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Você pagou com traição…

img_20161117_170046328_hdr_31064160135_o-praia-do-diabo-jacare-equilibrio-bandeiraTexto e foto de Valéria del Cueto

Que dia inesquecível! Principalmente para os habitantes do estado do Rio de Janeiro e sua capital, a Cidade Maravilhosa.

Essa que Pluct Plact tem evitado abandonar por muito tempo desde que assumiu o papel de mensageiro. Levando compenetrado à sua melhor amiga do planeta notícias e impressões desse momento fantástico e imprevisível  do mundo circundante. Sente que, ao fazê-lo, pode contribuir para facilitar uma futura readaptação da querida companheira voluntariamente exilada numa cela do outro lado do túnel, ao mundo (ir)real.

Há quanto tempo assumiu a tarefa? Não saberia dizer ao certo sem consultar os alfarrábios nanotecnodigital de sua nave mãe. A que o trouxe para esse planeta. A mesma sem força propulsora para ultrapassar a (mais uma vez noticiada) aquecida camada atmosférica local para tirá-lo desse trecho interminável de sua jornada.

Só sabe quem tem o sentimento. Quando certas coisas começam a se repetir.  Já tinha visto esse filme!  O cenário era uma batalha campal na frente do belíssimo Palácio Tiradentes. Tudo narrado em “Pluct, Plact, POW”. Mudaram um pouco os personagens. Ficaram mais variados. Agora, não são somente professores e alunos que ele entrevê no meio da fumaça, entre uma ardência e outra, provocada pelas bombas de efeito moral com validade vencida. É polícia sem muita vontade de brigar versus polícia, bombeiro e aposentado morrendo de vontade de invadir a Assembleia Legislativa. Até aí, coincidência, dirão os mais céticos leitores…

Fica pensando o que dirá a cronista quando descrever a cena do governador passeando de carro oficial da Polícia Federal. “Pluct, Plact seu HD está dando “tilt”. Essa história você já contou. Lembra de Pluct, Plact toin oin oin? Foi antes de que eu sumisse do mundo, quando prenderam o governador (ainda era) de Mato Grosso, Silval Barbosa.”

Qual será sua reação quando explicar que apesar das semelhanças de propósitos, como o assalto aos cofres públicos, o percurso e o cenário eram diferentes. Saem as avenidas cuiabanas das obras inacabadas para a Copa do Mundo. Entram imagens paradisíacas da orla carioca. Do Leblon a sede da Polícia Federal, na Praça Mauá, zona portuária. Da Beira Rio à Rio Orla…

Permanece o partido, o PMDB. A sigla deveria mudar para PMDBREX – Partido do Movimento Democrático Brasileiro da Roubalheira Encarcerada no Xadrez.

A população fluminense, exceto os comparsas, cargos comissionados e terceirizados do compadreio (outra perna do polvo da corrupção pública), aplaude e comemora o arresto da sem-vergonhice e o basta na roubalheira escrachada. Só nestes mandados de prisões  existem mais de 224 milhões de motivos para encarcerar Sérgio Cabral. Devia ser em Bangu, mas os torcedores do querido time não aceitam a escalação. Pensam em pedir a mudança de nome do presídio para Vasco da Gama. “ A Sérgio o que é de Sérgio”, já dizia sem que ninguém pedisse sua opinião, o mui amigo Eike Batista em seu depoimento voluntário às autoridades policiais, delira o extraterreste. É muita gozação…

O problema é o compadreio que leva na mesma puxada de rede figuras (im)polutas e aliados em geral. Todos direta e indiretamente ligados as falcatruas, ladroagens e taxas de oxigênio embutidas nas obras. Sem distinção. Do PAC das Favelas à destruição criminosa do Maraca, está todo mundo no RDC. É o Regime Diferenciado de Contratação, o pulo perfeito do afano do gato.

Aliás, autores, propositores, votantes e usuários dessa aberração que abre as porteiras e estende tapete vermelho para atos de corrupção e malabarismos contábeis, devem ser considerados responsáveis,  culpados e condenados pela farra do roubo sistematizado e a gastança indiscriminada dos recursos públicos da educação, saúde, segurança e habitação. São os crocodilos que pagaram com traição a quem sempre lhes deu a mão.

Volta cronista! Está dando gosto de ver…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Fábulas fabulosas” do Sem Fim…

Documentarista revela Pantanal dos Pantanais (ou Pantanal de pai para filha)

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Texto de Valéria del Cueto, fotos/divulgação.

Quantos pantanais existem no Pantanal? Mais de 10 mil quilômetros rodados por 11 sub-regiões do bioma, durante dois meses, foi o que Marcelo de Paula, Carla Mendes, sua mulher, e Morgana, a filhota de 7 anos, percorreram para explorar as múltiplas facetas do bioma.

O material, reunido para um longa-metragem e uma série de TV, começa a ser editado na casa da família, em Cabo Frio, estado do Rio de Janeiro, logo após o fim da aventura que durou 2 meses.

Eles passaram por Aquidauana, Bodoquena, Miranda, Porto Murtinho, Corumbá, Rio Verde, Coxim e Sonora, em Mato Grosso do Sul e Barão de Melgaço, Santo Antônio do Leverger, Poconé e Cáceres, em Mato Grosso. Reuniram informações ambientais, exploraram as questões sócio-culturais, históricas, destacando aspectos econômicos, turísticos e as tradições pantaneiras.

As imagens foram produzidas em terra, água e ar, com drones e equipamentos subaquáticos. Os temas do roteiro idealizado por Marcelo foram abordados em 25 depoimentos. O cavalo pantaneiro, o gado Caracu, a pesca profissional, a Estação Ecológica de Taiamã, o chapéu Carandá, o artesanato de couro de peixe, são alguns deles.

O fotógrafo esteve pela primeira vez no Pantanal em 1983 quando tinha 18 anos. A última, muitos prêmios, filmes, séries e fotos depois, em 2008. Nem Morgana, sua filha de 7 anos, membro da expedição, é novata. Foi batizada em Bonito quanto tinha 9 meses, na viagem anterior.

“Ela tem talento para a fotografia”, avalia. “A viagem foi muito importante para o seu amadurecimento e crescimento. Teve aulas geográficas ambientais “in loco”. Comeu jacaré, tomou Tereré…  isso só fez engrandecer o “HD” dela. Vai estar nas próximas” decreta com o apoio incondicional da mulher, Carla Mendes.

À sua lista de atividades de produtora e editora, conhecedora do processo de produção audiovisual de cabo a rabo, ela incorporou outras tarefas. “Não dá para separar as coisas, a função é tripla: produtora, mãe e professora. As atividades da escola eram feitas comigo”, explica, lembrando que fez a segunda câmera e o making of. “A percepção precisou ser ampliada. Agora, é cuidar de mim e dela. Foi difícil, mas sempre soubemos que seria assim. Sempre quisemos que fosse todo mundo junto”.

Para Marcelo, o que mais mudou desde a última visita foram as condições do patrimônio publico e histórico das cidades visitadas. “Quando estávamos em Cáceres o Ministério Público entrou com uma ação contra o IPHAN pelo abandono do patrimônio histórico”, lembra.

Ele destaca, também, o caso do impacto das áreas públicas do Pantanal. “As reservas federais estão em condições mais razoáveis, mas onde o poder público não chega o descaso é total. A fiscalização é precária e os parques estaduais só existem no papel, tanto em Mato Grosso como em Mato Grosso do Sul”.

Nos locais privados explica que houve uma conscientização maior. As fazendas preservam e não geram grande impacto. O poder privado avança muito mais, avalia ressaltando que “a carta da Caiaman assinada recentemente, envolveu o todos os agentes, mas a iniciativa partiu do poder privado”.

Agora, explorar e editar os registros recolhidos para o longa “Pantanais do Pantanal”, produzido pela Código Solar, produtora do casal, é o principal. A série para TV será desenvolvida com calma. “Estamos na fase inicial da edição do filme. Ela deve ir até janeiro”, calcula. “O lançamento temático será no Rio de Janeiro, depois vamos viajar levando o filme até nossos parceiros”.

Bom, falta a opinião de Morgana, a menina que fez história por ser a primeira criança a visitar a Estação Ecológica de Taiamã. “Gostei bastante das onças e dos outros bichos”, conta ela pelo whatsapp. “Queria voltar o mais rápido possível, mas estou muito cansada. Mas, depois, vou voltar de novo!”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Parador Cuyabano” do Sem Fim…nas-trilhas-do-passo-do-lontra-park-hotelmorgana-na-producao

Brechó (ou… “7 tópicos e asterisco numa quase fábula fabulosa”)

aquidsela-160616-043-selaria-renascer-brecho-placa-roupas-novas-e-usadasTexto e foto de Valéria del Cueto

Falta tudo, inclusive tempo. Só não falta assunto… Então, vamos por itens. Tipo rascunho dos temas que o extraterrestre Pluct, Plact encaminhará para sua querida cronista enclausurada voluntariamente (ou não? Onde já se viu bate-papo com ser interplanetário?). Não captou? Então vamos por partes, como diria o esquartejador.

1 – A recém empossada presidente do STF, o Supremo Tribunal Federal, Ministra Carmem Lúcia, valoriza, a cada pronunciamento ou declaração, a cultura brasileira.

Na sua posse, entre outras citações, falou do filme de Adriana Dutra, “Quanto tempo tem o tempo” produzido pela Infinitto, da cuiabana Viviane Spinelli. Essa semana foi a vez de “Deixa o Alfredo falar”, título de crônica e livro do escritor Fernando Sabino.

Pelo menos, seguindo suas dicas, vai ter gente tendo que se ligar na genuína cultura “popular” brasileira. E não apenas na erudição do “juridiquês”!

2 – Prenderam o Eduardo Cunha. Vai delatar ou não vai?

3 – O anel que tu me destes não era de vidro, nem se quebrou. Mas, diz a lenda, foi devolvido! Custou R$ 800 mil o mimo que o delator Fernando Cavedish, da boa, velha e mal falada empreiteira Delta, bancou para Sérgio Cabral Filho – ex-governador que deu uma contribuição e$$encial para a falência do estado do Rio de Janeiro – presentear sua mulher, Adriana, na comemoração de seu aniversário em Mônaco. (A pesquisar se foi na ocasião da singela festinha o famoso evento dos guardanapos na cabeça).

4 – Verba e estrutura do Congresso Nacional usadas para fazer varreduras senatoriais visando evitar investigações de anti inteligência (como se escreve esse “fiz que fui e acabei fondo”, como diria Nunes, jogador do Flamengo, em priscas eras?*) para descobrir grampos, inclusive os autorizados pela justiça. Pela Lava-Jato, por exemplo. Com direito a varreduras nas residências nos estados. Senadores citados: José Sarney, Fernando Collor e Edison Lobão. Mais uma delação premiada e temos a Polícia Federal indo atrás do Chefe de Polícia e outros funcionários da… Polícia Legislativa do Congresso Federal.

5 – Por falar na família Sarney:

Governadores de Mato Grosso, Pedro Taques, e de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja, com a presença do Ministro José Sarney Filho, do Meio Ambiente, assinaram a Carta de Caiman. Um termo de compromisso que estabelece políticas comuns para o Pantanal considerando seus aspectos ambientais e culturais semelhantes. Também prevê uma legislação única para regulamentar e proteger o sistema garantindo seu uso sustentável. A carta define o prazo de um ano para a definição de uma área de interesse para o econegócio, contemplando o planalto e a planície pantaneira.

6 – ECONEGÓCIO PANTANEIRO. Você ainda vai ouvir falar muito nesse termo. Beeeem diferente do agronegócio de sempre. Aquele…

7 – Uma rápida pesquisa no site do Senado Federal informa que o relator da PLS750/2011, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, que dispõe sobre a Política de Gestão e Proteção do Bioma Pantanal, de autoria do atual Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, é nada mais nada menos que o suplente do dito cujo, Cidinho dos Santos.

A relatoria da PLS na Comissão já foi do candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que passou para seu suplente quando assumiu o Ministério da Pesca, Eduardo Lopes. Coube a ele a apresentação de um substitutivo integral ao texto, depois retirado. Aí, Crivella trocou com ele. Reassumiu sua cadeira no Senado e Eduardo Lopes virou Ministro da Pesca.

O processo voltou para o homem do Bispo que se esqueceu dele. Com sua saída para ser candidato foi redistribuído pelo presidente da Comissão, Waldir Maranhão. Em julho desse ano, quem diria, que coincidência fortuita, foi cair no colo justamente do suplente do autor da proposta, conhecido mundialmente pelo singelo prêmio recebido, o “Motosserra de Ouro”…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Lágrimas por nossa, senhora

flor-sa-ferreira-161006-img_20161006_125257393_30072263851_oTexto e foto de Valéria del Cueto

Na falta de solução, apelemos para a gentileza. Vamos pregar a delicadeza. Porque não, não está fácil pra ninguém.

A constatação é de Pluct Plact, aquele extraterrestre extraviado no planeta Terra, sem chance imediata de retorno para qualquer lugar menos lunático da galáxia.

Bem que ele tentou como paliativo uma vaguinha junto a sua amiga cronista, voluntariamente isolada já tem um tempo numa “invernada”, do outro lado do túnel (é seu correspondente, único contato com o mundo exterior). Mas a lotação anda esgotada, com uma imensa fila de terráqueos querendo vaga no lugar. Como alienígena juramentado, não conseguiu sequer fazer sua inscrição. Chegaram a conclusão que de louco, ele não tinha nada.

Uma pena. Isso o obrigou a acompanhar mais uma eleição  para poder contar na próxima visita, entre outras novidades, que passado o limpa banco eleitoral, vem aí um refresco até a votação do segundo turno.

Pelo menos em 55 cidades com mais de 200 mil eleitores divididos (onde os candidatos não alcançaram maioria simples mais um), haverá chance de uma discursão mais aprofundada sobre o modelo de gestão a ser adotado.

Não que adiante muito em alguns lugares. No Rio, tédio… Vai dar Marcelo. Crivella ou Freixo. Oito ou oitenta. Com muitas ausências, votos nulos e brancos entre os extremos.

Sobre São Paulo pretende nem citar, se ela não perguntar…

Um pedido garantido da reclusa será um rápido painel do seu Mato Grosso. Momento de tensão. Pra começar, a inacreditável sinalização referente a  participação feminina no pleito. Dos 141 municípios, 15 prefeitas se elegeram. Delas, 12 são marinheiras de primeira viagem no cargo. Parece pouco?

Nos legislativos elas ocuparão reles 12,93% das cadeiras. 42 localidades não têm nenhuma única mulher na câmara municipal! Santa Carmem é o único município do estado em que estão em maioria ocupando 5, das 9 vagas. Informações do jornalista Eduardo Gomes.

E quanto ao segundo turno na capital, assunto de interesse geral? Em Cuiabá, entre Emanuel Pinheiro, do PMDB, e Wilson Santos, do PSDB. Lá, como no Rio e São Paulo, a ausência foi campeã de votos no primeiro turno. É difícil saber quem é o mais do mesmo.

Sim, Emanuel, do PFL, para o PDT (onde costurou o apoio do partido a candidatura de Wilson Santos à prefeitura, conta seu site), na Secretaria de Trânsito e Transportes Urbanos do prefeito eleito… Wilson Santos. Vai pro PL, PR e, finalmente para o PMDB de… Carlos Bezerra.

Já Wilson Santos abre os trabalhos no PMDB de… Carlos Bezerra, como vereador. Passa para o PDT e depois para o PSDB. Prefeito por um mandato e meio.

Tudo parecido. Wilson diz que é Dante. Emanuel é Jonas Pinheiro. Emanuel é Blairo que governava quando Wilson era prefeito. Que é Pedro Taques. Wilson só não é Mauro Mendes e esse jamais será Wilson, se nem agora assumiu. Mas são do mesmo grupo político, captou?

A parte boa é que há mais tempo para conhecer as características dos postulantes e suas propostas.

Isso, enquanto o mundo continua girando e a história é atropelada pelos acontecimentos. O Brasil está… Melhor deixar pra lá. Vamos manter o ânimo elevado.

Como Pluct, Plact é otimista, idealiza um período de depuração. Considera que pior não pode ficar.Então o jeito é peneirar. O problema é: peneirar o que?

Os surpreendentes sinais de que há humanidade no meio de tanta crueldade, sugere. Pequenas sutilezas. Como as miúdas Lágrimas de Nossa Senhora fotografadas (colher jamais) para a amiga. Elas florescem! Num pé de árvore numa rua qualquer de Copacabana…  

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Pega se correr, come se ficar.

pega-se-correr-come-se-ficarTexto e foto de Valéria del Cueto

Se eu conseguir sentar e fazer na carreirinha, a crônica dessa semana… sai.

Igualzinho a campanha política desse ano, meio nas coxas, na correria, mas com consequências imprevisíveis.

Já é tarde e não dá para escrever um texto na véspera das eleições para prefeitos e vereadores em todos os municípios do país sem  sentir a pulsação do último debate na televisão.

Conclusão? Alguém vai pagar por isso e, não sei por que, tenho a péssima impressão de que será o povo.

Até procurei pra ver se descobria quem era responsável pelo conjunto primoroso da obra do texto da lei que regulamentou o pleito de 2016.

Ela reduziu o tempo de campanha de 90 para 45 dias, o período eleitoral no rádio e na TV de 45 para 35 dias (já foram 90), os programas para 2 blocos de 10 minutos, eram 30 minutos.

Também aumentou o número de inserções nos intervalos da programação. Ou seja: diminuiu a lógica e fragmentou ainda mais a informação, dificultando a apresentação dos postulantes aos cargos no pleito eleitoral à população, àquela posteriormente responsabilizada pelas mazelas públicas.

Aliás, entre outras peculiaridades, camuflou a desinformação e o despreparo dos candidatos, já tolhidos nos meios disponíveis para se apresentarem.

Tudo isso no meio do esforço olímpico e da enxurrada de denuncias que não pararam de brotar das entranhas do combalido tecido político empresarial do país.

Serão as eleições da ignorância, no sentido de ignorar, não dispor das informações necessárias para (re)conhecer os melhores candidatos.

O que, por si só já é um problemão. Muita gente dos “esquemas” sem querer largar o osso. Outro tanto despreparado para as tarefas de conduzir os destinos dos munícipes.

Faltam quadros competentes! Num momento em que os horizontes do futuro econômico nas macro e micro regiões brasileiras andam para lá de complicados.

Afinal, o que faz alguém querer passar 4 anos apagando incêndios, segurando buchas e ouvindo reclamações e demandas? Tá bom que tem os puxa-sacos de plantão, mas essa sensação de poder é suficiente?

Tem que ter algum atrativo muito poderoso!

São esses, interessados nessa missão quase impossível, que disputam nosso voto no domingo. Serão decisões difíceis. Ainda mais agora que sabemos que o que sempre ouvimos dizer, sim, não passa da mais vergonhosa e indigna realidade.

Estamos sendo roubados, espoliados e vilipendiados em nossos direitos básicos de cidadãos. O dinheiro de saúde, educação e demais melhorias que deveriam ser pagas com nossos impostos está sendo sistematicamente desviado para sustentar esquemas espúrios e criminosos.

Seu voto dá a eles o aval para executar e fiscalizar o dinheiro arrecadado. Escolha da melhor maneira possível seus candidatos.

Sim, vai ser mais difícil. Não, você não deve fugir da sua responsabilidade de dizer francamente o que está pensado nas urnas. E seja o que Deus quiser.

Querer um futuro promissor e todas as ferramentas para alcança-lo? Agora está complicado. O bicho papão da crise ameaça morder nossos calcanhares!

Enquanto isso, a vida passa…

PS. No debate do Rio, a vida imita a arte. Marcelo Freixo, candidato do Psol para Cidinha Campos, vice de Pedro Paulo, do PMDB,  conhecido pela acusação de bater na mulher: “ Você não gosta de mim, mas sua neta gosta”, como na música de Chico Buarque…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador do Sem Fim…

O povo da areia

rndunas-160826-042-rn-natal-dunas-ponte-nova-buggy rndunas-160826-051-rn-natal-dunas-jenipabu-dromedariosTexto e fotos de Valéria del Cueto

Vi de um tudo nessa viagem ao Rio Grande do Norte, inclusive o básico. Falo do clássico percurso pelas dunas. Passear de buggy pelas areias do litoral norte de Natal, passando por Jenipabu é obrigatório!

Quando entrei no hotel da Via Costeira, em Ponta Negra, um detalhe chamou minha atenção. Junto ao shampoo, creme e touca de banho, na cesta de amenities, havia uma embalagem com 4 hastes flexíveis, os famosos cotonetes. Não entendi de imediato sua utilidade…

Na manhã em que seguimos de buggy para as dunas, foi avisado para que prendêssemos os cabelos porque o vento era muito forte e embaraçava tudo. Protetor solar, bandana na cabeça e pulei pra dentro do veículo de Sandro Bugueiro. Pronta pro que desse e viesse.

Faltou avisar que o vento trazia a areia, em grandes quantidades. Nas paradas para fotografar a lagoa quase seca de Jenipabu, assediada pelos donos de jegues com flores na cabeça e chapéu de palha para tirar fotos com os animais, senti que precisava proteger mesmo era a câmera fotográfica. Fiz com a canga um tipo de sling wrapp, aquele pano de carregar bebês no colo, botando e tirando o equipamento para dentro da proteção cruzada nos ombros quando queria fotografar.

Vi que a coisa era mesmo séria no alto da duna com a vista do famoso Bar 21, onde os pacientes dromedários passeiam com turistas enfeitadas com véus e tiram fotos num fundo cenográfico de um mercado árabe. De repente, surgiu um ser do Povo da Areia, do Star Wars. Mangas compridas, luvas, um legging preto e branco, meias coloridas, rosto coberto por panos, óculos escuros  e uma viseira para segurar a quase burca na cabeça. Nas mãos, um computador. Ficção científica!

É nesse local que os bugueiros e suas famílias se reúnem para ver os fogos na passagem do ano. Em Natal, eles enfeitam a Ponte Nova e o ponto garante uma visão privilegiada do espetáculo, me conta Sandro, presidente da Bugueiros Coop, uma das cooperativas dos profissionais.

E não pensem que é fácil ser um deles! Em novembro de 2010 havia 660 permissionários. Para se tornar um bugueiro é preciso fazer um curso de 8 meses, com 332 horas de aulas teóricas e 130 de aulas práticas que incluem turismo, mecânica, preservação ambiental, geografia e história do Rio Grande do Norte.

Importante protagonista turístico local, o passeio de buggy foi declarado Patrimônio Imaterial de Natal. A atividade começou no final dos anos 70. O primeiro cenário explorado foi o das dunas de Jenipabu.

Tudo é deslumbrante! Uma sucessão de cenários paradisíacos se descortina no percurso em direção ao norte. Atividades variadas são apresentadas aos turistas. Depois de um roteiro pelas dunas, “com ou sem emoção”, a passagem dos veículos de balsa pelo Ceará- Mirim, as delícias culinárias locais, com destaque para o espetinho de lagosta…

Há, também, as práticas do skibunda e do aerobunda, na Lagoa do Jacumã. No início, os rapazes que organizam o passeio contaram, existia apenas o skibunda. Mas a descida começou a alterar a vegetação nos pontos em que eram realizadas e alguém teve a ideia de usar uma tirolesa, com aterrisagem nas águas da lagoa. Hoje, o sistema evoluiu, explica Pedro, que opera a produção dos DVDs com fotos dos turistas capturadas no percurso e encaminhadas por redes mantidas por roteadores para o computador do técnico de informática. Ele já trabalhou de garçom num dos restaurantes da região e garante que não ficará no serviço a vida toda. Está fazendo faculdade de enfermagem e pretende seguir a profissão de sua mãe, que sempre viu ajudar os outros.

É isso que faz, dentro de outro contexto, o precioso pacotinho de cotonetes distribuído aos hóspedes do hotel. Uma grande ajuda no retorno do passeio  ao descobrimos a quantidade de areia capaz de entrar nos ouvidos numa volta pelas as dunas do Rio Grande do Norte. Haja vento, areia e memórias, como sempre…

*Viagem realizada a convite da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte.

** Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Nordeste” do Sem Fim…

Quem procura, acha

Texto e fotos de Valéria del CuetoRNGostoso 160825 228 Cavalgada ao por do sol RNBosJazz 160825 074 Lenine cantor Pipa RNGostoso 160825 121 São Miguel do Gostoso Kitesurf

O pernambucano Lenine achou o que procurava. Veio para ser a atração convidada pela Sesi Big Band (antecedida pelo balanço do acordeon cheio de suingue forró jazzístico do sergipano Mestrinho), numas das noites da etapa do Fest Bossa & Jazz – Circuito 2016, em Pipa, município de Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte. O festival aconteceu entre 24 e 28 de agosto, primeiro em Natal e, depois, na lendária praia potiguar, considerada uma das mais lindas do Brasil.

O cantor, compositor e orquidófilo (tão apaixonado a ponto de lançar o CD  Labiata, se referindo a Cattleya labiata, espécie de flores grandes, perfumadas e floridas), aproveitou para ver a floração da Cattleya granulosa, em Touros, a 65 quilômetros ao norte de  Natal, no litoral norte, “onde há uma grande concentração da espécie, belíssima” explicou entusiasmado, momentos antes de subir ao palco para sua apresentação diante de um público estimado em 15 mil pessoas pela organização do evento.

O que privilegia o local são as condições provocadas pelos ventos trazidos do Atlântico carregados de maresia. As dunas são o habitat daCattleya granulosa. Nesse tipo de terreno é produzida uma composição de turfa fibrosa, com a mistura de detritos animais e vegetais na superfície do solo. Semelhante ao xaxim é ideal para seu desenvolvimento, o que explica a concentração da espécie nativa da região.

Os ventos que ventam lá os mesmos que fizeram da tranquila São Miguel do Gostoso um point descrito como o local “onde o vento faz a curva”. Objeto de desejo dos aficionados do kitesurf e do windsurf. O Gostoso de São Miguel vem de um antigo morador local que recebia hóspedes e visitantes e gostava de contar causos, finalizados por gargalhadas… gostosas. Quando São Miguel se emancipou do município de Touros, passou a ser chamada de São Miguel de Touros. Os moradores, num plebiscito, trocaram o “sobrenome” para homenagear o agora inesquecível Seo Gostoso.

Já deu para notar que muitas paixões podem trazer você para o Rio Grande do Norte. A indústria turística é carro chefe e vitrine para o desenvolvimento do estado. Mola propulsora para tentar reverter e crise e gerar renda para a população.  Esse é um dos objetivos doProjeto RN Sustentável. Ele investe e capacita, por meio de um acordo de empréstimo do Banco Mundial, agricultores e artesãos. Aprimora suas técnicas e leva para os mercados nacionais e internacionais produtos alimentares, como castanhas e geleias produzidas por agricultores familiares, e o rico artesanato local.

É com alegria que a comunidade e o governo devem ter recebido a notícia, divulgada nesse último final de semana pela Folha de São Paulo, sobre a o 1° lugar do Rio Grande do Norte no Ranking de Eficiência dos Municípios – Folha (REM-F). Recém-lançado para consulta pela internet, ele mede quais prefeituras brasileiras entregam mais saúde, educação e saneamento com menos recursos. Com apenas 6 municípios na faixa dos ineficientes e 98 na dos eficientes, entre o 22° (0,610) e o 1315° (0,500) lugares, deixa nosso Mato Grosso comendo poeira na 22° posição entre os 26 estados, com apenas Luciara aparecendo na faixa dos municípios eficientes, na 933° posição, com o índice 0,514. A seguir vem Lucas do Rio Verde já na faixa dos com apenas alguma eficiência, no 1407° lugar, com 0,496. O índice de receita per capita inferior, majoritariamente dependente de recursos públicos, não impede que o conjunto de municípios nordestinos localizados em mesorregiões potiguares e também cearenses, supere em eficiência inclusive a região Sul, por cobrir de forma mais satisfatória os serviços básicos necessários. Interessante, não?

Prometo para as próximas crônicas semanais algumas histórias colhidas pelas praias, dunas e outras atrações potiguares que ajudam conhecer algumas peculiaridades locais.

Como já deu para perceber, lá no Rio Grande do Norte, quem procura… acha!

*Viagem realizada a convite da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Nordeste” do Sem Fim…

Rio 2016: saudade olímpica que veio para ficar

Tocha 160821 049 Tocha Candelária crianças no colo Tocha 160821 096 Museu do Amanhã Mauá do Mar noite abertaTexto e foto de Valéria del Cueto

Nas redes sociais há um evento pela prorrogação dos Jogos Olímpicos até o dia 31 de dezembro, quando o bastão das festanças cariocas passa para o réveillon de Copacabana e emenda com o carnaval. Está tudo dito e resumido.

Agora, resta o espanto de do amigo que, passeando na Orla Conde em busca da Tocha Olímpica, diz no meio da muvuca que “Nunca tinha vindo nessa Praça XV”, ao que o parceiro responde que “sempre trocava os nomes. Aquele lugar não era estranho, mas estava diferente”. Cariocas, sim senhor. De uns 20 anos, no mínimo. O morador da Cidade Maravilhosa saiu de sua tribo geográfica e social. Misturou-se pelas atrações e atrativos da cidade. Ponto Olímpico. Dele, os Jogos que terminam de forma espetacular com ouro inédito no futebol, mais um no vôlei e várias medalhas inesperadas, pra compensar as não alcançadas, apesar dos esforços dos atletas.

A tarde de domingo no Boulevard Olímpico era de tempo fechado e, pra começar, uma chuvinha fina. Acontece que, assim como eu, muita gente se deu conta que era naquela hora, ou nunca. Lá se ia a chama, até os Jogos Paraolímpicos. Lugar lotado de olhares e sorrisos de muitos lugares do mundo. Registros e selfies com a Tocha Olímpica. Ao fundo.

Era tanta gente que, dias antes, foi determinado um caminho para ir e outro para voltar. Da Praça XV, via Orla Conde, até a Praça Mauá. Sentido oposto pela Avenida Rio Branco, fechada para os carros. Novos cenários se descortinam pelo centro da cidade e o entorno da Baia de Guanabara. Lindos.

Também nublados com nuvens dramáticas se espalhando pelo céu. O tempo vira. O vento corta. Derruba uma árvore. Dentro da área de um patrocinador. Não acontece nada com ninguém. Sorte, uma das muitas, olímpicas. Triscamos por várias crises que não se concretizaram. Mas as rajadas se intensificam. São elas que trazem as chuvas que caem durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos. O tempo para. Todos ligados no Maracanã.

Tempo, tempo, tempo. Tão essencial que é medido pela mesma empresa, a Omega, nos Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno desde 1932. De um cronometrista e 30 cronógrafos, daquele ano em Los Angeles, para 450 toneladas de equipamentos, 200km de cabos e 480 cronometristas no Rio de Janeiro. Foi um longo aperfeiçoamento em busca da precisão que registrou aqui 27 recordes mundiais e 91 olímpicos. Mas não o suficiente para conter a impressão que temos de que o tempo andou rápido demais nos últimos 17 dias. Parece que foi ontem que dissemos olá para os visitantes.

Na hora da despedida, a intenção era apagar a tocha com as águas das chuvas cantada. Esqueceram de avisar para o cara lá de cima. Depois de um Hino Nacional Brasileiro ao som de atabaques, o que já lavou a alma (sem querer fazer trocadilho) do pessoal das religiões afro-brasileiras, para os cantos indígenas dos cafundós ameaçados do Brasil. Só com a ajuda dos santos – todos – pra tudo ter dado tão certo!

DJ Dolores com a batida pernambucana valorizou e deu o ritmo na entrada dos atletas e delegações já com a chuva caindo. Podia prejudicar, mas não era nada que atrapalhasse a concepção de Rosa Magalhães, carnavalesca campeoníssima e sabedora do que é um desfile embaixo de chuva. E ela veio mesmo. Passado os pronunciamentos de praxe, apertou na festança com um set de sambas de enredo irretocável, só de clássicos. Partindo de “O Amanhã”, passando por Macunaíma e caindo na esbórnia com A Menina dos Olhos de Oýa mangueirense, depois de antigas marchinhas.

Não, não haverá outros Jogos Olímpicos na Cidade Maravilhosa tão cedo. Mas esses serão lembrados por muito tempo. Enquanto a nós, cariocas, procuraremos outras festas para fazer. Porque essa é, cá entre nós, uma das nossas especialidades.

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

NR: Não vi e pelo jeito não verei em nenhum veículo de comunicação qualquer menção ao fato de que foi uma decisão corajosa do governo Lula, com seu prestígio internacional,  trazer a Olimpíada para o Brasil. Porém , se algo desse errado….Nesses tempos sombrios, a campanha midiática para desconstruir a sua imagem é mais forte que a verdade. Fica o registro.

Feito inesquecível

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Texto e foto de Valéria del Cueto 

“Como assim, já está acabando?”, “Agora que está ficando bom…” O diálogo entre dois membros da equipe de apoio do Rio Media Center, espaço de jornalistas, no Arpoador, traduz o sentimento geral de cariocas e visitantes nacionais e internacionais.

Está bom demais! Com cara de Rio de Janeiro. E problemas típicos da cidade maravilhosa. Tudo, quer dizer, quase tudo se resolve na gentileza. Baseada e resumida na máxima pregada pelo profeta local: “Gentileza gera gentileza”. Como ele se sentiria feliz com nosso comportamento olímpico. É nós!

Dá gosto circular, interagir com tantas culturas. Ter orgulho da cidade e da gente boa que circula pra cima e pra baixo. Tem defeitos, tem. E aquelas polêmicas tipicamente cariocas, que podem parecer exóticas para quem não conhece nossa capacidade de destrinchar, analisar, opinar e depois… mudar de ideia. Algo tipo os debates acalorados que acompanhamos e participamos, por exemplo, na época da temporada carnavalesca. É um tal de questionar contratações, discutir enredo, analisar samba, avaliar ensaio técnico pra mudar de opinião diante do que é apresentado na avenida que nem te conto. Todos os anos. Não gosta de carnaval? Pensa no futebol. Gostamos de debater, especular, como dizem os cuiabanos.

Tem debate pra todos os lados e níveis. E muitas palestras. Principalmente em rodas de negócios com apresentações de estratégias e perspectivas para a futura ex-cidade olímpica. Está certo. É a hora de vender o projeto Rio, cidade esportiva, polo de negócios, projetando seu amanhã. É um mundo paralelo aos jogos esportivos de envolve gente de todo mundo.

No metro, outros mundos se cruzam e convivem sem discriminação. Cheio e totalmente democrático, uma babel em cada vagão. Interessante a disposição do carioca para ajudar e informar os visitantes no meio do vai e vem. Vale tudo. Inglês, portunhol e, em último caso, uma boa mímica. Pra frente é que se anda!

Menos no esporte… Tem patrulha também querendo (de novo) explicações sobre a continência que alguns competidores batem na hora do hino nacional. Façam as contas de quantos medalhistas são das forças armadas. Foram nossos salvadores ao abraçarem os atletas de alta performance, dando-lhes condições de treinamento.

Entre expectativas, perdas e danos vamos aplaudindo nossos xodós. Duas conquistas foram emblemáticas. As meninas de Niterói da vela, Martine Grael e Mahena Kunze, e Alison e Bruno Schmidt, ouro nas areias de Copacabana no volei de praia. Pena que o surf só começa no Japão. A nossa cara!

Mas essa lista de destaques vai se alterando ao longo dos dias de competição. Robson, Rafaela, Ágatha, Felipe… Thiago no salto com vara assinou a performance brazooca no atletismo, protagonizado pelo corredor jamaicano Usain Bolt se sentindo em casa nas pistas cariocas.

É claro que tivemos decepções, mas as surpresas positivas estão fazendo que o sentimento de “logo agora que está ficando bom…” superem os perrengues operacionais e a grande polêmica dos jogos. O nadador americano Ryan Lochte e seus companheiros que, apesar de campões olímpicos, não entenderam a grandeza e a responsabilidade de seus feitos. Conseguiram criar um imbróglio esportivo e diplomático. Mais que isso: mancharam os princípios olímpicos de jogar de forma limpa, não no esporte, mas na vida. Nada que a perda de patrocinadores, diante da repercussão dos fatos não resolva ao faze-los lamentar profundamente a baixaria.

Para quase finalizar, nossos respeitos aos atletas brasileiros, independente dos resultados obtidos. O fato de terem chegado a competir numa Olimpíada, já é um feito inesquecível. E vamos ao encerramento!

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Carioquice olímpica

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Zabumbar no fio da navalha é a nossa saída mais potente… a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária.” A reflexão do historiador Luiz Antônio Simas, co autor do “Dicionário da História Social do Samba”, em parceria com Nei Lopes que, no jornal O Dia,  assina coluna semanal sobre a cultura das ruas cariocas, explica a extensão da alegria vigente por aqui nos últimos dias.

A cidade, nem sempre bem-humorada diante dos acontecimentos recentes, se rendeu a seu próprio charme, assumiu suas mazelas e faz o que pode: depois de uma largada espetacular e alto astral vai arrumando os problemas que surgem. Alguns bem conhecidos e comuns para seus moradores. Tudo isso, fazendo festa! Esta é a sensação que qualquer pessoa tem, ao andar pelos locais preparados para circuito olímpico.

Depois da abertura com aquele fim de semana clássico de Cidade Maravilhosa, nem Deus poderia manter o clima firme e limpo em pleno agosto. Aquele, o mês do cachorro louco. Ventanias provocaram o adiamento de provas e transtornos gerais. Os de trânsito acontecem a toda hora… Nem o incrível tom esverdeado da piscina de treinamento do Parque Aquático provocado, dizem os entendidos por algas está sendo deixado para trás.

No mais, é festa. Nos complexos esportivos, em Copacabana e no recém inaugurado Boulevard Olímpico, na região do Porto Maravilha. Local onde a estrela maior é a pira Olímpica. O auge da agitação foi no primeiro dia de desfile de uma escola de samba no local, a Paraíso de Tuiuti. Ela se encontrou com o bloco carnavalesco Escravos da Mauá. O evento se repetiria com as escolas do grupo especial e os principais blocos da cidade, mas a organização achou por bem transferir o carnaval improvisado para o Parque Madureira, diante a impossibilidade de garantir a segurança da multidão.

Foi ali na Casa Brasil, no Armazém 2, que Mato Grosso fez ontem sua apresentação turística, junto com o estado irmão, Mato Grosso do Sul. Mostraram a comida pantaneira, danças típicas e sua cultura. Hoje, índios Parecis estão no Rio Media Center, que reúne jornalistas de todo o mundo para os Jogos 2016, divulgando o roteiro do etnoturismo em Mato Grosso que percorre as aldeias da Rota Parecis. O luthier de violas de cocho, Alcides Ribeiro, dá aula sobre a produção do  instrumento típico da cultura pantaneira, embalado pelo Siriri e do Cururu do Flor Ribeirinha.

Além dos mega espaços dos patrocinadores, o Rio está bombando. Especialmente as casas dos países participantes dos Jogos espalhadas pela Zona Sul, Centro e a Barra da Tijuca. São muitas. Algumas definitivamente concorridas e cheias de atrações, como a do Qatar, sede da Copa de Futebol de 2022. A riqueza e as atrações do país são apresentadas com a utilização de recursos tecnológicos de última geração e a reprodução de um mercado árabe. Como resistir a tantos atrativos?

25 das 52 casas são públicas e com livre acesso. Poucas cobram ingressos. 27 só permitem a entrada de convidados e cidadãos do país. Caso da Casa da Rússia, no Clube Marimbás, em Copacabana. Lá está o protótipo do SportJet, avião da Sukhoi Civil Aircraft Corp de 60 lugares para  equipes e delegações esportivas. Com soluções para descansar, recuperar e relaxar atletas no ar, inclui equipamentos fisioterápicos, poltronas  que monitoram informações biométricas e áreas de reunião para análise de jogos e competições e equipe administrativa. A empresa  planeja seu primeiro jato para o início da temporada de 2017-2018 e está em negociações com federações e times interessados.

DJs, Vjs, comidas típicas e atrações variadas animam a maioria dos ambientes dos países presentes. É muita programação. Tanta que, em alguns momentos, é preciso lembrar o motivo principal de toda a movimentação, as competições esportivas mais importantes do planeta!

E os cariocas? Junto com os visitantes torcem, deliram e fazem a festa…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Quem explica ?

Rio Metro Em breve uma novidadeTexto e foto de Valéria del Cueto

“Canguru no Brasil” pede na busca do seu google empoderado, Pluct, Plact, o extraterrestre empoleirado na Terra, sem força propulsora para picar a mula e ir cantar em outra freguesia interplanetária.

Ficou sim e não está reclamando. Gostou da Copa do Mundo de 2014. Da vibe da festa e do encontro dos povos. E era apenas um esporte com competições espalhadas por todo o país. Como será o evento com dezenas de modalidades e atletas de centenas de países do mundo?

Dentro do possível, portanto muito mais que o usual, já que conta com ferramentas sofisticadas, acompanhou  a preparação do evento. Por essa e outras razões, levando e trazendo notícias para a amiga cronista, reclusa voluntária das crueldades do mundo, acabou entrando no espírito olímpico.

Andava pela cidade observando o movimento, fazendo previsões e cálculos sobre deadlines para a entrega dos equipamentos. Não se enganou quanto aos resultados. Tá tudo indo, meio assim. Com os prazos iniciais prejudicados, mas aquela boa vontade de deixar tudo no jeito “para quando os jogos começarem”. Como se os atletas fossem chegar no dia da competição. Não precisassem se adaptar ao clima, ao local, depois de se recuperarem das viagens. Alguns, vindos do outro lado do mundo!

E voltamos para a curiosidade galáctica de Pluct, Plact. Onde encontrar um canguru no Brasil, como prometera o alcaide Eduardo Paes à delegação australiana, após a recusa de encarar o minha casa minha vida da Vila Olímpica? Quem botaria a cara prometendo já na largada, algo que não poderia cumprir? Calcula-se cartesianamente que, sim, há um canguru à mão para enfeitar a entrada do alojamento australiano. Tipo assim, ali, como a onça da tocha…

Foi nessa busca que Pluct Plact descobriu que não era o único a procurar cangurus no Brasil. Lá nos alfarrábios entendeu o impedimento de tal evento. Também descobriu que, não tendo acesso ao original,  canguru aqui é só um tipo de equipamento para carregar bebês junto ao corpo. Apareceram referências à geração canguru, de “jovens” de 25 a 34 anos que não querem sair da casa dos pais. Conheceu também a Olimpíada Canguru de Matemática, uma afinidade com a Austrália, já que a competição começou por lá e hoje se espalha por 52 países!

Nesse meio tempo, a fila andou… Eduardo Paes pediu desculpas pela tirada, jogando a culpa no “jeito carioca”. A equipe australiana resolveu pegar mais leve. Voltou para os apartamentos abandonados enquanto obras emergenciais eram realizadas por um batalhão de trabalhadores irregulares. Mas esforçados e felizes com os dias de ganhos extras.

O happy end foi com mais uma “atitude” de Paes. Deixou a equipe australiana de hóquei esperando meia hora na entrega da chave da Vila Olímpica para a delegada da Austrália. A que batera de frente com a desorganização imperante. “Umpolished” foi o termo, registrado nos anais da máquina interplanetária, utilizado pelo próprio para classificar o imbróglio. Então, por definição, exime-se a culpa do “jeito carioca de ser” que costuma ser malandreado, malemolente, mas não grosseiro. Ganhou de presente um canguru de pelúcia, com luvinhas vermelhas de boxe…

Tudo isso, Pluct Plact rememorava enquanto se deslocava pela orla de Copacabana, Rio de Janeiro,  para o outro lado do túnel, onde se encontra reclusa a cronista. Tinha seus motivos de alegria. Vira, na última visita, um lampejo de interesse da amiga pelo mundo exterior. Sim! Ela queria contato. Uma TV que cobrisse parte de uma parede de sua minúscula, porém segura, cela. Para assistir aos Jogos!

Ia atender a amiga. Mas havia uma condição. Que explicasse em minúcias o que era o único tipo de canguru não definido ou descrito em suas buscas e pesquisas nos mais poderosos bancos de dados.

Afinal que diacho era o tal de canguru perneta, tantas vezes citado e nunca explicado?

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

O silêncio que antecede

M Amanhã 160225 009 Museu do Amanhã globo escadaria entradaTexto e foto de Valéria del Cueto

Estou no meio da festa que vai começar. Numa posição, cá entre nós, privilegiada. Depois do Rio dos Jogos  Pan Americano, da Copa do Brasil, vem aí a Olimpíada carioca.

E vou aproveitar. Pretendo não analisar, apenas registrar a vida onde sempre vivi. Como essa cidade tão cheia de contradições, chamada de maravilhosa, abriga e acolhe os visitantes de todas as partes do mundo.

Foi na Copa do Mundo de Futebol de 2014 que a brincadeira tomou um formato, como explicado na época na crônica “Sem dizer adeus” Lá, a hashtag era #Copa2014bacana. Teve o #justbefore, mostrando Copacabana nos dias que antecederam o início da competição, o #justnow, a temporada de jogos e o #justafter, com o desmonte dos equipamentos e o retorno à normalidade. Todo o material fotográfico, em vídeo e links de outros veículos de comunicação foram agrupados numa linha do tempo, publicada no http://storify.com/delcueto/copa2014bacana

Repito a proposta no #valeRio2016. É a mesma ideia partindo de outra ponta, não mais da do Leme, que começa a ser realizada. Agora Copacabana não será o único foco. A ponta de partida é a do Arpoador, com saída para Ipanema e a perspectiva do posto 6, no final de Copacabana. O arco foi ampliado, incluindo o centro da cidade. Mais especificamente a Orla Conde,  um novo espaço urbano do Rio, onde serão realizadas as atividades que agitaram fun fest montado em Copacabana durante o Mundial de Futebol, em 2014.

Uma intensa e variada programação cultural ocupará o espaço e os palcos distribuídos entre os Museus do Mar e do Amanhã, na Praça Mauá, e a Praça XV. Além de apresentar ao mundo as intervenções de recuperação da área, incluindo a demolição da Perimetral, outra vantagem do lugar é não ter problemas em relação ao barulho das festas e shows. A zoeira causou transtorno aos moradores de Copacabana no evento de 2014. A região da Orla Conde é área comercial. E o lugar é lindo…

O Rio dos carnavais, dos réveillons, do Pan e da Copa, certamente saberá receber seus convidados. Falo no que depender do carioca. O que parece não ser muito na Babel que se instalará por aqui.

Não, não pretendo frequentar as arenas dos jogos. O  credenciamento no Rio Media Center facilita o acesso aos espaços gerenciados pela prefeitura. Está bom demais. Verei os jogos em casa, ou nos telões. Se sou fissurada por esportes, imagine as Olimpíadas.

A primeira que lembro ouvir falar, pitoquinha ainda, é a da Cidade do México. José Sylvio Fiolo ficou em quarto lugar nos 100 metros de peito. Anos depois, treinei por um tempinho com seu técnico, o Pavel, no Botafogo. Na de Munique foi a vez de Mark Spitz com seus recordes mundiais e medalhas de ouro em 7 provas de natação  me fisgar de vez. Chorei com Misha na despedida de Moscou…

As Olimpíadas acontecem sempre em anos de campanhas políticas. Eleições de prefeitos e vereadores. Costumo estar trabalhando. Em 1988 e 2000 e 2008, dei um jeito de trabalhar no turno da madrugada, para poder acompanhar as competições dos jogos de Seul, Sidney e Pequim, respectivamente.  

Não, não terei tempo para correr de um complexo para o outro e ainda me concentrar no entorno, no encontro dos povos. É nele que pretendo focar minhas lentes.

