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Se é pra chorar que seja ela, a viola! João Ormond cai no forró no Festival de Viola de Piacatu

Texto e foto de Valéria del Cueto

O ponteio da viola ressoa pelas montanhas que cercam a sede de um dos mais antigos distritos a leste da Zona da Mata mineira, num persistente resgate das raízes musicais brasileiras.

No cenário composto por um preservado casario do final do século XIX, o 16° Festival da Viola e Gastronomia de Piacatuba enche a bucólica Praça Santa Cruz de animados visitantes.

O projeto, produzido Maria Lúcia Braga e patrocinado pela Energisa e o governo de Minas Gerais, já virou tradição e marca registrada do charmoso distrito de Leopoldina, localizado a 25 quilômetros de Cataguases.

Os shows

As noites frias da última semana de julho foram aquecidas pelas etapas regional, nacional e performances de violeiros consagrados como Geraldo Azevedo, Chico Lobo, o mato-grossense João Ormond e Miltinho Ediberto.

As participações dos talentos locais, representados por Thalylis Carneiro e banda Carmim, de Cataguases, com a participação de Dudu Viana na abertura dessa edição, e Rodrigo d’Sá e os Serafins, de Leopoldina, convidando o gaitista Jefferson Gonçalves no encerramento, cumpriram mais uma proposta do projeto.

O intercâmbio entre diferentes vertentes e estilos musicais foi ancorado pela excelente estrutura de palco e som, quesitos essenciais para a valorização da sonoridade dos instrumentos.

O forró se destacou entre os diversos estilos. E foi por ele que o mato-grossense João Ormond trocou o dedilhado pantaneiro nessa edição. No roteiro, o material do CD “Tem Viola no Forró – 2”, o nono de sua carreira.

Esta foi sua terceira visita ao Festival. Na primeira, trouxe “Quariterê” que homenageia Tereza de Benguela. Em sua segunda participação foi a vez de “Viola Pantaneira”.

Baseado em Jundiaí desde 1999, hoje João transita por espaços diversos passeando por diferentes estilos musicais. “Tem um público que gosta do forró nos eventos de festivais como os de inverno, gastronômico, entre outros”, explica. “O som de viola mais tradicional a plateia acompanha em espaços como Sesc, aniversários de cidades.”

Diante dessas demandas Ormond se dedica a vários projetos. “Violas do Brasil” circula pelo Proac/SP. “Nele mostro a viola do cinturão caipira: São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás. A ênfase é a viola pantaneira, assim como em “Violas Pantaneiras”, o novo trabalho com Paulo Simões que será lançado dia 02 de agosto em Boticatu e dia 04 no Sesc de Piracicaba, em São Paulo. Estão nas plataformas digitais”, avisa lembrando que lá também está disponível o EP “Pote d´Ouro”.

É também em parceria com o sul mato-grossense “Toca Raul by Violas”, explorando o universo da obra Raul Seixas. “Daqui, irei para Bauru. Vamos fazer no Sesc de lá”, contou.

E são é só, sua viola está presente no projeto Pantanais Instrumentais, um especial Instrumental Sesc Brasil que acabou de ser gravado e em breve será apresentado na TV Sesc. Foi a pedido do Sesc SP que realizou “No Forró do Alceu Valença”, uma homenagem a Alceu Valença e ao cd “Forró de todo os cantos”

Nesses dias de mergulho sonoro, (uma das peculiaridades de Piacatuba é o fato de somente uma rede de telefonia celular tem alcance por lá), entre uma música, uma boa prosa e as atividades como oficinas, palestras e exposições, o que dá a liga e garante a sustância é um desfile de boa gastronomia.

Comidinhas e bebidinhas nos cafés e bares introduzem as saborosas refeições dos restaurantes locais. Com os cardápios no folder do evento já é possível traçar o roteiro ideal para explorar as delícias.

É esta conjunção de fatores que faz com que, não apenas o público, mas também, os astros da festa, como João Ormond, não se façam de rogados a cada possibilidade de marcar presença no evento mineiro.

Que venha em breve a quarta visita do ilustre representante da cultura de Mato Grosso e sua viola pantaneira nas noites animadas de Piacatuba. A plateia agradece!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Parador Cuyabano”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Nepotismo natural

Texto e foto de Valéria del Cueto

Hoje somos só nós. Vocês e eu. Caneta, caderninho e a que aqui escreve. Três por uma, a crônica.

Numa ponta, pra variar. Na sexta a tarde, pra firmar. Sem fantasia.

A caminho subi a rua do Posto 6 em direção ao Arpoador já pensando no conteúdo da prosa. Não é igual a ir à praia na Ponta do Leme, minha pedra original. Lá conhecia todo mundo e alcançar o paraíso era uma travessia amorosa.

Porteiros, gari, guardador/lavador de carro, o Coutinho banco/boteco, salvador nas horas perdidas, Marquinhos da papelaria.

Uma fiscalizada nas frutas no seo Avelino, com direito a exame de qualidade da partida mais recente das melhores (e sempre desejadas) mariolas, meu vício. Aquela passada pela banca de jornal do Santo pra conferir as capas dos jornais e o suco de banana com abacaxi com pão na chapa e polenguinho, do Romário ou do Malaquias, na padaria Duque de Caxias.

Essa social sempre fazia que só pensasse na crônica quando acabava de acampar na areia antes de me concentrar nos meus esportes favoritos: o surf nas ondas do canto da pedra e a pelada da garotada na beira do mar. Com traves do gol de coco ou havaianas.

Aqui no Posto 6 a levada é diferente. Mais papo reto. Não dá pra comparar a intimidade e os afetos de uma vida com essa paisagem. Lá era pulo. Aqui é ladeira. Acima. Pra chegar em Ipanema desfilo de ponta a ponta da Bulhões, cruzando do pé do Morro do Pavão até a Pedra do Arpoador.

Claro que já rolam obas e olás. Mas aquela animação não vira por essas bandas. A exceção (como não poderia deixar de ser) é com um velho amigo dos tempos de adolescente. Porteiro do prédio quando morei aqui, hoje bate ponto num edifício vizinho. Com ele a prosa rende. “Hoje está uma tranquilidade no entorno”, informa. “O vice-presidente Mourão está no pedaço com tudo que tem direito.”

Foi pensando neles, os direitos, que num silêncio pensativo subi o restante da ladeira. Nos direitos do general que virou vice e do porteiro que está perdendo os seus nas canetadas ensandecidas dos poderes constituídos de Brasília nessa reforma que, bradam, será para beneficiar os mais pobres.

Todos empurrados à escravidão contemporânea, a que não depende de raça e de cor. Grilhões financeiros e econômicos em que só falta já nascermos no negativo.

Claro que isso é uma projeção catastrófica, dirão aqueles que, com chicotes nas mãos, ainda encontram um jeito de aplaudirem o trabalho infantil.  Em breve seremos embalados pelos sons dos estalos dos rebenques no lombo do gado obediente.

Mas não foi para falar disso que cheguei até aqui. A vida do porteiro amigo ainda é das melhores. Tem emprego, é bom no que faz, ajuda os amigos e, sempre que pode, chuta o balde e vai pescar na praia.

Fui interrompida no riscado por Vilmar, o irmão do mar.  Perguntou o que eu estava escrevendo depois de me pedir um troco pra comprar um marmitex. Vilmar está recolhendo latinhas na praia. É desempregado, tem fome e um sorriso enorme.

Está pior, bem pior que o porteiro pescador. Mas se acha um privilegiado. Me explicou que só ele na família de vários irmãos tem o mar no nome, por isso se sente “irmão dessa lindeza”. Irmão do mar, Vilmar só almeja (me contou) outro mar. O marmitex de sexta.

Na volta pra casa há um burburinho no final da descida da rua. O vice com seu aparato policial, comitiva, coisa e tal, mais um soldo de R$ 19.000,00 acaba de chegar em seu lar!

Que não se compara ao do esfomeado Vilmar. Que pode não ter nada! Mas é irmão. E disso abusa, do mar…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM…  delcueto.wordpress.com

Matrizes, show da Mangueira no barracão da Cidade do Samba

Matrizes é o espetáculo concebido por Leandro Vieira e montado no barracão da Estação Primeira da Mangueira na Cidade do Samba.
A estréia do show dirigido pelo carnavalesco duas vezes campeão na verde e rosa foi na quinta-feira, 04 de julho.

Clique AQUI  para acessar o álbum Matrizes no barracão da Mangueira do Flickr.

A cantora Alcione, a primeira convidada da temporada. O elenco é composto por 35 artistas, entre músicos, passistas, baianas e dançarinos. A bateria da Mangueira também participa, é claro. Na próxima quinta-feira o apresentação será de Nelson Sargento, presidente de honra da escola.

