Arquivos da categoria: Crônicas certeiras

Viva São Paulo, a maior cidade nordestina do Brasil! (via blog da Raquel Rolnik)

Desde 2009, no dia 8 de outubro, São Paulo comemora o Dia do Nordestino. A data foi incluída no calendário de eventos da capital paulista por um motivo óbvio: a importância do contingente populacional de migrantes nordestinos e seus descendentes na cidade. Considerando o impacto dos milhões de nordestinos que migraram para a cidade, principalmente a partir dos anos 1940, e seus descendentes, podemos considerar São Paulo a maior cidade nordestina do Brasil. Na semana passada, aliás, o IBGE divulgou novos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que mostram mudanças no fluxo migratório entre São Paulo e o Nordeste. Ao contrário da leitura dos dados feita por boa parte da imprensa – anunciando que o fluxo de imigrantes diminuiu – não é exatamente isso que demonstram os dados.

Se hoje a proporção de migrantes no total da população é menor (nos anos 1970, a proporção era de 6 para cada 10 habitantes; hoje, é de 3 para cada 10), isso tem a ver com o tamanho da cidade – incluindo os filhos dos migrantes que já nasceram aqui – e com um tipo de migração diferente do que vimos no século XX, agora marcada por idas e vindas e também por retornos definitivos. Mas, em termos absolutos, o saldo migratório da última década na região metropolitana foi de 500 mil pessoas, enquanto na década de 1990 foi de 291 mil.

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Duelo de Titãs : eu e a gripe

Por Altair Santos (Tatá)

Essa é pra não dizerem que só falo dos outros. Ou seja, nem eu mesmo escapo da minha comprida e envenenada língua. Acontece que esse amigo de vocês está em luta ferrenha, com uma gripe daquelas de fazer gemer e chorar os trilhos da histórica EFMM. Pensem numa gripe maluca, dói o as juntas, os músculos, os olhos, os ossos da face e até os dentes, deixando o camarada jogado na lona. A gripe é tão forte que é arriscado alguém passar a dez metros de mim e seus ossos logo começarem a doer e a pessoa cair estatelada, dando apenas como sinais vitais de sobrevivência, sessões incontidas de espirros e gemidos quase inaudíveis. Pense na gripe braba! Pra me acudir nessa agonia dona Luzia, minha dedicada, carinhosa e amável mãezinha, do alto dos seus 80 anos de idade, entrou em cena e, sem pestanejar, tratou de convocar o seu poderoso exército anti-gripe pra agir em defesa de seu avariado e indefeso rapaz. De imediato, lá da pequena horta no fundo do quintal foi chamado um numeroso pelotão cujos soldados atendem pelos nomes de alfavaca, manjericão, folha de eucalipto, capim santo, erva cidreira, cabacinha, mucuracaá, limão galego, pião jalapa, galhos de melão são caetano e até raiz de corageira, a planta da coragem (existe essa planta?) Pena que por lá não tinha um pé de cana! Esse valente efetivo da flora medicinal brasileira uniu-se a dentes de alho, rodelas de cebola, lascas de preciosa e pau tenente, além de ganhar o reforço e poderio dos mais afamados fármacos que habitam a ciência e conhecimento interiorano da dona Luzia e que, segundo ela, são tiro e queda nesses casos. Botando fé na variedade curativa, tomei goles e mais goles da receita, me besuntei com óleos e ungüentos, fiz gargarejos e até simpatias mas… não rolou! O resultado não veio e a noite avançou rumo à madrugada. O pobre e avariado Tatá não dormiu, estava à mercê da força e domínio da então implacável gripe. Com o amanhecer, eu, a vítima, me vi com cara de zumbi anêmico e com aquele bafo de tirador de espírito, causado pela ingestão da mistura que além do alho, associa outros tantos ingredientes daquele menu medicamentoso. A tal gripe, dura na queda, forte e resistente como um lutador de MMA, se fez bravia, feroz. Heroicamente, resistiu ao pesado bombardeio e a artilharia do coquetel que tinha chá de alho com limão, aspirina, folha disso e raiz daquilo, infusão de não sei o quê, casinha de besouro misturada com mel, num melaço até gostosinho, vick vaporub pra passar no peito, na testa e nas costas, além de outras gororobas. As sete da manhã eu estava ali na mesa do café, leso, tonto, zonzo, guenzo e quase jogando a toalha. Placar do jogo, por enquanto: Gripe 1X 0 Tatá. Mas a coisa não podia ficar assim! Após um demorado banho e uma xícara de café e pão com ovo, levantei a moral! Chamei a gripe num canto, fiz cara feia e disse a ela em conversa e tom nada familiar: olha aqui sua sem vergonha, hoje é tudo ou nada, vamos tirar isso a limpo e encerrar essa peleja de vez, esteja pronta sua vagabunda, sua égua, sua vadia e infeliz transeunte urbana. Isso mesmo, a tratei com ofensas em plano rasteiro, em nível baixo, sacaneei verbalmente sem dó, a gripe indesejável. E já me preparando pro grande pega de logo mais, me pus a planejar uma ação, uma saída eficiente, funcional, infalível, o golpe certeiro e fatal, o tiro de misericórdia no quengo da maldita gripe. Mas como seria essa minha reação? O que faria eu para o combate derradeiro e decisivo já que as armaduras medicinais e naturais, dadas por minha mãe não surtiram o efeito desejado? E me pus a pensar! No calor e dúvida do pré-combate, quando já não esperava por uma luz, uma bússola norteadora, eis que se me veio um estalo à mente! Já sei, vou levá-la a um bar, lá é território onde esse amigo de vocês conhece, passeia e trafega como poucos. Lá ela será encurralada e terá o seu destino selado numa mesa de bar, tipo como na música ronda, de Paulo Vanzolini. Pra não estragar a surpresa e pra que ela não nos ouça, em silêncio vamos confidenciar: hoje no final do dia, sairei de casa com uns trocados no bolso e rumarei pra Avenida Calama, rumo ao Bar do Pernambuco. No local, outra vez a gripe será chamada a sentar-se á mesa, como fosse uma convidada ilustre, desejada. E quando ela nem bem esperar, como cartão de visita, só pra assustá-la, mandarei pros peitos uma considerada dose conhaque, precedida de uma caipirinha caprichada no limão. Sem dar refresco, pedirei pitu e velho barreiro, tatuzinho, januária e katira, algumas afamadas cachaças pra estufar o peito. Aí sim é um esquadrão de peso, de gabarito. Depois, pra sacramentar a conquista, já a bordo de umas tantas cervejas na idéia, é só ficar de olhos grudados na TV e assistir a reviravolta do Botafogo no brasileirão, pra cima do perigosíssimo Náutico Capibaribe, de Recife. Duro haverá de ser, se a gripe insistir em ficar e o time pernambucano achar de tirar o meu glorioso fogão pra brincadeira. Saúde!

tatadeportovelho@gmail.com

Birth Day

Por Edu Aiello

Se engana quem diz que conhece o Brasil.
O Brasil é muito grande. Muito diverso. Extenso. Multifacial.
Por analogia , se engana quem diz que conhece o enduro no Brasil.
Muito além das manchetes nas revistas e dos clicks na internet , existe uma verdadeira nação de treieiros anônimos neste país.
Difícil uma cidade do interior que não tenha dois , três , dez , vinte caras , percorrendo cartões postais , em bases regulares , no anonimato.
Anônimos , mas , não menos habilidosos ou apaixonados , estes caras demonstram sua força traduzida no crescimento exponencial do mercado de motocicletas e equipamentos.
Por sorte , temos também um brasileiro , na verdade um grupo de brasileiros , tão apaixonado quanto , no comando dos negócios direcionados a este setor.
Pouco a pouco , ano após ano , nossos equipamentos ganham qualidade , diversidade e , a identidade Brasileira.
Eu sou um bicho do mato confesso.
Meu negócio é descarregar , vestir o equipo , dar quantas voltas forem possíveis , carregar e sair fora. Pra casa. Comer arroz/feijão , descansar e …… , SONHAR COM AS CURVAS…!!!
Social , nunca foi minha praia.
Ontem , mais uma vez , pude ter a noção exata do que se “perde” , agindo assim.
Estive numa confraternização. O aniversário de fundação da marca brasileira numero 1.
Qualquer um do off road , de norte a sul , rico ou pobre , roia ou pró , usa , usou , ou usará , uma peça confeccionada por estes caras.
Um evento único.
Uma imagem verdadeira do que é , de quem faz , o enduro no Brasil.
Como de costume , fui pensando na pista. Só.
Como pude perceber. Tava enganado.
O BirthDay é um dia em que , a “social” , o reencontro com os compadres , é tão legal quanto o rolê.
Mesmo para um bicho do mato , motohead , incurável.
Desci do carro cumprimentando figuras ilustres e amigos queridos. Dividi o circuito com “motoheads” de respeito e troquei longas idéias com gente que fala , com muita fluência e propriedade , nossa língua pátria: MOTO!
Adorei! Era muita gente boa no mesmo lugar…..!
Poderiam ter sido SIX BIRTH DAYS , que não faltaria assunto.
O circuito , assinado por outro ícone do off road (um sujeito que teve a capacidade e a teimosia de abrir uma pista de XC que NUNCA fechou) , tava ……. , do jeito!
Do jeito , que tem que ser. Seguro , bem traçado e …. difícil.
O “difícil” ficou a cargo da mãe natureza que , chorando como tem feito , não deixou nada seco.
A parada tava lisa… Bem lisa….
Eu , adoro!
Uma pista tem que ter um atrativo fundamental. A velocidade , a beleza do site , o nível técnico dos obstáculos , enfim , algo que faça valer.
Um “desafio” , como dizem os homens de gravata permanente.
As primeiras voltas foram de “transposição”. Tipo…. , “vou me ater a completar a volta”.
Fui um dos primeiros a entrar. Não conhecia o traçado e , tava liso.
Na sequencia , a familiarização e os “trilhos” formados , foram gradativamente dando espaço para o “vou tentar estabelecer um ritmo”.
E assim , foram várias voltas de curtição total.
Não , não deu pra dar pau. Não deu pra escutar a ignição cortando.
Mas , deu pra se concentrar , tentando manter a trajetória num lugar que tava difícil , muito difícil , até pra andar a pé.
Depois , a chuva caiu. Forte.
Nos recolhemos prum barracão daqueles …. “segurança máxima”….!
Se cai um meteoro ali , acaba com boa parte da história do enduro no Brasil.
Por sorte , só o que rolava ali dentro , eram picolés de chocolate e espetinhos espertos.
Fui intercalando….: uma personalidade , um picolé , uma personalidade , um espetinho , outra figura , mais um gelado , uma parte da história , outro espetinho.
Lá pelas tantas , em meio à água , trovões ecoaram na encosta.
Fortes e repetidos , para o espanto de alguns.
Quando todo mundo achou que já era o bastante por um dia , surgi uma DR 400 , numa pista vazia , dominada pela água.
Uma cena surreal…. Um grupo enorme de “motoheads” , observando um só piloto , dando infinitas voltas sob forte chuva , aparentemente , alheio a todas as vistas.
E assim , permaneceu por vários minutos. Sem tirar a mão.
Perfeitamente adaptado ao mar de lama.
Como se aquilo fosse algo assim…. comum.
Andar sozinho , literalmente embaixo d água , com uma enorme platéia , comendo espetinhos…!!!
A camisa , não pude deixar de reparar , dizia Limonta.
Ninguém ao meu redor duvidou. O ritmo e o gosto eram condizentes.
Qual não foi minha surpresa , quando vejo o próprio , a metros de distancia , limpinho , de roupa “social”.
Seu “sósia” era na verdade , Nielsen que estava , até onde pude entender , usado outra camisa.
Enfim , este cara , Nielsen , Limonta , Zanol (que tb estava lá…!) , José , João , Pedro….
Este cara , seja ele quem for , me deixou a melhor imagem da festa.
A imagem da nossa essência , do nosso amor.
Diante do “silencio” da tempestade , de alma literalmente lavada , ignorando tudo (até mesmo a camisa que estava usando) , esse cara andou…. Andou forte , com paixão e concentração.
Fez naquele momento o que todos nós temos como ideal: Andou por ele mesmo , ignorando tudo , vivendo com intensidade o momento.
Simplesmente andou de moto , sem se importar com o que estava acontecendo ao seu redor.
Ride. Just ride. That´s all about it.

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> Minha vó operô das vista
Dream another dream

Pluct, Plact, POW!

UPP 130928 027 PM na quina da Ribeiro da CostaTexto e foto de Valéria del Cueto

E não é que o Tum, do Pluct, Plact ainda não conseguiu dar seu Zum? Bem que tentou. Carregou as baterias, esquentou os motores, mas a tal da gravidade poluente alterada interferiu de novo impedindo sua passagem para outras plagas do sistema solar, a caminho de outras galáxias.

Subiu, bateu e voltou. Pra outro lugar, no mesmo planeta Terra.

Lindo lugar, diga-se de passagem. Cheio de construções antigas, misturadas a um emoldurado (de  certo mau gosto, registre-se) de prédios modernos, espelhados e pretensiosos. Mas o que ele viu um pouco antes de cair desajeitadamente compensava esses exageros tão humanos. Que deslumbramento, que contorno! Quanta sensualidade explícita inclusive na paisagem geográfica.

Precisava não se esquecer de dar um pulo direcionado mais tarde. Tinha que checar o que pensava ser um sinal dos deuses. Uma marca desgastada, como uma tatuagem em relevo mitológica em forma de Íbis, encrustada numa montanha a beira de uma enseada paradisíaca. Se aquilo fosse realmente o que ele pensava que era… Seria um dos sinais da benção divina deixada por antigos viajantes celestes?

Precisava averiguar, mas isso mais tarde. Por que agora o mais urgente era decifrar os sinais que recebia a sua volta.

Estava num enorme espaço vazio. Entre uma escadaria de um prédio antigo imponente e muitos homens de costas para ele. Uniformizados. Protegidos. Com capacetes e armas, registrou. Seus escudos formavam uma barreira compacta que impedia que ele conseguisse ver direito o que havia do outro lado.

Sua atenção foi desviada para o humano do grupo que passou correndo, vindo detrás das grades que formavam uma barreira entre a vida e o edifício.

Chegou perto um de contingente de iguais, se perfilou fazendo um cumprimento e disse alguma coisa. Todos se agitaram e o grupo se desmanchou.

Ouvia vozes, cantos, gritos do outro lado da barreira uniformizada. De tudo, conseguiu entender as palavras educação e professores. Também entendeu cabral e paz. Não tinha muito nexo falarem de “paz” com aquela agressividade toda. Certamente não era a verdadeira paz que se referiam.

Não podia ser mesmo constatou ao ver os primeiros movimentos dos fardados em direção a massa humana. Quando ouviu os primeiros estampidos olhou em volta procurando abrigo. Não havia pra onde correr. Do outro lado começaram a jogar artefatos. Alguns eram devolvidos após serem atirados pelos homens fardados. Um caiu ao seu lado. Os sensores começaram a registrar alterações enlouquecidas. Aquilo estava afetando seu sistema central.

Mas isso era apenas um detalhe que passava desapercebidamente na confusão geral que se instalava no entorno. A barreira havia partido para cima da multidão. E batia. Indiscriminadamente. Usando seu aparato de forma eficiente contra quem passasse pela frente. Homem ou mulher. Velhos e jovens.

Um dos homens chegou perto dele e fez uma pergunta. Com o barulho ensurdecedor de bombas e a gritaria, não entendeu o que dizia. Outros se juntaram ao primeiro, mas esses não conversaram. Partiram para o ataque, tentando imobiliza-lo de forma violenta. Levou chutes e pontapés. No chão sem enxergar nem respirar, por causa do gás, ouviu apenas uma voz que dizia: “Mais um black bloc fêdape. Está com o rosto escondido. Recolhe.” Preferiu fazer TUM enquanto dava. No meio da balbúrdia, ninguém se deu conta do sumiço de mais um manifestante. Melhor procurar os sinais divinos. Os humanos já estavam decifrados. Prenunciam o caos.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Dream another dream

Por Edu Aiello

Já ouvi dizer que a Terra é um planeta , “auto limpante”…
Mais uma vez , alguém quis se eximir das responsabilidades.
Mais uma vez , alguém quis que “mamãe” resolvesse os problemas…
O fato é que , nunca mais parou de chover.
Também , não deu mais pra assistir o noticiário , que também de fato , nunca foi bom.
Difícil acompanhar o sofrimento de pessoas que perderam praticamente tudo o que tinham , na enxurrada…
Enfim , a lama é parte intima do Off Road. E a gente , não é feito de açúcar. Amém!
Show must go on.
Prefiro o “hard-pack” , ou , na pior das hipóteses , um mix de pisos.
Mas , nos últimos meses , não há nada que se possa fazer.
O jeito é molhar as botas.
Confesso que até gosto , da concentração e antecipação extra , que a pilotagem na lama requer.
Porém , o efeito destes rolês nas partes móveis externas das bikes , é punk.
Relações , pastilhas , rolamentos , comandos , retentores….
Dia destes , por acaso , pude constatar isso de maneira “clara”.
O horímetro marcava algo como 7 horas e a relação (OEM) , já apresentava claros sinais de desgaste.
Honestamente , não imaginei que a lama “comece” peças desta qualidade , tão rapidamente.
Troquei relações minha vida inteira , mas confesso , nunca havia parado pra traduzir isto em horas…
Enfim , era sábado e o rolê estava armado.
Um grande amigo , das antigas , iria se deslocar do interior pra capital no findê. Movimento sem lógica no Off Road.
Ligou na terça e estabeleceu:
“Cê que manda. Vamo andá. Diz aí aonde.”
Não tinha como sartar.
Ia ter que por os pés , naquela bota que nunca mais secou , outra vez.
Passei a semana sem olhar a previsão. Eu já previa…
O sábado chegou.
Acertei.
Chovia. Chovia forte.
Esse cara , o que veio do interior , gosta de moto.
Mesmo diante do céu “preto” e da chuva constante , o cara tava curtindo…
Assim sendo , ia tentando me consolar:
“Seu Edu … , não é um dia ruim. É só um dia chuvoso…”
As palavras faziam todo o sentido , mas , tava difícil de convencer a mim mesmo.
Olhando as bikes novas e limpas pelo retrovisor , até tentei….:
“Cê não tá precisando de uma bota? Vamos pra cidade comprar uns equipos… , comer um filé no Moraes…!”
Por sorte , ele ignorou.
“Toca logo pra esta pista rapaz!”
Sem saída , eu procurava uma razão pra curtir.
Na caçamba , uma KTM SX150.
Há muito tempo não andava de 2T.
Esta era uma boa razão pra por os equipos molhados!
Mesmo porque , já tava chovendo mesmo…
Como todo e qualquer offroader “VET” , queimei um bocado de óleo 2T na vida.
Duques eram minha escolha. Sempre.
Sempre , até conhecer esse cara.
Eu o conheci andando de 250 e ele de 125.
Na sequência , tive outras várias bikes.
Ele também! Todas 125….!
Sempre me dizia:
“De 125 , ao final do dia , a gente se sente um herói….!!!”
Detalhe: o cara anda na serra e , praticamente , só anda de trilha
Por conta deste “conselho” acabei andando de 125 2T uns três anos…
Quem teve a oportunidade única de conviver com uma , por algum tempo , conhece bem a realidade.
São maquininhas maravilhosas…!
Na motinho , não existe baixa.
Só anda “no grito” , motor cheio , nada mais. On/off.
Na minha opinião , uma 125 2T é a melhor escola de pilotagem que existe.
O sujeito tem que olhar pra frente , queira ou não.
Não é bom frear uma 125. Não é bom quebrar a inércia do movimento.
É difícil “fazer” motor numa 125.
Por isso , cabo enrolado , embreagem e foco adiante.
Se chegar ao obstáculo “sem motor” , seja este uma enorme poça , um degrau , ou um salto……
Pensa em algo que começa com FU e acaba com EU.
Não tem outra palavra mais apropriada…
Todo bom piloto de 125 2T tem calo nos dedos da mão esquerda.
Todo bom piloto de 125 2T, sabe usar a embreagem como se deve.
Todo bom piloto de 125 2T, é bom piloto de qualquer moto.
O rolê seguiu. Molhado.
Escorregadio , com vários trechos muito lisos , “tenso”.
Destes do tipo…. não freie , não faça movimentos “bruscos” , procure algo mais “denso” pra apoiar os pneus e mantenha a inércia.
Aceleramos. Eu de 450 , ele de 150.
Fizemos três baterias de 50min sem conversas , só parando pra tomar água e trocar os óculos.
Uma 450 é um transporte apropriado pra este tipo de situação.
Uma marcha acima e …. : tudo bem.
O negócio traciona muito e nesta condição de marcha , não “espana”.
Se algo der errado e for preciso atravessar um “lago” , basta sentar pra trás , girar o comando rotativo , travar os joelhos e …. , até logo.
O trator fica “em casa” , na lama.
Segunda , terceira , leveza nos comandos , inércia , progressividade.
Vai-se longe e relativamente rápido , numa 450 , nestas condições de piso.
Já na 150…. , no liso , a história e outra , bem diferente. Especialmente numa SX.
Se não acelerar (ou andar uma marcha acima) , ela “engole” na primeira poça ou degrau.
Se mandar mão , ela “espana” , perde tração.
Se frear , não consegue grip pra retomar a velô na sequência.
Se não frear….. , deposite sua confiança nas extraordinárias WP e … torça pra não bater em nada muito duro no mato.
Vantagem?
Uma. É leve.
Muito leve.
Imagina como “põe” uma bicicleta na curva. Imaginou?
É igual.
Imagina como passa uma bicicleta por cima de um tronco. Imaginou?
É muito parecido.
Todo “VET” do Off Road , já experimentou a sensação de trocar , pela primeira vez , uma 125 ou Duque 2T , por uma 450 ou 250 , “F”.
É uma sensação indescritível…. , maravilhosa!
É como se você dormisse sendo quem você é e , acordasse andando como o Bissinho.
Espetáculo!
A transição de uma 2T para uma 4T é como um sonho.
Infelizmente , esta “mágica” , só acontece uma vez na vida.
Any way , eu estava com saudade. Muita.
Não demorou , propus uma troca de montarias.
KTM´s são KTMS´s….. , são diferentes , “customizadas”. “Maneiras” , como bem diriam os cariocas!
Já de saída , não “achei” o motor…., nem no chão , nem na embreagem.
De fato ele é tão pequeno que o cilindro inteiro , é quase do tamanho do carburador.
Tentei colocar o motor no giro pra sair e , a parada não saiu do lugar.
O chão tava muito liso.
Muitos RPMs não combinam com chão muito liso.
Lembrei pra que é que servia a tal da embreagem.
Na primeira session mais cascuda , uma sequência de poças enormes , aliviei pra achar uma “rota” e esqueci de trabalhar no cambio , no giro e na embreagem….
A 450 passa lá em segunda…. Passa lá em terceira…. Passa lá em quarta…. , deve passar até em quinta…!
Tô mal acostumado.
A motinho não. Só passa na marcha e na rotação certa.
Na sequência , um trecho de cotovelos muito liso.
Uma pra cima e a parada ficava “chocha” o ritmo diminuía e eu começava a escutar os caras se aproximando.
Uma pra baixo e a cadeira elétrica parecia uma minhoca no asfalto quente.
Me lembrei outra vez: Embreagem!
Mas …. , como é mesmo que usa isso?
Esqueci.
Há anos andando de “F” , acostumei a fazer tudo no controle de aceleração.
Errado , eu sei.
Preguiça. Confesso.
Tem dia que eu praticamente só uso embreagem pra sair , pra acertar a tangencia das curvas de “alta” ou pra por a frente em cima de um degrau ou tronco. Mais nada.
Na minha terra , no carreador , tem muito pouca areia e quase nada de lama bruta.
Manete de embreagem lá , encalha na prateleira…
O sonho acabou.
Um amigo , veterano , chegou e deu o recado.
“Sair das 2T pra as 4T é muito bom. Voltar , nem tanto…”
Tá coberto de razão.
Havia me esquecido.
Ao final , encontrei um sentido nisso tudo.
Pense:
É natural que , a partir de um determinado momento , com o passar dos anos , nossa velocidade diminua (diminua mais…).
Quando isso acontecer , vamos ter que lançar mão de alguns “artifícios” pra manter o ritmo.
Quando essa hora checar , meu amigo “Centoevintecincoman” , estará na vantagem. Certamente irá montar numa 250F e “fritar” a concorrência.
Seus dedos da mão esquerda estarão calejados e familiarizados com o trabalho intenso.
Sua referencia do comando rotativo será precisa. Tudo aberto , enrolado , sempre.
Seu olhar estará habituado a focar vinte , trinta metros adiante.
Seu pé direito , “flexível” , de tanto “ajudar” o quase inexistente freio motor.
Enfim , torça pra que as 125 2T nunca mais voltem a ser populares , isto poderia vir a trazer frustração para muitos.
Respeite os caras que sabem andar rápido com uma delas.
Se a sua meta é evoluir , compre uma.
Temos , nos que vivemos esta transição , a sensação de estar andando mais rápido.
Ilusão.
Mesmo diante dos incontáveis sábados , nossa evolução foi modesta , se comparada à evolução de nossos equipamentos.
A diferença , a evolução , talvez esteja mais neles do que em nós.
Peça uma 125 2T emprestada e vá entender o porque…
Como diriam os caras do Van Halen : “Dream another dream… This dream is over…!”