E quero faze-lo com o meu melhor olhar! Como, imagino, estejam nesse momento os olhares dos atletas que competirão no Rio, a Cidade Maravilhosa. Voltados para a perfeição dos movimentos, para o auge de suas performances. Se possível, para a vitória. Pensamento positivo, energia acumulada, concentração e foco.

Eles não querem saber das notícias, especialmente as negativas. Nada que interrompa ou altere o percurso em direção ao objetivo almejado por tanto tempo certamente com sacrifícios e entrega.

Que os Deuses do Olimpo nos abençoem!

Links

#valeRio2016 http://storify.com/delcueto/valerio2016

#copa2014bacana http://storify.com/delcueto/copa2014bacana

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Morro do Paxixi

Aquidauan 160524 040 Paxixi geral panorama brumaTexto e foto de Valéria del Cueto

Ainda falta falar de algumas coisas do meu belo Mato Grosso, o do Sul. Então, vou começar pelo princípio.

A partida foi promissora. Subindo, num final de tarde, o Morro do Paxixi, na ponta da serra de Maracaju. Tração nas quatro rodas, o sol desenhando as margens da estradinha de chão…

Os “ais” e “uis” nas curvas da estradinha sinuosa de Rosely, sogra do Carlão, o Dr. Carlos Nunez, promotor da expedição que tomou o rumo de Camisão, distrito de Aquidauana, eram justificados.  Imagine algo do tipo a borda da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, com acesso beeem precário. Antes da subidona, uma bifurcação, um ou outro boteco, algumas casas e chácaras. Quanto mais alto, mais espaço. As grandes fazendas no topo do platô, invisível para quem olha lá de baixo.

Para não dizer que foi tudo perfeito, subimos tarde! Nessa época do ano o dia acaba cedo e o sol baixa rapidamente… A sombrinha de agora virava rapidamente  a luz insuficiente e muito baixa, diminuindo a diversidade de bons registros.

O Paxixi é o tipo de lugar quase inesgotável quando se pensa em sombra, luz e drama. Mesmo parado em um único local as possibilidades são infindáveis em tentativas de registro em horas variadas do dia e com as variações da posição do sol ao longo do ano. Mudam as cores, os tons e a incidência de luz. Uma festa!

A subida quase foi mal sucedida. Lá pelas alturas encontramos a picada fechada por um trator e caminhões. Era um mutirão de alguns proprietários para recuperar o traçado castigado pelas chuvas, provocando crateras, muita erosão e invadido pela vegetação exuberante nas laterais.

A necessidade de aplainar e limpar a rota se baseava também na impossibilidade de saber, numa manobra para evitar maiores danos aos amortecedores castigados pela buraqueira, se o mato escondia um trecho transitável ou camuflava um despenhadeiro na franja da morraria. Se fosse necessário dar meia volta, teria que ser de ré até um lugar que permitisse a manobra de retorno.

Fomos salvos pela gentileza dos peões e motoristas que retrocederam morro acima as máquinas para nos permitir prosseguir na aventura.

Mais um tempinho perdido e o sol baixando em meio a uma leve bruma que começava emoldurar as áreas mais baixas. Passamos pelo leito seco de pedras de um riacho e, firmando a marcha ladeira acima, fomos passando por porteiras até que o topo do maciço se descortinasse a perder de vista iluminado pelo sol da tarde.

Na direção das antenas receptoras, avistadas da estrada que liga Campo Grande a Aquidauana, encontramos topógrafos e engenheiros, próximos das áreas cercadas e cadeadas dos equipamentos.

O que poderia ser uma decepção pela ausência, provocada pela cerca de arrame, da vista do alto do platô acabou virando uma caçada fotográfica a seriema que resolveu passear perto do aramado.

Me senti em sintonia com o local e aa natureza, enquanto tentava, mansamente, me aproximar da musa inspiradora da música que ia usando como forma de diálogo, tentando fotografá-la: “Oh! Seriema de Mato Grosso, teu canto triste me faz lembrar, aqueles tempos que viajava, tenho saudades do seu cantar. Maracaju, Ponta Porã, quero voltar…”Registro feito, papo batido e era hora de descer a ladeira, antes que escurecesse de vez.

Por um momento, tolinha, achei que aquela tinha sido um sinal de boas vindas para o que ainda veria de natureza na viagem pelo Mato Grosso do Sul.

Ledo engano. Foi, sim, um presente de despedida. A partir desse dia, o tempo virou de um jeito! Tudo cinza, chuva e frio. Tive que desfazer meus planos, agradecer a boa sorte dos registros feitos e viajar num outro sentido: o literário, como você já sabe pelos outros textos dessa saga pantaneira.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Outras memórias pantaneiras

CGB natur 160618 057 passaro cabeça amarela otimaTexto e foto de Valéria del Cueto

Perdi as palavras diante dos sentimentos. Muitos. Profundos. Emocionantes.

Até especialistas em se expressar, coisa que sempre busquei nas mais diferentes “mídias”, se calam quando tudo é pouco diante dos fatos e os diversos graus de sensações que provocam.

Voltei ao meu belo Mato Grosso, aquele de antigamente, ainda sem divisão geográfica. E os tempos queridos, acreditem, os que não voltam nunca mais, estavam lá.

O pé de cedro havia crescido e dado novas ramificações. Encontrei o pequeno arbusto cheio galhos e de raízes crescidos no tempo em que distantes vivi, amei e, claro, também sofri.

Todos nós nos transformamos…

Sua sombra amiga me acolheu e protegeu, me mostrou seus frutos (cedro dá que tipo de frutos? Sei lá…)

E nada do que imaginava para essa jornada aconteceu como planejei. Tudo foi mais.

Mais tempo nublado e chuvas, o que não seria problema se não fosse a duração quase permanente, o que gerou menos imagens reais como pássaros, animais e exuberância natural na região pantaneira.

Isso me empurrou para os livros que levaram a imagens de outros tempos mais, muito mais antigos. Voltei à Guerra do Paraguay.

Aos encontros e desencontros dos pioneiros que entre batalhas, muito trabalho bruto, longas esperas e amores povoaram o baixo Pantanal e a fronteira entre Corumbá e Ponta Porã.

Se pouco soube de Solano, o invasor paraguaio, li a respeito de Raphaela Lopes, sua irmã, que se casou com o interventor designado pelo Império Brasileiroe a saga da vinda da família Pedra para a região. Sou quase um deles. Além dos netos de Pompílio, agora, “colada” com mais duas gerações.

Quando, finalmente, o tempo permitiu que começasse a fotografar já estava encharcada pela água dessa fonte de lembranças expandida com a ajuda de informações e indicações de como lidar com um baú de comitiva repleto de imagens e referências.

Tudo veio pra mim. Primeiro na Casa Candia, de dona Jandira, em Anastácio. Depois na Selaria Renascer, do seo Jairo, em Aquidauana. Nos dois lugares tive direito a um “Guia Lopes” para me conduzir pelas macegas de objetos emblemáticos, ícones das narrativas que havia devorado nos livros.

Isso em meio a uma outra guerra que acontecia na vizinhança. Sangrenta, sem tréguas. Cinematográfica. Em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero a disputa pelo poder do tráfico se desenrolava nas ruas. Registradas por câmeras de vídeo dos celulares e disseminadas pelas redes sociais. A violência da fronteira evoluiu, como quase tudo em volta, mantendo sua essência.

Os últimos dias da viagem me levaram a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, à celebração das novas gerações da família, continuação dessa estirpe que vem lá de trás.

Pais, avós, filhos, netos, numa alegre confusão, em comunhão com a vida, independente dos percalços e diferenças. Esperança!

Tudo ao seu tempo – não conforme meus planos (como sempre)-, acabou acontecendo.

Na última manhã da viagem, o ciclo se completou com a ajuda de Osana. Foi ela que me indicou nos jardins onde seria o desfile da passarada: tucanos, curicacas, beija-flores… Vieram para a despedida!

Um até logo cheio de gratidão de minha parte, emoldurado pelo sorriso que não tem preço de uma das queridas matriarcas da família, que não nega seu sobrenome: Pedra!

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Mala de garupa

AquidSela 160616 012Texto e foto de Valéria del Cueto

Passei pela frente da Selaria Renascer, na rua Dr. Sabino, no Bairro Alto algumas vezes. Naquelas horas em que, numa cidade nova a gente busca referências para tentar se localizar.

Havia muitas outras selarias na cidade. Afinal, estava numa região cercada de fazendas com características de lida com muito gado e cavalos.

Mas aquela construção numa rua tranquila, parede com parede com a loja de roupas novas e usadas, atraindo a atenção pelos casacos de frio expostos nos manequins e, do outro lado, a casa mais para o fundo do terreno, uma árvore enorme na frente e a carroceria velha de caminhão, com o nome da cidade AQUIDAUANA, pintado na madeira, jogado ali, na vertical, havia prendido minha atenção.

Na frente, arreios e outros adereços pendurados na parede e no telhado do puxado da varanda. A mureta no pé da árvore ao lado usada como apoio para o copo de alumínio, a bomba e a térmica do tereré. A parte voltada para rua servindo de expositor para o pelego e as botinas, mostrando o trabalho. O laço pendurado num galho.

Nas duas portas da loja a confusão se derrama pela calçada, conforme a necessidade do serviço de selaria e sapataria solicitado pelos clientes fiéis.

Me identifiquei. Descobri que o lugar do meu desejo ficava em frente da casa de Roseli, mãe de Rosanie, sogra do Dr. Carlos Nunez, e companheira de tardes cinzentas de cafés e histórias, inclusive dos antigos Pavilhões, um tipo de circo só com peças teatrais e cantorias que viajavam pela região antigamente.

Na segunda passada parti para a tarefa necessária de pedir autorização para fotografar o local. Não sem antes esclarecer para seo Jairo que não, não tinha intenção de cobrar nada para desvendar em imagens os segredos de seus 61 anos.

“Nasci em cima dos couros. Aprendi a profissão vendo meu pai. Ele trabalhava numa fazenda e, quando se machucou, começou a lidar com couro”.

A história veio junto com tesouros que ele foi tirando dos fundos do estabelecimento. Diz a “Vizinha”, como Roseli chama sua mulher, que faz tempo desistiu de arrumar a oficina, onde sua entrada “é indesejável, graças a Deus”.

Começou com a ponta de uma zagaia “usada para matar onça”. Veio a máquina de costurar de antigamente, a ferradura de ferro “hoje são mais finas, de alumínio”, a guaiaca velha que o peão pediu para ser copiada, “mas se aposentou antes da execução do serviço e, aí, pra que guaiaca?”, o entalhe em madeira do preto velho, o berrante e o baú de uma antiga comitiva.

“Só não tranço o couro. Antes, até curtia”. Primeiro com angico. Aí, reclamaram do problema ambiental. “Besteira, a gente não corta a mata, só usa a casca”, observa. “Daí passei para o tanino. Desisti com os problemas e a burocracia para documentar a atividade”.

A Vizinha fala com saudades da antiga Festa Pantaneira de Aquidauana, onde passavam dias acampados recebendo encomendas e mostrando a excelência do trabalho que sustentou a criação de seis filhos, “três com a mulher”…

Hoje, não vale mais a pena fazer produtos para vender, como botinas. O custo da mão de obra inviabiliza esta forma de negócio. “Agora, é mais encomenda”.

E foi de encomenda, prontamente atendida, que as mãos ágeis de Seo Jairo Soares Arguelho, além de trazerem do fundo da oficina suas melhores lembranças para o ensaio fotográfico da selaria, também repararam minha moderna mala de viagem, descosturada no vai-e-vem dos aeroportos da vida. Em cada ponto, uma história, um mergulho na mala de garupa da vida de um artesão aquidauanense e seu cotidiano pantaneiro…      

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Armazém, empório e mercearia

Anastácio 160603 024Texto e foto de Valéria del Cueto

Viajo para o oeste e retrocedo a um tempo antes do meu próprio por lá, ao transpor as porta da Casa Candia, em Anastácio, Mato Grosso do Sul.

Sou recebida com um sorriso de boas vindas por sua proprietária Jandira Trindade, filha de um antigo funcionário que virou sócio dos italianos fundadores do estabelecimento, e cronista de “O Pantaneiro”, jornal de Aquidauana. Um outro lado do rio, como Cuiabá e Várzea Grande.

Chego lá vindo um pouco de antes, de acontecimentos ocorridos na segunda metade do século XIX. Andava mergulhada nos antigos costumes da região, devorando o livro do belavistense Samuel Xavier Medeiros “Senhorinha Barbosa Lopes, uma história da resistência feminina na Guerra do Paraguai”, narrativa da incrível saga de da mulher de Guia Lopes, herói civil dos trágicos eventos ocorridos na desastrada ofensiva norte da Guerra do Paraguai, imortalizados no livro de Visconde de Taunay, “A Retirada da Laguna”.

Tirando as embalagens dos produtos básicos expostos nas prateleiras que se modernizaram, o restante permanece como antigamente. Ao subir os degraus da entrada do imponente armazém e pisar no mosaico de  ladrilho hidráulicos original da parte da frente do prédio da Travessa Ragalzzi, beira do rio Aquidauana, a sensação de entrar num outro mundo se completa.

O mobiliário: prateleiras, balcões e expositores de madeira remetem aos tempos em que, como rememora Jandira, as carroças eram estacionadas no amplo pátio lateral (agora cercado por muros) e os cavalos levados para serem tratados e alimentados, enquanto as listas de mantimentos iam sendo providenciadas, separadas e embaladas para as longas viagens de volta às fazendas da região pantaneira.

No livro de anotações do armazém, empório e mercearia, cuidadosamente preservado, a primeira anotação é de 1 de fevereiro de 1908! O grande diário de capa verde  funcionava, mais ou menos, como as cadernetas utilizadas nas casas de produtos carnavalescos cariocas que contabilizam os gastos efetuados até que os compradores possam honrar seus compromissos.

Esta primeira sala é apenas o começo da viagem exploratória. Entrar no depósito principal ao fundo, ainda mais antigo, aprofunda o mergulho na história, embalado ao som do antigo rádio de um funcionário que toca uma polca em guarani. Fotografo cantarolando… Por suas dimensões é possível ter uma vaga ideia da quantidade de produtos necessários para abastecer as grandes propriedades da região. Jandira me conta que  era necessário trazer as mercadorias de longe e estocá-las por mais tempo para atender a clientela. Agora, com a facilidade das estradas e da distribuição, é possível aumentar os estoques apenas na época em que se fazem as grandes compras do mês.

Acho que meu interesse pela música, enquanto reproduzia as antigas fotos que mostram os fundadores do estabelecimento e comprovam a autenticidade do que lá existe hoje, preservado em sua totalidade, fez com que arrumasse mais um aliado na exploração do lugar.

José Antônio Loureiro foi me apresentando a outras preciosidades, como as antigas balanças, o galpão onde se armazenava o sal, produto essencial para o gado, o  poço no fundo do terreno e o local das bilhas de água, onde se costuma matear, tomando a bebida típica da região, o tereré. Enquanto passeamos pelos edifícios, descubro que ele é de Bela Vista e dia 1 de junho fez 39 anos que ele trabalha na Casa Candia…

Voltamos ao pátio de carregar os mantimentos, primeiro nas carroças, depois nos jipões e, agora, em veículos modernos, enquanto faço registros de tudo que vejo. Jandira aguarda pacientemente meu regresso, conversando com meu guia na viagem ao passado, o professor Fernando Pace, amigo dos tempos de Cuiabá.

Para confirmar tradicional gentileza da acolhida sul mato-grossense não saio de mãos abanando. Ganhei um pacote da farinha de mandioca da região, um delicado guardanapo de bandeja bordado pelas mãos habilidosas de dona Jandira e muitas e deliciosas histórias para contar a vocês, meus leitores de aventuras e crônicas.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Será um novo dia?

Arpexsurf 160521 003Texto e foto de Valéria del Cueto

Nada nem ninguém pra contar a história. Não por falta de material. Pelo excesso de informações. Elas não param de chegar e, se não há tempo hábil para processá-las, o que dirá analisar as consequências dos fatos que se atropelam. Nem mesmo os intergalácticos equipamentos sofisticados de Pluct, Plact, o extraterrestre dão conta do recado! Resta apenas um caminho entre o ovo e a galinha. Voltemos ao caderninho. Sim, porque quando a tecnologia falha, a solução é o retorno estratégico ao início do princípio. Filosofe, analise, projete, imagine… Utilizando as ferramentas mais primárias.
Papel e caneta que é pra manter acesa a chama do recorde quase olímpico de umas quatro centenas de crônicas. A conta exata, nem Pluct, Plact com seus cálculos e registros consegue precisar. Nada de mais, se considerarmos que esse mesmo sistema é o que leva à utilização do instrumental primário já citado da caneta/caderninho. Tudo foi falhando aos poucos num efeito dominó. Computadores, tablets, internet…
É nessas horas que dá uma preguiça danada e a inércia torna o movimento em direção a mais uma crônica quase um rolar de pedra ladeira… acima. Primeiro, uma viagem rumo ao centro do continente sul-americano foi uma boa justificativa para falhar uma semana. Admissível. Depois, o feriadão obrigando a quebrar o dia da semana costumeiro. Ninguém notaria a ausência. Perdoável. Mas… uma terceira engasgada não daria para deixar passar. Todos notariam a realidade que não quer calar: as crônicas não fazem falta nenhuma. Ausência que sequer seria notada!
Não. Isso o ser intergaláctico não poderiar deixar acontecer. Não por ele. Certo, seguro e convicto de sua existência e missão de viajante espacial e observador das galáxias. Mesmo ciente de sua atual condição de imobilidade terráquea, provocada pelo mau uso e distribuição das forças gravitacionais que o prendiam aquela que parecia ser a maior odisseia político, econômica, social que havia presenciado em seus milênios de viagens siderais.
A pedra de toque a diferenciar esta de tantas outras aventuras era tão simples quanto andar a pé. Tão pura como fonte de água cristalina. Tão singela e comovente como uma lágrima de alegria. A necessidade de manter viva a lembrança de que lá, do outro lado do túnel, numa cela pequenina, em seu isolamento consciente e voluntário havia uma cronista entrincheirada e resistente aos inacreditáveis fatos que se sucediam do lado exterior. Por isso o sistema precário de escrivinhação se fazia necessário. Era imperioso que o mundo soubesse que sim, ela ainda existia, estava lá.
O que o movia era algo desconhecido até encontrar as antigas crônicas e ter a curiosidade de conhecer sua autora: a amizade acima de quaisquer circunstâncias. Lera, analisara e entendera as centenas de textos produzidos antes de encontrá-la e vira que, em algum momento, o que estava se desenhando em suas reflexões, tornara-se um peso quase insuportável diante da concretização de suas mais estapafúrdias suposições.
E, quando todos achavam que era impossível acontecer, fez o pacto de ser seu contato com o mundo (i)real. Jurando preservar sua frágil sanidade mesmo quando a desumanidade e o improvável que ela havia previsto em suas piores premonições se tornassem realidade.
Agora já não se preocupava mais com as notícias que provocariam ondas de risadas enlouquecidas. Elas ecoariam pelos corredores protetores. Tudo, estupros, golpes, acidentes aéreos, mortes estúpidas dos que navegavam em busca de refúgio, tiros, bombas e afins era apenas a desumanidade explodindo conforme acontecia ao fim de cada era, multiplicada exponencialmente pelas maravilhas tecnológicas em uso.
No más a fazer para evitar o desenrolar dos acontecimentos. Fora assim com maias, egípcios, gregos, romanos, com os deuses astronautas! Mais uma civilização fadada a seu destino escrito nas estrelas. A ele cabia apenas amar e preservar a estrela que ali, naquela cela, olhar perdido diante de todas e tantas mazelas, continuava empenhada em sua missão impossível de acreditar na esperança que nem ela própria alcançará. Realidade dura e cruel de um tempo em que a ficção e a imaginação deixaram saudades…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Na cola da tocha

Arpoador 160423 011 Vendador ambulante Dois irmãosTexto e foto de Valéria del Cueto

Foi aos 44 do segundo tempo. Quando já estava desistindo de dar tratos à bola, quase jogando a toalha e aceitando a possibilidade de que poderia vir a ser mais uma semana sem crônica.

Pela janela da imaginação já havia passado todos os estímulos usuais, em busca daquela isca milagrosa que viria na ponta da linha e serviria de desenho guia para as laudas. Depois afinadas e buriladas – um pouco.

Localização, quase a de sempre, sem o glamour da beira-mar. Meteorologia, ressaca de novo, com o tempo fechadão. Destino o computador, já mais pra tardão. Na TV depois de Miguel Reale, Janaína Paschoal esgrima com a minoríssima bancada do governo na comissão do Senado que desempenha seu papel no pedido de impeachment da presidente.

Podem reclamar empoderadoras, mas a voz dela é chata. Especialmente em caso de audição prolongada. Como está sendo o caso. “Vida política não é o mesmo que vida partidária”. É golpe ou não foi? Já era…

Argumentos, contra-argumentos, maré que sobe, mar que levanta. Nas ruas lojas fechadas, sinais da crise e a realidade encolhendo diante dos nossos olhos. Ou se  agigantando, como a maré não planejada nem prevista no projeto da Ciclovia Darci Ribeiro?

Não sei não… Como moradora do Leme, frequentadora do Caminho dos Pescadores sempre respeitei os ilimitados e quase imprevisíveis poderes do mar. Especialmente quando invade o paredão e sube Morro do Leme acima.

Segue a ausência de assuntos interessantes para preencher narrativa. Falta de pagamento dos aposentados? Não. Alunos ocupando as escolas estaduais do Rio de Janeiro, suspensão das bolsas de pesquisa e tecnologia, o desastre da saúde pública… Não, não, não… Nada de novo no front. Tudo lamentável, mas previsível.

Talvez a passagem dos 100 dias na contagem regressiva das Olimpíadas aqui no Rio de Janeiro. A primeira coisa que me vem ao coração é tristeza por termos perdido uma chance única.

Não de fazermos um grande espetáculo, mas formarmos a base de muitas gerações de atletas. Olímpicos ou não. Esse trabalho deveria ter começado lá atrás, impulsionando e incentivando a formação de base. Em clubes associações e, principalmente, nas escolas.   Inês é morta e, sinceramente, não vejo chances de um grande desempenho esportivo do Brasil nos Jogos. Resta-nos a arte de bem receber, tão carioca.

Mas, para mim, o esporte está acima de tudo. Por isso, pretendo acompanhar bem de pertinho as emoções olímpicas.

Para tanto, hoje, no Twitter, quando vi uma postagem do Ministério do Turismo que dizia assim: “@MTurismo Dia 25/06 o #TourDaTocha passeia por nove cidades do MS, entre elas, Bonito, Dourados e Campo Grande.” Retuitei no perfil @no_rumo acrescentando uma nova hashtag: “#Rio Olympics2016”. Simples assim.

Puro amor, incentivo e a lembrança para lá de agradável que o passeio olímpico passará pela Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, e Louriza Boabaid Yule é uma das escolhidas para representar a sociedade chapadense no evento.

E aí, mais uma vez, brilha a velha máxima que não escolhi o jornalismo, foi ele que me escolheu. Para o bem e para o mal. No caso, não sei nem quero definir para qual dos lados….

Vejo no smartphone mais uma tuitada do @MTurismo. Ela diz:“@no_rumo Vamos ficar na cola da tocha 🙂 certo?”

Considerando as últimas notícias veiculadas na mídia sobre atividades no gabinete ministerial e adjacências, fiquei meio assim, sem saber o que responder. Preferi encerrar a crônica.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Eles tinham razão

Ipanema 160113 029 Ipanema Dois Irmãos Vidigal

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ziggy Stardust partiu e eu, Pluct Plact, o extraterrestre desavisado, fiquei!

Como assim perdi o bonde? Estou pedindo, implorando, firmando, desejando, almejando uma via de escape desse vasto e incompreensível mundo e quem vai dessa pra uma muito melhor é o disfarce perfeito de David Bowie do parceiro e conhecido de outras empreitadas intergalácticas?

