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Como antes no quartel

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dúvida cruel, o que e para onde?

Série Arpoador para falar do Rio de Janeiro e da guerra do tráfico que recrudesce na Zona Sul e colapsa boa parte da cidade. Isso não quer dizer que o bicho começou a pegar agora, asi no más. Nada disso. Os sinais de que, mais dia menos dia, o que já estava fora do controle em outras áreas urbanas explodiria na maior favela carioca, a Rocinha, estavam visíveis.

Para coroar a levada hard core a violência explodiu no meio do caminho para o festival de música que pretendia ser o ponta pé inicial de uma “retomada” turística do Rio. É puro rock and roll! Com direito a muitos coros de “fora Temer” e protestos contra a classe política, a cura gay, pela demarcação das terras indígenas, a proteção da Amazônia e por aí a fora Temer de novo.

Enquanto isso Pezão, o governador estado, declarou ter “afinado a viola” depois de “discutir a relação” com o Ministro da Defesa, Raul Jungmann. Ele disse, no primeiro dia de ocupação do Exército, que a Rocinha “estava pacificada”. Como esqueceu de avisar “aos alemães”, o pipoco continua comendo solto.

A segunda possibilidade literária é partir para a série Parador Cuyabano abordando os últimos acontecimentos em Mato Grosso. Como a delação da delação do ex-chefe de gabinete do também delator ex-governador Silval Barbosa, que garantiu à nossa terra mais um título de primeiro lugar, dessa vez na categoria “dedo-duro escorpião”, o que morre com o próprio veneno. Aperfeiçoando o modus operandi estreado pela dupla sertaneja da J&S, Joesley e Ricardo, a que involuntariamente se auto gravou, Sílvio César se deixou levar pela falsa impressão que seria o único a ter a brilhante ideia de gravar colóquios comprometedores. Morreu pela boca. Existirá peixe-escorpião?

Enquanto alguns dormem com um pijaminha social (para o caso de precisar descer para vistoriar obras de emendas parlamentares em Várzea Grande), outros perdem o sono sem saber quando receberão a dádiva do despertar ao doce toque madrugador da campainha acionada pelos homens da valorosa Polícia Federal.

Aí, me pego pensando e desafio você, leitor, a exercitar sua imaginação e responder:

1) O que faria se soubesse que estava na mira dos tiras e que, mais cedo ou mais tarde, veria o sol nascer quadrado?

2) Como viver como se não houvesse amanhã, sem saber em que amanhã a vida boa acabaria?

3) O que você comeria e beberia se soubesse que o amanhã lhe reserva o direito garantido de uma marmita carcerária?

Voltando à realidade (só pode ser ironia), ainda há uma terceira opção para a crônica, a série Fábulas Fabulosas. Não fosse o detalhe que a última escrevinhação foi Senta no Toco, protagonizada pelo extraterreste Pluct, Plact. Repeteco não dá, né?

Enquanto a dúvida persiste cruel impedindo o desenvolvimento adequado do texto, daqui da TV ao lado ouço a canção: “Só uso necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”. Martelo batido! Definida a ambientação do restante da crônica em construção. “Mogli, o Menino Lobo”, mata a charada!

É lá na floresta (aquela onde a anta perdeu o cargo de presidente para o morcegão sugador do sangue da fauna local e as hienas continuam rondando a carniça governamental), que se desenrola o que sobra do espaço semanal que me pertence.

Acontece que, mais uma vez, as raposas foram convocadas para tomar conta do galinheiro da denúncia de que o morcegão e várias hienas parceiras andaram sugando sangue e comendo as beiras e o miolo da “ceva” florestal.

Apesar da revolta geral da bicharada, sibilam as cobras, coaxa a saparada em sintonia, uivam os lobos a luz da lua que, garantido mesmo, nesse caso, há apenas um direito: o “jus esperniandi” para engambelar a fauna torcedora. Por enquanto, fica tudo como antes no quartel de Abrantes.

Até quando?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Quem vai pra onde?

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Deu pra ti, vou ali e volto quando der” informa num bilhete curto e grosso Pluct, Plact à sua querida amiga, a cronista enclausurada. A revolta do extraterrestre é mais que justificada e não foi levada para o lado pessoal pela destinatária.

Serviu como deixa para informar o destino do viajante intergaláctico revoltado: Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde o que se dá para o baixo astral é… tchau!

Antes de rumar para o sul, qual pássaro na época migratória, Pluct, Palct tentou voos mais ousados. Embicou sua aeronave espacial para o céu e deu um gás nos motores antes de se lançar ao infinito. Conseguiu chegar só até ali. Bateu no poderoso escudo formado pela combalida camada de ozônio poluída e, num efeito bumerangue australiano perfeito, voltou ao ponto de partida.

Para provar sua tentativa frustrada fez fotos da Cidade Maravilhosa do alto. Foram elas que chegaram às mãos da cronista em seu refúgio do outro lado do túnel junto com o bilhetinho codificado.

Na dedicatória, outra pista do motivo de sua retirada estratégica: “Vista de um dos poucos lugares em que o codinome continua fazendo jus ao Rio de Janeiro. Cidade Maravilhosa só de cima. Beeeem de cima”

Em outros planos e pontos de vista o que se vive e vê no Rio é a lama!

A falta de vergonha e medida fez do presídio em Benfica o lugar que reúne o maior número de corruptos bandidos (ou será bandidos corruptos?) por metro penitenciário quadrado.

A área devidamente gradeada e frouxamente protegida abriga barba, cabelo e bigode da política fluminense. Ali estão décadas do poder político eleito pela população do estado. Parte do joio que se achou melhor que o trigo e que, acreditando piamente na impunidade eterna, contaminou os poderes executivo, legislativo e costumava ser protegida pelo judiciário.

Aquele que age pedindo vistas do processo no julgamento do Supremo Tribunal Federal que pode acabar com o foro privilegiado.

Se está ruim de ser digerida pelo estômago sofisticado do caminhão basculante de lixo intergaláctico, imagina pelo órgão digestivo de simples mortais?

Simples mortais, extraterrestres… que diferença fará para os degustadores de presunto de Parma, bolinhos de bacalhau e camarão, contrabandeados para dentro das celas penitenciárias para deleite dos políticos aprisionados em Benfica? Haja estômago para aguentar tanto abuso.

O nosso, porque o deles está empanzinado de deliçuras enquanto funcionários públicos caem da corda bamba sem conseguir tirar o nariz de palhaço nem sobreviver com seus salários atrasados. Enquanto assistem de camarote o desenrolar do encontro de ex-rivais, agora irmanados e igualados pelas regras de convivência dos presídios cariocas.

Isso explica a deserção momentânea de Pluct Plact? Claro que não. Ela tem um motivo de força maior e mais feliz.

De Porto Alegre seguirá quicando até a fronteira oeste onde pretende representar a cronista num evento musical, a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, em Uruguaiana. O encontro nativista marcou a vida de sua amiga exilada. Como ela não poderá comparecer a sua quadragésima edição por motivo de encarceramento voluntário maior, caberá a ele representá-la condignamente e mantê-la atualizada sobre as composições concorrentes.

Melhor que ouvir choradeira da família Garotinho e aturar a depressão provocada pela falta de quitutes gastronômicos da difícil vida fácil de Cabral e seus parceiros de ladroagem no subúrbio carioca, não acha, caro leitor?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Fábula Fabulosa” do Sem Fim delcueto.wordpress.com

Lendo e aprendendo

Texto e foto de Valéria del Cueto

Confesso e assino em baixo. Não ia ter crônica essa semana. Cansada dessa esculhambação, acho que ela não merece mais nem uma mal tra(n)çada linha do meu esforço literário.

Este minifúndio tem sido insuficiente para listar as peripécias semanais que se acumulam nas prateleiras nos galpões dos absurdos diários que nos assolam.

Só a abstração quase total e certamente irrestrita ainda permite sonhar com uma nesga de felicidade, tranquilidade e/ou realização nessa avalanche que desce a ladeira da decência e dos bons costumes. Para tanto lanço mão de um refúgio solitário, mas cem por cento eficaz. Parto para o oposto da ignorância e me dedico ferozmente a leitura.

Melhor do que chafurdar no mar de lama que leva de roldão aqueles que, durante período recente, mandavam e desmandavam no pedaço. Além de revoltante é deprimente ver os resultados dos mal feitos (é assim que diz, né?) e das negociatas que levaram para o espaço direitos básicos de centenas de milhões de brasileiros. Falo de saúde, educação, segurança, saneamento básico e afins. Direitos comuns a todos, roubados por larápios incompetentes que nem tiveram a capacidade de esconder seus torpes movimentos.

Vá entender o funcionamento dos cérebros deformados que participaram de tantas barbaridades. A amoralidade, um sintoma de psicopatia, é um traço comum a corja que habita nossas principais câmaras governamentais. Só fechando o hospício e jogando a chave fora para parar com essa sangria.

Lendo a gente aprende, viu só? Por isso é fácil estabelecer uma rota de fuga literária que permita um respiro salutar entre uma delação premiada e uma barbárie, um drama humano e uma polêmica moralista. Diluídos em pílulas nas redes sociais…

Para não romper de vez com a humanidade que a duras penas tenta remar em meio a altas dosagens de informações, “fakenews” e os delírios provocados por cruzadas falso moralistas, optei por me aprofundar nas origens históricas da sociedade brasileira.

Depois dos excelentes livros de Laurentino Gomes sobre a chegada da corte portuguesa a colônia, os meandros da Independência e os episódios que levaram à Proclamação da República, juntamente com meu parceiro literário para assuntos históricos e militares, Jayme del Cueto, caí dentro de uma nova exploração pelo período do primeiro reinado brasileiro.

