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Florestas urbanas

Belém 150915 068 Bosque Rodrigues Alves Iara lago amazôniaTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Há mais em Belém do que se imagina numa primeira abordagem. A cidade em 2016 comemora  400 anos da sua fundação e foi considerada, na época da áurea do extrativismo da  borracha, de 1890 a 1920, a “Paris n’América”. Pensam que é pouco?

Foi do “Bois de Bologne”, da Cidade Luz que veio a inspiração para a reforma do Parque Municipal, criado em agosto de 1883. Antônio Lemos, intendente municipal, o transforma no Bosque Rodrigues Alves, hoje reconhecido como Jardim Zoobotânico da Amazônia.

Passear por sua área de 15 hectares, é uma viagem à floresta amazônica, com direito a alamedas, viveiros, monumentos e recantos com grutas, riachos e cascatas. São mais de 10 mil árvores, de aproximadamente 300 espécies da região, incluído algumas em extinção. Caso do Cedro, Anjelim Rajado e Talibuca. O clima fica completo com 430 animais, de 29 espécies, que vivem em cativeiro. Outras 26 circulam livremente pelo espaço. São aves, répteis e mamíferos regionais coexistindo em perfeito equilíbrio com a natureza.

Pereira Passos, em 1905 faria a reforma urbanística do Rio de Janeiro. O prefeito carioca se inspirou e bebeu da mesma fonte que o responsável pelas mudanças urbanísticas que até hoje caracterizam Belém. Antes disso, a capital do Pará já havia partido na frente: foi a primeira cidade brasileira a ter luz elétrica e linhas de bonde elétricos. Era o auge do Ciclo da Borracha, em plena Belle Époque.

Da Europa chegam máquinas e peças de ferro, oriundas das mudanças provocadas pela Revolução Industrial. Muitas dessas estruturas podem ser vistas pela cidade. Entre elas o Chalé de Ferro, pré-fabricado e trazido da Bélgica. Montado entre 1882 e 1900, com 378 metros quadrados, serviu de residência e foi realocado no Bosque Rodrigues Alves.

Todo o complexo, que também é um campo de estudos e cultivos de mudas, é responsabilidade da Prefeitura Municipal e gerenciado pela Secretaria de Meio Ambiente.

Um Parque Zoobotânico está bom? Está não… Belém tem, além do Mangal das Garças, (já devidamente destrinchado em “Céu na terra”), mais um lugar especial para interagir com a grandiosidade da natureza local.

O Museu Emílio Goeldi, instituição de pesquisas ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, se dedica, desde 1866, a estudar cientificamente os sistemas naturais e socioculturais da Amazônia. São mais de 5 hectares com  2 mil espécies, 600 exemplares da fauna e muitas atividades. Entre elas, exposições sobre temas locais, como “Amazônia, o homem e o ambiente” que ocupa uma das quatro salas do prédio principal, conhecido como Rocinha.

Destaco a recepção proporcionada por Rafael, um dos integrantes do Clube do Pesquisador Mirim. Nos abordou uniformizado, de prancheta na mão, querendo que respondêssemos a algumas questões sobre o parque, seus animais e nossas expectativas em relação ao passeio. Compenetrado, nos acompanhou mostrando algumas das atrações que mais gostava. Explicou que não havia chegado ao clube pela escola, mas pedindo que sua mãe o levasse até o Museu depois de assistir na televisão uma reportagem sobre as atividades dos participantes. As matrículas anuais estavam abertas. “Não parei de perturbar até ela me trazer. Estou adorando.” A ação educativa começou em 1997 e, de lá para cá, foi definitiva na escolha da profissão de inúmeros estudantes que passaram pelo clube. Muitos seguiram carreiras nas áreas de Zoobotânica, alguns São profissionais ligados a instituição.

Talvez esteja na hora do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes fazer uma visita a Belém do Pará para entender como é essencial a existência de um zoológico para uma comunidade. Quem sabe, não volte de lá com noções de como manter esse tipo de estrutura sem precisar entrega-la à iniciativa privada. Todos os espaços aqui citados pertencem e são geridos pelo poder público. Vivendo e aprendendo…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

PARAiso dos sabores

Belém 150914 017 Bar do Rubão fogão caranguejoTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Se é Nossa Senhora de Nazaré no céu durante os festejos do Círio, também é gula (que Deus nos perdoe)  aqui na terra. Quem resiste aos encantos culinários de Belém do Pará? Nem eu que não sou lá grande coisa quando o assunto é gastronomia. M sinto impedida por um fato prosaico: não como frango, galinha, nem nada que voe. Falamos da terra do Pato com Tucupi, captou?

Vou começar pelo fim e num lugar bem fácil: a óbvia e imbatível sorveteria Cairú, na Estação das Docas (sonho de consumo de cidades como o Rio de janeiro, um enorme complexo turístico cultural composto por três antigos armazéns, ao lado do famoso Mercado Ver o Peso e da Cidade Velha e seus monumentos). Meus preferidos são o picolé de Tapioca e o sorvete Carimbó: castanha verde com geleia de cupuaçu. Meu Deus! De comer ajoelhada e repetir várias vezes.

Sabia que ia voltar ao “Lá em Casa”, no Armazém 2, o Boulevard da Gastronomia, de Daniela Martins. Primeiro passei num almoço, tipo self-service. Melhor o clima da noite, mais aconchegante e tranquilo. O Filé Ilha do Marajó, prato da Boa Lembrança, tem geleia de cupuaçu, pimenta rosa, queijo do Marajó e jambu.

Demorei a entender por que às cindo horas da tarde, num calor mais abafado do que deveria ser (considerando que dos 10 dias que passei, só duas vezes choveu no horário costumeiro e num outro dia já de noite), vinha o convite para irmos tomar um Tacacá. Caldo de Tucupi sobre a goma de tapioca, jambu, chicória, camarões, etc, etc. No segundo chamado no mesmo horário incomum foi que deduzi que esse é um costume local e, assim sendo, fui introduzida no metier na hora que, na Inglaterra, é costume tomar o chá das cinco. Numa calçada da Avenida Nazaré, no Largo Redondo, em frente ao colégio Nazaré, fica o Tacacá da dona Maria. Peleio para me entender com a cuia, cestinha, palito e, fundamental, muito guardanapo. Não há como negar que é soberbo!

Também tem o Açaí. No Point Boulevard ele vem com tudo: tapioca e farinha d’agua. Acompanha o Filé de Pirarucu com vinagrete, arroz, farofa. Isso após um passeio pelo variadíssimo Ver-o-Peso, o entreposto fiscal fundado em 1625 para aferir os produtos e pagar os impostos para a coroa portuguesa que se transformou na maior feira livre da América do Sul, com seu estilo Belle Époque. Fartura e variedade de produtos, cheiros e coisas que nunca se viu na vida.  Vai Pitaya ai?

Outro lugar muito agradável é o Restô do Parque, no mesmo espaço da Estação Gasômetro, o Parque da Residência, antiga Casa dos Governadores. Um buffet à quilo, da rede Pommed’Or. Tanto aqui quanto no Manjar das Garças o quesito visual é nota dez. No restaurante do Mangal das Garças, o buffet é a preço fixo, o que, no meu caso, não é muito interessante.

A não ser… no lugar que deixei por último. O Bar do Rubão, na Travessa Gurupá, Cidade Velha. O “carnavalesco e cozinheiro” me pegou pelo sorriso e também pelo estômago. Bati ponto. A primeira vez, para experimentar o caranguejo desfiado com farofa. Depois, numa madrugada, foi a vez da singela e reconfortante sopa de caranguejo.

A última investida foi durante o Projeto Circular em que conheci a Casa Stúdio de PP Condurú, depois de visitar a Elf Galeria, de Lucinha Chaves, na Passagem Bolonha, e aKamara Kó, galeria de fotos ali mesmo, na Cidade Velha. Pois chegamos nas mesinhas colocadas na calçada dispostos a experimentar o Pirarucu de Casaca. Pura ilusão. Pauta para a próxima visita. A iguaria havia acabado logo no início dos trabalhos. Além do caranguejo de consolação, fui apresentada ao Camusquim, macarrão com molho branco e camarão. Li em algum lugar que é prato típico do Marajó. Uma coisa!

Mas não é tudo. E aí, um toque que faz de Belém um local para todos os tipos de paladares. Foi no Bar do Rubão que comi uma das melhores batatas fritas que já provei na vi-da. Crocante por fora e um cremezinho por dentro. Viciante. De dar água na boca só de lembrar.

Belém é um PARAiso dos sabores para todos os gostos…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

Belém 150914 016 Bar do Rubão  e cozinha

Céu na terra

Belém 150915 119  Mangal das Garças ave laranjaTexto e foto sobre Belém, de Valéria del Cueto

Belém do Pará é um lugar multifacetado e isso é apenas uma de suas seduções. Outubro, o mês de sua maior festa, o Círio de Nazaré. A cidade se engalana para receber os romeiros e devotos da santa.

Antes do início da festa, no intervalo após o Festival de Ópera do Theatro da Paz, Belém é deliciosamente calma. Bem diferente do agito social frenético que domina as festividades religiosas.

Um ótimo momento para explorar o Mangal das Garças! Era desejo antigo guardado para quando tivesse tempo sobrando para sintonizar e realinhar as energias com a natureza exuberante. O espaço, aberto em 2005, ocupa 40 mil metros quadrados na margem do rio Guaná, ponta da Cidade Velha, ao lado do Arsenal de Marinha.

O Memorial Amazônico da Navegação apresenta os elementos dominantes no meio de transporte que forjou Belém: o militar(Marinha), o comercial(ENASA) e o regional. A estrutura do prédio, em Ipê, e seu telhado de palha se integram com os objetos exibidos. Destaque para as peças refletidas em espelhos e enquadradas pelas laterais vazadas da construção. Um divertido exercício fotográfico, antes de uma mudança radical nas dimensões exploradas.

É no alto do Farol de Belém, outra das atrações pagas, assim como as demais visitas monitoradas, que temos uma ideia do espaço geográfico onde está encravado o Mangal.

O rio, o projeto arquitetônico do Parque Naturalístico (capitaneado por Paulo Chaves Fernandes, secretário estadual de Cultura) e a cidade de Belém, dominada por suas maravilhosas mangueiras, se descortinam de 47 metros de altura, no topo da torre da caixa d’água que abastece todo o complexo.

Os Lagos Cavername, da Ponta e o minizoológico, onde os animais interagem ou ignoram solenemente os visitantes, são os recantos referenciais do espaço gratuito concebido para apresentar as matas de terra firme, de várzea e os campos: componentes do ecossistema amazônico.

Aberto das 9h às 18h de terça a domingo, a partir das 7h está liberado para caminhadas. Também é possível acompanhar diversas atividades relacionadas ao cotidiano local como alimentação de peixes, tartarugas e garças, no Recanto da Curva, e soltura de borboletas, no Borboletário.

Se a sintonia for fina, a energia boa e a paciência muita, é possível “dialogar” e clicar garças, maguaris, socós, marrecos, tartarugas, iguanas que “ocupam” o espaço.

Dois viveiros, um de pássaros, outro de beija-flores e borboletas, podem ser visitados. No dos pássaros, conta seo Carlos, o encarregado, estão abrigadas espécies recolhidas pelo IBAMA e ainda incapazes de voltarem para a natureza. Do órgão também vem a madeira apreendida nas operações contra o desmatamento utilizada na conservação e manutenção do parque e seus equipamentos. Pelo menos uma vez por ano, por causa das chuvas, parte das estruturas de madeira tem que ser substituída para segurança dos visitantes: aves, animais e turistas.

O restaurante Manjar das Garças, com um visual incrível, e o Mirante do Rio, projetado sobre o Guaná no final de uma passarela de 100 metros sobre os mangues com sua vegetação típica, o aningual, são outras atrações a serem exploradas. Tudo num tempo próprio, onde a luz modifica o ambiente e cria efeitos diferentes no correr do dia. O Armazém do Tempo, no galpão de ferro da ENASA, Empresa de Navegação da Amazônia S/A, usado como oficina mecânica e de reparo de embarcações, transformou o ambiente restaurado num espaço de exposições e venda de produtos indígenas.

Criado há dez anos, o Mangal das Garças é, sem dúvida, um referencial urbanístico brasileiro. Integra a comunidade, permite a interação homem/natureza e explora de forma sustentável as belezas da Amazônia.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Cine Ópera

Belém 150919 076 Theatro da Paz Festival de Ópera encerramento

Texto e foto sobre Belém, de Valéria del Cueto

Belém do Pará estava na mira fazia tempo. Só faltava o motivo inadiável para uma nova aventura amazônica. Que tal a estreia do cineasta  Fernando Meirelles, indicado ao Oscar por “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”, na direção de uma ópera? No caso, Os Pescadores de Pérolas, de Georges Bizet, destaque do XIV Festival de Ópera do Theatro da Paz.

Antigamente chamaríamos de combo ou “três em um”, o que hoje é multimídia mesmo. Inclusive geográfica. A exótica ilha do Ceilão onde se passa a narrativa é representada no palco, nas finas telas transparentes de cinema que compõem a cenografia assinada por Cássio Amarante, por planos rodados no Jardim Botânico Amazônico de Belém, o Bosque Rodrigues Alves.

A cena abre com uma imensa projeção remetendo ao fundo do mar e o trabalho dos mergulhadores que exploram as profundezas em busca das valiosas pérolas.  As soluções pesquisadas na medida em que o livreto de Eugene Cormon e a música de Michel Carré foram sendo decupadas, segundo Meirelles, servem para aproximar o público da trama que envolve os amigos Nadir (Fernando Portari, tenor),  Zurga (Leonardo Neiva, barítono) e as consequências de suas paixões pela mesma mulher, a  sacerdotisa Leila (Camila Titinger, soprano).

Extrapolando o espaço cênico e “ocupando” a plateia é criada a sensação de que os assistentes fazem parte da comunidade de pescadores de pérolas que, ao descobrir que a sacerdotisa e Nadir haviam traído os votos necessários para proteger a aldeia e favorecer a pesca, comandada pelo sacerdote Nourabad (Andrey Mira, baixo), exige o sacrifício dos amantes.

Caberá a Zurga que se sente traído pelo amigo num antigo pacto, condenar os amantes: morte, ao raiar o dia, logo que o sol se levante. Mas, ao reconhecer no colar entregue por Leila para ser levado para sua família, como o que ele deu a menina que anos antes salvara sua vida, o líder dos pescadores toca fogo na aldeia e facilita a fuga dos amantes, antes de reconhecer para os aldeões ser o autor do fogo que consumiu seus lares e enfrentar as terríveis consequências de seu ato.

O Coro Lírico, conduzido pelo maestro Vanildo Monteiro, tem papel de destaque assim como a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, regida pelo jovem  Maestro Miguel Campos Neto. A apresentação, mesclando nomes conhecidos no cenário de ópera nacional e valorizando os talentos do canto lírico local, foi inesquecível. Aplaudida de pé nas três récitas lotadas por um público exigente e ávido de boa música.

O XIV Festival se encerrou no dia 19 de setembro com um concerto ao ar livre, na frente do espetacularTheatro da Paz, com a apresentação peças do repertório lírico. Para fechar a edição que antecede as comemorações dos 400 anos de Belém, na execução do hino do Estado do Pará, uma imensa bandeira paraense foi desfraldada, cobrindo a fachada de arquitetura neoclássica, inspirada no Theatro Scalla de Milão, na Itália. Lindas as expressões de orgulho nos semblantes dos que aplaudiam a performance.

Tanto as récitas de “Os Pescadores de Pérolas”, de Bizet e “A Ceia dos Cardeais”, de Iberê de Lemos, como o Concerto de Encerramento que compuseram a programação entre o dia 7 de agosto e 19 de setembro de 2015, deram a dimensão do trabalho de excelência que vem sendo desenvolvido nas 14 edições do Festival de Ópera do Theatro da Paz, promovido pelo governo do Estado do Pará, através da Secretaria do Estado de Cultura, sob a batuta do arquiteto Paulo Chaves Fernandes.

Ano que vem, nas comemorações dos 400 anos de fundação da surpreendente e pujante Belém do Pará, podem ter certeza: estarei novamente na plateia aplaudindo a uma nova e, certamente, empolgante aventura lírica no maravilhoso espaço concebido pelo engenheiro militar, José Tibúrcio de Magalhães, no auge do Ciclo da Borracha.

A César o que é de César…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Passarins pasarán

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Passarão era o rei da voz. Incontestavelmente. Sabia de suas qualidades e fez jus ao título enquanto intérprete da trilha musical. Empoleirado no alto do alto do Jequitibá encantava toda a floresta.
Tinha ajudantes. Seu segundo, Passarito, ciente do seu papel, conhecedor do seu lugar. Sabia quando e onde pontuar as melodias tão belas que representavam a rainha das flores, a rosa formosa.
Era um prazer ouvir a sinfonia. A floresta se animava se sentindo estimulada e afagada pela cantoria magistral dos pássaros. Quase um feitiço.
Um dia chegou o dia de Passarão cantar para subir. Era esperado. Seu tempo, esgotado. Partiu. Houve gurufim e homenagens. Passarito assumiu o posto vago.
Dias antes de sua primeira apresentação a frente dos pássaros cantores, num ensaio técnico, passou mal. Coração disparou e quase saiu do peito. No céu, carimbaram o passaporte celestial de Passarito. O que estabelecia o caos no conjunto do desfile e falha na harmonia. Mas era vontade do Criador.
Só que… O anjo encarregado de conduzir Passarito em sua passagem havia chegado mais cedo e assistido extasiado ao ensaio final do espetáculo, no palco não totalmente iluminado, mas tomado pela imensa emoção. Naquele momento, seu coração inebriado de anjo se tomou de amores pelas cores e o perfume da flor verde e rosa e não achou justo que Passarito faltasse ao compromisso assumido e esperado por tanto tempo.
Quebrando a regra número um dos condutores das boas almas resolveu dar um perdido nas instâncias mais elevadas e soprou novamente a vida pelo bico de Passarito. Este, desperto e animado, não parou mais nem deixou em nenhum momento de fazer por merecer a confiança do anjo.
Anjo protetor por seu ponto de vista, mas traidor pela ótica do Primeiro e Único.
Por muito tempo infinitos afazeres tiraram o foco e a atenção do Altíssimo para o desvio, vamos chamar assim, que havia acontecido.
Passarito, ave boa e cantadeira, espalhava alegria e fazia por merecer seu tempo extra no plano terreno. Não havia uma melodia melhor do que outra, nem emoção maior do que poder soltar seus gorjeios e trinados. Estes reverberavam pelas árvores para animar a vida de todos os seres da floresta. A cada verão uma nova canção para celebrar a alegria.
Até que um dia, chegou a hora de falar de Oiá. E quando Passarito abriu o peito e pediu forças ao Criador para, mais uma vez, elevar seu canto verde e rosa, Iansã soprou um vento empolgada e, pensando ajudar Passarito, fez seu pedido chegar lá no céu.
Céus! O que virou a notícia lá em cima. A pergunta que não quis calar foi: como podia estar faltando o trinado de Passarito no coro celestial? Então já não havia sido determinado que Passarito se juntasse aos “Bambas da Lira” tempos atrás?
Chamado aos costumes fez o anjo um “mea culpa” e surpreendeu o conselho dos arcanjos ao pedir perdão, mas sem se arrepender. Disse que qualquer punição é válida diante do prazer de ter acompanhado, durante o tempo de Passarito na terra, suas apresentações puxando gorjeios das almas dos bicudos voadores. Quase encantado…
Não teve nem tempo de argumentar. Enquanto tentava se defender, lá embaixo, Passarito partia. Sem direito a nem mais um minuto de acréscimo. Rapidamente ele foi catapultado para o nível superior e já caiu no meio da cantoria celeste festejado e arrebatado
No Jequitibá, ainda sentido, a passarinhada já segue a vida. Passanerey assumiu o posto de Passarito, que era de Passarão, e a responsabilidade de embalar o canto de Iansã na próxima apresentação. Será igual? Nunca! Mas não esqueça: “Passarins pasarán e sempre, para sempre, passarinharão…”
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM FIM… delcueto.word

Pura verdade

Arpoador 150529 011 andaime trabalhador pássaroTexto e foto de Valéria del Cueto

Pulava de um galho balançante para o topo do arbusto junto aa parede. De lá, para o xaxim da samambaia. Dele, cruzava o espaço num voo rápido para um pedacinho de terra, no pé de uma Felicidade.

Mirava com seus olhinhos assustados – e já estressados – sempre a maior porção possível de céu azul.

Lá no fundo podia vê-la.  Ia ele em sua direção e… “TABOUF”. Caindo desgovernado para um lado, asas desalinhadas do outro e aquela sensação de haver batido de frente com uma coisa muito, muito dura.

O barulhão já indicava o nível da porrada contra o que, até sentir nas penas e no corpinho leve e mirrado por elas protegido, era nada.

Agora, mais que uma pedra, havia uma barreira invisível e impenetrável no caminho de volta à liberdade.

Atordoado com as pancadas, assustado com os barulhos,  desalinhadas as plumagens encarregadas de sua engenharia perfeita de voo, o chão duro era o limite intransponível para o final da queda desajeitada por falta de tempo/espaço para realinhar a descida.

Doída e inexplicável.

Dizem que a curiosidade matou o gato. Pois fiquem sabendo que também foi ela que prendeu e desorientou o passarinho.

Pelo menos esse foi o caso…

Rompeu a barreira das casas empilhadas dos Joãos e Josés, não de barro, mas, sim, de cimento saindo do aconchego das árvores protetoras das ruas, ao entrar numa fresta entre dois poleiros de concreto. Trocou o corredor de árvores e abrigos por outro. Sempre imaginando o que havia por lá, do outro lado.

Nunca pensou entre em rasantes e embicadas que daria naquilo. Aquele quadradão inútil, uma selva de pedra com duas árvores e muitas divisões estéreis, pateticamente possuídas e pouco utilizadas em pequenos coletivos egoístas.

Primeiro um geralzão planando entre prédios e janelas, com direito a rasantes pelos tristes espaços vazios, em tons de nada, nem mesmo terra. Uns mais altos. Outros mais baixos. Num dos espaços um verde grama falso de carpete tenta engambelar os olhos e, certamente, não tem o mesmo efeito nos outros sentidos: tato, paladar, olfato. É plástico ou algo assim muito sintético e nada natural, experimentou.

A revista aérea continuou até descobrir uma variação nas cores, um algo mais. Numa altura maior, quase na quina do quadrado, florezinhas cor de rosa e arbustos sacudidos pela brisa convidavam a uma parada extra.

Foi lá que como Ivo, ele viu a uva, quer dizer, as plantas dentro da casa. Diferentes, variadas. Ia alcança-las. Rodeou, deu voltas e achou uma fresta. Mal sabia que disfarçada. Por ali não teria volta. Mas pra que? O céu azul estava ali, tão perto…

Bateu, tonteou, voltou, mirou com cuidado e mergulhou de novo. Perdeu o voo e despencou. E ali ficou. Desejando nunca ter entrado no paraíso.

Pancada daqui, confusão dali, o barulho finalmente atraiu uma boa alma que, depois de pelear um pouco com o pássaro assustado, abriu passagem escancarando as  janelas. Em mais uma tentativa (dessa vez meio cuidadosa, sem muito ímpeto devido aos efeitos das incontáveis trombadas anteriores) da ave, o céu inacreditavelmente voltou a ser o limite.

