada gesto, cada voleio de Marcella e Raphael passou, literalmente, a ter um peso diferenciado. O pavilhão encharcado ganhava uma nova força. Nele, se concentrava o encontro dos bambas do passado com os sambistas do presente da verde e rosa. E ele voava nas mãos da Porta Bandeira, seus súditos aspergidos e abençoados com chuva que, agora, despencava do céu, sem dó nem piedade…

Muitos viram. Não sei quantos sentiram o momento em que, ao som cada vez mais forte e apaixonado do cantar do Morro da Mangueira, fomos todos elevados à categoria de uma nação. Um povo que, diante da perda de um baluarte, se une, supera e celebra seu mundo, o do samba, através da música, da dança e do amor por sua história, ali reverenciada.

As lágrimas corriam, misturadas ao suor, e se diluíam com a chuva redentora, mensageira e pacificadora. A dor da ausência aliviada pela mensagem celestial.

De alma lavada, o peso da perda ficou mais leve diante da beleza dos reflexos da água da chuva nos corpos e  gestos do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira que, ali, representava e cultuava a arte maior de Delegado, o Mestre Sala nota dez da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Quem semeia sonho colhe carnaval

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na apresentação das agremiações elementos obrigatórios e também as inovações são julgados pelos jurados que escolhem a escola campeã do Carnaval Carioca.

Mas como se constrói o sonho apresentado no desfile, que, em seus quesitos, bota em julgamento a Porta Bandeira e o Mestre Sala, que carregam e zelam pelo estandarte do pavilhão da escola, a Comissão de Frente, grupo que a apresenta para o povo, a bateria responsável pela cadência dos desfilantes, e tantos outros?

A parte plástica dos carros alegóricos, alegorias, adereços e fantasias, usadas pelos foliões, é feita com o esforço conjunto de ferreiros, carpinteiros, pintores, aderecistas, costureiras, escultores e outros artesãos que trabalham meses a fio (olha ele!) na construção da proposta imaginada, planejada e desenvolvida pelo carnavalesco no barracão da Cidade do Samba. É o corpo pulsante por onde circula o sangue da folia bombado pelas centenas de trabalhadores que transformam materiais primários, brutos, em elaborados trabalhos artísticos para  retratar o enredo proposto pela escola de samba e apresentado na Sapucaí.

O projeto do desfile é criado, desenvolvido e construído com muita disciplina, criatividade e técnica. Da criação à finalização do trabalho uma série de etapas tem que ser vencidas de forma mais ou menos sincronizadas, mas com data marcada para  brilharem na passarela carnavalesca.

A Cidade do Samba, na zona Portuária do Rio de Janeiro, próximo ao Sambódromo, é, desde 2006, a conquista mais significativa para a evolução da festa. Nela, estão reunidos os 12 barracões das Escolas do Grupo Especial. Projetados para transformar em realidade com tecnologia e num espaço apropriado os sonhos e delírios dos criadores do espetáculo.

As instalações dos barracões aprimoram o processo produtivo. Ele evolui do desenho para o projeto técnico, ferragem, madeira, empastelamento, pintura, adereçamento, iluminação e o deslocamento para o local do desfile, no caso dos carros alegóricos. Nas fantasias, do desenho para o desenvolvimento dos protótipos, modelagem, corte, costura, montagem, adereçamento, embalagem e sua distribuição para os componentes.

Precisei de 1200 imagens para traduzir, em sessões, a evolução da construção de um único carnaval de um só barracão, o da Mocidade Independente de Padre Miguel. Também fotografei os ensaios técnicos e o desfile da escola no Sambódromo. Estas, são outras tantas centenas de imagens.

Dissequei o processo seguindo uma norma: nunca interferir, dirigir ou compor as imagens a serem captadas. Apenas explorar numa sequencia semi-ordenada (a ordem no espaço se modifica com o andamento dos trabalhos), em 16 visitas, cada centímetro dos 7 mil metros quadrados dos 4 andares do barracão que construía o enredo de Cid Carvalho, A PARABOLA DOS DIVINOS SEMEDORES, apresentado em 2011.

Outros já exploraram os barracões. Poucos por tanto tempo. Nenhum, acho eu,  com tanta regularidade e tão detalhadamente.

É um mundo. Quente, suado, com cheiros fortes das resinas, colas, fibras e tintas. Surpreendentemente caloroso e amigo depois que os artesãos se acostumam com a peregrinação semanal pelos setores de trabalho e começam a interagir com a câmera fotográfica.

É a vida plena, absoluta em seu momento catártico de explosão e construção criadora. Ingrata e inconstante por, a cada ano, trocar de enredo e fantasia para seduzir seus foliões.

Dizem que esse trabalho é um “acervo imagético”. Prefiro dizer que é um imenso e delicado tecido composto por fios tramados pelo amor e a dedicação do incrível e generoso povo do samba carioca. Maravilhoso, como a minha cidade!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Nossas intimidades mudando de nome

Por Marli Gonçalves

Antes a gente dizia: “Quer aparecer? Amarra uma melancia no pescoço!” E dava risada com a ideia improvável de ver essa cena. Hoje, ao contrário, há controvérsias. O cara pode seguir o conselho. E coitadas das frutas, hortaliças e legumes! Agora entraram definitivamente no descritivo de partes do corpo humano. Não bastassem as mulheres fruta, melancia, pera, morango, homem berinjela, essa semana apareceu a mulher couve-flor, ou melhor, a mulher com uma couve-flor. Ops, mais: a mulher ex-couve-flor.

Eu já estava cansada, era tarde, quando fui dar uma espiadinha no Twitter, ver o que rolava, quais eram os assuntos do dia. Ao ver nos trending topics, (termos mais comentados) o nome da Geisy Arruda, a rosácea loirosa sempre em busca de retorno à fama, que lhe é sempre efêmera porque bate mais a cabeça do que a usa, e ir saber do que se tratava, fiquei meio em choque com a insanidade humana. Dei de cara com uma foto dela, deitada, toda estropiada, cara remendada, olho inchado. Acompanhava uma entrevista na qual o QI de sempre-viva amarela anunciava ter feito de uma vez só várias plásticas, inclusive uma íntima. Mas logo definiu o termo “cirurgia íntima”.  Informava exatamente que tinha operado a vagina porque esta parecia uma couve-flor, ela a achava feia, emboladinha. Que os lábios eram todos grandes, muito volumosos, e por isso até pedia para que seus parceiros não olhassem. Socorro!
Nem preciso dizer o nível dos comentários gaiatos que se espalharam, dos quais me absterei. Mas não posso deixar de pensar que o conceito de intimidade mudou completamente. Terá ela combinado com o médico que a operou que daria uma declaração dessas, “todo mundo” ia comentar e ela pagaria assim as tais cirurgias que duraram sete horas – verdadeira imolação; quase mutilação?
Se for, não há mais limites mesmo.
Mas boba eu, né? Já faz tempo que ninguém precisa mais da melancia para aparecer. Basta se deixar fotografar assim como quem não quer nada. Viu as fotos da tal Nana Gouveia posando de bonita no meio da catástrofe nos Estados Unidos? Pode-se também soltar a voz sem pensar. Distrair-se sem calcinhas.
Ou aparecer como Lady Gaga que, depois de ver que nem tinha tanto brasileiro otário para comprar ingresso para o show megalomaníaco dela, chegou aqui que só faltou, sei lá, dar no meio da rua, num lance e golpe de marketing surpreendente. Chegou dando tchauzinho. Foi pro hotel e começou a tuitar que nem louca. Botou faixa I Love na fachada. Apareceu de topless coberta só com uma toalha. Deu mais tchauzinhos para os coitados que estavam lá embaixo. Jogou lanche daquela rede americana pela sacada. Pôs peruca cor de rosa. Subiu no salto plataforma. E, claro, foi para a favela ver os pobres. Jogou bola. Tô dizendo: faltou dar; inclusive uma de Madona, sua rival, e arrumar um namorado brasileiro instantâneo. Um Maomé podia ele se chamar, talvez, para ser irritante com o Jesus que a outra usou e jogou por aí.
Mudaram também o sentido de exótico.
As tais redes sociais que se expandem a cada dia devem ser culpadas. Só podem ser. Tem gente que precisa tanto dar satisfação do que faz, que passa o dia dizendo “vou até ali…”, volto tal hora, comi isso aqui ( e taca foto do sanduíche horroroso,porque comida tem que ter fotografia especial para ser atrativa), meu cachorro piscou, meu cachorro dormiu. Já vi caso de gente xingando a mãe, postando documentos jurídicos, juro! Isso sem contar na manipulação de relacionamentos. Eu te excluo se rompo com você, para você saber, para sofrer – me explicaram como funciona.
Lembrei-me de uma professora, Claudia, que amava muito, do primeiro ano da faculdade de comunicação, e que dava aula de Teoria da Informação. Como se fosse hoje, recordei da aula sobre espaços íntimos e o comportamento humano. Os espaços sociais. Entendi ali os comportamentos dentro de um elevador, quando a gente não sabe para onde olha, o que faz, quando está com mais alguém estranho. Esse é o espaço íntimo, do grudado, até uns 15 centímetros, nossa couraça, que a gente fecha e só deixa entrar quem quer, se possível for escolher. Dos 15 cm a 1m20 é o espaço pessoal, pode ter toque, avaliação física, uma conversa mais particular. O espaço social vai de cerca de 1m20 a 3m60, para interações com mais pessoas ou palestras. Já o espaço público, distância de 3m60 ou mais de nosso corpo, serve para reuniões com estranhos ou mesmo para fazer discursos. A gente aqui e a plateia lá.
Essas novas subsubcelebridades estão subvertendo a coisa e o que é pior, isso está pegando. Basta correr os olhos nos portais. Ver os motivos dados aos papparazzis, esse pega para capar e fotografar. O importante é ser notado.
Nessa mesma semana, por outro lado, foi aprovado um projeto importante de punição para crimes cibernéticos, garantindo a inviolabilidade de certos meios e penalizando quem se enfia em espaços íntimos – digamos, não liberados. Condena quem calunia e difama por meios eletrônicos, quem invade sistemas, seja para o crime, com uso de senhas, seja para o roubo de informações, como foi o caso das fotos da atriz Carolina Dieckmann, que inclusive dá nome à lei, que só andou porque ela gritou mais alto. Repercutiu.
Pensando bem, quem sabe essa lei também não possa nos proteger – a nós todos – de informações e imagens como essa da couve-flor?
Senão, teremos de nos mobilizar rapidamente para incluir uma emenda garantindo a nossa sanidade diante da loucura. Loucura que fez virar fichinha o girassol da lapela do Falcão, as roupas e a buzina do Chacrinha, as perucas da Elke Maravilha.
Esse povo novo quer que a gente saiba coisas muito internas deles, até se usam ou já usaram, como virgindade leiloada em praça pública. Internas até demais.

São Paulo, sacolão, 2012

Marli Gonçalves é jornalista Descobriu que tem um site http://desciclopedia.org/wiki/Deslistas:Nomes_populares_para_a_vagina– que listou quatro mil nomes para o órgão sexual feminino, do qual muitas das próprias tem vergonha e, pasmem, muitas nunca nem olharam para a sua própria. Nem para compará-las a qualquer hortifruti.

E ai, tá todo mundo?

Texto e foto de Valéria del Cueto

A pergunta vem enquanto procuro a ponta. Não a Leme que me abriga, mas desse extenso fio que passa pelo tear do meu carnaval de imagens e crônicas nos últimos 3 anos, a partir de quando, depois de fotografar desde 2005 os desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, no Sambódromo carioca, tive o prazer e a confiança dos responsáveis por umas das fábricas de sonho que criam e constroem os carros alegóricos, adereços e fantasias apresentados na avenida, de começar a fotografar este imenso trabalho.

