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Entardecer no Atlântico

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Reflexos do frasco de letrinhas

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dia de escrever crônica adiantada. Elas existem e são provocadas pelos feriados. Inúmeros. Ultimamente caindo sempre as sextas, meu deadline usual.

Requerem uma mudança básica no andar das atividades semanais com menos tempo para acumular impressões a serem impressas semana sim e, quase sempre, na seguinte também. Falho, mas elas fazem parte da regra que tem que ter exceções.

Isso requer um estímulo extra para não perder o tom e o dom de escribar com uma certa constância. Ainda mais nesse formato incerto e pouco sabido apesar da brincadeira já estar rolando desde 24 de agosto de 2004.

Por ser uma data significativa sempre será um marco na história das crônicas do Sem Fim. Foi na abertura da exposição dos 50 anos da morte de Getúlio Vargas que elas começaram a serem escritas.

Foram os olhos dos visitantes ao Museu da República que destamparam meu frasco de letrinhas. Ele me foi dado anos antes por Emília, a boneca de pano falante do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato.

Na ocasião participando de uma das incríveis aventuras com Narizinho, Pedrinho e a turma do sítio, aceitei o presente sem ter noção do alcance do seu significado.

Joguei no fundo da minha frasqueira de viagens infantis e deixei por lá rolando de um lado para o outro. Até que, como a boneca que falava asneiras advertiu, ele pudesse – e como – ser útil.

Nesse meio tempo de muitos anos e algumas décadas pipocamos por muitas histórias e lugares aprendendo um pouco sobre quase tudo. Eu, a malinha e, dentro dela, a máquina fotográfica e o frasco de letrinhas.

Algumas vezes tentei abri-lo e derramar um pouco do seu conteúdo em papéis, áudios e até em vídeos. O resultado não foi nada mau.

Mas ainda sentia que faltava um ingrediente para deixar fluir o que via, lia e apre(e)ndia. Não, não estava faltando forma nem expressão que essas foram lapidadas desde sempre.

Era algo na essência, no olhar. No desembestar como dizia Emília, ao destravar a língua falando que nem louca, tagarelando pelos cotovelos quando ganhou o dom da fala numa das Reinações de Narizinho.

O dom chegou para mim num reflexo. Os vi nos olhos de quem vagava nos lugares onde Getúlio viveu seus últimos dias cinquenta anos depois. Histórias de devoção, amor e intimidade de vidas inteiras. Ali, esse reflexo ganhou forma. Precisou ser incontrolavelmente extravasado.

Ele se mantém até hoje nos sinais que fazem a caneta deslizar ligeira pelas páginas em branco do caderninho. Sem linhas para delimitarem o tempo e o espaço ou impedirem o voo inquieto e ágil da imaginação.

Serve para quem, como eu, consegue ver nos reflexos (olha eles de novo aí) dos vidros e gradeados que cercam a vida dos habitantes encarcerados da selva de pedra que virou Ipanema, um convite irrecusável.

Aquelas ilhas ensolaradas do Atlântico refletidas nos vidros indicam o caminho irresistível para deixar de lado a realidade assustadora que nos cerca e quase domina.

É o momento de concretizar o texto da semana deixando aberto o frasco de letrinhas, destampado nas areias convidativas do Arpoador.

Dessa vez sai dele uma homenagem a todos os dias dos livros. Especialmente os infantis. Aqueles que, se você tiver a mesma sorte, nos acompanharão pela vida.

Viva o Sítio. O do Picapau Amarelo. Salve Monteiro Lobato!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Caldo quente

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, plact está rezingando para cronicar. Puxando fios de lá, juntando com fios de cá pra ver se a trama ganha alguma consistência e consegue suportar o peso dos últimos e nem tão surpreendentes acontecimentos.

Que droga a falta de um lastro positivo para conseguir esticar a corda até quase arrebentar de tantas, tão variadas e excessivamente robustas informações, ou deformações, melhor dizendo.

Lua cheia no céu, luz intensa entrando pela fresta da janela daquela cela do outro lado do túnel onde se esconde a cronista das vicissitudes dos mundos.