Ela aprendeu a lição: nesse mundo surpreendente, coisas que parecem não são exatamente. Nesses jardins individuais, feitos para suprir a ausência dos pés no chão, não há espaço para a fertilidade. E – quem não sabe? – onde a fauna não é bem vinda, a vida não reproduz. Esta é a mais pura verdade…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

O próximo pode ser o seu

Ipanema 150813 004 árvore copa delirioTexto e foto de Valéria del Cueto

Era a vez do dia de estender a mão. Já ouviu falar? Isso mesmo. O tempo de distribuir, aceitar e retribuir gentileza, agir com mais leveza. Não era um dia qualquer.

Você pode ter sido recrutado para exercitar seu espírito do bem. Mas lembre-se: não necessariamente combinaram o mesmo com os demais atores das cenas cotidianas vividas e observadas no entorno.

O telefone vai tocar muito cedo. Engano. Não dedique  ao descuidado que quer encomendar umas comprinhas no mercadinho palavras impublicáveis e indesejáveis para terceiros. Amigos, conhecidos ou inimigos. Interrompendo o ritual matinal, deseje um bom dia e excelentes compras, com o recebimento dos produtos bem fresquinhos, razão da ligação para o pedido “assim que o mercado abre”, explica a voz do outro lado, já querendo puxar assunto. Seja delicado, mas desligue. O dia mal começou…

Na entrada do edifício não se abale com a ausência do porteiro para abrir trancas e trincos, não contabilizados no tempo apertado para o compromisso. Pense positivo, tudo tem uma razão. Se o responsável está ausente é por desempenhar outra tarefa, mais necessária e urgente. O cara é do bem, não é de hoje. Dedique-lhe o melhor sorriso e deseje um espontâneo e sincero bom dia. Ele e todos nós merecemos.

Se na passada rápida para sacar dinheiro o sistema estiver fora do ar, releve. Tenha calma e um andar ritmado a caminho da próxima agência. Afinal são tantos estabelecimento. No seguinte pode ser que o sistema, agora no ar, possa ser acessado. Se o equipamento não estiver em manutenção.

Dirija-se gentilmente ao balcão e informe o problema. Mesmo sabendo que a atendente certamente perguntará se o problema não é do seu cartão, ou se ele está sendo usado de forma inadequada. Nada pessoal é claro.

Cumprimente a moça, trate-a com carinho. Pense em como deve ser a vida dela. Diariamente, todos os dias. Tudo bem, ela tem salário, coisa rara hoje em dia. Mas a que preço. Faça uma boa ação. Não discuta, não reclame, nem lembre que tem seus direitos. Líquidos,  certos, porém difíceis de serem garantidos no dia a dia. Até a moça reconhece  solidária, pensando nas suas próprias demandas reprimidas e incompreendidas.

Não é fácil ser informada pelo cliente da mesa ao lado que sim, o banco voltou a receber os pagamentos da operadora de telefonia no caixa. Até janeiro de 2016. A gerente não sabia… Também – console a moça – como saber de tantas idas e vindas, ainda mais com as mudanças sucessivas e o bate cabeça da economia nacional, internacional e, quiçá, planetária.

Saia do banco com um atraso insuperável para ser administrado, mas não deixe de desejar bom dia para o segurança da agência, enrolado com um cliente mais enrolado ainda com a porta-giratória, mochilas, chaves, celulares e afins. Sorria para ele também.

O dia começa quente e abafado. O trânsito engarrafado.  Mero detalhe. Dedique um olhar acolhedor para os ambulantes que povoam suas esquinas. Precisarão de boas energias para venderem e correrem do rapa. Mesmo que não pretenda comprar nada e quase tenha tropeçado nas mercadorias tentando alcançar o espaço exíguo que serpenteia entre as ofertas eles merecem um sorriso. O ritmo do dia se espreguiça. Mais leve, menos pesado.

É nas pequenas atitudes que podemos ser melhores.  Independentemente do que vem do outro lado. Quando as coisas não vão bem, nem mesmo a vida ajuda. Se o que temos pela frente não é aquilo que sonhamos, o truque é mostrar para a vida como a gente gostaria que fosse. Começando na forma delicada de tratar a vida.

Como aqui, como agora. Neste papel que, graças a Deus, aceita tudo. Incluindo o otimismo, boa vontade e pequenos gestos de gentileza.  Amanhã ou depois experimente. Faça do seu um dia de estender a mão. E… sorria!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A torre (ou quem “bejô”, “bejô”)

Aterro 150714 032 fitas delirio finasTexto e foto de Valéria del Cueto

Ela me encarava e eu olhava pra ela. Me desafiava. Meio de banda. Esbarramo-nos cada uma das muitas vezes que cruzava a avenida. Depois do segundo recuo de bateria antes da Apoteose estava encravada do lado esquerdo e se projetava sobre a pista nove metros, setenta e cinco centímetros abaixo.

Desfile vem, desfile vai, ensaios técnicos também. Um dia, depois de alguns carnavais, comecei a engendrar uma estratégia para escalar a estrutura abusada. Foi engraçado porque o problema nunca foi o eu encontraria lá em cima. Tinha certeza que a proteção seria segura. Quem colocaria em risco a vida de fotógrafos e câmeras que passavam os carnavais empoleirados no alto da passarela suspensa?

Para subir tinha que ter fôlego. Aprender a dividir o pequeno espaço dos degraus da escada que levava ao topo. Era gente subindo, gente descendo e gente que – como eu, descobriu as variadas possibilidades de planos nas grades abertas para a pista dos desfiles carnavalescos carioca.

Numa noite do início dos ensaios técnicos comecei a vencer os degraus que levavam a um dos mais belos ângulos do Sambódromo Darcy Ribeiro, na Marques de Sapucaí. Primeiro, com cara de paisagem, subi o primeiro e o segundo lance e me encostei na grade, já testando o novo ângulo. Na maior naturalidade.

Na cabeça passou um filminho de uma experiência meio aterradora que tive na famosa Sagrada Família, em Barcelona. Cheia de moral larguei meu acompanhante embaixo e, em busca de uma visão especial (que nem era tão sensacional assim já que as janelinhas das torres não dão um ângulo muito grande de visão), subi que nem cabrita a escada em caracol, numa das quinas da gigantesca construção inacabada, obra do arquiteto catalão Antoni Gaudí. Na volta vi que não havia corrimão interno. Ou seja, só havia um lado de parede para se encostar. O outro era o vazio. Com gente subindo e descendo. Resolvi o problema descendo de costas, como se estivesse subindo. Olimpicamente. Ninguém me conhecia. Um quase mico. Confesso, gelei.

E lá estava de novo disposta a checar todos os patamares (se necessário fosse) para subir na torre de TV. Ainda tinha alguns ensaios técnicos antes do carnaval. Só que alcançar ao topo não era tudo. Era necessário escalá-lo várias vezes. Se possível, uma a cada agremiação. Lembrando que antes do Grupo Especial  havia o Acesso com muito mais concorrentes por noite.

E fui treinando. A parte mais difícil foi a final, onde o corrimão fica tristinho e não chega na estrutura. Nem o batismo do fotógrafo Diego Mendes, que pulava do lado sem apoio, balançando toda a estrutura, me preocupou. O que arrepiou foi o dia em que, numa troca de lentes com uma escola passando, a 18/105mm escapuliu da minha mão e foi rolando pelo parapeito em direção ao abismo. Até levar um tapão do Henrique Matos que a arremessou para a parte de dentro da passarela suspensa. “Machucou” o engate e tive que lixa-lo depois. Mas poupou um acidente mais grave ao infeliz componente que levasse uma lentada na cabeça.  Dava pra matar, Deus meu!

Passei por ela na entrada do Samba In Rio, em julho,  toda enfeitada de fitas metálicas na cenografia de Milton Cunha para o evento. Enquanto o coro cantava no show de Alcione, a Marrom, fiquei hipnotizada pelos reflexos das fitas. Fotografei, com a Lumix compacta e seu zoom poderoso, a dança ao vento dos fios coloridos lembrando momentos dramáticos da verde e rosa que havíamos testemunhado juntas: aborboleta fujona que hipnotizada se recusava se desviar do encantamento das câmeras da torre no enredo “Cuiabá, um paraíso no Centro da América”, em 2013. O índio que perdeu a cabeça no carro de “A festança Brasileira cai no samba da Mangueira”, em 2014. A redenção veio com o voo emocionante da Águia da Portela nesse carnaval.

A torre me deu mais uma lição antes de ser derrubada. Fiz uma foto aberta, dela enfeitada. Mas, contrariando a regra básica, achei que não era relevante e(crime!) apaguei. Mal sabia que seria nosso último contato antes da sua demolição e que, comigo, só ficariam as serpentinas que a enfeitaram na festa derradeira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “É Carnaval” do SEM   FIM…   delcueto.wordpress.com

Saída educadora

Arpoador 150628 015 Pedra portuguesa preto e branco tampa bueiroTexto e foto de Valéria del Cueto

Bate panela, cuida a canela.

E todo mundo continua falando pra ninguém escutando. Cada qual com seus motivos, sem que nenhum esteja coberto de razão, enquanto a coisa degringola.

E não tem pai nem mãe pra botar ordem no salseiro, pegar a criançada pela orelha e deixar todo mundo de castigo. Cada um num canto da sala com o nariz virado pra parede. De pé e ca-la-do. Não, não pode mais!

Pode mãe de aluno entrar com ação contra professora porque esta pegou o filho daquela ouvindo música no celular na sala de aula e, como assim? Tomou o aparelho do estudante. Ora veja só!

Sorte que o juiz do caso colocou cada um no seu devido lugar ano passado.

Pode professor levando sopapo de aluno viralizado pelas redes sociais.

Podem 11 mil alunos fantasmas nas escolas de Mato Grosso assombrando a SEC com um desempenho pífio no ENEM.

O maior produtor agrícola do país não consegue transformar a ignorância?

Uma escola de Livramento, a 42 quilômetros da capital, logo ali, é a quinquagésima no ranking. De baixo pra cima.

Dizer que é a primeira vez que a unidade educacional participa do exame não é desculpa. Pior é dizer que com o problema detectado ela vai receber atenção especial. Todas nossas escolas precisam de atenção especialíssima.

Para ver se alguma consegue chegar antes do… milésimo quadringentésimo vigésimo oitavo lugar na tabela nacional. Porque hoje, nenhuma!

Todo mundo que mexe com a Educação tem que ser responsabilizado por seus atos e severamente punido por seus “malfeitos” e desvios. Grande, médios ou pequenos. Xilindró pro no povo! Cadeia pra quem é responsável por piorar o que já vai muito mal.

Aliás, punição para quem sai da linha em qualquer direção.

Esse é outro problema. A falta de direção. O trem desgovernou, o bonde passou e o tal VLT não chegou.

Feliz de quem está só com as contas das obras da Copa. Aquelas que fizeram, mais uma vez, do Aeroporto de Cuiabá que fica em Várzea Grande, o pior do Brasil. Pobre Marechal Rondon com seu prezado nome ligado a tanta má fama. Nossa porta de entrada para a Amazônia.

Imaginem que vem depois? O estado com maior número de queimadas do país. Ai meu Batalhão Florestal…

Em Brasília, pede-se encarecidamente que os ministros “deem o exemplo”(?!) enquanto o dólar sobe e os saques da poupança superam os depósitos em meigos 2,453 bilhões de reais em julho. Recorde negativo desde o início da série histórica (e bota histórica nisso) do Banco Central, em 1996. É o sétimo mês seguido de queda. Só esse ano, saíram dos cofres 40,9 bilhões para amenizar os problemas de grana dos poupadores.

Tá bom. Chega de falar de obstáculos. Nada de política, porque aí, o assunto vai longe e é indigesto para quem está querendo começar o fim de semana.

Falta menos de um ano para as Olimpíadas do Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa está um caos e temos manifestações para despoluir a Baía de Guanabara. Não para o evento esportivo, mas para o futuro…

Depois, vocês já sabem, vem a conta. Com todos os itens e subitens que tão bem estamos conhecendo. Afinal, mudam as unidades da federação. Já as empreiteiras continuam as mesmas…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Briga Boa

Orquestra 150714 054 Noemi partitura LUNA violonceloTexto e foto de Valéria del Cueto

As portas ainda fechadas da entrada principal diminuem a cacofonia sonora que invade a plateia vazia do teatro. No palco cadeiras são arrastadas e alinhadas, estantes montadas e, nelas, colocadas cuidadosamente  partituras musicais. Os monitores passeiam com seus diapasões eletrônicos entre os músicos afinando violinos e violoncelos. Grandes, médios e bem pequenininhos.

Os membros da orquestra chegam aos poucos e vão assumindo suas posições procurando ocupar da maneira mais confortável possível o espaço que lhes cabem no apertado latifúndio musical. O palco é o limite. Todos muito compenetrados, cientes de seus papéis. Alguns esticam o corpo corrigindo a postura para empunhar seus instrumentos.

O programa distribuído na entrada do Teatro do Centro Cultural Light, no centro do Rio de Janeiro, informa que o Núcleo de Vivência Musical da Rua Larga apresenta “Luna, um olhar sobre a Terra”, de Leonardo Sá, com a Orquestra e o Coro  Infanto-juvenil Maestro José Siqueira, regidos por Noemi Uzeda. O projeto é patrocinado pela Secretaria Estadual de Cultura do Governo do Rio de Janeiro, por meio da Lei de Incentivo à Cultura e a Light.

A orquestra de cordas é formada por 50 crianças, de 8 a 16 anos. O coro, da Escola Villa-Lobos, tem mais 30 componentes. Alguns dos talentos que estão no palco para o concerto cruzam sozinhos de um lado ao outro da cidade para participarem das aulas de música.

Quando as portas se abrem e os assistentes começam a entrar em busca de lugares para acompanharem a apresentação, as crianças perdem um pouco o ar compenetrado e se concentram em procurar com seus olhares parentes e amigos que lotam o teatro.

É uma plateia diferente. Pais, mães, irmãos (incluindo os bem pequenininhos), amigos e participantes de outros projetos que se desenvolvem no Centro Cultural. A entrada é grátis, para um espetáculo que não tem preço!

Nada se compara as emoções expressas nas faces de todos. Das crianças por estarem mostrando seus talentos. Dos professores e monitores pela realização de mais um ano do projeto que começou em 2008. Ainda restam dois alunos da turma original, aplaudidos com entusiasmo. Os pais se sentem recompensados pelo esforço do leva-e-traz para as aulas. Um sacrifício, agora sabem, compensador.

E aí, vendo os incríveis efeitos desse convívio musical e o aprendizado da criançada, fica a pergunta: se é lei, por que ainda não estão reimplantadas nas escolas públicas e particulares as aulas de música? O que falta para que seja implementada uma disciplina  de aprendizado tão fundamental como essa?

Ver as crianças da orquestra disciplinadas, concentradas e responsáveis pelos seus respectivos papéis dentro da coletividade, é comprovação mais que suficiente dos benefícios que o ensino musical produz na formação de um cidadão. Quem mais precisa vir ver in loco o que este processo de aprendizado pode fazer pelas crianças brasileiras?

Qual a ação necessária para que se faça cumprir a lei?

No momento em que as diferenças se sobrepõem e dominam o debate social de uma forma dramática e apaixonada, é essencial um movimento na direção inversa. Precisamos ensinar e difundir as semelhanças, incentivar o coletivo, a convivência, a solidariedade. E, quando o assunto é educação, lutar batalhas que valham a pena. As que agreguem e criem harmonia. Caso do ensino de música.

Se todos os atores deste processo se unirem e as ações existentes forem devidamente difundidas e valorizadas, em algum momento, a luz da música vai iluminar a escuridão da ignorância. E todos, juntos, cantarão a vitória de uma prática que, além dos demais benefícios,  alegra a alma.

#musicanaescola #élei

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Orquestra 150714 100 Agradecimento 02 centro otima

Somente só

Arpoador 150628 011 Homem na Pedra mar ArpoadorTexto e foto de Valéria del Cueto

Precisava muito ficar sozinho. Tão só que dispensava até o consigo mesmo. Já era gente demais!

Isso só podia ser um sintoma de que estava virando humano. E como tal sofrendo de todos os seus males. Devia ser  consequência da exposição prolongada a atmosfera terrestre. É claro que não prevista antes de começar a viagem. Quem poderia imaginar que um mero pulo em falso pudesse deixa-lo preso nessa “terra abençoada por Deus”? Não, não se referia ao Patropi. Mas ao planeta como um todo. O Brasil foi apenas uma questão de sorte.

Não conseguir que sua força propulsora ultrapassasse a camada poluente da atmosfera fazendo que prosseguisse sua jornada interplanetária, por outro lado, não foi apenas falta de sorte (aqui dizem que não é bom usar o antônimo da palavra sorte porque atrai o azar)

Definitivamente o espírito humano estava dominando seu ser numa simbiose indesejável e, certamente, imprevista. Perdeu seu espírito aventureiro e sua iniciativa própria engolfados por um turbilhão de informações, conceitos e, principalmente, pré-conceitos. Tudo ao mesmo tempo!

O bombardeio era tão intenso que nem os sofisticados aparelhos de sua nave interplanetária davam conta de tantos dados a serem inseridos e tabulados. Contaminados, assoberbados e sem tempo hábil para reporem suas energias os equipamentos simplesmente se alinharam ao usuário das engenhocas e… travaram.

Que atitude mais humana, avaliava Pluct Plact. Aquela sensação de aperto no peito e dor de estômago não o abandonava por mais que respirasse fundo. Pau-as-da-men-te. Imaginara, quando começou a sentir sua transformação, que ela fosse por igual. Completa, por assim dizer. Nem se incomodara em ser cobaia involuntária da experiência. Já que não tinha opção…

O problema é que a desumanidade anda sufocando e impedindo qualquer manifestação da humanidade espantosa que tanto estudara e pesquisara durante sua longuíssima viagem interplanetária entre seu lar e a Terra. Também foi nesse período que seu objeto de estudo deu um salto exponencial e começou a dispor de tecnologias inimagináveis. Talvez além da capacidade de absorção de conhecimento dos próprios humanos. A corrida está desigual entre o que é exposto e o que podemos digerir.

E, o que é pior: algumas coisas, por serem mais sutis, suaves ou de lenta assimilação, parecem se diluírem e se perderem. Entre elas a esperança, a ética e a solidariedade estão tomando um vareio do consumismo e da sanha pelo poder a qualquer preço.

Tão humano (por falta de opção), Pluct Plact não sabe como explicar à cronista suas sensações e necessidades. Incluindo a de ficar sozinho. É ela que tem impedido as visitas informativas na cela do outro lado do túnel onde a escriba se isolou.

Como explicar-lhe que sua humanidade contemporânea não contempla a amizade? A não ser que seja por meio de curtidas, comentários superficiais e compartilhamentos de postagens que definam, para seus milhares de contatos pelas redes sociais, sua personalidade, posicionamento e postura perante a sociedade. Ali, agora, é o ambiente de exposição e aceitação humana, sublinhado por autoimagens sorridentes em lugares da moda. O tipo de comunicação que, agora ele compreende, a cronista fez questão de deixar trancada do lado de fora de sua cela onde apenas uma janela enluarada a conecta com o mundo exterior.

E não será por ela, a janela, que ele, Pluct Plact, o extraterrestre, contará o que está sentindo. Afinal, pra que tirar da cronista o que ela insiste em preservar e ampliar no seu pequeno mundo?

Ah, a esperança! Melhor ser enlouquecidamente só do que acompanhado do enorme peso da “sanidade” humana neste terceiro milênio. E esperar…

No chão, do lado de fora da janela, Pluct plact encontrou um bilhete: “Não se desespere. Começaram os Jogos Pan Americanos de Toronto. Por meio do  esporte o melhor do ser humano transparece. Acompanhe. V.”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Em busca da inspiração

Arpoador 150628 008 Alto Arpoador cactus Pedra Ipanema Leblon 2 IrmãosTexto e foto de Valéria del Cueto

Acordou com uma saudade louca do #Lemequenaosaidemim Pegou o rumo oposto, a contragosto.  Deixou para trás o reino e Nápoles e as agruras de Alex Dumas. As que inspiraram Alexandre, seu filho, a escrever o “Conde de Monte Cristo”. Ele é o personagem principal de “O Conde Negro”, Pulitzer de biografias de Tom Reiss. Difícil parar um mundo desses para quem é fã de leitura. Conseguiu. Pedra, por pedra, foi para a do Arpoador.

Cruzou a Praia do Diabo ao ouvir o som. De lá. Pulando que nem cabrito foi para a ponta mais ponta da Pedra do Arpoador, nem lá nem cá. Onde borrifos de finas franjas de maresia das ondas inconstantes salgavam os poucos solitários. Os que trocaram a imagem paradisíaca do postal Ipanema, Leblon, Morro Dois Irmãos e Vidigal pela força do mar e duas ilhas praticamente inóspitas, num horizonte sem fim.

Continuou seguindo os navios ao longe, muito longe, com a maré alta. Eles se dirigiam à entrada da Baia de Guanabara. Lá, depois do Morro do Leme assinalado pela bandeira brasileira encravada no alto do Forte da Vigia…

Era desse lado que vinha o som. O lamento do vento falava uma língua conhecida,  ora murmurando numa inquietude vacilante, ora uivando sua revolta. Salgando com minúsculas lágrimas quem não se incomodasse com seu arrepio gelado e parasse para tentar entender suas lamentações.  

Ele contrastava com o sol acolhedor e silencioso do outro lado da Pedra do Arpoador. Avisava. E quem avisa amigo é. Tentava evitar que a parede de nuvens engolisse de vez os Dois Irmãos, escurecendo o lado sul. Sabia. Seu esforço apenas retardaria um pouco a mudança eminente do tempo e da paisagem.

Nada disso provocou o ato de (d)escrever. Um estímulo especial veio do encontro de alguns músicos, desses que tocam de bar em bar, a procura de um parceiro que havia prometido bater ponto ao lado da escultura de Millôr Fernandes, na quina do Arpoador com a Praia do Diabo.

Pois não é que mesmo sem ir ao samba ele veio se juntar a música do vento, agora sussurrante?

E, entre todas as possibilidades e hits disponíveis no encontro de repertórios, um dos músicos começou. Só na voz:

– “Não… Ninguém faz samba só por que prefere…” – O vento respondeu com um gemido, antes mesmo do dedilhar do início do solo no violão conseguir responder a introdução.

– Tá baixo – reclama o pandeiro. A pausa é tão sutil que não muda o ritmo nem o andamento dolente.

– “Força nenhuma no mundo interfere, sobre o poder da criação…” – responde o cantor violeiro. Sem subir o tom, nem dar a mínima para o entorno. Quem quisesse que viesse. Ele ia em frente recitando os versos do   mantra do Paulo César Pinheiro e João Nogueira,  “O Poder da Criação”, em sintonia com o universo.

O tom baixo subindo lentamente com a força da música. Voz e violão.

– “Ela é uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente e acende a mente e o coração” – À frente a luz vai mudando. Caindo lentamente, ao contrário do tom da música. Ciente de que nada o impediria de seguir adiante, embalado pelas lindas palavras do samba-canção, o tamborim começa a marcar o ritmo pungente, se preparando segurar a para virada.