Confesso que fui instigada por uma novela global e as peripécias de Titília e Demonão. Mas aviso que resisti a tentação e, deixando para o final as cartas inéditas de Dom Pedro à Marquesa de Santos, optei por começar a leitura dos livros de Paulo Rezzutti, escritor e pesquisador paulista, pela biografia de “D. Pedro, a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos”.

Então apresento o motivo do atraso e da quase não crônica: devorei o livro. Também já escolhi qual será o próximo. Entre as biografias de “Domitila, a verdadeira história da Marquesa de Santos” (finalista do prêmio Jabuti em 2014), e “D. Leopoldina, a história não contada. A mulher que arquitetou a independência do Brasil”, fiquei com a segunda. A arquiduquesa austríaca que, há duzentos anos, por um casamento de conveniência, veio bater nesses costados e, em sua breve passagem, mudou o destino e os rumos da história do Brasil.

Seres humanos! Cheios de defeitos e algumas qualidades. Como nós, capazes de, com seus gestos, escreverem a história que, hoje, poucos re-conhecem. Mas todos nós somos derivados de seus atos, assim como serão, no futuro, as gerações que virão, das atitudes que hoje tomamos.

Captou?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Cabine” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Pega leve

Texto e foto de Valéria del Cueto

Perdi a lua mas continuo na sua, cara cronista voluntariamente encastelada, quer dizer, enclausurada do outro lado do túnel em terras cariocas.

É que o tempo anda tão sem tempo quanto nós, ou melhor, vocês pobres mortais. (Se não o sou, ajo como tal e já incorporei o “physique du rôle”). Não fossem por certas peculiaridades que tão bem conhecemos, como poder visita-la num raio de lua, poderia facilmente passar por mais um perdido nesse baile da vida.

São tantas informações e acontecimentos que é impossível um registro ordenado e sistemático dos eventos. Imagine se ainda dá tempo para qualquer tipo de análise – por mais rasteira e superficial que seja – de suas causas e consequências.

Nem o supercérebro de minha nave espacial está dando contado recado. Especialmente agora que incorporou certos parâmetros terráqueos inexistentes em seu sistema original. Coisas como “dá um tempo”, “volto já” e “senha esgotada”. Quando a trucagem não é mais direta e objetiva com o emblemático “estamos atualizando os nossos sistemas”. Não tenho nem como argumentar, querida amiga. Lembre-se que não vim para esse mundo a passeio, mas com uma missão que, agora, sei impossível.

Principalmente por seu tempo (olha ele aí) indeterminado de duração. Culpa daquela circunstância imprevisível de não conseguir partir desse mundo para outros melhores. Graças a incapacidade da nave mãe de ultrapassar a camada de poluição que recobre a atmosfera local. E só piora. Arde o cerrado na Chapada dos Veadeiros, Mato Grosso é megacampeão de queimadas na Amazônia no mês de setembro!

Situação: todo (eu disse todo) o sistema de armazenamento está em colapso. Esgotamento total. É muita informação. Não param de chegar. Com um detalhe: juntando o que dá, a conclusão é catastrófica.

Mal comparando, sabe aqueles dias nublados e sem graça que por falta de estímulo físico, financeiro e mental, o destino óbvio é a praia? Imagine no final da tarde quando banhistas voltam para a casa tonalizados. Falo de matizes variadas, nas cores das cascas de camarões e lagostas. De rosa bebê ao pink punk. Com aquele bronzeado que será lembrado por dias seguidos a cada virada noturna, abraço ou tapinha nas costas.

Essa é uma imagem alegórica, reparou? (Me orgulho dessa capacidade de metaforicamente explicar uma situação. Aprendi e desenvolvi aqui entre os humanos). Só assim para entender que um dia como esse que parece um pouco triste e modorrento possa encobrir um mormaço torturante, como a vida aqui fora.

Enquanto assistimos cenas de violência explícita nas ruas; de escárnio, desrespeito e deboche nas mais altas “câmaras” governamentais; de intolerância e incompreensão entre iguais que querem para si direitos excepcionais e privilégios, mas não se unem para reivindicar o básico, tentamos (estou na vibe  por me sentir 100% humano nesse roldão de eventos desgovernados) procurar bons motivos e melhores razões para seguir em frente.

“Pega leve e abstrai”, me aconselha o cérebro da nave mãe. A mim, o viajante que não acredita no que vive e vê…

O problema é que somente quando saímos (o que é cada vez mais difícil) do centro desse turbilhão conseguimos ter uma visão mais abrangente do mal que está sendo feito a corpos, mentes e, o que é pior, ao planeta em que habitamos (me incluo nessa evidentemente e involuntariamente). E não temos ideia do que será o “aloe vera” ou Caladril (santos remédios que diminuem os sintomas do excesso de calor acumulado no mormaço) que aliviará nossas dores e acalmará nossos pensamentos.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Ação e reação, intolerância não!

Texto e foto de Valéria del Cueto

 

“Ó meu Brasil

cuidado com a intolerância

tu és a pátria da esperança,

a luz do Cruzeiro do Sul.

Um país que tem estrela assim tão forte

não pode abusar da sorte

que lhe dedicou o Olurum.”

(“Alabê de Jesusalém, a saga de Ogundana”, samba da Viradouro, carnaval 2016, baseado na ópera de Altay Veloso. Compositores: Paulo César Feital, Zé Gloria, Felipe Filósofo, Maria Preta, Fábio Borges, William, Zé Augusto e Bertolo)

O alerta dado há dois anos atrás no carnaval carioca deixou de ser premonitório e se torna, a cada dia, uma triste realidade no Brasil. Atos de intolerância se multiplicam e se espalham por vários pontos do país. O preconceito explode em diferentes setores. Entre eles, o religioso.

O capítulo mais recente dessa triste história que ainda estamos escrevendo foi o vandalismo praticado contra o busto de Chico Xavier, no cemitério São João Batista, em Uberaba, Minas Gerais. O vidro blindado que protege da obra foi danificado por pedradas ou tiros, no sábado,

30 de setembro. Os autores não foram identificados.

Re-ação

A toda ação corresponde uma reação. Aqui no Rio de Janeiro ela vem ocorrendo na mesma proporção em que a intolerância religiosa se manifesta e, coisa dos tempos atuais, é registrada em gravações distribuídas pelas redes sociais como troféus de uma cruzada obscurantista de preconceito e violência.

Da 10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa que reuniu milhares de fiéis na orla de Copacabana, no domingo 17 de setembro, participaram representantes de religiões de matriz afro-brasileiras e lideranças de igrejas cristãs, das comunidades judaica, kardecista, budista, wicca…

Mais do que ser uma celebração da convivência pacífica entre a maioria das religiões realizada há uma década, esse ano a mobilização teve um apelo recorrente: a punição dos ataques a terreiros de matriz afro-brasileiras.

Filme antigo

Na Primeira Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa de 2008, protesto idealizado depois de denúncias de que traficantes estariam proibindo terreiros em favelas e após o ataque a um centro umbandista, Marcelo Crivella, então candidato à prefeitura do Rio pelo PRB, apareceu de surpresa no protesto e

se posicionou. “Minha rejeição como político vem da intolerância de pessoas que não aceitam que eu seja evangélico”, disse o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em março de 2016, como representante do estado do Rio de Janeiro no Senado Federal, Crivella cobrou a adoção de medidas corajosas para evitar o radicalismo das religiões no pronunciamento da tribuna em que homenageava cristãos mortos num atentado no Paquistão. Ele lamentou os atos de violência contra muçulmanos no Brasil apelando à tolerância religiosa e a convivência pacífica entre todos os credos. “ Eu gostaria de lembrar que a única guerra, o único combate legitimado por Cristo é o combate contra si mesmo, é a luta contra o medo, contra as hesitações, contra as tentações, contra as fraquezas. É a única luta que se prevê no âmbito da fé. Qualquer outra é movida pelo orgulho, pela prepotência. E eu digo mais: pior pecador é o acusador”, explicou.

O agora prefeito além de não comparecer a décima edição da Caminhada, através de medidas de controle que dá a seu gabinete o poder de autorizar ou negar a realização de qualquer evento na cidade, também se tornou alvo dos protestos e das mobilizações que se multiplicam em setores da sociedade carioca.

Intolerância na roda

Este será também o mote de dois fóruns de debates nos próximos dias no Rio de Janeiro.

O primeiro será (mais) uma audiência pública na Assembleia Legislativa, dia 05 de outubro, às 10h, com o tema “ Intolerância religiosa e os recentes ataques a terreiros de religiões de matrizes africanas”, promovida pela Comissão dos Direitos Humanos e Cidadania, presidida pelo deputado Marcelo Freixo, do PSOL.

O segundo evento será mais amplo e abrangente. Ocorrerá durante a EXPO Religião, feira inter-religiosa que ocupará 6.000m² do Porto das Artes, do Boulevard Olímpico, no centro do Rio, de 06 a 09 de outubro.

Diversidade e respeito serão conceitos que darão a tônica do encontro ecumênico. Nele, se reúnem durante o final de semana representantes de 17 religiões, autoridades como o Presidente da Fundação Palmares, Erivaldo Oliveira, o secretário estadual de Cultura, André Lazaroni e personalidades como o apresentador e carnavalesco Milton Cunha. Eles participarão da primeira de muitas mesas de palestras. Esta, terá como tema “Diversidades (religiosa, sexual, cultural e social)”.

Ensino laico ameaçado

Para a organizadora da EXPO Religião, a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de que professores de ensino religioso em escolas públicas promovam suas crenças em sala de aula será mais um assunto na pauta das discussões. “Agora nossa responsabilidade é maior. Precisamos mais do que nunca lutar pelo respeito e pela diversidade religiosa. Tendo em vista que hoje em sua grande maioria os professores são de uma única religião, essa decisão coloca em risco o livre arbítrio”, posiciona-se Luzia Lacerda, diretora e idealizadora do evento, considerado a maior feira do segmento na América Latina.