Aqui, como lá, vão-se os melhores e a naba, como eu, permanece.

A mão que um dia enxugou uma lágrima é a mesma que poderá ser afagada num momento de carência. Não fosse por isso ia dar uma olhadela no roteiro desenvolvido pelo Camaleão para preparar sua partida.

Acontece que tenho meu compromisso com a cronista,  minha amiga e sua escriba, em seu auto exílio solitário do outro lado do túnel, de seguir sendo seu elo (meio desconexo, reconheço) com a realidade nua e crua.

Só que… nem mesmo meus ultra cartesianos pensamentos, estimulados por zilhões de informações coletadas, armazenadas e destrinchadas sobre o que ia encontrar por aqui, servem para absolutamente nada diante da imprevisibilidade da vida na Terra. Uma capacidade que parece inerente ao ser humano de se superar.

Para o bem ou para o mal, que vocação para os extremos! Da beleza ao terror, da delicadeza ao fanatismo. Ou não chove nada, ou chove a cântaros, seja lá o que isso signifique (o que os cântaros têm a ver com o aguaceiro?). Uns comem demais, outros de menos.

Perplexidade. Que os seres humanos se sintam perdidos diante dos acontecimentos, vá lá. China na China, Fifa na Federação de Atletismo… Imagine quem não faz parte da “jogada”, assimilar é preciso. Sem pensar.

Wendel, o jogador de futebol, aparece salvar nossa honra. Seu gol, feito diante de pouco mais de 300 torcedores, em Goiás, chegou aos olhos de todos os admiradores de esportes. Diante de Messi e da cúpula do futebol mundial, citou Davi diante de Golias.

Um respiro de humanidade antes da interdição do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Ele sucumbiu ao abandono e desleixo de um prefeito que faz questão de ignorar a ligação dos cariocas com o lugar e seus habitantes. Foi fundado pelo Barão de Drummond que criou uma loteria para incentivar as visitas ao local. Era o Jogo do Bicho!

Sinceramente, nem nas mais profundas projeções é possível imaginar os cariocas sem eles. O jogo e o Zoológico. Impensável largar de mão o habitat do inesquecível e insubstituível Macaco Tião.

Aquele que jogava excrementos e lama nos visitantes.  Políticos incluídos! Pois acreditem. Ele foi candidato não oficial a prefeito do Rio, em 1988, e teve a bagatela (registrada Guinness World Records) de aproximadamente 400 mil votos. Se nulos não fossem considerados, teria ficado num honroso terceiro lugar.

Como ele pode ser votado é a pergunta. Simples. Naquele tempo a votação não era eletrônica as células eram escritas. O povo foi lá e cravou: TIÃO.  Democraticamente… É,  hoje isso não poderia acontecer, afinal, dizem eles, a democracia evoluiu!

Agora, a vingança do prefeito é desmontar o zoológico enquanto incrementa o Museu do Amanhã. Que amanhã é esse que não respeita e protege os animais? Melhor não perguntar para a cronista…

Pelo sim e pelo não, resta espaço para incluir nesse relato mais um desastre ambiental. O rompimento das barragens em Mariana mal completou dois meses e o Porto Guarujá respira elementos químicos tóxicos que entram em combustão na água.

Tião, o macaco, definitivamente estava certo. E Ziggy/Bowie, também. Boa viagem para as estrelas…

 * Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Satisfação garantida

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Escrever? Se superar a cada texto simplesmente para agradar a sorumbática cronista encarcerada do outro lado do túnel? São questionamentos de rebordosa de Pluct, Plact, o extra terrestre gente boa.

Pedir, ela não pediu. Não está interessada nos últimos acontecimentos nem para serem elementos de enredo de novela mexicana. Mexicana não. Russa. Daquelas em que não há páginas suficientes para descrever o ambiente em que as peripécias da estória se desencadearão.

Se for pra começar por aí… Choveu de menos, e depois choveu demais. A safra não está lá essas coisas. O verão é mais um verão daqueles depois de um inverno e uma primavera que foram mais quentes que o verão em pauta, se for possível.

O calor é grande, o sol é forte. O mar revolto gigantesco e cheio de valas e correntezas coaduna perfeitamente com a incrível regelante temperatura da água do mar. Está daquele jeito que quando a gente coloca o pé e a marola atinge a canela sente como se tivesse uma bota de gelo nas pernas. O aviso prévio é dado lá em cima, onde o mar se espraiou e jogou sua espuma algumas ondas atrás. A umidade dessa faixa recém lambida é gélida!

A maré está altíssima. Apesar da lua minguante a areia foi gulosamente abocanhada pelo oceano deixando pouco espaço para cangas, cadeiras, barracas e uma babel de línguas e maus costumes.

Sabe o quanto isso interessa para o cotidiano do cidadão que dormiu embriagado dando adeus a 2015 e acordou numa tremenda ressaca, inflacionado, taxado e recessivo em 2016? Quase nada. E o pouco que vale é por ser um dos elementos catalizadores do torpor que domina a massa: nem na praia dá pra ter paz. Só queimaduras originadas no descuido com o sol forte e o vento enganador.

Antes que houvesse tempo para encarar um processo detox para se recuperar do feriado, eis que cai o rei! A rainha de copas já tinha ido pro book no ciclo anual anterior. Mas quem diria que fundo do poço seria o limite dos negócios da China? Aquele fundo do poço tipo sem direito a luz no fim do túnel. O buraco é beeeeem lá embaixo, do outro lado do globo terrestre.

Pelo menos, contará o revoltado ser interplanetário para sua correspondente que, sim, várias tentativas foram feitas para viabilizar a premissa presidencial de que “A questão do equilíbrio fiscal é essencial para o controle da inflação”.

Entre a entrada do bom velhinho pela chaminé e a tentativa frustrada de visitar o Museu do Amanhã (que terminou no final do feriado prolongado do Réveillon), o pontapé inicial das medidas urgentes para conter a crise foi dado! Mudaram o jogo para facilitar os acordos de leniência com as empresas que corromperam, lesaram, fraudaram e roubaram o meu, o seu, o nosso suado dinheiro. Ficam garantidos os investidores e financiadores para as futuras campanhas políticas –  falando para os mais ingênuos, ou para dar suporte à viabilidade da continuidade da construção do projeto político em curso, num vocabulário mais, assim, um pouco mais.

Entre a avalanche de aumentos e reajustes, um setor foi claramente beneficiado, segundo a análise fria e calculista, quase sherloquiana, do perspicaz olheiro das galáxias. Com o aumento das taxações para as bebidas e eletrônicos, soltam rojões e foguetes os… costrabandistas! Eles verão seus negócios tomarem rapidamente um novo e revigorante fôlego…

Pra começar o ano, até a cronista convirá, foi um movimento e tanto. Quase uma bomba de hidrogênio!

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas fabulosas” do Sem Fim…

De nada

Arpoador 151216 013.jpg parede sombra correndoTexto e foto de Valéria del Cueto

Seria só um título se não fosse a expressão que moverá a roda em 2016.
“De nada”, aquele procede a um “muito obrigado”.
A gentileza gerada pela gentileza, num mundo onde a norma vigente é a pancadaria, o revide.
Em tempos de toma lá, dá cá, como tentar praticar a leveza para ser livre, solto?
Só com muita delicadeza.
Um exercício permanente e infindável de olhar além da realidade nua, crua e, por conseguinte, violenta, cruel!
Não é para qualquer um, nem em qualquer lugar.
Depende de equilíbrio, força de vontade e uma grande dose de malemolência, aquela arte de rodar um bambolê do carinho, sem deixar o arco da paciência cair, nem mesmo diante das maiores e constantes provocações.
Isso é estar em sintonia branda com o mundo.
Saber levar na esportiva, conseguir rir dos percalços e sacudir a dureza das ideias preconcebidas e tolhedoras da criatividade, empecilhos para novas descobertas e outros conhecimentos humanos e sensoriais.
Não é tarefa fácil. Exige paciência.
Que se considere apenas um teste a mais os tropeços e desvios das metas previamente traçadas. Há que ter planejamento! Nem que seja para ter o que desconstruir quando a tendência for apocalíptica ou diluviana.
É tempo de não haver um quase amanhã. Para que possamos renascer….
Seja na caridade do menino Jesus (e seu nascimento simbólico) ou na contagem gregoriana de mais um ano que começa.
E aí, voltamos ao início. Ao “de nada” que nunca vem só. Quando acontece é a resposta a uma reação provocada por uma ação inicial.
Só quem doa ou se doa para ter direito a um “de nada”.
Esse é o jogo do futuro próximo. Cultivar gentilezas, produzir delicadezas para suportar a onda que se forma no horizonte.
Um “de nada” aumenta o fôlego para a hora em for necessário submergir, mergulhar em direção ao futuro. Seja ele qual for. Tomara que o melhor.
Esse é só um desejo de quem passa pela vida tentando cultivar pequenos e inocentes jardins de consciência. Espalhados ao longo de muitos caminhos ligados por infindáveis encruzilhadas. E, nelas, uma sucessão de encontros e alguns – poucos – desencontros.
É hora de começar tudo de novo, ou seguir em frente, de acordo com os desejos de cada um, nessa (res)pirada de 2015 para 2016.
Tudo que posso e desejo a vocês, leitores e amigos, é que sejam muitos os “de nada” que virão nessa longa, trabalhosa e, espero que valorosa, jornada.
Obrigado por ter, mais uma vez, a sua atenção, carinho e companhia nessa, que pode ser a nossa virada.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Caravana musical

POAUGN 151021 008.jpg pampa silueta boiTexto e foto de Valéria del Cueto

Entrar no Cine Pampa, em Uruguaiana, fronteira do Brasil com a Argentina, foi como voltar no tempo. No mesmo espaço, no início da década de 80, tive o prazer de conhecer o berço do movimento que geraria o de melhor a música nativista gaúcha produziu: a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.

Novamente as raízes levavam ao agora Teatro Rosalina Pandolfo Lisboa. Era uma apresentação de música campeira, a “Caravana Chamameceira”, uma promoção do Arte Sesc que aportava no berço do nativismo com um show da família Fagundes, Elton Saldanha e Alejandro Brittes.

Dos gaúchos já conhecia um pouco de suas obras re-conhecidas por todos. Do acordeonista  argentino nunca ouvira falar.

Depois de passar pela portaria do teatro e até entrar na sala de espetáculo a impressão que o tempo parou. Destaque para a boa conservação do espaço, muito bem cuidado.

Foi só impressão e durou pouco. A sensação foi quebrada. No palco, junto aos microfones, duas cadeiras, dessas brancas de plástico, destoavam do clima. Substituíam antigos mochos em que violeiros sentavam-se e acordeonistas apoiavam os pés.

Um giroscópio alucinado começou a projetar nas paredes laterais espirais lançados de canhões de luz no fundo do palco. Cai na real, diminui a expectativa pensando que era melhor retornar ao vigésimo primeiro milênio e abrir a mente para o que viria.

O espetáculo dirigido e produzido por Magali de Rossi já percorreu 12 cidades brasileiras, 2 argentinas e fez uma excursão pela Itália, rodando por 9 cidades, entre elas, Veneza, Verona e Roma.

Quando o show começou mais um estranhamento. Elton Saldanha abriu com algo parecido com um iê-iê-iê (lembram disso?) e lascou em seguida uma batida tipo sertanejo universitário. Demorou mas engrenou. Ernesto Fagundes, tocando bumbo legüeiro, apresentou os parentes. Nico e o Bagre, seu pai. Começou a falação. Nico Fagundes é apresentador do programa Galpão Crioulo, e Elton Saldanha locutor. Várias vezes se referiram ao fato de que ali era o palco da Califórnia entre outros clichês. Ora, ali só tinha “cobra criada”…

Trocaria a prosa por mais uns dois bons números musicais. Principalmente se executados por quem quase nada falou e arrasou. Quando Alejadro Brittes abriu a gaita começou a melhor parte do espetáculo.

A magia foi quebrada quando cantaram em castelhano um chamamé lindíssimo composto em guarani. Se vale português e espanhol, por que não na língua nativa dos paraguaios?

Nem mesmo a iluminação de Fabrício Simões (que colocou os canhões de luz giroscópicas em linha na altura dos ombros dos artistas, torturando quem estava na plateia), conseguiu quebrar a força da gaita chamamecera que enfeitiçava a todos. Bastava fechar os olhos para sair da vulgaridade cênica sem conexão lógica com o espírito musical.

Depois de clássicos como “Km 11”, “Merceditas”, “Eu sou do Sul”, a noite foi encerrada com o emblemático “Canto Alegretense”. Podia ter mais…

Todo espaço para a maravilhosa música pampeira. Mais pureza e menos enfeite. Sem traduções e tentativas de explicar o que, por si só, já diz a que veio e até onde pode chegar. Viva o Chamamé, o Sapucay.

E aguarde a caravana musical

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Tudo isso e muito mais

Belém 150916 139 Ver o Peso vegetal Banca Dona Coló aberta São JorgeTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Estive na Estação das Docas (de novo!), em Belém do Pará, para assistir ao lançamento, em setembro, do III Prêmio de Jornalismo em Turismo “Comendador Marques do Reis”, no Teatro Maria Sílvia Nunes.

Foi como entrar no túnel do tempo. Ali, há uma década, começava minha paixão pela capital paraense. O curta metragem “História Sem Fim, do Rio Paraguai – o relatório” era um dos selecionados para o Festival de Cinema de  Belém, produzido por Emanuel Freitas e pela maior representante paraense no cinema nacional, a queridíssima Dira Paes. A base do festival era numa embarcação atracada no cais, na ponta dos 500 metros ocupados pelos três armazéns que compõem o complexo  de salas, cinemas, restaurantes, lojas, a beira da Baía do Guajará.

Foi pelos corredores do teatro, onde os filmes eram apresentados, que vi passar um “cortejo” da Marujada que homenageia o santo negro. Ela é realizada, desde 1798, pela Irmandade de São Benedito de Bragança, no nordeste do estado. Como boa cuiabana “pau rodado” já tinha uma queda pelo santo protetor de  Cuiabá, capital de Mato Grosso. Quando ouvi o choro da rabeca, tambores, cuíca, viola e cavaquinho tocados pelos homens e vi as mulheres, com trajes característicos e chapéus de fitas, me rendi: ali nascia um objetivo.

Desde então persigo o sonho de ver o auto dramatizado ao vivo e a cores, em seu local original. Nunca cheguei lá. Mas o interesse pela procissão, que percorre as ruas em agradecimento a autorização dada pelos senhores para que os escravos pudessem fundar a Irmandade em Bragança, já rendeu frutos. Foi falando  dela que tirei um dez numa das matérias da faculdade de Gestão de Carnaval, da Estácio de Sá.  Isso foi antes que a Marujada de Bragança virasse Patrimônio Cultural do Pará, o que aconteceu em 2009.

Tudo isso passava pela minha cabeça enquanto ouvia o Secretário Estadual de Turismo, Adenauer Goes, falando sobre os objetivos do prêmio e comemorando o aumento de um dia no roteiro de atividades turísticas disponíveis em Belém.

Discordo dele. Positivamente, é claro! Acho que quem visita Belém não deve se limitar a três ou quatro  dias para explorar tantos atrativos como os apresentados em Cine Ópera, Céu na terra, PARAiso dos Sabores e Florestas Urbanas. E ainda falta…

Acontece que é preciso respirar no tempo de Belém e não no ritmo dos roteiros tradicionais de turismo para conseguir a sintonia ideal que faz da cidade um lugar tão sedutor. Há o calor. Ele faz com que, mais que simplesmente inspirar e expirar no batidão frenético das excursões, precisemos respirar fundo e pausar a correria. Tudo no timming amazônico: as manhãs no Ver-o-Peso, o Tacacá das cinco da tarde, a Cidade Velha, o complexo Feliz Luzitânia, os parques… Já estou na quinta crônica e ainda falta falar de tantas coisas!

Depois de 10 anos do Festival de Cinema, consegui voltar. Foram 10 dias dessa vez. Posso garantir: ainda tenho fome de Belém. De conhecer seu povo, explorar melhor sua riqueza histórica, me surpreender pela maneira incrível com que a contemporaneidade se aproveita, explora e se fundamenta de tanta tradição. Sabendo dar continuidade às realizações e projetos. Tendo sabedoria para conseguir unir e integrar os elementos que constituem a sociedade local.

Não conheço outro lugar em que o diálogo entre a comunidade, as forças militares e a marinha mercante tenha alcançado tanto êxito. Enquanto, normalmente, esses elementos são entraves para a valorização de áreas turísticas (ai, meu Rio de Janeiro) lá, o que se vê, é quase a realização de uma utopia. Que se ainda não está 100% consolidada é porque sonhos grandiosos como esse levam tempo para serem concretizados. Demandam muita energia, amor e uma dedicação quase insana, em que as vaidades individuais sejam deixadas de lado em favor do bem comum.  É isso que Belém tem.

E muito mais! Um dia, certamente, como eu, você também será seduzido e há de (re)conhece-la.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

Florestas urbanas

Belém 150915 068 Bosque Rodrigues Alves Iara lago amazôniaTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Há mais em Belém do que se imagina numa primeira abordagem. A cidade em 2016 comemora  400 anos da sua fundação e foi considerada, na época da áurea do extrativismo da  borracha, de 1890 a 1920, a “Paris n’América”. Pensam que é pouco?

Foi do “Bois de Bologne”, da Cidade Luz que veio a inspiração para a reforma do Parque Municipal, criado em agosto de 1883. Antônio Lemos, intendente municipal, o transforma no Bosque Rodrigues Alves, hoje reconhecido como Jardim Zoobotânico da Amazônia.

Passear por sua área de 15 hectares, é uma viagem à floresta amazônica, com direito a alamedas, viveiros, monumentos e recantos com grutas, riachos e cascatas. São mais de 10 mil árvores, de aproximadamente 300 espécies da região, incluído algumas em extinção. Caso do Cedro, Anjelim Rajado e Talibuca. O clima fica completo com 430 animais, de 29 espécies, que vivem em cativeiro. Outras 26 circulam livremente pelo espaço. São aves, répteis e mamíferos regionais coexistindo em perfeito equilíbrio com a natureza.

Pereira Passos, em 1905 faria a reforma urbanística do Rio de Janeiro. O prefeito carioca se inspirou e bebeu da mesma fonte que o responsável pelas mudanças urbanísticas que até hoje caracterizam Belém. Antes disso, a capital do Pará já havia partido na frente: foi a primeira cidade brasileira a ter luz elétrica e linhas de bonde elétricos. Era o auge do Ciclo da Borracha, em plena Belle Époque.

Da Europa chegam máquinas e peças de ferro, oriundas das mudanças provocadas pela Revolução Industrial. Muitas dessas estruturas podem ser vistas pela cidade. Entre elas o Chalé de Ferro, pré-fabricado e trazido da Bélgica. Montado entre 1882 e 1900, com 378 metros quadrados, serviu de residência e foi realocado no Bosque Rodrigues Alves.

Todo o complexo, que também é um campo de estudos e cultivos de mudas, é responsabilidade da Prefeitura Municipal e gerenciado pela Secretaria de Meio Ambiente.

Um Parque Zoobotânico está bom? Está não… Belém tem, além do Mangal das Garças, (já devidamente destrinchado em “Céu na terra”), mais um lugar especial para interagir com a grandiosidade da natureza local.

O Museu Emílio Goeldi, instituição de pesquisas ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, se dedica, desde 1866, a estudar cientificamente os sistemas naturais e socioculturais da Amazônia. São mais de 5 hectares com  2 mil espécies, 600 exemplares da fauna e muitas atividades. Entre elas, exposições sobre temas locais, como “Amazônia, o homem e o ambiente” que ocupa uma das quatro salas do prédio principal, conhecido como Rocinha.

Destaco a recepção proporcionada por Rafael, um dos integrantes do Clube do Pesquisador Mirim. Nos abordou uniformizado, de prancheta na mão, querendo que respondêssemos a algumas questões sobre o parque, seus animais e nossas expectativas em relação ao passeio. Compenetrado, nos acompanhou mostrando algumas das atrações que mais gostava. Explicou que não havia chegado ao clube pela escola, mas pedindo que sua mãe o levasse até o Museu depois de assistir na televisão uma reportagem sobre as atividades dos participantes. As matrículas anuais estavam abertas. “Não parei de perturbar até ela me trazer. Estou adorando.” A ação educativa começou em 1997 e, de lá para cá, foi definitiva na escolha da profissão de inúmeros estudantes que passaram pelo clube. Muitos seguiram carreiras nas áreas de Zoobotânica, alguns São profissionais ligados a instituição.

Talvez esteja na hora do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes fazer uma visita a Belém do Pará para entender como é essencial a existência de um zoológico para uma comunidade. Quem sabe, não volte de lá com noções de como manter esse tipo de estrutura sem precisar entrega-la à iniciativa privada. Todos os espaços aqui citados pertencem e são geridos pelo poder público. Vivendo e aprendendo…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

PARAiso dos sabores

Belém 150914 017 Bar do Rubão fogão caranguejoTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Se é Nossa Senhora de Nazaré no céu durante os festejos do Círio, também é gula (que Deus nos perdoe)  aqui na terra. Quem resiste aos encantos culinários de Belém do Pará? Nem eu que não sou lá grande coisa quando o assunto é gastronomia. M sinto impedida por um fato prosaico: não como frango, galinha, nem nada que voe. Falamos da terra do Pato com Tucupi, captou?

Vou começar pelo fim e num lugar bem fácil: a óbvia e imbatível sorveteria Cairú, na Estação das Docas (sonho de consumo de cidades como o Rio de janeiro, um enorme complexo turístico cultural composto por três antigos armazéns, ao lado do famoso Mercado Ver o Peso e da Cidade Velha e seus monumentos). Meus preferidos são o picolé de Tapioca e o sorvete Carimbó: castanha verde com geleia de cupuaçu. Meu Deus! De comer ajoelhada e repetir várias vezes.

Sabia que ia voltar ao “Lá em Casa”, no Armazém 2, o Boulevard da Gastronomia, de Daniela Martins. Primeiro passei num almoço, tipo self-service. Melhor o clima da noite, mais aconchegante e tranquilo. O Filé Ilha do Marajó, prato da Boa Lembrança, tem geleia de cupuaçu, pimenta rosa, queijo do Marajó e jambu.

Demorei a entender por que às cindo horas da tarde, num calor mais abafado do que deveria ser (considerando que dos 10 dias que passei, só duas vezes choveu no horário costumeiro e num outro dia já de noite), vinha o convite para irmos tomar um Tacacá. Caldo de Tucupi sobre a goma de tapioca, jambu, chicória, camarões, etc, etc. No segundo chamado no mesmo horário incomum foi que deduzi que esse é um costume local e, assim sendo, fui introduzida no metier na hora que, na Inglaterra, é costume tomar o chá das cinco. Numa calçada da Avenida Nazaré, no Largo Redondo, em frente ao colégio Nazaré, fica o Tacacá da dona Maria. Peleio para me entender com a cuia, cestinha, palito e, fundamental, muito guardanapo. Não há como negar que é soberbo!

Também tem o Açaí. No Point Boulevard ele vem com tudo: tapioca e farinha d’agua. Acompanha o Filé de Pirarucu com vinagrete, arroz, farofa. Isso após um passeio pelo variadíssimo Ver-o-Peso, o entreposto fiscal fundado em 1625 para aferir os produtos e pagar os impostos para a coroa portuguesa que se transformou na maior feira livre da América do Sul, com seu estilo Belle Époque. Fartura e variedade de produtos, cheiros e coisas que nunca se viu na vida.  Vai Pitaya ai?

Outro lugar muito agradável é o Restô do Parque, no mesmo espaço da Estação Gasômetro, o Parque da Residência, antiga Casa dos Governadores. Um buffet à quilo, da rede Pommed’Or. Tanto aqui quanto no Manjar das Garças o quesito visual é nota dez. No restaurante do Mangal das Garças, o buffet é a preço fixo, o que, no meu caso, não é muito interessante.