Relembrando as vertentes originais do samba carioca como o jongo, caxambu e o choro, o roteiro passeia por clássicos do samba e explora obras de compositores mangueirenses. As apresentações acontecerão às quintas dos meses de julho e agosto de 2019. Informações no site da Mangueira.

Abaixo, em vídeo, um pouco da pegada da bateria verde e rosa no espetáculo. Sobe o som…

Ensaio fotográfico e registros no canal del Cueto, no youtube de ©2019 Valéria del Cueto, all rights reserved
@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto para CarnevaleRio.com

(Ainda) na luz

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vendo a vida da Ponta do Arpoador é que me inspiro para mais uma conexão com você, cara cronista enclausurada.

Tudo é prata nesse mar de ressaca dominical que, diz a moça do tempo que quase sempre erra, mas dessa vez acertou, se estende por grande parte do litoral sul e sudeste do Brasil.

Tem chovido muito por aqui e mesmo com o céu cheio de nuvens, o que explica a prata predominante na palheta de cores que anunciei acima, muita gente aproveitou para lagartear ao sol que recorta e é fonte de luz para rebater as más energias e ampliar as positivas.

Tá todo mundo precisando e deveria haver mais esforço na busca de harmonia.

Mas, cá pra nós, amiga voluntariamente encarcerada do outro lado do túnel, o que tenho encontrado por aqui é justamente o oposto.

Os sensores de meu sofisticado equipamento interestelar energético estão em níveis críticos. Indicam que o desastre é eminente.

Não vou dizer que a situação é irreversível porque aprendi que nessa parte do globo terrestre a gente sempre tem que avaliar e considerar a hipótese da não hipótese. As chances da exceção a regra são geométricas, tomara!

Olhando esse mar maravilhoso em que os surfistas riscam as ondas como se rabiscassem uma coreografia celestial no contra luz do sol que começa a cair não dá para acreditar nos nefastos acontecimentos. São eles que geram os prognósticos negativos.

Nem vou entrar em detalhes que de tão cabulosos e agressivos estão levando a população à beira de um ataque de nervos coletivo.

Além da perda de direitos e das esperanças o que se vê é o prenúncio de uma guerra anunciada. Em que um dos lados dá sinais de que nem as regras básicas do jogo serão cumpridas. A intenção claramente é a de demolir as instituições. As palavras de ordem são invasão e agressão.

Tá danado, amiga. E todos os recursos, inclusive os motores e robôs das redes sociais, estão na arena.

Talvez você não saiba do que estou falando ou talvez já imaginasse em suas projeções, as que abriram seu caminho para a clausura voluntária.

São novidades perversas, instrumentos de disseminação do medo, do ódio e da confusão. Entraram em voga depois do seu exílio, querida, derrubando a credibilidade e provocando a multiplicação da desorientação generalizada. É um bate cabeça interminável.

Não, (agora reconheço seu alerta, amiga) esse mundo não é para amadores.

E, sinto muito dizer, nem para as abelhas, polinizadoras da vida, que morrem aos borbotões indicando (também) que tem alguma coisa errada na ordem natural das coisas.

Paralelamente, uma das “ilhas de prosperidade” da combalida economia brasileira nos primeiros meses de 2019 foi, justamente, as vendas de defensivos agrícolas que subiram mais de 27%!

Enquanto o mundo se preocupa o governo brasileiro abre a porteira da agressão ao meio ambiente agindo de forma criminosa e inconsequente na contramão dos alertas ambientais mundiais.

Não preciso dizer o que isso significa nos meus planos de partir desse para mundos melhores.  A força propulsora dos motores da minha nave cada vez tem menos chances de me irar dessa roubada.

Para finalizar, e poetar, porque ninguém é de ferro, nos restam a fresta (da janela) e a lua (tão nua). Ligações amorosas que nos unem (ainda) na luz.

Do seu Pluct, Plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Como outra qualquer, Flotropi


Texto e foto de Valéria del Cueto

A bicharada não está acreditando na performance do novo boss do mundo animal da Flotropi.

É por que se a fauna botou no governo um mito que pensa que seu mandato se expande por outras gerações de sua estirpe, a flora e os representantes do mundo mineral já mandaram avisar que não têm diálogo com quem já disse que quer “explorar” a natureza. Que a bicharada se responsabilize por suas escolhas, mas não venham dar pitaco no quintal alheio.

E não foi sem tempo: o mito já decretou o arrasa quarteirão dos recursos naturais. Tudo a troco de uns caraminguás.

Verdade seja dita, muito foram contra a ascensão da prole unida, mas não souberam se fazer ouvir. Outros, lavaram as mãos, asas, patas e guelras. Deu no que está dado.

Um desastre em proporções quase que bíblicas. O advento de mais um sacode florestal. Essa bicharada, cá entre nós, não acerta uma.

A coisa anda séria lá pros lados da clareira. Tem pena, couro, escama e pele sobrando pra todo lado. Nas redes sociais os papagaios, caturrita e afins estão a ponto de cair dos galhos, de tão cansados do leva e traz.

O causo é que um dos mitos filho assumiu o papel e o (des)controle das comunicações reais trazendo insegurança, desavenças e ampliando o destempero que que acaba provocando o desemprego para os antigos responsáveis pelo setor e a certeza que agora não é tudo nem nada, restou apenas uma grande confusão.

O que, obviamente, levou ao maior índice de inconfiabilidade já registrado na comunidade da floresta. Quando abriram as cortinas do universo, nem a lua conseguiu cantar em verso sua história astral.

Não há espaço para premonições, profecias nem poesia. Tudo é credo, cruz e muitas vezes sobra até pra ela, a Ave Maria. Imagina o que passa na cabeça de todos os santos?

Resumindo, não há mais alegria.

É tempo de medo, delação e preconceito no reino animal. Tipo cobra comendo cobra.

É um tal de chamar urubu de meu louro, num período em que o me engana que eu gosto está valendo ouro.

Não é necessário dizer que esse espirito de porco generalizado que se espalha tão estridente e insuportável como o canto da araponga ultrapassou as fronteiras anunciando medidas radicais e inconsequentes do governante de plantão.

No seu entorno, diga-se de passagem, só a fina flor. As gralhas gritam, as hienas, entre risadas, afagam, dando o bote. As raposas seguem rodeando e fazendo de conta que quem manda é o rei, enquanto desmantelam a estrutura florestal.

Não está sobrando ninho sobre os galhos, toca nas árvores, no mato ou sobre a terra. Mas tem animal achando bom.

Ou melhor. Tinha. Para gáudio e satisfação dos caçadores, apesar de proibido nas leis do reino, o mandatário mor liberou as armas, criando um desequilíbrio de forças entre as espécies. Não satisfeito, reduziu as verbas para a educação florestal.

Para finalizar, enquanto seu guru cospe impropérios contra os militares do exército real, o chefão avisa que mandará para a instância superior judiciário florestal seu dobermann da segurança e contenção que anda um pouco chateado com a falta de atenção com seus planos contra a corrupção (ora pois) e segurança.

Isso tudo em uma semana como qualquer outra aqui na pacata Flotropi…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Fé no axé, solidariedade e samba

Texto, fotos e vídeos de Valéria del Cueto

Na entrega da Medalha Pedro Ernesto para Evelyn Bastos, a casa do povo recebeu o povo. Preto. Para reconhecer o valor e o trabalho de uma rainha da favela. E da Bateria da Mangueira.

Não, não foi esse honroso título mangueirense que levou a menina das vielas a ser homenageada por uma iniciativa do vereador Leonel Brizola Neto.

Foi o conjunto da obra de uma mulher que, para poder estudar, conseguiu uma bolsa de estudos num colégio em Cascadura e com a ajuda do “Senhor Álvaro”, como ela chama Alvinho, ex-presidente da verde e rosa, que bancou seu transporte e os livros, se formou em Educação Física. Um exemplo a ser seguido.

No samba, é o que é. Uma passista de primeira. Filha de Valéria Bastos, Rainha de Bateria da Mangueira de 1987 a 1989, sempre disse que chegaria lá. Assumiu o posto quando, num resgate as tradições da escola, uma menina da comunidade voltou a desfilar na frente da bateria. Tinha 19 anos.

Em 2015 criou o projeto Samba, Amor e Caridade, o SAC. Alimentos e roupas são recolhidos na quadra, o Palácio do Samba, e distribuídos para os moradores de ruas da cidade. No início eram poucos. Hoje…

Na Mangueira cuida, ensina e incentiva as meninas que sonham em, como ela, serem passistas. A exigência é que estudem, para crescerem na vida.

Juntou a fome com a vontade de comer, no quesito combate a intolerância, ao se inserir de corpo (e que corpo) e alma no enredo “Histórias pra ninar gente grande”, do carnavalesco Leandro Vieira, que deu a Mangueira o campeonato do carnaval 2019. Representou Anastácia no ensaio técnico. No desfile oficial Esmeralda Garcia, escrava considerada a primeira advogada no Piauí.