Temperando essas questões e integrando os visitantes, apresentações e novidades em produtos e serviços religiosos no Espaço Gastronomia, com stands de comidas, Espaço Oráculo, com práticas adivinhatórias como búzios, tarô, além do Espaço Zen com terapias alternativas, como a holística. Tudo ao ritmo de shows musicais, sempre às 18h, e de danças nos intervalos entre as atividades no decorrer do dia.

Para abrir com o pé direito, todas as bênçãos e o axé que precisa para ter êxito, a EXPO Religião receberá, às 13:30h do dia 06 de outubro, a visita da imagem de Nossa Senhora Aparecida Peregrina, como parte da comemoração dos 300 anos da Aparição da Padroeira do Brasil.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress. com

Senta no toco

Texto e foto de Valéria del Cueto

Cronista, minha cronista. Que bom que por aqui não anda. Reclusa que está, em seu encarceramento voluntário do outro lado do túnel. Aqui quem fala é aquele seu estupefato amigo extraterreste, Pluct Plact, testemunha involuntária de fatos praticamente inenarráveis de tão inacreditáveis.

Não há mais espaço para a sua especialidade por aqui. Impossível alcançar a sofisticação existente no critério inventividade. Não, não se trata de um problema em relação a produção possível e necessária das deliciosas histórias cotidianas que fazem parte de sua lavra, cara amiga.

O caso é outro. Se chama operação Malebolge, o oitavo círculo do inferno de Dante. É décima segunda fase da Ararath. A primeira após a delação premiada do ex-governador Silval Barbosa.

Demorou, mas ela chegou com busca e apreensão em 65 endereços. De alto a baixo, de cabo a rabo. Em dois estados e no Distrito Federal.

Em âmbito ministerial temerístico pegou na veia. Nosso representante foi o Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blaigo Maggi (PP), com direito a busca e apreensão no apartamento funcional de Brasília, a casa de Rondonópolis e o seu escritório na Amaggi de Cuiabá.

No Congresso Nacional os mato-grossenses agitaram as já efervescentes duas casas com as visitas das equipes da PF. No Senado o alvo foi Cidinho Santos (PR) e na Câmara o deputado federal Ezequiel Fonseca (PP).

Em Mato Grosso também sobrou para todos os lados. Em Cuiabá o prefeito Emanuel Pinheiro recebeu a visita dos agentes em sua casa e na prefeitura. Em Juara, a visitada foi prefeita Luciane Bezerra (PSB).

Na Assembleia Legislativa o movimento foi intenso com apreensões nos gabinetes dos deputados estaduais Gilmar Fábris (PSD), Baiano Filho (PSDB), Zé Domingos Fraga(PSD), Romualdo Júnior (PMDB), Wagner Ramos (PSD), Oscar Bezerra (PSB), Ondanir Bortoloni, o “Nininho” (PSD) e Silvano Amaral (PMDB).

O caso de Gilmar Fabris, vice-presidente da Assembleia Legislativa, é ainda mais complicado. Suspeito de ocultar provas na Operação Malebolge por decisão do Ministro Luiz Fux foi preso e afastado do cargo.

No Tribunal de Contas do Estado valeu a regra do jogo conhecido como “ Resta Um”. Houve busca e apreensão nos endereços residenciais, gabinetes e respectivas assessorias no TCE, dos conselheiros José Carlos Novelli, Waldir Teis, Antonio Joaquim, Valter Albano e Sérgio Ricardo (afastado). Posteriormente, o Ministro Luiz Fux mandou afastar 5 dos seis conselheiros. Só restou um…

Nem a Procuradoria Geral do Estado ficou de fora do limpa trilhos. O Gabinete do Procurador e ex-deputado Alexandre Cesar também estava na lista dos endereços visitados pelas equipes da Polícia Federal.

Para fechar a lista, em São Paulo entrou na roda presidente do Bic Banco, José Bezerra de Menezes,

Tá ruim? Pois fique sabendo, amiga cronista, que as coisas tendem piorar ainda mais praquelas bandas. O governador Pedro Taques, comemora a volta do Comendador Arcanjo ao o sistema prisional estadual mandando recados provocativos para o detento recolhido aos costumes. Parece ignorar o velho ditado que diz: “Senta no toco e espera”. É lá que anda Arcanjo. Esperando…

Isso, enquanto esquenta a chapa e aguardamos que seja homologada a delação premiada do ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Riva. Recordista em processos na justiça, é bom lembrar que só haverá acerto se forem apresentados – e provados – fatos novos em relação aos inúmeros desmandos praticados por ele e seus asseclas.

Por essas e por outros e que recomendo veementemente sua permanência no conforto amigo de sua cela cinco estrelas. É muita notícia quente neste calor insuportável. Na próxima lua minguante que é para ninguém me ver, prometo uma nova análise e, quem sabe, melhores notícias.  Do sempre teu, Pluct plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Irma, irmãos, furacão!


Texto e foto de Valéria del Cueto

Essa mudança de dia de publicação ainda não foi devidamente assimilada. Uma coisa era escrever na madrugada de quinta a crônica distribuída no final de semana. Outra, bem diferente, é fechar o texto no domingo à noite para publicação na edição de terça.

Tem um gap de informações aí. Para mais ou para menos, rola uma certa dificuldade em “surfar” no sentimento do leitor. Explico com um bom exemplo, o da na semana passada. “Análise de conteúdo”, a crônica, demandou um grande esforço: a leitura do calhamaço de mais de 700 páginas da delação premiada do ex-governador de Mato Grosso, Silval Barbosa. Ela não deixou pedra sobre pedra na política estadual, com relevantes reflexos nacionais. Fechada na noite de domingo passado, o material chegou ao leitor entre segunda e terça. Só que…

Da noite em que foi redigida até chegar ao público alvo, mais do que água por baixo da ponte, o que rolou correnteza abaixo foi a ponte inteira. Nesse bat-período vieram a público quatro mal gravadas horas de conversa jogada fora pelos delatores Joesley Batista e Ricardo Saud. Um arrasa quarteirão! Poderia jurar que Joesley é do signo de escorpião. O que se pica com o próprio veneno…  

Seguindo o modus operandi da divulgação em pílulas pela imprensa das revelações do ex-governador mato-grossenses, as incríveis opiniões (dadas num palavreado de fazer inveja a um jegue xucro) pelos representantes do suprassumo do empresariado nacional foram sendo vomitadas paulatinamente para o público.

Dá para imaginar a reação dos alvos das observações dos dois “confidentes”. Vamos começar por suas respectivas mulheres? O irmão que provavelmente entrará de gaiato no navio da Papuda? Pensem nos demais familiares. Deixe para o final da ficção as autoridades citadas. Não poderia dar outra. Xilindró para eles, os que não seguiram a que deveria ser máxima básica nesses tempos de gravações descontroladas e traições desvairadas: quanto menos conversa, nenhuma!

Mas era apenas o começo…  Nem bem acabaram as 4 horas de ouvido pendurado no alto-falante do computador tentando captar os murmúrios do encarregado das relações institucionais do grupo J&S entre os delírios oligofrênicos do seu chefe, eis que começa a maratona de acompanhar, tim tim por tim tim, os depoimentos em vídeos para o Juiz Sérgio Moro do ex-poderoso, atual presidiário, quase delator Antônio Palocci e do comprador da sede do Instituto Lula. Parente distante, porém, compadre de Bumlai, o amigo o ex-presidente. Espanto em cima de espanto. Todos movidos por primeiras, segundas, terceiras e quartas intenções.

Acabou? Não. Como cada um tem os furacões que merece, os do hemisfério norte estão em plena atividade, animadíssimos. Irma vem na frente pedindo passagem, seguido de perto por José e Kátia. Destruição em massa, sem qualquer discriminação. Dá uma invejinha de ver como os fenômenos estão sendo previstos e acompanhados por lá, na medida do possível.

Pra gente a coisa é mais complicada. Não há como prever o que vem por aí depois do “teje preso” para os “parça” que não respeitou nem o feriadão da Independência. O que sabemos é que pelo menos um dos nossos fenômenos tem data para terminar: dia 17 se encerra o mandado do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. Até lá, tudo pode acontecer. Inclusive a necessidade da convenção um novo grau na escala de intensidade desse tipo de manifestação. Acho que 5 será pouco.

Por aqui, nem o céu é o limite para os severos e irreparáveis danos que podem ser causados nos próximos dias às nossas instituições. Preste atenção no modelo que será definido para as eleições de 2018. Por aí dará para projetar o tamanho do que virá por aí na política brasileira. O sacode promete abalar, mais uma vez, as já combalidas estruturas sociais brasileiras.

Já preparou suas reservas? Morais, éticas e cívicas. Se não der, tenta uma de avião. Deve haver um lugar mais tranquilo nesse mundão de Deus.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Análise de conteúdo

Texto e foto de Valéria del Cueto

Demorou. Após a abertura dos (longos) trabalhos, travar, pausar, voltar, enjoar, precisar de ar, mais ar e… começar de novo. Parecia que nunca ia terminar. Definitivamente, para quem encarou, se não uma tarefa agradável, muito esclarecedora. Foi nessa levada inconstante e cheia de mal-estar a leitura – obrigatória – dos documentos liberados pelo Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, contendo a delação premiada do ex-governador Silval Barbosa, família e assessoria.

A monstruosa pacoteira trouxe uma série de fatos e mídias contundentes. Eram tantas informações que o material acabou sendo fatiado em matérias destrinchadas e distribuídas pelos meios de comunicação de Mato Grosso. Caso típico de aplicação da máxima popular “vamos por partes, como já dizia o esquartejador”. No conteúdo explosivo informações para todos os gostos e vertentes. Daria para publicar várias edições de material inédito puxando a brasa para a sardinha do vizinho, deixando uns para mais tarde e diluindo informações comprometedoras no meio da meada apresentada.