Tem gente que ainda não sabe mas ela, cansada como Teresa Batista das guerras desse mundão, escolheu o isolamento. Desistiu de ser um objeto teste com uma incrível quantidade (impossível de ser decifrada integralmente) de imagens projetadas diante de sua estarrecida e estatelada visão de cenas desconexas, porém, verdadeiras.

Elas aconteciam em todos dos planos. Pessoal. Consciente e inconsciente. Do ambiente, do entorno, do país, do continente e do mundo. Do vizinho, do distante. Do amigo, inimigo e do desconhecido em geral. Cenas, cenas, imagens, raciocínio, sentimento, sonho, sobrevivência. Realidade.

Cansou e pediu para sair. Foi parar no lugar que habitava seu caminho durante anos. Desde os 12 mais precisamente nas idas e vindas para o colégio. O Pinel. De um lado, o ex Canecão. Templo da música carioca dramaticamente abandonado, deserto. Em ruínas.

Do outro, sua ex Universidade. O local onde o conhecimento e o saber transformaram, anos antes, a vestibulanda bem colocada na tabela do Cesgranrio numa participante do grupo de criação conceitual que a levaria à TV Tupi. Isso, depois de uma apresentação da instalação exposta numa das salas de pés altos e paredes grossas do antigo manicômio, então Escola da Comunicação da UFRJ.

Estava em casa. Bem situada nas proximidades da sede do Botafogo. E dela, a cela, só costumava se conectar com o (já citado no início do texto) Pluct, plact. Ele é um extraterrestre perdido na atmosfera terráquea graças a péssima qualidade do ar. Tenta ir, vai, bate na camada poluída e… volta, quicando e se recompondo em outro ponto do planeta.

Preparado para a missão de coletar dados e tentar entender o “funcionamento” do ser humano se surpreende a cada novo lance que registra. Sabedor que é da necessidade de manter um canal de conexão com a realidade de sua amiga e confidente, a cronista encarcerada, tenta fazer um resumo dos acontecimentos para tentar atraí-la novamente para o mundo verdadeiro.

Mas está difícil. Trump ataca o Estado Islâmico com uma bomba quase atômica. Tipo a largada pelo Ministro do Supremo Edson Fachin ao autorizar a abertura de inquéritos contra uma parte significativa e representativa do mundo político brasileiro.

Se a Odebrecht é o diabo de rabo e chifres o inferno está lotado de seguidores até então entusiasmados e dispostos a fazerem tudo que seu mestre mandava por uma módica quantia. Creditada nas contas bancárias nacionais, internacionais e, caso seja conveniente, as baseadas no nepotismo puro e simples: ajudando parentes também.

Tudo bancado com dinheiro que deveria ir para o povo brasileiro. Centenas de milhões, bilhões!

Dias antes o inocente do Ministro Blairo Maggi descansava da semana pesada de tanta “Carne Fraca”  contando num vídeo caseiro como prepara sua receita de arroz carreteiro.

Mal sabia que seu “caldo” estava sendo depurado e apurado em mais de uma das delações premiadas dos responsáveis pelas operações nada republicanas da maior empreiteira do país…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

A lo largo

Texto e foto de Valéria del Cueto

É muito bom ser geminiana e gostar de ter diversas vidas. Isso faz que seja uma metamorfose tranquila trocar de ares como quem muda de roupa. Depois do carnaval de Uruguaiana é a hora de reacender as raízes pampianas. Para isso, nada melhor que um mergulho no silêncio das suaves colinas da fronteira oeste, na Estância São Lucas.

Tudo programado e preparado “au grand complet” com uma passagem na La Bodeguita pra providenciar um rancho a altura do cenário: queijo e salame da colônia, costelinhas de bovino, cebola para assar, bala de goma e alfajores para sobremesa e, vindo do outro lado da fronteira, no caso do Uruguai, algumas garrafas de vinho  a serem degustadas enquanto o fogo é feito, a carne fica no ponto e  um picado engana a fome que só aumenta enquanto ouvimos o trepidar do carvão em brasa. Vida mansa no final do dia.

Na chegada na estância no meio da tarde damos passagem ao gado da raça braford que vai sendo recolhido à mangueira. No dia seguinte os animais serão apartados pelos peões pilchados a cavalo para trabalharem o rebanho. Ali já dá para saber que o tão almejado silencio noturno será substituído pelo coro de mugidos  que ponteará madrugada afora, como uma sinfonia.