A não ser… no lugar que deixei por último. O Bar do Rubão, na Travessa Gurupá, Cidade Velha. O “carnavalesco e cozinheiro” me pegou pelo sorriso e também pelo estômago. Bati ponto. A primeira vez, para experimentar o caranguejo desfiado com farofa. Depois, numa madrugada, foi a vez da singela e reconfortante sopa de caranguejo.

A última investida foi durante o Projeto Circular em que conheci a Casa Stúdio de PP Condurú, depois de visitar a Elf Galeria, de Lucinha Chaves, na Passagem Bolonha, e aKamara Kó, galeria de fotos ali mesmo, na Cidade Velha. Pois chegamos nas mesinhas colocadas na calçada dispostos a experimentar o Pirarucu de Casaca. Pura ilusão. Pauta para a próxima visita. A iguaria havia acabado logo no início dos trabalhos. Além do caranguejo de consolação, fui apresentada ao Camusquim, macarrão com molho branco e camarão. Li em algum lugar que é prato típico do Marajó. Uma coisa!

Mas não é tudo. E aí, um toque que faz de Belém um local para todos os tipos de paladares. Foi no Bar do Rubão que comi uma das melhores batatas fritas que já provei na vi-da. Crocante por fora e um cremezinho por dentro. Viciante. De dar água na boca só de lembrar.

Belém é um PARAiso dos sabores para todos os gostos…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

Belém 150914 016 Bar do Rubão  e cozinha

Céu na terra

Belém 150915 119  Mangal das Garças ave laranjaTexto e foto sobre Belém, de Valéria del Cueto

Belém do Pará é um lugar multifacetado e isso é apenas uma de suas seduções. Outubro, o mês de sua maior festa, o Círio de Nazaré. A cidade se engalana para receber os romeiros e devotos da santa.

Antes do início da festa, no intervalo após o Festival de Ópera do Theatro da Paz, Belém é deliciosamente calma. Bem diferente do agito social frenético que domina as festividades religiosas.

Um ótimo momento para explorar o Mangal das Garças! Era desejo antigo guardado para quando tivesse tempo sobrando para sintonizar e realinhar as energias com a natureza exuberante. O espaço, aberto em 2005, ocupa 40 mil metros quadrados na margem do rio Guaná, ponta da Cidade Velha, ao lado do Arsenal de Marinha.

O Memorial Amazônico da Navegação apresenta os elementos dominantes no meio de transporte que forjou Belém: o militar(Marinha), o comercial(ENASA) e o regional. A estrutura do prédio, em Ipê, e seu telhado de palha se integram com os objetos exibidos. Destaque para as peças refletidas em espelhos e enquadradas pelas laterais vazadas da construção. Um divertido exercício fotográfico, antes de uma mudança radical nas dimensões exploradas.

É no alto do Farol de Belém, outra das atrações pagas, assim como as demais visitas monitoradas, que temos uma ideia do espaço geográfico onde está encravado o Mangal.

O rio, o projeto arquitetônico do Parque Naturalístico (capitaneado por Paulo Chaves Fernandes, secretário estadual de Cultura) e a cidade de Belém, dominada por suas maravilhosas mangueiras, se descortinam de 47 metros de altura, no topo da torre da caixa d’água que abastece todo o complexo.

Os Lagos Cavername, da Ponta e o minizoológico, onde os animais interagem ou ignoram solenemente os visitantes, são os recantos referenciais do espaço gratuito concebido para apresentar as matas de terra firme, de várzea e os campos: componentes do ecossistema amazônico.

Aberto das 9h às 18h de terça a domingo, a partir das 7h está liberado para caminhadas. Também é possível acompanhar diversas atividades relacionadas ao cotidiano local como alimentação de peixes, tartarugas e garças, no Recanto da Curva, e soltura de borboletas, no Borboletário.

Se a sintonia for fina, a energia boa e a paciência muita, é possível “dialogar” e clicar garças, maguaris, socós, marrecos, tartarugas, iguanas que “ocupam” o espaço.

Dois viveiros, um de pássaros, outro de beija-flores e borboletas, podem ser visitados. No dos pássaros, conta seo Carlos, o encarregado, estão abrigadas espécies recolhidas pelo IBAMA e ainda incapazes de voltarem para a natureza. Do órgão também vem a madeira apreendida nas operações contra o desmatamento utilizada na conservação e manutenção do parque e seus equipamentos. Pelo menos uma vez por ano, por causa das chuvas, parte das estruturas de madeira tem que ser substituída para segurança dos visitantes: aves, animais e turistas.

O restaurante Manjar das Garças, com um visual incrível, e o Mirante do Rio, projetado sobre o Guaná no final de uma passarela de 100 metros sobre os mangues com sua vegetação típica, o aningual, são outras atrações a serem exploradas. Tudo num tempo próprio, onde a luz modifica o ambiente e cria efeitos diferentes no correr do dia. O Armazém do Tempo, no galpão de ferro da ENASA, Empresa de Navegação da Amazônia S/A, usado como oficina mecânica e de reparo de embarcações, transformou o ambiente restaurado num espaço de exposições e venda de produtos indígenas.

Criado há dez anos, o Mangal das Garças é, sem dúvida, um referencial urbanístico brasileiro. Integra a comunidade, permite a interação homem/natureza e explora de forma sustentável as belezas da Amazônia.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Cine Ópera

Belém 150919 076 Theatro da Paz Festival de Ópera encerramento

Texto e foto sobre Belém, de Valéria del Cueto

Belém do Pará estava na mira fazia tempo. Só faltava o motivo inadiável para uma nova aventura amazônica. Que tal a estreia do cineasta  Fernando Meirelles, indicado ao Oscar por “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”, na direção de uma ópera? No caso, Os Pescadores de Pérolas, de Georges Bizet, destaque do XIV Festival de Ópera do Theatro da Paz.

Antigamente chamaríamos de combo ou “três em um”, o que hoje é multimídia mesmo. Inclusive geográfica. A exótica ilha do Ceilão onde se passa a narrativa é representada no palco, nas finas telas transparentes de cinema que compõem a cenografia assinada por Cássio Amarante, por planos rodados no Jardim Botânico Amazônico de Belém, o Bosque Rodrigues Alves.

A cena abre com uma imensa projeção remetendo ao fundo do mar e o trabalho dos mergulhadores que exploram as profundezas em busca das valiosas pérolas.  As soluções pesquisadas na medida em que o livreto de Eugene Cormon e a música de Michel Carré foram sendo decupadas, segundo Meirelles, servem para aproximar o público da trama que envolve os amigos Nadir (Fernando Portari, tenor),  Zurga (Leonardo Neiva, barítono) e as consequências de suas paixões pela mesma mulher, a  sacerdotisa Leila (Camila Titinger, soprano).

Extrapolando o espaço cênico e “ocupando” a plateia é criada a sensação de que os assistentes fazem parte da comunidade de pescadores de pérolas que, ao descobrir que a sacerdotisa e Nadir haviam traído os votos necessários para proteger a aldeia e favorecer a pesca, comandada pelo sacerdote Nourabad (Andrey Mira, baixo), exige o sacrifício dos amantes.

Caberá a Zurga que se sente traído pelo amigo num antigo pacto, condenar os amantes: morte, ao raiar o dia, logo que o sol se levante. Mas, ao reconhecer no colar entregue por Leila para ser levado para sua família, como o que ele deu a menina que anos antes salvara sua vida, o líder dos pescadores toca fogo na aldeia e facilita a fuga dos amantes, antes de reconhecer para os aldeões ser o autor do fogo que consumiu seus lares e enfrentar as terríveis consequências de seu ato.

O Coro Lírico, conduzido pelo maestro Vanildo Monteiro, tem papel de destaque assim como a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, regida pelo jovem  Maestro Miguel Campos Neto. A apresentação, mesclando nomes conhecidos no cenário de ópera nacional e valorizando os talentos do canto lírico local, foi inesquecível. Aplaudida de pé nas três récitas lotadas por um público exigente e ávido de boa música.

O XIV Festival se encerrou no dia 19 de setembro com um concerto ao ar livre, na frente do espetacularTheatro da Paz, com a apresentação peças do repertório lírico. Para fechar a edição que antecede as comemorações dos 400 anos de Belém, na execução do hino do Estado do Pará, uma imensa bandeira paraense foi desfraldada, cobrindo a fachada de arquitetura neoclássica, inspirada no Theatro Scalla de Milão, na Itália. Lindas as expressões de orgulho nos semblantes dos que aplaudiam a performance.

Tanto as récitas de “Os Pescadores de Pérolas”, de Bizet e “A Ceia dos Cardeais”, de Iberê de Lemos, como o Concerto de Encerramento que compuseram a programação entre o dia 7 de agosto e 19 de setembro de 2015, deram a dimensão do trabalho de excelência que vem sendo desenvolvido nas 14 edições do Festival de Ópera do Theatro da Paz, promovido pelo governo do Estado do Pará, através da Secretaria do Estado de Cultura, sob a batuta do arquiteto Paulo Chaves Fernandes.

Ano que vem, nas comemorações dos 400 anos de fundação da surpreendente e pujante Belém do Pará, podem ter certeza: estarei novamente na plateia aplaudindo a uma nova e, certamente, empolgante aventura lírica no maravilhoso espaço concebido pelo engenheiro militar, José Tibúrcio de Magalhães, no auge do Ciclo da Borracha.

A César o que é de César…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Passarins pasarán

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Passarão era o rei da voz. Incontestavelmente. Sabia de suas qualidades e fez jus ao título enquanto intérprete da trilha musical. Empoleirado no alto do alto do Jequitibá encantava toda a floresta.
Tinha ajudantes. Seu segundo, Passarito, ciente do seu papel, conhecedor do seu lugar. Sabia quando e onde pontuar as melodias tão belas que representavam a rainha das flores, a rosa formosa.
Era um prazer ouvir a sinfonia. A floresta se animava se sentindo estimulada e afagada pela cantoria magistral dos pássaros. Quase um feitiço.
Um dia chegou o dia de Passarão cantar para subir. Era esperado. Seu tempo, esgotado. Partiu. Houve gurufim e homenagens. Passarito assumiu o posto vago.
Dias antes de sua primeira apresentação a frente dos pássaros cantores, num ensaio técnico, passou mal. Coração disparou e quase saiu do peito. No céu, carimbaram o passaporte celestial de Passarito. O que estabelecia o caos no conjunto do desfile e falha na harmonia. Mas era vontade do Criador.
Só que… O anjo encarregado de conduzir Passarito em sua passagem havia chegado mais cedo e assistido extasiado ao ensaio final do espetáculo, no palco não totalmente iluminado, mas tomado pela imensa emoção. Naquele momento, seu coração inebriado de anjo se tomou de amores pelas cores e o perfume da flor verde e rosa e não achou justo que Passarito faltasse ao compromisso assumido e esperado por tanto tempo.
Quebrando a regra número um dos condutores das boas almas resolveu dar um perdido nas instâncias mais elevadas e soprou novamente a vida pelo bico de Passarito. Este, desperto e animado, não parou mais nem deixou em nenhum momento de fazer por merecer a confiança do anjo.
Anjo protetor por seu ponto de vista, mas traidor pela ótica do Primeiro e Único.
Por muito tempo infinitos afazeres tiraram o foco e a atenção do Altíssimo para o desvio, vamos chamar assim, que havia acontecido.
Passarito, ave boa e cantadeira, espalhava alegria e fazia por merecer seu tempo extra no plano terreno. Não havia uma melodia melhor do que outra, nem emoção maior do que poder soltar seus gorjeios e trinados. Estes reverberavam pelas árvores para animar a vida de todos os seres da floresta. A cada verão uma nova canção para celebrar a alegria.
Até que um dia, chegou a hora de falar de Oiá. E quando Passarito abriu o peito e pediu forças ao Criador para, mais uma vez, elevar seu canto verde e rosa, Iansã soprou um vento empolgada e, pensando ajudar Passarito, fez seu pedido chegar lá no céu.
Céus! O que virou a notícia lá em cima. A pergunta que não quis calar foi: como podia estar faltando o trinado de Passarito no coro celestial? Então já não havia sido determinado que Passarito se juntasse aos “Bambas da Lira” tempos atrás?
Chamado aos costumes fez o anjo um “mea culpa” e surpreendeu o conselho dos arcanjos ao pedir perdão, mas sem se arrepender. Disse que qualquer punição é válida diante do prazer de ter acompanhado, durante o tempo de Passarito na terra, suas apresentações puxando gorjeios das almas dos bicudos voadores. Quase encantado…
Não teve nem tempo de argumentar. Enquanto tentava se defender, lá embaixo, Passarito partia. Sem direito a nem mais um minuto de acréscimo. Rapidamente ele foi catapultado para o nível superior e já caiu no meio da cantoria celeste festejado e arrebatado
No Jequitibá, ainda sentido, a passarinhada já segue a vida. Passanerey assumiu o posto de Passarito, que era de Passarão, e a responsabilidade de embalar o canto de Iansã na próxima apresentação. Será igual? Nunca! Mas não esqueça: “Passarins pasarán e sempre, para sempre, passarinharão…”
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM FIM… delcueto.word

Pura verdade

Arpoador 150529 011 andaime trabalhador pássaroTexto e foto de Valéria del Cueto

Pulava de um galho balançante para o topo do arbusto junto aa parede. De lá, para o xaxim da samambaia. Dele, cruzava o espaço num voo rápido para um pedacinho de terra, no pé de uma Felicidade.

Mirava com seus olhinhos assustados – e já estressados – sempre a maior porção possível de céu azul.

Lá no fundo podia vê-la.  Ia ele em sua direção e… “TABOUF”. Caindo desgovernado para um lado, asas desalinhadas do outro e aquela sensação de haver batido de frente com uma coisa muito, muito dura.

O barulhão já indicava o nível da porrada contra o que, até sentir nas penas e no corpinho leve e mirrado por elas protegido, era nada.

Agora, mais que uma pedra, havia uma barreira invisível e impenetrável no caminho de volta à liberdade.

Atordoado com as pancadas, assustado com os barulhos,  desalinhadas as plumagens encarregadas de sua engenharia perfeita de voo, o chão duro era o limite intransponível para o final da queda desajeitada por falta de tempo/espaço para realinhar a descida.

Doída e inexplicável.

Dizem que a curiosidade matou o gato. Pois fiquem sabendo que também foi ela que prendeu e desorientou o passarinho.

Pelo menos esse foi o caso…

Rompeu a barreira das casas empilhadas dos Joãos e Josés, não de barro, mas, sim, de cimento saindo do aconchego das árvores protetoras das ruas, ao entrar numa fresta entre dois poleiros de concreto. Trocou o corredor de árvores e abrigos por outro. Sempre imaginando o que havia por lá, do outro lado.

Nunca pensou entre em rasantes e embicadas que daria naquilo. Aquele quadradão inútil, uma selva de pedra com duas árvores e muitas divisões estéreis, pateticamente possuídas e pouco utilizadas em pequenos coletivos egoístas.

Primeiro um geralzão planando entre prédios e janelas, com direito a rasantes pelos tristes espaços vazios, em tons de nada, nem mesmo terra. Uns mais altos. Outros mais baixos. Num dos espaços um verde grama falso de carpete tenta engambelar os olhos e, certamente, não tem o mesmo efeito nos outros sentidos: tato, paladar, olfato. É plástico ou algo assim muito sintético e nada natural, experimentou.

A revista aérea continuou até descobrir uma variação nas cores, um algo mais. Numa altura maior, quase na quina do quadrado, florezinhas cor de rosa e arbustos sacudidos pela brisa convidavam a uma parada extra.

Foi lá que como Ivo, ele viu a uva, quer dizer, as plantas dentro da casa. Diferentes, variadas. Ia alcança-las. Rodeou, deu voltas e achou uma fresta. Mal sabia que disfarçada. Por ali não teria volta. Mas pra que? O céu azul estava ali, tão perto…

Bateu, tonteou, voltou, mirou com cuidado e mergulhou de novo. Perdeu o voo e despencou. E ali ficou. Desejando nunca ter entrado no paraíso.

Pancada daqui, confusão dali, o barulho finalmente atraiu uma boa alma que, depois de pelear um pouco com o pássaro assustado, abriu passagem escancarando as  janelas. Em mais uma tentativa (dessa vez meio cuidadosa, sem muito ímpeto devido aos efeitos das incontáveis trombadas anteriores) da ave, o céu inacreditavelmente voltou a ser o limite.

Ela aprendeu a lição: nesse mundo surpreendente, coisas que parecem não são exatamente. Nesses jardins individuais, feitos para suprir a ausência dos pés no chão, não há espaço para a fertilidade. E – quem não sabe? – onde a fauna não é bem vinda, a vida não reproduz. Esta é a mais pura verdade…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

O próximo pode ser o seu

Ipanema 150813 004 árvore copa delirioTexto e foto de Valéria del Cueto

Era a vez do dia de estender a mão. Já ouviu falar? Isso mesmo. O tempo de distribuir, aceitar e retribuir gentileza, agir com mais leveza. Não era um dia qualquer.

Você pode ter sido recrutado para exercitar seu espírito do bem. Mas lembre-se: não necessariamente combinaram o mesmo com os demais atores das cenas cotidianas vividas e observadas no entorno.

O telefone vai tocar muito cedo. Engano. Não dedique  ao descuidado que quer encomendar umas comprinhas no mercadinho palavras impublicáveis e indesejáveis para terceiros. Amigos, conhecidos ou inimigos. Interrompendo o ritual matinal, deseje um bom dia e excelentes compras, com o recebimento dos produtos bem fresquinhos, razão da ligação para o pedido “assim que o mercado abre”, explica a voz do outro lado, já querendo puxar assunto. Seja delicado, mas desligue. O dia mal começou…

Na entrada do edifício não se abale com a ausência do porteiro para abrir trancas e trincos, não contabilizados no tempo apertado para o compromisso. Pense positivo, tudo tem uma razão. Se o responsável está ausente é por desempenhar outra tarefa, mais necessária e urgente. O cara é do bem, não é de hoje. Dedique-lhe o melhor sorriso e deseje um espontâneo e sincero bom dia. Ele e todos nós merecemos.

Se na passada rápida para sacar dinheiro o sistema estiver fora do ar, releve. Tenha calma e um andar ritmado a caminho da próxima agência. Afinal são tantos estabelecimento. No seguinte pode ser que o sistema, agora no ar, possa ser acessado. Se o equipamento não estiver em manutenção.

Dirija-se gentilmente ao balcão e informe o problema. Mesmo sabendo que a atendente certamente perguntará se o problema não é do seu cartão, ou se ele está sendo usado de forma inadequada. Nada pessoal é claro.

Cumprimente a moça, trate-a com carinho. Pense em como deve ser a vida dela. Diariamente, todos os dias. Tudo bem, ela tem salário, coisa rara hoje em dia. Mas a que preço. Faça uma boa ação. Não discuta, não reclame, nem lembre que tem seus direitos. Líquidos,  certos, porém difíceis de serem garantidos no dia a dia. Até a moça reconhece  solidária, pensando nas suas próprias demandas reprimidas e incompreendidas.

Não é fácil ser informada pelo cliente da mesa ao lado que sim, o banco voltou a receber os pagamentos da operadora de telefonia no caixa. Até janeiro de 2016. A gerente não sabia… Também – console a moça – como saber de tantas idas e vindas, ainda mais com as mudanças sucessivas e o bate cabeça da economia nacional, internacional e, quiçá, planetária.

Saia do banco com um atraso insuperável para ser administrado, mas não deixe de desejar bom dia para o segurança da agência, enrolado com um cliente mais enrolado ainda com a porta-giratória, mochilas, chaves, celulares e afins. Sorria para ele também.

O dia começa quente e abafado. O trânsito engarrafado.  Mero detalhe. Dedique um olhar acolhedor para os ambulantes que povoam suas esquinas. Precisarão de boas energias para venderem e correrem do rapa. Mesmo que não pretenda comprar nada e quase tenha tropeçado nas mercadorias tentando alcançar o espaço exíguo que serpenteia entre as ofertas eles merecem um sorriso. O ritmo do dia se espreguiça. Mais leve, menos pesado.

É nas pequenas atitudes que podemos ser melhores.  Independentemente do que vem do outro lado. Quando as coisas não vão bem, nem mesmo a vida ajuda. Se o que temos pela frente não é aquilo que sonhamos, o truque é mostrar para a vida como a gente gostaria que fosse. Começando na forma delicada de tratar a vida.

Como aqui, como agora. Neste papel que, graças a Deus, aceita tudo. Incluindo o otimismo, boa vontade e pequenos gestos de gentileza.  Amanhã ou depois experimente. Faça do seu um dia de estender a mão. E… sorria!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A torre (ou quem “bejô”, “bejô”)

Aterro 150714 032 fitas delirio finasTexto e foto de Valéria del Cueto

Ela me encarava e eu olhava pra ela. Me desafiava. Meio de banda. Esbarramo-nos cada uma das muitas vezes que cruzava a avenida. Depois do segundo recuo de bateria antes da Apoteose estava encravada do lado esquerdo e se projetava sobre a pista nove metros, setenta e cinco centímetros abaixo.

Desfile vem, desfile vai, ensaios técnicos também. Um dia, depois de alguns carnavais, comecei a engendrar uma estratégia para escalar a estrutura abusada. Foi engraçado porque o problema nunca foi o eu encontraria lá em cima. Tinha certeza que a proteção seria segura. Quem colocaria em risco a vida de fotógrafos e câmeras que passavam os carnavais empoleirados no alto da passarela suspensa?

Para subir tinha que ter fôlego. Aprender a dividir o pequeno espaço dos degraus da escada que levava ao topo. Era gente subindo, gente descendo e gente que – como eu, descobriu as variadas possibilidades de planos nas grades abertas para a pista dos desfiles carnavalescos carioca.

Numa noite do início dos ensaios técnicos comecei a vencer os degraus que levavam a um dos mais belos ângulos do Sambódromo Darcy Ribeiro, na Marques de Sapucaí. Primeiro, com cara de paisagem, subi o primeiro e o segundo lance e me encostei na grade, já testando o novo ângulo. Na maior naturalidade.

Na cabeça passou um filminho de uma experiência meio aterradora que tive na famosa Sagrada Família, em Barcelona. Cheia de moral larguei meu acompanhante embaixo e, em busca de uma visão especial (que nem era tão sensacional assim já que as janelinhas das torres não dão um ângulo muito grande de visão), subi que nem cabrita a escada em caracol, numa das quinas da gigantesca construção inacabada, obra do arquiteto catalão Antoni Gaudí. Na volta vi que não havia corrimão interno. Ou seja, só havia um lado de parede para se encostar. O outro era o vazio. Com gente subindo e descendo. Resolvi o problema descendo de costas, como se estivesse subindo. Olimpicamente. Ninguém me conhecia. Um quase mico. Confesso, gelei.

E lá estava de novo disposta a checar todos os patamares (se necessário fosse) para subir na torre de TV. Ainda tinha alguns ensaios técnicos antes do carnaval. Só que alcançar ao topo não era tudo. Era necessário escalá-lo várias vezes. Se possível, uma a cada agremiação. Lembrando que antes do Grupo Especial  havia o Acesso com muito mais concorrentes por noite.

E fui treinando. A parte mais difícil foi a final, onde o corrimão fica tristinho e não chega na estrutura. Nem o batismo do fotógrafo Diego Mendes, que pulava do lado sem apoio, balançando toda a estrutura, me preocupou. O que arrepiou foi o dia em que, numa troca de lentes com uma escola passando, a 18/105mm escapuliu da minha mão e foi rolando pelo parapeito em direção ao abismo. Até levar um tapão do Henrique Matos que a arremessou para a parte de dentro da passarela suspensa. “Machucou” o engate e tive que lixa-lo depois. Mas poupou um acidente mais grave ao infeliz componente que levasse uma lentada na cabeça.  Dava pra matar, Deus meu!