Isso foi um aspecto. Outro foi a reação dos citados, alguns com a marca de “corrupto” carimbada através das imagens e gravações estarrecedoras que vieram a público. Como bem salientou o publicitário Mauro Cid em seu artigo “O silêncio que incomoda”, publicado no último final de semana, faltam “argumentos” e explicações. Que “artistas” esses, da incrível peça que, infelizmente, não é de ficção. Vejam quem, diz a Procuradoria Geral da República, protagoniza o espetáculo.

“…Entre os agentes políticos, destaca-se a figura de BLAIRO BORGES MAGGI, o qual exercia incontestavelmente a função de liderança mais proeminente na organização criminosa, embora se possa afirmar que outros personagens tinham também sua parcela de comando no grupo, entre eles o próprio SILVAL BARBOSA e JOSE GERALDO RIVA.

Embora seja difícil estabelecer um marco temporal preciso para o início das atividades do grupo criminoso, é fato que, desde a gestão de BLAIRO MAGGI no governo do Mato Grosso, a organização já utilizava financiava-se com recursos de operadores financeiros para atingir seus fins ilícitos. Na época, já era corrente o pagamento de propinas a integrantes do Poder Legislativo e do Tribunal de Contas do Estado, de modo a garantir a harmonia no funcionamento do ecossistema delitivo entranhado nas estruturas do Estado.

E mais. Um dos principais articuladores do esquema, EDER DE MORAES DIAS, já atuava sob o comando de BLAIRO MAGGI. SILVAL DA CUNHA BARBOSA, sem embargo da extrema gravidade das condutas por ele praticadas, apenas deu continuidade ao esquema iniciado no governo de seu antecessor. Vale aqui destacar que, mesmo sob a gestão de SILVAL BARBOSA, a liderança e influência de BLAIRO MAGGI era presente e se fazia valer.

Com efeito, uma das condições para que SILVAL DA CUNHA BARBOSA obtivesse o apoio de BLAIRO MAGGI e de seu grupo político para concorrer a cadeira de Governador do Estado nas eleições de 2010 foi assumir as dívidas deixadas por ele perante os operadores financeiros e arranjar meios para saldá-las – por intermédio dos diversos esquemas de corrupção e desvio de recursos narrados pelos colaboradores.” Págs. 749/750

Trecho da petição número 7.085/DF do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, do Ministério Público, para o relator do processo de delação premiada de Silval Barbosa, Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, págs. 749/750.

Em tempo: Rodrigo Janot deixa claro ao final da petição que não pretende, momentaneamente, desmembrar os 7 casos narrados. O que significa que outros, muitos outros, poderão surgir.

A pesquisar: o que contérá o documento de mídia do estacionamento, anexada no processo na página 545 e acautelado pelo Ministro Luiz Fux no cofre da Corte?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Só dá mais uma

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ação! Complicado abandonar assim para toda a vida um companheiro inseparável de tantas jornadas. Daqueles que andam colados com a gente em qualquer situação.

Com esse subi e depois desci o Brasil em busca das tantas histórias que você, leitor, teve a sorte de apreciar por aqui.

Foi um tempo enriquecedor e transformador, verifico ao checar seu registro inicial. Passear aleatoriamente por suas páginas me transporta para outros mundos, várias ideias, anotações curiosas, um tempo para atrás, alguns planos para a frente.

Nesses anos já tentei sem sucesso várias técnicas para evitar inconscientemente o final desse amor que acaba sendo temporário, substituído que é por outro exemplar, nem sempre tão adequado mas, certamente, essencial nas minha humilde vida literária.

A última separação foi adiada mas, como você verá, não evitada com um artifício primário. Quando notei que o momento do desapego se aproximava, acreditem, passei a ter dois companheiros em vez de um só. A intenção era ir me acostumando com as características que marcariam o futuro próximo, enquanto praticava um desapego lento e gradual do caso que chegava ao fim.

Verdade. Peguei os dois paralelamente   para evitar uma fria troca, apegada que estava ao mais antigo, procurando postergar seu inexorável abandono.

Deu ruim porque perdi a ordem cronológica dos fatos narrados. Embaralhados ficarão para a posteridade na prateleira da estante. Provavelmente, inclusive, amarrados por algum barbante no espiral para não se desencontrarem, o que seria problemático em caso de consulta ou recaída nostálgica.

Falhei sim, e pagarei o preço da inconstância no futuro. Claro que acabei chamando urubu de meu louro e as consequências são inevitáveis, reconheço, mas fazer o que?

Assumir o subterfúgio quando ele se tornar aparente e agir com toda a dignidade e respeito quando o fim for definitivamente inadiável.

E, lamento dizer, não importam os nossos momentos de felicidades, as aventuras que vivemos juntos, nossas lembranças comuns. Apesar de ter adiado o quanto pude, é quase hora de dizer adeus.

Que seja rápida enquanto dure essa passagem cheia de nostalgia, gratidão e agradecimentos. Não só pelo que revelamos juntos mas, também, pelos segredos que compartilhamos no silêncio de nossa memória cheia de cumplicidade.

Agora, aperto algo além do meu coração, encolho as letras, diminuo o tom. Descobri que não! Ainda não chegou a hora do abandono.

Contanto que não erre nem rabisque para começar de novo, acabe com espaços e parágrafos aqui, no caderninho de quem me despeço, ainda haverá espaço para mais uma crônica, outra história, renovados desejos e alguns sentimentos.

Pena que na vida, nem sempre seja possível ter a escolha de mudar sem pestanejar ou adiar ao máximo a troca dos nossos caderninhos, aqueles em que ficam registrados atos, atitudes e posturas.

Conheço muita gente que nesse momento, daria tudo para poder destruir de seus registros de vida pregressa, algumas páginas, quem sabe capítulos e até tomos inteiros de informações e relatos.

O que é o mundo moderno. De nada adiantaria! Se aquilo que está escrito pudesse ser esquecido haveria uma grande chance de estar gravado num vídeo clandestino  deste estilo big brother palaciano que tem mostrado ser de mil e uma utilidades. De material para futura chantagem e/ou garantia de pagamento a, quem sabe, apenas um registro nu e cru da monstruosa realidade.

Diga-me por onde andas e te direi quem te grava… Corta!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Será?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Novamente escrevo antes para publicação posterior a um eclipse. Diz que esse é poderosão e mexe até com a crosta da terra e o peso corporal das pessoas.

Coisa séria, mas não suficiente para dar um sacode nesse panorama mais enrolado que fio de arame farpado véio na hora da troca do aramado nos campos. Enquanto isso, não sabemos se partimos para dentro ou damos a volta por cima. Se ficar, o bicho pega, se correr o bicho come.

Escrevo e vejo cenas de uma operação policial no Rio de Janeiro. O que chama a atenção é a “preparação” da chegada dos meliantes recolhidos em várias comunidades cariocas. Agora, as forças policiais fazem formação e esperam o sinal de “ação” para entrarem no raio das câmeras de TV que aguardam a chegada dos apreendidos na delegacia no “ao vivo”. Tempos “mudernos”…

Em Brasília, a secura e o vento formaram um redemoinho que passeou pela paisagem do Distrito Federal. Pena que não era o de Dorothy e o Mágico de Oz não teve oportunidade de dar uma repaginada nos personagens de Brasília.

Quem seriam o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde? Tem as Bruxas Más do Leste e do Oeste. Lembrando que a do Leste já foi pro book, mortinha da silva pela casa de Dorothy que despencou em cima dela, depois de rodopiar de Brasília, ops, do Kansas, até as terras de OZ que abrigam fadas, bruxas e outros seres mágicos. Aqui e lá, todo mundo vagueia procurando a Estrada Amarela que leva até a Cidade das Esmeraldas e ao mágico severo, mas que realiza os desejos.

Se fosse aqui, em terras brazucas, seria difícil que não houvesse, junto com nossa Dorothy e seu cãozinho Totó, não apenas quatro amigos, mas uma multidão de descerebrados, covardes e seres sem coração, seguindo a sonhadora menina. A maioria, certamente, não terá direito a clemencia, o que dirá a uma graça especial do Grande OZ…

Enquanto nosso conto de fadas não vira realidade, conviveremos com o silêncio por quatro anos das famosas badaladas de Big Ben, o relógio londrino (que, por coincidência, ou não, parou de badalar regularmente ao meio dia do dia do eclipse total). Quem ouviu, ouviu, quem não ouviu terá mais dificuldades em fazê-lo no decorrer do período.

Uma reforma milionária e meticulosa de suas engrenagens só o fará soar em ocasiões especiais como o réveillon informam os austeros e precisos porta-vozes ingleses aos meios de comunicação.

Sem querer fazer premonições, sinto que seu silêncio será quebrado em outras ocasiões menos festivas e mais necessárias. O mundo não está para brincadeiras e nem para deixar sossegados seus símbolos mais significativos. Vamos aguardar e ver quais serão os motivos que farão o velho relógio soar seus badalos até 2021. Está aí um bom motivo de apostas nas famosas bolsas londrinas.

Voltando ao sumiço do sol, o Apocalipse de São João informa que esse eclipse seria o princípio do fim do mundo. Captou a mensagem? É só o princípio…

Diante dessa auspiciosa semana, vou ali fazer ginástica e dar uma meditada no horário do fenômeno que é para me certificar que esta leveza lunar auxilie meu esforço atlético.

Afinal, com o quadro acima descrito, é preciso ter pernas para parar o mundo e, quando dele conseguir descer, correr para o mais longe que puder! É perna do mundo e não no mundo, para sumir, como cantou Gonzaguinha.