– “E o poeta se deixa levar por essa magia e o verso vem vindo e vem vindo uma de uma melodia e o povo começa a cantar! Lalaia…

Como cada um faz seu canto como pode, abre a bolsa saca o caderninho da vez e a caneta. Nem nota o momento em que os músicos tomam seu caminho deixando a música para trás, nas páginas de mais uma crônica do Sem Fim…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Tá difícil! Pensando bem, quando não foi?

2Carnavalia 1506 009 mãos chapéuTexto e foto de Valéria del Cueto

Estamos em junho o assunto da última quinzena do mês  é… carnaval!

Pra quem pensa que a sequencia de maravilhas do mundo apresentadas num desfile de carnaval brota assim, de estalo, uma notícia: não é beeem assim.

De fevereiro para cá já rolou uma enormidade de água debaixo dessa ponte. A janela de contratações e troca-troca de agremiações começa ainda na pista da Sapucaí, no desfile das Campeãs. Uma época de montagem de estratégias e definições de estilos de trabalho para o carnaval seguinte. O vai-e-vem continua, mas sem dúvida, o momento das  surpresas e movimentações espetaculares não costuma chegar ao fim da quaresma.

O engraçado é que, como todo mundo vem “virando”, trocando o dia pela noite, tanto no pré-carnaval como nos dias de folia, as grandes notícias das contratações são dadas, em sua maioria, no fim de tarde/noite/ madrugada dos dias posteriores ao reinado de momo. As especulações também circulam nessa faixa horária…

Depois do boom dos sites carnavalescos as redes sociais se encarregam de repercutir com sua incrível capilaridade e uma agilidade espantosa os resultados das negociações. Elas prosseguem enquanto são realizadas inúmeras festas de entrega de premiações para todos os grupos, do Especial ao grupo E. O final da temporada é marcado pelo esperado Sambanet que aconteceu dia 22 de maio.

Mas aí, já havia outros assuntos palpitantes no circuito carnavalesco. Primeiro, os anúncios dos temas dos enredos. Seguido pela divulgação de seus textos e apresentação dos mesmos aos compositores das escolas de samba. É claro que cada uma tem seu ritmo. A única certeza é que os sambas devem estar definidos até as datas fixadas no calendário para as gravações oficiais, a tempo de distribuir os CDs para as vendas, antes do Natal.

Até lá ainda há muito trecho para percorrer e problemas a serem resolvidos. Especialmente num ano como esse, atípico em função da crise econômica brasileira…

Pode até parecer que ela é a bola da vez dos debates e reflexões que estão movimentando as mesas do  Sambacon, Encontro Nacional do Samba, em suas palestras. A segunda edição do evento acontece paralelamente a Carnavália, feira da cadeia produtiva do carnaval, no Centro de Convenções SulAmérica, Cidade Nova, ao ladinho do Estácio. A situação anda ruim pra todo mundo e seus reflexos certamente atingiriam os súditos de Momo. O problema é que outros fatores há muito vem se acumulando para o desgaste do modelo atual do carnaval.

Alguma novidade? Claro que não! Os cronistas carnavalescos já registravam há mais de um século os gargalos que estavam levando o carnaval para o buraco. E tome polca! Mais recentemente, as “Super Escolas de Samba S/A” viraram inspiração para os versos consagrados de Beto Sem Braço e Aluisio Machado nos idos de 1982, do “Bum Bum, Praticumbum Brugurundum”, do Império Serrano.

Nada que não possa ser posto na roda e discutido na primeira versão internacionalizada do Carnavália-Sambacon. Convidados da Europa, América Latina, Estados Unidos e Japão integrarão a mesa mediada do carnavalesco Milton Cunha, Professor Doutor em Teoria do Carnaval pela UFRJ.

Pensa que acabou? Uma vírgula! Na semana que vem o seminário “Sonhar não custa nada, ou quase nada? – Horizontes dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro”, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, reflete sobre 3 questões: Do que se trata um evento lúdico-artístico no qual os sonhos adquirem expressividade pública para audiências cada vez mais amplas? Como se materializam sonhos do Desfile das Escolas de Samba? Sob quais condições organizacionais, materiais e simbólicas, atualmente, tais materializações são possíveis?

A Academia quer mostrar que também tem samba no pé…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Realidade imaginária

Arpex PAN 150609 003 Arpex e 2 irmãos panorâmicaTexto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, Plact, o extraterrestre preso na atmosfera por falta de força propulsora para vencer a etapa ozônio das camadas de escape da órbita terráquea, lia e relia “Pensamento escrito”. Analisava a narrativa da semana anterior criada pela cronista para a série “Arpoador”.

Havia estudado, é claro, o comportamento humano antes de embarcar na missão que o trouxera para essas quebradas da Via Láctea. Mas, por mais que estivesse preparado, continuava achando incrível um traço da raça humana: a tal da imaginação. Só ela poderia fazer que sua amiga cronista, presa há várias luas numa cela do outro lado do túnel, compusesse sua obra capaz de  fazê-lo se transportar para o banco de cimento, na Ponta do Arpoador, quase na Pedra, descrito pela autora. Era efeito do tal pensamento escrito…

Na sua fase preparatória para a jornada entre as estrelas e seu desembarque por aqui sempre tivera uma enorme curiosidade: conhecer os livros. Objetos feitos de folhas de papel produzidas com material extraído da natureza. Perguntava-se o que havia de especial para serem protegidos por guardiões através dos tempos em lugares tão espetaculares e bem frequentados como a Biblioteca de Alexandria, fonte de sabedoria e estudos desde o terceiro século antes de Cristo até a Idade Média. Entendeu tudo interagiu pela primeira vez com um livro. No seu caso, “O Morro dos Ventos Uivantes”,  de Emile Brontë, escolhido, é claro, pela tão ensandecida quanto cronista.    

Não era apenas seu conteúdo que fazia do objeto um tesouro a ser descoberto. Havia mais. Aroma, peso, consistência. Robustez, em alguns casos, e fragilidade em outros. Ler um livro – descobriu – pedia postura, concentração e foco. Para que o mergulho fosse completo. O incrível é que a sua magia não pode ser substituída por outras formas ditas modernas de leitura. O que explicava, por exemplo, a mania de alguns “livráticos” de difundi-lo como fosse possível!

Curioso, Pluct Plact fez questão de verificar in loco a ação libertadora de um viciado em livros ao acompanhar as estripulias do projeto “Inclusão Literária”, capitaneado por Clóvis Matos, um Papai Noel que resolveu extrapolar suas funções e viajar por Mato Grosso distribuindo livros! Em 10 anos, 25 mil foram distribuídos em meio a contação de histórias, brincadeiras e outras formas de atrair novos adeptos.

Foi justamente neles, nos livros, que teve a oportunidade de encontrar exemplos incríveis do que era a tal e poderosa imaginação. A que explica a capacidade de sua amiga extrapolar a realidade e quebrar as barreiras que a mantem recolhida do outro lado do túnel. Afinal, se Júlio Verne – autor que, para Pluct Platc, sempre seria uma referência-, havia descrito uma “Viagem ao Centro da Terra” e os monstros e máquinas das “20.000 Léguas Submarinas”, baseado apenas nas projeções e ilações de seu pensamento escrito, por que a cronista não poderia sair da cela e ir olhar o mar do Arpex, ouvir música e lagartear ao por do Sol do lado dos prédios do Leblon, na linha do Morro Dois Irmãos? Tudo era possível na imaginação…

O que o trazia de volta para o velho dilema: valeria a pena abrir o jogo da realidade na sua próxima visita à cela da amiga? Seria possível convence-la que os fatos reais pareciam saídos de uma obra produzida por uma imaginação privilegiada a ponto de, por exemplo, aventar a possibilidade da queda da maior corporação esportiva do planeta, a tal de FIFA, com direito a xilindró e tudo?!

Com o espaço acabando preferiu não puxar outros exemplos, como a atualização convencional dos culpados das mazelas brazucas. FHC, coitado, foi chutado para escanteio. A bola da vez é Obama, responsável pela crise, inflação e corrupção no  país onde o boi voador recebeu ordem de prisão e as demissões da imprensa acontecem por que “o po(l)vo não acredita mais em mentiras”.

Melhor deixá-la com a visão distorcida de uma panorâmica paradisíaca do Arpex para distraí-la no final de semana. Enquanto aproveita para explorar as festas juninas e tenta entender o efeito Santo Antônio nas moçoilas casadoiras…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábula Fabulosa”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Pensamento escrito

Arpoador 150604 010 andaime obra moldura NiteróiTexto e foto de Valéria del Cueto

Dias antes e a fazeção da semana já começa a interferir na forma de pensar desta cronista.
A busca pelo tema, a escolha da melhor linha a explorar diante das possibilidades das séries do Sem Fim… e suas características. Contemplativas para “Ponta do Leme” e “Arpoador”, carnavalescas da “É Carnaval”, as alegóricas “Fábulas Fabulosas” dedicadas ao incrível noticiário capturado pelo extraterrestre e as aventuras da floresta e seu reino animal. Tudo vai para o prato para ser pesado na balança criativa.
As possibilidades que vão surgindo começam a ser – uma (sorte grande) ou (quase sempre) muitas – escritas em pensamento, numa caligrafia imaginária no caderninho irreal. É preciso afinidade.
Quando a ideia se sustenta vai se acomodando, desvendando seus argumentos, atiçando a curiosidade sobre possíveis informações pertinentes. Se espalhando pelos cantos da memória a ponto de deixa-la quase sorumbática de tão concentrada.
O pensamento escrito vai ocupando espaço na mente e diante desse turbilhão envolvente ou da escassez avassaladora de opções uma utopia sempre surge: o dia em que bastará pensar para que o pensado se transmute automaticamente em escrita. Não precisa de perfeição, apenas das referências principais.
É, porque no caso dessas crônicas, em sua maioria, ainda rola a dupla jornada de escrevinhar no caderninho da vez – num lugar, se possível, especial para o bem (Ponta do Leme, Arpoador) ou para o mal (fila de banco, sala de espera) para, depois, digitar no computador. É muito para um singelo e despretensioso texto!
O pensamento escrito é tão poderoso que faz o “dominado” esquecer o entorno para tentar recapturar o que rascunhou a caminho da praia ensolarada no feriado de outono. A palavra pensada no último quarteirão da Bulhões de Carvalho, no pé do túnel da Barata Ribeiro, em Copacabana, início desse texto, sobrepuja até a música executada no violão dois bancos adiante, já na ponta do Arpoador quase na pedra.
“Hoje o samba saiu, procurando você. Quem te viu…”
O chamado é quase irresistível, mas ainda não o suficiente para desviar a atenção do desenrolar da crônica.
“É linda essa música” diz o tio para o sobrinho que se prepara para um mergulho com cara de quem não tem a menor ideia do que se trata o cantaroladar pelo mais velho.
O pensamento escrito começa a falhar distraído pelo sentido traidor da audição. Atraído e embalado pelo ponteio do violão, busca as notas para identificar o solo dedilhado, início de uma nova canção.
Quase como o pensamento escrito abandonado ele também não deu em nada e o cantor violeiro mudou o rumo da música, como quem muda o rumo da prosa. Assim, sem maior cerimônia.
Tão frágil e insegura é a linha da inspiração que conduz esse alinhavar de meias ideias e alguns ideais, essencial para subtrair da realidade a cronista que se esforça para satisfazer sua sede de contar.
Mesmo que no embalo de “Amigo é para essas coisas”, o diálogo dos amigos se encontram no desencontro da vida. “Na morte a gente esquece. Mas no amor a gente vive em paz… O apreço não tem preço, Eu vivo ao Deus dará…”
E foi por ele. Ou o sol, a praia ou o mar e o feriado que me trouxera para cá com a incumbência de todas as crônicas, que acabaram trançados pedaços de histórias, memórias repartidas. Pensamentos semeados em duas laudas publicadas a cada semana e colhidos por você, caro leitor. A quem só tenho a agradecer a paciência e permanência. Bom feriado!
* As músicas citadas são “Amigo é para essas coisas e “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Mesmo filme noutra praia

Mesmo filme noutra praia - ArpoadorTexto e foto de Valéria del Cueto

Escrever implica em pensar e era isso que não queria.
Não bastava o azul do céu refletido nos tons das águas que de espelhadas no início da semana se transformaram no mar agitado a frente?
A comilança das areias desaparecidas após inúteis protestos e pouca resistência em forma de pequenas falésias, barreiras frágeis para o avanço guloso dos mares?
Quase não havia mais praia naquele canto. Pedras inimagináveis se revelavam com a cavada sistemática do oceano em direção da orla.
O fenômeno se repete a cada ano alterando a paisagem do cartão postal carioca. De um lado é pedra, a do Arpoador. Depois vem o Atlântico. Do outro é montanha. Os Dois Irmãos e a Pedra da Gávea emolduram o contorno das praias de Ipanema e do Leblon. O Vidigal, lá na extremidade, observa o movimento do ponto de vista oposto.
O melhor fator agregado hoje ao cenário foram os surfistas e bodyborders. Sem ondas e com uma temperatura para lá de gelada da água translúcida, eles andavam apenas observando, sem sequer baixarem as pranchas para a areia.
Ali o espaço era exíguo. No mar, elas eram desnecessárias sem marolas e ondulações, só mesmo standup e no início da semana a procura era nenhuma.
Agora as ondulações encrespadas faziam a alegria dos esportistas. Todos com roupas de neoprene para a proteção contra a temperatura da água.
Se a situação da nesga de areia já era minguada na calmaria, se agravou com a subida das ondas. Abusadas e a caminho do pico mais alto da maré ultrapassavam as barreiras do desnível de areia, empurrando os banhistas em direção ao muro de pedra caso quisessem, – e muitos queriam – estender cangas, abrir cadeiras e guarda-sóis para amenizar o calor no fiapo de areia.
Estava criado um problema filosófico, tipo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”
Acontece que não havia espaço os barraqueiros ocupantes da área e a possível e desejável clientela. O que adianta a oferta se não existe lugar para a procura dos itens de desejo: cadeiras, barracas, bebidas e petiscos? (não necessariamente nessa ordem). Como acomodar os banhistas turistas e locais?
Hoje só tem uma barraqueira, se equilibrando para não descer o barranco entre uma canga e outra, atendendo os poucos possíveis fregueses imprensados ente o paredão de pedra e o mar forte, puxando e gelado…
Um apito soa enérgico do alto da plataforma do Posto de Salvamento enquanto o salva-vidas gesticula acenando para um desavisado que se encaminha para a área onde estão as melhores ondas, sem reparar na boca da vala que o puxará em direção a mar aberto.
Nada que um dos surfistas bem intencionados e sempre solidários não possa resolver remando em direção ao afoito e escoltando o banhista para fora da zona de perigo. Após um alerta merecido, naturalmente.
Outro barulho intervém no resmungo impaciente e agressivo das ondas. Primeira dedução: acabou o horário de almoço da peonada. Mas que peonada?
Uma bateção de martelo e ferro chama a atenção. Vem da Praça, acesso à Praia do Diabo e à Pedra do Arpoador, onde não dá mais para ignorar a montagem de uma megaestrutura para um evento qualquer. A maior que já vi por aqui.
Lá se foi a beleza natural do Arpoador, o cartão postal, nesse final de semana.
Engraçado…
Fica uma impressão de dévà vu. Aquela de já ter visto esse filme antes, só que numa outra praia.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vamos ao vira !

Vira Port 150501 108 Folclore portugues dança casal linda delirioTexto e foto de Valéria del Cueto

Quando ele convida, sempre que posso, vou. Nunca me arrependo. Falo do professor de português, destaque e gestor de carnaval e, agora conheci essa sua faceta, folclorista português, Maurício d’Paula. Gosto de gente que espicaça a curiosidade alheia. Ele é assim. Me ajudou a conhecer o mundo dos barracões das escolas de samba, apresentou para muitos dos temas que hoje trabalho nos ensaios fotográficos do mundo do carnaval. Quando me chama eu vou!

Aconteceu de novo. Um convite para assistir a festa de 53 anos do “Almeida Garrett”, grupo de folclore português, no dia 01 de maio, na  Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, na Hadock Lobo, Rio de Janeiro.

Olha, trocar o Samba do Trabalhador, roda de samba de Moacyr Luz e outros bambas, em edição especial no Parque Garota de Ipanema, ao lado de casa, ali no Arpoador, por uma aventura tijucana foi pura confiança, um bom argumento: nunca havia registrado as danças e os ritmos do folclore português e, cá entre nós, pouco conhecia sobre ele. Busquei referências pessoais e não passei do cantor Roberto Leal e sua franja loura. Dalí, sempre pulei para o fado. Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Custódio Castelo…

Num lampejo ouvi ao longe uma rabeca e veio a Marujada de Bragança, no Pará (um sonho de consumo fotográfico, já que nunca cheguei lá), os costumes açorianos de Santa Catarina, as festas de Santos de Cuiabá e quase todos os rincões do Brasil. Mesmo assim não me senti dominando o conteúdo do que ia acompanhar. Era pouco.

A primeira particularidade que chamou a atenção foi o aspecto familiar da festa. É bom ver como as crianças se colocam nos ambientes culturais, qual seu papel no contexto. Lá estavam elas. Menininhas que pareciam pinturas. Com roupas de crianças, não imitando a dos adultos. Portuguesinhas de saias rodas e babadinhos. Cabelos de Maria Chiquinhas. Os meninos também, com seus trajes característicos.

Os componentes dos grupos convidados permaneceram com seus paramentados durante a festa. Mulheres de corpetes, lenços, enfeites, saias com anáguas, meias e chinelos e homens com seus “fatos” de domingo, coletes, correntes de relógios pendurados no bolso, bastões e chapéus.

Um pequeno aperitivo no encontro dos músicos dos quatro grupos participantes em que vários casais aproveitaram para mostrarem seus dotes de dançarinos e começaram as apresentações.

Basicamente, os grupos são compostos por músicos que tocam concertinas (gaitas), cavaquinho (inho), castanholas, reque-reque, ferrinhos (triângulo), tamborim, bombo… Pode haver uma cantora que entoa as letras num tom extremamente alto e que confesso, nem tentei alcançar. As vozes masculinas, mais graves, fazem um contraponto. E os bailarinos… Não é fácil fotografar as “rodas de bailar”. Justamente por serem rodas e dançadas, em parte do tempo, em duplas. Sempre uns de frente para os outros. Para fazer um rosto, inclua as costas do parceiro…

O “Rancho Folclórico Infanto Juvenil Danças e Cantares das Terras da Feira” abriu a série de apresentações. Lá estavam as crianças que exploravam o grande salão. Já gostei, considerando o ensaio sobre “Os meninos (e meninas)” que faço ha anos nas quadras de escolas de samba e outros ambientes.

Ali foi por terra meu alegado desconhecimento sobre o folclore português. Reconhecia as cantigas escolhidas pelos grupos. A premissa única de “O Vira” desmoronava. O problema é que a gente nunca liga o nome à pessoa e a melodia a sua origem. O segundo grupo a se apresentar foi o “Alma Lusa”, de Curitiba. Maurício participou da exibição do “Rancho Folclórico Pedro Homem de Melo”, de São Paulo. O anfitrião, e aniversariante, Almeida Garret, fechou a festa.

Além das fotos, uma conclusão: O Brasil é uma casa portuguesa, com certeza! E a gente nem se dá conta disso…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Canto oculto

Arpoador 150322 032 gaivotas cruzadas maisTexto e foto de Valéria del Cueto

Tem um pássaro piando. O som de seu lamento entra pela janela. Nada anormal, não fosse agora 22 horas de uma quarta-feira. Dia de futebol na TV e metade da semana que só foi até quinta. Na sexta os trabalhadores descansaram. Era o seu dia. Feriado.

E o pássaro piando no quadrado cercado de janelas de mais de 12 andares. Não dá para identificar onde ele está.  Piando.

Pau-sa-da-men-te.

Intermitentemente.

Periodicamente.

É o som da vida insistente ecoando entre cimento, pastilhas,  vidro, alumínio e poucas plantas. Espalhadas em alguns parapeitos procuram os raios solares que, dependendo da época do ano, passeiam fazendo desenhos nas paredes e diversificando a intensidade e a tonalidade da luz que ilumina os dias. Pela janela.

Assim como chamou a atenção de um, certamente, o piado irritará a outros. Considerarão um incômodo o som persistente.

Bonito, pungente e, por que dá essa impressão, doído.

“Será que não dá para fazer esse barulho parar? Está me irritando. É pior que o bebe chorando ou o cachorro latindo. Com esses a gente já se acostumou. Mas só durante o dia.”

Parte dos ocupantes adjacentes nem o notará, abafado pelos motores dos ares condicionados e filtrado pelos vidros das janelas fechadas. Elas isolam o ar fresco que teima em encanar pelo alto, vindo do céu.

O que se vê é um buraco escuro desenhado pelo recorte das quinas dos edifícios colados em desalinho.

Até agora a lua não deu o ar de sua graça cruzando o exíguo espaço. O que pode ou não acontecer, de acordo com o traçado do satélite em seu percurso anual.

Será necessário um longo tempo para acompanhar esse possível movimento lunar. Ele ampliaria os elementos cenográficos da paisagem que compõe o visual.

Um fator a ser observado e acompanhado. Na torcida para que ocorra a noite quando poderá ser mais notado do que durante o dia.

Paciência é a alma da compreensão do quadrado com piso de concreto de passagem para a garagem.

Até nesse horizonte limitado há poesia.

O piado do pássaro.

Que agora passou.

O dono cobriu sua gaiola.

Simples assim.

Parou.

Resta o silêncio. O rugido dos aparelhos de ar condicionado. O som de algumas TVS bem lá no fundo. Fazendo a noite cair na sua monótona rotina.

Como acontecerá depois do final de semana, quando retornar o dia-a-dia após mais um feriado prolongado. Um dia, um novo dia, um pio mais pios e o silêncio, bastando cobrir a gaiola. A vida seguindo em frente pelo quadrado de céu.

Gaivotas cruzam em bando espaço exíguo de fim de tarde, já cinzento. Seguem na mesma direção. Algumas voam mais baixo, outras, mais alto. Vão rumo sul. Livres, velozes e soberanas.