Evelyn é do bem e “colocada”, como mostrou em seu pronunciamento que, fez questão, fosse da tribuna Marielle Franco. “Para falar do povo preto e favelado”. Estendeu a homenagem acrescentando 100 moções de louvor e reconhecimento a mangueirenses e personalidades.

A cerimônia foi emocionante. A começar pela interpretação de Cacá Nascimento, a capela, do Hino Nacional. Das galerias, a bateria deu o ritmo para o samba enredo campeão de 2019. Totalmente pertinente no contexto da homenagem.

As autoridades presentes e convidados fizeram pronunciamentos intercalados de vídeos. Um deles mostrava um elemento de ligação entre o sonho e a realidade do carnaval carioca. Foi com Leonel Brizola falando o que imaginava para o espaço recém construído do Sambódromo que em 2019 completou 35 anos. A palavra-chave era educação.

Evelyn, muito emocionada, em sua fala “fechou” o círculo. Religiosidade, o orgulho de seu povo preto, afeto, apoio, educação, crescimento e, principalmente, solidariedade. O poder de retribuir e ampliar a rede de proteção de sua “favela”.

Claro que não poderia faltar, para finalizar a homenagem, o giro das baianas e a saudação de representantes de segmentos tradicionais da escola ao som da bateria da Mangueira, comandada por outro “cria”, Mestre Wesley.

Num momento em que o axé da cidade e dos cariocas andam tão abalados pelos últimos acontecimentos, a reunião de da comunidade verde e rosa no Palácio Pedro Ernesto, antiga sede do Senado Federal, quando o Rio era a capital da república, foi um foco de resistência amorosa gerando uma sinergia positiva, união e sintonia do bem.

Exemplo e caminho que indicam as forças que precisamos comungar urgentemente para reencontrarmos a capacidade de nos reerguermos e reinventarmos. E como andamos precisando desses elementos catalizadores…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Portela 2019 nas campeãs, crônica de um agradecimento

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Ainda não aprontei o material da Portela, mas há uma passagem que está pulando na frente das milhares de imagens que fiz na Sapucaí, nesse carnaval. Como sempre, só costumo falar do que vejo e, com mais de 10 anos na pista, é surpreendente como a gente ainda vê coisas…

A Portela desfilou no mesmo dia da Mangueira e, por produzir um material bem minucioso sobre a bateria, acabei fazendo com menos rigor os desfiles das escolas que a antecediam, mudando o percurso que considero ideal para registrar os enredos e a evolução das agremiações.

Passei pela Portela, mas não pude prestar atenção em alguns detalhes. Entre eles, o motivo da grande quantidade de diretores e harmonia no entorno do abre-alas que trazia o primeiro destaque da escola, Carlos Reis, ladeado por Tia Surica e Monarco, baluartes da escola de Madureira.

Olha o grau da responsabilidade, fotografar meus ídolos! Também fotografei os empurradores dos elementos alegóricos que, acoplados, trazia o símbolo da escola, a águia portelense.

Corta para o desfile das campeãs. A Portela, quarta colocada, foi a terceira agremiação a se apresentar.

Na cabeça da escola, aproveitei para fazer com calma o registro de Cinthia e Adriano, filho do amigo de longa data e presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães.

Na sequência, a comissão de frente, a porta-bandeira e o mestre-sala, Lucinha Nobre e Marlon Lamar.

Foi quando, depois da apresentação do casal para o segundo módulo de julgadores, resolvi cruzar a pista para o lado oposto a cabine.

A melhor forma de fazê-lo era passar voando pela frente do abre-alas.

Foi ali que vi, novamente, Elisa Fernandes, diretora de alegoria, responsável pelo abre-alas.

No meio do caminho, quando procurava um ângulo para fazer sua foto, veio em nossa direção o casal com o pavilhão da escola. Quer, dizer, na direção dela, Elisa.

Acreditem, fiquei quase vendo a cena que fotografei pelas costas, se não tivesse dado uma corrida e invertido o eixo.

Porque, de mãos dadas com a diretora de alegoria, responsável pelo abre-alas, o casal a conduziu em direção a torcida!

Por ela, Elisa foi efusivamente aplaudida e, junto com o mestre-sala e a porta-bandeira, saudou o público das arquibancadas e frisas.

É claro que vi Elisa chorando, mas não por muito tempo. Vi Elisa recebendo a bandeira para saudá-la. E, depois, ser abraçada por Lucinha e Marlon.

Vi mãos se encontrando nesse abraço carinhoso envolvendo e diretora de alegoria. De amor e admiração.

Guardei as imagens, sabendo que era o agradecimento pelo esforço feito por Elisa e uma incrível equipe, para superar um desafio, mais um, dos que presenciamos na pista. O abre alas havia cruzado a Sapucaí, no dia do desfile, no muque deles, dirigidos por ela!

Só tive noção do tamanho da superação quando, no dia 8 de março, dia Internacional da Mulher, Elisa Fernandes contou a história do desafio que caiu sobre seus ombros e, com a ajuda da harmonia para solucioná-lo, a Portela enfrentou em seu desfile. Essa parte (a mais importante da história) você pode ler no seu perfil do Facebook.

Aproveita para refletir…

Resolvi “recortar” esse episódio, porque quero celebrar o esforço de Elisa, a generosidade do casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Lucinha Nobre e comemorar, com você, a chance de estar bem ali, e podido contar uma parte dessa (linda) história carnavalesca…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Valéria del Cueto
+55 21 99767 0093

Na paz do Senhor…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Eu de novo. Da Pedra do Arpoador. Olhando a rola de Ipanema, Leblon e os contornos da morraria caindo sobre o Atlântico. Coincidência ou não é quase por do sol. Aquele clássico de verão. Aguardado ainda no mar, ao som de aplausos agradecidos.

É o dia seguinte a tragédia de Brumadinho.

Por princípio, como costumo ser (pouco) obediente às ordens médicas, não deveria estar por esses costados. Nada de sol nem muito esforço para ajudar a debelar a inflamação pós canal dentário duplo da última quarta-feira. Um dos dentes se incomodou com o remelexo e me deixou com a cútis esticadinha sobre o inchaço na bochecha.

Nada contra, se não fosse a dor latejante no local que se expande para a cabeça como um todo.

O fim da ladeira foi na sexta. Quando o tédio do isolamento foi quebrado para acompanhar as incríveis notícias vindas de Brumadinho, município a 40 km de Belo Horizonte e sede do espetacular Instituto Inhotim.

Quem não sabia onde fica  Brumadinho certamente passou a saber depois do rompimento de uma de suas barragens, a do Córrego do Feijão, da gigante mundial do aço, a Vale, ex- do Rio Doce.

Quantos milhões de metros cúbicos de rejeitos das minas de minério de ferro desceram vale a baixo, seguindo em direção ao rio Paraopeba, não sei dizer. E não sou a única. Nem onde esse material que insistem dizer que não é toxica, apesar de reconhecerem abrasiva, (como assim?) irá parar seguindo pela bacia do Rio São Francisco.

Também são desencontradas as informações sobre o número de mortos soterrados sob a lama.

Foi por isso que fugi. Deixei de lado as recomendações médicas e estou aqui. Diante dessa paisagem tão maravilhosa que, a cada dia manda um sinal aos seres humanos que a admiram da força e do esplendor da natureza.

Vim firmar por todos os que não sabemos onde estão, nem quantos são.

Vim pedir por suas famílias, amigos e colegas que, no momento, lidam lá nas minas gerais com a dor da perda, o fantasma da ignorância sobre o destino de seus entes queridos e o descaso criminoso dos responsáveis pela falta de um plano eficaz de contingência.

Vim para a Ponta procurando um ponto. De equilíbrio, que me ajude a recuperar a humanidade.

No caminho pela areia observava o entorno mais silenciosos que o normal. Apesar de ser um sábado de verão, em pleno mês de janeiro, tudo pareciam menos. A praia não estava tão cheia, a vibração era menor. A vida um pouco mais parada. Como em respeito ao drama que se desenrolava logo ali.

Quando desci para a areia comecei a procurar a mensagem. A que sempre recebo quando venho em busca de Deus e/ou da natureza.

Claro que ela veio, mas não no por do sol, o momento em que os moradores, banhistas e visitantes aplaudem e agradecem mais um dia.

Não há o que agradecer. Foi entre nuvens que o dia terminou. Não sei o espírito dos que assistiam os últimos raios de sol que se escondia na linha das nuvens, bem acima do horizonte.

O meu foi de recolhimento. Solidariedade e amor pelos que se foram, os que ficaram e aqueles que nunca saberemos onde estão. Que todos se reencontrem. Um dia. Na glória do Senhor…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Valéria del Cueto
+55 21 99767 0093

Lá e cá

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de um texto burilado e trabalhado em referências, como o da última crônica “Na luta é que a gente se encontra”, a vontade é de só falar de banalidades para quebrar a linha de raciocínio. E, claro, por saber que é muito difícil ir mais longe na excelência do produto.