Quem assiste ao espetáculo ao vivo ou pela TV, não tem noção do tempo, esforço e organização necessários para encantar os olhos e demais sentidos das dezenas de milhares os foliões presentes na Passarela do Samba e dos milhões que acompanham a festa pelas imagens daqui geradas!

Cheguei a Mocidade Independente de Padre Miguel pelas mãos do destaque Maurício de Paula, meu colega na primeira turma de Gestão Carnavalesca, a inédita faculdade de Carnaval da Universidade Estácio de Sá. Foi ele que me apresentou ao carnavalesco Cid Carvalho, responsável pela criação e desenvolvimento do enredo da escola verde e branca, em 2011.

Queria uma autorização para registrar a confecção de uma única fantasia, a de destaque do Maurício. Sabendo que o barracão é um local quase sagrado por guardar os segredos que serão apresentados em primeiríssima mão no dia do desfile o apoio de Cid era essencial, afinal o trabalho era dele. Como foi dele que veio o desafio de tentar fazer um registro geral do barracão. Como eu quisesse!

Ele abriu, com a anuência do presidente da escola, Paulo Vianna e dos diretores de carnaval e de barracão, as portas de um incrível mundo em construção que pude acompanhar a cada semana, durante os meses que antecederam o carnaval de 2011.

Mas afinal do que falamos?

Imagine uma história, um libreto narrado numa ópera em movimento. Cada escola de samba, por 80 minutos desfila apresentando para o público seu enredo do ano embalado pelo samba cantado pelos aproximadamente 4.000 componentes acompanhado por uma bateria de 300 ritmistas tocando instrumentos de percussão.

Falo do Sambódromo Darci Ribeiro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, na Marques de Sapucaí, centro do Rio de Janeiro. A Passarela do Samba, inaugurada em 1984, onde as 12 Escolas de Samba do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro desfilam no domingo e na segunda feira de carnaval e protagonizam a maior festa popular do mundo.

São em média 4.000 componentes, divididos em alas, distribuídas em setores narrativos, que se encerram com os carros alegóricos.

A escola é apresentada ao público por sua Comissão de Frente seguida pelo Abre Alas, saudando o público e pedindo passagem. Atrás dela, os elementos podem alternar sua ordem, mas sempre estão presentes o mestre-sala e a porta bandeira, conduzindo o pavilhão da escola, as alas das baianas, representando a tradição da comunidade, assim como a velha guarda – ambas reverenciadas pela herança cultural popular que deixam para as novas gerações do samba e do carnaval; as alas dos passistas – com seu gingado especial -, a das crianças e muitas outras, num total que varia de escola para escola, mas gira em torno de 50 alas.

A bateria, comandada por seu mestre e seus diretores é apresentada pela rainha, que desfila a frente dos 300 ritmistas. São os instrumentos que cadenciam o canto da nossa ópera a céu aberto.

O enredo proposto é descrito através das fantasias e alegorias e narrado pela música e a cantoria que toma a avenida e contagia as arquibancadas, frisas e camarotes.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM.

delcueto.cia@gmail.com

 

Charadinha

Texto e foto de Valéria del Cueto

Tiro do meu amplo (?) microcosmo da Ponta do Leme elementos para refletir sobre a vida como um todo e em geral.
É muita pretensão, eu sei. Mas, o que fazer se esses ditos elementos saltitam a minha volta quando (como boa fiscal da natureza) estou aqui, ao pé da Pedra do Leme, apenas a aproveitar o “dolce far niente” do meu carpe diem literário, desta quinta feira?
É de quinta essa sensação de não conseguir deixar de pegar o bonde da reflexão galopando entre os sinais da natureza que me cercam.
Só ele já faz a festa, sem necessidade alguma do dedo do bicho homem para intervir na situação circundante.
Há que ser artista para não se deixar enganar pelos referidos sinais…
Venta, reparei antes mesmo de adentrar ao campo de jogo, delimitado pelo mar, a Pedra do Leme, os prédios e aquela visão paradisíaca de Copacabana que nunca canso de fotografar.
Pelos carneirinhos de espuma que saltitam entre a praia e o horizonte, sempre da direita para a esquerda do meu campo visual oceânico, dá para dizer que a intensidade das rajadas não é baixa.
Caminhando entre os quiosques do calçadão e as barracas, na faixa de areia ocupada pelas redes de vôlei e as traves dos campos de futebol de areia, começo a imaginar a melhor posição para estender a canga sem entrar em conflito direto e contrariar a força da natureza dominante.
No céu não há uma única nuvem e o sol da tarde, nessa antevéspera de horário de verão, mostra toda sua força e energia. Dá para vê-lo, mas não para senti-lo imediatamente.
Depois de escolher o local onde montarei meu escritório de cronista essa semana, paro para decidir a posição ideal para a canga, de modo a ficar na posição certa em relação a luz solar. Penso com meus laços do biquíni e botões do vestidinho/saída de praia que seu trajeto muda rápido nessa época do ano.
Pode parecer desnecessário estudar tanto o posicionamento do meu retângulo praiano. Mas, num dia como esse, é fundamental (sempre que uso essa palavra me lembro de Dante de Oliveira).
Troco as lembranças do homem das diretas pelo cálculo exato da minha exigência geográfica e uma forma de alcança-la surfando nas ondas do vento, sem precisar nem tentar, que não sou louca, remar contra a maré da ventania, capaz de conduzir, inclusive, o bando de carneirinhos/marolas anteriormente citados.
Me esmero no alinhamento, capricho na arrumação e… voilá! A canga aterrissa obediente. Me atiro em cima garantindo o peso nas extremidades: chinelo, chinelo, bolsa e eu. Em posição. De frente para o sol, com o mar à esquerda. Só podia ser assim. Você entende por quê? O sol brilha, o vento faz cócegas e… parece que não está calor.
Então, o bronzeamento não incomoda, nem o alarme para a torração inclemente é ligado. Quando os incautos reparam, danou-se. Tostaram! E, pior, normalmente, só de um lado, a banda duramente atingida pelo sol para quem fica sentado de frente para o marzão apreciando os carneirinhos, tão bonitinhos…
Igualzinho nas eleições! Nelas, a tostada é inerente, distraídos que estamos com as divagações “climáticas” perpetradas pelo mar e pelo sol. Esquecidos do vento que muda o rumo da prosa e só mostra seus efeitos danosos posteriormente, quando não dá mais para tentar um bronzeado equilibrado, por que a tarde chega ao fim, obedecendo a inexorabilidade do tempo que voa…
Depois, haja Caladril para tentar aliviar as queimaduras, manchas na pele e o descascar inevitável.
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Ótimo por um átimo

Texto e foto de Valéria del Cueto

A vida é assim. Conduz a gente. Claro que há espaço para uma substancial colaboração no conjunto da obra. Mas, na hora do vamos ver, pode ter certeza: ela dá o seu pitaco e vira o jogo.

Quer um exemplo?

Cheguei numa praia repleta de atrações fotografáveis. De longe, procurei com o olhar o rumo do meu prumo, a Ponta do Leme. E lá, na Pedra, vejo que começaram a dar o ar da graça as florezinhas amarelas que recobrem as copas das árvores do perfil do morro por um curto espaço de tempo, um quase agora. É a florada dos Ipês.

De longe saco a máquina fotográfica. Cheia de gás e inspiração constato que não só as alterações da paisagem – mas o entorno como um todo – pedem um registro cuidadoso. Sinto-me leve. É a hora!

Começo num plano médio. Vou para o detalhe, pegando a bandeira que tremula no Forte Duque de Caxias e as flores, abro para um geralzão e…

A vida intervém. Poderia dizer, inclusive, que de forma muito antidemocrática. Lá se vão as baterias da câmera. Mais arriadas que pneu em caixa prego.

O que fazer com as bandeiras coloridas dos quiosques, as pipas, o tabuleiro de cuscuz, a leitora distraída? Sem falar no sol, na praia e nas ondas arrojadas que enchem o mar de surfistas.

A vida impõe. Quem pode, responde. Capto o sentido da restrição. Puramente fotográfica, ela não se estende à literatura.

Por isso estou aqui, olhando de dentro dos meus olhos para esse marzão adentro e desafiando minha capacidade de narradora para descrever, mais uma vez, o meu lugar. Meu e de muita gente que venho descobrindo através desse Sem Fim… de histórias que me seduziu. E de quem hoje sou uma escrava feliz que surfa pelas palavras tentando capturar o sentido das ondas por onde deslizam e evoluem homens e pranchas a minha praia.

Pensa que é fácil? Olha e escrever ao mesmo tempo é PHoda. Uma briga incessante. Dois polos te atraem ao mesmo tempo. Aqui, as frases e parágrafos exigem a sua atenção e rapidez, antes que passem batidas, engolidas pela velocidade dos pensamentos que, em décimos de segundos se projetam impacientes num passeio mental vertiginoso.

Lá, aí, lá. Lá é cá, no mar. Também um ciclo de imagens e manobras únicas que, a mim, seduzem desde a formação distante das ondulações que se revelarão boas ou más para a prática do surf, bodyboard e/ou do jacaré, o de peito. Até o momento em que a última espuma da antes poderosa força da natureza se espraia, lambendo preguiçosamente as areias do Leme.

Para mim, onda é um resumo da vida e mar uma síntese dos ciclos existenciais. Como um I Ching natural, aparentemente simples, porém tão complexo quanto os meandros mais profundos do oráculo chinês.

Mobilidade, volatilidade e instantaneidade. Assim são as ondas, movidas de acordo com o humor das correntes, das luas, dos ventos…

É atento a todos esses elementos que se joga na água o atleta. Na busca da sintonia com o mar. O desafio é a integração, por que dela vai depender a capacidade de ousar e criar suas manobras.

O sol, que brilhou até agorinha está se escondendo encoberto por nuvens desanimadoras. Mas como? Ainda não falei das roupas de neoprene penduradas na barraca para secarem. Nem mencionei minha paixão de sempre, as peladas na beira da praia…

É a vida, mais uma bateria que se esgota. Assim como o espaço dessa crônica, a única ditadura imposta pelos meus amados editores para os meus voos literários. Até a próxima!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

A flora aflora

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vou começar pelo fim: Vote. Vote assim, da melhor maneira que puder. Não desista, insista e saiba: que não será o único a votar por convicção e a certeza de escolher o melhor. É a sua hora!

O mundo estava virado de cabeça para baixo. Andando ao contrário. Aliás, se estivesse só parado estaria tudo bem. Sabe tempo de subtração? Em que por mais que se respire pausadamente, mansamente, a sensação é a de que até o não movimento teria o poder de sacudir levemente a asa da borboleta, aquela capaz de alterar radicalmente o desenrolar e o sentido dos acontecimentos?

Minha nossa! Gripe é previsível com esse tempo maluco. Distensão é possível, os músculos e nervos das costas, na linha da coluna,  já estavam uma rede mal trançada. Bastou um espirro para acabar de embolar.

A descoberta de manchas e fungos nas lentes da câmera fotográfica, uma hipótese cuidadosamente evitada no antigo apartamento, tornou-se realidade na casa nova. E deu geral! Meio em confusão, a decisão tomada teve reflexos insanos (nome do energético vendido pelas webjetetes nos vôos áereos). Ela, a decisão, foi de mandar todas as lentes para serem limpas em São Paulo. Mas precisava ser ao mesmo tempo? Pois foi desafiando a Lei de Murphy, que deu adeus ao equipamento achando que era uma boa ocasião para “descansar” o olhar. É claro que ninguém podia imaginar que a greve dos Correios cruzaria o caminho e faria piquetes na entrega da encomenda.

Então, foi assim que, com o espaço externo restrito, já que não estava nada agradável lá fora, com um vento danado de gelado, descabelante e desgovernado, que se dedicou a olhar a vida da janela, quase uma alma, de tantas imagens passavam pela sua esquina.