Leia tembém > Minha vó operô das vista

Pluct, plact, TUM!

LingPort 130428 025 grafismo pessoasTexto e foto de Valéria del Cueto

Queria não ser assim quando passou por ali. Poder andar pelas nuvens e não pelo chão, saltitar nas estrelas, como uma bolinha de pin ball enlouquecido das luzes noturnas. Lá, onde astros sedutores acenam com seus brilhos pisca-piscas pedindo atenção e atraindo incautos como ele. É mais um impulso em direção a um novo qualquer coisa.

Caiu na real e viu que estava na Terra. Que sua capacidade de pulação tinha sido extremamente reduzida pela gravidade poluída e pesada. Daqui não sai, daqui ninguém o tira.

Alto lá que isso é um castigo muito pesado para um pulador de galáxias, acostumado a percorrer distâncias impossíveis em saltos acrobaticamente calculados. Com direito a repique nos satélites adjacentes. Afinal, quem não quicou pelas luas de Júpiter e resvalou nos anéis de Saturno não pode ter a menor ideia do que estamos tratando aqui. Fala de sistemas estrelares, galáxias, dimensões. Fala do tudo e do todo que permeia.

Agora, se vê assim. Procurando não uma, mas a saída para a cilada atual. Chegou pensando em fazer um tour e acabou sugado, atraído por um imã de um planeta que, por alguma razão inexplicável, sofreu um deslocamento e ficou preso entre duas dimensões.

Só pode ser essa a explicação para tantos paradoxos. O belo e o terrível, o elevado e o rasteiro, o auto suicídio com o esgotamento das impressionantes reservas planetárias. A maldição de ser supremo e vil. Como tantas criações geniais podem gerar incontroláveis impulsos destruidores… É como se a quinta dimensão dos gibis do Superboy, aquela que todos falam de traz para frente e onde todos os valores são invertidos coexistisse não paralelamente, mas integrada a outra, a natural do planeta.

Isso pode ser a causa de desequilíbrios do sistema terráqueo, onde são testemunhadas maravilhas sendo alcançadas e coisas que apenas a natureza bidimensional dos humanos pode explicar: matança, ganância, destruição, corrupção gerando o caos inexorável e cruel.

Essa semana os líderes mundiais se reuniram e ouviram uma presidente que quer normatizar a espionagem. Mal sabe ela… Todos os passos de todos os seres existentes estão registrados nos anais divinos. Não apenas os da internet, mas até os dos pensamentos, das atitudes e especialmente os das consequências de seus atos. Lá não tem esse negócio (nossa, ele já fala como eles) de duas dimensões, duas caras, duas versões. Lá segurança é segurança, controle é controle. Lá também se mede, quantifica e codifica milimétricamente – para falar no sistema de medidas daqui, não apenas o que é dito, pensado e feito. E a contagem de pontos não é pela lista dos mais ricos, espertos, ou dominadores. Ela é pelo que cada um recebe e o que isso gera para o coletivo.

Essa senhora, por exemplo, chamou a atenção pelo trânsito fácil entre essas duas dimensões que coabitam esse planeta. Diz, desdiz, se contradiz, sem se dar conta que sua conta está para lá de negativada. Poderia ter feito. Mas não fez sua lição ao desperdiçar os meios que teve em suas mãos: saúde, segurança, educação… Como alguém consegue botar a cabeça no travesseiro sabendo que está deixando como legado uma nação e povo mais mal-educado, com um lixo de saúde e vivendo  inseguramente, ameaçado pela gananciados dos que ela escolheu como companheiros de jornada?

WALDEINSAMKEIT. Em alemão é a sensação de estar sozinho numa floresta, segundo o perfil de Alba Regina Ricci, numa rede social. Não é apenas ela que tem essa sensação. Ele também a (re)conhece. Não de uma floresta, mas de um mundo perdido que não o deixa sair, nem pular, nem sonhar…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Eira e beira

Praia Leme130901 002 rosas sem tirar nem porTexto e foto de Valéria del Cueto

A porta aberta era um convite. Passou por ela. Do lado de fora um corredor. Seguiu até a escada. Olhou para cima, pensou em subir. Olhou para baixo, deduziu que a saída era por ali. Desceu para a vida.

Na portaria viu o outro lado do vidro: calçada de pedras portuguesas, asfalto, carros, árvores… Tudo depois da grade. Achou o acesso à saída. Mal tocou, um sinal indicou que o portão estava liberado. Abriu e saiu. Ouviu o barulho da grade se fechando rapidamente. Não havia como retroceder.

O caminho para a rua liberado. Várias opções: esquerda, direita ou em frente, cruzando a linha de carros que subia por cima dos canteiros e fazia das árvores sobreviventes do sufoco urbano. Abusadas, que são insistindo em resistir.

Sujeira, lixo, abandono. Calçadas mal cuidadas, com armadilhas para pedestres, desrespeitados cada vez que, ao fazer a curva da ladeira, graças ao ângulo para desviar dos carros que ocupam indevidamente o espaço público, sob as barbas complacentes e cúmplices dos representantes da lei e da ordem, os caminhões vão comendo sua beirada, subindo pela quina e afundando as tampas dos bueiros e afins. Ironicamente, cada invasão da calçada é presenciada por um atento policial militar. Destacado para vigiar as pessoas e ignorar solenemente as irregularidades que não são de sua competência. Mesmo sendo justamente sua viatura uma das que contribuem para o afunilamento e consequente destruição do bem público.

O olhar vai subindo para acompanhar o caos e a desordem daquela que já foi uma rua tranquila e bucólica. As marcas da degradação não são suficientes para encobrir o encanto que persiste nos pequenos detalhes da arquitetura, na graciosidade das árvores centenárias que formam um corredor de sombras onde passarinhos se divertem no meio da selva de pedra.

Pode parecer clichê, mas foi assim que viu e descreveu o entorno.

Um último detalhe chamou sua atenção: no alto das árvores as orquídeas floresciam brancas e lilases, agarradas aos troncos e sustentadas pelo carinho dos porteiros dos prédios. Quase um sinal. Aquele que procurava.

Mas não valia. Afinal, a florada acontecia anualmente e fazia parte do ciclo local.

Tomou o rumo do final da curta rua e ao dobrar viu, acima dos tapumes invasores da empreiteira, o azul do céu sem limites emoldurado pelas copas de amendoeiras confusas.

Suas vidas agora são assim. Num tempo especial. Suas folhas amarelam e caem quase na primavera, deixando o outono sem suas cores avermelhadas. Fazer o que?

Para frente segue o caminho que passa pelo calçadão, atravessa as pistas asfaltadas, atinge as ondas de pedras portuguesas de Burle Marx e, finalmente, chega na faixa de areia branca da praia quase deserta.

O vento sopra, os coqueiros balançam, o mar resmunga. Um deserto sem miragens, atravessado em passadas lentas. O mar chegando.

Na beira da imensidão, marcas de pés tatuam o terreno há pouco lambido por uma onda mais atrevida. Elas ajudam a contar a história das duas hastes com algumas poucas folhas que sustentam as flores espetadas na areia. Rosas vermelhas. Solitas e dramaticamente emolduradas pelo colorido de dia espetacular, sem meio tom.

Olhou as rosas. E se armou de cor, de paz e um pouco do amor alheio. Continuou.  Era o sinal…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Turista e/ou viajante

Paraty 130821 065 mare alta rua coqueiro mo+ºaTexto e foto de Valéria del Cueto

Cansaram de Paraty? Cansa não. Ainda tem um tanto pra contar. Melhor que meditar sobre os últimos acontecimentos, não é? Quer saber? Não há luz no fim do túnel. E, dito isso, vamos procurar novos interesses para aplicar as energias.

Viajar é sempre bom ainda mais quando há tempo para abordar o lugar por uma perspectiva não apenas “standard”, mas também conhecer o ritmo de vida dos locais. Depois de muito analisar, começo a chegar a brilhante e nada inédita conclusão que existem dois tipos distintos: os turistas e os viajantes. Acho que me enquadro no segundo sem, de maneira nenhuma, desmerecer o primeiro

Engraçado é que essa atitude é quase igual a andar de bicicleta. Depois que a gente descobre, vicia. Não consigo sossegar enquanto não interajo com moradores, exploro seus desejos, convivo com seu dia-a-dia. Só fazer turismo não me satisfaz.

Normalmente começo no próprio lugar em que me hospedo ao descobrir que a encarregada do café mora longe e preferia o sistema de saúde da cidade grande. É lá que fico sabendo da peregrinação pelos supermercados, em busca das ofertas e preços baixos.

Ainda é pouco, mas já dá pra começar. Andando pelo point do comércio fica explícito o domínio de estrangeiros competindo com franquias da Richard’s e outras marcas de lojas que existem em qualquer shopping. Dizem os locais que tem um grupo comprando um quarteirão inteiro do centro histórico.

Engraçado é que parecem que eles chegam em levas. Artistas abrem ateliês, profissionais liberais estabelecem seus negócios. Argentinos, muitos argentinos. Um francês aqui, outro ali.

Saindo um pouco da área mais valorizada, encontrei os nativos. Pra falar a verdade, comecei minha busca num local bem óbvio: na Casa da Cultura, conversando com os funcionários. Ali, descobri que as duas livrarias e a revistaria do centro histórico são da mesma dona. Gostei do que vi nas prateleiras.

Também fora da muvuca fica o Teatro Espaço onde o “Grupo Contadores de Histórias” fez a sua e se tornou referência internacional no teatro de bonecos, num trabalho de mais de 30 anos.

No penúltimo dia de viagem, por causa da maré alta que invade as ruas centenárias, descobri o tamanho da loja que vende os produtos feitos pelos pescadores artesãos do Saco de Mamanguá. Quer ver as fotos? Aguarde uma próxima viagem porque, ao descobrir o caminho por dentro da loja, que vai de um quarteirão ao outro, fui soterrada de informações e imagens e preferi deixar pra explorar tanta riqueza numa próxima oportunidade. E já aviso. É lindo, exuberante e surpreendente!

Mais lindo porque, ao contrário dos barcos no porto, a maioria mantem suas cores tradicionais e puras: o azul, amarelo, vermelho e verde. O que já não se verifica no porto. Ali fui surpreendida com uma releitura do colorido das embarcações: cor de rosa, lilás, fúcsia, verde água… Segundo um marujo, o dono de um barco inventou a novidade atraindo os turistas que procuram passeios marítimos e um monte de outros barqueiros a seguiram. Virou moda. Sinceramente? Não sei não. Espero que a onda passe.

A busca da viajante não privilegia os atrativos turísticos, mas também não os exclui quando eles surgem diante das lentes fotográficas. Foi assim com a maré que me levou ao abrigo da loja de barcos. Primeiro ela se espelhou, com ares de “resista, se for capaz”. Não resisti.

Assim como não pude fazê-lo diante da cena do artista que pinta os recantos da cidade. Para meu deleite e- espero – seu também.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Paraty 130821 169 pintor na rua palheta e flores pes cruzados

Agora em Olinda, um MIMO para ti

Texto e fotos de Valéria del Cueto

11:01 é a hora e o minuto do tudo ou nada. Sempre às sextas. É assim. Com variante.
Essa semana o motivo de catar milho no dead line do querido Nei Ferraz, heroico diagramador do Ilustrado do Diário de Cuiabá, não foi falta de assunto. Esse sabia qual era desde a ida a Paraty, semana passada.
O encalacre, ao contrário, era como falar de tudo o que vi em tão pouco espaço. Caí – quase de paraquedas, na primeira semana do Festival MIMO – Movimento Internacional de Música de Olinda.
Foi na co-irmã pernambucana que nasceu, em 2004, a caravana de artistas que se apresenta nas igrejas de Patrimônios Históricos brasileiros. Esse ano a festa começou em Paraty, esteve em Ouro Preto, Minas Gerais, desaguará em Olinda dia 02 e por lá se espalhará até o dia 8 de setembro.
Disse “se espalhará” por que é assim. Concertos nas igrejas, nos palcos montados nas praças, curtas, médias e longas cinematográficos brasileiros com temáticas musicais, no Festival Mimo de Cinema, workshops, máster classes… E mais os eventos paralelos, como a Exposição MIMO 10 anos, a Chuva de Poesia e só em Olinda, o Spasso Escola Popular de Circo. Acabou? Não. Faltou o Fórum de Ideias.
O dilema do Mimo é que dá vontade da gente ir seguindo junto, tal a qualidade das atrações espalhadas pelas três cidades históricas da edição. O caminho? Cada um tem e faz o seu. Graças a Deus…
Dos espetáculos que assisti em Paraty três estarão em Olinda: o MANdolinMAN, um jovem quarteto de bandolinistas belgas que mistura música folclórica do pais e algumas peças de “bossa nova”.
O duo Milewski, composto pelo violinista Jerzy Milewski e a pianista Aleida Schweitzer que, frequenta o MIMO desde sua primeira edição e dá um show não apenas de música, mas se conectando com o público de maneira muito especial e arrancando calorosos aplausos da plateia.
O terceiro espetáculo que se repetirá em Olinda é o de Stephen Micus, músico e compositor que toca e compõe usando mais de 100 instrumentos recolhidos em suas andanças pelo mundo. Aguardado ansiosamente, esta é a primeira vez que vem ao Brasil.
Um detalhe: todas as atividades do Mimo são gratuitas e a organização é realmente muito boa. As senhas para assistir aos concertos sempre são distribuídas às 17 horas pontualmente. Em todos os espetáculos que assisti tanto na igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios, quanto na Nossa Senhora das Dores, em Paraty, os lugares se esgotaram.
Apesar de não estarem na programação de Olinda, destaco mais três “espetáculos”. No primeiro a cravista Rosana Lanzelotte, o percussionista Caíto Marcondes e o violonista Luis Leite comemoram os 150 anos de Ernesto Nazareth. Sou fã de carteirinha de Rosana e seu maravilhoso instrumento desde que tive o prazer de fazer uma das câmeras de seu DVD com o violoncelista pernambucano Antônio Meneses, gravado numa igreja histórica do centro do Rio anos atrás.
Para fechar, dois shows no palco da praça: os de Rum Tareq Al Nasser, jordaniano que se consagrou por revitalizar a música árabe e se apresentou com o grupo RUM, e de Herbie Hancock, aquele, um dos maiores pianistas norte-americanos.
Passo, mais uma vez, por Paraty sem sair incólume aos sopros de arte, música e literatura que passeiam pelas ruas calçadas de “pés de moleque” com suas pedras irregulares onde foram parar os pingos da Chuva de Poesias de sonetos Gregório de Mattos, o Boca Maldita. Isso, quando não ficaram pendurados nas árvores centenárias da Praça da Matriz…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Para mim, Paraty.

Valeria 054Texto e foto de Valéria del Cueto

Troquei o “P” da Ponta pelo “P” de Paraty por alguns dias. Voltei a um lugar que sempre fez parte dos meus roteiros. Nunca turísticos, no sentido clássico da palavra, porque nunca os conseguirei fazer.

Conheci Paraty quando a cidade, Patrimônio Histórico Nacional, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, passou a fazer parte da minha rota de fuga pós-campanha política em Mato Grosso. E foram muitas… Um dia, por acaso, em vez de pegar a Dutra para fazer o trajeto Rio/São Paulo acompanhada em um parceiro que, como eu, adorava uma estrada e um desvio, resolvemos descer por Santos e vir bordejando o litoral dos estados de São Paulo e Rio de janeiro, até chegarmos a Cidade Maravilhosa.

Levamos para percorrer esse percurso mais de uma semana. Parando onde achávamos que iríamos descobrir lugares especiais e recantos. Fugindo, como sempre das muvucas, exaustos que estávamos dos meses de trabalho pesado eleitoral.

Bertioga e Ilha Bela, ainda em São Paulo, fizeram minha cabeça e consumiram alguns dias, até chegarmos a quina sul do Rio de Janeiro, Paraty Mirim, onde chegamos por uma estradinha safada de terra e aproveitamos para não perdermos a manha de dirigir nesse tipo de condições adversas como fazíamos direto pelas quebradas mato-grossenses.

Batemos em Paraty em clima de semi-exaustão e despencamos numa das melhores pousadas, na área restrita à circulação de automóveis, para recuperarmos nossas energias exauridas, não na viagem, mas no trabalho. Éramos “nobres” chegando melhor estalagem da colônia e assim fomos tratados.

Apaixonei-me por Paraty para sempre. Principalmente por que chegamos num domingo a noite e pudemos re-conhecer o lugar e os caiçaras sem a interferência dos visitantes de final de semana. Isso foi nos idos do milênio passado. E, de lá para cá, para me levar a Paraty, bastava um convite. Fosse para o que fosse: alambiques, Estrada do Ouro, praias do continente…

Depois, quando me considerava uma quase especialista no pedaço, conheci outra Paraty, com atrações incríveis e paisagens únicas.

Na minha vida al mare, velejando e andando para cima e para baixo nas 365 ilhas da Baía de Angra dos Reis, por uma necessidade burocrática tivemos que levar a escuna Corisco a capitania da Marinha para regularizar o barco. E a mais próxima era em…

Foi como olhar uma imagem que já conhecia por um ângulo totalmente novo – e mais – com a possibilidade de explorar o sensacional e recortado litoral de Angra até lá.

Se fosse usar a técnica exploratória que praticamos nas viagens de carro pelas famosas curvas da estrada de Santos, desembarcando em cada praia ou recanto que me encantava no caminho, levaríamos meses, quiçá um ano (caso abríssemos o raio de ação até Paraty-Mirim como, é claro, cheguei a propor ao comandante. Tive minha proposta rechaçada pela sempre apertada agenda das fugas para os paraísos e pela existência de Ilha Grande, nosso objeto exploratório prioritário)

Entre outras idas e vindas, a mudança mais significativa dos perfis de minhas visitas foi quando a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty me fisgou por dois costados. O do local que adoro e a atividade que venero: a literatura. Tudo ótimo. Mas ver o paraíso entupido de gente me incomodou e dificultou minha sintonia local.