Só que ainda me lembro do compromisso que talvez você, leitor, não se recorde: continuar viajando pela fronteira de Mato Grosso do Sul e, quando dá, cruzar para o lado de lá, o Paraguay… Então convido você a seguir pela Ruta 5, em direção a Bella Vista, na província de Amambay, ao norte do país vizinho.

Saindo de Cerro Cora seguimos para a Hacienda Ñe´a. Uma pena que com a pressa (queríamos chegar com a luz da tarde), não deu para ir fazendo paradas para fotografar o relevo que desenha o perfil das paisagens que passaram voando pelas janelas. Um tereré circulava entre as passageiras da aventura: Adriana, Rosanie, Dora e Natália, todas da família Nuñez.

A sede da hacienda é protegida por uma cadeia de montes. Adriana até sugeriu um passeio a cavalo para explorarmos a região, mas declinei. Estava satisfeita com as construções que avistei em volta da linda casa principal. Fora isso, é claro, tive o bom senso de evitar as dores que, certamente, sentiria nos dias seguintes. Não monto há anos!

Quer saber? Para esgotar as possibilidades fotográficas da Ñe´a preciso de muito mais tempo do que a tarde que por lá passamos. Pelo que vi imagino as nuances da luz em diferentes períodos do dia, como o amanhecer e o anoitecer, e as variadas cores da vegetação do entorno conforme mudam as estações do ano. É material para muitas idas e passeios. O visual ainda estava marcado pela estiagem comum nesse período. Isso dava à morraria, especialmente no cair da tarde, tons dourados que contrastavam com a vegetação que renascia.

Ao lado da casa principal uma pequena represa compõe a visão bucólica e serve para banhos refrescantes nas épocas mais quentes do ano. O que chamou a atenção foi a “passarela” de tábuas de madeira usada para as lavadeiras baterem as roupas no curso d´água. Cena típica de tempos e práticas de antigamente.

Depois de mais uma rodada de tereré na varanda da casa principal era hora de um giro pelos galpões, oficinas e a área das moradias dos peões. Trabalhando com o contraste das sombras que se alongavam com o cair da luz fui fotografando a vizinhança.

A câmera atraiu a atenção das crianças que brincavam entre os varais de roupas que secavam ao vento. Uma se aproximou cheia de curiosidade perguntando o que eu fazia. Expliquei que fotografava a hacienda. Outras  foram chegando e pediram para que as fotografasse, o que, é claro, aceitei prontamente. Agora, era um grupinho que fazia pose e me intimava para ver no visor o resultado. Um dos meninos foi buscar uma bola. E dá-lhe clique! Outro, dava ideia de subirem na cerca da mangueira. Aí, a “direção” da brincadeira já não era da fotógrafa…

Nem prestei atenção ao sol que caía rapidamente e produzia uma luz quase frontal perfeita para os registros. Fui andando a procura do ponto ideal para pegar o pôr-do-sol, mas não resisti ao chamando da criançada que dava a dica de outro cenário. Dessa vez na varanda do galpão do estábulo, com arreios e tralhas ao fundo. Arrumei os assistentes perfeitos. Melhor “frente de locação” impossível… Foram eles que me contaram onde as imagens ficariam melhores.  Me despedi dos “eres” explicando que achava que voltaria logo trazendo as fotos impressas.

É o que, creio, acontecerá em breve. É nessa região que pedirei asilo depois dos resultados do segundo turno das eleições. Será a rota de fuga mais adequada para me dirigir nos próximos meses. Vai ser difícil aturar o juiz que, provavelmente, fará dobradinha com o bispo no Rio de Janeiro e a dupla de milicos em posições invertidas que avança sobre a democracia brasileira.

Mas espere, caro leitor, não é agora! Antes cairei no samba num verão carioca inesquecível que terá seu ponto alto no desfile da Sapucaí. Será um carnaval temperado por enredos como “Xangô”, do Salgueiro, e “História pra ninar gente grande”, da verde e rosa. Esse contará ao Brasil e ao mundo quem são os verdadeiros heróis populares do país que não está no retrato ritmado pelo surdo de primeira que marcará os 60 anos da Bateria da Mangueira! E eu? Estarei lá…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Das séries “Fronteira Oeste do Sul” e “É Carnaval”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Na luta é que a gente se encontra

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dias antes do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, estive num lugar que, por analogia, me fez sentir ainda mais o desastre imensurável para a história, a cultura e a ciência brasileira.

Cerro Corá fica perto Pedro Juan Caballero, a 41 km de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, fronteira com o Brasil. Ali, as tropas brasileiras da Guerra do Paraguay, conduzidas pelo General Câmara sob o comando do Conde D´Eu, (marido da Princesa Isabel, A Redentora, que libertou os negros da escravidão, segundo a história oficial brasileira), encontraram o que restava do exército em fuga do  Mariscal Solano Lopéz.

No riacho Aquidaban Nigui o cabo Chico Diabo golpeou “El Supremo” e entrou para a história. A nossa, que não nos conta que Elisa Lynch, a poderosa amante do presidente, enterrou com a ajuda de sua filha, usando uma lança, não apenas os restos mortais do Mariscal, mas de seu filho de 16 anos, o Coronel Juán Francisco López. “Panchito” também se recusou a se entregar aos inimigos.

Estudo essa história desde a adolescência quando meu pai serviu em Bela Vista e virei rata da biblioteca do médico paraguaio, o Dr. Caito. Lá comprovei, lendo em espanhol os relatos que contam o outro lado dessa incrível saga sul americana, que a verdade pode até querer ser uma só, mas tem sempre várias versões.

Minha memória se colore com a panapanã que encantou a primeira vez que visitei Cerro Corá, ainda criança. O local em que os combatentes caíram estava “tapado” por uma nuvem de borboletas amarelas, como as que reencontrei na Macondo, de Gabriel Garcia Marques.

Agora, ali é o Parque Nacional Cerro Corá, com mais de 5500 hectares. O marco, na Ruta 5, e um pórtico estilizado indicam sua entrada. Um pouco recuada fica cancela de identificação e a portaria com a simpática guarda florestal fazendo a recepção e apresentando o minimuseu. O lugar também é um sítio arqueológico.

Seguindo se alcança o mirante que marca o local onde aconteceu o último embate entre as tropas, em 1 de março de 1870. O visual é deslumbrante, com o Cerro Corá dominando o cenário. Bustos dos comandantes que ali sucumbiram vigiam o território paraguaio.

Mas ainda não era isso que estava procurando. Dalí, uma alameda cercada de palmeiras leva à grande cruz que marca onde estiveram enterrados os heróis paraguaios. Ao lado, um nicho formado por guerreiros de pedra, adornados com elmos e lanças de metal estilizados, indica onde Madame Lynch enterrou Solano Lopéz e Panchito. Ainda é necessário fazer um caminho por pequenas trilhas para chegar, no Aquidaban Nigui, ao passo onde o líder paraguaio sucumbiu.

O que mais me impressionou foi a proposta do parque.  Não há uma invasão visual. Tudo integra os acontecimentos aos locais. Dá para notar a imponência das linhas do monumento no local da batalha e da cruz, de tempos mais antigos, e a linda proteção dos guardiões, homenagem do ex-presidente Fernando Lugo. As equipes trabalhando e a conservação dos jardins, alamedas e trilhas, mostram o zelo com o espaço.

Vivi tudo isso com as lágrimas nos olhos do meu sonho colorido de infância dias antes de, estarrecida, ver arder (há exatos um mês) nossa memória – e, inclusive, desconfio, objetos ligados a essa história – na Quinta da Boa Vista.

Quando voltei ao Rio, caí dentro do registro da Bateria da Mangueira na escolha do samba que cantará na avenida o enredo do carnavalesco Leandro Vieira, “História para ninar gente grande”. Ele fala da “história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar”. Cito trecho de uma das parcerias, a de Deivid Domenico, que concorre na final, dia 13 de outubro, no Palácio do Samba, a quadra da Mangueira.

Não costumo me manifestar durante essa etapa do processo carnavalesco, a escolha dos sambas, que acontece até meados de outubro. Mas, confesso, torço para cantar na Sapucaí “tem sangue retinto, pisado, atrás do herói emoldurado” e meu nome, MARIA, junto com as “Mahins, Marielles, Malês”, “Lecis, Jamelões”. Quero muito dar nome aos nossos verdadeiros heróis que, diga-se de passagem, nem sempre precisaram matar para assim serem considerados. Eles e tantos outros anônimos elementos catalizadores do que nosso país tem de melhor.