Falei em imagens? Ops… A primeira vista podia parecer uma eterna rotina: o carro da UPP, com seus guardinhas e as luzes do giroscópio piscando incessantes, noite adentro. O vai e vem das motocicletas, pilotadas pelos boys e seus passageiros. O sobe-desce de gente: moradores, turistas, visitantes e hóspedes em direção ao Chapéu Mangueira e a Babilônia, no Leme. Tudo isso acontecendo lá no chão, no pé da ladeira, entre os carros parados em fila dupla nos ex-canteiros do meio da rua, sombreada por árvores enormes, que alcançam a altura de vários andares dos prédios que as cercam.

Olhando à frente a parte baixa das copas das árvores forma desenhos, como rendas, na enorme quantidade de janelas dos apartamentos vizinhos, onde a vida se desenrola, ou não. Voltando a rua, seu movimento e as inúmeras variações  possíveis de acontecimentos nesse cenário, dá para ver que tudo –  carros, calçadas e asfalto – está coberto por uma camada grossa da poeira, resultado do encontro das águas que ocorreu nas últimas chuvas e deixou no trecho resíduos de lama e esgoto que afloraram, secam e se transformam, qual casulo/borboleta, num mal que aflige a todo o entorno.

Aqui, não se enxuga gelo, como diz o ditado. Se enxuga a lama e o esgoto, que viram poeira empesteando o ar e/ou entopem os bueiros, já deixando o cenário pronto para a próxima chuvarada. É rua cheia e o encontro das águas, nossa mais nova atração turística na certa.

E é no meio dela, quando tudo parece meio cinzento que suas cores límpidas se destacam. Abusadas, as orquídeas penduradas nos troncos das antigas árvores que sombreiam a pequena rua pelos porteiros e garagistas e diligentemente cuidadas durante o ano todo, explodem em tons de lilás e branco num determinado período do ano. É agora! Basta tirar os olhos do chão, e da poeira de lama para elas sorrirem pra você balançando ao vento para chamarem sua atenção para o ritual do renascimento, da regeneração.

Como seu voto, único e intransferível, capaz de mudar o destino da sua cidade, as orquídeas são joias raras que têm o poder  transformador dos milagres, que só a gente, que planta e vota, pode fazer!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Porque considero Fátima Cleide & Miguel de Souza a melhor escolha para Porto Velho

Na reta final das campanhas os ânimos se exaltam, o sangue ferve mais rápido e as ilusões e fantasias voam com mais facilidade.

E justamente é nesta hora que se precisa uma análise fria e racional pra escolher com sabedoria aqueles que vão governar com propostas concretas esta cidade , que hoje faz aniversário, pelos próximos 4 anos.

Acho Fátima Cleide e Miguel de Souza a melhor escolha pra Porto Velho, para uma juventude cheia de expectativas e toda uma sociedade que vai enfrentar a ressaca do pós-usinas com uma conjuntura econômica mundial que não se sabe ao certo onde vai chegar.

Conheço Fátima, pessoa íntegra e honesta, há bastante tempo e nunca soube de nada que desabonasse sua conduta política. Aos contrário, sempre foi transparente nas suas ações, em defesa da cultura, da educação, combatendo as desigualdades sociais, uma autêntica ficha-limpa.

“É impossível resolver os problemas de 100 anos em 8 anos, mas Porto Velho teve um dos maiores crescimentos econômicos do Brasil, gerando milhares de empregos e atraindo indústrias”

Acredito que Fátima deve impulsionar a educação do jeito que a capital Porto Velho precisa . Tem competência e experiência para isso e uma de suas propostas divulgadas na mídia é  atingir 50% da demanda de crianças de 0 a 5 anos no ensino integral , ampliando o atendimento com a construção de mais creches e escolas. A idéia é aumentar os recursos investidos na educação de 25% para 27% , 2% de diferença que representam muito quando olhamos para o orçamento global da Prefeitura de Porto Velho.

Gosto da sua idéia de implantar o orçamento participativo, que deu certo em outras cidades como Porto Alegre, onde a população tem o direito de decidir as prioridades de aplicação dos recursos públicos municipais, elegendo também seus representantes pra acompanhar a execução dos projetos.

Ela é hoje uma liderança articulada e sua proximidade com a presidenta Dilma e com vários ministros e ministras  em Brasília devem a facilitar a vinda de mais programas sociais visando o crescimento da cidade e a melhoria da vida das pessoas. E olha que a briga por recursos em Brasília é grande, afinal são mais de 5.000 prefeitos atrás de verbas para seus municípios. Fátima também pretende ser uma atenta fiscal destes recursos,como por exemplo, a execução das redes de água e esgoto que hoje encontram-se em andamento, executadas pelo Governo Estadual, através da Caerd.

Outra proposta muito interessante é a construção de ciclovias como forma alternativa de transporte, permitindo uma forma saudável de locomoção e desafogando o trânsito, pois as cidades brasileiras estão entupidas de carros.

O engenheiro Miguel de Souza, o vice,  poderá trazer para Rondônia e Porto Velho, a redenção da nova fronteira econômica, por ele articulada há muito tempo atrás com seus contatos peruanos, e que finalmente hoje tem a grande via de escoamento de produtos, através da rodovia Interoceânica podendo transformar a nossa cidade num grande centro geopolítico amazônico brasileiro.

É isso aí e no dia do seu aniversário e sempre, Porto Velho , parabéns !

A mala abalada – ação e reação

Texto e foto de Valéria del Cueto

Onde estava eu? Num lindo início de tarde de sábado, com sol brilhando lá fora e João, do Rei das Malas, a me avisar que, apesar de ter meu contato e prestar serviço para a Web Jet, a mala verde que havia apanhado no aeroporto, ao contrário da minha, simplesmente não tinha puxador, o tal que havia quebrado na viagem Florianópolis/Rio…

Sabe quando você não quer fazer uma coisa, mas tem a sensação de que deve fazê-la para não deixar furo e/ou se arrepender muito depois por não tê-la feito?

Na segunda crônica da série “percalços aéreos 2012” (já houve outra, com outra companhia, antes), mencionei a possibilidade de fotografar a entrega da mala no próximo aeroporto, já que o funcionário havia informado que eu teria que levar a mala até a loja, no centro do Rio, ou entrega-la ali, na hora. Pois então, depois pedir um tempo para montar a câmera e ele concordar em busca-la em casa, senti minha espinha dorsal ser percorrida por aquela sensação do “faça agora ou arrependa-se para sempre”. Tirar fotos mesmo que com o celular da detonação do material reclamado foi um desses casos felizes em que fiz o que deveria ter feito, conforme ordenava minha intuição.

Comprovei o fato no meio da conversa só de um pé e meia cabeça com a loja monárquica de malas, quando lembrei que de checar as fotos feitas no aeroporto, o que confirmou, inclusive, a existência de uma identificação com nome e telefone na parte de baixo da bagagem, entre as duas hastes do puxador gambeta.

Definitivamente, a mala de lá não é a mala de cá, João decretou, após comparar sua hóspede com a foto que mandei por email no início da tarde daquele sábado radioso, segundo o texto que aqui reproduzo (para não acharem que essa narrativa é apenas fruto da minha  imaginação): “A MALA QUE ESTA AQUI NA MINHA LOJA NÃO É A DA SENHORA. DEVE TER VINDO ERRADA, VOU A AEROPORTO PEDIR MAIORES INFORMAÇÕES. ABRAÇOS JOÃO FARID. VOU COMUNICANDO A SENHORA DO ANDAMENTO”

E nada mais aconteceu no final de semana, além de umas tuitadas para a Web Jet passando o número do protocolo e pedindo providências. Eis a resposta: “@delcueto Envie um e-mail para o falecom@webjet.com.br, informando o localizador e número de RIB, para que possamos verificar o ocorrido”. Traduzindo: “continue trabalhando para nós, trouxa”. Preferi ignorar e aguardar os acontecimentos. Na terça pedi notícias por email à loja. Fui informada que João havia entrado de férias e que ainda não havia notícias do rastro da mala. Nesta mesma tarde – vejam que sintonia – recebi uma ligação em que perguntavam quando poderiam entregar minha mala. Pelo que pude entender era a moça da primeira loja, de onde a dita cuja nunca havia saído e se mantinha alheia ao drama que protagonizava e aqui descrevo…

Assim teria terminado a novela não fosse o ato final da Brasil Malas, a que havia vindo buscar a original, nem primeira, nem única. Quando ela chegou  veio coberta por um camada de poeira, tipo de rua.  Muito suja. O puxador que motivou o desenrolar de metade da quase novela desta praticamente indescritível aventura que é voar pela Web Jet, não é mais o mesmo, substituído por um genérico, com um shape bastante diferente do tragicamente danificado, com menos possibilidades de regulagem. A fixação não ficou exatamente encaixada, o que deixa um vão de alguns milímetros perfeito para enganchar objetos em momentos de confusão aeroviária. Em contrapartida colocaram uma ponteira de zíper no fecho que estava faltando. Cansada, aceitei a entrega. Tudo ficaria bem se o rapaz não me pedisse para assinar um termo que terminava assim: ”…razão pela qual dou pena quitação a MALA BRASIL Comércio e Serviços para nada mais pedir ou reclamar em juízo ou fora dele a esse respeito”. Fiquei com a mala abalada, mas não assinei o termo.

A vida é assim, o momento em que vivemos: as eleições. Aqui e aí localizo os mesmos elementos: vítimas, algozes, ações e alguma possibilidade de reação. Dessa, que nunca devemos desistir! Falta uma semana…

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

A semente e o cimento

Por  Aparicio Secundus Pereira Lima

De uma mamoneira plantada no quintal lá da casa do pai Aparicio e mãe Rosália em Petrolina-PE, uma semente eclodiu do fruto da mamona já madura e como num passe de mágica, alojou-se justamente por entre as frestas e fendas  do muro lateral do quintal e lá permaneceu, intacta, quieta, em uma hibernação  quase letárgica no silencio das sombras e na expectativa das horas, envolta em terra seca  e cimento abrasivo até o surgimento triunfal de pequenino broto da planta, que de forma tímida, silenciosa e segura, expandia-se pelas frestas a procura de luz, na solidão de uma batalha sem fronteiras em busca de seu ideal: uma nova planta, novos cachos, frutos, flores e sementes.
Não satisfeita em apenas ter brotado de forma tão inusitada, dado a sua própria natureza de cultura resistente, viável para a região semi-árida,  ungiu-se da essência do seu próprio óleo de propriedades químicas atípicas cuja matéria prima é própria para o biodiesel e com força e resistência incomuns saiu rasgando paredes, desbravando caminhos, adaptando-se às conveniências, suportando intempéries e ataques furtivos de formigas, pragas e outros males sazonais e continuou obstinadamente crescendo pelo milagre da fotossíntese, em busca do seu ideal.
Uma simples semente de mamona atingiu o seu intento: rasgou o cimento, contrariou prognósticos e subiu ao céu de encontro ao seu próprio destino natural.

A mala que abala – o diz a lenda

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na sexta feira retrasada, estava rabiscando a crônica dominical, “Assalto ao Alto” e, pensava ingenuamente, estar dando por finalizada a prova da gincana “a mala vai para o conserto” ali citada.Enquanto escrevia as palavras “Antes da publicação desse registro… a mala estará no abrigo do meu lar”, diante dos meus irrequietos pensamentos – sempre mais velozes que a esferográfica – dançava o velho termo cinematográfico familiar, o “diz a lenda”.

Ele é uma brincadeira utilizada quando temos uma informação e muito pouca, quiçá nenhuma certeza, de que algo vá se concretizar ou se tornar uma verdade. Quando o termo já estava fazendo piruetas e coreografias da Dança do Passinho diante dos meus olhos, cansei de resistir e  anexei as fatídicas três palavrinhas querendo dar um ar engraçadinho ao meio da frase final sobre o episódio da mala danificada. “Afinal, o que mais poderá acontecer?”, pensei otimista na ocasião.