Agora, volto para o MIMO – Mostra Internacional de Música de Olinda. Mas, como não sou iniciante, antecipei a chegada e, durante dois dias, pude fazer o que mais amo: conviver com os moradores locais. Ouvir suas histórias (o que é praticamente impossível na correria dos finais de semana) e, do silêncio das ruas, desertas extrair imagens quase puras do nosso longínquo e rico passado colonial.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Nada aquém

FloripaN 120831 328 Cost+úo do Santinho lindaTexto e foto de Valéria del Cueto

Depois de me dedicar a dificílima arte de não fazer nada na semana passada, fazer o que?
O mundo anda lá fora, mas aqui dentro tudo está quase parando. Tem que esperar. Mas esperar o que?
Os sinais não estão claros. As forças que “puxam” as correntes que observo não estão definidas, mas existem.
Existem e estão por lá. Mexendo a água, a areia e quem se aventura a enfrentar as temperaturas inconstantes dos últimos dias.
Mais que cumprindo tabela, fazendo o papel de feiticeiras do tempo. Mesmo que seja do tempo invisível. Aquele que, quando vemos, já passou e a gente nem viu…
Por isso valorizar a sintonia entre o ser e o entorno. Quando a onda vem, surfar nela, como se não houvesse amanhã. Usar a força natural para se projetar em direção aos deuses do Universo, quase dialogando com eles. Assim, num tête-à-tête. Quando a onda vem…
Só que para detectá-la a tempo de poder usar sua energia a seu favor é preciso estar ali, a postos. Preparado para fazer o movimento correto, na hora certa. A palavra é sintonia.
E aí o exercício é permanente. Estar com os canais abertos para perceber, receber e acumular (para os momentos menos luminosos) os sinais emitidos é uma ginástica. Ela ajuda, limpa o organismo, purifica o sangue, aumenta os batimentos e carrega a adrenalina.
Mas… como tudo, tem seu tempo.
Continuo aqui, olhando o movimento. Esperando sentir na ponta dos pés o frêmito que vai se espalhar por todo o corpo no momento de fazer a minha parte. Usar toda a energia disponível para acompanhar a inspiração que explodirá logo ali na frente, num mar de espumas, uma parede de água.
Como tudo na vida pendendo entre o movimento e a imobilidade.
O problema é a água fria, no caso do mar, e o marasmo, no caso da terra. É aprender a fazer do tempo um aliado em que podemos aproveitar para organizar o passado e preparar o futuro.
Como um atleta que se prepara para uma prova. Momentos antes do sinal da largada.
Naquele instante em que pesamos o que fizemos para chegar até ali e projetamos o que faremos no decorrer do percurso.
O momento. Do tudo ou nada.
Ali, ainda há uma possibilidade. É a hora da verdade. Da sua verdade, de mais ninguém.
Primeira pergunta: fiz tudo o que podia? (geralmente me ferrava nessa, com a impaciência e a inquietude que carrego). Segunda: posso contar com isso para alcançar meus objetivos? Terceira: o que mais existe no meu corpo e na minha mente para explorar, extrair e transformar em energia?
Se a preparação foi pouca isolo a “falha”, zero a ficha e, vazia de minhas deficiências, por que as ignoro – jogadas que estão para escanteio, projeto minha vontade.
Porém… Se no balanço de perdas e danos considero o trajeto produtivo incorporo suas qualidades, esqueço seus defeitos e aí, sim, me dedico ao prazer de estar em sintonia.
O caminho? Cada um tem e faz o seu. Graças a Deus…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

And now…

Leme Papa130723 016 sombrinha rio quebrada

Texto e foto de Valéria del Cueto

O vácuo entre os megaeventos deveria chegar a essas mal traçadas páginas.

Uma pausa entre o arrasa quarteirão eclesiástico e o da música, uma caminhada nextélica e cheia de lama entre a Cidade da Fé e a Cidade do Rock.

Pra começar nada de Cidade da Fé, que essa ficou atolada em Guaratiba. Foi um caso em que a arte imitou a vida, que aprimorou a arte.

Refiro-me a arte cinematográfica do delicioso filme franco-uruguaio “O Banheiro do Papa”, de 2007, escrito e dirigido por César Charlone e Enrique Fernández.

Uma história real, que virou ficção para ser ampliada exponencialmente na malograda Cidade da Fé: a de um contrabandista de fronteira que usa tudo o que tem para construir um banheiro, atender as necessidades básicas dos peregrinos e arrumar algum. Lá, deu tudo errado, igual aqui.

Isso é claro, não tem nada a ver com a alegria do Papa Francisco, sua empatia e a forma com que cativou as multidões por onde passou. Seu carisma é sua mensagem são inquestionáveis. A questão é mais palpável e real. Ela é financeira e econômica.

Foi nesse quesito que a parte Zona Oeste do Rio levou um banho. De água fria. A parte Zona Sul ficou sem transporte, desabastecida, porém feliz. Afinal o Papa é pop.

E já se foi. Para nós, ficou a realidade, a espera e um novo megaevento para breve.

A diferença está, justamente, nesse intervalo, agora habitado por uma gama variadíssima de manifestações populares. E, com as perspectivas futuras, em curto ou largo espaço de tempo, a tendência é que essa agenda venha a ficar ainda mais intensa. Afinal dólar subindo, bolsa em queda, e a inflação… Deixa pra lá.

Esses fatores, aliados ao descompasso dos dirigentes políticos, agora já preocupados em tirar proveito da revolta da população, já que estão definitivamente mal na foto popular, só tendem a agravar o quadro.

Não falo do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, estados por onde costumo circular com mais frequência. A questão é nacional.

Até Amarildo, o desparecido da Rocinha, não é mais um apelo carioca. O Brasil inteiro pergunta ao (des)governador Sérgio Cabral: ONDE ESTÁ O AMARILDO?

E, quanto mais fuçam pior fica. As câmeras que pagamos e eles anunciaram e alardearam nas propagandas milionárias em horário nobre da TV, simplesmente não funcionavam. Assim como o transporte, a saúde…

Alguém tem que pagar por isso. É muita irresponsabilidade, muito desperdício.

É nosso dinheiro sendo usado não em benefício do povo, para sua proteção, mas para enriquecer as firmas A e B, que simplesmente não cumprem o exigido nos contratos assinados e nem mal e nem porcamente fiscalizados.

Assim como as câmeras do Amarildo, as da CETRio também falham quando acionadas pela população. Especialmente as da casa do Sérgio Cabral…

Por essas e por outras é que haverá uma data especial no calendário dos megaeventos, no mês que vem, inserida por motivos alheios a vontade popular. Será o 7 de setembro.

A data em que todo brasileiro vai entender Dom Pedro,  quando bradou com revolta no coração e a voz cheia de razão: “INDEPENDÊNCIA OU MORTE”!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Quem vai querer?

 Texto e fotos de Valéria del Cueto

Somos uma ilha cercada de peregrinos na nossa única saída. O resto vocês já sabem: morro, pedra e mar.

Estamos abençoados por tabela e ricochete. Não precisa nem chegar no palco Rock in Rio de Francisco.

Ele nem deve ter notado os “patrocinadores” pendurados em seu cangote. Nextel na concepção “solideridade” do VT exaustivamente exibido e Rock in Rio na Cidade da Fé e outras alusões conceituais. Os de sempre, né, gente? Devem ter sido chamados a colaborar, mas como o Vaticano já tem seus próprios e apropriados apoiadores, tipo  Allitália e Fiat – italianos como o Vaticano  original – tiveram que se desdobrar pra pegar uma beira no merchandising de Francisco.

Um destaque especial para a Coca-Cola que colou seus adesivos nos isopores de água e refri. Por que cerveja, nem pensar! (evento no Rio sem cerveja?)

E foi pensando nesses detalhes que resolvi desenvolver a crônica de adieu a Francisco. O cara, sem dúvida, é gente boa. Além da benção e do perdão dos pecados conseguiu o milagre de apagar as propagandas explícitas invasivas e de mau gosto que pululam nos eventos na Cidade Maravilhosa. Provou que dá pra fazer a festa sem escancarar e empurrar goela abaixo a poluição visual que descaracteriza o Rio a cada nova atração.

No quesito decoração é assim que o Rio deveria ser se não fossem os vendilhões de cabeça curta e bolso largo. Os que não se dão conta que ao encher o Rio de penduricalhos cada vez mais acintosos e invasivos, só depõem contra nossa beleza natural, desvalorizam nosso corpinho.

Mal comparando, é a nobreza aristocrática de Paris (já viu banner na Torre Eiffel? Propaganda no Arco do Triunfo?) perto da Garota de Ipanema, transformada em quenga de quinta carioca. Aquela que se depender de seus gestores, abre as pernas e empresta seu corpo pra qualquer um que aparece com um troquinho. Não para a cidade, mas para os amigos.

Pois esse é um dos legados de Francisco que tantas coisas nos ensinou e com tanto carinho nos tratou: a prova de que é possível, sim, realizar festa sem vender nosso patrimônio visual, sem poluir a cidade com tanta propaganda invasora.

Quanto mais limpo melhor e mais caro. Aproveitamos para botar os publicitários de plantão para exercerem seu papel que é criar, inventar alternativas mais atraentes e menos poluentes.

Foi quando vi a caixa de isopor padrão que escolhi qual seria meu olhar (míope) quando saísse pra fazer fotos: procuraria o Rio entre os ambulantes.

Afinal, é possível sentir o pulsar da cidade por suas ofertas. Isso não é novidade. Debret já retratava os ambulantes em 1800 e lá vai pedrinha.

As condições do tempo e temperatura impuseram os hits da temporada: guarda-chuva e capa. As cangas, especialmente as da bandeira do Brasil, viraram proteção para o frio. Acho que se estivesse fazendo um calorzinho a tendência teria sido mais, digamos, liberal. Não que as moças usassem biquínis, mas um topzinho básico ia rolar. Depois, confessionário! Um item bem avaliado foram os banquinhos de quinze reais, pra quem não quisesse sentar na areia úmida.

A essa altura eu já estava preocupada. Onde andavam os produtos tipicamente cariocas? (A estampa da sombrinha/cartão postal não conta). Rodei bastante até achar um vendedor de Biscoito Globo. Quanto ao Mate Leão, tão genuíno… Lamento informar. Procurei muito. Mas mate por aqui, só a erva (mate) do chimarrão oferecido por um peregrino a  Francisco, o Papa argentino mais brasileiro do mundo.

 *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Coisa de cinema

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Texto e foto de Valéria del Cueto

E assim, no meio do quase tudo, em que nada é estático ou irremovível como pudemos ver nos últimos dias no arrasa quarteirão do bairro mais chique do Rio de Janeiro, lá (ou aqui?) está a cronista.

Sem saber se vai ou vem. Fala, age ou vai pra praia, corre ou enfrenta seu desafio semanal de contar um conto, de preferência sem aumentar um ponto. Complicado. Delicado. Porém, necessário.

E entre tantas possibilidades, por mais que procure um assunto lúdico e ameno, as imagens do passeio treme terra dos vândalos e liberação do quebra-quebra, provocados pela ausência eficaz de ação policial, não saem da cabeça (ia dizer do foco, mas seria uma licença “vídeo produtiva” forçada demais, já que foco não foi uma constante no material amplamente distribuído ao vivo e a cores durante os atos registrados nos últimos dias).

Apreendo tudo ali pensando que, se ainda não chegamos aos tempos de “Matrix”, as projeções de “Soylent Green”, filme estrelado em 1973 por Charlton Heston, dirigido por Richard Fleischer, já batem a nossa porta. No Brasil o filme foi rebatizado de “No mundo de 2020”. Pois então, tirando o efeito alimentar, já estamos quase lá…

Não é por acaso que menciono esse filme. Também não sou a única a fazê-lo. A obra que assisti com uns 14 anos é citada e relida no filme “A Viagem”, estrelado por Tom Hanks, disponível em qualquer locadora. Se fosse só cinema…

E aí chego à questão principal dessa crônica. O que está acontecendo com a polícia, especialmente a carioca, nas últimas manifestações? Parece que dos manuais dos valorosos homens do Bope e do Choque foram extirpados os ensinamentos apresentados à sociedade, inclusive pelo cinema, nos espetaculares Tropa de Elite 1 e 2. Mas esses, obedecem ordens!

Não é possível que alguma lavagem cerebral tenha apagado das mentes das autoridades policiais constituídas táticas clássicas de guerra tão antigas como as usadas desde os tempos de Esparta e Atenas e do gênio militar da Macedônia, Alexandre o Grande.

As cenas da coletiva dos representantes do governo estadual do Rio de Janeiro, na quinta feira, exaustivamente disseminadas em enormes matérias pelas redes concessionárias de televisão, foram patéticas, constrangedoras e preocupantes.

Um comandante reclamando que os policiais recebem cusparadas durante as manifestações é surreal! Agradeçam e digam amém. Se fosse numa guerra, seriam atiradas balas de verdade e não escarros de desprezo. A declaração de que policiais treinados durante anos também são cidadãos é uma balela. Se eles fossem cidadãos, estariam do lado oposto desse cabo de guerra. Estão ali e são tratados pelas autoridades como máquinas da lei e da ordem. Não têm direito a opinião, só a obedecer. E seu comandante em chefe, pasmem, é Cabral!

Os depoimentos colhidos pelos ninjas alertam que os policiais militares estão trabalhando direto. Um deles, disse que estava na rua desde 6 da manhã. Isso já durante a madrugada! Se não me engano, foi no dia em que o gás lacrimogênio ou de pimenta foi atirado em direção a um hospital, na rua Pinheiro Machado, em frente a residência oficial do governador.

Falta tática, estratégia e comando para definir as prioridades. A polícia que protege, agora, a casa do governador Sérgio Cabral no Leblon, não pode “delimitar um perímetro de proteção” e deixar que as coisas saiam e fiquem fora de controle do lado de fora da risca de giz definida pelas autoridades que, em última análise, deveriam fazer com que a PM cumpra seu papel constitucional de proteger o cidadão comum e o patrimônio público.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

O Papa é pop, já a Igreja…

Leme palco130706 002 palco Papa coqueiros

Texto e foto de Valéria del Cueto

O mundo está rodando. Lá fora.

Aqui, no meu canto do Leme, olho pra tudo e não vejo quase nada, por que os tapumes de Cristo fecham a visão de alguns quarteirões e isso não é pouco para um pequeno bairro que tem em sua extensão não mais que meia dúzia de três ou quatro deles.

A obra para louvar a Deus é gigantesca, maior do que o palco dos Stones, montado em frente ao Copacabana Palace, na primeira década do novo milênio.

Os moradores do Leme, é claro, só têm a reclamar contra a invasão da nossa pequena e humilde praia. E com razão. E muitas razões…

Por que nada justifica a mania de grandeza dessa igreja que não me representa e – parece – nem ao próprio Papa Francisco.

A soberba chegou ao ponto da Arquidiocese carioca, pedir e a Fundação Parques e Jardins da cidade autorizar a retirada das palmeiras que, imaginem, estavam plantadas há anos justamente na lateral do local onde ficará a boca do palco voltado para a praia de Copacabana.

Isso que estamos falando de mais uma imensa multidão numa área tombada, de acordo com o Inepac, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, que assim descreve a região: “O calçadão de Copacabana, de autoria de Roberto Burle Marx, foi executado no início da década de 1970, sendo o maior exemplo de obra de arte aplicada existente no mundo. Pensado como um painel contínuo em escala urbana passível de ser visualizado em grandes trechos oferece aos pedestres a possibilidade de desfrutar de uma variedade de desenhos e composições. Adota motivos do abstracionismo formal que caracteriza a pintura de Roberto Burle Marx a partir da década de 1950. O projeto paisagístico agrupa árvores de copas amplas em conjuntos, cuja distribuição se integra ao desenho do calçadão. O trabalho em pedra portuguesa das calçadas incorpora a figura tradicional das ondas que simbolizam o bairro…”

Tudo bem que as palmeiras abusadas não estão no calçadão. Mas a, no máximo, uns metros areia adentro.

Não tão bem assim porque, senão, o prefeito Eduardo Paes não teria revertido a ordem de transplantação dos coqueiros, contrariando a Arquidiocese e a sua própria Fundação de Parques e Jardins. Ponto para ele. Mas só um. Antes de sua contra ordem as palmeiras já haviam passado por muito sufoco, literalmente, servindo de apoio involuntário para parte dos ferros que formarão a estrutura papal.

Pensando bem, a palmeira sufocada é uma metáfora do estilo do novo papa Francisco, diante das exigências do cargo. Um cara simples, tentando se livrar do aparato luxuoso e exagerado que o cerca, cheio de penduricalhos e salameleques desnecessários, mas servindo de apoio para a estrutura que o sufoca.

Vai ser uma longa luta, na qual, a visita ao Rio é apenas um round. Um round que obrigará o pontífice argentino, entre outras coisas, a comer um “churrasco brasileiro”.

Faremos meio assim como a presidente do país vizinho ao levar de presente, quando da sua elevação ao trono de São Pedro, um cuia e um bomba de chimarrão! Como se não soubesse que, para o mateador, nada supera seu equipamento pessoal, aquele que carrega campanha afora, esteja ela no Pampa que for…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

A vexação de um povo

Por Jacob Fortes

O Senado Federal e a Câmara dos Deputados são colegiados dignos de veneração porque, criados pela SAGRADA CARTA CONSTITUCIONAL, expressam a trincheira do povo brasileiro; a logomarca do civismo e da democracia. Os seus membros, senhores de aspectos bem postos, têm suas condutas pautadas, presumivelmente, pela retidão, inclusive porque tal particularidade é da essência do cargo. Os que optaram por se eleger para esses colegiados o fizeram movido, supõe-se, pela vocação, quase sacerdotal, de servir, de zelar e de proteger os interesses da coletividade brasileira.

Apesar desses pressupostos, alojados na mente dos brasileiros, políticos, vez por outra, agem em direção oblíqua; se portam contrariamente ao molde da imaginação do povo. Exemplo disso são os presidentes do Senado e da Câmara, que, invocando regalias do cargo, recentemente utilizaram aviões da Força Aérea Brasileira para viagens particulares. Contrastando com essa folgança, nos ares, os brasileiros das grandes cidades, vexados, submetem-se ao calvário de viajar, por longas horas, em trens e ônibus sucateados, comprimidos aos moldes de vagões boiadeiros. Ditas regalias, que permitem fitar o Brasil das alturas em olhares recreativos, faz parecer que as manifestações, fragorosas, que ecoaram no Brasil e no mundo, quase um pedido de socorro do povo, não causaram nenhuma perturbação a esses presidentes. Ao contrário, fica parecendo que agem com imperturbabilidade rara, comparada somente à de um trapezista que, em sereno estar, mas seduzido pelo abismo, cai numa depressão apenas para regozijar-se no delírio da vertigem. Também remete para a ideia de desdenhosa cusparada às legítimas reivindicações desse povo (cansado, amarrotado) que, unissonamente, grita, com a mente conflagrada, não apenas por melhores serviços públicos, mas pela ética na política e na gestão da coisa pública.

Os presidentes do Senado e da Câmara ainda hão de despertar dessa insensibilidade reinol em relação aos anseios desse povo, laborioso, que construiu para si uma pátria forte, respeitada, digna de todos os louvores e, por isso mesmo, tem o direito de indignar-se, de fazer transbordar a sua justa inconformação.

A despeito de tudo, do misto de tristeza e decepção, subsiste a esperança de que esse povo, opresso, gestado pela miscigenação de três raças e que se ufana de haver construído uma Pátria exuberante e cantante, possa, merecidamente, desfrutar de melhores serviços públicos.

Zona dividida

Texto e foto de Valéria del CuetoMoa-130620-046-andaimes-papa-palmeiras-homens

O que era mesmo?
Tantas são as emoções que está difícil firmar numa única direção. O mundo anda rápido e multi-poli-facetado, uma zona mesmo.
Tenho medo de usar esse termo.
Já contei meu problema com uma funcionária múmia que ao ouvir-me dizer que seu quadrado tumular da repartição era “uma zona” sentiu-se ofendida e, acusou-me chorosa de havê-la chamado de prostituta.
Olhei bem para seu porte, medi sua atitude (indignada) e, depois de explicar que, para mim, uma zona era apenas uma bagunça, não resisti a concluir explicando que nenhuma zona do mundo aceitaria alguém com as suas características.
Enfim, evito as zonas falsas e, quando posso e quero conhecer rapidamente uma localidade vou, aí sim, à zona.
Do Coqueiros, em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, à Rua Bahia, em Poxoréo, Mato Grosso, para Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, por lá passei.
O que quero explicar é que tenho um certo conhecimento prático e empírico do que é uma zona.
E, a partir dessa premissa, demostrar a medida, o peso e o volume da atual conjuntura política e social que observo no país e no mundo.
Zona é fichinha, é pinto!
Mal comparando, a coisa perdeu a noção de… de que mesmo?
É jatinho pra lá, aviãozinho representativo pra cá. Ninguém se entende nessa babel de final dos tempos. Só falta o raio. O Congresso é nossa Babilônia federal.
Precisamos de Stanislau. Ponte Preta, que falta você nos faz! Por que os elementos do novo Samba do Doido da vez estão todos aí querendo saracotear.
Vai ser mais minimalista, com rimas pobres ou inexistentes porque rimar plebiscito e reforma política com redução de gastos públicos é impossível. 39 ministros sabe-se lá de que com a inoperância da máquina pública a enta ainda consegue, usando na frase o adjetivo incompetência.
O problema é que não há segunda que combine o coro por saúde, educação, segurança com a ladainha da reforma política via plebiscito dentro do tempo musical. Perdeu o tempo? Desafinou…
Ainda mais quando nem eles mesmos se entendem, ou fingem não conhecerem as leis do país.
Só que chega uma hora que não dá mais para chamar urubu de meu loro sem passar por cego, surdo, mudo, burro e/ou puxa-saco. Isso sem contar o vai-e-vem, o disse-não-disse. O dar, não dar para a torcida o que o primeiro consultor jurídico já disse que não é constitucionalmente possível.
Eike cai, Cabral se desespera, ilhado no seu apartamento vendo os “ocupantes” do seu entorno usando seu adereço predileto, aquele famoso guardanapo na cabeça. Parlamentares voam em jatinhos da Fab, dinheiro vivo é roubado de assessores.
Aqui no Leme vai subindo a estrutura do mega-palco do Papa que virá. Um espetáculo a parte. Um gigantesco e complicado quebra cabeças com milhares de peças, como a vida…