Pense nisso na hora de exercer seu voto nesse domingo. Na base de seus representantes. Se escolher seu presidente é complicado, mais difícil é ter critério e consciência ao escolher senadores, deputados federais e estaduais. Caberá a eles representá-lo nas difíceis decisões que virão pela frente. Afinal, “na luta é que a gente se encontra…

* Este é o link para clip do samba mencionado:https://youtu.be/s91TcNhfYtY e, aqui, seu feito na torcida verde e rosa https://youtu.be/asc92FJmwYQ

** Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Das séries “Fronteira oeste do Sul” e “É Carnaval”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Medidas compensatórias

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vivendo e aprendendo. Inclusive a não prometer o que não sei se vou poder cumprir.

Na última passada nesse espaço, com a crônica “Logo ali”, jurava que seria capaz de fazer você, leitor, acompanhar as etapas da viagem a Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguay e adjacências.

Cheia de boas intenções, pretendia enviar relatos semanais da entrada por Campo Grande, a descida até Ponta Porã, uma passada planejada em Bonito. Depois, dias em Aquidauana, antes de voltar para Campo Grande e para a rotina imprevisível da vida no Rio de Janeiro.

Quais as partes (observe o plural) que não foram cumpridas? Enquanto atravesso uma área de turbulência, já pertinho de São Paulo, tento fazer um balanço das semanas que inexisti no sentido literário de meu compromisso com você eleitor – ops, ato falho, leitor – e enviar para a publicação os textos e fotos.

E quer saber? Não me arrependo. Quase tudo deu certo e o que deixei de fazer foi substituído por experiências diversas e inesperadas. Um exemplo?

Para ele, me baseio numa teoria que acabo de criar e ando burilando. Imaginem um registro gastronômico. Você vai ao restaurante e, antes de abrir os trabalhos, para tudo. Faltou a foto ma-ra-vi-lho-sa do prato em questão. Ali, saboroso, com aroma e temperatura perfeitos. No mínimo, preciosos segundos de contemplação foram perdidos.

A comida esfria enquanto a gente dá uma ajeitada no entorno, acerta o plano, gira o prato para ficar ainda mais apetitoso, arruma os talheres. Tira as logos dos refrigerantes e da água do quadro. Claro, se houver um bom vinho, tem que acertar a posição do rótulo. Não frontal, displicentemente, quase lateral. Aproximar a taça devidamente preenchida até a altura adequada, dependendo do tipo da bebida.

E a comida? Linda na foto (que você já checou para ver se está no foco, no ângulo certo). Esfriouuu… Amado leitor. Sou muito chata para comer e, se o prato for irresistível, tenha certeza: lá se foi o registro perfeito para as redes sociais. E ainda tem antenados que fazem as postagens antes de cair de boca. Com direito a textinho, localização hashtag e marcar o estabelecimento e os amigos. Fora as “Stories”.

Estou. Fora. Se estava irresistível certamente não haverá registro. Assim como de outros momentos especiais na minha vidinha…

Agora, amplia isso para uma viagem inteira. Locais, encontros, aventuras. Espero ter explicado porque nos últimos 20 e poucos dias o máximo que consegui foi dar uma curtidinha nas fotos feitas por amigos que me pegaram de jeito com meu “sorriso gato da Alice”.

Todo mundo sabe que sou tímida, envergonhada e detesto ser fotografada. Essa é uma das razões que escolhi ficar do lado oposto da máquina fotográfica. Mas, como virou moda o registro incondicional de encontros e divertimentos, para não ser mal-educada e evitar muita zoação, desenvolvi essa técnica. O sorriso do gato, inspirado no bichano de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll. Essa foi a maneira de saber por onde andei. Nos perfis amigos.

O Instagram, companheiro e cumplice compreensivo, solidário com sua assinante, emburrou. Deu de travar, engasgar, e refugar em boa parte da viagem. Me explicaram que, coitadinho não é chegada no 3G, sofisticada e phyna…Essas foram algumas falhas imprevisíveis nas intenções iniciais da viagem.

Cabe registrar que a aventura gastronômica no paraíso também não aconteceu. Baixou o lendário nevoeiro em Ponta Porã. O frio veio junto. De rachar. Foi impossível o deslocamento para Bonito com a partida de Ponta Porã tendo que acontecer de madrugada num dos dias mais frios do ano…

Como já disse, as frustrações tiveram suas compensações. E essas, não prometo mas, pretendo, contar nos próximos textos sul mato-grossenses.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Logo ali

Texto e foto de Valéria del Cueto

Fiz que fui, quase fiquei mas, para felicidade geral, acabei indo. A vida é uma partida de futebol interminável incluindo os deslocamentos pelo campo que é esse mundão de Deus. Como todo bom jogador completo vou para onde o técnico manda. Porém, confesso, tenho minhas preferências e, quando posso, faço escolhas próprias baseadas em algumas variáveis.

Adoro ir onde o vento leva. Mas hoje, além do bom tempo, sigo as correntes dos preços das passagens aéreas, as cotações das moedas de países da lista de desejos e outros critérios mais objetivos do que gostaria esse ser viajandão.

Reconheço que em alguns momentos apago as prioridades e tomo um rumo certeiro por exigência de sobrevivência do equilíbrio básico necessário para fortalecer meu eu interno. Aí, troco o oceano de água salgada por um imenso mar de água doce no centro do continente sul americano. Nele, me dispo das camadas do convívio ligeiro e superficial para encarar o mais difícil e complexo personagem do repertório da vida: ser eu, apenas eu.

Tá, já sei sua pergunta: “o que a água doce te dá que a salgada não te traz?” A resposta é dolorosa, mas real. Entre outros benefícios, a segurança.

Na minha praia carioca todos os sentidos têm que estar alertas. Mesmo em momentos como esse de concentração literária. Tudo pode acontecer e, das duas uma, ou vira crônica ou motivo de, com toda a agilidade disponível, levantar acampamento e seguir outro destino.

Foi assim, quase traumática, a última experiência no Arpoador. Do luxo ao lixo em poucos e preciosos minutos. De uma crônica inspirada sobre o paraíso  “Quase perdido”, a ser testemunha involuntária de uma barbárie oficial no horário nobre do por do sol mais famoso do Rio de Janeiro, talvez do Brasil, quiçá da América do Sul. Tirei de letra a crônica da felicidade e registrei em vídeo a violência oficial da guarda municipal, cotidiana e banal na cidade partida.

No impacto dos acontecimentos concluí que era hora de trocar o tempero das águas cariocas por correntes menos imprevisíveis. No “unidunitê” dispensei os “salameminguê” e usei um critério climático para cravar o novo destino.

Na dúvida, entre o Pantanal de Mato Grosso e o irmão do sul o segundo levou a melhor. Nele, como em todo nosso Centro Oeste agro pop, a umidade do ar está um pouco mais relativa e amigável. Volto às origens, agora partidas, de uma terra especial que (re)conheço desde criança. Fugindo da secura caí para o oeste e para o sul.

Do alto da serra de Maracaju vislumbro o doce mar que tanto anseio. Quero o silêncio barulhento das águas, da terra e dos animais para substituir as batidas das paredes sendo derrubadas nas múltiplas reformas do meu quadrado copacabanense. O sussurrar das folhas ao vento ao invés do som do corte do esmeril que entra pela janela transformando meu pequeno mundo numa cadeira de dentista com a broca indo e vindo 8 horas por dia.

Não, não é aqui no avião que atingirei o nirvana. Pelo menos no trecho Rio-São Paulo. No agradável trajeto uma menininha de uns três anos resolveu decretar o apocalipse e, da decolagem ao pouso, berrou delícias a todo pulmão do tipo: “Estou com meeedo”, “Balançoou…”, “O avião vai cair…”. Tirando a gritaria em si, nada disso me abala, mas pegou na veia de outros passageiros que, de tanto aguentarem a ladainha desesperada da pequena, foram emprenhados pelo ouvido e, apesar da tranquilidade do voo, resolveram distraí-la. Adiantou? Não.

Os excelentes pais sem domínio sobre a cria deixaram o tumulto correr frouxo. Nada que meio Dramin, para fazer a malinha sem alça e sem rodinhas descansar, não resolvesse. Ou um pouco de autoridade familiar. Mas aí também era querer demais… Melhor abstrair e ignorar as expressões da metade dos passageiros enfurecidos e incomodados. Eles que se mudem! Mas para onde?

Foi a última prova antes de alcançar o nirvana que buscava. Duríssima! Não sucumbi e resisti. Agora, estou no trecho como gosto. O paraíso é logo ali…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Adivinha?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estiquei o máximo que pude e dei linha para a pipa da cronista enclausurada sabedor dos efeitos prolongados da lua de sangue do eclipse do final de julho.

A desculpa é boa mas não totalmente verdadeira por deixar de retratar o impacto que a noite de sexta-feira e os efeitos do fenômeno provocaram em mim, um extraterrestre reconhecidamente acariocado.