Passei por ela na entrada do Samba In Rio, em julho,  toda enfeitada de fitas metálicas na cenografia de Milton Cunha para o evento. Enquanto o coro cantava no show de Alcione, a Marrom, fiquei hipnotizada pelos reflexos das fitas. Fotografei, com a Lumix compacta e seu zoom poderoso, a dança ao vento dos fios coloridos lembrando momentos dramáticos da verde e rosa que havíamos testemunhado juntas: aborboleta fujona que hipnotizada se recusava se desviar do encantamento das câmeras da torre no enredo “Cuiabá, um paraíso no Centro da América”, em 2013. O índio que perdeu a cabeça no carro de “A festança Brasileira cai no samba da Mangueira”, em 2014. A redenção veio com o voo emocionante da Águia da Portela nesse carnaval.

A torre me deu mais uma lição antes de ser derrubada. Fiz uma foto aberta, dela enfeitada. Mas, contrariando a regra básica, achei que não era relevante e(crime!) apaguei. Mal sabia que seria nosso último contato antes da sua demolição e que, comigo, só ficariam as serpentinas que a enfeitaram na festa derradeira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “É Carnaval” do SEM   FIM…   delcueto.wordpress.com

Saída educadora

Arpoador 150628 015 Pedra portuguesa preto e branco tampa bueiroTexto e foto de Valéria del Cueto

Bate panela, cuida a canela.

E todo mundo continua falando pra ninguém escutando. Cada qual com seus motivos, sem que nenhum esteja coberto de razão, enquanto a coisa degringola.

E não tem pai nem mãe pra botar ordem no salseiro, pegar a criançada pela orelha e deixar todo mundo de castigo. Cada um num canto da sala com o nariz virado pra parede. De pé e ca-la-do. Não, não pode mais!

Pode mãe de aluno entrar com ação contra professora porque esta pegou o filho daquela ouvindo música no celular na sala de aula e, como assim? Tomou o aparelho do estudante. Ora veja só!

Sorte que o juiz do caso colocou cada um no seu devido lugar ano passado.

Pode professor levando sopapo de aluno viralizado pelas redes sociais.

Podem 11 mil alunos fantasmas nas escolas de Mato Grosso assombrando a SEC com um desempenho pífio no ENEM.

O maior produtor agrícola do país não consegue transformar a ignorância?

Uma escola de Livramento, a 42 quilômetros da capital, logo ali, é a quinquagésima no ranking. De baixo pra cima.

Dizer que é a primeira vez que a unidade educacional participa do exame não é desculpa. Pior é dizer que com o problema detectado ela vai receber atenção especial. Todas nossas escolas precisam de atenção especialíssima.

Para ver se alguma consegue chegar antes do… milésimo quadringentésimo vigésimo oitavo lugar na tabela nacional. Porque hoje, nenhuma!

Todo mundo que mexe com a Educação tem que ser responsabilizado por seus atos e severamente punido por seus “malfeitos” e desvios. Grande, médios ou pequenos. Xilindró pro no povo! Cadeia pra quem é responsável por piorar o que já vai muito mal.

Aliás, punição para quem sai da linha em qualquer direção.

Esse é outro problema. A falta de direção. O trem desgovernou, o bonde passou e o tal VLT não chegou.

Feliz de quem está só com as contas das obras da Copa. Aquelas que fizeram, mais uma vez, do Aeroporto de Cuiabá que fica em Várzea Grande, o pior do Brasil. Pobre Marechal Rondon com seu prezado nome ligado a tanta má fama. Nossa porta de entrada para a Amazônia.

Imaginem que vem depois? O estado com maior número de queimadas do país. Ai meu Batalhão Florestal…

Em Brasília, pede-se encarecidamente que os ministros “deem o exemplo”(?!) enquanto o dólar sobe e os saques da poupança superam os depósitos em meigos 2,453 bilhões de reais em julho. Recorde negativo desde o início da série histórica (e bota histórica nisso) do Banco Central, em 1996. É o sétimo mês seguido de queda. Só esse ano, saíram dos cofres 40,9 bilhões para amenizar os problemas de grana dos poupadores.

Tá bom. Chega de falar de obstáculos. Nada de política, porque aí, o assunto vai longe e é indigesto para quem está querendo começar o fim de semana.

Falta menos de um ano para as Olimpíadas do Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa está um caos e temos manifestações para despoluir a Baía de Guanabara. Não para o evento esportivo, mas para o futuro…

Depois, vocês já sabem, vem a conta. Com todos os itens e subitens que tão bem estamos conhecendo. Afinal, mudam as unidades da federação. Já as empreiteiras continuam as mesmas…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Briga Boa

Orquestra 150714 054 Noemi partitura LUNA violonceloTexto e foto de Valéria del Cueto

As portas ainda fechadas da entrada principal diminuem a cacofonia sonora que invade a plateia vazia do teatro. No palco cadeiras são arrastadas e alinhadas, estantes montadas e, nelas, colocadas cuidadosamente  partituras musicais. Os monitores passeiam com seus diapasões eletrônicos entre os músicos afinando violinos e violoncelos. Grandes, médios e bem pequenininhos.

Os membros da orquestra chegam aos poucos e vão assumindo suas posições procurando ocupar da maneira mais confortável possível o espaço que lhes cabem no apertado latifúndio musical. O palco é o limite. Todos muito compenetrados, cientes de seus papéis. Alguns esticam o corpo corrigindo a postura para empunhar seus instrumentos.

O programa distribuído na entrada do Teatro do Centro Cultural Light, no centro do Rio de Janeiro, informa que o Núcleo de Vivência Musical da Rua Larga apresenta “Luna, um olhar sobre a Terra”, de Leonardo Sá, com a Orquestra e o Coro  Infanto-juvenil Maestro José Siqueira, regidos por Noemi Uzeda. O projeto é patrocinado pela Secretaria Estadual de Cultura do Governo do Rio de Janeiro, por meio da Lei de Incentivo à Cultura e a Light.

A orquestra de cordas é formada por 50 crianças, de 8 a 16 anos. O coro, da Escola Villa-Lobos, tem mais 30 componentes. Alguns dos talentos que estão no palco para o concerto cruzam sozinhos de um lado ao outro da cidade para participarem das aulas de música.

Quando as portas se abrem e os assistentes começam a entrar em busca de lugares para acompanharem a apresentação, as crianças perdem um pouco o ar compenetrado e se concentram em procurar com seus olhares parentes e amigos que lotam o teatro.

É uma plateia diferente. Pais, mães, irmãos (incluindo os bem pequenininhos), amigos e participantes de outros projetos que se desenvolvem no Centro Cultural. A entrada é grátis, para um espetáculo que não tem preço!

Nada se compara as emoções expressas nas faces de todos. Das crianças por estarem mostrando seus talentos. Dos professores e monitores pela realização de mais um ano do projeto que começou em 2008. Ainda restam dois alunos da turma original, aplaudidos com entusiasmo. Os pais se sentem recompensados pelo esforço do leva-e-traz para as aulas. Um sacrifício, agora sabem, compensador.

E aí, vendo os incríveis efeitos desse convívio musical e o aprendizado da criançada, fica a pergunta: se é lei, por que ainda não estão reimplantadas nas escolas públicas e particulares as aulas de música? O que falta para que seja implementada uma disciplina  de aprendizado tão fundamental como essa?

Ver as crianças da orquestra disciplinadas, concentradas e responsáveis pelos seus respectivos papéis dentro da coletividade, é comprovação mais que suficiente dos benefícios que o ensino musical produz na formação de um cidadão. Quem mais precisa vir ver in loco o que este processo de aprendizado pode fazer pelas crianças brasileiras?

Qual a ação necessária para que se faça cumprir a lei?

No momento em que as diferenças se sobrepõem e dominam o debate social de uma forma dramática e apaixonada, é essencial um movimento na direção inversa. Precisamos ensinar e difundir as semelhanças, incentivar o coletivo, a convivência, a solidariedade. E, quando o assunto é educação, lutar batalhas que valham a pena. As que agreguem e criem harmonia. Caso do ensino de música.

Se todos os atores deste processo se unirem e as ações existentes forem devidamente difundidas e valorizadas, em algum momento, a luz da música vai iluminar a escuridão da ignorância. E todos, juntos, cantarão a vitória de uma prática que, além dos demais benefícios,  alegra a alma.

#musicanaescola #élei

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Orquestra 150714 100 Agradecimento 02 centro otima

Somente só

Arpoador 150628 011 Homem na Pedra mar ArpoadorTexto e foto de Valéria del Cueto

Precisava muito ficar sozinho. Tão só que dispensava até o consigo mesmo. Já era gente demais!

Isso só podia ser um sintoma de que estava virando humano. E como tal sofrendo de todos os seus males. Devia ser  consequência da exposição prolongada a atmosfera terrestre. É claro que não prevista antes de começar a viagem. Quem poderia imaginar que um mero pulo em falso pudesse deixa-lo preso nessa “terra abençoada por Deus”? Não, não se referia ao Patropi. Mas ao planeta como um todo. O Brasil foi apenas uma questão de sorte.

Não conseguir que sua força propulsora ultrapassasse a camada poluente da atmosfera fazendo que prosseguisse sua jornada interplanetária, por outro lado, não foi apenas falta de sorte (aqui dizem que não é bom usar o antônimo da palavra sorte porque atrai o azar)

Definitivamente o espírito humano estava dominando seu ser numa simbiose indesejável e, certamente, imprevista. Perdeu seu espírito aventureiro e sua iniciativa própria engolfados por um turbilhão de informações, conceitos e, principalmente, pré-conceitos. Tudo ao mesmo tempo!

O bombardeio era tão intenso que nem os sofisticados aparelhos de sua nave interplanetária davam conta de tantos dados a serem inseridos e tabulados. Contaminados, assoberbados e sem tempo hábil para reporem suas energias os equipamentos simplesmente se alinharam ao usuário das engenhocas e… travaram.

Que atitude mais humana, avaliava Pluct Plact. Aquela sensação de aperto no peito e dor de estômago não o abandonava por mais que respirasse fundo. Pau-as-da-men-te. Imaginara, quando começou a sentir sua transformação, que ela fosse por igual. Completa, por assim dizer. Nem se incomodara em ser cobaia involuntária da experiência. Já que não tinha opção…

O problema é que a desumanidade anda sufocando e impedindo qualquer manifestação da humanidade espantosa que tanto estudara e pesquisara durante sua longuíssima viagem interplanetária entre seu lar e a Terra. Também foi nesse período que seu objeto de estudo deu um salto exponencial e começou a dispor de tecnologias inimagináveis. Talvez além da capacidade de absorção de conhecimento dos próprios humanos. A corrida está desigual entre o que é exposto e o que podemos digerir.

E, o que é pior: algumas coisas, por serem mais sutis, suaves ou de lenta assimilação, parecem se diluírem e se perderem. Entre elas a esperança, a ética e a solidariedade estão tomando um vareio do consumismo e da sanha pelo poder a qualquer preço.

Tão humano (por falta de opção), Pluct Plact não sabe como explicar à cronista suas sensações e necessidades. Incluindo a de ficar sozinho. É ela que tem impedido as visitas informativas na cela do outro lado do túnel onde a escriba se isolou.

Como explicar-lhe que sua humanidade contemporânea não contempla a amizade? A não ser que seja por meio de curtidas, comentários superficiais e compartilhamentos de postagens que definam, para seus milhares de contatos pelas redes sociais, sua personalidade, posicionamento e postura perante a sociedade. Ali, agora, é o ambiente de exposição e aceitação humana, sublinhado por autoimagens sorridentes em lugares da moda. O tipo de comunicação que, agora ele compreende, a cronista fez questão de deixar trancada do lado de fora de sua cela onde apenas uma janela enluarada a conecta com o mundo exterior.

E não será por ela, a janela, que ele, Pluct Plact, o extraterrestre, contará o que está sentindo. Afinal, pra que tirar da cronista o que ela insiste em preservar e ampliar no seu pequeno mundo?

Ah, a esperança! Melhor ser enlouquecidamente só do que acompanhado do enorme peso da “sanidade” humana neste terceiro milênio. E esperar…

No chão, do lado de fora da janela, Pluct plact encontrou um bilhete: “Não se desespere. Começaram os Jogos Pan Americanos de Toronto. Por meio do  esporte o melhor do ser humano transparece. Acompanhe. V.”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Em busca da inspiração

Arpoador 150628 008 Alto Arpoador cactus Pedra Ipanema Leblon 2 IrmãosTexto e foto de Valéria del Cueto

Acordou com uma saudade louca do #Lemequenaosaidemim Pegou o rumo oposto, a contragosto.  Deixou para trás o reino e Nápoles e as agruras de Alex Dumas. As que inspiraram Alexandre, seu filho, a escrever o “Conde de Monte Cristo”. Ele é o personagem principal de “O Conde Negro”, Pulitzer de biografias de Tom Reiss. Difícil parar um mundo desses para quem é fã de leitura. Conseguiu. Pedra, por pedra, foi para a do Arpoador.

Cruzou a Praia do Diabo ao ouvir o som. De lá. Pulando que nem cabrito foi para a ponta mais ponta da Pedra do Arpoador, nem lá nem cá. Onde borrifos de finas franjas de maresia das ondas inconstantes salgavam os poucos solitários. Os que trocaram a imagem paradisíaca do postal Ipanema, Leblon, Morro Dois Irmãos e Vidigal pela força do mar e duas ilhas praticamente inóspitas, num horizonte sem fim.

Continuou seguindo os navios ao longe, muito longe, com a maré alta. Eles se dirigiam à entrada da Baia de Guanabara. Lá, depois do Morro do Leme assinalado pela bandeira brasileira encravada no alto do Forte da Vigia…

Era desse lado que vinha o som. O lamento do vento falava uma língua conhecida,  ora murmurando numa inquietude vacilante, ora uivando sua revolta. Salgando com minúsculas lágrimas quem não se incomodasse com seu arrepio gelado e parasse para tentar entender suas lamentações.  

Ele contrastava com o sol acolhedor e silencioso do outro lado da Pedra do Arpoador. Avisava. E quem avisa amigo é. Tentava evitar que a parede de nuvens engolisse de vez os Dois Irmãos, escurecendo o lado sul. Sabia. Seu esforço apenas retardaria um pouco a mudança eminente do tempo e da paisagem.

Nada disso provocou o ato de (d)escrever. Um estímulo especial veio do encontro de alguns músicos, desses que tocam de bar em bar, a procura de um parceiro que havia prometido bater ponto ao lado da escultura de Millôr Fernandes, na quina do Arpoador com a Praia do Diabo.

Pois não é que mesmo sem ir ao samba ele veio se juntar a música do vento, agora sussurrante?

E, entre todas as possibilidades e hits disponíveis no encontro de repertórios, um dos músicos começou. Só na voz:

– “Não… Ninguém faz samba só por que prefere…” – O vento respondeu com um gemido, antes mesmo do dedilhar do início do solo no violão conseguir responder a introdução.

– Tá baixo – reclama o pandeiro. A pausa é tão sutil que não muda o ritmo nem o andamento dolente.

– “Força nenhuma no mundo interfere, sobre o poder da criação…” – responde o cantor violeiro. Sem subir o tom, nem dar a mínima para o entorno. Quem quisesse que viesse. Ele ia em frente recitando os versos do   mantra do Paulo César Pinheiro e João Nogueira,  “O Poder da Criação”, em sintonia com o universo.

O tom baixo subindo lentamente com a força da música. Voz e violão.

– “Ela é uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente e acende a mente e o coração” – À frente a luz vai mudando. Caindo lentamente, ao contrário do tom da música. Ciente de que nada o impediria de seguir adiante, embalado pelas lindas palavras do samba-canção, o tamborim começa a marcar o ritmo pungente, se preparando segurar a para virada.

– “E o poeta se deixa levar por essa magia e o verso vem vindo e vem vindo uma de uma melodia e o povo começa a cantar! Lalaia…

Como cada um faz seu canto como pode, abre a bolsa saca o caderninho da vez e a caneta. Nem nota o momento em que os músicos tomam seu caminho deixando a música para trás, nas páginas de mais uma crônica do Sem Fim…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Tá difícil! Pensando bem, quando não foi?

2Carnavalia 1506 009 mãos chapéuTexto e foto de Valéria del Cueto

Estamos em junho o assunto da última quinzena do mês  é… carnaval!

Pra quem pensa que a sequencia de maravilhas do mundo apresentadas num desfile de carnaval brota assim, de estalo, uma notícia: não é beeem assim.

De fevereiro para cá já rolou uma enormidade de água debaixo dessa ponte. A janela de contratações e troca-troca de agremiações começa ainda na pista da Sapucaí, no desfile das Campeãs. Uma época de montagem de estratégias e definições de estilos de trabalho para o carnaval seguinte. O vai-e-vem continua, mas sem dúvida, o momento das  surpresas e movimentações espetaculares não costuma chegar ao fim da quaresma.

O engraçado é que, como todo mundo vem “virando”, trocando o dia pela noite, tanto no pré-carnaval como nos dias de folia, as grandes notícias das contratações são dadas, em sua maioria, no fim de tarde/noite/ madrugada dos dias posteriores ao reinado de momo. As especulações também circulam nessa faixa horária…

Depois do boom dos sites carnavalescos as redes sociais se encarregam de repercutir com sua incrível capilaridade e uma agilidade espantosa os resultados das negociações. Elas prosseguem enquanto são realizadas inúmeras festas de entrega de premiações para todos os grupos, do Especial ao grupo E. O final da temporada é marcado pelo esperado Sambanet que aconteceu dia 22 de maio.

Mas aí, já havia outros assuntos palpitantes no circuito carnavalesco. Primeiro, os anúncios dos temas dos enredos. Seguido pela divulgação de seus textos e apresentação dos mesmos aos compositores das escolas de samba. É claro que cada uma tem seu ritmo. A única certeza é que os sambas devem estar definidos até as datas fixadas no calendário para as gravações oficiais, a tempo de distribuir os CDs para as vendas, antes do Natal.

Até lá ainda há muito trecho para percorrer e problemas a serem resolvidos. Especialmente num ano como esse, atípico em função da crise econômica brasileira…

Pode até parecer que ela é a bola da vez dos debates e reflexões que estão movimentando as mesas do  Sambacon, Encontro Nacional do Samba, em suas palestras. A segunda edição do evento acontece paralelamente a Carnavália, feira da cadeia produtiva do carnaval, no Centro de Convenções SulAmérica, Cidade Nova, ao ladinho do Estácio. A situação anda ruim pra todo mundo e seus reflexos certamente atingiriam os súditos de Momo. O problema é que outros fatores há muito vem se acumulando para o desgaste do modelo atual do carnaval.

Alguma novidade? Claro que não! Os cronistas carnavalescos já registravam há mais de um século os gargalos que estavam levando o carnaval para o buraco. E tome polca! Mais recentemente, as “Super Escolas de Samba S/A” viraram inspiração para os versos consagrados de Beto Sem Braço e Aluisio Machado nos idos de 1982, do “Bum Bum, Praticumbum Brugurundum”, do Império Serrano.

Nada que não possa ser posto na roda e discutido na primeira versão internacionalizada do Carnavália-Sambacon. Convidados da Europa, América Latina, Estados Unidos e Japão integrarão a mesa mediada do carnavalesco Milton Cunha, Professor Doutor em Teoria do Carnaval pela UFRJ.

Pensa que acabou? Uma vírgula! Na semana que vem o seminário “Sonhar não custa nada, ou quase nada? – Horizontes dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro”, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, reflete sobre 3 questões: Do que se trata um evento lúdico-artístico no qual os sonhos adquirem expressividade pública para audiências cada vez mais amplas? Como se materializam sonhos do Desfile das Escolas de Samba? Sob quais condições organizacionais, materiais e simbólicas, atualmente, tais materializações são possíveis?

A Academia quer mostrar que também tem samba no pé…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Realidade imaginária

Arpex PAN 150609 003 Arpex e 2 irmãos panorâmicaTexto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, Plact, o extraterrestre preso na atmosfera por falta de força propulsora para vencer a etapa ozônio das camadas de escape da órbita terráquea, lia e relia “Pensamento escrito”. Analisava a narrativa da semana anterior criada pela cronista para a série “Arpoador”.

Havia estudado, é claro, o comportamento humano antes de embarcar na missão que o trouxera para essas quebradas da Via Láctea. Mas, por mais que estivesse preparado, continuava achando incrível um traço da raça humana: a tal da imaginação. Só ela poderia fazer que sua amiga cronista, presa há várias luas numa cela do outro lado do túnel, compusesse sua obra capaz de  fazê-lo se transportar para o banco de cimento, na Ponta do Arpoador, quase na Pedra, descrito pela autora. Era efeito do tal pensamento escrito…

Na sua fase preparatória para a jornada entre as estrelas e seu desembarque por aqui sempre tivera uma enorme curiosidade: conhecer os livros. Objetos feitos de folhas de papel produzidas com material extraído da natureza. Perguntava-se o que havia de especial para serem protegidos por guardiões através dos tempos em lugares tão espetaculares e bem frequentados como a Biblioteca de Alexandria, fonte de sabedoria e estudos desde o terceiro século antes de Cristo até a Idade Média. Entendeu tudo interagiu pela primeira vez com um livro. No seu caso, “O Morro dos Ventos Uivantes”,  de Emile Brontë, escolhido, é claro, pela tão ensandecida quanto cronista.    

Não era apenas seu conteúdo que fazia do objeto um tesouro a ser descoberto. Havia mais. Aroma, peso, consistência. Robustez, em alguns casos, e fragilidade em outros. Ler um livro – descobriu – pedia postura, concentração e foco. Para que o mergulho fosse completo. O incrível é que a sua magia não pode ser substituída por outras formas ditas modernas de leitura. O que explicava, por exemplo, a mania de alguns “livráticos” de difundi-lo como fosse possível!

Curioso, Pluct Plact fez questão de verificar in loco a ação libertadora de um viciado em livros ao acompanhar as estripulias do projeto “Inclusão Literária”, capitaneado por Clóvis Matos, um Papai Noel que resolveu extrapolar suas funções e viajar por Mato Grosso distribuindo livros! Em 10 anos, 25 mil foram distribuídos em meio a contação de histórias, brincadeiras e outras formas de atrair novos adeptos.

Foi justamente neles, nos livros, que teve a oportunidade de encontrar exemplos incríveis do que era a tal e poderosa imaginação. A que explica a capacidade de sua amiga extrapolar a realidade e quebrar as barreiras que a mantem recolhida do outro lado do túnel. Afinal, se Júlio Verne – autor que, para Pluct Platc, sempre seria uma referência-, havia descrito uma “Viagem ao Centro da Terra” e os monstros e máquinas das “20.000 Léguas Submarinas”, baseado apenas nas projeções e ilações de seu pensamento escrito, por que a cronista não poderia sair da cela e ir olhar o mar do Arpex, ouvir música e lagartear ao por do Sol do lado dos prédios do Leblon, na linha do Morro Dois Irmãos? Tudo era possível na imaginação…

O que o trazia de volta para o velho dilema: valeria a pena abrir o jogo da realidade na sua próxima visita à cela da amiga? Seria possível convence-la que os fatos reais pareciam saídos de uma obra produzida por uma imaginação privilegiada a ponto de, por exemplo, aventar a possibilidade da queda da maior corporação esportiva do planeta, a tal de FIFA, com direito a xilindró e tudo?!

Com o espaço acabando preferiu não puxar outros exemplos, como a atualização convencional dos culpados das mazelas brazucas. FHC, coitado, foi chutado para escanteio. A bola da vez é Obama, responsável pela crise, inflação e corrupção no  país onde o boi voador recebeu ordem de prisão e as demissões da imprensa acontecem por que “o po(l)vo não acredita mais em mentiras”.