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Apologia ao livro

Por Jacob Fortes

Certa feita, quando menino, fui com o meu pai à cidade; cada qual no seu jumentinho. Chegamos cedo; a cidade despertava numa pachorra de lesma, mas o Mercado Central era madrugador. Enquanto meu pai comprava o essencial nas quitandas do Mercado eu o aguardava debaixo de uma figueira folhuda, ao lado dos jumentos de doma. Próximo a essa árvore existia um quiosque no qual funcionava um biclicletário. O propósito do bicicletário consistia em alugar bicicletas; era o meio de vida do proprietário, Senhor Xudu.
Naqueles áureos anos em que esse transporte foi lançado, possuir uma bicicleta era privilégio de poucos; endinheirados. A única forma de a grande maioria, de pobres, andar de bicicleta seria por meio da alugação.
Debaixo da árvore eu reparava o movimento. Assim que o bicicletário abriu as suas portas começaram a chegar os alugatários; em pouco tempo a frota de bicicletas já havia arribado. Lembrei-me das abelhas do meu sertão, em revoada matinal para encontrar o néctar das flores silvestres. Os clientes, depois que grudavam as mãos no chifre do biciclo, saíam com ar de felicidade. Não era pra menos. Pedalar, oferecendo a face para os beijos da brisa é sempre prazeroso, mesmo quando o percurso impõe farta sudação. Vim conhecer essa sensação agradável próximo à idade adulta quando, morando na cidade, pude ter os meus ganhos parcos, porém suficientes para alugar uma bicicleta.
Daí a pouco, chega mais um freguês:
— Senhor Tadeu Xudu, eu quero alugar uma bicicleta.
— As bicicletas foram todas alugadas. — Aguarde, se puder; em breve uma delas estará de volta.
Pois bem, os livros deveriam ser tão andejos e ter a mesma mobilidade das bicicletas de aluguel, ou das abelhas: continuamente saindo e retornando às bibliotecas. Em vez disso, os livros dormitam nos seus vãos das estantes, por vezes amontoados, ostentando as marcas visíveis do desuso, inclusive grossas camadas de poeira; em completo desserviço. Pior que essa constatação (quando visitei algumas), foi ouvir diretores se gabarem das suas bibliotecas estarem entupidas de livros; todo o acervo aquartelado, circunstância que reforça as estatísticas: o Brasil continental ainda lê pouco se comparado a pequenos países da Europa. Bibliotecas públicas não deveriam expressar a caixa mortuária dos livros, mas apenas os seus locais de baldeação: marcados por um movimento de vai e vem, aos moldes das bicicletas ou das abelhas.
Se os livros dormitam, maquilados de pó nos seus ataúdes, é porque o povo não lê quanto devia. O povo pode até se encontrar de bucho saciado, mas a mente, insaciável, espera, merece e precisa de continuada leitura. A leitura — maneira barata, e até chique, de entretenimento — ensina a escrever, afugenta a ignorância, prepara, qualifica, fornece experiência, amansa a incivilidade e a grosseria, aperfeiçoa a dimensão interpessoal, possibilita conhecer o mundo, a arte, a tecnologia, amplia a capacidade de percepção, permite avaliar o melhor caminho que a vida oferece, facilita a compreensão dos direitos de si e dos outros. A incorrigível insensatez humana, via de regra resistente a qualquer catequização, por vezes se amolga ante os efeitos benéficos do desapaixonado e fiel companheiro livro, responsável, mais das vezes, por maravilhar as pessoas. Ele (“mudo que fala, surdo que responde, cego que guia, morto que vive”) tem o condão de ameigar os corações humanos. Divorciadas da leitura, as pessoas tornam-se vulneráveis aos caminhos insidiosos; às desditas.
É pesaroso constatar que os livros, mesmo os de boa semente, vão sendo rejeitados a cada dia, vencidos por inutilidades que bem se prestam a fomentar a alienação das pessoas tecnológicas. Tem-se a impressão de que a glória dos livros parece esvair-se em ânsias de morte. Houve época em que os livros eram companheiros de vigília; não se separavam dos seus amos nem mesmo no interior de coletivos ou em logradouros. Depois passaram a dormitar nos vãos das estantes e, agora, já são encontrados pelos catadores de lixo que os olham com o pensamento voltado para a balança. Esse desuso faz supor que num futuro não muito distante correrá o risco de ser detido, e encaminhado a um manicômio, aquele que, em via pública ou no interior de um coletivo, for flagrado lendo um livro.
Porém, o desábito à leitura não é culpa dos diretores das bibliotecas, mas do modelo; do poder público que não estabelece políticas de motivação à leitura. Mas isso não é insolúvel. Se houver interesse, se as escamas dos olhos forem retiradas, basta colocar o tema em discussão para as ideias acudirem. Exemplificativamente: que tal se ao alunado brasileiro, em todos os níveis, fosse concedido pontos, como parte da avaliação continuada, pela leitura de livros? Evidentemente a leitura seria aferida por meio de uma banca sabatineira. Que tal, ainda, se os pais vinculassem as mesadas dos filhos à leitura de livros? Que tal, também, se os pais infundissem nos filhos o hábito da leitura, principalmente naqueles que se permitem encabrestar pela internet e programas de televisão, por vezes repletos de vacuidade? Essas leituras, é claro, seriam também sabatinadas. Que tal, igualmente, se um livro retirado de uma biblioteca no estado de São Paulo pudesse ser devolvido por intermédio de uma biblioteca da cidade de Campo Maior-PI, Sobral-CE, Goiânia-GO e vice-versa?
A ideia é fazer o livro se deslocar em múltiplas direções, disseminando o saber em todos os ramos do conhecimento, procedimento similar ao das abelhas que, ao alçarem voo em busca do néctar, prestam valioso serviço à natureza e ao homem. Durante o seu trajeto, as abelhas vão espalhando, naturalmente, por sobre os ovários das flores, os grãos de pólen que carregam nas suas corbículas, realizando, desse modo, a polinização responsável pela fecundação de frutos e, consequentemente, das árvores.
A leitura — que floresceu após a escravidão rombuda — não pode morrer, ao contrário, precisa revigorar-se. Este momento, científico tecnológico e democrático, estaria conspirando contra a leitura?
Também, é preciso desmistificar; leitura não pode ser entendida como artigo de primeira classe, mas artigo de brasileiros: ricos ou pobres. Por que seria espantoso flagrar-se um boia-fria, ou uma lavadeira, fazendo palavras cruzadas ou lendo um Machado de Assis? O Brasil precisa socializar a leitura; não pode continuar lendo nanico, mas do tamanho do seu tamanho.
Com um esforço bem direcionado do poder público, da estrutura educacional e da sociedade, é possível socializar a leitura e imprimir aos livros um papel parecente ao das bicicletas de aluguel ou das abelhas.
Quando alguém busca um livro para ser seu companheiro de quem é a glória? Do livro que ressuscita do seu claustro ou de quem o fê-lo ressuscitar?

jacobfortesdecarvalho@gmail.com

Frente a frente

Ponta 130611 006 debret camelo meia barracaTexto e foto de Valéria del Cueto

Olho para ele, ele olha para mim…
Há, sim, uma empatia entre nós. Aquilo que nos une é o que nos mantém ali. Olho no olho, imóveis. Esperando para ver quem vai reagir primeiro e para onde essa reação levará a energia que será despendida no movimento.
Também pode não acontecer nada. O momento passar, a fila andar e o que poderia acontecer ficar ali, largado, perdido no meio do caminho por inércia.
O fio do tempo estica até soar. Tenso como uma corda de guitarra. Poderia ser de violino, baixo, violão, viola de cocho. Sinto saudades de um dedilhado nervoso nas cordas tensas de uma viola.
A afinação depende do tom escolhido pelo instrumentista. Antigamente o diapasão servia apenas para conduzir o ouvido. Hoje, umas luzinhas digitais indicam se o instrumento está perfeitamente afinado.
Tecnologia…
Foi ela que deu um susto, merecido por sinal, em quem achava que dominava a mente e a vida do país. Assim, como um todo.
Não prestaram atenção aos códigos que brotavam nas telas dos celulares que todo mundo tem, ignoraram os novos meios de fazer o de sempre: dialogar, reunir, expandir.
O vareio foi generalizado. E todo mundo tenta se preparar para dar respostas e corrigir as falhas de interpretação.
Aí é que a atenção tem que ser redobrada. E, se necessário, o grito ainda mais forte. Por que os caras podem ser ruins de gingado, mas que vão tentar das uma reboladinha e reinterpretar de forma tendenciosa o que está sendo jogado na cara do governo a cada manifestação, isso vão.
Plebiscito, referendo, reforma política? Conversas vãs para tentar botar pra dormir a “boiada” perambulante pelos gramados da Praça dos Três Poderes.
Renan dizendo que se o povo decidir prescinde das normas constitucionais é piada. De mau gosto, é claro. Como o presidente do Senado pode considerar a hipótese do seu poder abrir mão de seu próprio papel constitucional?
Fumaça branca, antes da chegada do Papa. Que, se ainda está longe da maioria da população, já faz parte da paisagem do Leme, alterada por imensos painéis de metal que cercam uma enorme faixa da areia, mais um menos na altura do Zona Sul, o supermercado. Isso que ainda falta quase um mês para o evento.
Com ou sem campeonato na Copa das Confederações…
Ele me olha e eu olho pra ele. Nada mudou. Nada parece mudar. Mas é só a aparência.
O entorno se modifica animadamente. Quase de forma orgânica, envolvendo, entremeando, costurando.
Pode ser que saia até uma colcha de retalhos, disforme, quiçá. Mas que servirá para envolver, aquecer e embalar os desejos de muitos, a vontade de todos, traduzidos pelo mar de gente que invadiu as avenidas brasileiras.
Nos olhamos. Ouço o som das suas mãos batucando levemente. É um tantan? E, veja, nem é carnaval…

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vento que venta lá venta cá

Ponta-130611-023-barcos-e-ilhaTexto e foto de Valéria del Cueto

No início da semana passada me perguntaram o que eu queria fazer no dia do meu aniversário. Não seria um grande dia analisei diante das imensas saudades que, sabia, iria sentir. Da diferença de acordar e não poder me atirar nos abraços de quem me amou incondicionalmente. E que, durante toda a minha vida, jogou em várias posições sabendo ser polivalente, ocupando todos os espaços do campo o tempo todo da partida. Como Claudio Coutinho, técnico da seleção de 82, pregou. Avó, madrinha e amiga. Minha. Sem ela seria o que, como e por quê? Como aplacar a sensação de um tiro de 12 no peito?
Assim pensava eu, pensas tu, pensariam eles. Se o mundo não fosse surpreendente. E tudo – eu disse tudo – não pudesse mudar com uma batida de asa de borboleta de vinte centavos.
Não entendo a surpresa com os últimos acontecimentos. Era uma questão de química aplicada. Os componentes estavam ali. Expostos, públicos, nus. Crus. Parecia que o lombo do povo era insensível as lambadas que faz tempo estão esvaziando seu bolso, castigando o corpo, dilacerando sua dignidade.
Um homem pode ser bobo, alguns podem ser enrolados, mas um país inteiro, até quando? Ou será quanto?
Não é possível que não houvesse uma leitura que apontasse a hipótese que as mesmas ferramentas usadas para tentar manobrar a opinião pública, poderiam ser usadas em sentido contrário.
É muita soberba! E ela levou os governantes a esse estado de perplexidade patética diante da força da voz das ruas.
Claro que agora todo mundo quer puxar a brasa para sua sardinha e um monte de pretendentes começa a aparecer querendo pedir a mão da noiva. Afinal, o dote é grande e por mais que a moça seja xucra, rebelde, o desafio de conquista-la é irresistível. Difícil vai ser convencê-la…
Vou dar um palpite sobre esse presente de aniversário tão inesperado que acabei ganhando. Afinal, como comemorar em petit comité se logo ali um país inteiro se mobilizava? Considerei que não poderia ganhar presente melhor. Eu e as centenas de milhares de pessoas que expunham seus anseios e sim, sua revolta.
Primeiro: não é por 20 centavos! Segundo: essa massa multifacetada vai se encontrar. E, por meio de núcleos independentes, ligados por interesses comuns se (re)organizar assumindo o papel de antigas entidades, totalmente esvaziadas por que subservientes e escravas do status quo adquiridos quando deixaram se representar seus interesses afins e passaram a atender aos companheiros.
Se não essas entidades e outras instituições, surgirão grupos que preencham as lacunas deixadas. Tudo isso usando os recursos que, agora os senhores do poder sabem, podem ser letais das redes sociais. Não duvidem. Será apenas o começo.
Para as gerações que estiveram nas Diretas Já e no sacode do Fora collor há uma árdua missão. Mostrar que talvez essa história pudesse ser outra. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, disse Thomas Jefferson. Essa premissa básica esteve adormecida por tempo demais. E, já que começamos de novo, tomara que seja evitando os erros do passado.
Vida longa e constância aos ventos que sopram e acordam o gigante Brasil em cada um de nós.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vai que é tua, tira a bola da rua.

Ponta 130611 014 pranchas e surfistas

Texto e foto de Valéria del Cueto

É tudo correlato. Será? Faz sol. Venta, mas não demais. É calor na praia e friozinho na Gustavo Sampaio, rua de dentro do Leme, aqui na Ponta, Rio de Janeiro. O mar anda alto, o que garante momentos de atenção para a linha dos atletas que aguardam a hora de se posicionar nas ondas e assegurarem o espaço adequado para desenvolverem suas manobras radicais.

É um balé para pouquíssimos espectadores privilegiados como eu. Divido meu tempo entre ler Catarina, a Grande, biografia da czarina da Rússia, escrever e apreciar os surfistas e afins deslizando nas ondas. Como tirar os olhos do mar?

O tempo está lindo. O céu azul e o oceano cor de esmeralda. Confesso que nem vi se a água estava fria. Pelas roupas de neoprene da rapaziada dá para  deduzir a resposta. Não é época do tempo estar, assim, radiante. Não na lua nova de junho. Estranho, muito estranho. Parece que o mundo rodou mais devagar no eixo, por que o clima está mais para veranico de maio do que o tempo cinzento, chuvoso e frio que costuma emoldurar esse período.

Se fosse só aí… o mundo está virado. Por mais que a gente corra daqui para lá, desvie e tente se refugiar de tanta informação é impossível não ser sugado pelo “roto-rooter” da vida brasileira. Como um todo ou em particular.

Senão vejamos: remédios quase vencidos, pilar encolhido… Vai Lá Trazer uma boa notícia, pelo amor de Deus! Licitações e pregões pros amigos? Votê, cobra, mangalô “treizveiz”. “A cultura é o patinho feio do estado”, é mole?

É por essas e por outras que procuro e, um dia, hei de encontrar uma forma de fazer cultura sem precisar de sequer passar na porta da tutela do estado. Quero respeito por quem peleia e procura novos caminhos para sair do rumo de quem chega a uma conclusão dessas assim, depois que assumir o cargo máximo do setor no estado. O tempo passa, a vida anda e o bonde já passou por essa estação.

Do outro lado é pau, é pedra é o começo do caminho, para desespero de alguns e pressa de outros. Em nome de evitar a “baderna” o negócio é endurecer. De novo? Acho que já disse nessa crônica que já vi o filme dessa reprise classe B.

Nunca tão poucos centavos representaram tanto para  multidões espalhadas por várias capitais do país. Multidão que só aumenta a cada apresentação especial  dos poderes militares constituídos. É daí para pior. E já deu pra ver que não vai ser sopa pra ninguém, incluindo aí vários coleguinhas da Folha de São Paulo,  agredidos na última quinta-feira.

Segunda, em plena Copa das Confederações, com o mundo já tendo acompanhando pelas TVs, jornais e as redes sociais os primeiros capítulos da novela PASSE LIVRE, parece que haverá outra rodada de manifestações pelo país. Boa hora para a panela de pressão continuar a chiar.

Ai meus santos canarinhos com cabelos de cacatua. Façam o milagre do esquecimento das mazelas inflacionárias, da alta do dólar, da queda do mercado, da falta de saúde, educação, segurança, infra-estrutura e outros probleminhas mais.

Chutem para o gol dos adversários nossos recalques e essa sensação estranha de que no final,  ganhando ou perdendo, estamos entrando pelo cano…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Espelho, espelho seu…

Lad PLeme130516 047 onda ponta do leme por do solTexto e foto de Valéria del Cueto

Quando a “coisa” começa assim meio marola já sei que vou ter que rebolar fazer crescer a onda que costuma rebentar toda semana nesse espaço privilegiado. Não é falta de assunto, gente. São tantas opções…

Parece que o mundo está caindo na cabeça de escrivinhadores como eu essas semanas. Primeiro, com a informação de que redações importantes do país e do exterior estão demitindo seus jornalistas e fechando veículos. Segundo ,com as notícias mundiais dão conta que estão mandando seus fotógrafos para casa e passando o trabalho de registro de imagens para os… jornalistas.

Não é um caso isolado. O que me faz pensar que há sim, uma mudança “climática” abalando o mundo dos veículos de comunicação espalhados mundo a fora.

É ruim? Não sei não… Faz tempo que procuro novos formatos de distribuição de conteúdo. Trabalho possibilidades com bases mais gerais e brinco de pique como com nichos direcionados. Atiro em várias direções em busca de novos mares e picos onde possamos deslizar e interagir com novas tecnologias.

Afinal, se o formato jornalístico que dominou o mercado está se esgotando, alguém precisa fazer expedições precursoras, tentar descobrir para onde irá essa onda. A onda das informações. Um tsunami querendo se espraiar.

Uma coisa é certa: pode haver falta de empregos para jornalistas nos veículos… jornalísticos mas a necessidade de conteúdo de qualidade além de não haver diminuído, só tende a aumentar.

O mundo via internet e outros meios, está ávido de saber. E quem detiver a informação e conseguir filtrá-la e traduzi-la para seu público alvo estará nadando de braçada nessa nova era.

Assim como eu, os jornalistas sentirão saudades do antigo formato. É horrível ver seus postos ocupados por copiadores de releases assessóricos, sem ao menos uma checagem básica nas informações contidas nos mesmos. Só pra citar um problema crônico e intransferível. Tenho visto coisas de doer. E que ninguém contesta. Quem se limita a reproduzir as barbaridades recebidas, sem checar a veracidade do conteúdo, corre o risco de vender a ignorância alheia sem titubear.

Vou citar um fato como exemplo: a incrível e relevante notícia de que “pela primeira vez” na história da capital do maior estado do centro-oeste a bandeira de São Benedito (aquele) havia entrado na sede do paço municipal em questão. Do jeito que a informação veio da assessoria do novo prefeito foi três palitos: imediatamente reproduzida por órgão de imprensa, sem dó nem piedade com os festeiros de anos anteriores que, sim, sempre levaram a bandeira e a coroa para abençoarem antigos prefeitos e a sede do órgão municipal.

E olha que não precisava ir muito longe para alcançar as pernas curtas da mentira pregada assim, na maior cara de pau! Uma simples e singela busca no google indicaria que por ali já passaram várias bandeiras do santo, sempre empunhadas pelos festeiros do ano que, como eu, rezam – e muito – para que os caminhos municipais se abram, não apenas para os amigos do rei mas para toda a população da cidade a quem, em primeira e última análise, o alcaide jurou servir.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador cuyabano”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

O barquinho vai…?!

imageTexto e foto de Valéria del Cueto

Já vi esse filme. Estava no Rio de Janeiro nos anos que antecederam o PAN de 2007. E como a maioria dos cariocas ainda procuro o tal “legado”. Hoje, anos depois, posso dizer que ele é para poucos.
Uns, como é o caso do Flor Ribeirinha, grupo de cururu e siriri de Cuiabá, aproveitam a onda para, no impulso, se firmar no lugar que sempre mereceram e fortalecer a imagem de ícone cultural.
Símbolo inconteste da tradicional cultura cuiabana, Dona Domingas trabalha há anos na comunidade de São Gonçalo Beira Rio para preservar e disseminar a cultural nativa local. Se alcança o sucesso que vem alcançando e que projeta o grupo e seu trabalho é por mérito, persistência e muito suor.
Outros são como o caso de um dos responsáveis pelo fim do nosso ex-maior estádio do mundo aquele que virou lenda e foi posto a venda: o espetacular e lendário Maracanã!
Pois não é que lá está ele? O mesmo que na próxima semana poderá(?) obter do IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico Nacional a autorização para modificar um bem tombado e orgulho dos cariocas, o Aterro do Flamengo, projeto original, do arquiteto Afonso Eduardo Reidy, para ali desenvolver um “empreendimento”. Usando para isso a Marina da Glória, parte integrante do maravilhoso parque utilizado gratuitamente por toda a população carioca.
A gente olha e reclama muito, até de forma organizada, mas dura a realidade é que estaríamos sendo patrolados pela máquina de gerar dinheiro para uns, usando os bens públicos de muitos, apoiados pro aqueles que, em última análise, deveriam representar e proteger nosso patrimônio!
Fomos salvos graças ao juiz Vigdor Teifel, da 11ª Vara da Justiça Federal do Rio. Imaginem que em 1999 foi impetrada uma ação popular contra a Empresa de Terraplanagem e Engenharia (EBTE), que administrou o local entre 1996 a 2009. A decisão proferida para ação cancela seu contrato com a Prefeitura do Rio.
A EBX, de Eike Batista, comprou a EBTE e a REX, empresa de desenvolvimento imobiliário do grupo, pretendia “reformular” a Marina, construindo, entre outras coisas, um prédio de 15 metros de altura, um centro de convenções e 50 lojas.
“A exploração comercial da Marina da Glória está diretamente relacionada com sua aptidão natural (eminentemente náutica) e com a observância dos interesses coletivos dos usuários do local, não se concebendo que o desenvolvimento de atividades comerciais em uma marina se identifique com a exploração de empreendimentos e complexos comerciais”, escreveu o juiz Vigdor Teifel.

A sentença foi em 1ªinstância e cabe recurso, mas deveria (a esperança e a fé nunca morrem) ser levada em consideração na reunião do IPHAN que, afinal, está aí para preservar nosso patrimônio.

O projeto em pauta, de 2010, é do arquiteto Índio da Costa, o dos quiosques da orla. Aprovado pelo Conselho Consultivo e, depois, rejeitado pela Superintendência do IPHAN no Rio de Janeiro. Uma versão revisada passou pela Câmara de Análises de Recursos. Agora, o projeto executivo de revitalização da Marina deverá ser submetido à aprovação do Iphan e do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

A sentença do juiz muda um pouco o rumo da prosa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Ó de casa?!

cop valTexto e foto de Valéria del Cueto

Vamos cair na real: não será hoje. Mas quase ontem. A Copa está aí. Alguma novidade? Talvez para quem nunca comeu melado. Por que, ao contrário do ditado, é justamente quem já comeu que está se lambuzando. E o faz de caso pensando, por que sabe que é agora… ou já! As comportas estão abertas e jorra dinheiro para tentar fazer em alguns meses o que não foi executado em anos.

Lembro-me sim, do dia em que saiu o resultado das cidades escolhidas para serem sedes da Copa de 2014. Meninos eu, vi, estava voltando (de novo) para Mato Grosso e uma das tarefas do retorno era registrar em vídeo a agitação da Praça do Chopão, onde Cuiabá em peso se reuniu para assistir a declaração da FIFA.

Acompanhei colada com os “artistas” que ali estavam para, mais que comemorarem, mostrarem à gente brasileira, por um link ao vivo da rede Globo, o que Cuiabá tinha para oferecer ao mundo: cururu, siriri, o boi e, como todo o Brasil, o samba.

Lembro que havia uma tenda vip, para as autoridades. Só que a reação desse povo a “conquista” não me interessava, já sabia qual seria. Preferi me encostar nos cururueiros que afinavam, nervosos, as violas de cocho e arranhavam insistentemente seus ganzás. Ali, sentia a tensão do povo de Cuiabá para a realização de um sonho, apenas de um sonho: o de que a Copa do Mundo chegasse àqueles que teriam  imensas dificuldades na vida para irem até ela.

Para o trabalho, havia várias câmeras espalhadas: Na tenda, na área das apresentações ao lado da praça. A subida da Getúlio havia sido impedida e um trio elétrico ocupava a rua. Imagina a briga que era pra saber que iria subir no caminhãozão. Muita gente conseguiu sair na foto, mas claro, o espaço não foi suficiente para tanto ego. Do lado de fora do Chopão, o povo. Lá dentro, meia sociedade cuiabana, que aquela não era festa pra perder. Só comemorar. Faz quatro anos no dia 31 de maio!