Descrevo o evento para explicar a demora nesse contato com a amiga voluntariamente recolhida a uma cela do outro lado do túnel.

O veranico de julho ainda reinava, transformando a paisagem do Rio de Janeiro um daqueles cartões postais que conseguem apagar com sua exuberância e beleza as mazelas da cidade. Água caribenha, apesar da ressaca que chacoalhou o litoral nos dias anteriores, céu de brigadeiro e uma brisa fraca esperavam os visitantes que se preparavam para ver o eclipse. O primeiro lugar escolhido por 10 entre 10 apreciadores foi o Forte de Copacabana. No meio da tarde a fila gigantesca que serpenteava pela Francisco Otaviano recebeu a notícia que as senhas para a entrada nas instalações militares haviam se esgotado.

A opção B foi a Pedra do Arpoador, do lado da Praia do Diabo. Disfarçado de mim mesmo cheguei cedo e encontrei uma protuberância que serviu de mangrulho (posto militar de observação em lugar elevado, aprendi a palavra numa música gaúcha) natural. Dali não saí nem me mexi até o final do espetáculo. E assim tinha que ser já que, depois de estabelecida a base, a população cresceu absurdamente no entorno. A ponto de não dar mais nem para esticar as pernas.

Depois do por do sol a quantidade de gente cresceu mais ainda. Quem estava apreciando a performance solar, não tão bonita quanto no verão quando o sol se põe no mar, entre as ilhas, viu o astro-rei descer entre os prédios e a montanha. Depois, se moveu para ter o visual do lado leste, onde a lua surgiria.

Era engraçado ver a direção em que a maioria dos assistentes se posicionou. Claramente achavam que a lua, já eclipsada e, portanto, avermelhada surgiria em cima das montanhas quando, na realidade, ela apareceu por cima do mar.

Aí, veio a segunda confusão. A “linda bruma” que se via na barra do horizonte (na verdade, uma camada de poluição) era tão espessa que a lua teve que vencer essa nova barreira e já surgiu quase tossindo, pálida de tanta suspensão, bem acima do mar.

Não precisa dizer que entendo plenamente o significado dessa camada, a mesma que impede minha espaçonave de ultrapassar o ozônio que habita a atmosfera terráquea e me levaria para novas aventuras intergalácticas.

Não fosse esse jeito carioca de ser já assimilado, certamente, já teria entrado em desespero e feito alguma tentativa desesperada de levantar âncora em direção a novos mundos.

Acontece que nessa terra, basta a gente ficar imóvel e deixar a vida passar em seu ritmo (a)normal para saber que não haverá tédio nem paradeira. Entre músicas diversas, drones dispersos e muitas câmeras mais ou menos profissionais a lua, acompanhada de Marte, brilhando forte, deu um banho de luminosidade na humanidade.

Foi deixando essa energia fluir que me atrasei um pouco para vir trazer as novidades. Esperava que o efeito também se prolongasse pela fresta que a ilumina. Pelo menos até chegarmos as últimas novidades.

Cara amiga, acredite, “habemus candidatus”. Para todos os gosto e tipos. Encarcerados como você, apalermados, genéricos, patéticos, coligados, ajojados, amontoados, enfim, para tudo falta pouco. O grande dilema para candidatos a presidente e governadores foram os vices, todos escolhidos na última hora, alguns pegos a laço.

O próximo passo? O compasso. Um átimo até as eleições, onde nem a lua adivinha o que poderá acontecer…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

O chuá no chuê, chuê

Texto e foto de Valéria del Cueto

Céu, sal areia, mar. É tudo que se faz necessário para, finalmente, abrir o ciclo do segundo semestre (pós Copa do Mundo da Rússia) já em curso. A registrar, além das surpresas que fazem do futebol um esporte tão vivo quanto a bola do jogo, as cenas inesquecíveis da premiação.

Se tudo estava quase dando certo para a imagem vendida ao mundo pela potência anfitriã, ali, todo esforço semiótico (que incluiu ensinar seus sisudos cidadãos, pelo menos nas cidades sedes, o poder do sorriso), caiu por terra.

Na verdade, a lua de mel havia ido somente até a questão da homofobia legal que impede manifestações LGBTS e afins de qualquer tipo em local público. O limão acabou virando limonada e as camisas das torcidas formando a “bandeira” com as cores do arco-íris foi notícia mundial. Um estepe alegórico que tirou o foco da questão mais séria: o direito usurpado de manifestar sua sexualidade livremente.

O que se esperava? Não, a Rússia não é um país democrático. Portanto, manda quem pode, obedece quem quiser (ainda) ter juízo.

Na cerimônia de encerramento a participação do atabaque do campeão mundial de 2002 Ronaldinho Gaúcho foi, sem dúvida, um toque de mestre para aproximar a nação que convidava de seus exóticos visitantes de todos os quadrantes do mundo. E convenhamos, quando o assunto é sorriso, Ronaldinho bate um bolão.

Tudo acontecia conforme o minunciosamente planejado até que um imprevisto climático serviu para, em minutos, fazer cair a máscara de polidez, respeito e delicadeza do cerimonial do encerramento.

Começa a chover. No palco do gramado os presidentes da Fifa, da anfitriã, da França e da Croácia participam da premiação da inédita vice-campeã e da bicampeã mundial, a seleção francesa. Aos primeiros pingos surge um e-nor-me guarda-chuva. Ele é posicionado para proteger os convidados, entre eles uma dama, a mandatária croata? Não.

O apetrecho impede que apenas e tão somente o poderoso Putin seja protegido do aguaceiro que, em questão de minutos, encharca as autoridades. Os jogadores, recebendo suas medalhas e cumprimentos, cá entre nós, não têm do que reclamar, querem mesmo é festejar a conquista.

As câmeras da transmissão oficial reproduzem as imagens para o mundo e mostram a cena constrangedora por vários minutos. O terno do presidente Emmanuel Macron, da França, já havia até mudado de tom, de tão molhado estava. Assim como a camisa xadrez da seleção croata e os cabelos da presidente Kolinda Grabar-Kitarovic, nada resistiu a chuvarada que desabou sem dó nem piedade celestiais.

Finalmente começam a surgir outros guarda-chuvas. Menores. Eles são distribuídos aos assistentes para que protejam os convidados. Só que… mais uma vez, diante do mundo, as prioridades são invertidas. Primeiro eles. Eis que chega uma proteção para Macron. Depois, os próprios assessores se garantem…

Ali se via como a banda toca: todos protegendo os chefes e se protegendo. Sem ninguém tomar a iniciativa de, num ato de gentileza, oferecer abrigo à única mulher na linha de frente da cerimônia, a presidente da Croácia.

O que há de anormal na cena? Nada. Esta é a ordem mundial, a vida, a sociedade. É o terceiro milênio! Onde (ainda) é preciso matar um leão por dia para se impor. A vitória foi francesa, mas Macron, ao distraidamente esquecer tudo que sua professora e companheira deve ter lhe ensinado em sua convivência sobre como tratar as mulheres, colaborou para agigantar ainda mais o feito da Croácia e de sua presidente.

A que viaja de avião na classe econômica, paga sua passagem com dinheiro do bolso e tem descontados de seu salário os dias que acompanhou, como torcedora nas arquibancadas, a incrível trajetória da seleção de seu país que, como ela, surpreendeu o mundo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim… é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você…não suporto mais brincar…”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus…

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil…

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Pensa que é PIS?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Sabe aquele ditado popular que diz que “quando a esmola é demais o santo desconfia”? Essa sou eu. Mais uma vez ancorada numa agência bancária. Nessa, vou mudar o tom da prosa e dar nome aos dois: Temer e a Caixa Econômica Federal. Exatamente nessa ordem. O vampirão começou liberando o PIS/PASEP para “aliviar” a pressão da falta de dindin circulando no mercado. Fui no site da CEF por mera curiosidade e, depois de verificar que tinha um saldo, segui as instruções.

Elas diziam que deveria comparecer a uma agência levando um documento e o Cartão Cidadão. Lá me fui, prevenida que sou, levando identidade, comprovante de residência… Obediente e crente pedi uma senha para o caixa. Nada que um bom livro não resolvesse. Um ou dois capítulos e lá estava eu.

Coisa boa, não é? Se fosse só isso. A atendente informou que seria necessário “atualizar o cadastro”. Outra senha, um único atendente e gente, muita gente. Estava bom? Claro que não. Além da falta de lugares para sentar, o sistema estava sistema da Caixa. Quer dizer, instável. Daquele jeito. A tarde passava entre uma conversa e outra enquanto a senha do painel permanecia estática.

Horas esperando para sair de lá sabendo que precisaria retornar com cópias das páginas com foto e contra folha da Carteira de Trabalho, Identidade, CIC, comprovante de residência e… título de eleitor(!).