A imagem, impressionante para quem nunca viu a movimentação, é um colírio aos olhos saudosos que ficaram mais de um ano longe da lida campeira. Ao final do dia, uma mateada e algumas fotos dos gaúchos reunidos no galpão proseando ao cair da tarde.

A luz é muito especial. As sobras se alongam fazendo desenhos no campo, delineando o relevo das árvores contra as cores impressionantes do entardecer outonal.

Basta percorrer a cerca que protege a casa principal até a porteira para captar várias configurações da paisagem. O sol vai se pondo, ora no meio do arvoredo, ora no contorno suave da planície, dependendo do ponto de vista. O lusco fusco avermelha o horizonte e cria outras imagens dramáticas quando se acrescentam os contornos das porteiras e cercas dos bretes.

Quando resta penas um fiapo de luminosidade mais uma surpresa. A lua nova que dá as caras fininha, obriga a uma rápida mudança nos parâmetros da câmera fotográfica para que o sorrido do gato de Alice (a do País das Maravilhas) imprima nos sensores. Todo esse movimento acontece sem trégua. Deixa uma sensação de urgência para que tudo seja devidamente registrado. Mal comparando, é como uma escola de samba que passa na sua frente. A gente sabe que não pode perder nenhuma ação pois ela não se repetirá novamente. É hoje só, amanhã não tem mais, pelo menos daquela maneira exata.

O próximo ato é cair de boca no churrasco ao som de um programa de música nativa dos Pampas. Uma vingança à Carne Fraca que habita o cotidiano dos brasileiros em geral. E que se dane o colesterol, porque a gordurinha tostada é irresistível e o vinho dilui as incertezas futuras.

Coragem mesmo é mudar o fuso horário e, em busca da imagem perfeita, sair da cama por volta das 6 da matina, enfrentar o friozinho da madrugada partindo, de pilcha e botinas, em busca de ângulos que valorizem o prateado do orvalho que – ainda – molha os campos. O trabalho com o gado sendo apartado para a pesagem e a avalição rende registros de um estilo de vida fatigante, normalmente narrado de forma poética. Não é fácil a vida campeira. Essa conclusão se fortalece a medida em que o dia vai “adelante” e o calor castiga os animais e quem labuta na terra.

A poeira levantada pelas patas dos animais poderia ser apenas um filtro que deixa as imagens mais “doces” se não impregnasse a roupa, as peles suadas dos animais, de quem se dedica ao trabalho da pecuária e – ai de mim -, o delicado equipamento fotográfico.

Nada que não valha a pena quando o resultado do dia no campo ficar guardado, não apenas na memória de quem estava na lida, mas ao alcance dos que, sem passarem por todas as etapas aqui narradas, puderem viver esses momentos visitando os registros que trago de lá…   

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

No carnaval do Rio não há crise… de alegria.

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não adianta chororô, nem mimimi. Pode ter crise econômica, protesto do “agro” e mudanças no regulamento. É do jogo. Nada atrapalhará a maior festa popular do mundo. A única coisa que não pode ser prevista nem contornada é a chuva. Ela, sim, um imponderável sem possibilidade de controle. E há previsão…

As novidades de 2017 começam na estrutura do espetáculo definida pelas alterações no regulamento da Liesa, a Liga das Escolas de Samba, para este carnaval. Menos tempo de desfile, agora são 75 minutos para cada agremiação. Um carro alegórico a menos, são 6 por escola. Menos paradas para apresentações para os julgadores, apesar de continuarem existindo 4 cabines de julgamento, as duas centrais estão no mesmo ponto. Um novo horário, agora começa às 22 horas a festa no Sambódromo Darcy Ribeiro, a mítica passarela carnavalesca carioca, na Marquês de Sapucaí.

Infelizmente quem vê o desfile pela televisão continuará sem assistir a íntegra da apresentação das primeiras agremiações. E olha que as alterações se justificavam justamente para que, ao contrário do ano passado, as escolas que abrem a festa no domingo e na segunda-feira de carnaval pudessem ser transmitidas para o Brasil e o mundo. Serão, mas parcialmente.