Não quero ser derrotista, por que acredito na capacidade de organização e, apesar de não ser devota, nos milagres capazes de serem realizados pelo Santo RDC (Regime Diferenciado de Contratação, pra quem não ligou a sigla ao seu bolso), mas a coisa mais pronta que pude ver nesse período, é o trabalho do mesmo grupo Flor Ribeirinha que rodopiou cheio de alegria e emoção para nos representar para o mundo naquela praça.

Pois não é que a Domingas, mãe, pai, tia e madrinha do projeto de excelência, nascido no São Gonçalo Beira Rio, soube pilotar sua canoa com maestria e organização e, um ano antes do evento, mostrou para os cuiabanos como o cururu e o siriri os apresentará para o planeta? Ocupou com maestria todos os espaços que pode e fez sim, um lindo trabalho, levando sua trupe das águas do seu Cuiabá para mares e oceanos distantes. Claro que enfrentou corredeiras e calmarias, mas dá gosto ouvir falar do seu sucesso.

Pena que nem todo mundo esteja jogando aberto como a artista Domingas. Li que o Tribunal de Justiça suspendeu a licitação organizada pela SECOM/MT para escolher as agências de propaganda que atenderiam a SECOPA. O mandado de segurança foi impetrado com o argumento do o não cumprimento da Lei 12.232/2010 e do uso em uso em vão do nome, ao que parece do Santo RDC!

Indica que já estamos no período do pega pra capar e  do Deus nos acuda! Tem gente rodopiando  e dançando qualquer ritmo e batida para levar de lambuja uma beira da nossa festa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Crescei e multiplica-vos, os viajantes agradecem!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Se tudo no mundo evolui, imaginem como anda a forma de fazer turismo? E se o jeito de viajar se transforma, por que o mesmo não ocorreria com a maneira de escolher os destinos e fazer roteiros?
Esta semana a Associação Brasileira de Blogs de Viagem, ABBV, completou seu primeiro aniversário. Sua consolidação indica que há, sim, algo de muito interessante na forma dos viajantes interagirem no mundo virtual. Primeiro com seus desejos de informações sobre viagens e, depois, com os meios e possibilidades de torna-los (ou não) realidade. Quando uma viagem realmente começa e termina?
A exposição das impressões pessoais sobre viagens – aí incluídos roteiros, hospedagem, alimentação e atrações visitadas – foi a tendência que impulsionou e posicionou no mercado sistemas com o Trip Advisor, uma gigantesca base de dados alimentado – também – pelas opiniões e descrições de viajantes, sedentos de compartilharem experiências e preferências. As dicas ganham relevância e permitem um posicionamento instantâneo do serviço avaliado.
Na World Travel Market, em São Paulo, acompanhei palestras e seminários muito interessantes. Entre elas as Sam Thompson, Diretor Trip Advisor Americas, do querido cuiabano Marco Jorge, Territory Manager Trip Advisor LatAm, e as do “time” da Associação de Brasileira de Blogs de Viagem.
O que chamou a atenção foi a diferença de públicos nos eventos. No primeiro, muitos paletós, tailleurs e saltos altos. Agências, representantes de hotéis e estabelecimentos turísticos tentando decifrar o fenômeno que abre as portas dos negócios à avaliação pública imediata e interativa. Um pulo do gato para expor produtos diretamente aos interessados, com direito a elogios e cobranças. Como lidar com novas ferramentas e tirar proveito delas, eis a questão…
No caso da ABBV, a plateia era diferente. Informal e alternativa. Ali, as particularidades faziam a diferença. O auditório estava lotado para a apresentação da pesquisa da entidade que procura situar o fenômeno dos blogs na via láctea da indústria do turismo brasileiro. Alguns detalhes interessantes: as mulheres de 25 a 34 anos, com curso superior e renda de mais de 10 salários mínimos, maioria entre os usuários dos blogs, são viajantes experientes e independentes.
Perguntei a Silvia Oliveira, presidente da ABBV, se sistemas como o Trip Advisor não seriam concorrentes. Ela explicou que, ao contrário, os sistemas são complementares. O Trip é geral e os blogs trabalham com segmentos, particularidades que os tornam específicos para internautas que sabem o que procuram: informações e impressões pessoais.
Estas novas janelas ainda são vistas com cuidado pelos integrantes do sistema tradicional desta indústria que movimenta mais de um trilhão de dólares por ano, segundo a Organização Mundial do Turismo. Mas certamente sua evolução e, principalmente, o perfil dos viajantes que utilizam  seus recursos para decidirem que tipo de experiência turística terão, só tende a crescer e se multiplicar.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

 

No trecho a pergunta: e o eixo?

RioNotAer_130422_006_Santos_Dumont_pista_aviao_Pão_de_aç-ucarTexto e foto de Valéria del Cueto

Sempre fui assim, adepta do “me chama que eu vou”. Para longe ou para perto, ao botar o pé pra fora do Leme e deixar a minha Ponta, já me considero em trânsito.
Isso, desde os tempos que meiava um barco, lá para as bandas de Angra dos Reis. Na época, meu parceiro (por pouco tempo) vivia reclamando, por que com barco a gente nunca sabe se ele vai andar ou não. Só pra começar (no caso dele) a aventura. Isso o fazia sofrer horrores no meio longo caminho até a marina onde o Corisco ficava ancorado. Ele deixava de aproveitar a maravilhosa paisagem que íamos percorrendo, numa viagem de, pelo menos 3 horas, antes de alcançarmos o ancoradouro onde, como sempre, o motor poderia virar ou não.
De cara saquei a armadilha que fazia com que as belezas da saída do Jardim Botânico, a Lagoa Rodrigo de Freitas, Gávea, São Conrado, Barra, Recreio, a Grota Funda, Sepetiba, Santa Cruz, Itaguaí e toda a espetacular Rio-Santos, até chegarmos a Angra, fossem apenas passando pelas janelas do carro, sem nenhum olhar mais apurado pelas belezas e mazelas que íamos deixando pelo caminho, até chegarmos à nossa maior incógnita.
No caso, o truque era considerar que a aventura começava quando fechava o portão da garagem da casa. Sei lá se o barco pegaria, o tempo estaria bom, a temperatura da água agradável, o mar virado… Eram tantas as (maravilhosas?) possibilidades!
Foi então que passei a jogar o Jogo do Contente desde o momento em que saía de casa. A brincadeira de Poliana, a menina órfão da história, é muito instigante. Principalmente para quem precisa lidar com um caso de insatisfação quase permanente que acaba podendo contaminar um final de semana inteiro, quiçá o restante da semana e até uma relação.
Para evitar esse “desvio” da imaginação que virou um verdadeiro vício que parei de viajar, pelo menos no sentido físico. Foi em setembro e, de lá para cá, acho que passei um dos meus maiores períodos contínuos que recordo estacionada na Ponta do Leme.
Houve um motivo, reconheço. Verguei para não quebrar. Precisei abstrair do corpo físico para que a alma pudesse se alinhar novamente. O processo não terminou. Mas uma parte, a que me paralisava, parece que começou a passar.
Voltar foi um dos motivos que me impedia de ir. Por que quando vinha, sempre tive com quem dividir o que vi e vivi. Sabia que as viagens não terminavam quando o avião pousava no aeroporto Santos Dumont. Ainda haveria uma oportunidade especial e única para reinterpretar tudo o que eu conseguisse capturar nas estradas e lugares por onda andava.
Agora com o retorno, vi o tamanho vazio que escondi de mim mesma desde a penúltima viagem. E, definitivamente, que não sei lidar com ele.
Nunca fui de contar publicamente o que vi no mundão que já andei, mas acho que, se quiser continuar fazendo o que sempre amei, vou precisar mudar essa maneira de agir.
Se meu mundo não pode mais me escutar, não vou mais do que vergar – novamente. E só até começar a contar para vocês, que faz tanto tempo me acompanham, o que tenho visto por aí, não mais apenas os fragmentos inconsequentes dos meus sonhos…
Começa aqui, a série “No trecho”, do Sem Fim…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No trecho”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Sem noção, com muita emoção, só na propul$ão!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

É pau, é pedra e qualquer hora dessas o editor me pega. Esse tal de deadline é um inferno na vida de qualquer pretendente a entregar uma obra com prazo marcado.
É dura essa vida de ter compromisso. Imaginar é ótimo, planejar é legal. Mas executar nem sempre depende só da nossa atuação. Ou não?
Das duas uma: ou você chuta o balde e reza pra água cair direto no jardim que precisa ser regado ou sua consciência nunca estará tranquila até conseguir fechar a tampa e enterrar o defunto.
Que horror! É muita maldade comparar um filho parido a cada semana, no meu caso, a um morto. Mas é o velho ditado cuiabano que diz: “Quem beijou, beijou, quem não beijou beijasse, por que vai fechar o caixão” a primeira imagem que me vem à mente quando penso em entregar alguma coisa em cima do laço.
Isso, meus queridos leitores, que sou uma pessoa ciente e ciosa dos meus deveres para com meu reduzido público e procuro adiantar minha vida para não passar um perrengue a cada semana, justo às sextas-feiras, dia sagrado que antecipa o que virá de melhor no final de semana.
Mas o que fazer quando, por exemplo, como acontece hoje, estou no aeroporto, em São Paulo, tentando embarcar para o Rio e, consequentemente desembarcar na minha Ponta do Leme sagrada?
Diz que foi o nevoeiro, mas vejo as outras companhias mandando e trazendo passageiros de um lado para o outro, enquanto a minha se limita a mudar os numerinhos horários, em ordem crescente, no painel de partidas.

Assim, foi que planejei escrever esse texto confortavelmente. Sentada na poltrona do avião voando na ponte aérea. Mas não previ a possibilidade de atraso após atraso ver o tempo se escoando e o voo atrasando diante dos meus olhos preocupados.
Então, resolvi adiantar o trabalho. Acabei descobrindo que não daria tempo de terminar e enviá-lo antes da chamada do voo. Foi assim que me vi torcendo para… o voo atrasar ainda mais!
Como é só um voo, tudo bem.
Mas vocês já imaginaram como estão os que deveriam entregar coisas mais sérias e inadiáveis que uma crônica???? Sem desmerecer o meu humilde trabalho, é claro!
Pelo bem dos compromissos assumidos, deve ter muita gente perdendo o sono por aí. Afinal, algumas coisas não dão pra deixar para depois, ou simplesmente largar de mão. Estádios, aeroportos, instalações, obras de mobilidade urbana, segurança e saúde para turistas. Vixe! Só fazendo mais e não tão melhor para ser rápido.
É claro que uma ajuda monetária, financeira e/ou econômica ajuda. Só que isso não é a solução para todos os problemas. O nível do stress vai lá em cima e, pelo bem ou pelo mal, é melhor ser excelentemente remunerado pela aporrinhação, mesmo que o dinheiro não resolva diretamente o problema…
Aí, vem aquela velha pergunta: e o que temos nós com isso? Tudo! Alguém tem que pagar a puuuuuta conta… Falimos nós e ganham eles, mesmo sem entregar o prometido. E viva o mais nvo santo da praça, o RDC, Regime Diferenciado de Contratação!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano ”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Se não agora, será quando?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

De novo, no laço. Seja como for, tipo sem régua, esquece o compasso.
A culpa é do que me tirou do caminho que faço para trazer a você, leitor, a crônica nossa de todas as semanas. Já disse e repito: não é fácil, haja assunto e motivação.
Foi em busca de tudo isso e mais um pouco que abandonei a Ponta de Leme e rumei para São Paulo. Um grande evento de turismo, a Word Travel Market Latin América, atraiu minha atenção.
Um ano e pouco antes da Copa do Mundo achei que seria uma boa oportunidade para ver o que o Brasil e o mundo tinham para mostrar no setor.
Ali estavam reunidos representantes do segmento do mundo inteiro. Isso imaginava eu ao adentrar o Transamérica Expo Center onde 1.245 expositores vendiam seu peixe.
Eram tantas opções que, antes de começar uma exploração mais detalhada, preferi me refugiar na sala de imprensa para organizar o que faria durante os três dias do evento que também incluía o 39º Encontro da Braztoa – Associação Brasileira de Operadoras de Turismo. Havia atividades para qualquer modalidade: conferências, seminários, rodadas de negócios, etc, etc…
Decidi ser racional e objetiva diante de tantas opções. Eleger minhas prioridades.
A primeira, pouco profissional e mais emocional, era verificar como estava o material de divulgação da sede pantaneira da Copa do Mundo de 2014.
Explico o porquê da minha curiosidade: em outubro do ano passado havia ido ao encontro anual da ABAV, Associação Brasileira de Agentes de Viagem, no Riocentro, Rio de janeiro. E, diante de uma acanhada e mal localizada bancadinha lateral do stand conjugado com Brasília e Goiás, fiquei chocada e decepcionada com a folheteria que tinha a vã pretensão de apresentar à indústria turística as exuberantes atrações dos três ecossistemas que compõe Mato Grosso.
Lá, disseram-me que aquela participação pífia se devia ao fato de que uma nova campanha seria lançada visando atingir os promotores do setor para vender Mato Grosso para a Copa do Mundo.
Tolinha que sou, acreditei…
Ainda na entrada da WTM no setor que reunia os estados brasileiros um enorme stand plotado com as belezas do pantanal atraiu minha atenção.
A medida que me aproximava aparecia em letras garrafais o nome do estado. M+A=MA, T+O=TO, G+R+O=GRO, S+S+O=SSO. Mato Grosso! Exultei. Só que as letras não terminavam por aí. Havia mais. D+O=DO S+U+L=SUL. Mato Grosso do Sul…
Ao passar foi que resolvi subir para a sala de imprensa, guardando o gostinho de ver o que a gente bronzeada de Mato Grosso havia preparado para o megaevento para depois deixando a cereja do bolo por último, pra ficar com seu bouquet como uma recordação nas papilas gustativas.
Já no press room, nas estantes repletas de informações, brindes e panfletos, procurando nossa nova campanha, de longe vi uma belíssima pasta com uma foto maravilhosa na capa de algo que parecia uma aérea do Pantanal. Meu coração bateu mais forte! Seria esse nosso material?
Quando me aproximei, descobri que era um material de Botswana. Já ouviram falar?
Pois até este pequeno país africano estava lá. Impecável, irresistível, encantador, com seus alagados, animais exóticos e maravilhosos resorts.
Do meu estado querido tive o prazer de reencontrar o Seiji e a Nizilda, amigos queridos… e nada mais!
Por isso, sofismando, se o ditado que diz “onde há fumaça há fogo” é verdadeiro, onde haverá Copa do Mundo há divulgação intensa. O que não acontece nem com Cuiabá nem com Mato Grosso…
Espero, sinceramente, ter entendido mal o recado claríssimo dado por nossa inacreditável ausência na WTM.
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Tragédia grega

Preto_Leme130117_002_bueiro_e_homens_ladeira_tragédia_gre gaTexto e foto de Valéria del Cueto

Já que não dá para ser de lá, vai daqui que está de bom tamanho! É duro trocar o som murmurante e inconstante do mar ressaqueado da Ponta do Leme pela monotonia do motor quase ensurdecedor do enxuga lama do Eduardo Paes aqui no pé da Ladeira Ari Barroso, mas fazer o que?

É claro que isso influencia até no desenho das mal traçadas linhas imaginárias do meu quase extinto caderninho. A diferença entre os dois é que sei, sinto e vejo que as páginas presas no espiral que me acompanha há meses estão chegando ao final, se esgotando inexoravelmente, mais uma vez.

Quanto a malfadada e malfeita obra prefeitural, não sei não… Não há bolão capaz de adivinhar por quanto tempo os dois motores seguirão rugindo embaixo da janela; os cinco ou seis funcionários, com suas roupas de borracha amarelas, claramente sujas por fora (é óbvio) e por dentro (é nojento e insalubre) e suas grossas mangueiras permanecerão, no horário comercial, das 9 às 12 e das 13 às 17, enxugando a lama que não para de brotar das tubulações. Sempre cheias de lodo, terra negra de sujeira e outras cositas que afloram, dia após dia, no asfalto poeirento da Rua Ribeiro da Costa, parcialmente interrompida para a espetacular performance (des)construtiva.

Enquanto os peões a retiram, a Dimensional, empreiteira (ir)responsável pela execução da odisseia carioca do prefeito Eduardo Paes, recebe pelo serviço de tecer o tapete (negro), tal e qual O sudário de Laerte, pai de Ulisses, laboriosamente tramado e desfeito por nossa Penélope eduardiana, e a natureza faz aquilo que sempre fez e se espera dela: a cada chuva despeja ladeira e tubulação abaixo a lama nossa de cada dia!

A gente? Fica aqui com ar de palhaço, fazendo cara de paisagem, como se o barulho ensurdecedor não fizesse mal nenhum à saúde e pudesse ser ignorado durante as oito horas diárias de tortura chinesa a que somos involuntariamente submetidos pelo motor que ruge esbravejante nos nossos ouvidos.

Outro dia, ouvi uma pérola de um dos funcionários da Dimensional. Ele disse que a operação continuaria até que eles conseguissem esgotar a terra que escorregava lá de cima. Foi aí que cheguei à conclusão que a comparação com a Odisseia, no início apenas uma piada, era realmente séria!

Os caras levarão anos chupando a lama. Não sei se este era o objetivo inicial e consciente dos augustos engenheiros que planejaram e executaram os trabalhos de infraestrutura do bairro, mas lipoaspirar o morro inteiro levará milênios e, mesmo assim, acho difícil que consigam realizar a hercúlea tarefa a que se propõem.

Uma coisa, meio assim a lá Garrincha, sabe? Quando ele pergunta se o técnico combinou com os “Joões”  como eles deveriam jogar, para que a tática imaginada pudesse ser desenvolvida e aplicada.

É, por que até lipoaspirar a terra é possível, mas como impedir as nascentes existentes lá em cima de jorrarem e escorrerem encosta abaixo suas águas, trazendo junto areia e lama? Também tem o bom e velho oceano e suas marés maravilhosas que fluem, refluem e explodem em determinadas épocas do ano, avançando por dentro das galerias.

Ai meu santo pagador de obras! Provenha-nos para que possamos seguir bancando financeira e pacientemente o cavalo de Tróia que nos impuseram.

Isso, até que os deuses do Ministério Público, da Justiça e/ou do Tribunal de Contas tomem providências e contabilizem o prejuízo causado aos cofres do povo. Afinal, alguém precisa nos ajudar a tirar esse dromedário troiano da nossa chuva!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vai de que?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou preferindo desenhar. Ando com pouca disposição para escrever. As linhas andam muito tortas e irregulares.

Meu refúgio, a Ponta do Leme. A areia ainda úmida do sereno da madrugada, misturado com a bruma da maresia do amanhecer, acolhe o flanar preguiçoso da canga sacudida para ser estendida na praia.

Sinto cheiro de mofo misturado com o ar da manhã. Sinal de que faz tempo que os pavões misteriosos estampados no tecido não saem do armário lá de casa. O cheiro me incomoda, mas é por pouco tempo, sabemos. O necessário para o sol quarar meu quadrado, comigo dentro.

Há uns dois ou três dias venho pensando nessa crônica. O que não é muito comum. Gosto simplesmente de abrir a torneira da imaginação e deixar as ideias escorrerem pelo papel sem muita preparação para, depois, só enxugar os excessos, secar uns poucos respingos. Normalmente são pontos, vírgulas, exclamações e reticências. Foram as pausas da respiração, entre os pensamentos que se atiravam abusados pela corrente sem muita ordem, como quem não pede licença. Fazem cócegas quando são alegres e arranham se violentos, até que sejam polidos e enfileirados nas linhas imaginárias do meu caderninho sem pauta.

Quase sempre é assim, e como é bom! Acontece que, umas trezentas aberturas na torneira da fonte da imaginação depois, a gente se pergunta se o conteúdo despejado não está se tornando repetitivo. Pode ser chato para o leitor ler sempre sobre a mesma ponta/pedra/praia. O mar esmeralda, a bola colorida que rola para um lado e para o outro entre os pés ágeis dos garotos que capricham no altinho,aguardandoa chegada dos novos parceiros para completar o time e darem início a pelada clássica na linha d’água, e o surfista que, sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus, de frente para as ondas, seus objetos de desejo, arruma concentrado a tira do strep, preparando o velcro para prende-la no tornozelo, segundos antes de se entregar de corpo e alma ao mar que murmura sua musica, qual Flautista de Hamerlim.

Como o atleta, que já corre em direção a água, sou uma ratinha, atraída pelo feitiço musical, efeito mágico para meu coração cheio de dúvidas.Por que faz dias que ando preocupada com o tema dessa crônica… Falar de que? Tentei estabelecer parâmetros, e, por eles, eliminar algumas hipóteses.

Sem saber o que abordar, decidi definir o que evitar.Isso depois que surgiu a questão da repetição. Prontamente esse conceito foi substituído por outros. Substituído não, complementado. O bom humor e a leveza seriam essenciais. O texto não falaria de…, nem de…, muito menos abordaria…, …,…( não posso escrever as coisas a que me refiro sob pena de deixar de lado meu objetivo excludente). A lista de possibilidades plausíveis foi diminuindo, diminuindo…com o passar dos dias e o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos.