Melhor deixá-la com a visão distorcida de uma panorâmica paradisíaca do Arpex para distraí-la no final de semana. Enquanto aproveita para explorar as festas juninas e tenta entender o efeito Santo Antônio nas moçoilas casadoiras…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábula Fabulosa”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Pensamento escrito

Arpoador 150604 010 andaime obra moldura NiteróiTexto e foto de Valéria del Cueto

Dias antes e a fazeção da semana já começa a interferir na forma de pensar desta cronista.
A busca pelo tema, a escolha da melhor linha a explorar diante das possibilidades das séries do Sem Fim… e suas características. Contemplativas para “Ponta do Leme” e “Arpoador”, carnavalescas da “É Carnaval”, as alegóricas “Fábulas Fabulosas” dedicadas ao incrível noticiário capturado pelo extraterrestre e as aventuras da floresta e seu reino animal. Tudo vai para o prato para ser pesado na balança criativa.
As possibilidades que vão surgindo começam a ser – uma (sorte grande) ou (quase sempre) muitas – escritas em pensamento, numa caligrafia imaginária no caderninho irreal. É preciso afinidade.
Quando a ideia se sustenta vai se acomodando, desvendando seus argumentos, atiçando a curiosidade sobre possíveis informações pertinentes. Se espalhando pelos cantos da memória a ponto de deixa-la quase sorumbática de tão concentrada.
O pensamento escrito vai ocupando espaço na mente e diante desse turbilhão envolvente ou da escassez avassaladora de opções uma utopia sempre surge: o dia em que bastará pensar para que o pensado se transmute automaticamente em escrita. Não precisa de perfeição, apenas das referências principais.
É, porque no caso dessas crônicas, em sua maioria, ainda rola a dupla jornada de escrevinhar no caderninho da vez – num lugar, se possível, especial para o bem (Ponta do Leme, Arpoador) ou para o mal (fila de banco, sala de espera) para, depois, digitar no computador. É muito para um singelo e despretensioso texto!
O pensamento escrito é tão poderoso que faz o “dominado” esquecer o entorno para tentar recapturar o que rascunhou a caminho da praia ensolarada no feriado de outono. A palavra pensada no último quarteirão da Bulhões de Carvalho, no pé do túnel da Barata Ribeiro, em Copacabana, início desse texto, sobrepuja até a música executada no violão dois bancos adiante, já na ponta do Arpoador quase na pedra.
“Hoje o samba saiu, procurando você. Quem te viu…”
O chamado é quase irresistível, mas ainda não o suficiente para desviar a atenção do desenrolar da crônica.
“É linda essa música” diz o tio para o sobrinho que se prepara para um mergulho com cara de quem não tem a menor ideia do que se trata o cantaroladar pelo mais velho.
O pensamento escrito começa a falhar distraído pelo sentido traidor da audição. Atraído e embalado pelo ponteio do violão, busca as notas para identificar o solo dedilhado, início de uma nova canção.
Quase como o pensamento escrito abandonado ele também não deu em nada e o cantor violeiro mudou o rumo da música, como quem muda o rumo da prosa. Assim, sem maior cerimônia.
Tão frágil e insegura é a linha da inspiração que conduz esse alinhavar de meias ideias e alguns ideais, essencial para subtrair da realidade a cronista que se esforça para satisfazer sua sede de contar.
Mesmo que no embalo de “Amigo é para essas coisas”, o diálogo dos amigos se encontram no desencontro da vida. “Na morte a gente esquece. Mas no amor a gente vive em paz… O apreço não tem preço, Eu vivo ao Deus dará…”
E foi por ele. Ou o sol, a praia ou o mar e o feriado que me trouxera para cá com a incumbência de todas as crônicas, que acabaram trançados pedaços de histórias, memórias repartidas. Pensamentos semeados em duas laudas publicadas a cada semana e colhidos por você, caro leitor. A quem só tenho a agradecer a paciência e permanência. Bom feriado!
* As músicas citadas são “Amigo é para essas coisas e “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Mesmo filme noutra praia

Mesmo filme noutra praia - ArpoadorTexto e foto de Valéria del Cueto

Escrever implica em pensar e era isso que não queria.
Não bastava o azul do céu refletido nos tons das águas que de espelhadas no início da semana se transformaram no mar agitado a frente?
A comilança das areias desaparecidas após inúteis protestos e pouca resistência em forma de pequenas falésias, barreiras frágeis para o avanço guloso dos mares?
Quase não havia mais praia naquele canto. Pedras inimagináveis se revelavam com a cavada sistemática do oceano em direção da orla.
O fenômeno se repete a cada ano alterando a paisagem do cartão postal carioca. De um lado é pedra, a do Arpoador. Depois vem o Atlântico. Do outro é montanha. Os Dois Irmãos e a Pedra da Gávea emolduram o contorno das praias de Ipanema e do Leblon. O Vidigal, lá na extremidade, observa o movimento do ponto de vista oposto.
O melhor fator agregado hoje ao cenário foram os surfistas e bodyborders. Sem ondas e com uma temperatura para lá de gelada da água translúcida, eles andavam apenas observando, sem sequer baixarem as pranchas para a areia.
Ali o espaço era exíguo. No mar, elas eram desnecessárias sem marolas e ondulações, só mesmo standup e no início da semana a procura era nenhuma.
Agora as ondulações encrespadas faziam a alegria dos esportistas. Todos com roupas de neoprene para a proteção contra a temperatura da água.
Se a situação da nesga de areia já era minguada na calmaria, se agravou com a subida das ondas. Abusadas e a caminho do pico mais alto da maré ultrapassavam as barreiras do desnível de areia, empurrando os banhistas em direção ao muro de pedra caso quisessem, – e muitos queriam – estender cangas, abrir cadeiras e guarda-sóis para amenizar o calor no fiapo de areia.
Estava criado um problema filosófico, tipo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”
Acontece que não havia espaço os barraqueiros ocupantes da área e a possível e desejável clientela. O que adianta a oferta se não existe lugar para a procura dos itens de desejo: cadeiras, barracas, bebidas e petiscos? (não necessariamente nessa ordem). Como acomodar os banhistas turistas e locais?
Hoje só tem uma barraqueira, se equilibrando para não descer o barranco entre uma canga e outra, atendendo os poucos possíveis fregueses imprensados ente o paredão de pedra e o mar forte, puxando e gelado…
Um apito soa enérgico do alto da plataforma do Posto de Salvamento enquanto o salva-vidas gesticula acenando para um desavisado que se encaminha para a área onde estão as melhores ondas, sem reparar na boca da vala que o puxará em direção a mar aberto.
Nada que um dos surfistas bem intencionados e sempre solidários não possa resolver remando em direção ao afoito e escoltando o banhista para fora da zona de perigo. Após um alerta merecido, naturalmente.
Outro barulho intervém no resmungo impaciente e agressivo das ondas. Primeira dedução: acabou o horário de almoço da peonada. Mas que peonada?
Uma bateção de martelo e ferro chama a atenção. Vem da Praça, acesso à Praia do Diabo e à Pedra do Arpoador, onde não dá mais para ignorar a montagem de uma megaestrutura para um evento qualquer. A maior que já vi por aqui.
Lá se foi a beleza natural do Arpoador, o cartão postal, nesse final de semana.
Engraçado…
Fica uma impressão de dévà vu. Aquela de já ter visto esse filme antes, só que numa outra praia.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Vamos ao vira !

Vira Port 150501 108 Folclore portugues dança casal linda delirioTexto e foto de Valéria del Cueto

Quando ele convida, sempre que posso, vou. Nunca me arrependo. Falo do professor de português, destaque e gestor de carnaval e, agora conheci essa sua faceta, folclorista português, Maurício d’Paula. Gosto de gente que espicaça a curiosidade alheia. Ele é assim. Me ajudou a conhecer o mundo dos barracões das escolas de samba, apresentou para muitos dos temas que hoje trabalho nos ensaios fotográficos do mundo do carnaval. Quando me chama eu vou!

Aconteceu de novo. Um convite para assistir a festa de 53 anos do “Almeida Garrett”, grupo de folclore português, no dia 01 de maio, na  Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, na Hadock Lobo, Rio de Janeiro.

Olha, trocar o Samba do Trabalhador, roda de samba de Moacyr Luz e outros bambas, em edição especial no Parque Garota de Ipanema, ao lado de casa, ali no Arpoador, por uma aventura tijucana foi pura confiança, um bom argumento: nunca havia registrado as danças e os ritmos do folclore português e, cá entre nós, pouco conhecia sobre ele. Busquei referências pessoais e não passei do cantor Roberto Leal e sua franja loura. Dalí, sempre pulei para o fado. Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Custódio Castelo…

Num lampejo ouvi ao longe uma rabeca e veio a Marujada de Bragança, no Pará (um sonho de consumo fotográfico, já que nunca cheguei lá), os costumes açorianos de Santa Catarina, as festas de Santos de Cuiabá e quase todos os rincões do Brasil. Mesmo assim não me senti dominando o conteúdo do que ia acompanhar. Era pouco.

A primeira particularidade que chamou a atenção foi o aspecto familiar da festa. É bom ver como as crianças se colocam nos ambientes culturais, qual seu papel no contexto. Lá estavam elas. Menininhas que pareciam pinturas. Com roupas de crianças, não imitando a dos adultos. Portuguesinhas de saias rodas e babadinhos. Cabelos de Maria Chiquinhas. Os meninos também, com seus trajes característicos.

Os componentes dos grupos convidados permaneceram com seus paramentados durante a festa. Mulheres de corpetes, lenços, enfeites, saias com anáguas, meias e chinelos e homens com seus “fatos” de domingo, coletes, correntes de relógios pendurados no bolso, bastões e chapéus.

Um pequeno aperitivo no encontro dos músicos dos quatro grupos participantes em que vários casais aproveitaram para mostrarem seus dotes de dançarinos e começaram as apresentações.

Basicamente, os grupos são compostos por músicos que tocam concertinas (gaitas), cavaquinho (inho), castanholas, reque-reque, ferrinhos (triângulo), tamborim, bombo… Pode haver uma cantora que entoa as letras num tom extremamente alto e que confesso, nem tentei alcançar. As vozes masculinas, mais graves, fazem um contraponto. E os bailarinos… Não é fácil fotografar as “rodas de bailar”. Justamente por serem rodas e dançadas, em parte do tempo, em duplas. Sempre uns de frente para os outros. Para fazer um rosto, inclua as costas do parceiro…

O “Rancho Folclórico Infanto Juvenil Danças e Cantares das Terras da Feira” abriu a série de apresentações. Lá estavam as crianças que exploravam o grande salão. Já gostei, considerando o ensaio sobre “Os meninos (e meninas)” que faço ha anos nas quadras de escolas de samba e outros ambientes.

Ali foi por terra meu alegado desconhecimento sobre o folclore português. Reconhecia as cantigas escolhidas pelos grupos. A premissa única de “O Vira” desmoronava. O problema é que a gente nunca liga o nome à pessoa e a melodia a sua origem. O segundo grupo a se apresentar foi o “Alma Lusa”, de Curitiba. Maurício participou da exibição do “Rancho Folclórico Pedro Homem de Melo”, de São Paulo. O anfitrião, e aniversariante, Almeida Garret, fechou a festa.

Além das fotos, uma conclusão: O Brasil é uma casa portuguesa, com certeza! E a gente nem se dá conta disso…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Canto oculto

Arpoador 150322 032 gaivotas cruzadas maisTexto e foto de Valéria del Cueto

Tem um pássaro piando. O som de seu lamento entra pela janela. Nada anormal, não fosse agora 22 horas de uma quarta-feira. Dia de futebol na TV e metade da semana que só foi até quinta. Na sexta os trabalhadores descansaram. Era o seu dia. Feriado.

E o pássaro piando no quadrado cercado de janelas de mais de 12 andares. Não dá para identificar onde ele está.  Piando.

Pau-sa-da-men-te.

Intermitentemente.

Periodicamente.

É o som da vida insistente ecoando entre cimento, pastilhas,  vidro, alumínio e poucas plantas. Espalhadas em alguns parapeitos procuram os raios solares que, dependendo da época do ano, passeiam fazendo desenhos nas paredes e diversificando a intensidade e a tonalidade da luz que ilumina os dias. Pela janela.

Assim como chamou a atenção de um, certamente, o piado irritará a outros. Considerarão um incômodo o som persistente.

Bonito, pungente e, por que dá essa impressão, doído.

“Será que não dá para fazer esse barulho parar? Está me irritando. É pior que o bebe chorando ou o cachorro latindo. Com esses a gente já se acostumou. Mas só durante o dia.”

Parte dos ocupantes adjacentes nem o notará, abafado pelos motores dos ares condicionados e filtrado pelos vidros das janelas fechadas. Elas isolam o ar fresco que teima em encanar pelo alto, vindo do céu.

O que se vê é um buraco escuro desenhado pelo recorte das quinas dos edifícios colados em desalinho.

Até agora a lua não deu o ar de sua graça cruzando o exíguo espaço. O que pode ou não acontecer, de acordo com o traçado do satélite em seu percurso anual.

Será necessário um longo tempo para acompanhar esse possível movimento lunar. Ele ampliaria os elementos cenográficos da paisagem que compõe o visual.

Um fator a ser observado e acompanhado. Na torcida para que ocorra a noite quando poderá ser mais notado do que durante o dia.

Paciência é a alma da compreensão do quadrado com piso de concreto de passagem para a garagem.

Até nesse horizonte limitado há poesia.

O piado do pássaro.

Que agora passou.

O dono cobriu sua gaiola.

Simples assim.

Parou.

Resta o silêncio. O rugido dos aparelhos de ar condicionado. O som de algumas TVS bem lá no fundo. Fazendo a noite cair na sua monótona rotina.

Como acontecerá depois do final de semana, quando retornar o dia-a-dia após mais um feriado prolongado. Um dia, um novo dia, um pio mais pios e o silêncio, bastando cobrir a gaiola. A vida seguindo em frente pelo quadrado de céu.

Gaivotas cruzam em bando espaço exíguo de fim de tarde, já cinzento. Seguem na mesma direção. Algumas voam mais baixo, outras, mais alto. Vão rumo sul. Livres, velozes e soberanas.

Abaixo, o silêncio do pássaro só é notado por quem dias antes, o escutou cantar seu lamento.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Choro, melodia da alma carioca

Choro, melodia da alma carioca

Texto e foto de Valéria del Cueto

A alma carioca tem tradução musical. E não é o samba. O samba é o seu coração palpitante. A alma musical carioca é o Choro. Gênero musical urbano, popular e erudito, definitivamente incorporado ao “phisique-du-role” da Cidade Maravilhosa.
No ano das comemorações de 450 de seu nascimento, o Rio de Janeiro ganha um presente há muito esperado. Sua Casa do Choro está inaugurada com tudo o que tem direito nesse megaferiado turbinado por aqui com o Dia de São Jorge. 23 de abril também é o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nascimento de seu maior representante, o genial Pixinguinha. Desde 2000 o projeto vem sendo desenvolvido pelo Instituto Casa do Choro, com a criação da Escola Portátil de Música, capitaneada por nomes como Luciana Rabello e Maurício Carrilho.
O choro tem linhagem e origem. Luciana, por exemplo, é irmã do violonista Raphael Rabello, bebeu na fonte de César Farias, pai de Paulinho da viola e um dos componentes do conjunto Época de Ouro. Esse é o grupo que abre a principal parte do “tudo que tem direito” citado acima. O VI Festival Nacional do Choro ocupará hoje e domingo a Praça Tiradentes, esquina da Rua da Carioca, onde está localizado o imóvel tombado e restaurado com apoio financeiro do BNDES e patrocínio da Petrobrás.
E vem gente de todo lugar: o estado do Rio puxa a fila com representantes cariocas, de Niterói e Cordeiro; o Distrito Federal, os estados do Rio Grande do Sul, Alagoas, Pernambuco, São Paulo e Goiás, assim como a Holanda, se apresentarão a partir das 11 da manhã.
Pela praça passarão nomes como Hamilton de Holanda, Yamandu Costa, Henrique Cazes, Silvério Pontes, Zé da Velha, Maurício Carrilho, Trio Madeira Brasil, Quarteto Maogani, Zé Paulo Becker e outros. Todos seduzidos pelo estilo que surgiu em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, capital do Império, uma forma “chorosa” de interpretar as músicas na moda na Europa como a valsa, o minueto e a polca. Influenciada pela languidez portuguesa e uma pegada africana.
A base inicial era um trio pau-e-corda: a flauta (de ébano, na época) que solava, o violão acompanhando como um contrabaixo e o cavaquinho também no acompanhamento, mais harmônico, com acordes e variações. O gênero que nascia interpretava popularmente o que chegava aos bailes e salões da alta sociedade. Os pequenos grupos ganharam espaço nos subúrbios e na área da Cidade Nova.
A música, com seu toque de improvisação, exige destreza, expertise de seus executores e rapidamente atraiu músicos de excelência. Joaquim Antônio da Silva Callado, autor da polca “Flor Amorosa”, pérola dos chorões, professor de flauta do Conservatório de Musica do Rio de janeiro, tinha entre os membros de seu grupo, a pianista Chiquinha Gonzaga, autora do cateretê “Corta-Jaca”, peça musical de uma de suas operetas.
E ninguém resistiu ao choro. Ernesto Nazareh o elevou e transformou em música erudita. Villa Lobos bebeu da fonte e compôs “Os Choros”, peça importante de seu repertório. De Anacleto de Medeiros fundador, entre outras, das Bandas Musicais do Corpo de Bombeiros e da Fábrica de Tecidos Bangu, que introduziu peças de choros em seus repertórios no início do século XX, aos arranjos orquestrados para big bands, como os da Orquestra de Severino Araújo, maestro pernambucano autor de “Espinha de Bacalhau” e “Um Chorinho em Aldeia”, que bem representam sucessos da união do choro com o jazz, nosso gênero se consolida e evolui.
Com a Casa do Choro o Rio ganha um ponto de referência para consolidar com a preservação de seu acervo e expandir, por meio de educação e divulgação, a mais pura expressão da alma carioca. A musical…

* http://wp.me/p2Eomp-O1 é um playlist do que falamos acima e muitos exemplos deliciosos

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Depois, e agora?

Arpoador 150322 005  pescador jogando a tarrafa 2

Texto e foto de Valéria del Cueto

Nas muitas campanhas políticas em Cuiabá, Mato Grosso,  havia uma pista do traquejo do marketing e a afinidade de produção televisiva com a realidade local.

Os cuiabanos viviam (pelo menos em suas lúdicas imaginações esperançosas) ainda ligados ao rio e seus ciclos. Suas águas serviam para sobrevivência de muitos e lazer de quase todos com suas pescarias diárias e atividades de finais de semana. Rio Cuiabá este que, por estar morrendo pela ação desordenada do crescimento da cidade, era um ótimo mote de campanha. Especialmente nos clipes musicais em que se tentava, com belas e iconográficas imagens, criar uma empatia com o telespectador/eleitor. Um vínculo emocional.

Quando o programa eleitoral entrava no ar, aparecer na apresentação um take de um pescador na beira do rio jogando uma maravilhosa e brilhante tarrafa que apontava na direção do rio e ia se abrindo em câmera lenta até que o peso do seu chumbo puxasse a rede para o fundo das águas, era a certeza da ignorância dos responsáveis pela produção de televisão do cotidiano dos locais.

Acontece, que, apesar da cena belíssima, com reflexos do por do sol brilhando na água e o contra luz do pescador na beira de sua canoa, manuseando e jogando a rede, a prática era criminosa. Esta forma de pescaria era proibida pela legislação!

No segundo programa, com certeza a cena no clip era substituída por outra politicamente mais correta como a pá do remo da canoa fazendo marolas hipnóticas no caminho da embarcação preguiçosa e a campanha seguia seu rumo…

Outro dia, nuvens pesadas antecipavam a tempestade que viria quando ia para a Pedra do Arpoador. Choveu de maneira intermitente o dia inteiro e o fim de tarde chegava anunciando que haveria tempestade durante a noite.

A praia estava vazia. Poucos banhistas passeavam em direção ao Arpoador ou se aventuravam na praia. O mar, num tom meio acinzentado,  refletia as nuances do céu sombrio. Transparente apesar da mancha de sujeira que chegava com a maré cheia. Era essa maré que havia reduzido o banco de areia, afinando a faixa de praia e criando um paredão a ser transposto para se alcançar a beira do mar.

Para o lado da Praia do Diabo, na direção de Copacabana, com o Pão de Açúcar delineado ao fundo, a entrada da Baía de Guanabara e o litoral de Niterói recortados ao longe, o tempo não parecia tão ruim. Em compensação, o que estava por chegar, vindo do sul, eram nuvens pesadas e plúmbeas que escondiam os topos dos Dois Irmãos e se projetavam como uma cunha  ameaçadora sobre o Leblon e Ipanema.

Ali estava ele com sua tarrafa fazendo o tempo andar para trás. Usava um enorme saco de lixo como capa para se proteger dos chuviscos que anunciavam a viração das chuvas de março chegando e dos respingos das marolas que batiam nas pedras por onde ele pulava. Nos pés um par de velhas havaianas. Numa mochila apetrechos que não chegou a precisar.

Andava entre as pedras até encontrar o que achava ser  o melhor lugar para jogar a rede. Em alguns momentos parecia que caminhava sobre as águas quando depois de começar a esticar a rede pela ponta, já com a corda da beira da malha ou um chumbo na boca, passava a arrumar a malha e ordenar os chumbos.

Na hora de lançar a tarrafa tudo é movimento e coordenação (Não pense que é fácil). Sob o olhar do pescador concentrado em observar e se equilibrar entre as marolas que castigam a ponta da pedra escolhida, a tarrafa afunda.

Depois é puxar a rede e ver o resultado. Agora, é o momento de acreditar que tudo será diferente. Como de fato não foi, já que não precisou abrir sua mochila em busca dos apetrechos…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuiabano”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Mostra no pé, leva fé

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Os últimos dias antes do carnaval superam qualquer enredo de escola de samba. Mesmo os mais fantasiosos e delirantes de Joãozinho 30.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, depois de prudentemente botar a cidade em alerta por causa da ameaça de uma chuvarada, resolveu vestir sua fantasia  antecipar a resposta à pergunta/tema da Mocidade Independente “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?” Declarou que quer ver a Portela campeã! Mais atrapalhou que ajudou, assim como a suposição levantada por um jornal carioca de que os abre-alas da Portela e da Mangueira tinham a mesma inspiração. Pode ser boato… A Beija-Flor está nos noticiários por que teria recebido um gordíssimo patrocínio de um sanguinário ditador africano, o presidente de Guiné Equatorial. Já ouviu falar?

Não é boato que a Rede Globo, além de não transmitir o desfile das campeãs, mudará a ordem das apresentações das escolas. As primeiras foram lançadas para o final da transmissão. Para adequar a grade da emissora, o televisionamento será da segunda escola em diante. Viradouro, no domingo, e São Clemente, na segunda, serão empurradas em VTs para o final das respectivas noites. Veja no box links em que é possível, não apenas acompanhar os dois desfiles como, também, ter acesso a comentários e avaliações mais interessantes do que os da emissora padrão durante todo o evento.

DOMINGO – Quem abre o carnaval no domingo é a Viradouro, de Niterói, que volta ao grupo Especial cantado ideias do compositor Luis Carlos da Vila. O samba é bom, puxado Zé Paulo Sierra que já foi um dos tenores da Mangueira. Uma mulher, a primeira, é  parte da comissão de bateria, é a mestre Thalita Freitas.

As rosas vão se espalhar pela Sapucaí já no abre-alas da escola de Dona Zica e tantas outras mulheres mangueirenses, perfumada por seu aroma. Cantar as suas mulheres e as brasileiras, embalados pelos mestres/meninos da primeira ala – a da bateria, é parte da emoção com que Cid Carvalho, o carnavalesco, quer arrebatar a avenida. Com Benito de Paula e tudo!