Domingo é dia de índio, música e comédia

No domingo o Paraíso do Tuiti, campeão da Série A do Acesso, abre o Desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro. “Carnavaleidoscópio Tropifágico”, enredo de Jack Vasconcelos, homenageia o Movimento Tropicalista. O carnavalesco já avisa: “o enredo não é político”.

A levada continua musical, porém, levantando a poeira do Axé da baiana Ivete Sangalo na única homenagem a uma personalidade deste ano. A Grande Rio vem com “Ivete de rio a Rio”. A proposta de Fábio Ricardo passeia pela vida da cantora.

Quando, no início do ano, videntes disseram que a Grande Rio, a Beija-Flor e a Imperatriz Leopoldinense estariam no páreo para o título de 2017 foi uma surpresa. Para começar, as três desfilam no domingo e, de 2.000 para cá, apenas a Vila (2006) e a Tijuca (2010) ganharam o título no primeiro dia de competição. A campeã costuma sair das escolas que se apresentam na segunda-feira.

Logo depois, a polêmica provocada pelo “Belo Monstro” e outros detalhes do enredo da Imperatriz Leopoldinense a colocaram em evidência. Xingu, o clamor da floresta” desagradou o agronegócio. Foi bravamente defendido por seu criador Cahê Rodrigues que, com o apoio do presidente Luizinho Drumond e da comunidade, manteve o projeto original. A tentativa de censurar ou modificar a proposta acabou saindo pela culatra. Popularizou o tema, mexendo com os brios dos componentes da escola de Ramos. Índio quer espaço e, se isso divide opiniões, a Imperatriz contrabalança com uma unanimidade: o retorno de Luiza Brunet como Musa à passarela do samba.

“Vila, azul que dá o tom da minha vida…” o enredo “O Som da Cor“, de Alex de Souza produziu um dos melhores sambas do ano, interpretado por Igor Sorriso e a Suingueira de Noel. A escola tenta se reerguer após chegar a anunciar que não participaria do carnaval por ter tido suas contas bloqueadas na justiça ano passado. Vem prometendo Kizombar.

O Salgueiro continua por ali. Loucos para “morder” mais um título, Renato e Márcia Lage desenvolvem o enredo “A Divina Comédia do Carnaval” enquanto, nos bastidores, se comenta que o carnavalesco teria fechado com a Unidos da Tijuca para o próximo ano.

A noite termina com a Beija-Flor e “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”. Uma das novidades da comunidade nilopolitana será a ausência de alas, já adiantou Laíla, coordenador da comissão de carnaval. Um alerta. O samba, puxado por Neguinho da Beija-flor, é um chiclete daqueles que não sai da cabeça nem os sonhos mais exaustos de quem voltará para a Sapucaí para o segundo dia de desfiles…

Mangueira em busca do bi campeonato

Marrocos aos USA nos rios do tempo da simpatia Pensar mal disso? É segunda!

O carnavalesco Severo Luzardo estreia no Grupo Especial apresentando o passado, o presente e o futuro sob a ótica africana do candomblé da nação de Angola, dos povos Bantos, “puxado” por Ito Melodia, no enredo “Nzara Ndembu – Glória ao Senhor Tempo“.

Depois da festa de encerramento das Olimpíadas, Rosa Magalhães se debruçou sobre a preparação do carnaval da São Clemente. Tenta falar aí: “Onisuáquimalipanse” Traduzind o: Envergonhe-se quem pensar mal disso. E vamos esperar para ver o que a carnavalesca campeã das campeãs trará para a Sapucaí.

Abre-te Sésamo que o samba ordenou: vindo lá do Marrocos de Padre Miguel, “As Mil e Uma Noites de uma ‘Mocidade’ prá lá de Marrakesh”, apresenta um ótimo samba para embalar o enredo das arábias de Alexandre Louzada e Edson Pereira.

A vice-campeã de 2016, Unidos da Tijuca falará sobre música, a americana. “Música na Alma, Inspiração de uma Nação”, e dá-lhe variedade! A sinopse do enredo da comissão composta por Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo, tem até um glossário para explicar termos e estilos musicais dos USA.