Até que resolvi reconsiderar as opções. Para encurtar, aboli o impedimento quanto a repetições, pelo menos no quesito Ponta do Leme. Foi ele o mais concreto, superlativo e fundamental (não posso usar essa palavra sem lembrar-me de Dante de Oliveira) mote para uma crônica quase outonal. Para terminar em grande estilo só falta descrever o desenho feito pelos rastros das pranchas que serpenteiam abusadas nas ondas lindas, tentadoras, mas perigosas – por que hoje paredes inexpugnáveis, já que quebrando sem piedade. Mesmo convidativas, são um sinal explícito de que a maré não está para peixe, pelo menos para certas espécies.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,do SEM FIM… delcueto.wordpress.com 

Estica, puxa, encolhe e manda

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Andei, andei, andei e, apesar de não estar cansada, sentei. É isso mesmo: obrigada. Afinal, nesse caso, para alcançar meu objetivo, só me resta esperar. E você com isso?
Pode não parecer, mas você tem tudo a ver com minha espera, esse hiato entre atividades 100% produtivas. Explico: como tenho que esperar, sem nada para fazer, faço-o sentada escrevendo e para quem espremo palavras e enxugo vírgulas, pontos e interrogações, correndo para alcançar ideias e laçar conceitos? Para você que acompanha as crônicas do Sem Fim… Que mais sem fim, do que esta espera obrigatória?
O motivo da necessidade do uso irrestrito de uma dose cavalar da minha paciência de Jó é anual: a busca dos resultados dos exames do check up.
Já cheguei a conclusão que isso é mais um teste da bateria de ultras, raios e tomos solicitadas pelos médicos. Mais um menos como a coroa de louros, usadas pelos Césares em seus desfiles triunfais pelas ruas de Roma. “Você é humano, a glória passa e a humildade e paciência devem ser exercitadas de vez em quando”. Só isso justifica a demora na liberação o que já está pronto. Pensando bem, ainda é pouco. Tanto que a senhora do lado reclama da troca de resultas e aconselha uma checagem cuidadosa para ver se está tudo em ordem. Que assim seja: vamos verificar. Eis-me aqui, Lei de Murphy, velha parceira!
Até que não foi mau. A espera não passou de uma página e meia de caderninho. Na mesma medida do chá de banco na Polícia Federal. O caso lá era tirar um passaporte novo.
Parece piada, mas, em vez de aumentar a validade do documento, seu prazo encolheu para 5 anos. Efeito da era Lulla.
Poxa, gente, assim nem dá tempo de desmanchar o pacotinhho de documentos da maratona passada. Março de 2008 não foi ha tanto tempo assim!
Estava tudo juntinho: certidões de casamento uruguaianense, sentença de divórcio cuiabana e averbação no local de origem do evento. Provavelmente intocado desde minha última visita a Polícia Federal sem ser a serviço (digo isso por que como repórter comparecia com frequência nas dependências da referida repartição).
Pois foi lá que o meu périplo burocrático anual atingiu seu ápice. Imaginem que o funcionário disse que minha certidão de casamento, aquele que começou em Uruguaiana, em 1981, se não me engano, e foi desfeito oficialmente em Cuiabá, em 1991, idem, idem, tinha que ser… ATUALIZADA.
Como assim, revalidar algo que já terminou há mais de 20 anos? Sinceramente, achei surreal demais. Segundo ele, minha certidão de ex casamento tem que ser refeita a cada 5 anos!
Ou seja: a cada passaporte novo terei que dar um pulinho a Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina para requentar a ex papelada! Por que não me avisaram isso quando escolhi o marido, lá atrás? Teria prestado mais atenção no lugar em que oficializaria meu matrimônio. Bali, talvez?
É por essas e por outras que estou pensado em me exilar. Minha dúvida está em relação ao país escolhido para me abrigar. O Paraguay sempre foi minha primeira opção, por afinidade e amor a terra. Mas, agora, estou numa dúvida cruel. Tenho gostado muito do Uruguai, com seu presidente liberal, super sincero e com opiniões pertinentes sobre nossa vizinha argentina: “esta velha é pior que o caolho, disse Mujica “O caolho era mais político, essa é teimosa”, acrescentou o presidente uruguaio.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Upa neguinho na estrada!

Chapada-110903-005-Estrada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Está aberta a temporada do checkup, o que faz do querido e indispensável caderninho, onde escrevinho minhas crônicas, o campeão imbatível de audiência literária e cotidiana.
Ele é a melhor companhia enquanto aguardo a vez de ser atendida e evita que eu tente descobrir por que agora a clínica que frequento criou mais um balcão para que os pacientes atinjam o nirvana dos sofisticados aparelhos ultrassonográficos e afins.
Chama-se “pré-atendimento” informa a placa e faz com que percamos mais tempo numa nova, emocionante e inútil fila. Segura, peoa!
Estou quieta. Mas não me deixam em paz. Acabo de ser informada que a Golden Cross não autorizou a realização dos exames solicitados pelo médico.
O motivo? É automático: faz menos de um ano que fiz a última volta olímpica nas clínicas e laboratórios. Eles querem saber por que adiantei em 2 meses meu último checkup.
Pensei em várias respostas, umas mais educadas, outras com alguma picardia… Mas, nenhuma tão boa quanto a da atendente da clínica que resumiu assim minha última pendenga:
– Alguém faz exames médicos por esporte? – pergunta.
O melhor foi a envesgadinha do olhar que acompanhou a observação da moça.
Falou e disse menina! Resumiu perfeitamente a ópera bufa dos clientes de planos de saúde no nosso Brasil varonil…
Ou seja: é ele, o plano, que decide quando você pode precisar usá-lo!
É claro que isso, mediante a módica quantia de quase um salário mínimo de mensalidade.
Alguém pode chamar a polícia pra fazer o seu papel? Botar em cana essas quadrilhas homologadas pelo governo federal?
Enquanto me informo sobre o procedimento, finalmente autorizado, a senhora do guichê ao lado me parabeniza, com os olhos cheios de inveja (boa):
– Parabéns, milha filha, sorte sua. Pelo mesmo motivo tive de adiar meus exames ano passado. Não consegui essa autorização – diz ela, com olhos cansados.
Ah, se fosse comigo! Quer dizer que se tiver que viajar no mês que o plano bondosamente decidiu que estou apta para fazer os exames e magnanimamente se dispõe a autorizá-los, ou, quem sabe, meu médico tenha conseguido um encaixe na sua lotadíssima agenda antes da temporada autorizada, perdi?
Sei não. Talvez seja melhor mandar os planos de saúde catar coquinhos e procurar uma UPA!
Tão lindas, tão vazias e eficientes! Tão cheias de recursos e de médicos e enfermeiras sorridentes nos reclames institucionais (pagos com nosso suado e vilipendiado dinheiro) do governo…
Quem diz e mostra essas ilhas de tranquilidade e bom atendimento é a propaganda oficial, disseminada e massificada nos horários nobres das TVs, rádios, jornais e redes sociais.
Bom, diante dessa última reflexão e suas inúmeras possibilidades, decidi pedir ao meu médico outras autorizações. Acho que preciso de novas avaliações, desta vez, numa especialidade inédita no meu prontuário medico/hospitalar.
Só um psiquiatra para me ajudar a cair na realidade e deixar de aventar hipóteses e possibilidades mirabolantes que existem apenas nos contos da carochinha, nas propagandas enganosas e nos discursos de políticos sem vergonhas!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

É Sem Fim…

Ponta 130314 015 bandeira perigo correntezaTexto e foto de Valéria del Cueto

Agora deram pra perguntar o que é. O Sem Fim… é registro de aventuras e suas respectivas produções que podem – e costumam – ser aventuras maiores ainda.
Começou lá atrás, em Cuiabá, 1997, com a criação do “Diário de Bordo” da produção e filmagens do curta “História Sem Fim… do Rio Paraguai – o relatório”.
Era preciso criar um canal de comunicação com quem tinha interesse no projeto e em acompanhar as ações necessárias (e foram tantas) para sua realização. Impresso em papel ofício colorido, o fanzine (era isso?) trazia nas margens superior e inferior os bichinhos do pantanal criados por Josué Moreira e chegava aos leitores pelo correio.
No início umas 30 pessoas faziam parte da listagem. O “Diário de Bordo” feito na impressora lá de casa, chegou a ser enviado a mais de 500 endereços, em várias cidades do país.
O filme veio e a divulgação passou a ser feita via email numa newsletter, já com outro formato, acompanhando a evolução da internet. Foram inúmeras edições. Muitas histórias contadas. Que passaram a ser publicadas em jornais e sites.
Delas, nasceu o Sem Fim…. Um grande container de impressões coletadas por este e outros caminhos. Ele é som, imagem, palavra, a ideia de que qualquer meio é válido, se contiver uma mensagem. É vídeo, áudio, foto, texto, tudo junto e misturado.
O resumo das viagens pelo Brasil é passeio turístico permanente e informativo das quebradas do país, especialmente das fronteiras. É observação e narrativa da vida, da lida cotidiana, política, esporte, economia, ecologia, fala do dia a dia. Explora, descreve, contextualiza e poetiza. Está distribuído nas séries:
“Ponta do Leme”, a leitura carioca da gema do ponto de observação da sua praia, entorno e horizonte.
“Parador Cuyabano” é a base no Cerrado para a convivência com o interior de Mato Grosso e outros caminhos do centro-oeste.
“Fronteira Oeste do Sul” abrange a tríplice fronteira Brasil/Argentina/Uruguai e visita a cultura pampeana pelos laços familiares.
“É carnaval” são crônicas, artigos, reportagens e fotos, muitas fotos, referentes à maior festa popular do planeta, o carnaval carioca e, também, ao carnaval de Uruguaiana/RS.
“Vagabinhas” são os delírios dadaístas fotográficos. Só vendo pra entender.
E, finalizando as “Photo graphias”. Dos meios foi último a chegar, mas é o mais satisfatório artisticamente. O problema é a edição, já que os ensaios são duplos. Além dos artísticos, no mesmo pacote, sempre é feito um estudo imagético com viés antropológico, do objeto e seu ambiente.
Filosófica e sociologicamente o que impulsiona o projeto é uma brincadeira infantil de contação de histórias chamada “História Sem Fim…”, onde um começa a contar, depois o seguinte pega o fio, o outro vai adiante, mais um… e lá se foi.
São esses fios que o Sem Fim… tenta preservar, indexar e quando pode, difundir. Hoje, não mais em folhas ofício amarelas com letras azuis, mas nas redes sociais e outros meios multimídias.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… http://delcueto.wordpress.com

O que atravanca são “ozoutro”

Ponta 130314 034 Nilson Marques onda subindoTexto e foto de Valéria del Cueto
A ressaca está braba!Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.
Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá – creio eu – logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.
Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.
O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.
A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu. Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.
Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.
Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.
A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.
O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece – que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária saírem em menos de dois meses?
É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPonta 130314 042 onda linda

O rolo rola pelo ralo

Leme 1300302 024 Rib bueiro escada UPP Texto e foto de Valéria del Cueto

Minha rota de fuga já é conhecida. Diante de qualquer abalo me procurem na Ponta, embaixo da pedra do Leme. O entorno guarda resquícios da tempestade que fez da máxima do prefeito Eduardo Paes uma dolorosa e triste realidade. Mais do que nunca, somos um rio. De lama e lixo, ele esqueceu-se de avisar.
Aqui, o mar alto que chegou com a chuvarada faz a feste do povo da água que se arrisca em altas ondas coladas a pedra. Para encurtar a rota e economizar braçadas a rapaziada do bodyboard pula do meio do Caminho dos Pescadores, já na boca da fera! E faz a festa.
Troquei sim o barulho ensurdecedor do rotorooter do Eduardo Paes pelo som delicioso das ondas do mar.
Já reparou? É a segunda vez que cito o nome do indigesto alcaide do Rio de Janeiro nesse texto. A culpa é dele que não me deixa esquecer sua atuação de Penélope Pavorosa, como diz um jornalista amigo, testemunha intermitente da obra mal feita da Dimensional, empreiteira contratada pela Secretaria Municipal de Habitação, do engenheiro Jorge Bittar. Ela, que tentou a façanha de exigir que o esgoto do Chapéu Mangueira e da Babilônica fizesse a curva no pé da Ladeira do Leme e seguisse obediente pela Rua Ribeiro da Costa, descobriu que a ordem não seria seguida assim, de bom grado, de acordo com o excelente projeto planejado e executado pela referida empresa.
Resumindo: a curva entope e a língua negra da praia em frente, continua lá, como uma careta, escarnecendo da incompetência comprovada dos obristas do pedaço.
Assim é que, mesmo que me esforce para esquecer as trapalhadas eduardianas, uma em cada quatro semanas, lá estão os diligentes operários da extraordinária Secretaria de Habitação, vestindo (agora) um incrível macacão amarelo “olha eu aqui” e suas respectivas galochas de borracha, chafurdando na lama contaminada do mega bueiro existente justo embaixo da minha janela.
Não bastasse o cheiro de podridão que me leva a uma associação imediata ao resumo das obras malfeitas e pagas com o dinheiro suado de nossos impostos, também sou obrigada a conviver com a poluição sonora no horário comercial, propiciada pelo motor constante do chupa lama necessário para desobstruir o joelho da tubulação do esgoto da prefeitura. No dos outros é refresco, senhor. Aqui, mal dá pra respirar.
Acontece que o conteúdo elameado, composto de dejetos, detritos e componentes afins içados das entranhas do asfalto ficam ali, no meio da rua, secando ao sol, sendo levado pelo vento marinho para as residências adjacentes. Enfim, nosso querido prefeito traz mensalmente, por uns 5 dias, a poluição, as doenças e a contaminação do esgotamento sanitário até nós, sortudos moradores do entorno. Quem não seria inesquecível com uma atuação exemplar como essa?
Mas, como sou uma pessoa justa, tenho que reconhecer: o sistema de coleta vem se aperfeiçoando a cada nova incursão dos operários ao fantástico mundo das tubulações mal feitas. Além das roupas de borracha (daqui a pouco serão escafandros, por que respirar aquele ar merece mais do que um trocadinho de insalubridade), trocaram o carrinho de mão sem rodas, içado por cordas, que era o subidor da lama por uma sensacional escada para facilitar o sobe e desce do peão. (veja a foto ilustrativa do equipamento de última geração e grande precisão). Arrumar a engenharia e punir o (i)responsável pela empreita mal executada, nem pensar! Afinal, como Penélope enrolará as finanças e desfiará mais um trocadilho dos idiotas de plantão? É por isso que eu… rio!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Jogo… feito! Não dá mais.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Tão vendendo tudo. A alma já foi faz tempo, agora o negócio da vez é vender o que não lhes pertence.
É arrasa quarteirão, qualquer coisa é milhão pra ser “colhido” maduro mesmo por cima do muro, pelo primeiro esperto que se habilitar.
E não adianta reclamar, por que não há mais papa para ouvir o bispo, qualquer manifestação é risco, um grito perdido no ar. É muita pressão, meu irmão.
Haja panela quando a paciência do povo se esgotar. É trem, metrô, bonde, VLT; é lei seca pra pegar táxi, heliponto para resolver a saúde, empreiteira mandando às favas as obras interrompidas em plena construção. Aí tem ladrão!
A vida não é um lego, mas é assim que uns e outros a levam, achando que podem montar e desmontar, mandar e desmandar, esticar, extirpar, fracionar. Abrir, fechar, puxar, esticar e… vender.
Se bobear até a mãe entra nessa se tiver uma boa e generosa oferta. A sua, é claro.
Por que o público agora tem dono, que se dane o entorno. Barulho, entulho, bagulho, vale tudo na barganha em que muitos perdem tudo e a panelinha de sempre – aquela – ganha.
É assim!
Que paga o pato é o gato que leva fama sem deitar na cama e nem ao leite tem direito, por que lhes falta respeito até pelo reino animal. Quer falar no vegetal?
Não faz mal, ele é o tal! Cada lugar tem o seu especialista no quero o meu, pronto pra abocanhar, enganar, roubar, enrolar e desacreditar o trouxa indignado que esboçar reação.
É ação, coação, expulsão, exclusão e tudo na contra mão do justo e do direito.
Por que lhes falta respeito ao seu senhor, o cidadão.
Cá entre nós é atroz aturar tanto absurdo, fazer de conta que é surdo quando as arbitrariedades explodem no colo de cada um.
Sou eu, és tu, é você, somos nós, sois vós, serão eles capazes de a tantos enganarem sem ao menos – sequer – explicarem por que acham melhores que toda a população?
É bando, corja, matilha quem faz parte da quadrilha que prossegue impunemente achando que somos palhaços fazendo graça pro mundo enquanto esses vagabundos limpam os nossos bolsos, como se não tivessem um fundo?
Mas podem ter a certeza um dia a gente vira a mesa, e jogando com destreza acaba com essa pobreza que insiste em pensar que é mais.
Alguém há de se capaz, com a ajuda – que Deus nos acuda – de dar um basta nessa sorte que é de morte. Ninguém merece sofrer por males que não são seus, padecer, nem esquecer, afrontas que não pediu.
Por que quem procura acha! Um dia depois do outro… Pouco a pouco quem paga o pato vai cansar de bancar o rato e tomar uma atitude.
Não que seja virtude lutar pelo que é seu. É direito obrigação, defender nossa nação de tanta iniquidade. Alguém vai gritar bem alto, acima de toda a mentira. Um grito de liberdade há de alcançar seus ouvidos e vai fazer todo o sentido quando o povo se juntar.
E será em cada olhar, que vamos saber lá no fundo que é hora de mudar o mundo, se não o deles, o seu.

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* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM…
delcueto.cia@gmail.com

Estou na dele

Areia 121220 165 pipa s+¦Texto e foto de Valéria del Cueto

Saudades do meu caderninho, simplesinho, queridinho e tão útil. Pronto para receber de páginas abertas impressões e expressões de maneira serena, democrática, independente de linha ou assunto.
Estou me rendendo com alegria ao deslizar da tinta, o ritmo do desenho das palavras, o prazer de quem se entrega a escrevinhar no papel.
O caderninho é o momento em que o pensar só é mais rápido que a ideia que brota os décimos de segundos necessários para descarregar, linha afora tão soltamente a ponto de não haver dúvida(s) sobre a grafia correta, as palavras feiticeiras. Elas, que surgem saltitantes e se deitam preguiçosas, libertas e cheias de disposição, até aquela destinada a ser a flecha certeira que atinge o alvo do ponto final da frase.
Pode parecer delírio – e talvez seja – provocado por fortíssimos sintomas de felicidade intrínseca, dos que só podem ser provocados por uma sensação efêmera e quase única. – como tudo que é bom.
Falo do meu mar é azul, verde esmeralda cristalino e da minha praia é a mais limpa do Rio. Não é pouco.
Tenho observado esses tempos estranhos. E agora, sinto começou o verão no Rio. Temperaturas altíssimas, enquanto que no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Uruguaiana, onde o verão costuma ser escaldante, o clima da estação anda ameno.
Aqui, o calor começou nos últimos dias de carnaval deixando para trás um janeiro ranheta que não fez jus a nossa fama de paraíso na terra. Parecia praga! Tanta gente de fora querendo ver o que faz do Rio um lugar abençoado por Deus e, no céu só nuvens passando, em sentido único, sempre de lá para cá, o caminho do mau tempo. E mais… a água do mar estava horrorosa. Foi isso que os visitantes viram. Meio caldo de cana em alguns dias.
Mas isso foi antes. Bastou passar a temporada pra que o cara lá de cima, vendo o paraíso mais vazio, mais disponível, resolvesse aproveitar uns dias especiais na sua maravilhosa cidade. E caprichou no ambiente!
Subiu a temperatura da terra, pra que queiramos o mar. Para torna-lo irresistível, deixou tépida a sensação na pele até na hora do mergulho, aquele, na corrida, sem testar antes com a pontinha do pé o que te espera. Também como resistir ao apelo daquela cor que era, sim, do mar, e apenas dele, celestialmente, por assim dizer?
Filtrou a água a ponto de fazê-la brilhar como esmeralda translúcida e transparente, capaz levar qualquer um a viajar nas suas profundezas até alcançar, lá no fundo o relevo da areia.
Deu uma soprada no vento e amenizou, com uma ajuda substancial da maré, as ondas e movimentos. Ondas sim, mas no tamanho certo para não turvar demais o que os olhos podiam notar, sem sei lá não sei não.
Para não dizer que não obteve ajuda humana, soprou os ouvidos dos garis do bairro um pedido de ajuda para que dessem uma geral na areia e… pronto!
É o paraíso da Ponta do Leme. Em pleno meio da semana que é para garantir o testemunho. Há muito aprendi a não esperar para usufruir amanhã o que me é oferecido hoje. E vocês sabem mesmo ele, o senhor, um dia precisa descansar, relaxar e aproveitar o lado bom da vida que arduamente tenta nos dar.
Por que sei, ele está aqui agora em minha companhia, usufruindo o sucesso do melhor de sua concepção. Aqui representado por esta vivente feliz, na Ponta do Leme.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

É pra dar em doido!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Quero mudar de assunto, mas rodo, rodo e lá está ela, a verde e rosa, malemolente e bela, executando seus passos e volteios no meu campo de visão e incendiando minha imaginação. Se não para louvá-la, como gostaria, para esclarecer alguns pontos que tem causado polêmica em relação a seu desfile.

Quando vejo, por exemplo, as manifestações de moradores de Cuiabá chicoteando o jequitibá, citado na letra do samba de 2013, chego a conclusão que sim, os 3,6 milhões de reais, destinados a Escola de Samba, deveriam ter ido para a… educaçãoem Cuiabá. É incrível a incapacidade vigente de interpretar um texto, coisa que a gente aprende no colégio, ao contrário do samba, como já dizia Noel Rosa em um de seus clássicos, “Feitio de Oração”:“Batuque é um privilégio / Ninguém aprende samba no colégio / Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia / Dentro da melodia…”.

Ora, vejamos o que diz o segundo refrão da composição deLequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalhoque tanta celeuma tem provocado, incluindo aí uma discussão acalorada sobre os locais em que o tal Jequitibá é natural ou está plantado na cidade:

“Mangueira…O trem da emoção /Viaja na imaginação / Meu samba é madeira, é jequitibá / É poesia dedicada a Cuiabá”
Senão, vejamos:

Mangueira – não a árvore, mas a escola de sambaGres. Estação Primeira de Mangueira.

O trem da emoção – observem que não diz que é o trem da razão. A emoção nos permite… imaginar! E o que é a Mangueira? A estação primeira, onde se realiza o embarque rumo a ela.

Viaja na imaginação – até por que assim dá pro tremchegar, ou melhor chegar mais rápido, o que só pode ser no imaginário, já que a gente sabe que esse trem verdadeiro está “devagar, quase parando”, como a Maria Fumaça, de Kleyton& Kledir.

Meu samba… – o feito pelos compositores da Mangueira, a escola de samba, e escolhido após uma acirrada disputa que dura meses.

é madeira, é jequitibá. – quer dizer que o ritmo, a música da Mangueira é de lei, é nobre, principalmente se for de jequitibá rosa, uma madeira duríssima!

É poesia… – poesia não é reportagem, nem documentário histórico. É imagem, ritmo, sensação e também pode ser idealização.

Dedicada á Cuiabá – dedicar não é descrever. Significa consagrar, tributar, oferecer, destinar.

Enfim não há nenhum lugar que diga que o Jequitibá é cuiabano, existe nas terras do Sutil ou algo assim. “Jequitibá” é o samba mangueirense, “madeira de dar em doido”, segundo José Ramos e Marcelino Ramos, na música que todo mangueirense de fé já cantou:

Mangueira é uma floresta de sambista / Onde o jequitibá nasceu / Veio fogo, queimou
veio vento, tombou /machado, o jequitibá ficou

Resumindo: precisamos muito do verdadeiro Jequitibá pra dar nos doidos que deixaram o povo cuiabano incapaz de interpretar um simples texto!