Se não corporalmente, em espírito. De luz, de preferência, para fazer desse um momento sério (como de fato é), mas cheio de esperanças. Que possamos almejar com a leveza do nosso corpo e o magnetismo “eclíptico” tempos melhores num futuro não tão distante. Pior que está… o que será?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Zona Geral

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ela chegou, passou, e veio outra frente fria para desfilar o guarda roupa de inverno pelas ruas brasileiras das cidades das regiões sul, sudeste e centro-oeste, pelo menos. Começar a crônica falando do tempo pode ser pura enrolação em busca da linha da pipa do pensamento que anda vagando por aí. Nada de novo, nem o excesso de argumentos convincentes para garantir o desenrolar um texto de duas laudas para cumprir o compromisso semanal.

Distritão, aumento do Imposto de Renda, mais de 3 bi para Gilmar Mendes comandar a pantomina eleitoral. Meireles, Temer, agendas noturnas, sessões soturnas nas Comissões da Câmara Federal. Buraco negro.

Pezão honra o apelido ao aplicar seu mais certeiro pontapé na falência carioca. Abre licitação para contratar horas de voo particulares. Saúde, educação, segurança, salários que se danem. Se é para ir ao Spa, que seja com pompa e circunstância. Não dá é para deixar de lado a liturgia do cargo falido.

“Reclamando de que?”, indaga o ex vice-governador e secretário de obras do megalô, corrompido e atual presidiário Sérgio Cabral, o que mandava o cachorrinho de helicóptero para Mangaratiba.

Sérgio é aquele que, no pelotão de ouro da disputa pelos títulos de recordista de ações criminais e tempo de cadeia entre a elite política brasileira, está ali, ali nas paradas de sucesso. Cabeça a cabeça com Geraldo Riva, até então líder incontestável entre os políticos denunciados. Opa! Essa informação tem que ser checada para confirmar se não há nenhum outro competidor correndo por fora…

Onde fomos parar? A pergunta que não quer calar não deve ser pronunciada! Ainda é muito cedo. Ninguém sabe quando vamos parar, o que dirá onde. Essa é a questão que habita entre o céu e a terra. Daquelas que somente supõe nossa vã filosofia. Ah, bardo inglês, o que não farias com nossas peripécias cotidianas e os malabarismos da nossa corte irreal…

Não há limite para a imaginação enquanto o mundo faz de Despacito um clip de 3 bilhões de acessos. É verão no hemisfério norte, hora de diversão e alegria. Mesmo com a chegada de levas de refugiados em frágeis embarcações nas praias paradisíacas da costa espanhola sob os olhares incrédulos dos turistas da temporada. Faz parte do pacote ou foi no improviso?

Em terras cariocas o contingente da guarda-municipal é submetido a um questionário sobre suas preferências religiosas. Com campos para católicos, evangélicos, espíritas e “outro”. Com três pontinhos para explicar que outro é esse.  Também querem saber se os guardas são praticantes ou não. Com nome e matrícula no formulário, que é para não ter direito a anonimato.Deu ruim. Claro que a “pesquisa” vazou e foi acrescentada ao incrível conjunto da obra do bispo prefeito.

A balança não ficou totalmente desequilibrada pela simples razão de que seu antecessor, o nervosinho Eduardo Paes, também está sendo caneteado por liberar um pagamentozinho básico de compensação ambiental para a empresa que construiu o campo de jogos de golfe das Olímpiadas que esse mês fez um ano. Muita água ainda vai rolar debaixo dessa e outras pontes peemedebistas.

Pulando de saco para rato (sem sair da mesma ideologia partidária) e procurando um modus operandi em comum, o que foi a delação de Silval Barbosa, ex-governador peemedebista de Mato Grosso? A torcida aguarda os próximos lances da delação que o ministro Luís Fux, do Supremo, já classificou de “monstruosidade”. Parece que com direito a vídeos comprovando as tenebrosas transações que ocorreram entre a ida do BRT que deveria ter virado VLT, cujos vagões nunca chegaram aos seus respectivos trilhos.

Resta saber o que fazer quando a nega maluca, aquela do samba, chega na sinuca e anuncia: “toma que o filho é teu”. Corre em Mato Grosso que vai ter plebiscito pro povo resolver o que o poder público não conseguiu: VLT ou BRT?

Resumindo está tudo dominado e dividido. Não tem pra onde correr. Tudo uma zona. Federal, estadual e municipal. Ninguém escapa. Nem você!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

É fria, a frente

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Querida amiga reclusa.

Antes de mais nada gostaria de pedir desculpas pela ausência. Não consegui chegar em tempo hábil na última lua cheia para, usando seus raios, alcançar a fresta da janela e “invadir” sua cela no retiro voluntário.

Andava “pluct placteando” e perdi o bonde da carona lunática espectral. Falha minha envolvido que andei acompanhando os inenarráveis movimentos para o desenlace pós recesso no país. Fim de férias para várias pendências nacionais, estaduais e municipais. Para não ampliarmos excessivamente nosso raio de observação científica.

Pulei de galho em galho, tal e qual macaca de auditório acompanha shows dos ídolos décadas atrás do milênio passado.

Sim, sei que você vai me repreender por usar o termo animal, em vez do simpático e politicamente correto tiete. Culpa dos sofisticados sistemas de minha moderníssima aeronave. Aquela que não consegue ultrapassar a atmosfera e me cuspir para além da estratosfera. Seguiria tranquilo minha viagem intergaláctica. Tomamos embalo. Ela, a nave mãe, comigo dentro, mas acabamos ping pongueando sem furar o bloqueio celestial.

Diante disso, só me resta passar para o plano B da viagem interestelar e continuar por aqui recolhendo dados do declínio inexorável dessa civilização que tantas maravilhas já revelou ao universo. É muita informação para ser armazenada. Dessa missão até tenho dado conta. Quem não está conseguindo acompanhar e decodificar os eventos é a máquina na cabine de comando da nave que havito.

Não, não vou entrar em detalhes para evitar traumas e choques na sua lenta – e frágil – recuperação. Acontecerá com você, amiga, o mesmo que ocorre com o computador de bordo. Chamará tiete de macaca de auditório e político de ladrão e sem vergonha. Assim mesmo. Generalizando que é para colocar toda a farinha no mesmo saco. De preferência cm uns corózinhos, aqueles bichinhos, que é para inutilizar de vez o fardo inteiro. Tudo podre.

E é aí que mora o perigo. Porque corre o risco da minha cronista preferida levar um “teje preso”. É fia, estamos nessa vibe. Com direito a projeto de lei proibindo “defamar” a categoria como um todo. De autoria renomada e apoiado por muitos dos que pregam crença que não creem nem moral que não praticam.

Sorte que a novidade não atingirá seres como eu, de outro planeta. Só que este não é o seu caso e a desculpa da insanidade não será considerada nas cortes judiciais do seu país.

Tatua o nome do seu amado no ombro? Tira a camisa numa cerimônia pública para exibir a obra de hena? Usa seu precioso tempo no seu ambiente de trabalho para pedir nudes pelo seu aplicativo? Votou sim? Não? Então não terá a menor chance de pedir imunidade para abusar da impunidade.

Insanidade pouca não anda fazendo verão por aqui. Foca, amiga querida. Contenção de gastos é a ordem geral. Excluindo para eles que continuam mandando ver em emendas, explodindo de cargos e, claro, levando algum por fora.

Por falar nisso, essa é a razão dessa missiva fora de lua. Ainda estamos a uma semana da lua que nos une por seu raio. Não tenho ideia de onde estas mal traçadas linhas irão encontra-la, minha enluarada.

Seu reduto do outro lado do túnel, o Pinel, está ameaçado, se já não foi esvaziado! Por isso, mando essas instruções por aquele enfermeiro gente boa.

Não se preocupe, vou busca-la onde estiver. Na próxima cheia nos encontramos na ponta do raio mais longo de luar. Até lá, É fria, a frente. Se cuida.        

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Física aplicada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Faz tempo que o caderninho anda no fundo da bolsa só fazendo número e peso nos ombros para cima e para baixo. A culpa não é dele. É da vida que, ultimamente, se não impede as boas intenções de serem intenções, provoca situações em que elas não podem se efetivar.

Foi assim na última vez em que, cheia de empolgação, largou as vicissitudes da vida, chutou o balde das aflições e rumou para a praia mais próxima pronta para rasgar o verbo sob o sol de inverno carioca. O ímpeto inspirador voltou ao nível 0 (zero) quando descobriu que havia caderninho na bolsa como sempre, mas faltava… a caneta!

De tão revoltada pulou aquela semana e, tal e qual Sherazade não pode fazer para o seu sultão em nenhuma das mil e uma noites, não mandou a crônica semanal.

Pior. Não apenas falhou, o que já havia acontecido antes, como não deu a menor satisfação nem mesmo para seu editor carrasco mais exigente.

Sabem o que aconteceu? NADA! Ninguém reclamou nem reparou na ausência das suas palavras.

E, como já provado pela terceira lei de Newton, a que diz que “a toda ação há sempre uma reação oposta de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos”, dessa vez não teve conversa. A crônica está saindo como devia antes que, além de ignorada, ainda perca seu espaço nos jornais, sites e blogs. Afinal, são mais e 450 textos das séries de crônicas no rumo do Sem Fim fiados e bordados ao longo de anos.

Em plena quinta feira um sol de veranico de julho aquece a ponta do Arpoador numa tarde clássica. Como é férias tem muita gente na praia aproveitando o dia perfeito para uns, como os adeptos de stand up paddle, já que o mar está mais para liso.

As poucas e fracas ondas não atraem os Surfistas com S maiúsculo. Os poucos que arriscam um mergulho o fazem só por pura fé e com roupas de neoprene. Sim. Clara e numa tonalidade espetacular verde azulada esmeralda, a água está fria!