Mal sabia eu, ser descrente da poderosa capacidade intrínseca e mediúnica de prevenção daquelas célebres peripécias lei de Murphianas, que perseguem os puros de espírito, porém destinados a toda sorte, seja ela boa ou má… (Afinal, sem estas aventuras, o que seria dos anos dessas crônicas praticamente interruptas? Um tédio ou o paraíso.) No momento, por exemplo, estamos num processo kafkaniano. Enquanto lá, no original homem vira barata, aqui, se transforma em mala. É, por que na Web Jet, malas andam, se escondem, se disfarçam e se atrasam. Quase vivas, com vontade própria.

Durou pouco a minha alegria. Até João voltar à vaca fria e insistir em saber qual era o problema da bagagem e eu citar a quase moída do punho do puxador. A coisa embolou quando o João fez aquela célebre e odiada pergunta: “Tem certeza? Sua mala é verde?” A cor era essa, mas havia algo errado. A mala que estava lá, não tinha um puxador.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Diz a lenda – quem se lembra do cheiro da casa da sua avo ?

Por Beto Ramos

Hoje, senti saudades da casa de minha avó.
Senti o desejo de chegar e abrir aquele portão barulhento, rangendo junto com o latido do cachorro Veludo.
Senti saudade de chegar à janela de madeira, bem larga, e pedir a benção de minha avó.
Na casa antiga, construída por meu avô, existia de tudo.
Lembro-me do pequeno fogão sempre cozinhando alguma coisa.
No centro da cozinha, uma mesa quadrada com uma farinheira de madeira, uma fruteira sempre com muitas bananas prata.
Dentro da petisqueira, a garrafa de café bem forte.
Na parede um antigo quadro do Sagrado Coração de Jesus.
Perto da janela sempre respondendo com bom humor, ficava minha velhinha numa cadeira de balanço, pra lá e pra cá.
Senti saudades do cheiro da casa de minha avó.
Ela sempre usando os vestidos largos e coloridos, com anágua.
Amarradas na alça do califon, as chaves que abriam os baús da casa.
Somente ela abria tudo.
Sempre no ar um cheiro de Vick Vaporub .
E ali ficava o paraíso que hoje me faz tanta falta.
Quando minha avó substituiu o pote pelo filtro, o sabor da água mudou.
Hoje, guardo na minha casa o filtro que era da casa da minha avó.
Não me desfaço dele por nada.
Muitas vezes minha avó ficava lendo algum livro ou revista por muito tempo.
Detalhe: A revista ou o livro de cabeça para baixo.
Mas, ela já vinha com a resposta pronta.
– Quem sabe ler, lê de qualquer jeito!
Nos jogos do Brasil, quando apareceu televisão por estas bandas, minha avó torcia muito.
Acendia vela, rezava e soltava alguns palavrões ao mesmo tempo.
O engraçado é que após muito tempo do jogo começar ela perguntava:
– Pra que lado o Brasil está atacando?
Hoje senti saudades do cheiro da cama da minha avó.
Dos perfumes usados no domingo quando éramos obrigados a frequentar a missa.
O tempo passou tão rápido.
Estranho é ter que fechar os olhos para lembrar coisas tão simples e que fazem tanta falta.
As ruas continuam iguais, e não existe mais a casa rodeada de plantas e pés de frutas de todo o tipo.
Hoje, vejo minha neta entrar na minha casa sorrindo.
Será que a minha casa possui o cheiro da casa de minha avó?
Será que minha netinha vai guardar lembranças do que sou?
Como diz o Toquinho em uma de suas canções, “Só não me esqueça num canto qualquer”.
Aqui na minha casa pode faltar tudo, menos café.
Café forte durante o dia inteiro.
Talvez seja uma forma de trazer para dentro da minha casa o cheiro da casa da vovó Raimunda.
Será que sou um bom avô?

Diz a lenda

Tudo ótimo

 Texto e foto de Valéria del Cueto

– Bom dia, como vai, senhora? – (essa senhora sou eu).

– Tudo ótimo – respondo sorrindo ao pensar que não reparei o momento exato em que virei “senhora”.

– Nossa, que coisa incrível – diz a atendente do balcão da padaria. – Que milagre! – Exclama com um sincero “ar” de surpresa.

– Como assim? – pergunto intrigada com sua reação – Não entendi…

– Me desculpa, dona, acontece que nunca ninguém respondeu com um “tudo ótimo” ao meu bom dia – explica a moça enquanto para de esfregar furiosamente a superfície do balcão. Seus olhos brilham tão úmidos quanto pano que ela tem nas mãos.

E eu, que na noite anterior havia sido despachada do bonde que me trouxe à Florianópolis, abro o meu mais caloroso e especial sorriso. Era isso ou tê-la que ajudar o balcão inundado de nossas ameaçantes lágrimas.

Como não estaria tudo ótimo? Na véspera, ao sair pela última vez do local em que trabalhei arduamente, em média 12 horas por dia, desde que aqui cheguei (campanha é assim mesmo) uma ENORME lua cheia desenhava o contorno de uma das montanhas da Ilha da Magia, enchendo o céu quase claro de feitiço noturno.

Foi com ela me guiando que, pela primeira vez, pude entrar num maravilhoso restaurante a beira mar onde um filho de Oxalá se apresentou e me abrigou com uma conversa tão deliciosa quanto o gnocchi da fortuna que saboreei com um dia de atraso, “firmando” e pensando na simpatia que é de lei na casa da minha avó.

A conversa, embalada por uma garrafa de um excelente vinho português, de matar de inveja minha maninha  Maria Lima, fluiu gostosa. Como aquelas que temos com velhos amigos que se reencontram mesmo sem nunca terem se visto anteriormente. Cercada de atenção e carinho por Andrade, o encarregado de nos levar pelos caminhos das delícias do restaurante Macarronada Italiana.

Quando abri a janela, na manhã seguinte, o sol, que há dias andava de castigo encoberto por pesadas nuvens que traziam as chuvas e um frio de bater os dentes, daqueles que penetram até pelos pespontos da costura lateral da calça jeans, resplandecia abusado. Aquecendo meu corpo ele me intimava a um esforço extra para, ao menos, tirar dois dias de folga antes de rodar a roleta e jogar a bolinha que definirá meu próximo pouso.

Foi assim que cheguei ao pão com queijo na chapa e ao expresso duplo que me levou ao “tudo ótimo”.

Enquanto tomo o café e conto um conto pra você, fiel leitor(a) e confidente, ouço o toque do celular que interrompe e quebra minha concentração.

A voz que escuto vem de longe, bem de longe. Vem do Rio. É minha mãe que, atendendo a um pedido meio impossível, passa o telefone para Dona Ena. Minha avó, minha madrinha, minha mais antiga e mais querida amiga. O amor incondicional da minha vida.

Ela, que está no hospital, quase tão perto de Deus quanto de nós, que tanto a amamos, me chama de “Maria Valéria” e diz que me ama muito. Como sempre. Muitas vezes. Pedindo pra que eu me cuide, diz baixinho outras palavras carinhosas enquanto, tentando disfarçar a voz, sinto as lágrimas do “tudo ótimo” querendo deslizar pelo meu rosto. Ali, em plena padaria do posto de gasolina. Sei que ela vai sair dessa! Tenho fé e rezo para isso.

Não sei como está a sua vida, querido leitor, mas para mim, ainda que triste, ela sorri. E se alguém me perguntar, mesmo que só por gentileza, como estou, a resposta, você já sabe: Está tudo ótimo! E com você?

PS A minha foto de hoje é um ato. Feche os olhos e imagine quem está nesse retrato.

*Valéria del Cueto é acima de tudo, uma neta amorosa e apaixonada. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

 

Pegando o bonde andando

Texto e foto de Valéria del Cueto

Já passou por essa situação? Emocionante, estressante e… sei lá. Peguei o bonde, sem saber muito bem pra onde. É vida nova, paisagem diferente, outras pessoas e perspectivas. Um sacode e tanto.

Quando meu rumo era o centro, vim parar nos sul. Troquei o oeste pelo leste. O cerrado pelo litoral, emoldurado pela serra do Mar, no lugar da sempre bem vinda e aguardada silhueta da Chapada dos Guimarães. O calor seco e inclemente foi substituído primeiro por um dia de sol na beira da praia. Agora, pelo vento frio e a chuva fina que anuncia a chegada de uma frente fria.

Morram de inveja, amigos mato-grossenses. Do centro geodésico que povoava meu primeiro sono do início da semana, vim bater na ilha paradisíaca que abriga a capital de Santa Catarina, Florianópolis.

Ah, se fosse só uma mudança de paisagem… Aí não seria coisa minha, daquelas que fazem a vida ter mais que graça, ser maravilhosa. A ponto de valer cada sacrifício feito numa vida inteira para não ter amarras. Poder sair para ir ali e acabar chegando lá, sem medo de ser feliz. Sem deixar pendências ou gente insatisfeita. Fui!

Quer dizer, vim!  Por que, mesmo sem conseguir regular as coordenadas do meu GPS interno, sei que estou bem na foto. Afinal, já palmilhei essas terras em outras produções. Tudo é apenas uma questão de apertar a tecla F5 e atualizar a página do Google Map. “Muderno”, né?

É engraçado como as lembranças de verões maravilhosos, amizades da vida inteira e aventuras ainda inenarráveis, pelo simples fato que suas narrativas podem comprometer pessoas ainda vivas, ativas e atuantes, voltam com uma rapidez incrível.

Isso, antes mesmo de sair do aeroporto da ilha em direção à nova base. Quando o motorista pergunta qual o caminho que prefiro, a resposta sai assim, de pronto. Deixo o pantanal pra depois e peço que ele siga em direção a Ponte Hercílio Luz (como lembrei o nome?) e siga pela Beira Mar.

Me lembro de duas coisas do centro: a rodoviária, onde despachei um amor de verão para a Argentina em priscas eras e tantas vezes fui e vim de Bombinhas, Quatro Ilhas e adjacências ou fiz baldeação de lá para Garopaba e a Praia do Rosas. Quando a conheci, era novinha, recém-inaugurada. Agora, me conta o motorista, ela está pra lá de decadente. A segunda coisa era o grande Mercado Público Municipal, um conjunto antigo, construído pelos idos de 1898, que adorei percorrer explorando suas peculiaridades. Isso foi antes. Depois, já no novo milênio, uma parte pegou fogo, o que fez com que ele fosse revitalizado. Enfim, o que era novo e tinindo ficou velho e o que era antigo e decadente foi revigorado. Definitivamente faz tempo que não venho pra essas bandas, penso com o zíper do meu casaco, largado ao meu lado no banco do carro. A última vez que passei por aqui foi antes do incêndio fatídico.

Fala sério, está estranhando o teor desse texto, não é? Estranha não. A vida é assim. Num hora observações causticas, críticas inspiradas, pílulas de sabedoria política. Na outra, a constatação de que tudo é nada diante da chance (imperdível no meu caso) de começar tudo de novo! Que seria d’eu se não topasse essas reVIRAvoltas e fizesse delas assunto e mote das minhas crônicas semanais?