* Link das músicas citadas: Feitio de oração http://youtu.be/d_-dZqnlABM //Maria Fumaça http://youtu.be/Yd51SuxyA1w //Jequitibá – http://youtu.be/QPRp7di0thQ

Quem não pode com mandinga não carrega patuá.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Se não sabe brincar, não desce pro play. Captou?
A Mangueira é expert em amor, raça, paixão e superação. Desfile de carnaval, tradição e samba. Cuiabá precisa de divulgação no exterior para atrair turistas na Copa do Mundo disputando espaço com as outras sedes brasileiras de 2014.
Não existe vitrine com um custo benefício mais vantajoso do que a focalizada, nos 700 metros de pista do Sambódromo Darci Ribeiro, pelas centenas de câmeras espalhadas pelo caminho que o trem verde e rosa cruzará na noite de segunda feira. Elas massificam durante os 80 minutos de desfile imagens, conceitos, tendências, um lugar. No caso, Cuiabá. R$3.600 milhões é um custo baixo investir numa campanha publicitária internacional. Imaginem estar no DVD com o compacto do desfile Grupo Especial das Escolas de Samba cariocas distribuído por todo o planeta. É entrar para a posteridade da maior festa popular do planeta.
Até por que, é com tristeza que informo: se pouquíssima gente, quase ninguém, sabe que existe um paraíso chamado Pantanal – pergunta que faço em todos os lugares onde vou, em vários continentes-, o que dizer de Cuiabá, um de seus portais de entrada?
O viés do enredo definido, segundo o contrato em conjunto entre as partes, foi meramente turístico. E, peneirado demais, virou um clichezão. Mas a grita funcionou e a sinopse foi substituída. Agora é texto de Cid Carvalho, o carnavalesco.
Discordou do enredo, não gostou do samba? Paciência. Deixa a Mangueira passar. Quanto mais marola, mais feio fica. Pra cidade, é claro. Por que para a Mangueira é apenas mais um entre dezenas de carnavais que ela já apresentou. Queria ver alguém ir lá e fazer melhor.
E, justiça seja feita, durante todo o tempo entre o namoro, o noivado e a troca de alianças, daria para ter tomado providências, como aconteceu no caso da sinopse.
Detonar a Mangueira na véspera do carnaval é, no mínimo, irresponsável, desrespeitoso e, me perdoem, uma grande estupidez. É burrice dar tiro no próprio pé. Desvalorizar seu próprio produto! Enfim, bancar o “bobó tcheira tcheira”, abusando do cuiabanês.
Agora passam recibo do mau uso do dinheiro público. Reclamam, e o estopim não foi a ausência dos cursos de capacitação para sambistas, ou a quantidade dos eventos – tratava-se de uma carta de intenções, lembrem-se. Mas, sim, da falta de 100 vagas prometidas na Sapucaí. O que configura que nosso dindin seria para bancar as mordomias de poucos! Assim, na lata. E, enquanto metem o malho, os membros da comissão, responsáveis pela perna cuiabana do projeto, ficam caladinhos. Aqueles que mostraram sua ginga ao lado dos componentes da verde e rosa no lançamento do projeto no Cine Theatro Cuiabá. Os que presenciei, nas minhas andanças fotográficas na agremiação, acenando empolgados e cheios de moral para a plateia do camarote cuiabano, nos ensaios no Palácio do Samba. Ninguém me contou, eu vi!
Por isso, peço encarecidamente. Deixem a Mangueira passar. Torçam por ela e, se puderem, cantem com ela. Por que outra oportunidade como essa para, diante do mundo, bater no peito cheio de orgulho por ser cuiabano, não vai aparecer tão cedo. Que o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, São Benedito e São Sebastião abençoem esta jornada.

Só dá Lalá(u)

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Texto e foto de Valéria del Cueto

A gente rema, rema e morre na praia! Escrevo ouvindo por um site de notícias a transmissão ao vivo da eleição do novo presidente e da mesa diretora do Senado Federal.
Uso um site de notícias por que a TV “Senada”, bancada por nós contribuintes, simplesmente não dá conta do recado. Pagamos caro por um serviço que, assim como outros no país, é apenas uma caricatura grotesca do que deveria ser. Transcrevo a resposta da própria Agência Senado, via twitter ao meu apelo por um link que não dê numa página em branco: “@delcueto aqui funciona normalmente. Pode ser que a rede não esteja conseguindo atender ao grande número de acessos”. Pode parecer irônico, mas não é. É vergonhoso.
Depois de acompanharmos o julgamento do Mensalão pelo site do Supremo Tribunal Federal e pelo hangout GRATUITO do Google, é inaceitável que o Senado não consiga fazer chegar ao povo brasileiro, democraticamente, as opiniões, posições e motivos que levarão os senadores brasileiros a conduzir à presidência da casa um membro que já renunciou a este mesmo cargo. Como disse o líder do governo, senador Eduardo Braga, do Amazonas, “o maior partido do país tem o direito de indicar o presidente da casa”.
A gente compreende a pequeneza do maior partido brasileiro. Aceitar a imposição da imoralidade é outra história, contestada pelas centenas de milhares de assinaturas de cidadãos brasileiros que pediram que Renan não fosse o presidente do Senado Federal por meio de petições públicas! Por que temos vergonha na cara, decência, moral e ética.
E, se os votantes escolhem um “camarada” capaz de usar o dinheiro público para bancar com notas frias sua filha fora do casamento, lamento, mas dane-se a maioria.
A denúncia do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao Supremo Tribunal Federal (STF) é clara: pelos crimes de falsidade ideológica, uso de documentos falsos e peculato. Se acatada, Calheiros passará da condição de investigado à de réu. Quanta honra, quanta dignidade…
Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito…. Pedro Taques, o senador em que votei e honrosamente me representa, candidato da oposição, cita Manoel de Barros e mais, um dos maiores brasileiros que tive a honra de conhecer: Darci Ribeiro…
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
Darci pode ter fracassado em muitas coisas, mas sua memória é honrada no meu templo de trabalho. Chama-se Sambódromo Darci Ribeiro, a passarela do Samba carioca. Obra feita por ele e Leonel Brizola. Aquele, lembram?
Com o fim da palhaçada,(desculpa ae, Tiritica, por usar em vão o termo que designa uma categoria tão especial) vamos ao carnaval que, afinal, é assunto sério!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

As águas rolaram, o povo cantou… o santo abençoou!

Lav Sap 130120  062 S+úo Sebasti+úo Apoteose Lav Sap 130120 034 setor 1 arquibancada chuva povo grita Lav Sap 130120  061 S+úo Sebasti+úo baianas reflexosTexto e foto de Valéria del Cueto

Estava indo, mas acabei ficando por que o tempo está virando de novo. Será praga de madrinha esse janeiro carioca, totalmente encharcado? São Pedro parece decidido a fazer uma lavagem geral, pra entrar na era de Aquário livre de impurezas.

E nós aqui, valorizando os guarda-chuvas e as capas impermeáveis, evitando os sapatos delicados e pedindo a Deus proteção para as chapinhas e escovas.

Esse, na verdade, não é o meu caso particular, adepta que sou da liberdade e da selvageria da minha cabeleira. Quanto mais molhado, maltratado e salgado, mais bonito ficam meus, agora, longos e rebeldes cachos. A mulherada em geral está sofrendo horrores!

A chuva abunda e prejudica o dia-a-dia da cidade, provocando a revolta dos moradores que sentem na carne a ineficiência dos órgãos públicos e o agravamento gradual do que a propaganda oficial diz que está sendo melhorado. Será nosso dinheiro jogado fora que entope os bueiros e provoca alagamentos cada vez mais intensos e rigorosos na cidade maravilhosa?

Sei não… só sei que os camelôs acabam se dando bem e as sombrinhas com imagens de pontos turísticos do Rio, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o bom, velho e, agora, inoperante Maracanã passeiam sobre as cabeças que tentam se protegerem da água que Deus nos manda com abundância e intermitência nas últimas semanas.

O aguaceiro afeta a vida, mas não a interrompe. Alguns hábitos se transformam, outros sobrevivem e superam as intempéries ignorando a molhação.

Rodei, arrodeei, mas sei onde quero chegar, igual a essa chuva persistente de pancadonas e pancadinhas.

Semana passada, matei o ensaio técnico das escolas de samba na Sapucaí no sábado – estava chovendo(!), mas não fugi da raia no domingo, dia de São Sebastião e  da lavagem do Sambódromo pelas maravilhosas baianas cariocas. A cada ano, o cortejo fica maior e mais emocionante!

Lá fui eu, com meu kit “pode cair o mundo”, rezando pra que os deuses do samba e do carnaval protegessem ao menos meu equipamento. Fotografia é assim, um vício delicioso em que a gente procura registrar de um jeito diferente o que está ali, pra todo mundo ver.

Os atabaques nem precisaram soar e o céu já estava caindo, desafiando os fotógrafos a protegerem seus equipamentos, ou arriscarem suas lentes, naquela que pode ser a foto derradeira. Quando os tambores firmaram descia água a vontade.

Corri pra onde todo mundo correu e, é claro, não havia proteção pra tanta gente. Voltei pra baixo d’água, conformada com minha sina de pinto molhado e temendo que a festa fosse prejudicada.

Foi quando ouvi. Um canto. O canto. De todos! Sem amplificação, só do coração. Das milhares de almas que estavam ali. Se sentindo abençoadas e fazendo questão absoluta de manifestarem por meio dos sambas entoados, a fé na manifestação religiosa que ali acontecia.

Larguei de mão todos os meus medos, o receio de perder minha única câmera fotográfica, a que usarei durante o carnaval que se aproxima. Se, ali, cada um representava seu papel, o meu era de registrar aquela sintonia celestial. E se havia – e há – a famosa proteção, as bênçãos dos meus santos me guiariam pela tempestade, afinariam meu olhar e dariam passagem para as imagens emocionantes que refletiam na pista alagada da Avenida do desfile principal, a Marquês de Sapucaí.

E assim aconteceu com quem, com fé e oração, se deixou levar pelas águas purificantes de São Sebastião…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Realidade cruel

Preto-Leme130117-028-rib-equipamentoTexto e foto de Valéria del Cueto

Estou tentando ser zen. Mas tá difícil. O sol ilumina minha vida enquanto as copas das árvores que enfeitam minha janela no segundo andar acenam animadas me convidando para ir à praia.
Tenho muito o que fazer, inclusive escrever essa crônica, e um tempo reduzido a ponto de não poder ir até a Ponta do Leme e mal traçar essas linhas no meu caderninho. Nesse momento, o trabalho duplo, escrever/digitar faz diferença.
Se o visual é perfeito, o mesmo não se pode dizer do motor da obra de Penélope do Eduardo Paes prefeito do Rio de Janeiro. Ele continua enxugando esgoto aqui na quina da ladeira.
Que obra! Que perfeição. Era, entre outras coisas, pra acabar com a língua negra que se estende preguiçosa pela areia em direção ao mar há muitos anos. Quando fui pra Cuiabá, em 2011 a buraqueira era embaixo da minha janela da casinha, o apartamento da Gustavo Sampaio. Mexeram na parte de saneamento básico e, para ajudar no conjunto da incomodação, desrespeitaram os moradores ao não seguirem as regras para as obras impostas pela própria prefeitura nos quesitos segurança, sinalização e ordenamento urbano, ditadas pela própria Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos.
Agora, anos depois, consigo detectar a inutilidade do sacrifício dos moradores do bairro. Além de consumir o dinheiro da população, a obra, tocada pela empresa Dimensional para a Secretaria de Habitação do Município do Rio de Janeiro, é um desastre e criminosa. No sentido mais puro da palavra. Foi numa barbeiragem dela que minha avó caiu e quebrou o fêmur.
Quando me mudei para o novo apartamento, um mês e meio antes da Rio +20, todo o cronograma da bagaça já tinha ido pro book naturalmente. A coisa piorou mais ainda com a maquiagem feita pra mostrar o morro pra gringo, no caso o prefeito de New York. Logo depois, é claro que tiveram que, usando britadeiras, quebrar o asfalto recém feito para, então, passarem as tubulações. Coisa de mestre!
Quando tudo parecia assim, meio assado, caiu a primeira chuvinha e a Ribeiro da Costa virou um rio/mar de lama desaguando na Gustavo Sampaio. Metade claro, metade escuro. Esqueceram que 2+1 dá 3 e não 2 e esgoto não faz a curva do joelho. Portanto a tubulação tinha problemas. Na segunda chuva, filmei a tampa do bueiro da ladeira descendo pelo asfalto, depois de ter sido levantada pela força das águas.
Aí eles começaram a enxugar o esgoto. Tipo assim, como quem enxuga gelo. De manhã e de tarde. Vários homens, alguns mergulhados num bueiro de cada vez, outros puxando os dejetos misturados com areia com os instrumentos mais esdrúxulos possíveis e imagináveis.
Tudo isso em meio a falta de segurança, higiene e de sinalização adequada, ao uso indevido do espaço público como canteiro de obras, as denuncias no Ministério Público que promoveram ações cíveis e processos contra tanto abuso. E tudo é pouco, por que a luta é desigual e cruel. Nada detém o rio de dinheiro que está sendo sugado aqui. Meu consolo é o registro sistemático do andamento dos “trabalhos”.
E assim, sem solucionar os problemas existentes, a tal empreiteira ainda está construindo mais 200 apartamentos no Chapéu Mangueira. É pedra cantada que vai dar (mais) problemas.
Isso é pra vocês, caros leitores, não pensarem que o Rio de Janeiro é só a cidade maravilhosa que povoa os meus sonhos quando desligam o maldito motor aqui na esquina…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPreto-Leme130117-030-ladeira-geral-bueiro

Simples, pra mim

Areia 121220 159 pipa e trave

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou com síndrome de pipa. Não das gordas, das que voam. Tudo que quero traduzir em imagem se resume a uma delas.
Se digo que quero voar, lá estão elas, bailando no meu céu. Serelepes e abusadas.
Quando falo em liberdade, penso na sabedoria maior que elas me ensinaram: a sempre dar linha. Nunca tencionar sem necessidade. É, por que se na linha, pipas dançam, na puxada, elas rebolam.
Desde que me conheço por gente sou fascinada por pipas, pandorgas, arraias (não possuem rabiola), papagaios, ou chame você como quiser as chinesinhas, usadas a dezenas de milhares de ano como sinalizadoras militares. Que ironia. Meu símbolo de liberdade…
Cresci ajudando e atrapalhando experts a alinhar as varetas, fazer a cola de goma, recortar os gomos e enfeites no papel de seda e as tiras da rabiola, preparar a linha e enrolar o carretel. Aqui, pulo o capítulo do cerol, por que não poderei atirar a primeira pedra contra quem já brincou de cortar as vizinhas no céu.
Como na vida, tem gente que solta pipa, outros, preferem empinar o papagaio.
Prefiro quando a vida me dá menos trabalho. Pode parecer coisa de gente preguiçosa, mas não é. É coisa de gente que sabe que mais vale um luar do que lutar. Até por que, ultimamente, lutas tendem a ser inglórias, o que é bem pior do que uma simples derrota.
Estou na levada da pandorga. Seguindo o vento, se deixando guiar pelos puxões e safanões caprichosos da molecada. De preferência pedindo muita linha, que é pra ter a sensação de espaço aberto. De poder saracotear.
Isso não quer dizer que perdi o rumo, larguei de mão meus objetivos. De jeito nenhum. Apenas sinto que o momento não é o ideal para determinadas abordagens. Até por que, pedir o impossível é somente um requisito para a frustração eminente, pela qual não pretendo passar.
E lá vem a pipa novamente. O que me falta agora é quem conduza minha linha. Sempre tão livre, mas segura na Ponta do meu Leme.
Daqui pro mundo era um pulo, o passo da confiança, o espaço da certeza plena de que, nesse fio, só passavam ordens e comandos gerados no mais profundo e incondicional amor eterno.
Agora, o fio está sem mando. A pipa não tem mais limites.
Mas tem objetivos. Se não imediatos e palpáveis, de conduta e caminho. Que é pra não desperdiçar o que aprendeu, nem deixar de saber que se o rumo é o prumo, a meta tem que ter valor e valer o preço da, agora, infinita solidão. O tempo é senhor.
A vida segue como um mar que se limita somente pelo nome que leva, já que suas águas, sem divisas, se confundem pelas correntes que cortam e se misturam oceano adentro.
Agora, só com a rabiola como ponto de equilíbrio, sem o fio que guia seus movimentos, o céu é infindável.
Muda o ritmo, os estímulos, muda o todo, tudo foi. Nada existe. Só vento, que carrega a pipa, quem sabe lá para onde? O qual será o por quê?
Só não dá pra admitir a hipótese de, ao perder a linha externa, esquecer que há algo mais, capaz de ser fio e ser luz que não quebra nem dilui.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Com qualquer tinta eu tento…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se me lês, é por que não foi dessa vez. Não chegamos ao fim do mundo. Mas temos e estamos no inferno na terra de sempre, com uns laivos de esperança para quem tem fé. E olhe lá.
Praia, praia, praia e nada mais. Ou melhor: piscina. Dupla jornada. Hidroginástica. Preparação física à vera. Como não rolava há muito tempo. Juntou a fome com a vontade de doer. E, se é pra ser por que é inevitável, que renda bons frutos físicos e mentais. Esmurrar a água não provoca dor alheia ou maiores danos por ter baixo impacto. Só cansa e faz dormir.
Por que a vida passa, a fila anda e esse não é um bom momento para parar o mundo e tentar descer. Ele passou! E, como já disse, se me lês é por que a porra do mundo não parou quando devia. Agora é que o bicho vai pegar. E ele, o bicho, já está botando as manguinhas de fora, diga-se de passagem.

Nos últimos dias, duas crônicas foram interrompidas por uma mesma razão peculiar em pleno parto (aí, Gabriel Novis!): por falta de tinta na(s) caneta(s). O primeiro impedimento foi na praia e me obrigou a interromper a escrevinhação. Así no más. Terminei o texto direto no computador, em cima do laço para cumprir o horário das editorias (repararam como tenho falado nelas, as editorias e neles, os editores ultimamente?)
Agora, de novo! Lá se vai a caneta. Engraçado é que a única coisa que faço a mão religiosamente é preencher caderninhos após caderninhos de crônicas. Acabarem duas cargas em três manuscritos? Ai, ai, ai…
“>Por via das dúvidas puxo do porta-tudo a caneta comemorativa de São Judas Tadeu que ganhei de minha mãe no dia do santo, 26 de outubro. Aperto o pino e… Nada. Desmonto a caneta. Está tudo lá, inclusive a tinta que havia transbordado da carga, lambuzando minhas mãos. Meleca.
Aí, meu Deus! Mensagem recebida. Meu texto não tem a guarida do santo protetor de quem, acabo de me lembrar, perdi a medalhinha que sempre uso num cordão, junto com um crucifixo e Nossa Senhora..
Parto para a ignorância e apelo para uma BIC. Prateada, como o surfista da história em quadrinhos. Valho-me dos seus superpoderes por que, como já disse, a fila anda e, se eu der mole, perco a levada.
E aí… volto ao ponto: se o mundo ia acabar, não precisaria me preocupar com a próxima narrativa. Era essa e deu! Beijou, beijou, não beijou, beijasse. Danem-se editores.

Como ainda não chegamos ao fim dessa sexta feira, 21 de dezembro, prefiro não contrariar os deuses alterando meu próprio ritual. Crônica e praia, praia e crônica.