O que parece não fazer muita diferença para os insistentes atletas que, prestando bastante atenção, inclusive nas suas poucas habilidades, pode-se concluir serem alunos das escolinhas de surf. Elas atraem principalmente entusiasmados turistas, os que não resistem ao mar perfeito para iniciantes, mesmo que gelado. Tipo: “é hoje só amanhã não tem mais por que venho de um lugar frio pra caramba. Está bom demais!”

Felizinhos estão os vendedores ambulantes. Dias atrás gritavam seus bordões deles para eles mesmos. Agora têm para quem vender seus variados produtos: no abre-alas o Mate Leão e o Biscoito Globo. Cuscus, picolé, queijo coalho, amendoim, cangas e biquínis, camarão, óculos de sol, caipirinha, pau de selfie, bronzeador, esfirra, cerveja, água, empadas. Especificamente nessa (des)ordem.

Dois minutos depois tudo de novo. No sentido inverso e com a mesma intensidade, como a lei. Graças ao bate volta no fim da faixa de praia, poucos vendedores ultrapassam a Praça Millor Fernandes para alcançar a Praia do Diabo. A exígua clientela do local não vale o esforço…

Na semana que vem essa moleza acaba com a volta às aulas, o fim das férias. O veranico torcemos para permanecer por mais uns dias adiando ao máximo a entrada daquela frente fria que vira o tempo no litoral no início de agosto. A previsão meteorológica incerta diminui as chances de outras crônicas relax como essa.

Sem vento, com a maré subindo para morder as areias de Ipanema, anda na contramão dos apreciadores do pôr do sol no Arpoador. Iniciantes. Nessa época do ano, o astro rei desce no meio dos prédios. Bonito mesmo é no auge do verão, quando o sol cai no meio das ilhas…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM FIM…  delcueto.wordpress.com

Na moral

Texto e foto de Valéria del Cueto

Deixar Mato Grosso depois de seis anos de ausência não foi fácil. Mil motivos para estender a permanência e apenas um para voltar. Difícil decisão…

O pouco tempo na Chapada dos Guimarães não serviu para tirar o gosto de quero mais. Pelos amigos queridos, a música maravilhosa (não tem preço se embalar numa rede na varanda da casa da fada do jardim ouvindo o violão que ecoa por todo o espaço. Se, como dizem, as plantas se desenvolvem melhor quando escutam música, isso explica a exuberância que gerou tantos registros num dia especialmente iluminado de exploração fotográfica pela paisagem), o passeio pela sede das Bordadeiras da Chapada, projeto regado mesmo de longe com olhar de amor e muita torcida para que continue crescendo fiel as suas origens, com a instigante convivência das participantes. A sugestão é ir com tempo para uma boa prosa se passar por lá para conhecer os trabalhos e explorar os detalhes do espaço. A proximidade da Festa do Divino em Cuiabá e a de Nossa Senhora de Santana, a quem é dedicada a matriz de Chapada dos Guimarães, prometia grande imagens e muitas emoções.

Ficou faltando mais banhos de rios, noites na varanda da Vivenda da Vovó Suely, encontros felizes com gente querida, reencontros mais alegres ainda. Poderia ter havido tempo para mais reconciliações e declarações de amores, carinhos e amizades que permanecem verdadeiras, apesar da distância. Também ainda havia espaço para muita comida cuiabana e pantaneira. Pacu recheado, farofa de banana, pintado, bolo de queijo, um furrundu de vez em quando…  Nem cheguei no São Gonçalo, para visitar Domingas! Teve arte e risadas aos montes no encontro especial com Aline Figueiredo e Cacá de Souza, num almoço pantaneiro comemorativo. Não poderia ter sido melhor. E ficou assunto pra depois…

Só que era hora de voltar. Havia um compromisso no Rio de Janeiro. Participar com outros 18 fotógrafos da Exposição Artistas do Carnaval – Múltiplos Olhares, durante a Carnavália SambaCon. Na sua quarta edição ela reúne a cadeia produtiva carnavalesca brasileira para apresentar produtos e serviços, além dialogar sobre política e produção da festa popular. Em tempos de crise e problemas no relacionamento com os gestores públicos imaginem o papel de um evento desse porte.

Três fotos de cada participante e a dúvida atroz. O que mandar? Como estava viajando fiz um recorte temporal: carnaval 2017. A intenção era uma foto do ensaio técnico, outras duas do desfile de segunda-feira, o oficial. O foco nos Meninos da Mangueira, parceiros de outros carnavais.

A marcação da virada do samba no ar pelos diretores de bateria verde e rosa foi pule 10. Especialmente porque faz tempo preparo um trabalho sobre os gestuais e comandos dos mestres de bateria. A foto do fradinho ritmista Bruno Obrigado no contra da luz do dia nascendo com as arquibancadas populares ao fundo surgiu pela ausência de elementos, um certo “minimalismo” em meio ao caos entusiasmado da dispersão do desfile. Para finalizar o beijo da sorte abençoado pelo Santo Antônio do “padre” diretor Wallance Tchoá e da noivinha passista, Jhéssyka  Santtos. Uma licença poética carnavalesca. Dessas que andam fazendo falta na folia. Um selão de alegria e irreverência num assunto sério que parece ter virado uma guerra. A intolerância generalizada que impede o diálogo e a convergência que deveriam nortear um momento de crise como o que atravessamos.

Foi justamente dela que veio a surpresa. O convite da Nega Chic Elisa Santos para fornecer estampas que seriam modeladas para uma performance relâmpago nos corredores da Carnavália SambaCon. Sem maiores explicações, porque não dava tempo. Da Mostra CarnevaleRio foram resgatados alguns detalhes do barracão da Mocidade Independente de Padre Miguel, do enredo de Cid Carvalho “Parábola dos Divinos Semeadores”, de 2011. Deu no que deu a junção de parcerias. Foi tão legal que pediram bis! A passagem das modelos “tatuadas” e invocadas com a faixa “CARNAVAL MERECE RESPEITO” foi aplaudida pelos corredores momentos antes sorteio da Ordem dos Desfiles do Grupo Especial no Carnaval de 2018, um dos pontos altos do evento. Na moral…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “Parador Cuyabano” e “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Canto pros santos do meu canto


Texto e foto de Valéria del Cueto

Acordar ouvindo a gritaria da passarada na janela enorme a sombra das borboletas de metal que dançam ao vento presas no entorno da não parede transparente. O pulo da cama é para tomar um copo de água fresca e fazer a ginástica diária de subir o toldo e abrir o janelão, deixando o ar da imagem matinal invadir e clarear o espaço do quarto.

Ao descer as escadas não esquecer de apagar a luz. Guia para o caso de precisar ir até a parte de baixo da casa durante a noite. Entre reparar na luz acesa e chegar ao pé da escada de madeira e ferro, a atenção é desviada para luminosidade que vem do lado de fora.

São poucas paredes. Os vãos envidraçados fazem com que tudo se mexa onde normalmente haveria apenas o senso comum de decoração interior. Os raios de sol projetados invadem o ambiente e quanto mais o vento agita as folhagens que cercam a habitação, maior o ritmo do balanço que alegra o chão e as pilastras de sustentação da sala/cozinha vazada. As sombras dos passarinhos que dão rasantes entre as árvores em busca do alimento matinal também fazem da manhã uma festa na Vivenda da Vovó Suely.

O tempo está perfeito. Quase julho e o ar ainda está limpo, como se já não fizesse mais de um mês sem uma gota d´água vinda do céu, apesar de algumas ameaças e a torcida geral por chuvas que adiassem o princípio da secura insuportável do “verão” no cerrado cuiabano.

Deu até uma esfriada. Aquela que o céu fica vermelho e a lua tem um halo em seu redor. Isso, um dia antes da parede de nuvens pesadas se formar para o lado sul no meio da tarde e ir invadindo o horizonte e depois completando o céu inteiro. Chegou o frio! Notado até por aqueles que, mais acostumados que os cuiabanos em geral, só o sentem quando a temperatura baixa dos 14 graus. Pois baixou…

Graças a Deus não durou nem pegou a temporada dos festejos de São Benedito, o santo padroeiro de Cuiabá. Assim, todos os devotos puderam louvá-lo com pompa e circunstância. Especialmente nas atividades da madrugada, como a novíssima lavagem das escadarias da igreja a ele dedicada e o tradicionalíssimo levantamento do mastro, com a imagem do Divino Espirito Santo ornamentando o topo. Diz a lenda que o lado que a bandeira aponta é de onde virá o futuro Imperador, organizador os festejos no próximo ano. Seja cumprindo promessa, fazendo pedidos para o santo, usando sua coroa, entoando os cânticos da missa da madrugada, experimentando o café com bolo depois da função, participando da procissão ou frequentando as barracas de comidas típicas cuiabanas, a fé do povo se manifesta a cada gesto.

Tão significativa e necessária é a devoção aos santos, como o ritual correspondente à natureza local. Ele pede o banho de rio na Chapada dos Guimarães onde, certamente, descem nas águas cristalinas as energias excessivas que se acumulam no corpo e na alma do vivente. Com sorte a água pode não estar muito gelada depois da inevitável descida até a beira do rio Paciência, por exemplo. E não adianta somente colocar os pés na água, molhar as mãos e a nuca.

O ideal é um mergulho físico e espiritual em que apenas o esforço para não rodar riacho abaixo faça o fio terra com o mundo real. Se der, que a conexão seja feita só com a ponta dos dedos dos pés, numa aula prática de física para demostrar como um único ponto fixo pode segurar a força do corpo contra a correnteza das águas.