Certamente não a geminiana que vos escreve às pressas, numa madrugada chuvisquenta, na véspera da data limite para entregar minhas polidas palavras às mãos revisentas dos meus a-ma-dos editores, em vez de ir dormir e entregar pra Deus a minha ausência justificadíssima das páginas dominicais, impressas e internéticas, que publicam essas crônicas. A culpa é sua, caro leitor, que tanto amo. Para  desespero dos meus novos empregadores que amanhã terão uma simpática zumbi assombrando a equipe que será minha família pelos próximos meses. Depois conto mais!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Simples, assim…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Houve um tempo em que não era. Escrevia muito, escrevia sempre e ia liberando aos poucos as crônicas semanais de acordo com o astral da ocasião. Sexta a tarde, na Ponta do Leme, era pule 10 fartura da produção. O tempo passou e o que nunca acreditei ser possível, aconteceu: as crônicas que, pensava eu, teriam um caráter transitório, viraram um hábito de anos.
Já não sei quem nasceu primeiro: os textos ou o prazer de escrevê-los qual um ritual que, a princípio, era meio AA (Alcóolatras Anônimos). “Uma de cada vez”, dizia a cada nova publicação. Se funciona com o processo literário, é por que faz efeito para situações mais sérias e delicadas…
Não que não haja seriedade no que faço, ao escrever. Tanto há que depois de muitas luas a fome se juntou a vontade de comer e todos os meus queridos editores definiram o meu deadline, o limite para entrega do material, para a sexta-feira, às 15 horas, horário de Brasília.
Uma beleza e a certeza de que as mal traçadas linhas no caderninho nem terão tempo de secarem direito antes de serem digitadas para seu envio às prensas e sites.
Por isso, informo, estou aqui. Plena na praia da Ponta do Leme, sob um sol de rachar e uma ventania teimosa e enganosa.
Teimosa por descabelar o mar, adornar seu azul-esmeralda de carneirinhos brancos, obrigando as gaivotas a darem um duro danado para manter o rumo desejado, deixando os surfistas a verem os navios que esperam a maré alta para entrarem na Baia de Guanabara. Por que o mar, apesar de batido, cheio de correntezas e valas, está uma droga para os atletas, com ondas baixas disformes e mexidas.
Isso é o entorno, por que o contorno está um caos. Não há barreira nem peso que segure a canga, lotada da areia que passa – enlouquecida e desgovernada – levada pela ventania. Aquela que pinica nas partes do corpo em que bate, gruda e vai com a gente pra casa escondida nos cabelos, nos cantos da bolsa, do bolso do short, nas dobras da camiseta, no meio do livro, no caderninho…
Essa é a parte da teimosia. A do engano, além de tudo, pode ser dolorosa. Especialmente para os turistas desavisados e despreparados que não conhecem as manhas da praia em dias de viração. Eles, que de tão fortes provocam arrepios de frio, por que vem do sul, são os mesmos ventos que mascaram a força dos raios solares que estão tinindo no veranico de meio do ano. O resumo da ópera são as queimaduras inesperadas, aquelas que só descobrimos quando a água quente do chuveiro toca na pele castigada pelo sol inclemente.
Para fechar meu espaço literário dominical, duas observações. Uma nunca havia visto, outra, que fazia tempo não via.
A primeira, os grãos de areia abusados grudado na tinta da ponteira da caneta que estou usando que fazem falhas minha escrita praiana.
A segunda, as várias piscinas na beira da água, onde crianças se divertem e, protegidas pelos caprichos esculturais da maré baixa, não se incomodam com o desconfortável entorno provocado pela tempestade de areia que assola a minha Ponta, sob um sudeste poderoso. A ponto de tirar da paisagem a enorme bandeira brasileira que sempre tremula hasteada no Forte Duque de Caxias, no alto da Pedra do Leme. Sinal dos tempos, aviso dos dias que estão para chegar…
Agora peço licença, caro leitor, mas vou ali, até uma das piscinhas naturais, formadas pela maré, brincar de fazer castelos de areia e olhar o mundo sob o ponto de vista das crianças. Simples assim…
Por que hoje é sexta, estou na Ponta e a crônica já está misturada, só falta descansar para poder ir pro do forno.

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*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Faroeste urbano

Por Marli Gonçalves

Desvia! Olha para o lado! Para! Mãos para cima! Documentos! Cuidado com o portão! Passa tudo para cá!Olha a liquidação! O cara vai cair do andaime! Pápápá! Ratatá! Olha o buraco! Roubaram a tampa do bueiro! Boom! Eu disse para passar tudo-para-cá! Poin! Bibibibibibibi! Pare, olhe, compre! Oferta, somente hoje! Daqui a pouco teremos até duelos pelas ruas, porque gente sendo jogada na calçada por seguranças, para fora do saloon, isso já temos… Tente sair de casa e voltar, sem se aborrecer.

Nasci em plena área urbana, das mais movimentadas da Capital; pouco conheço da tranquila e bucólica vida fora disso e o que sei é meio fantasioso já que até explosão de caixas eletrônicos já chegou onde antes só havia o footing, o tédio e o coreto da praça. Também não dá para dizer que o problema – pelo menos esse – é nacional, já que o mundo todo está em pé de guerra, e a barbárie espalhada. Mas se não fizermos algo na linha do agir localmente, e logo, sei não.

As cidades parecem aqueles jogos de minas terrestres. Pisou em uma, Boom! Você não sabe se vai ou se fica. Se usa um vestidinho ou um colete à prova de bala. Se põe capacete ou chapéu. Se leva a bolsa ou um porrete. Se põe perfume ou joga spray de pimenta. E – cuidado! – se for usar o celular. Essa semana a polícia matou um à queima-roupa porque confundiu um celular (descarregado, não dava nem para fritar pipoca) com arma, e “porque ele estava com um negócio preto na mão”… Meninas, cuidado. Inclusive dentro do carro.

De forma geral, ninguém mais fala bom dia, obrigada, dá licença, olha na sua cara direito, responde de bom grado alguma pergunta. Se gentileza gera gentileza, imagine o que é capaz de nascer de um estado de espírito de confronto, inclusive de classes, que vem sendo proposto e incentivado nas nossas fuças. Está todo mundo devendo na praça, ou querendo comprar e não pode. Mas as ofertas chovem, e as necessidades também.

O trabalho anda escasso, periclitante, e quem tem, tem medo. A gente não quer ver bandido, mas se vê polícia sente pavor. Não sabemos mais o que é de verdade e que não é. Roubam-nos, de perto, de longe. Vai no restaurante, bar, padaria e pode ser arrastado. Até quando estamos em casa entram em nossos computadores e nos lesam. Bancos nos arrancam centavos, e somam bolinhas nos juros, e as companhias que nos servem os essenciais são essencialmente é muito descaradas. Quem mais se lembra dos meninos de rua que arrancavam cordões de ouro? Quem mais se lembra dos trombadinhas?

Como dizia, difícil é sair e voltar para casa no fim do dia sem ter tido pelo menos um aborrecimento, seja de carro, a pé, no metrô, trem ou avião. Ou no elevador, mesmo. Pisou no cocô. Ou no chiclete. Deu uma topada na pedra solta. O carro passou e jogou água do meio-fio. Torceu o pé no buraco. Foi atravessar e veio uma bicicleta na contramão ou aquele apressado do farol amarelo. Ficou esperando e o sinal de pedestre, aquele que você aperta o botãozinho várias vezes, não ficou verde. Ou ficou, por segundos. Corra, pessoa, corra! O guarda? Está lá anotando a placa de alguém, mas não daquele que quase te atropelou – ele prefere coisas menos, digamos, trabalhosas, tipo cinco minutos a mais da Zona Azul.

Fura fila. O portão da garagem abre ao contrário, na sua cabeça. Olha o cara varrendo o chão – e os seus pés – com água, com mangueira. O táxi passou. Vazio, mas não parou. Não, não mude de faixa senão os motoqueiros malucos podem promover um linchamento. Inferno esse bibibibi deles cortando as faixas. Já não bastassem os carros dos funkeiros que fazem questão que você os ouça, agora candidatos distribuem alto-falantes gritando seus nomes.

O cara está socando a mochila em você, aquele ser. Como tão bem lembrou Ruy Castro outro dia, todo mundo com mochila nas costas, e como elas fedem! Morrinha. Cheiro de chulé. Tenta passar pela direita, pela esquerda… Tem quem acredita que comprou a rua. Cuidado com o cachorro solto, que o dono pensa que não morde, e sempre pode ter uma primeira vez. O arremesso de bituca acesa não é mais só de cima. Mais comum ainda agora que todo mundo fuma nas portas ela atingir sua perna.

Segura sua onda. Calma. Quem te aporrinha pode ser da minoria, qualquer uma, que essa hora aparece para justificar, como se velhinhos, mulheres, crianças, pobres fossem imediatamente inocentes, anjos celestiais.

A vendedora trata com desdém quem entra na liquidação – a verdadeira queima, fogueira, que está havendo, para onde se olha, para ver se o dinheiro circula nas veias do país, que ora vai bem, ora se afoga na marolinha. E leva o dicionário! Sale, Off, winter off. Até 70%! Quando é que a gente vai entender que, se dá para dar desconto de 70%, a exploração era braba, e o melhor mesmo é esperar que eles nos atraiam com as plaquinhas.

Não ser enganado, não ser morto, não matar. Não cair, não dar uns petelecos por aí.

Não saia sem fazer o sinal da cruz, sem orar por São Jorge guerreiro. Não viva sem pensar que temos de mudar, em busca da civilização, e que isso pode levar gerações.

São Paulo, obstáculos olímpicos, 2012Marli Gonçalves é jornalista– Criada em megalópoles conurbadas, conturbadas e estressantes. 

Os curibocas

Por  Francisco Bezerra Siqueira

Somente as verdades não são suficientes para contar toda a história de um povo, pois cada povo tem sua mentira particular. Esta é, portanto, uma história incompleta, pois será contada somente a verdade – verdade viva e vezeira, a história dos Curibocas. As mentiras serão contadas em uma próxima vez.

É uma história verdadeira, repita-se, contada em todos os seus detalhes. Até os bichos já sabiam esta história no tempo em que falavam. E a contavam aos seus descendentes, como forma de perpetuá-la e para seus filhotes dormirem. Não foi escrita antes, claro, porque os bichos não escreviam, só falavam. Mesmo assim, não há bicho, mesmo os de hoje – que não falam nem escrevem – que não saiba esta história. Eles já nascem sabendo e tudo todos sabem desde que nascem, sem que seus pais precisem contar. São os bichos dos novos tempos! Dizem que é por isto que eles deixaram de falar. Em tempos imemoriais, eles concluíram que a fala é dispensável, já que nada garante e, volta e meia, inventa mentira, pois toda história, antes de ser escrita, é contada – pela fala. Ninguém é capaz de contar (falando) a mesma história duas vezes, sabiam os bichos. Além do mais, para garantir o que diziam, os bichos teriam que inventar papel, tinta, caneta, computador, internet, borracha; criar cartórios, estudar Direito, Gramática e se preocupar com outras invencionices, igualmente perigosas, como jornal e prospecto de remédio. Depois, verificariam que, mesmo escrita, a história nada valeria – era história de bicho, diriam os homens, jogando o papel amassado na lixeira. Aliás, eles nunca quiseram convencer os homens de nenhuma verdade. Eles, que se dizem racionais, que busquem seus próprios rumos – pensavam. Por fim, os bichos tiveram medo que história igual à dos homens pudesse acontecer a eles, pois, certo dia, ouviram de uma sombra sonora:

O que te assemelha aos homens é a fala

O que te diferencia dos bichos é a alma

Então, os bichos calaram. Perderam o dom da fala. Ficaram com os ouvidos para ouvir o que mais tarde com os olhos constataram: grande tropel de cavalos com homens neles montados, em trajes esfarrapados sobre corpos muito fortes, dizendo que era ali, no meio daquele mato, que um dia ergueriam o Reino dos Curibocas; o reino dos libertários, onde “jorra leite e mel”, longe dos homens de leis que, feitas do jeito deles, só a eles vão servir. O reino dos que fugiram da moenda do engenho, do chicote e do trabalho dobrado na casa-grande. Um reino de Curibocas de sangue dosado à cama de índio com preta ardente. Aquele ambiente hostil, de cobras e lagartixas, seria – quem sabe? – um dia transformado em paraíso para os que precisassem conviver em harmonia. E a quem lá chegasse, ninguém se atreveria a perguntar quem já foi, de onde vem ou o que naquelas plagas queria. Bastava se apossar das benesses do lugar, sem ganância e sem orgulho e a todos respeitar, estabelecer convivência sob as regras do lugar – as regras do bem viver! Precisa que algo mais este escriba explique?