Abaixo, o silêncio do pássaro só é notado por quem dias antes, o escutou cantar seu lamento.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Choro, melodia da alma carioca

Choro, melodia da alma carioca

Texto e foto de Valéria del Cueto

A alma carioca tem tradução musical. E não é o samba. O samba é o seu coração palpitante. A alma musical carioca é o Choro. Gênero musical urbano, popular e erudito, definitivamente incorporado ao “phisique-du-role” da Cidade Maravilhosa.
No ano das comemorações de 450 de seu nascimento, o Rio de Janeiro ganha um presente há muito esperado. Sua Casa do Choro está inaugurada com tudo o que tem direito nesse megaferiado turbinado por aqui com o Dia de São Jorge. 23 de abril também é o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nascimento de seu maior representante, o genial Pixinguinha. Desde 2000 o projeto vem sendo desenvolvido pelo Instituto Casa do Choro, com a criação da Escola Portátil de Música, capitaneada por nomes como Luciana Rabello e Maurício Carrilho.
O choro tem linhagem e origem. Luciana, por exemplo, é irmã do violonista Raphael Rabello, bebeu na fonte de César Farias, pai de Paulinho da viola e um dos componentes do conjunto Época de Ouro. Esse é o grupo que abre a principal parte do “tudo que tem direito” citado acima. O VI Festival Nacional do Choro ocupará hoje e domingo a Praça Tiradentes, esquina da Rua da Carioca, onde está localizado o imóvel tombado e restaurado com apoio financeiro do BNDES e patrocínio da Petrobrás.
E vem gente de todo lugar: o estado do Rio puxa a fila com representantes cariocas, de Niterói e Cordeiro; o Distrito Federal, os estados do Rio Grande do Sul, Alagoas, Pernambuco, São Paulo e Goiás, assim como a Holanda, se apresentarão a partir das 11 da manhã.
Pela praça passarão nomes como Hamilton de Holanda, Yamandu Costa, Henrique Cazes, Silvério Pontes, Zé da Velha, Maurício Carrilho, Trio Madeira Brasil, Quarteto Maogani, Zé Paulo Becker e outros. Todos seduzidos pelo estilo que surgiu em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, capital do Império, uma forma “chorosa” de interpretar as músicas na moda na Europa como a valsa, o minueto e a polca. Influenciada pela languidez portuguesa e uma pegada africana.
A base inicial era um trio pau-e-corda: a flauta (de ébano, na época) que solava, o violão acompanhando como um contrabaixo e o cavaquinho também no acompanhamento, mais harmônico, com acordes e variações. O gênero que nascia interpretava popularmente o que chegava aos bailes e salões da alta sociedade. Os pequenos grupos ganharam espaço nos subúrbios e na área da Cidade Nova.
A música, com seu toque de improvisação, exige destreza, expertise de seus executores e rapidamente atraiu músicos de excelência. Joaquim Antônio da Silva Callado, autor da polca “Flor Amorosa”, pérola dos chorões, professor de flauta do Conservatório de Musica do Rio de janeiro, tinha entre os membros de seu grupo, a pianista Chiquinha Gonzaga, autora do cateretê “Corta-Jaca”, peça musical de uma de suas operetas.
E ninguém resistiu ao choro. Ernesto Nazareh o elevou e transformou em música erudita. Villa Lobos bebeu da fonte e compôs “Os Choros”, peça importante de seu repertório. De Anacleto de Medeiros fundador, entre outras, das Bandas Musicais do Corpo de Bombeiros e da Fábrica de Tecidos Bangu, que introduziu peças de choros em seus repertórios no início do século XX, aos arranjos orquestrados para big bands, como os da Orquestra de Severino Araújo, maestro pernambucano autor de “Espinha de Bacalhau” e “Um Chorinho em Aldeia”, que bem representam sucessos da união do choro com o jazz, nosso gênero se consolida e evolui.
Com a Casa do Choro o Rio ganha um ponto de referência para consolidar com a preservação de seu acervo e expandir, por meio de educação e divulgação, a mais pura expressão da alma carioca. A musical…

* http://wp.me/p2Eomp-O1 é um playlist do que falamos acima e muitos exemplos deliciosos

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Depois, e agora?

Arpoador 150322 005  pescador jogando a tarrafa 2

Texto e foto de Valéria del Cueto

Nas muitas campanhas políticas em Cuiabá, Mato Grosso,  havia uma pista do traquejo do marketing e a afinidade de produção televisiva com a realidade local.

Os cuiabanos viviam (pelo menos em suas lúdicas imaginações esperançosas) ainda ligados ao rio e seus ciclos. Suas águas serviam para sobrevivência de muitos e lazer de quase todos com suas pescarias diárias e atividades de finais de semana. Rio Cuiabá este que, por estar morrendo pela ação desordenada do crescimento da cidade, era um ótimo mote de campanha. Especialmente nos clipes musicais em que se tentava, com belas e iconográficas imagens, criar uma empatia com o telespectador/eleitor. Um vínculo emocional.

Quando o programa eleitoral entrava no ar, aparecer na apresentação um take de um pescador na beira do rio jogando uma maravilhosa e brilhante tarrafa que apontava na direção do rio e ia se abrindo em câmera lenta até que o peso do seu chumbo puxasse a rede para o fundo das águas, era a certeza da ignorância dos responsáveis pela produção de televisão do cotidiano dos locais.

Acontece, que, apesar da cena belíssima, com reflexos do por do sol brilhando na água e o contra luz do pescador na beira de sua canoa, manuseando e jogando a rede, a prática era criminosa. Esta forma de pescaria era proibida pela legislação!

No segundo programa, com certeza a cena no clip era substituída por outra politicamente mais correta como a pá do remo da canoa fazendo marolas hipnóticas no caminho da embarcação preguiçosa e a campanha seguia seu rumo…

Outro dia, nuvens pesadas antecipavam a tempestade que viria quando ia para a Pedra do Arpoador. Choveu de maneira intermitente o dia inteiro e o fim de tarde chegava anunciando que haveria tempestade durante a noite.

A praia estava vazia. Poucos banhistas passeavam em direção ao Arpoador ou se aventuravam na praia. O mar, num tom meio acinzentado,  refletia as nuances do céu sombrio. Transparente apesar da mancha de sujeira que chegava com a maré cheia. Era essa maré que havia reduzido o banco de areia, afinando a faixa de praia e criando um paredão a ser transposto para se alcançar a beira do mar.

Para o lado da Praia do Diabo, na direção de Copacabana, com o Pão de Açúcar delineado ao fundo, a entrada da Baía de Guanabara e o litoral de Niterói recortados ao longe, o tempo não parecia tão ruim. Em compensação, o que estava por chegar, vindo do sul, eram nuvens pesadas e plúmbeas que escondiam os topos dos Dois Irmãos e se projetavam como uma cunha  ameaçadora sobre o Leblon e Ipanema.

Ali estava ele com sua tarrafa fazendo o tempo andar para trás. Usava um enorme saco de lixo como capa para se proteger dos chuviscos que anunciavam a viração das chuvas de março chegando e dos respingos das marolas que batiam nas pedras por onde ele pulava. Nos pés um par de velhas havaianas. Numa mochila apetrechos que não chegou a precisar.

Andava entre as pedras até encontrar o que achava ser  o melhor lugar para jogar a rede. Em alguns momentos parecia que caminhava sobre as águas quando depois de começar a esticar a rede pela ponta, já com a corda da beira da malha ou um chumbo na boca, passava a arrumar a malha e ordenar os chumbos.

Na hora de lançar a tarrafa tudo é movimento e coordenação (Não pense que é fácil). Sob o olhar do pescador concentrado em observar e se equilibrar entre as marolas que castigam a ponta da pedra escolhida, a tarrafa afunda.

Depois é puxar a rede e ver o resultado. Agora, é o momento de acreditar que tudo será diferente. Como de fato não foi, já que não precisou abrir sua mochila em busca dos apetrechos…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuiabano”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Mostra no pé, leva fé

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Os últimos dias antes do carnaval superam qualquer enredo de escola de samba. Mesmo os mais fantasiosos e delirantes de Joãozinho 30.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, depois de prudentemente botar a cidade em alerta por causa da ameaça de uma chuvarada, resolveu vestir sua fantasia  antecipar a resposta à pergunta/tema da Mocidade Independente “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?” Declarou que quer ver a Portela campeã! Mais atrapalhou que ajudou, assim como a suposição levantada por um jornal carioca de que os abre-alas da Portela e da Mangueira tinham a mesma inspiração. Pode ser boato… A Beija-Flor está nos noticiários por que teria recebido um gordíssimo patrocínio de um sanguinário ditador africano, o presidente de Guiné Equatorial. Já ouviu falar?

Não é boato que a Rede Globo, além de não transmitir o desfile das campeãs, mudará a ordem das apresentações das escolas. As primeiras foram lançadas para o final da transmissão. Para adequar a grade da emissora, o televisionamento será da segunda escola em diante. Viradouro, no domingo, e São Clemente, na segunda, serão empurradas em VTs para o final das respectivas noites. Veja no box links em que é possível, não apenas acompanhar os dois desfiles como, também, ter acesso a comentários e avaliações mais interessantes do que os da emissora padrão durante todo o evento.

DOMINGO – Quem abre o carnaval no domingo é a Viradouro, de Niterói, que volta ao grupo Especial cantado ideias do compositor Luis Carlos da Vila. O samba é bom, puxado Zé Paulo Sierra que já foi um dos tenores da Mangueira. Uma mulher, a primeira, é  parte da comissão de bateria, é a mestre Thalita Freitas.

As rosas vão se espalhar pela Sapucaí já no abre-alas da escola de Dona Zica e tantas outras mulheres mangueirenses, perfumada por seu aroma. Cantar as suas mulheres e as brasileiras, embalados pelos mestres/meninos da primeira ala – a da bateria, é parte da emoção com que Cid Carvalho, o carnavalesco, quer arrebatar a avenida. Com Benito de Paula e tudo!

A seguir, vem Paulo Barros e a Mocidade Independente exercitando a imaginação na provocadora pergunta: “Se só te restasse um dia?” Só os deuses do carnaval sabem o que vem por ali. A verde e branca será movida por um carnavalesco querendo se recriar…

A Vila Isabel tenta se recuperar, após o fraco desfile do ano passado, falando de música e homenageando o maestro Isaac Karabtchevsky. Vale procurar Martinho da Vila na pista. Há 50 anos ele entrava para a escola que lhe deu nome e onde fez história.

Outra que pisa na Sapucaí em ritmo de comemoração é a rainha de bateria do Salgueiro, Viviane Araújo. 20 anos de desfile não é para qualquer uma! Segundo lugar, ano passado, o enredo de delícias mineiras de Renato e Márcia Lage, parece ter “mineiramente”, contaminado os salgueirenses. Atenção à Porta Bandeira Marcella Alves, com seu parceiro Sidcley.

A noite fecha com a Grande Rio e um dos carnavalescos mais festejados da nova safra, Fábio Ricardo, prometendo uma virada de jogo, no enredo que fala do… baralho.   

SEGUNDA – A São Clemente vem cheia de assombrações e mitos acreanos, carnavalizando as origens das fantasias infantis de Fernando Pamplona. É a criatura, a campeã de títulos na Sapucaí, Rosa Magalhães, falando do criador. Dela e de muitos outros talentos que “desenharam” o formato do desfile das escolas de samba. Se todos os seus seguidores participarem do cortejo, a coisa vai longe.

Alexandre Louzada assina o desfile da Portela. A escola de Oswaldo Cruz apresenta uma versão surrealista, sob o ponto de vista de uma de suas maiores expressões, Salvador Dali, da Cidade Maravilhosa. E o samba é bom. Falaram e falam que querem por que querem. É bom lembrar que nos últimos 12 anos, apenas 4 escolas foram campeãs: Beija- Flor, Salgueiro, Unidos da Tijuca e Vila Isabel. Tem muita gente seca pra quebrar essa escrita.

Mas, para isso, vai ter que passar pelos brios da representante de Nilópolis, muito mal colocada ano passado. Esse ano Neguinho da Beija-Flor puxa um samba  sobre Griôs, África e a Guiné Equatorial.

“Beleza Pura”, do carnavalesco Alex de Souza, para a União da Ilha do Governador em todos os aspectos e circunstâncias. Principalmente com o samba puxado por Ito Melodia e com a bateria comandada por mestre Ciça.

A Imperatriz Leopoldinense é outra que corre por fora sem muito alarde. Depois do jogador Zico, homenageado ano passado, Cahê Rodrigues, o carnavalesco, passa a bola para Nkenda, Nelson Mandela, e um enredo sobre negritude africana.

A segunda noite é fechada pela campeã do ano passado, a Unidos da Tijuca, embalada pelas  reminiscências infantis de Clóvis Bornay, personalidade carnavalesca, das histórias contadas por seu pai sobre a Suíça.

É bom lembrar que emoção não ganha jogo, especialmente pelas regras do manual de julgamento da Liesa… 

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Transmissões ao vivo dos desfiles:

Rádio Arquibancada www.radioarquibancada.com.br/

Tupi Carnaval Total  www.carnaval.tupi.am/

O Carnavalesco www.carnavalesco.com.br/

Horário
dos Desfiles
DOMINGO
15/02/2015
Início 21:30
Viradouro
 
Entre 22:35 e 22:52
Mangueira
Entre 23:10 e 23:44
Mocidade
Entre 00:45 e 01:36
Vila Isabel
Entre 01:50 e 02:58
Salgueiro
Entre 02:55 e 04:20
Grande Rio
 
Horário
dos Desfiles
SEGUNDA
16/02/2015
Início 21:30
São Clemente
 
Entre 22:35 e 22:52
Portela
Entre 23:10 e 23:44
Beija-Flor
Entre 00:45 e 01:36
União da Ilha
 
Entre 01:50 e 02:58
Imperatriz
            Entre 02:55 e 04:20
  Unidos da Tijuca
 

O enredo desse samba

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Na reta final dos preparativos do Sambódromo Darcy Ribeiro, na Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro, para os desfiles do Grupo Especial é hora da benção e dos ajustes finais, neste domingo. A benção será dada, como em anos anteriores,  pelas baianas de todas as escolas. Elas lavam a pista com água de cheiro, abrem os caminhos com defumadores, distribuem palmas e arruda para a plateia embaladas por sambas de terreiro. Abrem o cortejo mestre-salas e porta-bandeiras trazendo os pavilhões das agremiações cariocas. No final, a imagem do protetor do Rio de Janeiro, São Sebastião.

Só essa cerimônia já vale a viagem até o centro da Cidade logo mais, mas a festa ainda guarda um evento esperado por todos. Depois que o povo do samba passar e dos testes finais de som e de luz, vem o ensaio técnico da escola campeã do ano anterior.

A Unidos da Tijuca, agora sem o carnavalesco Paulo Barros, fará o reconhecimento das condições finais da pista onde defenderá o enredo “Um conto marcado no tempo – o olhar suíço de Clóvis Bornay”, do departamento de carnaval composto por Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim, Marcus Paulo e Carlos Carvalho. Nas redes já há um viral da Nestlé com um trecho do samba e a visita de componentes da escola a fábrica de chocolates na… Suiça, indicando a origem patrocinada do tema.

Essa seria uma das razões da troca do carnavalesco Paulo Barros. ele deixou a escola do Borel após o campeonato sobre o piloto Aírton Senna. Na Mocidade Independente de Padre Miguel emplacou seu enredo autoral “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?”. Baseada na música de Paulinho Moska, a pergunta pode render um desfile que permita ao carnavalesco dar vazão a sua criatividade, questionada por quem vê em seus últimos carnavais a repetição de fórmulas de sucessos anteriores.

Quem também trocou de casa foi a campeoníssima Rosa Magalhães. Da Mangueira foi para a São Clemente e lá homenageará Fernando Pamplona, “pai dos carnavalescos” (levou Rosa e muitos outros talentos, como Joãozinho Trinta, para o mundo das escolas de samba), com o enredo “A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Perera, da Tocandira e da Onça de pé de boi” que começa no Acre e passeia pelo imaginário infantil e adulto do criador genial.

A verde e rosa vem com um enredo louvando sua própria comunidade. Cid Carvalho parte da força motriz do  morro de Mangueira e abre o leque, avisando: ”Agora chegou a vez vou cantar: mulher de Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar”

Outra referência ligada ao mundo do carnaval será feita pela Viradouro: “Nas Veias do Brasil, é a Viradouro em um Dia de Graça!” Dois sambas do compositor Luiz Carlos da Vila, “Nas veias do Brasil” e “Por um dia de Graça” são a base da sinopse criada por Milton Cunha e desenvolvida pelo  carnavalesco João Vitor Araújo para falar da negritude brasileira.

“Axé, Nkenda! Um ritual de liberdade e que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz” levará os componentes da Imperatriz do carnavalesco Cahê Rodrigues a uma viagem pela história da África, dos negros e dos preceitos de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando uma pessoa por sua cor de pele ou religião. Pessoas são ensinadas a odiar. E se elas aprendem a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”  A mesma linha abordada pela comissão de Carnaval da Beija- Flor: Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo, com o recorte que fala da Casa de Guiné e da reconstrução africana “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guina Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”. Tudo para superar o resultado do ano passado, cujo enredo sobre Boni, o  da televisão, deixou a azul e branca fora do desfile das campeãs, uma raridade.

Max Nunes tenta recuperar a Vila Isabel que passou um perrengue ano passado falando de Isaac Karabtchevsky “O maestro brasileiro na Terra de Noel…. tem partitura azul e branca da nossa Vila Isabel”

Em “A Grande Rio é do baralho” as cartas estão na mesa no enredo de Fábio Ricardo, para a escola de Duque de Caxias. No Salgueiro, Renato e Márcia Lage, fazem uma viagem pelo universo culinário mineiro com “Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí”.

A linha da irreverência é explorada por Alex de Souza, ao explicar os aspectos da beleza moderna na União da Ilha do Governador. É o enredo com o título mais sucinto do ano: “Beleza Pura”.  

Não poderia faltar uma ode aos 450 anos do Rio de Janeiro comemorados logo depois do carnaval, dia 1 de março. Alexandre Louzada apresenta a Cidade Maravilhosa sob perspectiva do surrealismo de  Salvador Dali no enredo “Imagina Rio, 450 janeiros de uma cidade surreal”. Não dá para negar a liga entre o local e o pintor espanhol, caminho escolhido pela Portela, para acabar com o jejum de títulos da escola de samba com o maior número de campeonatos da história do carnaval.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

É pra quem pode!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

“Eu sou Mangueira. Eu sou Mangueira sim. Eu sou Mangueira e meu amor nunca tem fim!” Assim bradam em alto e bom som, declarando seu amor pela verde e rosa, os integrantes da “Primeira Ala” e coração da tradicional escola de samba carioca. A bateria calou seus instrumentos. Seus componentes batem ritmicamente com os pés no asfalto quente da Marques de Sapucaí. Eles estão diante do Setor 1, a caminho das arquibancadas lotadas pelas torcidas que desfraldam bandeiras e estandartes e vão ao delírio com o grito uníssono e poderoso da rapaziada.

Até ali, resisti e tentei manter a imparcialidade necessária para realizar minhas tarefas na noite encalorada de ensaios técnicos. Primeiro, um registro da Mocidade Independente de Padre Miguel. Depois, desempenhar mais uma etapa da missão Carnaval 2015. Acompanhar a primeira entrada na Marques de Sapucaí, o templo do samba carioca, da Bateria da Mangueira sob o comando de seus jovens mestres: Vitor Art e Rodrigo Explosão. Junto com sua diretoria composta por Nielson Rei do Tamborim, Alex Explosão, Alexandre Marron, Reinaldo Nenem, Jaguara Filho, Maurício Macalé, Taranta Neto e Biraney, eles dirigem pela primeira vez o importante segmento mangueirense. São conhecidos como “Os Meninos da Mangueira”.

Estou com eles desde que assumiram o comando da bateria e, posso dizer, todos os nossos encontros foram pra lá de prazeirosos. A cada etapa do trabalho de registro que estamos fazendo juntos novas descobertas, emoção e ângulos inusitados a explorar.

Era a estreia deles e a minha também. Há uns anos atrás tive o prazer de fotografar dentro da bateria da Vila Isabel, no desfile das Campeãs. “Ô mulher compadre chegou! Pega o banco e vem prosear. Bota água no feijão…” O clima era de alegria e descontração na comemoração do título conquistado. Também tirei uma casquinha com Mestre Aílton na verde e rosa, mas só no esquenta. Agora, a “vibe” era outra…

Desde cedo acompanhei a montagem do grid dos instrumentos, os ritmistas chegando a concentração. Foi lá que os meninos se reuniram depois de organizar a Primeira Ala. Uma conversa final, mãos apertadas durante a oração do Pai Nosso e abraços, muitos abraços apertados de boa sorte.

Por opção do Mestre Vitor Art da concentração, do lado do Balança Mas não Cai,  emburacaram direto pela armação. Só pararam, silenciando os instrumentos,  para fazer sua declaração de amor diante do setor 1. E ele veio abaixo enquanto a bateria entrava na área do desfile e seguia em frente, apresentada por Evelyn, a rainha de bateria, até as torcidas organizadas para avisar: “Chegou, ooô, a Mangueira chegooou”, deixando claras as mais sinceras intenções dos Meninos da Mangueira: “Vamos fazer um carnaval legal, sambar é nossa tradição, cuidado que a Mangueira vem aí. É bom se segurar, que a poeira vai subir!” De lá, deram meia volta e entraram no primeiro recuo. O desafio inicial havia sido superado. Faltava o prato principal…

Quando comecei a editar as fotos, deu pra notar a tensão e a seriedade dos primeiros minutos da apresentação sendo substituídas pela sensação de conquista, a afirmação e, finalmente, a explosão de alegria, na dispersão, ao som do samba que canta o enredo “Mulher de Mangueira, Mulher Brasileira em Primeiro Lugar”, do carnavalesco Cid Carvalho.   

Juntos, os Meninos da Mangueira, sonharam, cresceram, aprenderam, planejaram e chegam a Apoteose levados pela música e pelo entrosamento que só a amizade e o entendimento podem alcançar. Vitor Art é o mais novo Mestre de Bateria do Grupo Especial. Junto com Rodrigo Explosão e outros 250 ritmistas eles vão ter muitas histórias. Elas serão contadas para os próximos meninos que virão. Afinal, é tradição na verde e rosa: só quem é da comunidade tem autoridade para conduzir a Primeira Ala, aquela que todo mundo tem que respeitar!

Graças a eles, voltei ao tempo da esperança. Cheia de orgulho, me senti, também, uma menina. Da Mangueira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Pluct Plact, catch and go

Copa 141119 013 arco-iris praia mangueira areia verticalTexto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, Plact, o ser de outra galáxia, anda muito preocupado. Até mesmo sem saber o que fazer para provar para a cronista ensandecida ainda guardadinha do outro lado do túnel que, sim, está de posse e dominando todos os seus incríveis poderes! Todos, menos o que lhe permite sair de vez do hospício Terra, já que segue sem força propulsora para dar um tóin em direção ao espaço sideral, deixando para trás a atmosfera gravitacional abafada, ressecada e desconexa que o aprisiona.
Ele espera ansioso que a camada de ozônio seja aliviada com muita água o que talvez quem sabe lhe permita romper a atração fatal que o faz testemunha incrédula dos fatos que vem ocorrendo no Patropi. (Aprendeu – e gostou – da designação quando buscava na literatura um sentido qualquer para os acontecimentos que têm sido verificados no último período temporal por aqui designado como mês.) Foi indo, indo… e, pelo visto, ainda irá muito além em direção ao passado, sem obter nenhuma referência segura que o permita justificar essa “balbúrdia estapafúrdia”. É que NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESSE PAÍS…
Parece que até São Pedro, o santo encarregado das faxinas no céu, não está de graça com o povo brazuca e proibiu terminantemente os anjinhos de darem uma geral, arrastar alguns móveis celestiais e jogar uma água pra limpar a lama vigente e recorrente por aqui. Não adianta as garotas do tempo ficarem prometendo o que não podem cumprir com seus sorrisos esperançosos e, sabemos todos, inconfiáveis: quem manda no céu é ele e a chave para aliviar o calorão do veranaço de novembro está jogada no fundo de um baú qualquer, muito bem malocado nos porões infindáveis e não muito organizados da residência oficial do pai celestial.
Nada de água, que é pra ver se essa gente bronzeada toma tenência e se apruma. E que seja rápido! Porque do jeito que a coisa vai nem dia sim, dia não, as torneiras da Cantareira poderão se abrir…
Quer saber? Ele (o alienígena, não São Pedro) está louquinho de vontade de deixar pra baixo esse mundo louco e intraduzível. Sofrendo, é claro, por saber que vai romper o único elo da cronista com a realidade exterior. Mas também, que diferença faz?
Nem ela acredita mais nos acontecimentos que o extraterrestre anda reportando quando ultrapassa na encolha as paredes acolchoadas que protegem a escriba da cruel realidade que a cerca. Não adianta dizer que ela tinha razão, o dito virou não dito, apagou-se o que estava escrito e a cela protetora é o “mió” pra eu e ela, pensa o ser querendo uma vaguinha no cafofo prisional. E que seja rápido, antes que ele seja requisitado para abrigar uns, outros e que tais.
A lotação dos presídios federais está pela tampa de tanto bam-bam-bam e a cela pinelística já está sendo requisitada e propinada por sua excelente localização: próxima ao Rio Sul, em frente a sede do Botafogo, a um passo do Iate Club do Rio de Janeiro. Uma excelente rota de fuga marítima. Quem sabe no iate do milionário empreendedor, recém arrestado e ancorado nas águas da Enseada. É um pulo (depois de um “aquézinho” básico para os vigilantes da loucura tupiniquim). E aí, a Itália, Jesus e as contas turbinadas nos paraísos fiscais são os limites.
Aqui fora, no Brasil varonil, a falta de um tudo impera… Sabem a exceção? Virou a regra. O “Eu não sabia”, o “Sempre foi assim” agora justificam tudo: roubar, extorquir e, por que não? Matar a decência e a moralidade, asfixiadas numa overdose de ladroagem explícita. Papo careta, dirão os que se locupletam e aceitam o jogo podre que agora não tem mais medida e virou mal feito na linguagem esdrúxula de quem tinha obrigação de cuidar do galinheiro.
É claro que a cronista está achando que o ET surtou de vez. Foi contaminado pelo “É bola” que domina as mais altas esferas aqueles que, ao serem pegos com a boca na botija, apresentam saldo ZERO nas suas contas bancárias.
Conta outra, Dona Carochinha!