E aí, vem a Portela, num ano conturbado com a morte de seu presidente Marcos Falcon. O vice, Luis Carlos Magalhães teve que se desdobrar para administrar o projeto de carnaval. Já em 2017, por exemplo, foi trocado, por exigência do carnavalesco Paulo Barros, o comando da comissão de frente! Mesmo antes do desfile, seu enredo já é realidade para os portelenses: “Quem nunca sentiu seu corpo arrepiar ao ver esse rio passar”. As chances de um bom resultado aumentam com o fim do mandato de Eduardo Paes, portelense assumido e um pé-frio daqueles. Em 8 anos de torcida e apoio declarado a escola de Osvaldo Cruz não conseguiu chegar ao título.

A última escola a desfilar confirma a regra por ser exceção. Só os mangueirenses mais apaixonados apostavam no título conquistado em 2016 pelo jovem carnavalesco estreante no Grupo Especial, Leandro Vieira. Diante das previsões dos videntes, novamente, ele corre por fora. Nascido e criado para vencer demanda, cercado de todas as proteções imagináveis, conta com muita força lá de cima! Leandro avaliou suas possibilidades de chegar ao bicampeonato até no título do enredo verde e rosa. “Só com a ajuda do Santo”.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Ordem dos desfiles:

Domingo: Paraíso do Tuiuti, Grande Rio, Imperatriz, Vila, Salgueiro e Beija-flor

Segunda: Ilha, São Clemente, Mocidade, Unidos da Tijuca, Portela, Mangueira

Me engana !

Texto e foto de Valéria del Cueto

A lua cheia – que a tudo ilumina e renova –  chegou para banhar entre as grades da janela a cronista reclusa e encontrou uma mensagem:

“Me engana e diz que não enxergo bem, que a miopia rouba os contornos, tira a definição e deturpa as imagens que meus olhos insistem em registar.

Me engana! E explica que através das lágrimas não vejo o fim do tempo da delicadeza e da esperança.

Me engana e jura de pés juntos (mesmo que certamente com os dedos cruzados nas costas) que a brutalidade e a violência são apenas uma miragem incrementada pelo gás lacrimogênio. O gás jogado contra os que protestam por seus mais legítimos direitos, inclusive membros da mesma corporação.

Me engana e explica como as forças da lei atiram aqui!  E ali retiram seus homens deixando os cidadãos a mercê da bandidagem…

Me engana afirmando que os que surrupiaram os sonhos, venderam nossa tranquilidade, tentam (inutilmente) sufocar a vontade de todos, não são os mesmos que hoje desprezam nossos direitos e tramam para vender o bem maior. Água é vida!

Me engana e diga que nós, que votamos obrigados entre o pior e o tão ruim quanto, somos os culpados por elegermos os bandidos quesurrupiam nosso patrimônio depois de sugarem qual vampiros nossas riquezas.

Me engana, por favor, mais uma vez e afirma peremptoriamente que é legítimo, moral e ético!

Os mesmos vendilhões e aproveitadores responsáveis por abrirem a porteira da ladroagem, mandarem às favas a Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovarem o RDC – Regime Diferenciado de Contratação, as LOAS e LDOS,  Leis de Diretrizes Orçamentárias, se locupletando e  incentivando a corrupção, são aqueles que (apesar de terem seus nomes citados nas delações premiadas  de empresários corruptos, serem  indiciados e covardemente protegidos pelo foro privilegiado de seus mandatos e, claro,  também questionados por tretas mis)  negociam a venda da CEDAE, a companhia de água e saneamento do Rio de Janeiro.

Me engana. Mas faz isso direito! Porque a minha, a nossa paciência está esgotada de tanta devassidão podridão. E, se depender da minha vontade não serei mais vítima de tanta vilania.

Serei seu algoz! Não tenho mais nada a perder…

Não me lembro de ter dado autorização para vocês venderem o meu futuro para pagarem os altos custos da incompetência e da falta de vergonha na cara.

Também não me lembro de ter passado uma procuração em branco para quem aprovou as suas contas e autorizou seus orçamentos megalômanos e descompensados. Portanto, não passei recibo nem dei moral para seus cúmplices abjetos.