Este Reino foi fundado onde o vento fez a curva, onde a chuva nunca andou, onde o cão anda montado num redemoinho açoitado do oco do cu do mundo; onde a justiça passou montada na besta fera, onde o bucho não produz a merda de cada dia. O nome desse lugar? Tente você descobrir, onde fica e como era. Para lhe facilitar, diminuir seu engano, uma pista vou lhe dar: não procure onde tem terra, nem localize num mapa; veja aonde tem gente injustiçada e ganância, aonde não tem partilha e aonde a bonança é pra uns e as mazelas pro resto; saiba que este Reino, não tem vizinho ao lado, sempre esteve oprimido, muitas vezes misturado a outro reino de cima; o que os delimita – estabelece fronteiras – é a riqueza de um em detrimento do outro; é o canto de protesto do reino que nada têm; é a justiça do rico reino todo poderoso sobrepujando o dos pobres; é a diferença da cor do cabelo, olho e pele. Que outros reinos tivessem por lá se estabelecido nunca pra eles foram qualquer forma de perigo. Sabiam de ouvir falar de outros reinos e reis. Que para as bandas do leste havia a Pedra do Reino; que muitos dali temiam um tal de Rei do Cangaço; que o Rei Zumbi dos Palmares morava muito distante. Aplaudido e respeitado somente o Rei do Baião. Misturado tudo isso fica fácil definir o Reino dos Curibocas, do qual estou lhe falando.

Ali nasceu, floresceu e hoje somente arqueja – já que nem a morte quis – a terra dos enjeitados, o mundo dos esquecidos, o inferno que não tem cão, o céu que Deus esqueceu, o lugar onde só vai quem tem mãe e gosta dela. Pois foi lá naquelas plagas – exatamente ali onde tudo parecia desfavorável à vida – que um ferrenho feitor, feio, fraco e fedorento de porte pequeno e pedante, porreta palestrador, destemido e petulante fundou e denominou o Reino dos Curibocas. Um Curiboca da Gema, ele próprio se dizia, depois de verificar que para ter alma salva não precisa renegar quem é ou foi Curiboca. Isto é o que você vai ler no mote e no tema.

Já tem mais de quatrocentos anos que os Curibocas habitam aqueles sertões. Até hoje ninguém sabe, o tempo que pra trás fica, o dia em que o primeiro deles por lá fincou pé. Se era branco ou mulato, preto ou mameluco, fugidio do seu dono, assassino condenado, degredado lusitano. Parece que todos eram aventureiros capazes de qualquer vida infeliz desde que lá tivessem a liberdade, o trabalho e com suas próprias leis julgassem e condenassem; estabelecessem direitos que deles também fizessem donos daqueles sertões. Por todos aqueles anos, cruzaram com índio bravo, com pretos e com cafuzos, com Curibocas também e muitos e outros tantos Curiboquinhas geraram – contados em dúzia, dezena, às vezes, até chegando a uma vintena ou mais. O filho é Deus quem manda e Deus em sua bondade, dá um jeito de criá-lo.  Rejeitá-lo é pecado. É recusar a ajuda que mais cedo ou mais tarde um dia vai precisar – é assim que o Curiboca vê a família crescer.

Viveram em uma terra distante e ignota, sem despertar uma linha de quantos fizeram História. Escribas, claro, vieram (ainda os há por lá) para relatar somente o que cabe por inteiro nas regras dos seus conceitos: sociologicamente, daqueles que dominaram; antropologicamente, das castas que lá formaram. Os Curibocas – Ah! Os Curibocas? – se quiseram ser lembrados e se sobreviverem ao tapete que cobre muitas verdades, terão, por eles próprios, que contar a sua História, sob pena de um dia vê-la desvirtuada, de outra forma contada, quem sabe, até esquecida. Pois aos Galegos de lá nunca interessou contar história “daquela ralé” que pudesse em um só fato, genealogicamente, manchar passado e presente, daqueles que se fizeram, pela força do chicote, novos donos do lugar. Contados em verso e prosa, somente os que carregam W no seu sobrenome ou se lá em Trás os Montes tiver o seu pedigree. Somente os de pele branca, olhos verdes ou azuis e sobrenome lenhoso – Carvalho ou Oliveira – serviram de referências àqueles que escreveram a História dos Sertões. Que me permitam dizer – e sem querer contestar o Jorge de todos os santos, nem o Lins e seus engenhos, o Graciliano da seca, o Euclydes dos messiânicos – mas a história completa dos Curibocas de então – verdade useira e vezeira – foi contada por inteiro, pela mais emocionante forma de literatura que o sertão conheceu – o folheto de cordel. Dele foram autores os mais perfeitos poetas, cantadores e cronistas, destemidos jornalistas, filósofo de toda sorte. Não houve um fato bíblico ou catástrofe natural, acontecimento político, desilusão amorosa que não tenha sido algum dia versado para a linguagem dos Curibocas de lá. Na forma escrita p’r’aqueles, com abc dominado; no canto e no recital, para os desafortunados da leitura e do saber. Se a História Oficial tivesse sido contada pelo dom dos Curibocas, seria a História completa. Que diria que eles são “antes de tudo um forte”; mas se diria também que muitas conquistas lhes faltam, apesar de serem fortes; que apesar das mazelas lá sobra muita altivez, capacidade de luta, pra começar outra vez.

Foi o gênio inventivo dos Curibocas de então que moldou o mais antigo – inusitado também – tipo de convivência de entidades fantásticas, reais e imaginárias de que aquele sertão hoje tem conhecimento. Por anos a fio viveram do que a mãe natureza, ainda que muito ingrata, a eles ofereceu. Pois quando por lá chegaram, se nada consigo tinham, tiveram que tudo inventar; se nada então sabiam, tiveram que tudo aprender. Para explicar o que não conseguiram entender e o que a eles foi impossível aprender, criaram seus deuses pródigos, fartos em proteção e entidades satânicas, misteriosas, malignas, horrendas e vingativas. E foi assim que de tudo, todos eles inventaram: para comer, a buchada, para a comida, o alforje; para montar, o muar, para a cozinha, a trempe; para beber, o aluá, para dançar, o xaxado; para cantar, a toada, para a promessa, a novena; para a morte, a incelência, pra proteger, a arruda; para a fiança, o bigode, para vestir, o gibão; para a boiada, o aboio, para morar, a tapera; para curar, a meizinha, pra competir, a corrida; para fumar, o palheiro, para vingar, a tocaia; para impor, a peixeira, para bicho, a caipora; para esconder, a botija, para dormir, a esteira; pra transportar, o jumento para adoçar, o mascavo; para cheirar, o torrado, para contar, o cordel.

O Reino, por sua vez, foi todo ele prodígio. E todos os Curibocas souberam aproveitar, com tino, engenho e arte as benesses do lugar. Em abundância encontraram: caroá, para amarrar, caldeirão cheio de água, aroeira para linha, urucum para corante, cabaça pra botar água, chapadas para plantar, imbu para tira-gosto, ervinhas para curar, carnaúba pra varrer, lagoas para pescar, malhada pra criar gado, faveleira que fazia rim de bode criar sebo, camaratuba de monte, para o gado engordar, caça de todos os tipos, para a mesa fartar. Que delícia este lugar!

Com as benesses da terra, braço forte e coragem, criaram lá nos sertões os currais do São Francisco. Subiram o Velho Chico, chegaram no Piauí e fundaram feitorias nas fraldas do Araripe. Pulando a serra chegaram ao Vale do Cariri. (Mas isto é outra história pra ser contada outra vez). Nos Currais do São Francisco, criaram boi de tração para o engenho banguê moer cana e produzir melaço de rapadura e mascavo para os D’Avilas açúcar branco fazer. E nos currais das caatingas, longe das águas do rio, produziram boi erado pra boiadeiro tanger nos rumo do litoral. De carnes abasteceram as mesas das capitais e os garimpos longínquos das belas Minas Gerais.  Fizeram roupa de couro, era de couro a cadeira, a cama, a porta, o surrão, o chapéu e a botina, o currulepe, o chicote. Tanto gado produziram, tanto couro utilizaram, que este tempo ficou na História nominado a Civilização do Couro.

No Reino dos Curibocas, todos tinham profissão. Se homem, veja então a lida de cada um: Becisa era vaqueiro, Rufino campeador, Luizão bom curtidor, Zé do Baixão o ferreiro; Juvenal era roceiro, Adalberto carpinteiro, Anísio bom sanfoneiro, Totonho o pescador; Tião era funileiro, Agostinho bodegueiro, Zezinho bom zabumbeiro, Terêncio o pistoleiro; Benedito era seleiro, Agostinho sapateiro, Deno bom violeiro, Valdemar o cantador; Bento era rezador, Galdino amansador, Claudivar bom alfaiate, Lourival o repentista; Josué era vaqueiro, Severino lavrador, Claudionor bom roceiro, Juventino o coveiro; Luiz era carvoeiro, Sebastião curador, Cazuza bom tangerino, Clementino o oleiro; Pedro era pedreiro, Cipriano tecedor, Santinho bom sacristão, Lourival o cantador; Justino era barbeiro, Osvaldino zelador, Odilon bom varredor, Valdivino o castrador; Josias era sineiro, Cipriano tecedor, Celestino bom vigia, Jeremias o capanga; Manuel era queijeiro, Jesuíno garrafeiro, Lucas bom lenhador, Arlindo o morador; Elias era marchante, Severiano feirante, Afonso o bom tropeiro, Otoniel o feirante; Juvenal era mascate, Aureliano leiteiro, Lucas o bom cerqueiro, Francisco o serralheiro.   Não era ofício de homem fazer roupa de mulher; e mulher ir para o eito era uma covardia de marido preguiçoso, o que lá não existia.

Se mulher, assim vivia cada qual, em cada qual, na lida de cada dia: Dora era cozinheira, Dulcinéia costureira, Santinha a benzedeira, Zefa era lavadeira; Lurdes era passadeira, Terezinha fiadeira, Carolina a doceira, Marinalva era copeira; Socorro era parteira, Albertina costureira, Carlota a carpideira, Luzia era rendeira; Graça era professora,Sebastiana a vidente, Arlete a merendeira, Vilani era babá; Rosa era ama de leite, Iraídes bordadeira, Iraci a varredeira, Camila era boleira.

Que outro ofício houvesse – vez por outra aparecia – sempre tinha um Curiboca capaz de ser o seu mestre. Claro, menos aquele, que não combina com homem, quanto mais se ele for, Curiboca de valor, o que todos de lá são.

Viviam em harmonia, sem se negar a favores. Em mutirão resolviam o que um só não podia. Nem a seca resistia ao trabalho em união: mandacaru para o gado, cacimba para beber, botar vaca no jirau, curar bicheira de boi, eram trabalhos de todos, quando a seca inclemente a todos vinha atingir; comida, roupa e calçado, era tudo dividido. Sabiam que sofrimento quando é compartilhado pra cada um sobra pouco. E “pouco com Deus é muito”, costumavam repetir, em inabalável fé. Curiboca nunca foi de deixar ninguém na mão, mesmo não tendo sobras para atender ao pedido. “Seu pedido é uma ordem”, era a resposta de sempre, a qualquer necessitado.