Como na vida, em que os pequenos gestos e movimentos podem ser definitivos e decisivos diante do turbilhão que nos cerca e tenta nos devorar, serão as delicadezas e sutilezas que nos manterão ligados ao que temos de melhor a preservar.  

A essência da simplicidade é a luta pela verdade. A nossa verdade interior. Aquela que insiste em resistir em se manifestar livremente, como um direito que todos deveríamos exercer plenamente em nosso dia a dia.

Lembra da luz ao pé da escada? Voltando para apagar. Ficou acesa…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

Minguante

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não sei quando liguei a lua minguante a hora da partida. Desde que me lembro foi assim. Acho que é nela que a nossa ligação com a terra enfraquece, o fio de prata fica mais tênue. Se a força da lua influencia as marés, as plantas e, dizem por aí, o nascimento dos bebês, por que não ser presente também na morte? Com o tempo passei a observar o “fenômeno” que se repete a ciclo lunar. Em maior ou menor intensidade, para mim, sempre está presente.

Essa lua foi daquelas que vai levando de roldão várias pessoas queridas. Depois de seis anos de ausência aportei em Cuiabá. Dias antes da virada da lua minguante para testemunhar em uma semana a cuiabania sofrer sucessivas perdas.

O jornalista Jorge Bastos Moreno abriu a lista dos que, espero, tenham ido dessa para muito melhor. “Grande coisa melhorar o que está péssimo”, diria ele resmungando se lhe fosse dado o direito de, já assim rapidinho, mandar notícias do outro do outro lado. “Uma twittada, por favor, São Pedro. Se deixar devolvo a chave…”

Também partiram Rômulo Vandoni, amigo das minhas idas ao Senadinho e fonte de vastas informações sobre Cuiabá e outras regiões de Mato Grosso. Sempre gentil e disposto a saciar minha sede de histórias e curiosidades daqui.  Foi colaborador valioso em diversas campanhas políticas em que atuei no estado.

Com o Aecim Tocantins, também personagem essencial da história cuiabana, não tive tanto contato. Mas senti a perda de outro baluarte da cultura local. Dois contadores de histórias e um personagem influente e querido por toda a comunidade.

E já estava de bom tamanho, pensei prestando atenção na data do final da lua minguante: 23 horas do dia 23. Que passasse logo essa fase e os fios que nos unem a terra se fortalecessem…

Mas não tinha acabado. Na madrugada final do reinado da minguante de junho, se foi Fatima Sonoda, minha bióloga preferida.

A conheci logo que cheguei por aqui na década de 80. Como uma boa e longa amizade, a nossa nunca foi linear. Havia amor e discordâncias. Ficávamos “de mal” e tínhamos um enorme prazer em fazer as pazes. Uma das brigas mais sérias foi quando ela estava grávida de Bibi. Essa durou. Até o dia em que, numa campanha de Luiz Soares, quando estava com Helinho Lopes gravando numa reunião num ginásio perto da Universidade Federal de Mato Grosso, um toco de gente cruzou o salão com aquele andar cambaleante de bebê e, inexplicavelmente, grudou nas minhas pernas. Fiquei ali, meio sem saber de onde viera o afago até Fátima chegar perto de mim e declarar: “Essa é Beatriz. Se ela gostou de você, também tenho que gostar, né?” As pazes estavam, finalmente, feitas. Bibi não sabe, mas sempre teve meu carinho especial por ter feito a reconciliação.

Como já disse, Fátima é bióloga. E como tal a reconheci em cada passo da sua vida. Fosse jogando Master e dando surras homéricas nos demais desafiantes (foi quando revoltada gritei o bordão que encerrava nossas demandas: “ Ela é biooooologa!”.  Fator incontestável diante do meu saber empírico, após essa constatação não havia mais discussão), fosse como especialista e defensora do meio ambiente. Luta árdua.

Técnica do melhor calibre e maior comprometimento, minha fonte de saber e inspiração nesse campo da ciência, batalhou corajosamente pelos biomas mato-grossenses. Virava onça! Especialmente quando falávamos de uma paixão imensurável que tínhamos em comum: o Pantanal.

Como aprendi com ela! Noves fora nossas paixões em comum: Nina Haggen, Lou Reed, Tom Waits, Laurie Anderson, Charles Bukowski e por aí vai… Tudo gauche na vida, como ela.

Então Fá se foi e nós ficamos. Com tremendas saudades! Mas certos que logo ali ela vai se enturmar. Boas companhias não faltarão para a amiga querida. E logo, logo, nos vemos por aí. Numa minguante qualquer…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress. com

Noel tinha razão

Texto e foto de Valéria del Cueto

Doente do pé e/ou ruim da cabeça, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, entre idas, vindas e bênçãos, mandou um recado (!) ao povo do samba: o dinheiro da subvenção da prefeitura para o carnaval 2018 foi reduzido pela metade.

Tal qual marido traído os responsáveis pelo espetáculo foram os últimos a saberem da intenção do alcaide. Em nota ele informou que botará iogurte na merenda das creches cariocas capando um milhão de cada escola do Grupos Especial (50%). Também pretende reduzir a verba do Acesso e cortar os recursos para a montagem da estrutura do desfile dos demais grupos, na Intendente Magalhães. Adieu cultura popular.

O que levaria o bispo Marcello Crivella a provocar um tsunami no mundo do samba, abalando as estruturas de um espetáculo que rende aos cofres da prefeitura  um retorno de 3 bilhões e movimenta em todos os níveis a cadeia produtiva do Rio de Janeiro?

As mesmas intenções que fizeram o agronegócio defenestrar o enredo sobre Xingu da Imperatriz no último carnaval e Luciano Huck correr atrás de uma escola que topasse contar sua riquíssima história na Sapucaí, dias atrás.

O mundo do carnaval é terreno em que se plantando tudo dá. Especialmente notícias e repercussão instantânea. Boa, bonita e barata. O “custo” de uma ação de marketing coordenada é muito baixo quando a capilaridade e a “sonoridade” dos defensores da maior manifestação cultural brasileira são acionadas.

Crivella tem planos maiores. Inicialmente, seu caminho natural, já que nunca participou da administração pública, seria da prefeitura ir para o governo do estado e, então, a Presidência da República seria o limite.

Só que, como verificamos dia a dia, o Brasil tem a capacidade de extrapolar a ficção e descontruir projetos, especialmente a logo prazo. Com a instabilidade política, a estratégia traçada precisa ser readequada para acompanhar os acontecimentos. Com o cavalo passando encilhado, é hora tentar monta-lo!

Há um vácuo de poder federal e uma possibilidade de se movimentar com a falta de candidatos viáveis para a Presidência já em 2018. Bolsonaro se lançou, mas não é lógico entregar ao alheio o ativo de votos evangélicos. João Dória voa baixo, mas está muito exposto. Seu partido, o PSDB implodindo.

A bancada e a base evangélica não têm porque apoia-los se tiver um nome com projeção nacional. Crivella pode se viabilizar nessa brecha. Para isso precisa se apresentar e posicionar no tabuleiro eleitoral.

A polêmica carnavalesca é um recurso caseiro para alavanca-lo. O assunto já mostrou que tem abrangência. É briga de cachorro grande e apaixonante.

Quantos municípios brasileiros cancelaram seus carnavais em 2017? Será que isso prejudicou a imagem de seus prefeitos? Ao contrário. Fortaleceu. Com o quadro atual, Crivella precisa apressar o processo. Bate de frente com o carnaval carioca, ganha exposição e cria um debate nacional que pode posiciona-lo como um possível candidato a presidente.

É jogo alto, baseado em pesquisas, projeções e acordos aos quais os eleitores comuns não têm acesso, mas que estão rolando nos bastidores. Juntando os votos evangélicos com os da direita ele pode virar um trator eleitoral.

O timming está certinho! Se não houver desvios de percurso, pavimenta sua candidatura à Presidência e se equipara a outro candidato (provavelmente da bancada ruralista). Se não der para ganhar, tem cacife para negociar. Que vença o melhor. Para eles.

Somos peça chave nesse tabuleiro. Com um detalhe estratégico: enquanto jogamos damas, ele joga xadrez…

Em tempo: parte dos recursos orçamentários que sobrou do carnaval de 2017, quase um milhão, foi realocado para uma campanha da Riotur de atração de turistas nacionais, a #vemprorio. Segundo anunciou o presidente do órgão, Marcelo Alves, em maio, o custo da iniciativa é de 200 milhões!

*Veja o resultado da enquete feita pela Revista Veja sobre o assunto

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress. com

Vão de céu

Texto e foto de Valéria del Cueto

Abriu as cortinas. Seu olhar escalou janelas e aberturas de serviço da babel arquitetônica de salas, quartos, cozinhas, elevadores e escadas. Ia em direção a cor do céu e o brilho dos raios solares rebatidos nos últimos andares do quadrado que emoldurava o vão. Azul profundo e amarelo alegre. Tudo mais que perfeito para uma vibração praiana, sem o fog que havia baixado nos dias anteriores.

Caderninho na mão e mil ideias na cabeça lá se foi em direção ao mar. Camisa branca de mangas compridas e bermuda. Para não se enganar com o frescor no final da tarde que, já sabia, estava caindo cedo. Tudo, menos facilitar a chegada de um resfriado ou gripe.

Do arvoredo que sombreia a subida em direção ao Arpoador, atravessando o Parque Garota de Ipanema, é um pouco mais que um pulo grande. Similar a um despetalar de problemas, um aprumar de coluna vertebral, a respiração se aprofundando de acordo com o ritmo harmônico dos passos.

Primeiro com interrupções aleatórias nos sinais e esquinas, depois com a entrada nas alamedas da área verde. Tudo para o grand finalle. A passagem pelos portões em direção da praia, mar e o vasto horizonte.