A seguir, vem Paulo Barros e a Mocidade Independente exercitando a imaginação na provocadora pergunta: “Se só te restasse um dia?” Só os deuses do carnaval sabem o que vem por ali. A verde e branca será movida por um carnavalesco querendo se recriar…

A Vila Isabel tenta se recuperar, após o fraco desfile do ano passado, falando de música e homenageando o maestro Isaac Karabtchevsky. Vale procurar Martinho da Vila na pista. Há 50 anos ele entrava para a escola que lhe deu nome e onde fez história.

Outra que pisa na Sapucaí em ritmo de comemoração é a rainha de bateria do Salgueiro, Viviane Araújo. 20 anos de desfile não é para qualquer uma! Segundo lugar, ano passado, o enredo de delícias mineiras de Renato e Márcia Lage, parece ter “mineiramente”, contaminado os salgueirenses. Atenção à Porta Bandeira Marcella Alves, com seu parceiro Sidcley.

A noite fecha com a Grande Rio e um dos carnavalescos mais festejados da nova safra, Fábio Ricardo, prometendo uma virada de jogo, no enredo que fala do… baralho.   

SEGUNDA – A São Clemente vem cheia de assombrações e mitos acreanos, carnavalizando as origens das fantasias infantis de Fernando Pamplona. É a criatura, a campeã de títulos na Sapucaí, Rosa Magalhães, falando do criador. Dela e de muitos outros talentos que “desenharam” o formato do desfile das escolas de samba. Se todos os seus seguidores participarem do cortejo, a coisa vai longe.

Alexandre Louzada assina o desfile da Portela. A escola de Oswaldo Cruz apresenta uma versão surrealista, sob o ponto de vista de uma de suas maiores expressões, Salvador Dali, da Cidade Maravilhosa. E o samba é bom. Falaram e falam que querem por que querem. É bom lembrar que nos últimos 12 anos, apenas 4 escolas foram campeãs: Beija- Flor, Salgueiro, Unidos da Tijuca e Vila Isabel. Tem muita gente seca pra quebrar essa escrita.

Mas, para isso, vai ter que passar pelos brios da representante de Nilópolis, muito mal colocada ano passado. Esse ano Neguinho da Beija-Flor puxa um samba  sobre Griôs, África e a Guiné Equatorial.

“Beleza Pura”, do carnavalesco Alex de Souza, para a União da Ilha do Governador em todos os aspectos e circunstâncias. Principalmente com o samba puxado por Ito Melodia e com a bateria comandada por mestre Ciça.

A Imperatriz Leopoldinense é outra que corre por fora sem muito alarde. Depois do jogador Zico, homenageado ano passado, Cahê Rodrigues, o carnavalesco, passa a bola para Nkenda, Nelson Mandela, e um enredo sobre negritude africana.

A segunda noite é fechada pela campeã do ano passado, a Unidos da Tijuca, embalada pelas  reminiscências infantis de Clóvis Bornay, personalidade carnavalesca, das histórias contadas por seu pai sobre a Suíça.

É bom lembrar que emoção não ganha jogo, especialmente pelas regras do manual de julgamento da Liesa… 

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Transmissões ao vivo dos desfiles:

Rádio Arquibancada www.radioarquibancada.com.br/

Tupi Carnaval Total  www.carnaval.tupi.am/

O Carnavalesco www.carnavalesco.com.br/

Horário
dos Desfiles
DOMINGO
15/02/2015
Início 21:30
Viradouro
 
Entre 22:35 e 22:52
Mangueira
Entre 23:10 e 23:44
Mocidade
Entre 00:45 e 01:36
Vila Isabel
Entre 01:50 e 02:58
Salgueiro
Entre 02:55 e 04:20
Grande Rio
 
Horário
dos Desfiles
SEGUNDA
16/02/2015
Início 21:30
São Clemente
 
Entre 22:35 e 22:52
Portela
Entre 23:10 e 23:44
Beija-Flor
Entre 00:45 e 01:36
União da Ilha
 
Entre 01:50 e 02:58
Imperatriz
            Entre 02:55 e 04:20
  Unidos da Tijuca
 

O enredo desse samba

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Na reta final dos preparativos do Sambódromo Darcy Ribeiro, na Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro, para os desfiles do Grupo Especial é hora da benção e dos ajustes finais, neste domingo. A benção será dada, como em anos anteriores,  pelas baianas de todas as escolas. Elas lavam a pista com água de cheiro, abrem os caminhos com defumadores, distribuem palmas e arruda para a plateia embaladas por sambas de terreiro. Abrem o cortejo mestre-salas e porta-bandeiras trazendo os pavilhões das agremiações cariocas. No final, a imagem do protetor do Rio de Janeiro, São Sebastião.

Só essa cerimônia já vale a viagem até o centro da Cidade logo mais, mas a festa ainda guarda um evento esperado por todos. Depois que o povo do samba passar e dos testes finais de som e de luz, vem o ensaio técnico da escola campeã do ano anterior.

A Unidos da Tijuca, agora sem o carnavalesco Paulo Barros, fará o reconhecimento das condições finais da pista onde defenderá o enredo “Um conto marcado no tempo – o olhar suíço de Clóvis Bornay”, do departamento de carnaval composto por Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim, Marcus Paulo e Carlos Carvalho. Nas redes já há um viral da Nestlé com um trecho do samba e a visita de componentes da escola a fábrica de chocolates na… Suiça, indicando a origem patrocinada do tema.

Essa seria uma das razões da troca do carnavalesco Paulo Barros. ele deixou a escola do Borel após o campeonato sobre o piloto Aírton Senna. Na Mocidade Independente de Padre Miguel emplacou seu enredo autoral “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?”. Baseada na música de Paulinho Moska, a pergunta pode render um desfile que permita ao carnavalesco dar vazão a sua criatividade, questionada por quem vê em seus últimos carnavais a repetição de fórmulas de sucessos anteriores.

Quem também trocou de casa foi a campeoníssima Rosa Magalhães. Da Mangueira foi para a São Clemente e lá homenageará Fernando Pamplona, “pai dos carnavalescos” (levou Rosa e muitos outros talentos, como Joãozinho Trinta, para o mundo das escolas de samba), com o enredo “A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Perera, da Tocandira e da Onça de pé de boi” que começa no Acre e passeia pelo imaginário infantil e adulto do criador genial.

A verde e rosa vem com um enredo louvando sua própria comunidade. Cid Carvalho parte da força motriz do  morro de Mangueira e abre o leque, avisando: ”Agora chegou a vez vou cantar: mulher de Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar”

Outra referência ligada ao mundo do carnaval será feita pela Viradouro: “Nas Veias do Brasil, é a Viradouro em um Dia de Graça!” Dois sambas do compositor Luiz Carlos da Vila, “Nas veias do Brasil” e “Por um dia de Graça” são a base da sinopse criada por Milton Cunha e desenvolvida pelo  carnavalesco João Vitor Araújo para falar da negritude brasileira.

“Axé, Nkenda! Um ritual de liberdade e que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz” levará os componentes da Imperatriz do carnavalesco Cahê Rodrigues a uma viagem pela história da África, dos negros e dos preceitos de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando uma pessoa por sua cor de pele ou religião. Pessoas são ensinadas a odiar. E se elas aprendem a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”  A mesma linha abordada pela comissão de Carnaval da Beija- Flor: Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo, com o recorte que fala da Casa de Guiné e da reconstrução africana “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guina Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”. Tudo para superar o resultado do ano passado, cujo enredo sobre Boni, o  da televisão, deixou a azul e branca fora do desfile das campeãs, uma raridade.

Max Nunes tenta recuperar a Vila Isabel que passou um perrengue ano passado falando de Isaac Karabtchevsky “O maestro brasileiro na Terra de Noel…. tem partitura azul e branca da nossa Vila Isabel”

Em “A Grande Rio é do baralho” as cartas estão na mesa no enredo de Fábio Ricardo, para a escola de Duque de Caxias. No Salgueiro, Renato e Márcia Lage, fazem uma viagem pelo universo culinário mineiro com “Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí”.

A linha da irreverência é explorada por Alex de Souza, ao explicar os aspectos da beleza moderna na União da Ilha do Governador. É o enredo com o título mais sucinto do ano: “Beleza Pura”.  

Não poderia faltar uma ode aos 450 anos do Rio de Janeiro comemorados logo depois do carnaval, dia 1 de março. Alexandre Louzada apresenta a Cidade Maravilhosa sob perspectiva do surrealismo de  Salvador Dali no enredo “Imagina Rio, 450 janeiros de uma cidade surreal”. Não dá para negar a liga entre o local e o pintor espanhol, caminho escolhido pela Portela, para acabar com o jejum de títulos da escola de samba com o maior número de campeonatos da história do carnaval.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

É pra quem pode!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

“Eu sou Mangueira. Eu sou Mangueira sim. Eu sou Mangueira e meu amor nunca tem fim!” Assim bradam em alto e bom som, declarando seu amor pela verde e rosa, os integrantes da “Primeira Ala” e coração da tradicional escola de samba carioca. A bateria calou seus instrumentos. Seus componentes batem ritmicamente com os pés no asfalto quente da Marques de Sapucaí. Eles estão diante do Setor 1, a caminho das arquibancadas lotadas pelas torcidas que desfraldam bandeiras e estandartes e vão ao delírio com o grito uníssono e poderoso da rapaziada.

Até ali, resisti e tentei manter a imparcialidade necessária para realizar minhas tarefas na noite encalorada de ensaios técnicos. Primeiro, um registro da Mocidade Independente de Padre Miguel. Depois, desempenhar mais uma etapa da missão Carnaval 2015. Acompanhar a primeira entrada na Marques de Sapucaí, o templo do samba carioca, da Bateria da Mangueira sob o comando de seus jovens mestres: Vitor Art e Rodrigo Explosão. Junto com sua diretoria composta por Nielson Rei do Tamborim, Alex Explosão, Alexandre Marron, Reinaldo Nenem, Jaguara Filho, Maurício Macalé, Taranta Neto e Biraney, eles dirigem pela primeira vez o importante segmento mangueirense. São conhecidos como “Os Meninos da Mangueira”.

Estou com eles desde que assumiram o comando da bateria e, posso dizer, todos os nossos encontros foram pra lá de prazeirosos. A cada etapa do trabalho de registro que estamos fazendo juntos novas descobertas, emoção e ângulos inusitados a explorar.

Era a estreia deles e a minha também. Há uns anos atrás tive o prazer de fotografar dentro da bateria da Vila Isabel, no desfile das Campeãs. “Ô mulher compadre chegou! Pega o banco e vem prosear. Bota água no feijão…” O clima era de alegria e descontração na comemoração do título conquistado. Também tirei uma casquinha com Mestre Aílton na verde e rosa, mas só no esquenta. Agora, a “vibe” era outra…

Desde cedo acompanhei a montagem do grid dos instrumentos, os ritmistas chegando a concentração. Foi lá que os meninos se reuniram depois de organizar a Primeira Ala. Uma conversa final, mãos apertadas durante a oração do Pai Nosso e abraços, muitos abraços apertados de boa sorte.

Por opção do Mestre Vitor Art da concentração, do lado do Balança Mas não Cai,  emburacaram direto pela armação. Só pararam, silenciando os instrumentos,  para fazer sua declaração de amor diante do setor 1. E ele veio abaixo enquanto a bateria entrava na área do desfile e seguia em frente, apresentada por Evelyn, a rainha de bateria, até as torcidas organizadas para avisar: “Chegou, ooô, a Mangueira chegooou”, deixando claras as mais sinceras intenções dos Meninos da Mangueira: “Vamos fazer um carnaval legal, sambar é nossa tradição, cuidado que a Mangueira vem aí. É bom se segurar, que a poeira vai subir!” De lá, deram meia volta e entraram no primeiro recuo. O desafio inicial havia sido superado. Faltava o prato principal…

Quando comecei a editar as fotos, deu pra notar a tensão e a seriedade dos primeiros minutos da apresentação sendo substituídas pela sensação de conquista, a afirmação e, finalmente, a explosão de alegria, na dispersão, ao som do samba que canta o enredo “Mulher de Mangueira, Mulher Brasileira em Primeiro Lugar”, do carnavalesco Cid Carvalho.   

Juntos, os Meninos da Mangueira, sonharam, cresceram, aprenderam, planejaram e chegam a Apoteose levados pela música e pelo entrosamento que só a amizade e o entendimento podem alcançar. Vitor Art é o mais novo Mestre de Bateria do Grupo Especial. Junto com Rodrigo Explosão e outros 250 ritmistas eles vão ter muitas histórias. Elas serão contadas para os próximos meninos que virão. Afinal, é tradição na verde e rosa: só quem é da comunidade tem autoridade para conduzir a Primeira Ala, aquela que todo mundo tem que respeitar!

Graças a eles, voltei ao tempo da esperança. Cheia de orgulho, me senti, também, uma menina. Da Mangueira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Pluct Plact, catch and go

Copa 141119 013 arco-iris praia mangueira areia verticalTexto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, Plact, o ser de outra galáxia, anda muito preocupado. Até mesmo sem saber o que fazer para provar para a cronista ensandecida ainda guardadinha do outro lado do túnel que, sim, está de posse e dominando todos os seus incríveis poderes! Todos, menos o que lhe permite sair de vez do hospício Terra, já que segue sem força propulsora para dar um tóin em direção ao espaço sideral, deixando para trás a atmosfera gravitacional abafada, ressecada e desconexa que o aprisiona.
Ele espera ansioso que a camada de ozônio seja aliviada com muita água o que talvez quem sabe lhe permita romper a atração fatal que o faz testemunha incrédula dos fatos que vem ocorrendo no Patropi. (Aprendeu – e gostou – da designação quando buscava na literatura um sentido qualquer para os acontecimentos que têm sido verificados no último período temporal por aqui designado como mês.) Foi indo, indo… e, pelo visto, ainda irá muito além em direção ao passado, sem obter nenhuma referência segura que o permita justificar essa “balbúrdia estapafúrdia”. É que NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESSE PAÍS…
Parece que até São Pedro, o santo encarregado das faxinas no céu, não está de graça com o povo brazuca e proibiu terminantemente os anjinhos de darem uma geral, arrastar alguns móveis celestiais e jogar uma água pra limpar a lama vigente e recorrente por aqui. Não adianta as garotas do tempo ficarem prometendo o que não podem cumprir com seus sorrisos esperançosos e, sabemos todos, inconfiáveis: quem manda no céu é ele e a chave para aliviar o calorão do veranaço de novembro está jogada no fundo de um baú qualquer, muito bem malocado nos porões infindáveis e não muito organizados da residência oficial do pai celestial.
Nada de água, que é pra ver se essa gente bronzeada toma tenência e se apruma. E que seja rápido! Porque do jeito que a coisa vai nem dia sim, dia não, as torneiras da Cantareira poderão se abrir…
Quer saber? Ele (o alienígena, não São Pedro) está louquinho de vontade de deixar pra baixo esse mundo louco e intraduzível. Sofrendo, é claro, por saber que vai romper o único elo da cronista com a realidade exterior. Mas também, que diferença faz?
Nem ela acredita mais nos acontecimentos que o extraterrestre anda reportando quando ultrapassa na encolha as paredes acolchoadas que protegem a escriba da cruel realidade que a cerca. Não adianta dizer que ela tinha razão, o dito virou não dito, apagou-se o que estava escrito e a cela protetora é o “mió” pra eu e ela, pensa o ser querendo uma vaguinha no cafofo prisional. E que seja rápido, antes que ele seja requisitado para abrigar uns, outros e que tais.
A lotação dos presídios federais está pela tampa de tanto bam-bam-bam e a cela pinelística já está sendo requisitada e propinada por sua excelente localização: próxima ao Rio Sul, em frente a sede do Botafogo, a um passo do Iate Club do Rio de Janeiro. Uma excelente rota de fuga marítima. Quem sabe no iate do milionário empreendedor, recém arrestado e ancorado nas águas da Enseada. É um pulo (depois de um “aquézinho” básico para os vigilantes da loucura tupiniquim). E aí, a Itália, Jesus e as contas turbinadas nos paraísos fiscais são os limites.
Aqui fora, no Brasil varonil, a falta de um tudo impera… Sabem a exceção? Virou a regra. O “Eu não sabia”, o “Sempre foi assim” agora justificam tudo: roubar, extorquir e, por que não? Matar a decência e a moralidade, asfixiadas numa overdose de ladroagem explícita. Papo careta, dirão os que se locupletam e aceitam o jogo podre que agora não tem mais medida e virou mal feito na linguagem esdrúxula de quem tinha obrigação de cuidar do galinheiro.
É claro que a cronista está achando que o ET surtou de vez. Foi contaminado pelo “É bola” que domina as mais altas esferas aqueles que, ao serem pegos com a boca na botija, apresentam saldo ZERO nas suas contas bancárias.
Conta outra, Dona Carochinha!

Suspiro, Manoel de Barros…

Araras 140927 042 folha esqueleto

O último bater de asas é lento e pesado…

Carregado das gotas do orvalho pantaneiro ao sussurro da brisa matinal,

lagrimando o capim macio do pasto diante dos degraus de madeira velha do alpendre abandonado.

Vai assim, Manoel de Barros, poeta cuiabano!

O adeus ecoa no silêncio das águas espelhadas no imenso pantanal que sempre brincou nos seus versos simples.

Novamente  livre, o olhar miúdo que tão longe vê as delicadezas do entardecer.

Dessa vez pra sempre…

*Vagabinha sofrida, mas aliviada pela libertação do poeta maior das pequenezas sublimes, e foto de Valéria del Cueto.

A encruzilhada

CopaLeme 140923 011 Mosaico cal+ºada de Copacabana e bancoTexto e foto de Valéria del Cueto

Conta uma velha lenda que um músico em busca das notas perfeitas andando pelo Mississipi, nos EUA, chegou a uma  encruzilhada. E ali, na intercessão da rota 61 com a 49, em Clarksdale, fez um pacto com o diabo.Este pegou o violão, afinou num tom mais baixo e o devolveu ao bluesman. Seu nome é Robert Johnson. Ele nasceu no início do século XX, não se sabe bem o ano. Morreu dia 16 de agosto de 1938 e no seu atestado de óbito não há causa mortis. Apenas o termo: NO DOCTORS. Jonhson era lavrador até os 16 anos quando caiu na estrada. Dizem que aos 20  descobriu que deslizando pelas cordas o gargalo de uma garrafa quebrada, fazia “sua guitarra chorar”. Tinha o costume de tocar de costas para a plateia. Segundo alguns para que não vissem seu olhar “diabólico”. Outros diziam que era para que não conseguissem ver as notas que inventava.  Durante sua vida, Johnson fez dois registros de sua obra. Um em 1936 e outro em 1937. O primeiro em San Antônio, o segundo em Dallas, no Texas. Foram 29 músicas em 40 gravações. 13 repetidas. Assim, ele entrou para a história do blues, da guitarra e da música. É um dos maiores representantes do Mississipi Delta Blues e referência no formato de 12 compassos que caracterizam o  estilo musical o colocou em 5º lugar na lista da Rolling Stone dos melhores guitarristas de todos os tempos. Lista que, diga-se de passagem, também contempla a arte e o talento de Helena Meireles, nossa grande violeira. As notas de Robert Johnson embalam a criação desta crônica, por que a encruzilhada não sai da cabeça de quem a redige, marcada pelo compasso pesado e ritmado do músico sensacional.

A eleição é uma encruzilhada coletiva, em que cada um pode escolher com quem quer compactuar e o tipo de sacrifício que está disposto a fazer, dependendo de onde se quer chegar. Sempre haverá um “diabo” cobrando – caro – o preço de nossas escolhas. Não há como fugir do confronto, nem do pacto que regerá a vida de uma nação (a nossa!) nos próximos 4 anos. Por uma questão de ambição ou, simplesmente, porque o voto é obrigatório. Mas há como interferir no resultado coletivo. Esse é o grande papel que involuntariamente nos cabe agora.O Brasil é nosso blues… Mas o recado final vem mesmo em forma de samba, uma de nossas mais profundas raízes populares. “ Façam por ele, como se fosse por mim”… pediria Ismael Silva, em  “Antonico”, para ajudar o nosso Nestor. Cabe a nós começar a viração! E, para isso, temos que fazer um pacto com nosso país na encruzilhada das urnas.

Vote bem, vote em quem realmente possa cumprir seu papel e dar o tom e o ritmo certo na grande obra que será executada nos próximos anos na vida de todos os brasileiros. Às urnas!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Raios cinematográficos à lua pela fresta

Caio Cana 140913 041 Canal Brasil raioTexto e foto de Valéria del Cueto

Pela fresta do canto da janela do espaço que tocava para sua mirrada figura olhava para a lua. Ela que, gigante, ocupava o céu noturno e ainda sobrava pendurada entre o recorte dos prédios vizinhos.

Se tudo é super e hiper na vida, vamos reverenciar a lua, tão tua, tão nua. Olha que no meio de tanta coisa malocada ser nua é um arrojo! Onde esconder seus segredos? Só se for na noite e ela estiver bem escura.

Sem os raios coloridos que cruzavam a pista de dança do Vitória, espaço do Joquey Club, no Rio de Janeiro, que acolheu a festa de 16 anos do Canal Brasil na entrega do Grande Prêmio Canal Brasil de Curtas Metragens. O vencedor – escolhido entre os premiados pelo Canal nos Festivais de Cinema Brasileiros – foi Ed, animação 3D de Gabriel Garcia. Noites assim podem ser boa companhia. Pena que não durem mais que uma noite! Pelo menos acalentam sonhos e arte…

Aí, vem o dia e a fresta clareia a realidade nua(!) e crua.

A vida segue enquanto termina a primeira fase da delação premiada, depois do silêncio diante da corte dos parlamentares. Alguns envolvidos, acusados de serem parte relevante da suruba. O arquivo informa que levou um milhãozinho e meiota de reais da Petrobrás no passa anel de Pasadena. (homenagem à mãe, usando o manto da desordem mental que a mantém por aqui)

Agora, todo mundo se comporta, pelo menos nas próximas semanas, como arauto da moralidade. Em compensação no mano a mano o pau come solto. Valendo, inclusive, golpes abaixo da cintura. As eleições batem a porta das urnas (in)violáveis ao som do jingle da Caixa Econômica, propaganda eleitoral do governo federal onde Paula Fernandes e Almir Sater propagandeiam a fartura na porta do trabalhador. Aviões passeiam pelos céus com dinheiro vivo para as campanhas. Juntos, santinhos de candidatos abrigados na cabine do jatinho. Pegam um! Mas, é lógico, não pegam geral.

Tudo vislumbrado pelo vão da fresta do quartinho enquanto aguarda a visita salvadora de Pluct, Plact, o alienígena, para saber das últimas novidades antes da prometida e não cumprida recuperação do raio (olha ele aqui de novo) propulsor que não carrega nem por um decreto. Segundo consta, talvez haja uma chance de deixar esse mundo quando o tempo ficar menos seco, a umidade relativa do ar voltar para um nível razoável, chover nas cabeceiras para encher a Cantareira…

Resumindo: vai demorar. E, nesse intervalo, o extraterrestre se propôs a dar uma ajudinha e, além de manter as informações relevantes chegando pela fresta, quem sabe, armar um plano de fuga salvando a pobre cronista das ondas que insistem em castigar sua praia.

Na floresta a vida continua cabeluda, mas isso não é novidade. Poucos lêem e quando o fazem, preferem não acreditarem no que ouvem. E só se fala em educação. Exatamente os mesmos que “revolucionaram” o setor mais importante do país nos últimos anos.

Piada, não é? Seria se, de um tempo para cá, tudo não tivesse virado loucura. Assim não há anedota que sustente uma conversa. Nem de botequim. O que adianta ir passear se não dá para trocar uma ideia? É mais ou menos como ficar aqui, olhando o nada quase nu pela janela.  Porque a lua se escondeu depois de escorregar até seus reflexos derradeiros nos vidros vizinhos dos prédios laterais.

Depois da Cheia, veio a Minguante…

Lua (zinha)que já trouxe a primeira novidade: os escoceses plebicitaram que preferem ficar guardadinhos sob as abas do chapéu da rainha inglesa. Coitado do Wallace…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com