Me apego a pedra, meu leme verdadeiro, olhando o tempo – que a tudo espera – a espera do tempo passar…

Está tudo aqui. Meu céu, meu mar. Quase tudo no seu devido lugar.
Menos eu que, como a tinta da caneta de São Judas, apenas escorro entre os dedos do destino deixando algumas marcas croniqueiras enquanto dou adeus ao fim do mundo, como quem diz: “Mais um segundo, uma hora, mais um dia. Outra vida, quem sabe? Não importa. Como meu mar vou para onde o vento me levar. Haja biquíni!”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

El Cid, a flecha e o alvo Sebastião

Moc Bar 121213 0111 João tela 01Texto e foto de Valéria del Cueto

Pra variar, engatei a quinta procurando. Só que tem hora em que são eles, os assuntos, por assim dizer, que te atropelam. É isso mesmo. O assunto firmou quando ouvi o antigo hino de São Benedito, aquele, em horário quase nobre na TV. Arrepiei. A seta mirou o alvo e acertou meu coração guerreiro um pouco santo. Sebastião. No Rio, Oxossi, o caçador que me protege e cuida da mata.
A bandinha tocando e eu comemorando. Feliz pela notícia de que o olhar e a sensibilidade de Cid Carvalho alcançaram João Sebastião. Se já estava interessante, agora ficou bom demais! Cuiabá vai chegar como e com quem deve na Sapucaí. Por que anjos e santos se juntaram aos cajus e as onças. E João, aquele que ferveu e agitou nos calientes carnavais de Cuiabá, vai estar ali. Apresentado e representado de alguma forma no cortejo do desfile principal.
Conheci João logo que cheguei em Cuiabá e fui seduzida pela explosão das artes plásticas que refletiam em suas cores o calor da terra. Sempre presto atenção e (re)conheço um lugar por aspectos que me atraem de sua cultura. Me orgulho de jogar nas 11: vou de literatura e poesia à música. Traço escultura, pintura; sou fissurada por grafite, fotografia, audiovisual…, tudo sem titubear. Foi assim com a Califórnia da Canção, de Uruguaiana, a polca e o artesanato paraguaio, é igual com a carioquice (minha cultura) em geral. Ouvi, vi, estudei e ainda pesquiso. De vez em quando, tento e faço.
Volto à Cuiabá e ao João. De quem tenho algumas obras. A menor, uma joaninha vermelha feita de pet que enfeitava minha instalação de natal (chamar aquela galharada de árvore é uma ofensa à natureza). Também tenho uma onça marota olhando à lua, com ar de “te pego”. Mas meu objeto preferido é um pano que deveria ser canga. Porém que, diante da importância da obra, foi ensanduichado e enquadrado. É a síntese de uma linda história. Mostra uma onça inteirinha, sedutora e esbelta, te olhando fixamente. Ela usa um colar com cajus vermelhos ornados com suas folhas verdes. Sob uma das patas dianteiras há uma folha presa, do enorme caju lilás que a olha em primeiro plano já no “laço” para ser juntado aos outros, no colar.
É uma obra original. Primeira e única. No desenho, os traços feitos pelo João, são facilmente reconhecidos. O olhar e as proporções do felino, sua posição. Mas a pintura não é a dele. Nela, há um trabalho primoroso de pontilhismo em parte da tela. Quem pintou minha onça quase canga foi Chico Amorim. Amigo de vida, teatrólogo famoso e meu orientador no doutorado de cidadã cuiabana. São dele pérolas como o dito: “Tudo evolui no mundo, menos a baixaria”; o excitante desafio de “ficar sem fazer nada”; as fugas loucas para as águas límpidas, deliciosamente refrescantes dos rios que cortam a estrada da Chapada durante a semana e outras cositas mais.
Pois a obra ficou tão especial que João fez questão de assinar a tela. É única e tem uma linda história que inclui o autor da surpresa espetacular. É, por que é claro que babei com o presente!
Pois é esse João, o Sebastião, que – soube hoje – vai se juntar a grande festa verde e rosa na avenida. Que me perdoem seus promotores do centro oeste, agora sim, temos um “muxirum” cuiabaníssimo com a cara do que mais amo nessa terra: o povo CUIABANO! Do qual João é síntese e expressão, por meio de suas maravilhosas e originais criações.
Trazidos pelo trem conduzido por Jamelão e coloridos, também, pelo que há de mais autêntico e representativo nas artes plásticas de Cuiabá, os frutos dessa mangueira estarão perpitolas de cuiabanidade!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “é Carnaval” e “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

Da janela da alma vem a luz que me acalma

Texto e foto de Valéria del Cueto
Tudo igual. Constato passeando pelo bairro, no caminho entre a padaria e a Pedra do Leme, onde vejo a bandeira tremulando a meio mastro. Mas diferente.
Vinha procurando um assunto quando passei embaixo da janela do meu antigo apartamento, a “casinha” (o novo ainda não tem nome), no primeiro andar. Aquela onde, quando fui para lá, há mais de dez anos, achei ideal para receber serenatas.
É, sou do tempo e de lugares de serenatas na janela. Para desespero do meu pai, milico ainda, que precisava acordar cedo para trabalhar. Como somos duas filhas, a Gisela e eu, as homenagens românticas eram múltiplas, muito mais pra Gi do que pra mim.
Em Bela Vista, naquele tempo Mato Grosso, serenata era assunto muito sério e recorrente, principalmente nas férias, quando a garotada baixava na princesinha do Apa. Tinha que agradecer, abrir a janela…
A ordem dos fatores alterava todo o produto. Era uma romaria crescente por que quem recebia a serenata costumava se juntar a turma para ir cantar noutra janela, depois noutra.
Nunca fui de ir atrás das violas enfeitiçadas. Primeiro, por que meu pai não deixava. Segundo, por que nossa casa sempre ficava por último, mesmo que fosse visitada noutra altura da ronda musical. Afinal, eu namorava Preto, o violeiro – mor, peça quase fundamental para o sucesso da empreitada (sem tirar os méritos dos dedilhados e doces palavras do Vanderley, do Gão do Bermudes e, por que não incluí-lo, pelo esforço frequente, o Tadeu Palmieri). Eu não me incomodava mas, meu pai, sim. Não foi nem uma nem duas vezes que recebeu as românticas caravanas ameaçando premiá-las com panelas cheias d’água. Isso, lá pela terceira ou quarta serenata. No meio da semana!
Quase infelizmente no prédio da Gustavo Sampaio nunca recebi uma serenata. Também nunca pedi, por achava que o mimo deveria vir de forma natural, sem forçar a barra.
A vida é assim, não nos dá aquilo que pedimos. Porém… De vez em quando, nos chega um presente muito melhor. Acontece que a janela do meu quarto era só um pouco acima do nível da rua. Não precisava de gritos para que eu ouvisse se alguém me chamasse.
E, assim, nos últimos 10 anos, passou a ser feito. Todos os domingos e, algumas vezes, durante a semana. “Maria Valéeeeeria, Maria Valéeeeeria…” Aos domingos, depois da missa, um pequeno desfio de caminho, permitia que minha avó me desse o melhor despertar do mundo, o mesmo que tive durante os anos que morei com ela, (naquele tempo acrescido de um copão de Nescau morninho).
Não importava meu estado matinal ou o peso da janela de guilhotina que me fazia me xingar mentalmente, temendo dar um mau jeito nas costas levantando o janelão. Como a cama ficava colada, a segunda dificuldade era encontrar os óculos pra poder dar um tchauzinho pra minha amada e combinar o almoço de domingo. Simples assim.
Tive a minha serenata por uns de dez anos. Até precisar mudar de apartamento, no último mês de maio. Mudei pra perto, para a rua de trás e entrei no caminho natural de dona Ena para a igreja. Só que… Fui morar no segundo andar. Muito mais difícil de ouvir meu mantra de bom dia. Passei a colocar o despertador e, tal como Januária, esperar que a maré cheia do meu mar de amor me alcançasse. Ficou mais difícil e por contingências da vida, o costume não firmou.
Hoje, na minha janela, sou apenas Carolina, a que não viu o tempo passar. E, dizendo mentalmente nosso “segredo”, junto com ele prometo: nos meus olhos, agora, fundos, não vou guardar a dor. Uma rosa pode morrer, a festa acabar, um barco querer partir. Nossa história não merece o sofrer, amada. Não faz assim quem foi só carinho, amor, tanta alegria! É Sem Fim…
*Valéria del Cueto, neta de Dona Ena, que sempre vai viver no SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Na dúvida, cante, sambe e celebre

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei se peço ajuda aos santos, apelo para meus orixás, adoto a postura de meditação dos budistas, entoo um mantra hindu ou tudo ao mesmo tempo. Assim, junto e misturado que é pra fazer efeito.
Estou igual a minha canga, toda embolada quando tento acomodá-la nas areias cálidas da minha praia recém saída de um longo período de quase uma semana de chuva fina e/ou tempo nublado e/ou tempestade, a escolher no período a que me refiro. Estou como o mar, querendo se ajeitar, amansando seus desejos e rompantes mas, ainda, turvo com os resquícios da chuvarada.
Respiramos fundo, o mar e eu, procurando dominar nossos instintos mais selvagens e profundos, cuspindo o lixaredo que tentam nos impingir. Corpos vivos seletivos que ambos somos.
Cheguei aqui com uma história carnavalesca na cabeça, mas relutante em conta-la esta semana. Preocupada com meus assíduos leitores, talvez cansados do meu eterno carnaval. Minha anti-auto-censura argumentando que nunca fui nem serei escrava das efemérides ocasionais para tratar de qualquer assunto. É claro que procuro não desagradar meus editores e, antes de qualquer observação nesse sentido, lembro que o público tem o direito de tomar conhecimento de que carnaval se faz o ano inteiro. O que, inclusive, explica essa verdadeira cachaça cultural do brasileiro.
O gran finalle é lembrar que estamos no Dia Nacional do Samba, em pleno 2 Congresso Nacional do dito cujo na abençoada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
E aqui, faço dos versos do samba da Gres. Mangueira 2012 as minhas orgulhosas palavras: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou…” E se prepare, acrescento eu, sem nenhuma pretensão poética, mas cheia de moral profética: Aguarde, por que o céu é o limite e as estrelas nossas guias nessa viagem que, cada vez atinge mais lugares no mundo, agregando novos e apaixonados adeptos.
Somos a maior vitrine da cultura popular brasileira, alavanca de signos e tendências nacionais. Pela festa e para a festa expomos e traduzimos em arte nossa pra gringo ver, opiniões, mazelas e orgulhos, discutidos e esmiuçados em forma de enredo.
E isso não se faz só na temporada do “vamos falar de carnaval”. Tá bom que também é preciso descanso, uma pausa para respirar, um tempo para tirar a fantasia do carnaval que passou e começar a imaginar o que será o tema da festa que virá, antes de cair de boca na sua produção. Isso é lá pelo mês de abril e já com algumas escolas de samba tendo anunciado seu enredo seguinte.
Esse é um dos segredos do sucesso do carnaval carioca: um calendário de trabalho. Nem que seja imaginário, por ele só se torna real com as entradas de dinheiro para sua execução. E chegamos, assim, ao próximo ponto. O patrocínio que acaba possibilitando o desenvolvimento e o crescimento da festa é o mesmo que interfere e aprisiona as temáticas e enredos das agremiações que o recebem.
Olho pro alto. Enquanto escrevia o tempo fechou sobre o céu da minha canga esticada na marra. O espaço ficou exíguo no meu minifúndio semanal de duas laudas para desenrolar essa história!
Por isso, informo que, as séries “Ponta do Leme”, “Parador Cuyabano” e “Fronteira Oeste do Sul”, a bordo no Sem Fim… acrescento uma nova linha.
“É carnaval” vai juntar o que escrevi, desde 2005 sobre o tema e o que, com a concordância dos meus leitores, a quem peço humildemente passagem, ainda relatarei sobre a parte que mais amo na folia: o fazer carnavalesco.
Salve o Dia Nacional do Samba, dedicado a todos os bambas que fazem da festa nossa de cada dia uma eterna folia!
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Quem te viu, não pode mais ver..

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Existem coisas que os olhos não devem mirar, aquelas que pra entender… Sei lá, não sei não, por que não cabe explicação.

Foi assim na homenagem à Delegado, lendário Mestre Sala e Presidente de Honra da Estação Primeira de Mangueira, no sábado seguinte da sua partida. Tudo era igual, mas muito diferente.

Na abertura da noite, a imensa bandeira mangueirense que cobre o fundo da quadra, se abriu ao som da Surdo Um, a bateria comandada por Mestre Aílton. Como sempre… A roda se armou, os segmentos se posicionaram e abriram espaço para que as baianas pudessem iniciar os trabalhos.

Todos sentiam a falta de Delegado, sempre sério e compenetrado com seu bastão, apito, chapéu e a faixa de Presidente de Honra da escola para a qual trouxe, durante tantos carnavais, as notas máximas no seu quesito. Estava nos olhos de cada um, assim como nas vozes que, em uníssono, louvavam o amor maior do Mestre Sala. Era um canto forte, um canto alto. Para ser ouvido por todo lado. Inclusive lá onde, agora, Delegado se encontra cercado de bambas que fizeram a história da festa que virou o maior espetáculo popular da terra.

Era do lado direito da quadra, numa mesa de pista que ele costumava acompanhar os ensaios, antes e depois de comandar a roda. Ali, agora, só Suluca, sua irmã, cercada de crianças e adolescentes da família, até ser convocada para receber as reverências, depois de Ézio, um dos filhos de Delegado, cantar um samba (é claro!) inspirado em Hegio, que virou Delegado por “prender” as mulheres. Era hora de homenagear!

Do lado oposto, embaixo do palco, a Porta Bandeira Marcella Alves recebeu o pavilhão da Mangueira e saudou seu par, Raphael Rodrigues. O casal atravessou bailando o espaço aberto no meio da roda. O público vibrava, cantando e dançando sambas que fizeram de Delegado a lenda por todos cultuada.

Estranho não encontra-lo, mãos estendidas para o alto, o bastão apontando o céu, antes de cruzar os braços sobre o peito e baixar a cabeça para saudar, com um beijo, o pavilhão que sempre apresentou e protegeu.

O teto retrátil da quadra estava aberto. O detalhe foi notado apenas por que, quando o casal se aproximou para saudar o grupo, uma garoinha começou a cair, quase imperceptível. E rapidamente aumentou… Ivo Meirelles, presidente da escola gesticulava, pedindo para que o fechassem. Mas não era isso que os deuses do samba e seus representantes celestiais queriam. O sistema não funcionava. E a água, que lavava corpos e almas dos mangueirenses saudosos, só apertava!

O piso molhado era riscado pelos pés ágeis, num bailado possuído pelas forças da Mangueira que se juntavam no céu e na terra. Cada gesto, cada voleio de Marcella e Raphael passou, literalmente, a ter um peso diferenciado. O pavilhão encharcado ganhava uma nova força. Nele, se concentrava o encontro dos bambas do passado com os sambistas do presente da verde e rosa. E ele voava nas mãos da Porta Bandeira, seus súditos aspergidos e abençoados com chuva que, agora, despencava do céu, sem dó nem piedade…

Muitos viram. Não sei quantos sentiram o momento em que, ao som cada vez mais forte e apaixonado do cantar do Morro da Mangueira, fomos todos elevados à categoria de uma nação. Um povo que, diante da perda de um baluarte, se une, supera e celebra seu mundo, o do samba, através da música, da dança e do amor por sua história, ali reverenciada.

As lágrimas corriam, misturadas ao suor, e se diluíam com a chuva redentora, mensageira e pacificadora. A dor da ausência aliviada pela mensagem celestial.

De alma lavada, o peso da perda ficou mais leve diante da beleza dos reflexos da água da chuva nos corpos e  gestos do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira que, ali, representava e cultuava a arte maior de Delegado, o Mestre Sala nota dez da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Quem semeia sonho colhe carnaval

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na apresentação das agremiações elementos obrigatórios e também as inovações são julgados pelos jurados que escolhem a escola campeã do Carnaval Carioca.

Mas como se constrói o sonho apresentado no desfile, que, em seus quesitos, bota em julgamento a Porta Bandeira e o Mestre Sala, que carregam e zelam pelo estandarte do pavilhão da escola, a Comissão de Frente, grupo que a apresenta para o povo, a bateria responsável pela cadência dos desfilantes, e tantos outros?

A parte plástica dos carros alegóricos, alegorias, adereços e fantasias, usadas pelos foliões, é feita com o esforço conjunto de ferreiros, carpinteiros, pintores, aderecistas, costureiras, escultores e outros artesãos que trabalham meses a fio (olha ele!) na construção da proposta imaginada, planejada e desenvolvida pelo carnavalesco no barracão da Cidade do Samba. É o corpo pulsante por onde circula o sangue da folia bombado pelas centenas de trabalhadores que transformam materiais primários, brutos, em elaborados trabalhos artísticos para  retratar o enredo proposto pela escola de samba e apresentado na Sapucaí.

O projeto do desfile é criado, desenvolvido e construído com muita disciplina, criatividade e técnica. Da criação à finalização do trabalho uma série de etapas tem que ser vencidas de forma mais ou menos sincronizadas, mas com data marcada para  brilharem na passarela carnavalesca.

A Cidade do Samba, na zona Portuária do Rio de Janeiro, próximo ao Sambódromo, é, desde 2006, a conquista mais significativa para a evolução da festa. Nela, estão reunidos os 12 barracões das Escolas do Grupo Especial. Projetados para transformar em realidade com tecnologia e num espaço apropriado os sonhos e delírios dos criadores do espetáculo.

As instalações dos barracões aprimoram o processo produtivo. Ele evolui do desenho para o projeto técnico, ferragem, madeira, empastelamento, pintura, adereçamento, iluminação e o deslocamento para o local do desfile, no caso dos carros alegóricos. Nas fantasias, do desenho para o desenvolvimento dos protótipos, modelagem, corte, costura, montagem, adereçamento, embalagem e sua distribuição para os componentes.

Precisei de 1200 imagens para traduzir, em sessões, a evolução da construção de um único carnaval de um só barracão, o da Mocidade Independente de Padre Miguel. Também fotografei os ensaios técnicos e o desfile da escola no Sambódromo. Estas, são outras tantas centenas de imagens.

Dissequei o processo seguindo uma norma: nunca interferir, dirigir ou compor as imagens a serem captadas. Apenas explorar numa sequencia semi-ordenada (a ordem no espaço se modifica com o andamento dos trabalhos), em 16 visitas, cada centímetro dos 7 mil metros quadrados dos 4 andares do barracão que construía o enredo de Cid Carvalho, A PARABOLA DOS DIVINOS SEMEDORES, apresentado em 2011.

Outros já exploraram os barracões. Poucos por tanto tempo. Nenhum, acho eu,  com tanta regularidade e tão detalhadamente.

É um mundo. Quente, suado, com cheiros fortes das resinas, colas, fibras e tintas. Surpreendentemente caloroso e amigo depois que os artesãos se acostumam com a peregrinação semanal pelos setores de trabalho e começam a interagir com a câmera fotográfica.

É a vida plena, absoluta em seu momento catártico de explosão e construção criadora. Ingrata e inconstante por, a cada ano, trocar de enredo e fantasia para seduzir seus foliões.

Dizem que esse trabalho é um “acervo imagético”. Prefiro dizer que é um imenso e delicado tecido composto por fios tramados pelo amor e a dedicação do incrível e generoso povo do samba carioca. Maravilhoso, como a minha cidade!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Nossas intimidades mudando de nome

Por Marli Gonçalves

Antes a gente dizia: “Quer aparecer? Amarra uma melancia no pescoço!” E dava risada com a ideia improvável de ver essa cena. Hoje, ao contrário, há controvérsias. O cara pode seguir o conselho. E coitadas das frutas, hortaliças e legumes! Agora entraram definitivamente no descritivo de partes do corpo humano. Não bastassem as mulheres fruta, melancia, pera, morango, homem berinjela, essa semana apareceu a mulher couve-flor, ou melhor, a mulher com uma couve-flor. Ops, mais: a mulher ex-couve-flor.

Eu já estava cansada, era tarde, quando fui dar uma espiadinha no Twitter, ver o que rolava, quais eram os assuntos do dia. Ao ver nos trending topics, (termos mais comentados) o nome da Geisy Arruda, a rosácea loirosa sempre em busca de retorno à fama, que lhe é sempre efêmera porque bate mais a cabeça do que a usa, e ir saber do que se tratava, fiquei meio em choque com a insanidade humana. Dei de cara com uma foto dela, deitada, toda estropiada, cara remendada, olho inchado. Acompanhava uma entrevista na qual o QI de sempre-viva amarela anunciava ter feito de uma vez só várias plásticas, inclusive uma íntima. Mas logo definiu o termo “cirurgia íntima”.  Informava exatamente que tinha operado a vagina porque esta parecia uma couve-flor, ela a achava feia, emboladinha. Que os lábios eram todos grandes, muito volumosos, e por isso até pedia para que seus parceiros não olhassem. Socorro!
Nem preciso dizer o nível dos comentários gaiatos que se espalharam, dos quais me absterei. Mas não posso deixar de pensar que o conceito de intimidade mudou completamente. Terá ela combinado com o médico que a operou que daria uma declaração dessas, “todo mundo” ia comentar e ela pagaria assim as tais cirurgias que duraram sete horas – verdadeira imolação; quase mutilação?
Se for, não há mais limites mesmo.
Mas boba eu, né? Já faz tempo que ninguém precisa mais da melancia para aparecer. Basta se deixar fotografar assim como quem não quer nada. Viu as fotos da tal Nana Gouveia posando de bonita no meio da catástrofe nos Estados Unidos? Pode-se também soltar a voz sem pensar. Distrair-se sem calcinhas.
Ou aparecer como Lady Gaga que, depois de ver que nem tinha tanto brasileiro otário para comprar ingresso para o show megalomaníaco dela, chegou aqui que só faltou, sei lá, dar no meio da rua, num lance e golpe de marketing surpreendente. Chegou dando tchauzinho. Foi pro hotel e começou a tuitar que nem louca. Botou faixa I Love na fachada. Apareceu de topless coberta só com uma toalha. Deu mais tchauzinhos para os coitados que estavam lá embaixo. Jogou lanche daquela rede americana pela sacada. Pôs peruca cor de rosa. Subiu no salto plataforma. E, claro, foi para a favela ver os pobres. Jogou bola. Tô dizendo: faltou dar; inclusive uma de Madona, sua rival, e arrumar um namorado brasileiro instantâneo. Um Maomé podia ele se chamar, talvez, para ser irritante com o Jesus que a outra usou e jogou por aí.
Mudaram também o sentido de exótico.
As tais redes sociais que se expandem a cada dia devem ser culpadas. Só podem ser. Tem gente que precisa tanto dar satisfação do que faz, que passa o dia dizendo “vou até ali…”, volto tal hora, comi isso aqui ( e taca foto do sanduíche horroroso,porque comida tem que ter fotografia especial para ser atrativa), meu cachorro piscou, meu cachorro dormiu. Já vi caso de gente xingando a mãe, postando documentos jurídicos, juro! Isso sem contar na manipulação de relacionamentos. Eu te excluo se rompo com você, para você saber, para sofrer – me explicaram como funciona.
Lembrei-me de uma professora, Claudia, que amava muito, do primeiro ano da faculdade de comunicação, e que dava aula de Teoria da Informação. Como se fosse hoje, recordei da aula sobre espaços íntimos e o comportamento humano. Os espaços sociais. Entendi ali os comportamentos dentro de um elevador, quando a gente não sabe para onde olha, o que faz, quando está com mais alguém estranho. Esse é o espaço íntimo, do grudado, até uns 15 centímetros, nossa couraça, que a gente fecha e só deixa entrar quem quer, se possível for escolher. Dos 15 cm a 1m20 é o espaço pessoal, pode ter toque, avaliação física, uma conversa mais particular. O espaço social vai de cerca de 1m20 a 3m60, para interações com mais pessoas ou palestras. Já o espaço público, distância de 3m60 ou mais de nosso corpo, serve para reuniões com estranhos ou mesmo para fazer discursos. A gente aqui e a plateia lá.
Essas novas subsubcelebridades estão subvertendo a coisa e o que é pior, isso está pegando. Basta correr os olhos nos portais. Ver os motivos dados aos papparazzis, esse pega para capar e fotografar. O importante é ser notado.
Nessa mesma semana, por outro lado, foi aprovado um projeto importante de punição para crimes cibernéticos, garantindo a inviolabilidade de certos meios e penalizando quem se enfia em espaços íntimos – digamos, não liberados. Condena quem calunia e difama por meios eletrônicos, quem invade sistemas, seja para o crime, com uso de senhas, seja para o roubo de informações, como foi o caso das fotos da atriz Carolina Dieckmann, que inclusive dá nome à lei, que só andou porque ela gritou mais alto. Repercutiu.
Pensando bem, quem sabe essa lei também não possa nos proteger – a nós todos – de informações e imagens como essa da couve-flor?
Senão, teremos de nos mobilizar rapidamente para incluir uma emenda garantindo a nossa sanidade diante da loucura. Loucura que fez virar fichinha o girassol da lapela do Falcão, as roupas e a buzina do Chacrinha, as perucas da Elke Maravilha.
Esse povo novo quer que a gente saiba coisas muito internas deles, até se usam ou já usaram, como virgindade leiloada em praça pública. Internas até demais.

São Paulo, sacolão, 2012

Marli Gonçalves é jornalista Descobriu que tem um site http://desciclopedia.org/wiki/Deslistas:Nomes_populares_para_a_vagina– que listou quatro mil nomes para o órgão sexual feminino, do qual muitas das próprias tem vergonha e, pasmem, muitas nunca nem olharam para a sua própria. Nem para compará-las a qualquer hortifruti.