Suspiro, Manoel de Barros…

Araras 140927 042 folha esqueleto

O último bater de asas é lento e pesado…

Carregado das gotas do orvalho pantaneiro ao sussurro da brisa matinal,

lagrimando o capim macio do pasto diante dos degraus de madeira velha do alpendre abandonado.

Vai assim, Manoel de Barros, poeta cuiabano!

O adeus ecoa no silêncio das águas espelhadas no imenso pantanal que sempre brincou nos seus versos simples.

Novamente  livre, o olhar miúdo que tão longe vê as delicadezas do entardecer.

Dessa vez pra sempre…

*Vagabinha sofrida, mas aliviada pela libertação do poeta maior das pequenezas sublimes, e foto de Valéria del Cueto.

A encruzilhada

CopaLeme 140923 011 Mosaico cal+ºada de Copacabana e bancoTexto e foto de Valéria del Cueto

Conta uma velha lenda que um músico em busca das notas perfeitas andando pelo Mississipi, nos EUA, chegou a uma  encruzilhada. E ali, na intercessão da rota 61 com a 49, em Clarksdale, fez um pacto com o diabo.Este pegou o violão, afinou num tom mais baixo e o devolveu ao bluesman. Seu nome é Robert Johnson. Ele nasceu no início do século XX, não se sabe bem o ano. Morreu dia 16 de agosto de 1938 e no seu atestado de óbito não há causa mortis. Apenas o termo: NO DOCTORS. Jonhson era lavrador até os 16 anos quando caiu na estrada. Dizem que aos 20  descobriu que deslizando pelas cordas o gargalo de uma garrafa quebrada, fazia “sua guitarra chorar”. Tinha o costume de tocar de costas para a plateia. Segundo alguns para que não vissem seu olhar “diabólico”. Outros diziam que era para que não conseguissem ver as notas que inventava.  Durante sua vida, Johnson fez dois registros de sua obra. Um em 1936 e outro em 1937. O primeiro em San Antônio, o segundo em Dallas, no Texas. Foram 29 músicas em 40 gravações. 13 repetidas. Assim, ele entrou para a história do blues, da guitarra e da música. É um dos maiores representantes do Mississipi Delta Blues e referência no formato de 12 compassos que caracterizam o  estilo musical o colocou em 5º lugar na lista da Rolling Stone dos melhores guitarristas de todos os tempos. Lista que, diga-se de passagem, também contempla a arte e o talento de Helena Meireles, nossa grande violeira. As notas de Robert Johnson embalam a criação desta crônica, por que a encruzilhada não sai da cabeça de quem a redige, marcada pelo compasso pesado e ritmado do músico sensacional.

A eleição é uma encruzilhada coletiva, em que cada um pode escolher com quem quer compactuar e o tipo de sacrifício que está disposto a fazer, dependendo de onde se quer chegar. Sempre haverá um “diabo” cobrando – caro – o preço de nossas escolhas. Não há como fugir do confronto, nem do pacto que regerá a vida de uma nação (a nossa!) nos próximos 4 anos. Por uma questão de ambição ou, simplesmente, porque o voto é obrigatório. Mas há como interferir no resultado coletivo. Esse é o grande papel que involuntariamente nos cabe agora.O Brasil é nosso blues… Mas o recado final vem mesmo em forma de samba, uma de nossas mais profundas raízes populares. “ Façam por ele, como se fosse por mim”… pediria Ismael Silva, em  “Antonico”, para ajudar o nosso Nestor. Cabe a nós começar a viração! E, para isso, temos que fazer um pacto com nosso país na encruzilhada das urnas.

Vote bem, vote em quem realmente possa cumprir seu papel e dar o tom e o ritmo certo na grande obra que será executada nos próximos anos na vida de todos os brasileiros. Às urnas!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Raios cinematográficos à lua pela fresta

Caio Cana 140913 041 Canal Brasil raioTexto e foto de Valéria del Cueto

Pela fresta do canto da janela do espaço que tocava para sua mirrada figura olhava para a lua. Ela que, gigante, ocupava o céu noturno e ainda sobrava pendurada entre o recorte dos prédios vizinhos.

Se tudo é super e hiper na vida, vamos reverenciar a lua, tão tua, tão nua. Olha que no meio de tanta coisa malocada ser nua é um arrojo! Onde esconder seus segredos? Só se for na noite e ela estiver bem escura.

Sem os raios coloridos que cruzavam a pista de dança do Vitória, espaço do Joquey Club, no Rio de Janeiro, que acolheu a festa de 16 anos do Canal Brasil na entrega do Grande Prêmio Canal Brasil de Curtas Metragens. O vencedor – escolhido entre os premiados pelo Canal nos Festivais de Cinema Brasileiros – foi Ed, animação 3D de Gabriel Garcia. Noites assim podem ser boa companhia. Pena que não durem mais que uma noite! Pelo menos acalentam sonhos e arte…

Aí, vem o dia e a fresta clareia a realidade nua(!) e crua.

A vida segue enquanto termina a primeira fase da delação premiada, depois do silêncio diante da corte dos parlamentares. Alguns envolvidos, acusados de serem parte relevante da suruba. O arquivo informa que levou um milhãozinho e meiota de reais da Petrobrás no passa anel de Pasadena. (homenagem à mãe, usando o manto da desordem mental que a mantém por aqui)

Agora, todo mundo se comporta, pelo menos nas próximas semanas, como arauto da moralidade. Em compensação no mano a mano o pau come solto. Valendo, inclusive, golpes abaixo da cintura. As eleições batem a porta das urnas (in)violáveis ao som do jingle da Caixa Econômica, propaganda eleitoral do governo federal onde Paula Fernandes e Almir Sater propagandeiam a fartura na porta do trabalhador. Aviões passeiam pelos céus com dinheiro vivo para as campanhas. Juntos, santinhos de candidatos abrigados na cabine do jatinho. Pegam um! Mas, é lógico, não pegam geral.

Tudo vislumbrado pelo vão da fresta do quartinho enquanto aguarda a visita salvadora de Pluct, Plact, o alienígena, para saber das últimas novidades antes da prometida e não cumprida recuperação do raio (olha ele aqui de novo) propulsor que não carrega nem por um decreto. Segundo consta, talvez haja uma chance de deixar esse mundo quando o tempo ficar menos seco, a umidade relativa do ar voltar para um nível razoável, chover nas cabeceiras para encher a Cantareira…

Resumindo: vai demorar. E, nesse intervalo, o extraterrestre se propôs a dar uma ajudinha e, além de manter as informações relevantes chegando pela fresta, quem sabe, armar um plano de fuga salvando a pobre cronista das ondas que insistem em castigar sua praia.

Na floresta a vida continua cabeluda, mas isso não é novidade. Poucos lêem e quando o fazem, preferem não acreditarem no que ouvem. E só se fala em educação. Exatamente os mesmos que “revolucionaram” o setor mais importante do país nos últimos anos.

Piada, não é? Seria se, de um tempo para cá, tudo não tivesse virado loucura. Assim não há anedota que sustente uma conversa. Nem de botequim. O que adianta ir passear se não dá para trocar uma ideia? É mais ou menos como ficar aqui, olhando o nada quase nu pela janela.  Porque a lua se escondeu depois de escorregar até seus reflexos derradeiros nos vidros vizinhos dos prédios laterais.

Depois da Cheia, veio a Minguante…

Lua (zinha)que já trouxe a primeira novidade: os escoceses plebicitaram que preferem ficar guardadinhos sob as abas do chapéu da rainha inglesa. Coitado do Wallace…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Crônica da crioula ensandecida

Leme 140822 236 onda espetacular prancha bodyboard cutTexto e foto de Valéria del Cueto

Divididos – até então – em várias séries temáticas das quais lançava mão conforme a inspiração e a ocasião, se passavam as semanas literárias. Entre uma “Fábula Fabulosa” da floresta governada pela anta, seus abutres, hienas e outras feras animalescas que mandam e desmandam na vida do reino; um novo salto do explorador extraterrestre preso na atmosfera poluída, testemunha de embates entre a polícia para quem precisa, grupos populares e impopulares depredadores de monumentos públicos ou o “teje” preso do governante acusado de afanar na mão grande os cofres públicos nos “Plucts, placts zum, tóin, póin”; e os delírios alegóricos utilizando imagens das forças da natureza tais como tempestades, raios e ondas.
Assim o cotidiano construía linhas, frases, parágrafos e laudas formando o mosaico metafórico da realidade que desfilava nas crônicas. Ora otimista, ora molambenta… Mas, quase sempre, com um quê de poesia paradisíaca da Ponta do Leme, Rio de Janeiro.
Até que, num belo e ensolarado dia de inverno, ao tentar juntar os últimos acontecimentos, a cronista surtou de vez! Sem conseguir sequer escolher uma séries, tamanha a quantidade e a qualidade dos fatos a serem relatados no enredo que virariam as laudas do latifúndio que lhe cabia naquela semana. Impossível fazer um recorte deixando de lado parte dos incríveis eventos de fora do registro ou encaixar a realidade cabeluda em seus escaninhos literários.
Foi aí que, incorporada pelo espírito do excepcional Stanislau Ponte Preta, a crioula cronista endoidou de vez! Misturou floresta, alienígena e alegoria numa metáfora tropicalista e, diante do mar esmeralda agitado e fria de quase primavera, em pleno 11 de setembro, se deu conta que tudo que dissesse jamais teria credibilidade. Por que saiu esse texto, que não só deu samba por falta de rima o que, diga-se de passagem, nunca foi sua especialidade…
“Enquanto a onda gigantesca despencava sobre os bem-aventurados reduzindo-os a grãos de areia molhada – sugadas pela força do paredão que invadia o Caminho dos Pescadores – escalando a Pedra do Leme para pegar carona na extensão do bondinho do Pão de açúcar, o extraterrestre (que não era trouxa nem nada) sem forças para tentar um lançamento propulsor em direção às estrelas, usou num pezão uma das placas eleitorais do ficha limpa Índio da Costa, bancadas pelo homônimo invasor e seu projeto de quiosquizar a praia alheia e, no outro, a transparência congressual que ofuscava a visão Sveiter dos veículos na única saída do Leme. Queria atingir a plataforma Petrobras desvalorizada, aviltada e loteada entre os próceres da floresta comandada pelas espécies exóticas “nadasabium” e seus comparsas registrados na agenda contábeis e cobráveis do dedo duro, língua mole e delator premiado (vazadas pelo ralo que desaguavam no esgoto fedido no palácio antal). Iam pela tubulação das empreiteiras comadres, em direção aos paraísos fiscais, a parte que deveria caber a educação, saúde, segurança e a tal mobilidade, famoso escoadouro dos engarrafamentos dos veículos incentivados poluidores da indústria da floresta que vai pra frente e, agora, alimentadores do desemprego camuflados em 20 milhões de bolsas quadrilhas que divulgam, na propaganda enganosa paga com o quinto não malocado no santo do pau oco, o que resta do habitat devastado pelos agrotransgênicos da motosserra de ouro, ancorada num porto de Cuba, e vassala da anta crustáscea amparada pelo dirigente da corte absoluta ungido pela “ani-mor”. Ela aponta sua pata e arreganha seus dentes roedores em duas direções: na de quem ameaça o reino do faz de conta e na dos que vazam as informações de seus bem feitos dinheirais e subornantes enquanto, com um sorriso falso, levanta os olhos dos seus tênis alertando que seus feitos não caberão nem permanecerão marinando na onda eleitoral que o extraterrestre antevê por aí…”
Afinal de contas, cadê a por-rá do gigante que botaria ordem no bagaço que sobrou desse laranjal, indaga a crioula cronista doida sendo conduzida para o hospício mais próximo. Logo ali, do outro lado do túnel?
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Aonde dá a onda

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Tá no mar? Dentro d’agua? Pagou pra ver? Então se prepara… Nada num dia é igual após o outro.
Às vezes, mansa. Outras, com marola. A vida pode ser um sossego com céu de brigadeiro. Assim meio lagoa, tipo piscininha. Verde esmeralda, azul translúcido. Água tépida, boa para boiar e nadar.
Essa é a praia ideal? Para alguns, talvez. Para outros, nem tanto. Nada é permanente. Ondas, elas tem que existir. É o ir e vir.
Delas dependem as manobras, o desenho riscado nos picos no ritmo inconstante ditado pela força do mar.
Bom para os atletas observadores dos ventos que acariciam ou açoitam a superfície e atiçam as correntes marinhas. Vento que venta na direção do instante, ainda fácil de dominar com alguma habilidade. Longos mergulhos, o vai e vem praia e espera, depois da arrebentação.
Na beira, é como pular corda. Tem que saber a hora de entrar e sair, o momento certo de chegar e agir.
Quanto mais alto, maior o risco, aumenta a emoção. O fator que amplia o tempo da descida pode ser decisivo. Ir ou não ir. Domar, evoluir ou tomar.
Tudo ali, nas mãos, braços e pés de quem se lança, ainda por opção. Respiração, força e ação.
Também há a tempestade. Viração sem perdão nem piedade. Tudo forte, ligeiro, pauleira, inexorabilidade.
Parece que não termina porque não há escolha, nem previsibilidade. O quase eterno sopro do gigante.
Uma magistral virada no vento e o oceano ruge.  Engole que nem fera. Exigindo concentração, esforço e braçada.
O segredo é não parar nem recuar.
Enfrentar de peito aberto o maior e mais forte. Seguir mar a dentro  enfrentando o perigo. Único caminho para fugir da área crítica.
Mesmo sem saber o que está por trás da gigantesca massa de água. Compacta e apavorante ela cresce cada vez mais. Domina a visão, sugestiona a mente.
Perdendo o fôlego, engolindo o medo, braçada após braçada, só resta aumentar – sempre – o ritmo.
Na cabeça só foco e certeza. A falta de uma braçada pode ser o que separa a parede demolidora nas costas da proteção das profundezas.
Ali, onde será possível aproveitar o repuxo avançando um pouco mais para fora do espaço que separa uma última chance do nada indesejável.
A fera cresce pronta para devorar ou, pior, cair como uma bigorna de milhões de quilos sobre o espaço no qual – sabemos – somos apenas um elemento a mais.
Sem preconceito, sem escolha. Por que ali, como na vida, quem decide é ela.
Por incrível que pareça, a única possibilidade é encarar. Sempre em frente. Fazer o possível para chegar o quanto antes diante do inevitável e, sim, afundar! No mergulho mais profundo que puder.
Depois é rezar para conseguir emergir e respirar novamente, antes de olhar o que havia por trás do  monstro.
Talvez outro, maior ainda.
E, aí, como na vida, saber que só há um jeito, começar tudo de novo: nadar, rezar e acreditar…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Se essa moda pega…

Leme-140821-032-Standup-Paddle-P+úo-de-A+º+¦car--Leme-e-Niter+¦iTexto e foto de Valéria del Cueto

Li outro dia numa rede social que o editor do Ilustrado, do Diário de Cuiabá, um dos portos seguros dessas crônicas, estava a fim de chutar o balde e deixar a vida leva-lo sem escrever uma linha para fechar o seu caderno daquele dia.

Isso me fez pensar. Quantas vezes não tive a mesma vontade em relação a escrevinhação semanal? Quais as  técnicas já utilizei para enganar a criança marrenta que existe em mim, fazê-la tomar tenência e cumprir o combinado com meu próprio eu: publicar todos os domingos um novo texto?

Definitivamente não consegui, apesar de um grande esforço mental, encontrar um bom conselho para incentivar Rodivaldo Ribeiro, o editor, a encarar seu desafio.

Acontece que a cada refugada acabo usando um artifício diferente para ultrapassar a barreira que tenta me paralisar a vontade.

Algumas vezes, em vez de pensar no texto, miro numa foto e dela extraio uma ideia. Outras, apelo pura e simplesmente para os deuses da Ponta do Leme, que raramente me faltam. Afinal há ali uma conjunção de fatores capazes de incitar a imaginação de qualquer ser humano sensível ao meio que o rodeia: sol, mar, ondas, areia, movimento, esportes, ventos, horizonte, céu…

Hoje, o tempo está nublado e, junto com ele, apesar de não querer, minha alma também. O frio impede meu caminho natural para buscar inspiração. E, se tivesse alguma coisa para dizer para o Rodivaldo, seria: mete bronca, parceiro. Chuta o balde e se liberte!

Poderia – e queria – fazer o mesmo, mas meu vazio iria recair sobre o editor que – soube depois – com grande esforço, juntando todos os elementos inerentes força de vontade do espírito que move os editores, havia conseguido fechar o caderno no seu dia de rebeldia não concretizada. Como poderia eu, impor-lhe as duas laudas que me faltam assim, em plena sexta-feira?

Por isso, apelei para todos os meus protetores e escolhi uma foto que me levasse para bem longe do meu vazio existencial e me preparei para encarar minha tarefa.

Confesso que nem plástica das pranchas de standup paddle e seus remos que apontam para o céu, indicando o rumo do horizonte infinito,  foram suficientes para me fazer reagir.

Pensei, mais uma vez, em apelar para o argumento definitivo e contra o qual nunca combato: a preguiça,  passando a bola para Rosivaldo fazer o gol garantindo a ausência do goleiro para facilitar um pouco as coisas. Mas, novamente, achei que não seria justo sobrecarrega-lo com o meu vácuo criativo.

Como vocês podem ver, aqui estou e se o faço, é por ter arrumado um bom motivo para sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Acontece que hoje é o último dia do mês de agosto. E isso, não poderia deixar de registrar. Pelo simples fato de ter sobrevivido a ele.

Não vou fazer um relato dos 30 dias que antecederam essa data derradeira porque tenho por princípio procurar (sempre que posso) um viés de esperança no futuro no que escrevo.

Hoje essa esperança se resume em registrar – e comemorar – o fato de ter sobrevivido a esse agosto inesquecível e poder fazê-lo dizendo: bem vindo setembro! Que a primavera nos encha de luz e novas possibilidades. De preferência em mar aberto, com céu de brigadeiro e navegando para dias melhores…   

 *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Plantar, comer, contar e… colher!

Leme 140807 015 La Fiducia Batata Rostie RecheadaTexto e foto de Valéria del Cueto

Semana passada “Mistura Fina” foi o título de (mais) uma crônica, esta gastronômica, que provocou vários comentários. Logo no início expliquei modestamente que entre meus dotes e talentos a culinária não estava incluída. E não me perguntem o porquê.

Muita gente foi fisgada pelo formato do texto sem saber que durante anos induzida por minha avó tive o prazer de ser leitora assídua do grande Apícius, crítico de gastronomia do Jornal do Brasil. Ele usava esse pseudônimo para escrever sobre restaurantes cariocas. Sempre acompanhado por madames (a mais frequente era a “M”), suas incertas anônimas geravam colunas deliciosas, ora favoráveis, ora desancando os estabelecimentos do Rio. Seu apelido fazia referência a um comilão romano, dos tempos do Imperador Augusto e servia para proteger um dos melhores textos que “assombrou” a imprensa durante mais de 20 anos.

Pois foi sob sua inspiração que durante um tempo, bem no início da década de 90, tive uma coluna gastronômica num jornal de Cuiabá editado pela minha chefa predileta, a jornalista Lígia Lemos, mãe do Marcão, hoje secretário de Comunicação do Estado de Mato Grosso. Não me recordo se no Jornal Independente ou na Tribuna Cuiabana, de Shirley Ocampos.

Durante várias edições falei sobre restaurantes e acepipes que encontrava na capital mato-grossense. Rapidamente consegui entender por que João Roberto Marinho de Azevedo, filho de uma tradicional família carioca, se escondia atrás do codinome romano. Por uma questão de sobrevivência, acabei definindo que iria apenas destacar as qualidades da culinária de Cuiabá e simplesmente ignorar o que não me caía bem no paladar e no estômago.

Mas, como Apícius, adotei um estilo narrativo menos científico e mais poético, o que fazia que a “fantástica” coluna fosse de vento em popa.

Até o dia em que… para falar da Batata Rostie, acompanhamento que sempre a-mei e só havia encontrado muito bem feita num pequeno restaurante de um casal alemão, talvez no Jardim Tropical, escrevi um texto em que fantasiava que, por causa da batata, o lendário bandido Márcio Martins, o Rambo do Garimpo, preso no batalhão da PM na XV de Novembro, ao encomendar a iguaria e ter seu pedido negando, não resistiu ao desejo e fugiu pelo portão principal, se misturado aos convidados de um casamento que acontecia na igreja em frente, e botou o pé no mundo. Não sem antes passar no restaurantezinho (que, esclarecendo, não era a Casa da Suíça)e degustar uma porção caprichada da iguaria.

Tirando a parte da batata, por incrível que pareça, a fuga realmente havia acontecido como narrava a coluna. Corria na cidade, inclusive, que o mesmo havia molhado a mão do comandante da unidade com uma grande quantidade de ouro!  Pois essa foi a última vez que escrevi regularmente sobre gastronomia. Imagino que vocês calculem o motivo.

Hoje, quando encontro um lugar que prepare o prato com o capricho necessário, sempre penso no bandidão que, involuntariamente, acabou cortando minhas asinhas de crítica gastronômica. Normalmente, quando muito, pincelo o assunto. Era o que ia fazer aqui, falando sobre a evolução da Batata Rostie. Ela,  atualmente,  frequenta meu cardápio recheada por gostosuras como carne seca desfiada com catupiry, no Bistrô La Fidúcia Café, em Copacabana, Rio de Janeiro.