Depois, é abrir o peito, respirar bem fundo e deixar a brisa marinha encher cada alvéolo pulmonar. Uma delícia interior que se adequa perfeitamente ao visual circundante. Circundante mesmo. Tipo 360 graus. Com opções para todos os gostos.

O ritual começa por uma fiscalizada nas condições da areia, seu relevo e extensão no canto do Arpoador. Há pouco espaço para ocupar junto a murada, com direito a falésia para alcançar a água. Dá para ver pedras faz pouco encobertas pela areia de uma maré distante.

Não há surfistas no mar ali no canto. Muito baixo para grandes aventuras. Mas as bandeiras vermelhas se agitam em intervalos na areia. Só de olhar o movimento da água dá para ver que o mar está puxando, traiçoeiro.

O que leva a uma caminhada rumo a Praça Millor. Acesso à Praia do Diabo do outro lado da Ponta do Arpoador. Lá sim, mar alto e surfistas deslizando no topo das ondas. Nem pensar em se aventurar quem não é PHD nas manhas do pedaço. Só profissional para cair para os lados do Forte de Copacabana onde estão os melhores picos. Na também pouca areia do Diabo, os personagens de sempre. Jogadores de frescobol, o pessoal expert no slackline, vulgo corda bamba…

Sintonia, com alegria. Essa é a essência para aproveitar tanta beleza. Só que nem sempre ela chega de estalo. É preciso aguçar os sentidos, um a um.

Depois da respiração e de limpar a visão é hora de deixar o mantra do mar e do vento embalarem seu pensamento. Passo seguinte: se largar na areia e se entregar ao prazer do calor do sol sobre a pele.

Para isso, o ideal é estender a canga num ponto em que seja possível se perder em distrações como os albatrozes que passeiam pelo céu ou o reflexo que desenha uma sombra peculiar na fina lâmina da marola que se recolhe, retrocedendo para o mar.

É chegado o momento sublime de tirar o caderninho e traduzir em palavras a sensação de gratidão por – ainda – conseguir se despir do estado de alerta geral dominante e abrir o verbo para descrever o dia espetacular que embala nosso pequeno paraíso em meio a terra desolada.

Mergulha a mão na mochila em busca do único instrumento necessário para curar os males do seu mundo. Adia os planos quando descobre que, apesar de tanto tudo, lhe falta o essencial. Cadê a caneta???

Conta até três. Relaxa. E aproveita. Desiste da crônica escrita e se dedica a fotografar a vida. Se chegou até ali, foi para ampliar seu vão de céu…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A força

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quero vagabundear. É isso que preciso fazer para encontrar um distanciamento adequado e precavido dos acontecimentos do entorno. Sério.

Olha para o chão e é a aventura de morar no Rio de Janeiro. Tá danado. É tiro para todo lado. Literalmente. Aqui, ali, lá e acolá.  

Olha para o céu e o que temos no horizonte? Esse imenso Brasil e suas inimagináveis e praticamente inenarráveis contradições.

Como driblar o estresse nosso de cada dia? Não, não dá mais para andar despreocupada, olhando a vida passar. Há perigo na esquina. Nessa mesmo. Na outra também.

Está na hora de vagar e bundear.

Na guerra, há que saber a hora de observar. A distância. Especialmente se os movimentos são tantos e tão inesperados que não há tempo hábil para uma análise aprofundada das causas e consequências dos fatos que se desenrolam aos borbotões.

Respirar fundo. Limpar o pensamento. Despir os pré-conceitos. Selecionar os ingredientes antes de picar, botar o conteúdo no liquidificador e tentar fazer algo saudável do mix incrementado. Tá difícil.

Tentei me mover para lá, não deu. Parti para outra opção. Está enrolado, amarrado. Mas vai sair.

Enquanto não sei para onde vou, nem quais das Valérias sairão para brincar por aí, a solução é ir mergulhando na sempre disponível (graças a Deus) imaginação. Sozinha ela já nos levava a qualquer lugar. Agora, com um computador e o mundo nas mãos, as possibilidades são infinitas.

Não que as coisas andem muito melhores nesse mundão de Deus. Com homem bomba se explodindo na entrada de show de cantora adolescente, precisa mais o que?

Botar a boca, como dizem os gaúchos. No mais claro sentido da expressão. E é isso que marca o calendário desse domingo carioca. Voltamos ao ponto de origem. Rio de Janeiro, cidade 40 graus…

A busca prossegue. Por favor, um vagabundear positivo, criativo para animar a crônica. E eis que do passado remoto (!) surge o fato redentor. Aquele que te tira do lugar e desloca para uma outra dimensão…  

Meninos eu vi. Morram de inveja. Passou diante dos meus olhos arregalados e sedentos das imagens futuristas que se desenrolavam na tela. Estive lá. Falo do lançamento de Star Wars há 40 anos atrás!

A vida vai passando e numa hora ou na outra as contas parecem ficar muito grandes. Sorte que sempre parece que foi ontem.

“Te conheço desde que cheguei em Cuiabá, fazendo uma matéria sobre garimpo!”

Ops, de 1984 para hoje lá se vão uns 33 anos, a idade de Cristo! Jesus me abana.

“Quando assisti minha primeira Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a décima…” Putz, foi em 1980. Aí meu nem tão santo César Passarinho!

Entre essa época e o agora tem um monte de décadas de eventos e aventuras que se aproximam quando a gente tem o poder de “chamar” a imaginação. Algumas coisas fazem isso acontecer mais facilmente, profundamente.

Um exemplo? A trilha sonora de Star Wars, de John Williams. Quem tem uma saga para acompanhar na vida, sabe, nas primeiras notas, que pode ter a Força. E que sim, ela pode estar ao seu lado quando mais precisa e menos espera…

Eis o link para a viagem musical. Que a Força esteja com você! https://youtu.be/Nz6H_pm_isw

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

É sério ?

Texto e foto de Valéria del Cueto

É praia, é mar, é dia, é Rio. Tudo substantivo perfeito se não fossem… os adjetivos que acompanham. É praia xoxa, é mar gelado, é dia nublado. É Rio…

Só rindo para sobreviver. Sorte que sempre há razões para ele, o riso…

No meio a tantos acontecimentos e ventos, mais uma vez, vem do carnaval o enredo que nos faz dar risada da própria (des)graça. E mistura tudo: celebridades, política, carnaval…

Finalmente chegamos a 2018. Demorou mas conseguimos dobrar o cabo da Boa Esperança e partir para a preparação da próxima folia. E foi aí, já na fase de definições dos enredos, que despontou um saboroso imbróglio momesco da nova temporada.

Diz a lenda que algumas agremiações foram sondadas, vamos dizer assim, para serem premiadas com um polpudo (e nada desprezível) aporte de 6 milhões de reais caso aceitasse desenvolver seu carnaval exaltando uma incrível e imprescindível personalidade nacional, o apresentador global Luciano Huck!

Segundo a imprensa especializada as escolas de samba do grupo de elite do carnaval carioca procuradas para tal empreita foram o Salgueiro e a Estação Primeira de Mangueira.

Afinal, o que o Huck tem a ver com o carnaval do Rio de Janeiro, além de ser o promotor do concurso que elege todos os anos a Musa do Caldeirão?

Não pescou? Acontece que o mauricinho paulista tem pretensões (altas, diga-se de passagem) de se lançar no pleito eleitoral do ano que vem. Nada como uma over exposição planetária, embalada por um samba exaltação conduzido por uma bateria nota 10, tendo como coadjuvantes destaques, passistas e componentes de uma agremiação tradicional carnavalesca, para consolidar e amplificar a imagem do espevitado futuro “novo” na política brasileira.

Os ecos dessa oferta reverberaram nos meios de comunicação. Logicamente não apenas entre os ligados a festa carioca.

Com o vazamento das recusas das duas agremiações, a assessoria do apresentador negou a iniciativa. Informou que ele foi procurado por um compositor, uns três ou quatro meses atrás, que queria escrever um samba-enredo sobre ele e oferecer para as escolas. Luciano não aceitou. Algumas publicações abriram aspas: “Usaram meu nome indevidamente”. É claro que tal informação só veio a público após as recusas, não quando ainda havia “diálogo” entre as partes.

Por um lado, diante da crise instalada no carnaval carioca alguns anos antes da quebradeira geral brasileira(desde 2013 os grandes eventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, que aconteceram no Rio e no país, disputam centavo a centavo as verbas de patrocínios com o carnaval), deve ser aplaudido o negaceio a uma “bufunfa” garantida e a mega/hiper/exposição que teria a escola do filho dileto da Globo, detentora dos direitos de transmissão do evento.

As agremiações sondadas devem ter feito um balanço das perdas e danos, inclusive o desgaste na imagem, por sucumbir ao “l´argent” e incluir no seu histórico de enredos um tema tão relevante, original e, cá para nós, rico em significado cultural.

Por outro lado, a reação do pretendente à negativa, jogando a responsabilidade para terceiros, já nos mostra que uma lição da política ele aprendeu e aplica direitinho. Quando nas cordas, apele para a infalível versão do “eu não sabia”. É quase lona, mas fica a dúvida.

É sério? Pela cabeça de quem passaria um enredo desses nas comemorações dos 90 anos da verde e rosa, a Estação Primeira de Mangueira?

Mas… como o samba é generoso apareceu na rede um presente de consolação. O “clip” do samba exaltação ao evento não consolidado. Eis a obra:

Na aristocracia desponta um nariz descomunal

Com vontade de se enfiar no pleito eleitoral

És abastado,  dotado de milhões

O Brasil vai entrar na linha com o pai da Tiazinha

Firma o batuque que eu pago um duque,

Luciano Hulk…

Sou play boy, mas e daí?

Trago comigo o faz-me rir

Para quem me levar para Sapucaí!

(#marcheiros) https://youtu.be/yh7Yzx0bfNU

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com