Na espera paciente e comunicante as histórias começaram a se encaixar. A notícia saiu na sexta, de surpresa. Na segunda, dia 18, quando o banco abriu, as pessoas esperavam atendimento e os funcionários tentavam entender as especificações e o procedimento padrão. É claro que isso rendou várias interpretações que apenas dificultaram a vida dos cidadãos.

Isso foi segunda. Voltei à penitência dia 21. Com todos os documentos. A fila, maior ainda. Havia um sistema de triagem do lado de fora da agência, na parte dos caixas eletrônicos, mas o atendimento seguia lento. Cheguei lá por volta das 13h, contando com o fim do horário do almoço. Peguei a senha 59. Estava na 29… Fazer o quê? Esperar e ouvir. Histórias. De pessoas que, como eu, chegavam com as meias informações. Esperavam horas para receberem as mesmas solicitações de documentos, concluí depois de assuntar geral o que havia sido necessário apresentar. Mais fácil seria dar a lista para que a papelada fosse providenciada sem fazer cada um passar pelo atendente, para entrar no sistema e checar se era isso mesmo!

Sim, falamos daquele sistema intermitente e carregado por milhares de consultas feitas ao mesmo tempo em todas as agências da Caixa Econômica Federal do dia 18 ao dia 28 de junho, para começar. Depois, em agosto, vai piorar! O saque será liberado.

Só que não terminou. Outros empecilhos seriam capazes de fazer o serviço andar ainda mais devagar. Incluindo aquela servidora padrão que nunca pode ajudar e ainda atrapalha o serviço do atendente alheio. Foi assim que, durante a espera (que terminou depois do horário de fechamento bancário quando parece que as coisas andam mais rápido), desperdicei o presente de um porteiro gente boa da Rua Souza Lima que, como não poderia mais aguardar, já que ia pegar no batente às 14h, me deu sua senha, a número 40.

Morri na praia. Acontece que levei as xerox, mas não os originais! E não adiantou mostrar a lista com a solicitação das cópias. Mexe daqui, mexe dali, fui encontrando os documentos. Menos o título de eleitor! Voltei em casa para pegar o danado e retornei à espera do número 59. Esse, o que foi atendido depois do horário de encerramento bancário. A papelada estava pronta. Porém, o sistema de transferência não funcionava mais naquele horário!

Fui parar novamente na Caixa. Era sexta, jogo do Brasil, para fazer um TED. Feita transferência, avisei ao gerente no BB. Nessa segunda soube que o TED não havia entrado. Já rezando muitas ave-marias me dirigi a agência da Caixa. Onde, acreditem, não pude entrar! Uma infiltração inundou o espaço, o sistema teve que ser desligado. Havia água inundando o piso. As portas nem abriram para o público, aquele que tem mais dois dias para sacar o benefício. É pouco? Não. Quando acharam que o problema havia sido sanado abriram os registros e não foi só água que caiu. Parte do teto da agência veio junto!

Você já conseguiu receber seu benefício? Nem eu. Pensa que é PIS? É PASEP aguentar tanta bateção de cabeça…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Na dúvida…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Essa Ponta do Arpoador é sempre uma surpresa! Quem avalia, analisa, registra e cataloga é Pluct, Plact, o extraterrestre, enquanto espera a chegada da escrevinhadora de caderninhos.

Precisa dela para tentar clarear as ideias antes de cruzar novamente com sua cronista de fé sabiamente isolada dessas e outras mazelas, recolhida que está numa cela do outro lado do túnel.

É domingo, faz sol depois de uns dias de vento cortante, céu mal-humorado e muitas promessas de ressacas espetaculares. “Como não falo do que não vi, nada posso relatar”, esclarece o alienígena um pouco desconcentrado pelo som que vem do evento da vez. Ele toma o Largo do Millôr e promete um “sonset” (isso mesmo, com sílaba tônica no O) em ritmo de bate-estacas. Sabe a tal de democracia? Para quem…

Fazer o que? Duas opções. Se isso te incomodar, o que não faz parte do menu de opções disponível para um ser de outro mundo que se preze, se mude. Ou… siga o magnânimo conselho da escrevinhadora do caderninho: ceda o espaço de domingo para quem só pode usufruí-lo nos finais de semana e deixe para vagabundear durante os dias de batente coletivo.

Enquanto oscila entre partir ou ficar Pluct Plact começa a tabular outras informações que podem auxiliá-lo na tomada de decisão. A mais gritante, por assim dizer, é que a qualidade musical está se deteriorando rapidamente após uma largada até que promissora.

No mar as tão esperadas ondas, que motivaram o encontro com a escrevinhadora, simplesmente sumiram. O que se vê são marolinhas de aprendiz numa água certamente gelada, se deduz pela indumentária dos surfistas. Se a virada do tempo não rendeu as ondulações aguardas pelos feras do esporte, serviu para virar barcos, provocar mortes e colocar de prontidão os serviços marítimos locais à procura dos desaparecidos na região de Sepetiba. Por esse ângulo, foi bom o mar baixar rapidamente para não tumultuar ainda mais as buscas.

A chegada da dona do caderninho acabou adiando um pouco a última boa razão para uma retirada oportuna.

Atraída pela bandeira, sua sombra, o contorno das lambidas das ondas que quase batem na murada do Arpoador (deixando pouco espaço para os banhistas lagartearem), ela estacionou na murada. Os elementos chamaram a atenção da escrevinhadora e testaram minha paciência interplanetária durante o tempo de espera para a tentativa da foto perfeita.

Bandeira esticada, sombra alinhada e definida, a marola lambendo a areia perto do pé do mastro do alerta vermelho dos salva-vidas. O resto é lucro…

Dali, só nos moveríamos ao derradeiro sinal que era hora de partir. Que, por incrível que pareça, já previa ser dado somente ao final do show anunciado entre músicas e tremedeiras das carrapetas.

Afinal, está pensando o que? Aqui é o Rio de Janeiro, uma cidade que te permite mudar de ideia com uma rapidez inacreditável…

“Já curtiu a nossa página no feicebuque, seguiu no insta? Vai lá enquanto aguarda o show”, intima o animador do evento de um plano de saúde. “Daqui a pouco o cantor Jorge Israel e o cantor Marcelinho da Lua…”, anuncia animadão o antenado locutor.

“Marcelinho da Lua cantor?” pergunta a escrevinhadora se levantando, “vamos embora.” Nos dirigimos a Ipanema enquanto escutamos o locutor descolado corrigindo seu reclame.

“Já curtiu a nossa página no feicebuque, seguiu no insta? Marcelinho da Lua não é cantor, é DJ. É que escreveram errado aqui”, explica. Jogando a culpa, como sempre, na produção….

Hora de partir, alguma dúvida?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

A arte de “realizar”

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se alguém me dissesse que estaria olimpicamente escrevinhando no caderninho numa segunda-feira chuvosa, em plena agência bancária esperando as quinze pessoas que estão na frente para ser atendida em um dos caixas? Diria que, sem dúvida, isso é um delírio. Igual aos da cronista encarcerada, amiga do fiel e absolutamente (como se nós também não estivéssemos) estarrecido, Plact, Pluct, o extraterreste.

Perto daqui, dizem que o mar é um espetáculo com ondas que chegarão aos 2,5 metros para inalcançável deleite dos meus olhos e das lentes das minhas câmeras. No momento me dedico a procurar entender os caminhos que me levaram ao único lugar engarrafado da agência.

Nem o magico aplicativo do banco  pode resolver minha demanda(me recuso a instala-lo, a não ser que a instituição me forneça um aparelho para “trabalhar” para ela. O meu celular não tem espaço, nem me transformarei voluntariamente em operária padrão não remunerada de empresas e corporações).  A ordem de pagamento também não pode ser sacada e depositada nos caixas eletrônicos. A impossibilidade é a mesma com a atuação do gerente personalizado.

A posição na “tabela” tinha que ser galgada paulatinamente. Então não tem solução, além de multiplicar por quinze a (im)paciência e usar a imensa imaginação que Deus me deu para transformar as paredes forradas de madeira fake (cor de burro tomando fôlego para quase fugir) e o mobiliário de linhas sóbrias e modernas, no espaço aberto recheado de sensações e informações imagéticas da Ponta do Arpoador.

A concentração necessária para o pulo do gato imaginário é quebrada para registrar que destoam do ambiente do banco VIP os banners pendurados em pedestais de alumínio com propagandas de produtos oferecidos à clientela que aguarda atendimento.

Não é fácil! Para começar, falta o estímulo auditivo. O que se ouve por aqui é uma sequência de nomes sendo chamados e encaminhados de acordo com as respectivas necessidades. “Dona Fulana sala 4”. Fico com a sensação de que aquela cantada de pedra não combina com o ambiente e e volto pro caderninho. Minutos depois… “Senhor Beltrano, sala 2”! Vejo o correntista se encaminhar para o lado de dentro do estabelecimento e tento recomeçar. “Sicrano, vá ao caixa”. Aí já estava realmente desligada da viagem que pretendia fazer lá para fora e prestando atenção no entorno.