Mas fui fisgada pela lembrança de um tempo em que, no mínimo, bandido ia para a cadeia mesmo que pra fugir depois virando lenda, e Mato Grosso era o lugar que havia escolhido para viver e testemunhar histórias saborosas como uma Batata Rostie que evoluiu e, agora, é recheada de temperos e aventuras (bem) vividas…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Mistura fina

LemeChap 140727 018 Bar do Davi feijoada de frutos do mar Chap+®u MangueiraTexto e foto de Valéria del Cueto

Nesse tempinho gelado acabamos o jornalista Cacá de Souza e eu, subindo o morro até a entrada do Chapéu Mangueira, aqui no Leme, para uma farra pantagruélica no Bar do David.
Entre shots de cachaça e camarões empanados com catupiry, alcançamos o nirvana caindo de boca num dos pratos mais famosos do bar do filho do Lúcio, morador querido e tradicional da comunidade: a Feijoada de Frutos do Mar.
Cacá, íntimo de David e de todas as atendentes, não deixa de bater ponto no pedaço todas as vezes que vem ao Rio e é mais bem chegado do que eu, que apresentei o point para ele.
Como “autoridade”, foi ele que me fez experimentar a iguaria feita com feijão branco, peixe, mexilhões, camarões, lulas e etc, acompanhada de arroz branco e uma farofinha de alho dos deuses.
Um mix equilibrado de sabores e texturas, daqueles que a gente tem vontade de degustar ajoelhado. Tudo na medida certa, sem que um único tempero se sobreponha aos diferentes tipos de ingredientes do prato, talvez o mais famoso do lugar.
É muito difícil alcançar esse equilíbrio, por exemplo, com tantos pontos diferentes de cozimento ideal. As lulas são mais sensíveis e se passam do ponto podem ficar emborrachadas, os mexilhões nem se fala. Já o peixe precisa de um tempinho maior, para adquirir a textura ideal.
Confesso que como não sou especialista em cozinha, a não ser como consumidora, nem tentei arrancar de Andréia, a garçonete maravilhosa que ainda indica o que está mais caprichado no cardápio do dia, e do sempre simpático e receptivo David, os segredos da Feijoada de Frutos do Mar. Mas, como provadora gastronômica, sou capaz de avaliar o grau de complexidade, apuro e equilíbrio do acepipe servido.
É por isso que posso imaginar a ciência para preparar um prato como a Feijoada de Frutos do Mar, assim como alcanço a complexidade de outras misturas, alimentares ou não, principalmente as com ingredientes díspares e contrastantes.
Cada um tem sua personalidade, sua consistência e características (cor, cheiro e sabor) próprias e precisam ser acomodados e mesclados de forma a valorizar suas qualidades para comporem um novo elemento único e particular.
Um pouco demais, um pouco de menos, o erro no tempo de preparo, no cozimento e na apresentação podem simplesmente “entornar o caldo” transformando uma preciosidade num angu de quinta. Isso vale para outras situações: equipes de trabalho, grupos de amigos e… política.
Compor o quebra-cabeças das chapas que concorrem as eleições 2014 e saber como dosar os ingredientes, qual a ordem correta de juntá-los no caldeirão eleitoral e o tempo ideal de exposição de cada um, é essencial no processo.
E é aí que a porca torce o rabo sem que ele possa ser agregado ao mexidão que teremos em 2014. Até o momento não está dando para definir os diversos sabores e depurar as escolhas, simplesmente por que há de um tudo em todos os agrupamentos que se apresentam.
O resultado são opções insossas e mal finalizadas, com acompanhamentos que tentam aparecer mais que o prato principal, resultando numa gororoba indigesta e mal apresentada para o eleitorado.
Tem gente precisando de umas aulas com o David para aprender que a simplicidade é o principal do cozido…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Beijou, beijou

Araras 140406 001 obra janela floresta delirio lindaTexto e foto de Valéria del Cueto

Quem nasce primeiro: o ovo ou a galinha? No caso das crônicas do Sem Fim… nestas que para vós escrevo, o texto ou a foto que o acompanha?

Varia muito! Hoje quem piou primeiro foi a foto perdida num arquivo não editado e reencontrado numa limpeza monstra do hard disk do notebook. A seleção e transferência dos arquivos para um HD externo sempre deixa uma sensação estranha do que poderia ter sido feito e mostrado a mais do período encapsulado a ser transplantado.

Aí começa um re-viver de histórias, sejam elas fotográficas ou escritas. Constato que nunca vou conseguir fugir da narrativa múltipla de um fato, apesar de ter nos registros fotos únicas, capazes de sintetizar uma história inteira. Acontece que não consigo olhar com os olhos de agora quando edito os ensaios.

Já tive algumas experiências que me fazem sempre pensar que o que acho síntese ou essencial no momento de selecionar pode não ter um significado tão relevante depois. E vice-versa. E é aí que mora o perigo. No descarte temporal. Por que o que cair nessa primeira seleção do ensaio, cairá para sempre. Não será editado, trabalhado e equilibrado.

Para justificar essa multiplicidade de produtos comecei a preparar várias séries paralelas. Como por exemplo  reflexos, sombras, janelas, mãos trabalhadoras, sapatos do samba, fashion, instrumentos… Isso permite que além da foto síntese, eu também preserve sem culpas o entorno do fato central do mote do ensaio, agora geral. Na hora da edição é um Deus nos acuda, mas fico menos presa a uma rigidez numérica de fotos. Alguns desses grãos de areia ficam preservados e podem virar futuras pérolas.

Um exemplo? Na quadra da Mangueira, há alguns anos,  fotografando mais um ensaio da escola,  comandado por Delegado, vi uma passista brejeira fazendo graça pra ele. Fiz a foto e postei. Recebi um tempo depois uma mensagem de Rafaela Bastos, geógrafa, sócia da Nova Guarda, empresa de Diálogo e Inovação Cultural e… passista da Estação Primeira.

Hoje sou parceira da Nova Guarda em projetos como o registro da Bateria da Mangueira e a Mostra Carnevalerio graças a foto que sintetiza os caminhos entrelaçados pelo amor à verde e rosa. A imagem liga as histórias do genial Mestre Sala Delegado a da Musa.

O que mais temos em comum? Uma visão voltada para a sustentabilidade. No meu caso desde sempre, por onde passei. É com Rafaela, Cássio Novo, Vitor Art e Pedro Zaidan, os demais sócios – e muita gente do mundo do carnaval e do samba – que acompanharei nos dias 31 de julho, 01 02 de agosto a Carnavália, feira de empreendedorismo e negócios do carnaval – e o 1º Encontro Nacional do Samba (Sambacon), aqui no Rio. A iniciativa da Carnavália é inédita e juntará várias vertentes da economia criativa do carnaval.

Mas não é (só) sobre isso que quero falar, é sobre a visão imediata e o olhar a distância e como as coisas podem ganhar novos significados. Nem precisa ser muito longo, esse distanciamento. Basta um gesto, ou uma ausência dele para que toda a cadeia se altere totalmente!

Mato Grosso e sua campanha eleitoral são exemplos disso. Vejam o que uma insatisfação gerou em uma semana nesse equilíbrio político delicado.

O conselho? Tal como na seleção das fotos, peque sempre por excesso, nunca por omissão. Quem sabe o dia de amanhã?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Como dois e dois

Rio 140716 004 Ponta do leme surfista onda deitadoTexto e foto de Valéria del Cueto

Virou moda e está infestando as redes sociais os cinco. Antes, tudo eram dez. Mas de uns dias pra cá acho que passaram a pensar que dez era muito! Então, agora, fashion são os cinco. Explico: “cinco piscinas naturais mais belas do mundo”, “cinco conselhos para quem vai andar de ônibus”, “cinco dicas para viver melhor”, “cinco tipos de maquiagem que você tem que conhecer” e por aí vai…

Sempre fui adepta das sete: minha primeira lei de vida sempre foi “sete ondas fracas e sete ondas fortes para entrar e sobreviver no mar”. É isso mesmo. Desde criancinha que aprendi a esperar a hora certa (as sete ondas fracas) de ultrapassar a arrebentação e outras sete (dependendo da altura das ondas) para me atirar lá de cima, em direção à praia como se não houvesse amanhã. Digo dependendo porque se o mar está muito grande confesso, do alto dos meus cinquenta e poucos anos de experiência, que prefiro uma marola veloz que um paredão inexpugnável e, quem sabe, assassino.

E por viver pintado o sete, seguindo as fases da lua que mudam aproximadamente a cada sete dias e tentando ver as sete cores do arco-íris, é que reparei na onda dos cinco que assola as redes sociais e, portanto, o cotidiano de grande parte da população hoje ligada e linkada ao mundo virtual.

Como já disse antes tudo eram dez: “dez lugares que você tem que conhecer antes de morrer”, “dez conselhos para uma vida saudável”, “dez alimentos que não podemos deixar de consumir”, “as dez cidade mais poluídas do planeta” e por aí ia…

E eis que, acho eu, a velocidade do mundo encurtou o número de opções disponibilizadas a cada postagem, especialmente as de 144 toques do Twitter. Criaram até um site amplamente divulgado por ali que apresenta sempre as tais cinco opções de tudo! Dez é muito, três é pouco, cinco está de bom tamanho, estabeleceu a onda de postagens no meu timeline.

A impressão que fica é que uma única opção nunca vai satisfazer a todo mundo e acabará gerando polêmica e/ou discussões acirradas conta ou a favor, então o truque é ampliar o leque de possibilidades e, assim, abarcando mais variáveis, atingir – e agradar – a um público maior e mais diversificado.

Fico pensando aqui com os fios das franjas puídas da minha canga estendida nas areias calientes da praia, na Ponta do Leme, banhados que somos sob um único sol que passeia vagarosamente cortando o céu de leste a oeste, que ser uno é uma prática parece em extinção. Ficamos assim, com os cinco que já são sentidos, dedos, e por mais um tempo, títulos mundiais do futebol… Agradeço a paz (una) voltou ao paraíso que hoje compartilho com um pouco mais de cinco gatos pingados que observo no entorno. Mais adiante, no marzão que vai e vem no ritmo das ondas, há mais de cinco surfistas evoluindo, afinal, o mar está alto e nos convida a quebrar a “heptaescrita”, fazendo dos cinco a regra e, nela, como tal com todo direito, somos a exceção. Mas não a única!

Viajando pela rede, me deparei com outra variante muito justa e apropriada. Numa postagem de viagens, as que mais têm me atraído ultimamente, – graças a proposta de dar dicas e mostrar por fotos ou textos os lugares que já visitei ou gostaria de um dia conhecer e que gerou o “No Rumo”, encontrei no Catraca Livre: “Confira 35 dicas geniais antes de fazer as malas

Minha conclusão? Fico com as exceções. Gosto mesmo é das descobertas que podem me surpreender muito mais do que cinco vezes. Vêm delas a sensação única de que não há limites para as inúmeras e incontáveis coisas que ainda quero descobrir – e sentir – nessa vida…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Dançando nos campos do Senhor

Protesto 1406023 087 Moradores de rua dan+ºando fan festTexto e foto de Valéria del Cueto

É como se não houvesse amanhã. Todo mundo acordando ao som de um assobio. O que vem depois? A explosão! Tem dias que pode, sem estranhamento ou preocupação. Ninguém se espanta com o barulho por que sabe sua origem: o futebol.

Aqui no Rio, pelo menos uma vez por ano, isso é muito normal, então, de 4 em 4 anos, ninguém estranha o fato. Todo o santo dia 31 de dezembro, na medida em que as horas vão passando, o ruído aumenta até o festival de fogos da meia noite  no famoso réveillon em Copacabana.

Dia de jogo do Brasil muda um pouco o timing, mas a essência foguetória é a mesma. E olha que nem somos chineses, os inventores do brinquedinho de artifício. São os fogos que vão marcando a crescente excitação popular que vai tomando conta do ar que todos nós respiramos aqui na Ponta do Leme e, creio que no país inteiro, nos dias de partidas brasileiras na Copa do Mundo. É como se a vida se limitasse aos degraus necessários para a conquista do almejado título esportivo. Uma loucura.

E já que estamos nela, bem do ladinho, só resta observar os efeitos imediatos e de primeiro grau que essa paixão nacional causa no entorno.

Agora, depois de três semanas de eventos na praia de Copacabana já dá para fazer uma análise mais detalhada do que rola no pedaço e das tribos presentes na festa no ensaio fotográfico que sigo fazendo, o #justnow

A muvuca é geral, mas digamos que as comunidades podem ser distinguidas mais claramente: os que fazem da orla sua casa, os que vêm pra “presepar” e aparecer nas telas do mundo, quem está fazendo negócios (e aí tem diversos tipos e as mais variadas possibilidades), quem passa só pra dar uma olhada no espetáculo, quem vem ver o futebol e consumir o espetáculo e seus produtos. Foi preciso um tempo de adaptação para decodificar tanta diversidade. Hoje, já dá para escolher com mais objetividade a melhor hora para fazer as fotos, para passear ou ir á praia.

Nesse período, algumas curiosidades. Como nos dias de sol a preocupação dos branquelos com suas orelhas, esquecidas no primeiro contato com o sol carioca até tostarem inadvertidamente pela falta de uma distribuição adequada de protetor solar.

Outra atração são os dreadlocks, aqueles cabelos longos e embaraçadíssimos a la Bob Marley. Quem disse que só turista abonado ia ter visto para chegar ao coração da Copa? Os mochileiros são muitos! Extirparam os mendigos e da paisagem, mas não contaram com os andarilhos que, com ou sem suas casas nas costas, dormem em qualquer lugar, inclusive nas areias da praia.

Quanto mais afunila a competição, mais viramos a meca e objeto de desejo dos estrangeiros de qualquer condição social! Primeiro foram os motorhomes que, depois de invadirem o Leme e ocuparem a orla e as ruas do bairro, foram remanejados para o Sambódromo e o Terreirão do Samba. Dizem que lá virou uma espécie de Cidade de Lona informal como as da lendária Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul. Ainda não tive chance de checar o movimento por lá, mas li uma notícia contando que, para fugir dos preços turísticos extorsivos cariocas, levas de turistas estão frequentando o Restaurante Popular, feito para oferecer comida a R$ 1 (hum real) para os menos favorecidos da cidade.   

Enfim, dentro do grande e milionário evento, há espaço (tomado a muque) para quem acha que ver uma Copa do Mundo não tem preço e qualquer sacrifício é válido para viver essa emoção, incluindo nossos mendigos…      

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Cara de paisagem

Copa 14060711 004 copa quiosque festaTexto e foto de Valéria del Cueto

O Rio de Janeiro é uma festa e seu epicentro até entrar em campo o cenário do novo Maracanã, na partida entre Argentina e a Bósnia Herzegovina, na tarde desse domingo, é sem dúvida, a praia de Copacabana.

Daqui do oásis de paz e tranquilidade que (ainda) é a Ponta do Leme fiscalizo a movimentação, dando umas pernadas pelo calçadão para ir visitar, lá no Forte de Copacabana, do outro lado da praia, o CAM – Centro Aberto de Mídia, uma das bases do jornalismo mundial que cobre o evento.

Dá pra sentir a animação que se espalha em ondas pela orla de Copacabana. A “arrebentação” é logo ali, depois do Leme, na altura da Avenida Princesa Isabel, onde está localizado o FIFA FAN FEST.

Talvez seja essa gigantesca estrutura que ocupa a areia e estreita o calçadão por vários quarteirões a barreira que delimita nosso reduto de paz. À frente, em direção ao Posto 6, o ritmo é outro.

As levas coloridas de turistas que ocupam as areias, calçadas e, principalmente, os quiosques, bares e restaurantes se movimentam felizes e barulhentas. Ao contrário de nós cariocas, que precisamos manter nossa rotina de moradores e trabalhadores no maior cartão postal do país, para eles tudo é festa!

E, nesse quase carnaval, no quesito fantasia a originalidade conta muitos pontos. O uniforme mais comum é a bandeira do coração amarrada no pescoço servindo, inclusive, de proteção contra o ar mais fresco dessa época do ano. São como fantasias de alas das escolas de samba: básicas e em profusão.

O prêmio maior é ser notado por uma das dezenas ou centenas de câmeras de TVs e de celulares de jornalistas (são mais de dois mil cadastrados no Centro Aberto de Mídia) registrando dia e noite as cenas que mais chamam a atenção nesta incrível miscelânea cultural e esportiva.

O cocar gigantesco do torcedor solitário sul americano; a boneca inflável em tamanho natural com a camisa da Argentina, igual a do seu dono; os tradicionais chapéus mexicanos, perfeitos para proteger do sol carioca (se não tiver vento, é claro), todos já tiveram seus momentos de fama em fotos e nas telas de TVs do mundo inteiro.

Com o passar dos dias, os grupos começam a adotar seus lugares preferidos nos points do calçadão, delimitando seus territórios.

Indo e vindo, dá para mapear as preferências. Nas imediações do Copacabana Palace, por exemplo, o movimento é sempre intenso: além do cartão postal, é também, saída do metro. Tem gente à ufa! Ali, num dos quiosques, os colombianos montaram seu QG.

Estou só dando um exemplo, pra não acabar com a divertida brincadeira de encontrar as diversas representações pelo caminho da Princesinha do Mar.

Tem de tudo!  Embalado muita cantoria e barulho. Nos quiosques a música só pode ser “voz e violão”. Percussão é proibida, sobre pena de multa para os proprietários. Em compensação, bateria na calçada, inserida no contexto de bandas de rock ou grupos de jazz ambulantes, isso pode.

Camelos vendem apitos e outros apetrechos que complementam as indumentárias turísticas, não apenas brasileiras. A linguagem é universal para realizar os negócios.

Durante o período da Copa do Mundo de Futebol, Copacabana é a Babel do século 21, com seus pecados e diferenças embalados e movidos por uma paixão, não apenas nacional, mas mundial.

Somos a mais linda paisagem da Cidade Maravilhosa!

Imagem síntese de um espírito maior: O esporte que a todos une. Em qualquer lugar do mundo…                  

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Até nosso lixo é um luxo!

Mangueira 140302 393 Renato Sorriso bandeira do Brasil apontaPor Valéria del Cueto

É muito assunto para pouco espaço, assim como é pouca caçamba para tanto descarte. Dito isso, vale ressaltar que o carnaval, como força motriz criadora e geradora, sempre andou a frente das teorias que permeiam sua produção artesanal e industrial.
No quesito gerência a aplicação de conceitos de consagrados especialistas mundiais em gestão da excelência (o PDCA de Deming, a adequação de uso com satisfação do cliente de Juran, as equipes de trabalho de Ishikawa, a filosofia de Crosby, o controle total da qualidade de Feigenbaum e os ensinamentos de Peter Drucker) são, atualmente, verificados na cadeia gerencial do cotidiano das escolas de samba. Como não dar a devida importância à questão do descarte na indústria carnavalesca?
“Nossa preocupação é em como colocar o carnaval na avenida. Como tirá-lo de lá, são outros 500…” A resposta pertinente a essa questão há alguns anos deixou de ter consistência quando se detectou o valor do que saía das pistas de desfile (isso, para abordarmos apenas um “fim” da questão, deixando de lado, entre outras, a destinação das aparas da imensa produção dos barracões).
As agremiações começaram a vender e/ou doar fantasias e alegorias para outras entidades carnavalescas criando uma cadeia que pode começar na Sapucaí e terminar alguns anos depois, por exemplo, na passarela do carnaval de Alegrete/RS. Outra vertente é dos grupos que, depois de desfilarem no sambódromo carioca, se apresentarem em escolas de grupos inferiores na Intendente Magalhães, zona norte do Rio.
Mas como agregar um selo de sustentabilidade a todo esse esforço ainda incipiente se levar em consideração a imensa quantidade de “lixo” recolhido nas dispersões carnavalescas? Nesse momento temos movimentos e ações realizados individualmente pelas escolas de samba e outros agentes do processo. Como sempre pioneiros e inovadores apesar de, mais uma vez, serem grandes laboratórios na prática para, somente posteriormente, serem reconhecidos e compreendidos pelos teóricos. Eles, que já acordaram para mais esse fenômeno em desenvolvimento na indústria carnavalesca.
É possível identificar os atores principais do que será em breve um processo muito mais amplo. As escolas de samba não são as únicas envolvidas. A cadeia de responsabilidades que influencia e atua diretamente na questão dos descartes começa pelos fornecedores, os tipos de materiais e como eles são produzidos; passa pelos carnavalescos que definem o que será utilizado; os componentes e como vão tratar a fantasia que tem um valor agregado mesmo depois da apresentação; as escolas, que viabilizam novas utilizações para as peças e pelo poder público, encarregado de recolher o que fica para trás nas caçambas e espaços do entorno das passarelas.
Parece simples, mas não é. Pelo menos no caso do reaproveitamento do que fica nas dispersões. Uma das dificuldades é a diversidade incrível de materiais que dificulta a coleta, a separação e a seleção do que é, na verdade, um tesouro!
Já há iniciativas para fazer da arte desperdiçada e descartada outras peças, também de arte. É assim que ainda de forma incipiente, mas insistente, projetos tentam recuperar, classificar e, reinterpretando em novas leituras, reciclar a arte pela arte.
Sustentabilidade aos poucos deixa ser apenas tema de enredos carnavalescos para virar prática cotidiana na indústria sempre criativa e inovadora do carnaval.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “É carnaval” http://carnevalerio.comMangueira 140302 003 Renato Sorriso p+®s no ar bandeira

Pluct, Plact, Tóin, óin, oin!

Mocidade 14020 297 bateria mais quente cut

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois do Pluct, Plact, Tum e Pow…  (já devidamente registrados nos anais dos arquivos da visita exploratória interplanetária), cansado da tarefa inglória de tentar ultrapassar a camada atmosférica altamente poluída física e moralmente e precisando guardar forças para esperar o momento certo para picar a mula, nosso extraterrestre optou por se deixar levar por um rio que passou na sua vida.

Uma pena que o porém, ai porém, não era um caso tão diferente assim, apesar de ter marcado, num breve instante, (poderia ter sido preferencialmente um dia como outro qualquer), vários corações para sempre. Era dia de operação da Polícia Federal.

Coitado! Navegou por oceanos, rios e mares pantaneiros até que subindo pelas águas lindas, ter subitamente encalhado nas águas rasas de um rio, o Cuiabá.

Por uma questão diplomática, precisava comunicar sua passagem às autoridades. Pela ordem hierárquica. Preferiu se deslocar por terra para o Palácio Paiaguás, sede do governo de Mato Grosso “do Sul”. Engarrafou. Muito. Demaaaais. Puxou informações no seu aparelho de comunicação. Descobriu que não era o primeiro visitante do dia e que, graças a abordagem  anterior, o mandatário que tinha o nome de um pomar de silvas, não estava disponível. A última notícia é que tinha passado escoltado por ruas da cidade. E não eram os guardiões costumeiros quem o conduziam.

Já que estava ali por perto tomou a decisão de seguir até a casa que representava outro poder, o que fazia as leis. Elas, que deveriam beneficiar o povo e proteger o território que, pasmem, abrangia três ecossistemas: o cerrado, o pantanal e o bioma amazônico. Quanta responsabilidade.

Estranhou quando procurando o gabinete do prestigiado presidente vitalício do poder em tela verificou in loco que um prosaico móvel impedia o acesso ao feudo quase secular. Lá o tsunami federal era contido entre 4 paredes por um sofá!