A seca, sempre inclemente, chegava todos os anos – mais branda ou mais cruel, como acontece até hoje. Era desígnio de Deus. Não há como recusar aquilo que Ele manda. Enquanto a água não vinha pelos riachos correndo, nos seus leitos arenosos perfuravam as cacimbas. Como se fosse um milagre, brotavam das profundezas os fartos veios de água – veios que são as lágrimas da terra tão generosa. Não tinham desesperança: sabiam que por debaixo daquela paisagem cinza, com cheiro e cor de morte tudo teima em renascer na hora que santo Pedro abrir as portas do céu. É esperar para ver: pasto crescendo e gado engordando; caatinga florando e imbuzeiro botando; açude enchendo e sapo cantando; bezerro nascendo e leite jorrando; a asa branca voltando e o vaqueiro aboiando. A seca? Ora, qual seca? Uma lembrança distante. Dali pra frente somente trabalheira prazerosa: campear, curar, ferrar; ordenhar, coalhar, curar; roçar, queimar, coivarar; cercar plantar, limpar; colher, bater, soprar; consertar guardar, vender. Na festa da ferra do ano, a buchada a carne seca, o requeijão, a coalhada, o milho verde, a pinga, o riso solto, o sossego.

Tiveram na honradez a pauta de suas vidas. Nunca se viu Curiboca dever a alma ao diabo, dever aposta de jogo, dever honra de menina, dever cachaça na esquina, dever favor a amigo, dever a bênção à mãe, dever pecado ao padre, dever o coito a quenga, dever dinheiro emprestado, dever sem se desculpar. Foi dispensável cartório e juiz pra resolver pendências e compromissos. Pra eles o que bastava era a palavra de homem. Nem um fio de bigode precisava empenhar – para um cabra da peste o que conta é sua honra; não fique desconfiado quando ele lhe falar que tudo está combinado. Mas tinha a faca peixeira, o rifle, o bacamarte pra todo cabra safado que não sustenta a palavra; que bole com moça virgem sem a bênção do vigário ou sem pedir ao juiz. Se não tinha o vigário ou o Juiz de Direito, que fosse um Juiz de Paz. Não podia era ficar o feito pelo não feito. Quando mais tarde visse o santo Frei Damião celebrar suas mões, a bênção do matrimônio tiraria do pecado aqueles amancebados. Pois casamento de fato, só era considerado o que era celebrado com padre e sacristão.

Mas teve herói Curiboca. Daqueles que não suportam usurpador de poder. Em busca da liberdade, correu mundo defendendo quem precisava de bala pra se fazer respeitar. Inspirou-se em Jenipapo, conspirou em Juazeiro, defendeu Pau de Colher. Foi capanga de Silvino, coiteiro de Virgulino, trocou tiro com milico no dia Nove de Julho. Acompanhou a Coluna, lutou pela Intentona, resistiu em Trinta e Sete, foi preso do Estado Novo. Aliou-se a Julião e combateu com Lamarca. E até na Grande Guerra Curiboca defendeu a liberdade e a paz. Só não lutou na FRELIMO nem no MPLA. Perderam-no os que ganharam aquelas guerras de lá. Na volta para o sertão, quanto verso de cordel a sua história compôs!

Nas artes, se destacaram. Criaram cultura própria. Seus gêneros musicais, seus ritmos e suas danças, são formas de expressão não vistas até então. A poesia popular, na forma de verso e música é um dos mais belos ecos dos belos cantos jograis. O Baião e o maxixe, cantiga de roda infantil, forrobodó e o xote, cordel cantado e falado, história de caipora contada em boa prosa, desafio de viola improvisado na hora. Que delícia é o canto do martelo agalopado! E belas bandas de pífanos, com zabumba e reco-reco, pra novenas festejar; e o livro de cordel que lhe conta a fiel história de Lampião; e o canto de viola que lhe conta em verso e prosa como vive o catingueiro: de promessa o ano inteiro. Nas rodas de São Gonçalo, onde ponteia a viola, pagam promessas com cantos, danças e muita comida. Tudo isto e outras tantas manifestações de raiz – como diz o folclorista – de beleza engenho e arte, forma o caldo cultural – como diz o reticente – dos Curibocas de lá dos sertões do São Francisco.

Ainda hoje, autores – poetas e literatos, artistas bem renomados – têm suas inspirações em temas lá dos sertões. Pesquisam e lá encontram – em inesgotável fonte – motivos pra recriar em formas, motes e temas, façanhas do Nego D’Água, histórias de Caipora. Todas de pura verdade. E ai de quem duvidar – e quem duvidar verá: Nego D’Água virar barco, Caipora espantar caça. É pena que o machado com sua fome de lenha e de madeira de lei tenha tudo devastado, ficando a Caipora sem lugar para morar. Com tanta ingratidão, ameaça se mudar.  Que o assoreamento não expulse o Nego D’Água das águas do Velho Chico. Valente como ele é, não tarda em procurar outro rio pra morar. Um rio de águas claras, fartas e sem esgoto – se é que ainda tem tão gostosa moradia. Por enquanto vai ficando, disse ele a um pescador – um pescador que não mente.

O Pastoril no Natal, a festa dos três Reis Magos, Semana Santa e São João, são festas nacionais, que lá no sertão também, já eram comemoradas nos tempos dos Curibocas. Com folguedos festejavam os santos daqueles dias. Mas a festa de São João – aquele do carneirinho – ficou sendo a principal. Fogo de Zé Fogueteiro, dança de par e quadrilha, casamento de mentira, compadrio sem afilhado; e as comidas do milho de tanta variedade – bolo, canjica e pamonha, cuscuz, angu e curau; pra completar o banquete, beiju de coco e cocada. A cachaça de cabeça rola solta a noite inteira, sanfoneiro animado só toca xote e baião, pra dançar apertadinho. Sem falar no namorinho no escuro do oitão.  Se faltar par, ora essa! Dança mulher com mulher.  Se faltar mulher então, tem rixa certa no baile. Pois Curiboca não dança nem só nem com outro homem, nem é de ficar em baile parado pensando asneira. De carnaval nunca ouviram, naqueles tempos, falar. Se ouvissem, tenham certeza, seria considerada a festa de satanás.

Na culinária então, que sabores têm lá! Paçoca socada em pilão, buchada e sarapatel, miúdos de bode assado, macaxeira cozinhada – assada, então, que delícia – servida com carne frita.  Feijão verde temperado com farinha misturada na raspa daquele tacho onde foi cozido queijo de coalho ou de manteiga, rapadura e alfenim, são delícias que têm cheiro das cozinhas das caatingas. Pra temperar e dar gosto, cebolinha e pimentão, cebola que faz chorar, tomate coentro e salsinha, colhido verde e fresquinho na horta lá do quintal. Pra preparar tudo isso, um belo fogão de lenha, panela de barro e tacho.

Mas chegou a exaustão – coisa que este escriba nem gosta de se lembrar – pois durante quatro séculos tudo tiraram de lá. Sem nada repor, a terra, a flora, a fauna e os rios começaram a definhar e com eles, claro, os Curibocas também, pois “o martírio do Homem, ali, é reflexo de tortura maior… nasce do martírio secular da terra” – já dizia, sabiamente, o nosso Euclydes da Cunha. E os pastos rarearam, as madeiras se acabaram, as aguadas, quase secas… Veio o êxodo rural – inexorável seria – para constatar o que Joaquim Nabuco dizia: “poucos são os netos de agricultores que se conservam à frente das propriedades que de seus pais herdaram”. Também ficou confirmado, segundo o mesmo autor, o adágio popular: “pai rico, filho nobre, neto pobre“.  Os sinais de esgotamento podem ser detectados pelas desigualdades que foram aprofundadas entre as classes sociais, pela escassez crescente dos recursos naturais e pela degradação daqueles ecossistemas. É desolador o abandono de tantas fazendas de gado dos sertões dos Curibocas, como de resto ficaram todas de lá do Nordeste.

Nem todos se retiraram – não viraram retirantes em terra distante e alheia. E os que lá ficaram, muito arraigados à terra, tocam a vida pra frente, no rumo de seus abismos – abismos que eles próprios sempre souberam evitar, conhecedores que são da vida lá dos sertões. Há ainda os que trocaram a chuva do santo Pedro, pela chuva que os homens fazem jorrar dos seus canos. E vejam só que ironia: tem Curiboca colhendo fruta fresca no sertão para fartar europeu que nem sabe que ele existe…que no sabor dessas frutas está também embutida toda uma história de vida.

Tivesse sido este reino cercado e bem conservado, por certo seria um bem para ser visto e gozado e pra servir de exemplo pra muito homem malvado. Não precisava de cerca feita de mourão e vara e nem arame farpado, que não havia por lá, precisava ser usado. Bastava a cerca da Vida: a cerca que, destruída, sempre teima em renascer.

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Referências Bibliográficas

Euclydes da Cunha – Os Sertões. Livraria Francisco Alves. 27ª edição, p. 43, 48

Joaquim Nabuco – O Abolicionismo. Nova Fronteira p. 162

Francisco Bezerra Siqueira – Editora Verano – Rumo Reverso

O riso alegre do Rio

Por Valéria del Cueto, texto e foto

“Hoje eu não quero chorar, hoje eu não quero sofrer. Guardei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar…” Por que, lá do fundo do profundo poço, surgiu um sorriso. O sorriso.

Vi na capa de um jornal. Nela um personagem exultante, vestido de laranja segurando sobre os ombros uma bandeira do Brasil, rasga  o espaço de corpo inteiro. Corpo e alma. Trata–se de Renato Sorriso, o gari carioca que vai encerrar as  Olimpíadas de 2012, em Londres, representando o Rio de Janeiro, próxima parada dos jogos mundiais.

Conhecia o Sorriso de vista de alguns carnavais quando, em 2000, fui trabalhar na produção de um filme institucional sobre a Cidade Maravilhosa, chamado “Rio Incomparável”.

Peguei  o bonde andando, já com alguns dias de filmagem e, ao me incorporar a equipe, fiquei encarregada de  cuidar do elenco do dia composto por atores e figurantes acomodados numa van e iam sendo distribuídos nas filmagens nos pontos turísticos do roteiro. Foi entre eles que (re) conheci Renato Sorriso, o gari que encerraria o filme.

Foi um longo dia em que tive a oportunidade de constatar que o sorriso do Renato não era apenas uma expressão facial, mas um estado de espírito composto de gentileza, educação, humildade e simpatia.

Ele rodou o dia inteiro com a equipe. Sua participação, atrás do Museu de Arte Moderna, no cenário do Aterro do Flamengo, com a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar ao fundo, tinha que ser ao cair da tarde quando a luz estaria no ponto desejado pelo diretor de fotografia Lula Araújo.

Claro que meu vício jornalístico foi maior e, depois de almoçar ao lado dele, já estava com a ficha completa do gari. Sabia inclusive, a merreca que ele ia ganhar para “assinar” a produção que correria o mundo como peça de propaganda da campanha publicitária que venderia o Rio de Janeiro no exterior.

Um detalhe, diante das histórias saborosas e do carinho do Renato que, não conseguindo ficar parado, acabou de assistente da assistonta que vos narra. Finalmente, quando chegou a hora de sua participação, acabou dando uma aula sobre vassouras da Comlurb, se recusando a contracenar com um exemplar genérico para não denegrir a imagem de seu material de trabalho!

Nunca mais perdi Renato de vista. Adoro o cara e sinto modéstia a parte, a cada reencontro, sempre emocionantes e cheios de registros fotográficos, que a recíproca é verdadeira. Todos os anos nosso encontro é inevitável, tem data e local marcados: na Sapucaí, no carnaval.

É o único momento em que – sei – coloco meu equipamento em risco ao abraçá-lo bem apertado ciente de que seu suor abundante, provocado por seu desempenho ao sambar pela avenida afora, pode causar “danos enxugáveis” às lentes e máquina fotográfica, mas que sua energia boa não tem preço sendo um dos sinais que, mais uma vez, estou no local certo, fazendo a coisa certa, por mais um ano, graças a Deus!