Me perguntava onde já se viu anunciar em voz alta na recepção de uma agência quem ia ao caixa. Estranho, não? Até o caro Watson acharia elementar a dedução de que parte de quem é chamado para o caixa pode sair com dinheiro do banco. No Rio de Janeiro, cidade perigosa. Alardeia, moçada, alardeia…

Funcionárias na recepção recolhem os dados, analisam a demanda e cantam o chamado tão aguardado, um segurança (claro), e mais o atendimento para encaminhar o paciente, quer dizer, o cliente, compõe o “time”.  Com o banco já fechado, passava das 16h, a pedras começaram a serem cantadas mais rápido. O expediente, a segunda-feira, a chuva que armava.

Também há uma campainha para quebrar a concentração e anular completamente qualquer possibilidade de um exercício de troca de cenário imaginário, assim como uma miragem. É ele, o sinal sonoro, acionado cada vez que um cliente entra ou sai. E são tantas.

Além da praia estava ficando para trás o primeiro dia de ginástica da semana. Exercício, só da paciência. E como cansa. Saio na chuva, disposta a não desistir. Entro na academia na ânsia de tomar as rédeas da minha vida!

Nem que fosse correndo na esteira ouvindo pelos fones do celular o barulho do mar na seleção praiana que em construção no meu canal do youtube. Pelo menos, o som e a imagem da praia do Arpoador estão garantidos, ainda que em vídeo dando o ritmo do treino.

Em tempo: no banco é proibido o uso de celular. O que foi bom. Senão não tinha crônica para você, nem ginástica para desopilar a quase Polianna escrevinhadora.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Momento efêmero, já a amizade…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pode parecer brincadeira, mas quem sabe, talvez, não por acaso, essa pode ser uma chance única de pirulitar desse mundo doido! “Alô, alô, aqui quem fala é da terra…” brada em seu sistema de comunicação intergaláctico Pluct, Plact, o extraterrestre, ancorado involuntariamente no planeta em tela.

A voz, clara e límpida, como há tempos não se ouvia, reverbera pelas ondas da Via Láctea e daí para outras galáxias. Um fenômeno cada vez mais raro de acontecer.

Pode ser chamado de greve, lockout ou sacolejo, mas o fato é que a ausência do ir e vir reduziu de forma perceptível a quantidade de gases poluentes lançados à camada de ozônio. Foi isso que abriu a fenda que, caso o movimento persista, poderá permitir a passagem da nave do ser alienígena mais carioca que existe no universo.

É isso aí, brou. Ele absorveu (por algum tipo osmose interplanetária) características particulares do modo de ver e levar a vida dos habitantes do Rio de Janeiro.

Só eles para, no oitavo dia da greve dos caminhoneiros que paralisa o transporte e altera a rotina da vida dos brasileiros, exercitarem o direito inalienável ao forfait à convocação para manifestações de apoio formais, por assim dizer. Mostram sua aderência ao movimento fazendo o mesmo que, em qualquer domingo de sol e céu de brigadeiro, seria parte essencial de seu roteiro. A praia é o caminho, o mar, o destino.

No canto da Praça, colado a Pedra do Arpoador, a família faz um animado piquenique comemorando o aniversário de uma das crianças. Sofia, inclusive, aprendendo a andar em sua bicicleta de rodinhas, pede socorro à tia. Embicou e estacionou, sem conseguir mover seu “veículo”, num banco da praça.

O encalacre infantil é para variar a narrativa costumeira de que os surfistas se acabam no mar do Arpoador, o que significa que as ondas da Praia do Diabo não estão boas para os especialistas, que lá não é point de amador. Nas areias da pequena praia o frescobol come solto.

Falta, é verdade, a presença maciça de forças de segurança. Polícia, militar e guarda municipal. Uma única viatura e poucos gatos pingados fazem a proteção da área. Tudo na mais santa paz na Ponta do Arpoador, sempre sob o olhar atento dos salva-vidas posicionados nos postos de salvamento.

Portanto, o desespero e o desequilíbrio geral propostos pelos meios de comunicação não correspondem aos fatos na domingueira de greve. Está tudo muito leve e esse status quo pode ser breve.

Daí a espera paciente de Pluct Plact. A persistir as condições ideais há uma chance remota, mas real, de partir em direção a outros mundos.

O problema todo mundo sabe qual é. Deixar no meio dessa bagunça institucionalizada a cronista enclausurada. O céu limpo de poluição, tão positivo para Pluct, Plact, é um sinal de que as coisas não estão exatamente do jeito que a reclusa voluntária deixou ao de se isolar na cela do outro lado do túnel.

Se bobear, tão fora desse mundo ela anda, não deve nem ter notado a drástica redução da variedade de alimentos fornecidos. No máximo poderá ter reparado na diminuição do barulho vindo da rua nos últimos dias devido a redução de veículos circulando graças a falta de combustível. Também ficou livre de ter que aturar a narrativa fajuta da imprensa em geral, da Rede Globo em especial e de testemunhar a bateção de cabeças federais, estaduais e municipais.

Certamente se tivesse consciência do momento estaria torcendo pelo sucesso da tentativa do confidente extraterrestre. Afinal, amigos são aqueles que desejam e torcem pelo melhor para o outro. Mesmo sabendo que para os que ficam não há solução visível no horizonte…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Falando nela

Texto e foto de Valéria del Cueto

Saí pensando nela, uma crônica da janela. Porque só dela (e nem sempre) é possível olhar a vida passar em relativa, mas não absoluta segurança.

Para quem se distrai desenhando letras, imaginando sóis, reflexos e silhuetas, desligada do entorno pulando de ideias sem prestar atenção no entorno da vida real, está perigoso empunhar o caderninho e se deixar levar.

Outro dia, levei um pito por me dedicar a um dos esportes mais nobres nas antigamente lânguidas tardes ensolaradas. Dormir na praia, lagartear ao sol.

Não dá mais para se deixar embalar e adormecer ao som dos resmungos do mar, do assobiar da brisa e dos pregões dos ambulantes anunciando seus produtos.

O mais distante das barracas com caixas de som funk/sertanejo. Era possível até sonhar aquecida pelos raios do sol temperados pela maresia.

Há que estar atento, forte e não ter medo de temer o tudo que pode acontecer nos dias que vivemos.

Nos rendemos a falta de poesia, trocamos o voo criativo pela simples fuga desabalada da realidade crua e nua, despida de fantasia. Sobreviver é o bastante. Como se o sofrimento não bastasse.

Não desisto da praia, como não largo de mão a ginástica. O exercício é essencial para manter a espinha ereta. Já o coração tranquilo anda bem mais difícil.

Nada que não empalideça diante do escandaloso visual de outono no Arpoador. As cores gritam quando céu está limpo e de bom humor.

Em dia de ressaca, como é o caso, a gente acaba envolvida, quase abduzida pela força do lugar.

E aí, voltando ao início do texto, a janela deixa de ser uma opção. A segurança? Entrega a Deus!

Na verdade, deixa nas mãos dos deuses e não tão deuses que circulam pelos caminhos que levam ao relevo acidentado, vasto e amplo das pedras da Ponta do Arpoador. São eles e todos os tipos de forças de segurança que permitem imaginar uma garantia da paz local.

Sensação distribuída entre moradores, locais e turistas que nunca desistem de tentar a sorte de um por do sol tranquilo e cinematográfico.

Com a ressaca fica um espetáculo magistral. A impressão do cantinho e do violão provocada por um mar calmo e poucas ondas para acompanharem o passeio de Tom Jobim e seu violão na entrada do Arpoador ficam tímidas e desafinam perto do sacode provocado pela fúria do mar revolto.

Daquelas tão mexidas que nem os surfistas se arriscam no lado de Ipanema. Só na Praia do Diabo as ondas estão formando de forma organizada o suficiente para quem é fera e tem uma boa roupa de neoprene. Além da força do sacode a água está gelada. Vai encarar?

Eu só do lado de fora, descrevendo o espetáculo que avança até quase o paredão, deixando sem faixa de areia o Arpoador e desarrumando as escadas feitas de sacos de contenção pelos barraqueiros para facilitar o acesso da clientela.

Nada que os frequentadores costumeiros já não tenham visto. Nada que já não tenha sido reconstruído depois da fúria marítima ser aplacada a cada temporada.

Até lá as marolas se espraiam e fazem brilhar as areias encharcadas de acordo com os humores do céu, do sol e das nuvens que se mesclam em luminosidade derramando luzes e cores por toda a orla.

Pensando bem, se for da janela, essa ou aquela, que cada um tenha a sua. A que merece ou escolhe. Da minha, avisto a vida, mesmo quando ela foge para se esconder de tanta desumanidade…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com