E o povo pelos corredores fazendo cara de paisagem. Sem saber que para seres como ele os pensamentos alheios e próximos eram um livro aberto! Em alguns casos contábeis. Em outros, expressos em arquivos de computador, comprometedores ou não, eis a questão. Como a casa era plural, esperava-se que houvesse uma variedade maior literária, mas a verdade é que, com raras e ocultas exceções, a qualidade das obras era precária. Algumas, inclusive, com sérias falhas de concordância e ortografia.

Diante dos acontecimentos ainda não explicados era melhor fazer o que a maioria das mentes sugeria e gostaria: dar no pé. Rapidinho. Upa, upa cavalinho, lá se foi o ser interplanetário conhecer a praça de guerra cuiabana (descrição cheia de moral) numa busca que permitisse cumprir seu protocolo de apresentação.

Para o centro da cidade. Praça ao lado da catedral, cujo relógio passou décadas sem funcionar. Ali esperava encontrar uma receptividade mais de acordo com o manual de boas maneiras do Universo. Pura frustração… Membros da mesma força tarefa estavam fazendo uma visita não agendada ao alcaide exigindo papéis e cobrando informações. Deviam ser sérias e relevantes, caso contrário, tal solicitação não seria feita assim, no pá e bola.

Cansado de ser ignorado, apesar de seus 3 dedos, um único olho, da antena de captação, do tom lilás e da gosma de sua pele – que costuma assustar os humanos- , ele desistiu da missão. Algo mais assustador e imprevisto havia chegado antes dele.

Na partida, passou por outro visitante, o Rei da FIFA, que havia comprado o país e dominado 12 cidades para fazer uma competição com o dinheiro do povo/gado. Pensou em alertá-lo da situação anômala e dar o endereço para onde parte dos visitados havia sido gentilmente encaminhada. Mas, pensando bem, preferiu tentar mais um pulo desesperado para a Via Láctea sem se envolver com o outro alienígena. Contando, nem ele ia acreditar nos fatos que havia testemunhado…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”,do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

É santo e de casa…

Araras_140406_042_tronco_e_cipóTexto e foto de Valéria del Cueto

“Quem é que vai comprar aquilo?” especula a moça da barraca ao lado, do alto de sua cadeira de praia para o grupo de amigas que usufrui o sol da Ponta do Leme.

São eles, o sol e a Ponta, que me atraem. Minhas tábuas de salvação. Referências, junto ao mar e a praia, para onde corro quando não consigo espremer da vida por falta ou excesso de assuntos, um bom tema para aquela crônica que deveria ser semanal.

Assumo a culpa por, tal qual Ícaro, querer atingir o sol sem os equipamentos adequados. Em minha presunçosa autossuficiência, fui largando no decorrer das semanas escrevinhantes, os itens mágicos que me conectavam com o que só pode existir como um exercício do prazer de escrever pra dizer.

Um tempo ruim me fez trocar a praia por outro lugar qualquer, a pressa eliminou uma etapa da depuração e ajuste dos textos, deixei de escrever a mão e passei a castigar o teclado cada vez mais em cima do laço… O dead line minou a poesia de ter o poder de escrever neste caderninho nas tardes preguiçosas das sextas.

E assim, sem que fosse percebida, a conexão especial que gerou tantas histórias que da contemplação levava à ação desvaneceu, murchou. Quase não me deu  conta a chama estava se extinguindo. Descobrir essa carência foi como um soco no estômago. Ficou um vazio de fôlego e argumentos.

Estanquei, parei e, depois de um período de análise cheguei à conclusão que, para recuperar o prazer de escrever, só fazendo novamente o ritual do bem contar. Estou na praia. É tarde de sexta feira! No trecho. Até a hora… que acaba a carga da caneta. Sem dó nem piedade, antes mesmo de fechar a primeira das duas laudas de costume. E lá vou de volta pra casa… ainda sem meu tudo de inspiração.

A vida é assim, definitiva e cruel de vez em quando. Por isso é tão importante não deixarmos passar as oportunidades de celebrar as vitórias que ela nos traz. Nossas e dos que nos cercam. Como a longa jornada do  jornalista Cacá de Souza  para estudar e divulgar a incrível história de Cândido Rondon.

Quando penso em Mato Grosso a primeira figura que me vem à mente é a de Rondon. Vi pela primeira vez a sua imagem num livro de história quando estudava na escola Batista de Ponta Porã. Dali para frente nunca deixei de procurar saber mais sobre ele. E fiquei muito feliz quando descobri a cruzada de Cacá – aqui e no exterior –  tentando reunir e contar para todo mundo quem era e quais os feitos extraordinários do mato-grossense de Mimoso. Com maior ou menor intensidade, de acordo com o interesse que desperta, essa  busca nunca parou. Pode diminuir a marcha, mas sempre anda para frente.

Foi esse caminho que o levou a ser o palestrante e exibir seus dois documentários Rondon e a Cartografia e Expedição Roosevelt  na Exposição “Rondon – Vida e obra”, no Centro Histórico e Cultural Mackenzie, em São Paulo, no dia das Comunicações, 5 de maio, e ser apresentado assim: “…o cineasta e jornalista, Cacá de Souza, biógrafo e referência no estudo da vida e da obra de Cândido Mariano da Silva Rondon”. Dois motivos de orgulho para o estado: Rondon e o fato de ser um jornalista de Mato Grosso a autoridade escolhida para as palestras do evento!

Estranho foi a Secom de Mato Grosso, no release distribuído sobre a Exposição para os órgãos de imprensa, omitir a participação de Cacá no evento paulista. O mesmo governo estadual que patrocinou os filmes do jornalista exibidos e aplaudidos na Mackenzie. Esquecimento ou falta de dimensão do esforço dos que projetam para o mundo os feitos do maior herói mato-grossense.

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Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”,  do SEM SIM…  delcueto.wordpress.com

Quém! Ante os fatos, enta e/ou anta

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Fábula e foto de Valéria del Cueto

Era uma vez uma anta, cercada de ados e ores por todos os lados. Predadores que apoiavam e mamavam nas tetas da anta e diziam ser ela, a enta, rainha dos entes animais em geral. Eram istas de todos os tipos. Os piores. Dos que  sugam, mamam, esgotam e expelem.

A anta se achava feliz. Pensava que era algo além de uma anta, a enta assumida. Assinava, sorria e presepava para o resto da floresta. Diziam que era top e a anta acreditava. Fazia o seu papel de enta e se achava! Passeava entre os leões, tomava café com as hienas, banhava com jacarés, piranhas e lulas também, macaqueava com os símios… e assinava. Nem sempre sabia muito bem o que. Mas o simples fato de meter seu jamegão nos papéis oficiais fazia dela a mais vaidosa entre as… antas especialmente as de motocicleta.

Foi assim até o dia que o resto da floresta encheu o saco de tanta palhaçada  e resolveu demostrar de forma clara e inequívoca o descontentamento vigente no mundo animal. A anta e seus prepostos levaram um susto! Afinal, se estavam bons pra eles as assinaturas, os sorrisos e as presepadas, do que os demais reclamavam? Não recebiam seu quinhão de bolsa floresta?

As reclamações e os protestos cresceram de forma exponencial e tomaram a fauna em geral. Uma estratégia tinha que ser montada. Se não para impedir o sacode, pelo menos para se apropriar dele. Botaram no meio dos encontros populares batalhões de formigas, enxames de abelhas, seus paus mandados mais obedientes, deturpando as marchas e tocando horror no meio da mata. Como ter certeza que a violência não era oriunda dos manifestantes originais? Bastava ver quantos foram presos ou punidos pelos atos de destruição.

A intimidada floresta voltou ao normal e a corte dos predadores retornou suas atividades de sempre. Só que, obviamente, tanto a anta quanto a corte notaram finalmente que algo não estava bem. Algum sacrifício teria que ser feito para “ajustar” o meio ambiente!

A anta, jogando para a torcida, requentou a proposta de reordenar os poderes da corte. Claro que isso não agradou aos chupa-cabras de plantão. A proposta foi enfiada no fundo da mais profunda gruta da corte na floresta. Também detectaram que a anta poderia ser, sim, uma ameaça(zinha), já que havia demonstrado que pretendia botar as patinhas de fora. Apareceu a assinatura da anta num dos papéis que permitiam a mamação coletiva que estava sugando as maiores reservas do maior empreendimento, já quase falindo,  da floresta. Mostraram que a enta não passava de uma mera e simples anta mal informada, já que como a própria reconheceu, havia praticado o malfeito… sem saber. Pobre animal!

Também deram entrada numa lei que fazia dos manifestantes que abrissem seus bicos ou fizessem barulho nas trilhas da floresta criminosos da pior espécie. Para suprimir no grito qualquer ruído durante o maior evento esportivo das florestas do mundo.

Só que a pressão cresceu demais, a péssima fama da enta começou a prejudicar sua aspiração de continuar anta-rainha. Não restou a ainda enta-mór outra alternativa, a não ser chamar seus exércitos de formigas e as espécies servis de sempre para pedir-lhes que, depois do tal evento, ocupassem novamente as trilhas da floresta. Dessa vez, exigindo, “como nas Diretas Já”, mudanças no regime da corte da floresta. O pau vai quebrar a pedido da enta/anta!

O fim da fábula é pule 10: a anta, para manter a coroa de enta, pedirá penico à corte que continuará a predadora de sempre. A bicharada irá para o sacrifício e, quem sabe, para a jaula: pagará o pato! Que nem estava na floresta na hora do vamos ver…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Ziriguidum Pantanal, outra odisseia ambiental. À luta!

Foto album 11bTexto e foto de Valéria del Cueto

O senador Blairo Maggi, presidente da Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e controle do Senado convida a população para o ciclo de debates que analisará sua própria obra: o PLS750/2011 (Projeto de Lei do Senado). Ele dispõe sobre a Política de Gestão e Proteção do Bioma Pantanal. As audiências, solicitadas pelo Senador Delcídio do Amaral, (MS) acontecem nesta segunda feira nas Assembleias Legislativas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em Cuiabá e Campo Grande, respectivamente. Pantaneiros, compareçam!

 

Analisando o projeto:

“…por ter sua origem no Poder Legislativo, a proposição não deveria atribuir obrigações e funções para órgãos das administrações federal e estaduais, pois essas ações são competência do Poder Executivo. Desse modo, são necessárias alterações à proposição, em especial nos arts. 6º, 12, 17 e 18, no parágrafo único do art. 1º, no inciso XXVII do art. 2º, no inciso I do § 7º do art. 7º e no § 2º do art. 9º para evitar conflito entre os Poderes.”

“…Com relação à juridicidade, cabe advertir que o projeto necessita ser compatibilizado com a legislação vigente e com os acordos internacionais dos quais nosso país é signatário… Para atender às Convenções de Ramsar e sobre Diversidade Biológica, dever-se-ia constituir restrições ao uso de agrotóxicos e ao plantio de transgênicos na região, com o objetivo de conservar a diversidade biológica e garantir a preservação das aves aquáticas, que são espécies muito suscetíveis à contaminação por produtos químicos.”

“O § 1º do art. 13, que permite a substituição da vegetação nativa para a implantação de pastagens cultivadas, pode acarretar a perda de diversidade biológica, sendo, portanto, incompatível com a Convenção sobre Diversidade Biológica.”

“…Também devemos enfatizar que houve omissão das áreas de Reserva Legal no Capítulo II da proposição e nesse caso incumbe a introdução de um artigo sobre o tema ao projeto.”

“…Existe, ainda, a necessidade de alterar os arts. 1º, 2º e 3º para acomodar as normas da Lei de Recursos Hídricos sobre gestão de bacias hidrográficas. O objetivo dessas alterações é considerar a gestão das bacias da região desde as suas nascentes e os efeitos dos empreendimentos hidrelétricos nos rios da bacia do Paraguai sobre o “pulso de inundação”, que é considerado o principal fator que define a ecologia do Pantanal.”

“A moratória de cinco anos cinco anos para a pesca profissional e amadora, presente no art. 16 da proposição, está em dissonância com a Lei da Aquicultura e Pesca… Não existe base técnica que justifique a moratória e cabe enfatizar que esses setores, por dependerem efetivamente da preservação dos recursos pesqueiros, normalmente promovem a conservação do Pantanal.”

“O projeto também precisa ter incluído um artigo que comine sanções penais, de preferência relacionadas à Lei de Crimes Ambientais.”

“…e, no art. 15, que trata da navegação fluvial, é preciso impedir que as intervenções irreversíveis nos cursos d’água alterem a velocidade do escoamento, o volume de água e a capacidade do transporte de sedimentos.”

 “…no art. 2º do projeto também deveriam ser incluídos outras modalidades de pesca além da de subsistência, como a pesca amadora.”

“Incumbe padronizar a terminologia ao longo do texto da proposição e, em especial, utilizar o termo “bioma Pantanal” ao invés “bacia do rio Paraguai” quando está se referindo ao bioma e não à bacia hidrográfica. A utilização do termo “bioma Pantanal” deve ser feita ao invés do termo “planície alágavel do Pantanal”, pois o ecossistema é constituído tanto pela região alagável quanto pela não alagável.”

* Trechos do parecer do relator da matéria na comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, senador Eduardo Lopes. Encaminhado com uma emenda substitutiva integral este parecer foi retirado de pauta pelo autor, suplente do senador Marcelo Crivella que retornou ao senado e assumirá a relatoria.

**Eduardo Lopes é o atual  Ministro Da Pesca.

 Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuiabano”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Foto album 15a - Ga+¡va +írvore afogada

Acelera Tijuca. Airton Sena vence mais uma!

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Campeonato bom é aquele em que tudo pode acontecer… na apuração. Especular é de lei. Fazer alguém mudar seu palpite é difícil. Esses posicionamentos apaixonados e dificilmente isentos, discutidos em cada esquina no intervalo entre o final do desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro e o resultado da apuração, são sensações e percepções individuais sublimadas ou soterradas na quarta feira de cinzas.

O Império da Tijuca pulsou em ritmo de Batuk para tentar permanecer no Grupo Especial. O público gostou. Já os jurados… A São Clemente trouxe o cotidiano do morro para a avenida com o enredo “Favela”. Simpática e solta garantiu a permanência na elite do carnaval.

A Grande Rio, com direito a homem bala voando de um canhão (lembra do homem foguete de Joãozinho 30 que voava pela avenida?), abriu os olhos verdes de Maysa sobre Maricá. O desfile fluiu recheado  de bichinhos darwinianos simpáticos e atrizes globais.

A verde e duas vezes rosa (da Mangueira e de sua carnavalesca, Rosa Magalhães), trocou o nome de sua bateria mas não perdeu o gosto por novidades. Mestre Aílton regia a “orquestra” enquanto uma grua elevava sobre os ritmistas o bailado da rainha de bateria, Evelyn Bastos. Esse ano também havia uma torre no meio do caminho. Dessa vez, da cabeça do cacique de um dos carros alegóricos.

Renato e Márcia Lage, carnavalescos do Salgueiro, arriscaram novamente usando uma paleta de cores em tons de terra com detalhes em vermelho para aquecer “Gaia” e deixar o alerta: “a vida em nossas mãos”. Símbolo da destruição do planeta, motosserras eram empunhadas como alegorias de mão. A ala seguinte representava o mundo destruído. A mensagem se espalha…

Comissão de frente se apresentando paralelamente ao  mestre sala e a porta bandeira, como aconteceu na Beija Flor, acabou confundindo. Como analisar as duas performances ao mesmo tempo? Ainda mais quando se trata do bailado primoroso de Selmynha Sorriso e Claudinho. No mais, foi Boni.

Com o samba ecoando nas arquibancadas, a Mocidade abriu a segunda feira surpreendendo cheia de gás para (i)reverenciar Fernando Pinto. O público topou a parada. A Pernambucópolis de Paulo Menezes temperou samba com baião. E deu liga.

A caixinha de música da comissão de frente da União da Ilha, com a bailarina e o soldadinho de chumbo que oscilavam sobre o público, abriu a tampa do baú dos brinquedos e brincadeiras de infância. Pipas e a amarelinha para os mais antigos, transformers para os mais novinhos. Gira peão…

Vila Isabel, campeã de 2013, trouxe para a Sapucaí um resultado final que refletia os problemas enfrentados pela escola: faltavam elementos das fantasias que não foram entregues a tempo. A dignidade dos componentes segurou a passagem da escola do bairro de Noel Rosa.

Mengooooo o mantra ecoava acima do samba da Imperatriz Leopoldinense. Zico simboliza, com os jogadores de diversos times que participaram homenagem, um tempo áureo do futebol brasileiro. Ali não havia adversários, apenas cavaleiros de uma imensa Távola Redonda que reverenciavam seu rei boa praça: Arthur X, o Galinho!

Se uma andorinha não faz verão, a Portela resolveu não correr riscos. Botou na pista 21 águias, representando seus títulos. Alexandre Louzada, o carnavalesco, mostrou em seu trabalho porque voltou ao ninho onde começou sua carreira há 30 anos, quando o sambódromo foi inaugurado. Tradicionais, os  portelenses inovaram com uma águia/drone na avenida.

A Tijuca acelerou com Airton Sena apresentando personagens da Corrida Maluca, alguns truques novos e outros já consagrados. Tudo com a assinatura de Paulo Barros e a apresentação impecável da comunidade do Borel. Deu no que deu. Levou a bandeirada… É campeã!

Se esquentar é pecado…

ET Moci 140202 026 Paula Evangelista setor 1Texto e foto de Valéria del Cueto

A resistência a falar de carnaval perdurou até o último momento. Mas sucumbiu diante do desfile comemorativo dos 30 anos do bloco Simpatia é Quase Amor, pela praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, nesse sábado.

Imaginem o encontro dessa(s) turma(s). Se houvesse um medidor de lembranças e saudades certamente ele atingiria seu nível máximo exatamente nos momentos que antecederam a saída do bloco carnavalesco, ali pelas bandas da Praça General Osório, antes de “armar” e desembocar, balzaquiano e feliz, na Vieira Souto.

Como não falar de carnaval, sobre/vivendo no meio de um dos melhores do mundo? Pra não cair nessa vaidade besta de primeiro, maior… Prefiro situar o Carnaval Carioca um dos melhores.

Afinal, não dá para comparar nossa folia com, por exemplo, Olinda, em Pernambuco, São João del’Rey, em Minas, e mais alguns – não muitos, carnavais brasileiros e tantos outros que ainda pretendo estudar melhor no mundo: New Orleans, nos Eua, Navarra, na Espanha, o carnaval de Veneza, na Itália. Em Ivrea, no Piemonte, por exemplo, tem um tipo de entrudo!

Mas afinal, o que nos deixa sempre nesse dream team da maior festa popular do planeta? Entre outras coisas, a evolução provocada por uma inquietação permanente. O povo do carnaval é novidadeiro! Não precisa assistir os desfiles para observar esse movimento. É claro que nem sempre as coisas funcionam e fazem sucesso, mas já dá para citar alguns erros e acertos da pré-produção carnavalesca de 2014.

Antes da lavagem da pista da Marquês de Sapucaí pelas baianas de todas as escolas de samba nessa noite do domingo que antecede o carnaval, (quando também é feito o teste de luz e som no Sambódromo carioca, com o ensaio técnico da Campeã do Carnaval de 2013, a Vila Isabel), muitas ações já aconteceram no caminho da produção da festa de 2014.

A primeira iniciativa – a ser comemorada – foram os vídeos produzidos e distribuídos fartamente pela internet da gravação do CD das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Dela participaram, na Cidade do Samba, baterias, comunidades e  personalidades de cada agremiação. Uma oportunidade de confraternização e de mostrar ao público a cara do povo do samba.

A segunda, infelizmente, foi um tiro n’água já devidamente criticado: o CD com a falação que impede que a gente simplesmente ouça as músicas. Um saco.

No sambódromo, durante os ensaios técnicos, mais uma vez temos a comprovação de que, sem o som “oficial” do desfile, a festa é muito melhor. É quando podemos ouvir a cantoria das escolas e como elas levam o samba enredo do ano. Sem falar nas baterias…

Uma perda esse ano (que rezo para não aconteça nos próximos) foram os esquentas com a bateria no primeiro recuo, junto ao setor 1. A responsável pela quase extinção desse momento especial foi a Globo, transmissora do espetáculo. Ela obrigou as escolas para uma “gravação oficial” a apresentarem apenas um único samba. Para quem viu, por exemplo, a Imperatriz Leopoldinense levantando o setor popular com músicas dos blocos carnavalescos Cacique de Ramos no ano em que a escola falou de Ramos é uma tristeza! Só para citar um caso especial… Os esquentas das co-irmãs sempre foram emocionantes, um momento para energizar os brios dos componentes, como o nome já diz.

Esse carnaval também tem uma rainha sem reino. Trata-se de Ana Paula Evangelista. Ela gravou as vinhetas e participou de todos os produtos da verde e branco de Padre Miguel. Mas foi substituída de última hora entregando o posto de rainha de bateria para uma atriz da Globo. Não discuto e respeito a decisão da Mocidade Independente que deve ter tido seus motivos. Mas não posso deixar de fazer uma reverência à ex-rainha. Porte e aura da aristocracia do samba não lhe faltam, mesmo sem a coroa!

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Aqui quem fala é da terra

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Era preciso conjurar os deuses. Reunir, com a ajuda de todos, forças celestiais para enfrentar o que estava por vir. Uma luz, por favor, uma esperança! Os sintomas estavam ali, aqui, em todos os lugares. E ele sabia. Sabia não, sentia.

Eram as maiores e menores temperaturas do planeta em décadas. E não mais que isso porque anteriormente não havia uma medição confiável. As tempestades assolavam os lugares frios. As chuvas não chegavam aos quentes. Ainda. E para elas, certamente, quem de direito não estava se preparando…

Tudo anunciado a prestação, como se juntando as folhinhas de calendários anteriores, não fosse possível “desenhar” um aumento gradativo nos extremos climáticos. Isso era pouco, quase nada, diante de outros sinais.

Os acontecimentos físicos se resumiam a uma única palavra: desequilíbrio. Trazendo com ele suas consequências inevitáveis. Tudo demais. Ou de menos. Estava resumido o momento. E como a toda ação, corresponde uma reação… A panela de pressão estava chiando.

Em janeiro, quem podia compareceu ao Baile da Ilha Fiscal, aquela última grande festa que sacudiu a corte do Império do Brasil, pré proclamação da República. Fotos, fatos, praias, pratos, sorrisos, corpos, alegria. “É hoje só, amanhã… não tem mais?”. Tudo muito caro, $urreal. Mas e daí? A felicidade selfie invadiu nosso mundo em comum, agora virtual, enquanto a tempestade ia se armando sobre nossas cabeças.

Aqui o primeiro sintoma foi a falta de chuva. Era o céu cobrando seu preço e pedindo passagem para desmoralizar nossas lindas moças do tempo. O que a meteorologia previa definitivamente não ocorria.

Paralelamente ao plano físico a “coisa” ia se alastrando, ainda sub-répticamente, para o moral. E uma hora a corda ia arrebentar.

Não, essa não é uma boa imagem, porque a explosão teve e terá um impacto muito mais amplo do que o romper de uma simples corda. E assim, depois do final de ano e do janeiro festeiro, foram todos colocados face a face com seus piores instintos, pré e conceitos. Éticos e morais.