É quando saio do meu papel de fotógrafa compenetrada e me permito “brincar”! Normalmente de roubar sua vassoura quando ele a deixa equilibrada e sai para sambar para o seu povo das arquibancadas. Foi assim que, há alguns anos, fui flagrada num desfile do grupo de acesso pelas câmeras de uma TV: de molecagem com o sorriso do Renato. A quem declaro meu representante pessoal e intransferível da alegria carioca. Por que ele, que chegou de mansinho e humildemente estabeleceu seu reinado incondicional de gentileza e amizade, merece ser reconhecido, acarinhado e coroado!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Quem faz nem se sacode, mesmo quando não pode

Por Valéria del Cueto, texto e foto

Em cima do laço, tento manter o traço e faço de meu compasso medida para decidir. É tempo de olhar, apreciar e analisar, para DEPOIS… votar!

Sou do bem e estou de mal com quem só quer o que é mau. Rebelde e guerreira que sempre fui, achava que essa força se esvairia com o tempo. Qual o quê. Sigo implacável. Não tenho um pingo de piedade com quem não faz direito seu papel, insiste em jogar pra torcida e comete todos os tipos de jogadas proibidas achando que está abafando. Entrou em campo? Conhece as regras? Então trate de segui-las. Não apenas por obrigação, mas para mostrar sua convicção em relação ao que é certo ou errado. Isso é sinal de respeito com seus opositores e quem assiste de arquibancada a partida.

Ética, a ética. Conhece essa palavra? Sabe o que significa e implica? Se não sabe, sai da reta, pega o rumo, pica a mula ou passa longe, por que não tenho mais paciência para aguentar mentirosos e embromadores capazes de qualquer coisa por um pouco mais do mesmo cesto podre: o poder! Peguei pesado? Eu não! Eles que já botaram suas garras de fora mesmo antes do tempo regulamentar e que, quando adentraram o gramado saíram cometendo infrações a torto e a direito, sem medo de serem verdadeiramente punidos!

Fez uma, duas, três? Sai de campo, meu irmão. Está provado que não há respeito ao próprio pleito. Tá, te dou uma moral: em vez da decisão ficar restrita ao apito do juiz, vamos usar também o recurso de replay. Ele não mente jamais!

Nessa eleição a farra é nacional, mas está fragmentada: não há informações gerais, por assim dizer. Então a festa come solta! Por isso sugiro que o TSE produza um mapa nacional das irregularidades para que o país possa ver como a banda vai tocar seus vários instrumentos: de sopro, percussão e as cordas. Vai ser uma cacofonia! Com a pesquisa teríamos um ranking partidário, do quesito “quem faz mais merda” e, portanto, já demonstra sua intenção de enganar o eleitor. Sim, por que quem faz para se eleger, imagina do que é capaz depois de eleito. Imagina não. Dá muito trabalho e precisa puxar pela cabeça. Abre os jornais que está tudo lá!

Seria apenas uma questão de sistematizar as decisões na medida em que fossem saindo e jogá-las num banco de dados único para nossa gente bronzeada poder ver quem está no topo da parada dura das irregularidades eleitorais. Primeiro foram Haddad e Lula, depois Serra. Todos ainda antes de começar a campanha. Se a multa é tão ridícula e ainda pode ser paga por terceiros, vale a pena errar, inclusive desumanamente, repetidamente.

O atual prefeito do Rio de Janeiro é um que pegou a manha e está com bico para exercitar seu direito(?) de ser punido. Em poucos dias de campanha já chutou várias vezes a gol: deu a largada participando de várias inaugurações Dilmisticas, inclusive de um projeto apenas 10% concluído. Vaia neles que eles merecem! Na sequência, um final de semana, fomos brindados com gravações telefônicas pedindo votos pro cara. A compra de banco de dados é proibida. Infernizar a vida alheia não. Ele deve ter usado sua vastíssima agenda pessoal. Adentrando o gramado da apelação pura e simples, o  vascaíno Eduardo Paes pegou carona na chegada ao Botafogo do jogador holandês Seedorf. O recebeu com o presidente do clube, filiado ao PMDB, no Palácio da Cidade. Cumprimentar o alcaide é praxe para todos os que aqui chegam! Tente ir lá. Ou, se for funcionário, aguarde notícias por que anexado ao contracheque de junho veio um panfleto falando dos feitos realizados. Crime eleitoral…

Enfim, se abriram as porteiras do universo da ilegalidade e pipocam irregularidades. Elas são muitas e, infelizmente, ficam voando por aí sem punição espalhadas em baixo dos tapetes processuais dos tribunais eleitorais locais, sem que possamos ter um quadro aproximado e atualizado do conjunto da obra no período em que é criada. Mais tarde, a gente sabe, Inês é morta, eles  eleitos e nós? Continuaremos fazendo papel de idiotas, pelos próximos 4 anos.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIMhttp://delcueto.multiply.com

O Violeiro e o Sargento

Por Aparício Secundus Pereira Lima

João Bilôto era um exímio tocador de violão, na década de 40, da Região Sanfranciscana, nordeste Brasileiro. Bilôto, boêmio de Juazeiro da Bahia, com seus vinte e poucos anos, resolveu dar um giro pelas cidades ribeirinhas, próximas a Petrolina e Juazeiro.

João Bilôto baixou em Pilão Arcado. Cidade pequena, pacata. “Vou ver se arranjo uns cobres por aqui” – Pensou Bilôto.

Na cidade havia um sargento da polícia, comandante do destacamento e delegado, figura importante da cidade. Era conhecido pelas redondezas por se tratar de elemento perigoso, cheio de bossa e valentia, principalmente quando tomava umas cachaças.

João Bilôto estava tocando tranquilamente, num barzinho de ponta de rua, quando o tal sargento entrou no boteco cambaleando, fumaçando de raiva, completamente bêbado. O ambiente ficou tenso. Todo mundo conhecia o gênio do sargento, mais ainda quando bebia. Olhares cruzados, silêncio de cemitério no boteco cheio de moscas e cusparadas no chão. O sargento aproximou-se a muito custo do balcão, pediu uma cana. Sem piscar, tascou a branquinha goela abaixo. Olhou pro Bilôto com cara de poucos amigos e disse: – Toca aí. Bilôto começou a tocar. – Pára! Bradou o sargento. Bilôto cessou de tocar, tremendo dentro das calças. E pro dono do bar: – Bota mais uma! Bebeu de um só trago, arrumou o enorme revólver entre a barriga e a calça. Aproximou-se do Bilôto, e, colocando a mão sobre seu ombro, indagou: – Sabe que sou maior que o prefeito dessa cidade? E exigiu confirmação. Bilôto, meio constrangido, afirmou: – O senhor é muito maior que o prefeito… O sargento, sentindo-se satisfeito, sorriu, mostrando os dentes empretecidos pelo fumo.Retirou a mão do ombro do Bilôto. E para o dono do bar: – Bota mais uma! Prá Bilôto:- Toca aí! Jogou a lapada de cana na goela engolindo-a de vez, olhos em cor de brasa. Olhou pro violeiro: – Pára! Colocou a mão esquerda pesada no ombro do Bilôto e a outra segurando o revólver: – Sabe que sou maior que o governador do Estado? E Bilôto, já temendo o pior: – O senhor é muito maior que o governador do Estado! O sargento arreganhou a cara de satisfação e ordenou que o violeiro tocasse outra música enquanto ele tratava de tomar outra pinga. E a cena repetida: – Pára de tocar! Mão esquerda no ombro do cantador, a direita coçando o coldre, mostrando a identidade do poder: – Sabe que sou maior que o Presidente da República? Bilôto, testa franzida pelo medo, quase se borrando todo: – O senhor é muito maior que o Presidente da República. Depois de alguns minutos, que se tornaram infindáveis, lá vem o sargento de novo: – Sabe que sou maior do que DEUS??? Desta vez falou mais alto o sentimento religioso do violeiro, que temendo os castigos de Deus, por proferir tamanha blasfêmia e temendo arder no fogo do inferno, retrucou: – Mamamamaior do que DEUS?? Gaguejou meio sem jeito. – Sim, sou maior do que Deus! Enquanto isso, apertava mais o ombro do violeiro, a mão coçando o gatilho. Pediu confirmação: – Como é, rapaz, sou ou não sou maior do que Deus? João Bilôto, temendo blasfemar, cometer pecado mortal e ao mesmo tempo perder a vida afirmou meio sem graça, esfregando o dedo indicador da mão direita ao da mão esquerda: Sabe que vocês dois são  assim, parelha??

Só assim o cantador Bilôto conseguiu sair ileso daquela situação angustiante, prometendo, enquanto em vida, jamais voltar a Pilão Arcado.

A Comandante e o Navio

Ilustração de Rodrigo Melo/oilustrador.com

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

No meu porto havia um navio sempre à espera, parado, intacto, quase morto. O navio estava pronto para a partida mas a tripulante não sabia se queria viajar ou não. Às vezes, entrava no navio, quando bem queria, içava a vela e falava para si mesma. “- Vou viajar!” Ligava tudo, de bombordo a estibordo com ar de satisfação nos olhos. Quando se aproximava do alto – mar, recuava satisfeita com o pouco que velejara e voltava para a terra deixando o navio ao sabor das ondas inconstantes do porto vazio. Precisava cuidar da tripulação que havia ficado em terra sem querer saber se quem mais necessitava dela era o navio ou a tripulação que tripudiava em cima de suas emoções. O navio batia, desesperado, de encontro ao cais, levado ao sabor inconstante do vento e da solidão. Num desses momentos, o navio soltou as amarras que o prendiam ao nada. E liberto disse “não”. Não ao cais vazio, não à espera longa e cansativa. O navio queria viajar de encontro ao mar. O navio queria amar no mar de si mesmo. Que fosse só à Antártida, mas queria viajar. Não mais satisfazer aos caprichos de  comandante indecisa, autoritária e que não sabia o que queria. Ela amava o navio 15 minutos por dia. Sentia saudades dele no entanto não se interessava se o navio queria viajar. Seu prazer era sentir que o navio estava perto, atracado a ela, e que nele poderia embarcar quando bem o quisesse.
Um dia deixou a tripulação viajar (de avião) e falou consigo mesma: – Vou velejar! Trouxe todos os apetrechos necessários à viagem repentina. Sumiu da terra disposta a ir ao mar, se entregar, sonhar, gozar. Não esqueceu nada: Levou luneta porque no navio não tinha, levou combustível  à base de álcool porque o navio não tinha. Entrou no navio com uma predisposição incomum mesmo estando em dias de enjôo comuns a comandantes terrestres. O navio não se fez de rogado. Deixou a capitã invadi-lo e invadiu-a também num prazer sem fronteiras, prá lá do oceano Pacífico.
Ela amou o navio embora sentisse vergonha de dizer que ele era dela. Não o levava à praia onde habitava, exceto à noite, de madrugada, quando todos dormiam e só ela sonhava. O navio queria o mar (amar) também. Ela pouco se importou com o navio encalhado e brincou de velejar com ele em plena terra esquecendo-se que o navio é também oceano, mas não mais pacífico.
O navio encontra-se no estaleiro reparando os fios partidos da ignição do motor, seu coração. Soldando o casco que ameaçava seu equilíbrio. Recuperando a rigidez e suavidade do mastro, antes abandonado, esquecido, largado.
O navio vai velejar sozinho por outros mares. Soltou as amarras, libertou-se. Ouviu a música das gaivotas e adentrou por mares nunca dantes navegados.
O nome do navio (ela o batizou) era Cafôfo.

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A ilustração é de Rodrigo Melo, ilustrador e designer gráfico sul matogrossense, de coração mineiro, formado em Brasília e agora residente no Rio de Janeiro. www.oilustrador.com