Começou pela ação dos jovens que deixaram o ladrãozinho pelado e agarrado num poste no Flamengo, Rio de Janeiro. Aí, foi a vez da jornalista palpitar e ouvir o que queria e o que não queira, inclusive ameaças e uma campanha para que fosse demitida.

Mas o estopim do sacode moral foi dado pelo aumento das passagens de ônibus na Cidade Maravilhosa. A crônica da morte anunciada deixou de ser apenas literatura com a morte do cinegrafista Santiago Andrade.

Onde vamos parar? Não serão novas leis não cumpridas que resolverão nossos dilemas sociais, mas elas poderão reescrever a história da democracia(?) brasileira. Mais uma peça no quebra cabeça…

Tá bom? Não, ainda falta o lado astral, esotérico. Dois fatos: o primeiro, as pirâmides mandando seus raios direcionados para os céus. O segundo esse que sempre esteve ali, para quem quisesse fazer a ligação. A semelhança entre os registros maias, incas e astecas com os circuitos de computadores só foi percebida recentemente porque, antes, nós não tínhamos tal tecnologia…  Alo, alo? Responde…

Ele sabia que os tempos não seriam fáceis sem precisar de um calendário inca, mais ou asteca. Copa do Mundo, eleições e, dizia a sua bola de cristal, apagões de vários tipos. Físicos, morais e astrais.

Sorte que antes do período turbulento ainda havia uma esperança de felicidade momentânea. Parem as máquinas, cessem  todos os males que os deuses atenderam as singelas preces do seu povo: É (quase)carnaval!

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

É duro…

Urca 140111 057 Vermelha Pedra pescadorTexto e foto de Valéria del Cueto

É duro ter que recorrer aos mais poderosos artifícios para poder gerar a crônica nossa de todas as semanas.
É duro pensar, raciocinar, exercitar a mente e não conseguir imaginar uma mensagem otimista que faça valer a pena esse esforço semanal de disseminar ideias e conceitos pelos escritos espalhados onde opiniões são bem vindas.
É duro procurar avidamente entre os acontecimentos que viraram notícia, ou não, algo que contraponha a pilha de mazelas que nos bombardeiam incessantemente.
É duro – e necessário – reconhecer que se não fosse o refúgio da Ponta do Leme provavelmente você, leitor, não estaria correndo seus olhos por essas não tão bem traçadas linhas.
É duro dizer quem para garantir nosso prazer (o meu de escrever e o seu de ler) foi necessário colocar em risco a saúde da escriba, exposta aos piores raios solares do planeta, para garantir a produção literária semanal.
Era isso ou não ter texto. O horário do dead line se aproximava e… nada!
São meio dia e quarenta e cinco de uma sexta-feira e eis-me aqui, como já disse, na Ponta do Leme. Sorte que corre uma brisa leve ameniza um pouco minha febre literária. É verão e, como tal, o dia se apresenta. Não chove há semanas e o calor bate os quarenta graus, o que potencializa os raios ultravioletas.
É duro começar tentando poetar ao som do mar da praia do Leme e, deixando a mente divagar, pensar só no calor dessa praia paradisíaca e seus malefícios solares.
Respiro fundo escutando o canto do vendedor oferecendo mate com limão. Quero parar e me deliciar, mas não posso. Tenho pressa.
É duro ter vontade de mandar essa crônica às favas e dar um mergulho nessa água transparente verde esmerada que convida a uma nadada margeando a praia, ou um passeio de prancha. O mar está um espelho, sem chance para os surfistas. A pressa é tanta que nem sei se a água está gelada como nos últimos dias.
A questão é respondida por um banhista que passa voltando do mar. Não posso descrevê-lo, por que nem levantei a cabeça. “Pô, a água está geladona”, avisa em direção a barraca para onde retorna.
É duro ter a impressão que tudo que poderia melhorar o estado de espírito geral desse registro tem um “porém”.
E olha que jurei não abordar temas como o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e a qualidade do sistema de transporte público, a quebradeira no centro do Rio num protesto contra o ato do prefeito Eduardo Paes e suas tristes consequências, os preços exorbitantes na cidade e a reação dos cariocas com o Rio $urreal e a desdobramentos como a página “Cansei de der mal atendido”.
E os apagões? Resisti bravamente a polêmica do ladrão preso ao poste pelo pescoço com um cadeado de bicicleta, por “civis” no bairro do Flamengo.
Quase sucumbi ao destaque dado à bronca da presidente capturada pelos vidros das janelas do Planalto (penso cá com meus botões que se ela gritasse mais, cobrasse mais e reclamasse mais, talvez as coisas estivessem melhores…). Capitulei com a notícia do russo que, em nome da poesia, assassinou a facadas quem defendia a prosa, numa discussão literária.
É duro querer ser positiva nesse clima em que até as pirâmides emitem raios para os céus. Por isso, me despeço com uma única certeza positiva: quando o sol baixar, lá pelas cinco, estarei aqui. De volta ao paraíso…
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Rio para não chorar

Urca 140111 094 Mureta Urca Cristo Redentor contra luzTexto e foto de Valéria del Cueto

 Nada de um lado nem do outro, apesar de ser verão no Rio de Janeiro. Praias cheias, prateleiras vazias, preços nas alturas, atendimento abaixo da crítica.

 Gente saindo pelo ladrão. E esse(s) fazendo a festa por que o público alvo está uma fartura só. Arrastão nas praias, nas ruas. Ouviu falar no relato de uma mulher foi assaltada em Copacabana? Roubaram… sua quentinha na saída do restaurante. 

 A temporada está aberta para todos. Democraticamente. Assim é o Rio da Copa e das Olimpíadas. Um caldeirão fumegante com praias sujas para quem te quero.

 E essa não é uma visão de pessimista, de quem está torcendo contra. Quem convosco dialoga é simplesmente apaixonado pela Cidade Maravilhosa que sofre nas mãos de seus algozes.

 Essa semana, um celular foi causador de uma tragédia que parou a cidade.

 Ocupado com a conversa, o motorista não reparou que a caçamba do veículo trafegando em horário proibido pela linha Amarela, uma das vias expressas mais importantes da região metropolitana, estava levantada.

 Ao bater numa passarela de pedestres, ela derrubou a estrutura projetando pedestres e esmagando carros. Cinco morreram. O tal celular vai ser condenado, sem dúvida.

 Afinal, a administradora da via que não barrou o passeio do caminhão não tem culpa. A prefeitura que tem seu adesivo “salvo conduto” no caminhão (tipo “a serviço”), que não trabalhava para ela também não.

 A caçamba que milagrosamente se elevou aos céus tentando um voo refrescante mais longe do asfalto, muito menos, assim como o responsável pelo bom funcionamento da instalação elevatória.

 O motorista que estava no lugar errado, na hora errada, com o equipamento acionado de forma errada também não teria tanta culpa se… não estivesse falando no celular, o mordomo da era tecnológica.

 Isso é o Rio de Janeiro. Não é a toa que seu codinome é cidade Maravilhosa. Admirada pelo mundo e amada incondicionalmente pelos cariocas.

 Os mesmos que a própria prefeitura responsabiliza e aponta o dedo quando junta a montanha de lixo nas praias e indaga numa imagem que correu mundo: ”Esse é o presente que o carioca deixa para a cidade?”. Diz aí, cara pálida, com o tsunami turístico desse janeiro, só nós?  

 Se não fossem os nossos segredos cariocas seria difícil suportar tanta pressão e alguma maledicência.

 Um  desses segredos são nossas rotas de fuga. Elas nos permitem, ao menos por uma temporada, abrir mão de nossas paisagens mais conhecidas como Copacabana, Ipanema, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, supermercados, bares da orla e restaurantes a quilo para a horda de turistas que nos invadem.  

 Tão longe dos olhos, tão perto de nossos corações. Ao lado do tumulto sempre existem refúgios. Eles nos permitem re-unir nossas forças a espera de que o paraíso recupere seu status natural e volte a ser um lugar amigável que faz parte da lenda do bem viver no Rio de Janeiro.

 Até lá, podemos trocar o lado do morro e adotar a Urca como point mais frequente e deixar de lado nosso espetacular Jardim Botânico e passear nas ameias da Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. A Lapa, lugar lendário da boemia carioca, que dez entre dez turistas sonham conhecer, faz tempo perdeu seu posto para a Pedra do Sal. E assim por diante.

 Sob o sol do mesmo céu existem outras opções que fazem a alegria de quem quer algo a mais da cidade do que  o simples e batido cartão postal…

 Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM..delcueto.wordpress.com

Aqui tem!

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estava lá. No lugar dos seus sonhos mais almejados. Colocou os pés na areia e tomou o rumo do mar. Aquilo pareceria uma propaganda, um comercial do bem viver.

Não fosse a lotação. Fechou os olhos para receber as bênçãos do som do mar e o murmúrio do vento da praia que tanto pedira a Deus durante o último ano de trabalho pesado. Ouviu o funk da barraca da direita, brigando com o pagodão da vizinha da esquerda.

Procurou um espacinho tentando evitar virar figuração da câmera do celular do grupo selfie que animadamente registrava sua passagem pela praia. Ele e as torcidas do Corinthians, Internacional, Cruzeiro etc e tal. As maiores de todos os estados da federação. Tudo ali, na mesma praia. Sonhar não custa nada e viajar para o Rio de Janeiro esteve ao alcance de 2 milhões de pessoas no início do ano. Tudo lá. Ao mesmo tempo.

O próximo capítulo do sonho poderia se realizar a qualquer momento. Bastaria ouvir a ladainha do vendedor ambulante: “Olha o mate, Mate Leão, é o mate de bujãooooo”. Afinal, praia no Rio tinha direito ao único líquido não enlatado ou plastificado que podia ser vendido pelos ambulantes. O título de patrimônio carioca dava à delícia típica das areias escaldantes do Rio de Janeiro, a liberdade de ser  misturada de acordo com o paladar de cada um: mate e limão, ao gosto do freguês. Se possível bem geladinho.

Distraiu-se da urgência dando um mergulho nas águas artificialmente coloridas do mar. Segundo as notícias não havia perigo em cair naquele caldo. Eram apenas algas… Abriu espaço num mundo colorido de banhistas que, via-se claramente, tinha o mesmo objetivo: fazer daquela uma temporada inesquecível e mostrar isso. Se possível auxiliado pela tecnologia que permitia enviar as imagens de seu prazer instantaneamente. Cheias de caras e bocas sorridentes serviriam para dirimir qualquer dúvida de que aqueles foram dias maravilhosos.

É claro que não estava em muitas selfies resenhas as enormes filas nos restaurantes, o desabastecimento do comércio, os preços abusivos.

Também não foram registradas pelas câmeras as buscas desesperadas pelo sorvete das crianças, o refrigerante preferido, o pão nosso de cada lanche. Para falar no básico.  Não houve referência aos pratos dos cardápios que estavam em falta, ao peixe que não chegava trazido pelos pescadores, ao gelo que triplicou de valor.

Se esses “senões” fossem computados poderiam atrapalhar a intenção e o prazer das chamadas férias inesquecíveis.

Era melhor ignorar a falta d’agua, fazer de conta que não era tão ruim assim ficar sem luz dias a fio e, por falta de energia, perder tudo o que não pudesse ser consumido rapidamente da geladeira, agora armário.

Nem notou que estava na cidade do “não tem” até descobrir que não tomaria naquele dia o mate com limão. Depois de muito esperar o canto dos vendedores, entendeu que sua ausência equivalia a um “não tem”.

“Uma pizza, por favor?” “Não tem tomate seco”. “Uma batata rostie?” “Não tem batata preparada”. “Então um escondidinho…”. “Não tem, a fornecedora não entregou”. “Tem sorvete?” “Não tem”. “Gelo?” “Não tem”. “Então tem o que?” “Também não tem.”

E não registrou os “não tens”. As férias da vida, afinal, não quebraram sua rotina, acostumado que está aos seus “não tem” do ano inteiro: Não tem saúde, não tem educação, não tem transporte, não tem segurança, não tem direitos, não tem…

Pra não dizer que não teve tudo, lembrou uma carioquice pouco conhecida e menos cobiçada. Passou na vendinha e pediu, meio sem esperança: ”Tem aquele docinho de banana, Mariola?” O caixa levantou os olhos da registradora e sorridente respondeu: “Tem!”

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

“Rapa” do prato

Torino 1311 03 062 Parco del Valentino parede vidro folhasTexto e foto de Valéria del Cueto

Bom mesmo esse bolo italiano que não para de render! Depois de comê-lo e saborear a cereja, eis que ainda há aquela calda deliciosa para “limpar” do prato. É  falta de educação, mas quem resiste? Cada colherada raspada deixa gosto de quero mais. Muito mais…

E assim é a Itália, um manancial de grandes descobertas em camadas. Umas mais escancaradas, outras, nem tanto.

Alguns preferem se aprofundar num único local e extrair tesouros ocultos e não tão visíveis a simplesmente dar uma “voada” superficial pelas atrações turísticas mais concorridas.

Acho que não precisa dizer qual é a opção dessa série de crônicas dedicadas a “narrar” o que as fotos registraram para o “No rumo do Sem Fim…” nos meses de outubro e novembro de 2014, no norte da Itália.

Depois de um período em que a globalização dominava o top ten de 10 em 10 paradas de melhores e mais, eis que um movimento no sentido inverso pode ser observado em diversos setores da sociedade. Ele parte do geral para o específico, dando destaque ao que é exclusivo e peculiar.

Tudo bem que as “marcas” continuem dominando o mercado e ditando moda, mas aqui e ali é possível perceber uma tentativa de criar um diferencial, oferecer um “plus” que não seja encontrado na monotonia reinante nas calçadas mais famosas do planeta.

A brincadeira acaba virando um jogo de onde está o quase único, o local? Qual é o diferencial entre tantos mais e melhores? Isso não significa uma simples questão de valor econômico, mas sim de singularidade. E nem sempre o singular é mais caro. Ou é?

O mais interessante é quando descobrimos que nossas lições brazucas de criação de um diferencial são  conhecidas e criam filhotes, inclusive entre  aqueles que trazem de herança milhares de anos de cultura.

Um exemplo: há quanto tempo a indústria nacional de cosmética vem trabalhando o conceito de “fazer” com nossas riquezas vegetais produtos diferenciados, explorando as qualidades de da flora para personalizar a indústria cosmética “made in Brazil”? Natura e Boticário que o digam… A Bio Chama com suas águas cheirosas de Castanha do Pará e Guaraná, então…

Pois essa também é uma tendência de mercado que pode ser vista na Europa se você procurar bem entre as atraentes vitrines bem decoradas das franquias. Há o dream team disponível, acessível e prático para quando o produto “de marca” que usamos rotineiramente acaba. E isso é muito bom. Não há trabalho para a reposição.

Já quem procura e bate perna acha lojas artesanais, pequenos repositórios de tesouros que, tenha certeza, depois serão muito difíceis de serem encontrados novamente, a não ser que nos disponhamos a uma importação via internet (e viva a era digital!)

Algumas marcas de cosméticos estão nessa vibe. Caso da Dea Terra que industrializa cremes faciais e corporais com ingredientes típicos italianos como frutas cítricas sicilianas, açafrão de Abruzzo e sementes de uvas de Avola. Interessante,  não é?

Ainda há mais –  e foi esse ingrediente que garantiu à Dea Terra esse espaço, caro editor. Falo do “Tuber Magnatum Pico”. Nome científico do Tartufo Bianco di Alba. A essência do fungo raro segundo as pesquisas científicas tem um efeito especial e regenerador.

Reconhece o produto? A Trufa Branca é uma iguaria que atinge preços astronômicos, dependendo da quantidade e da qualidade dos tubérculos farejados por cães treinados para descobri-los nas raízes das árvores  dos campos da região de Alba, no Piemonte, numa determinada época do outono.

Justamente a mesma temporada desta série italiana do “no Rumo”! Já as impressões sobre a degustação do Tartufo Bianco di Alba ficam para mais tarde, já que é outra tentativa de “limpar” o prato de delícias deste tour italiano…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

É coisa de cinema!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dizem que a cereja do bolo deve ser o último bocado a ser comido. Difícil decisão já que ela está ali, no prato, olhando pra gente e se fazendo de sedutora desde que o bolo é bolo…

Em relação a Torino, Itália, uma dessas cerejas é, sem dúvida, o Museo Nazionalle del Cinema localizado na Mole Antonielliana, no centro Histórico da cidade.

O prédio, quem diria, foi construído para ser uma sinagoga. Em 1848, Carlos Alberto de Savoia assina o Estatuto Albertino que libera os cultos não católicos e em 1863 começam as obras do templo encomendado pela comunidade judaica, conforme o projeto de Alessandro Antonelli. Previsto inicialmente para ter 47 metros, com várias alterações sofridas, hoje tem 167 metros de altura. Por muito tempo foi edifício mais alto da Europa. É  um símbolo da “Cittá di Torino”.

A Mole Antonielliana com seu estilo neoclássico oitocentista proporciona dois grandes espetáculos. Um é a vista para quem sobe até o terraço nos elevadores panorâmicos. Tanto a externa que permite uma visão em 360 graus da cidade, como a interna durante a subida e descida. A impressão é estar num prédio de Gothan City onde, em alguns momentos, haverá um embate entre o Morcego Negro e o Coringa. Mas o interior da Mole tem mais, muito mais.

O projeto do Museo Nazionalle del Cinema começou em 1941 em pleno regime facista que impulsiona o cinema italiano, cria os estúdios da Cinecittà… A base da coleção é da estudiosa da história do cinema Maria Adriana Prollo. Sua história se mistura a do Museo, fundado em 27 de setembro de 1958. Em julho de 2000 é inaugurada sua nova sede, um projeto do arquiteto Gianfranco Gritella, com concepção interna do suíço François Confino, ocupando toda a Mole Antoniellina.

E é aí que mora o segredo que transformou o local num dos mais visitados de Torino e da Itália, com recordes sucessivos de público na última década. São 3.200 metros quadrados distribuídos em 5 pavimentos que apresentam não apenas a história do cinema…

Para começar, é preciso entender o processo que permite a “invenção” da imagem em movimento. Desde os rudimentos da ótica, até a criação das máquinas que permitiriam a nós, a criação da chamada sétima arte.

Após a fabricação dos aparelhos de movimentar as imagens outras etapas se apresentam entre a transformação de instrumentos artesanais no que viria a ser a indústria cinematográfica, uma marca do século XX.

Dissecando o processo cinematográfico em todos os seus aspectos técnicos de modo didático (como roteiro, stoyboard, produção, filmagem, som, imagem e, finalmente, edição) nos corredores da Mole o visitante descobre e identifica o longo processo produtivo necessário para fazer um filme.

O Museo também homenageia de forma muito equilibrada os mais famosos cineastas do mundo: americanos, europeus e asiáticos, com um destaque merecido para, por exemplo, o grande diretor italiano Federico Fellini.

O passeio termina num grande espaço, onde estão apresentadas, de forma interativa, cenários e ambientes reconhecidos nas telas. Uma grande brincadeira, depois de uma aula muito séria sobre a fantástica indústria cinematográfica.

Dois detalhes: um italiano desaconselhou a visita ao Museo “por que tem muitas fotos de gente que nunca vi nem ouvi falar”. Certamente, ele não era um cinéfilo. Uma das brincadeiras mais legais no passeio é, justamente, reconhecer entre as imagens filmes e ícones do mundo do cinema.

O segundo detalhe foi a frase escrita numa das salas: “…uma pequena máquina/ que revela aos nossos olhos tamanhas maravilhas/ e graças ao cristal ótico/ faz com que as imagens marchem como cavalos/ Muitas vezes vemos esses dispositivos/ Multiplicados com seus inventores/ E especialmente no carnaval as pessoas chegam/ perto e ficam loucas ao vê-los. – Carlo Goldino – Il Mondo Novo.

Ou seja: carnaval e cinema sempre andaram juntos. E assim será em 2014. Feliz ano novo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Parece… E não é que é?

Torino 1311 03 026 Sayang Ku colar pregador de roupa Texto e fotos de Valéria del Cueto

Alguns movimentos são inquestionáveis na história da humanidade. Eles se alternam ao longo dos períodos: o egocentrismo e o teocentrismo, o universal e o individual e assim por diante…

No mundo de hoje esse movimento, que antes acontecia de uma forma mais lenta, alcança uma velocidade exponencial. Um exemplo? Outro dia a onda era a globalização e nos enquadramos nesse tsunami de forma tão completa que, em alguns setores, já podemos observar um movimento em sentido inverso.

Quem viaja tem uma grande chance de observar in loco essa “teoria”. Em alguns momentos é muito bom que haja um padrão de comportamentos. Cansa menos. Os aeroportos, trens e outros meios de transporte são  exemplos em que a uniformização gera enormes facilidades para seus usuários.

A regra deixa de ser confortável quando, por exemplo, ao passear por outras terras nos deparamos sempre com as mesmas lojas e possibilidades de compras, onde o padrão shopping/franchise nivela e iguala todos os lugares. Graças a Deus, nem sempre por baixo.

Mas, afinal, qual é a graça de ver as mesmas vitrines, os mesmos produtos em todas as ruas mais famosas, assim  como no shopping center ou o mall ao lado da sua casa?

Tem gente que não acha graça nenhuma nesse status quo  e transforma seu roteiro numa tentativa de fugir dessa mesmice. Mas é difícil! Na verdade, um grande desafio. Ainda mais quando não ha tempo de explorar de forma mais profunda os atrativos oferecidos nas viagens turísticas pinga-pinga.

Turin, Veneza, Verona, Milão: Prada, Hermès, Zara e assim por diante… Ou não?

Nem sempre, se há uma intenção objetiva de procurar não as semelhanças, mas valorizar as diferenças! É assim que verdadeiros tesouros ser apresentam, (normalmente em lugares menores, situados em ruas transversais), no entorno das áreas de maior circulação.

Partindo desse princípio na Itália, em Verona, no Veneto, pra quem gosta de gastronomia já foi citado o restaurante Enocibus.

Em Torino, Piemonte, foi numa bateção de pernas  exploratória que surgiu a loja 71/1000 (settantunmillesimi) de montagem de bijuterias com milhares de opções de peças, vitrilhos, tipos de fios e outros acessórios para quem quer ter a certeza que não entrará num lugar com um adorno de uma marca famosa, correndo o risco de virar elemento de composição, por exemplo… de um par de jarros.

Na mesma área, na mesma ruela de uma sensacional loja de bonecas de porcelana feitas a mão, outra surpresa. Essa bem original.

A Sayang Ku é uma loja de acessórios. E seria mais uma não fossem os originalíssimos objetos que compõe os adornos expostos, para lá de divertidos: pregadores de roupa, tampas coloridas de caneta Bic, lápis de cor, (aqueles bem miúdos). Isso tudo “reinterpretado” como brincos, colares, pulseiras…

Uma grande ginástica criativa que, como uma brincadeira, transforma uma coisa em outra.

Imaginem bolsas de teclados de computador! Pois são charmosíssimas. E colares feitos com zípers coloridos? É impossível não se surpreender com a criatividade da design que consegue transcender o objeto utilizado e, reutilizá-lo dentro de um contexto diferente, com uma nova concepção.

Para quem viaja procurando singularidades são trabalhos como esse que estimulam, inclusive, uma forma alternativa de encarar o simples ato, tão corriqueiro e apreciado, de viajar no que todo mundo “olha”, mas pouca gente “vê”…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.comTorino 1311 03 013 setantumilesimi colares