Me engana, mas engana direito! Como foi feito com os órgãos que tinham a obrigação constitucional de defender e resguardar os interesses da Sociedade. Sigla, só siglas sem sentido e de pouca valia. A não ser na hora de levar seu “quero o meu”. Bancadas com os recursos dos impostos pagos pelo povo…

Me engana! E engana agora porque cheguei ao meu limite. Com todas as forças do meu conhecimento constitucional pleiteio um plebiscito para saber se o povo do Rio de Janeiro aceita entregar a CEDAE para pagar o rombo alheio.

Me engana, mas engana direito senão vou te devorar! Exatamente como você fez com os sonhos. Os meus e os de um povo inteiro!”

*Uma quinta-feira de TV ligada e a cronista (que estava quase concordando em se dar alta) teve um surto delirante. De seu reduzido espaço, entre as barras da janela, jogou a mensagem e a chave da cela para a Lua. Esta, depois de ler o recado, achou por bem não contrariar.  Jurou guardar o tesouro e garantir a sanidade da amiga. Mas não resistiu. Distribuiu aos quatro ventos em todas as suas fases o desafio lançado da mensagem: Me engana!

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

 

Colisão

Texto e foto de Valéria del Cueto

Olhando o navio sem conseguir distinguir onde começa a laje e por onde se estende o mar, Pluct Plact, o extraterreste, se prepara para fazer sua primeira visita do ano à sua parceira preferida, a cronista. Reclusa do outro lado do túnel. Num lugar onde a única visão exterior é a lua que, durante alguns dias do mês, derrama seus raios pelo vão da janela da cela onde está voluntariamente (vamos deixar bem claro), alojada. Cansou do mundo. Simplesmente.
Como você já deve saber, o extraterrestre veio em missão de re-conhecimento e acabou preso na atmosfera, onde se movimenta aos pulos, batendo e rebatendo a lataria cibernética de sua nave na poluição da camada de ozônio. Ela o impede de prosseguir viagem em direção a outros universos e galáxias.
Pode dizer. É muito tempo para ficar sem dar notícias. Mas, pensando bem, foi melhor assim. Melhor porque só fica pior. É cada coisa que acontece…
Como meta de ano novo tinha se proposto a só chegar pela janelinha deslizando pelo brilho do rastro da lua, quando tivesse algo realmente empolgante e alvissaro para narrar para sua querida cronista. Depois do grand finale de 2016, com aquela incrível sequência de partidas, as coisas bem que poderia cair na normalidade.
Opa! Aí, talvez, more o problema. A normalidade anda uma verdadeira aberração. E está sobrando para todos os lados. Não há trégua nessa luta dos rochedos com os mares, males e ondas traiçoeiras. A barra está pesada e o calor também. É tanto que não dá para ir à praia. Os raios UVs estão nas alturas, prometendo derreter e adoecer até as peles mais curtidas. É melhor não facilitar.
O perigo também mora nos bondes. Não dá para andar atoa por aí. Virou moda uma modalidade de “ocupação” de espaços. Primeiro nas praias, com horários mais ou menos definidos. Depois vieram a ampliação dos períodos e o aumento da área de abordagem: ônibus, ruas, estabelecimentos, o metro…
Na outra ponta, a que deveria mostrar que o crime não compensa, reina a barbárie. É guerra de gente grande manipulando e matando gente pequena. E não tem João Batista livre de condenação pelos grupos opositores. De Norte a Nordeste e dali para baixo corre o sangue das penitenciárias superlotadas. Facções lutam por espaços cada vez menos guardados e protegidos pelos responsáveis.
Os próprios e muitos outros sufocados e estrangulados pela falta de pagamento e condições de trabalho. Pezão, no Rio, só não fechou a porta do estado e jogou a chave fora porque falta depenar o pouco que restou da rapação patrocinada por seu guru e colega de primeiro escalão, habitante do Complexo de Bangu, Sérgio Cabral. Ah, Cedae, Cedae. Água é vida e é ela que saíra das mãos do Estado do Rio para pagar a bagaceira que ninguém pretende consertar. Aliviar e olhe lá…
O que tem visto é inenarrável. Não dá para contar para a amiga tudo de uma vez, na lata. É informação demais.
A ideia era parar por aqui e sobrar uns parágrafos para fazer um carinho na reclusa. Não deu.
Falta lauda para tanta informação nefasta. A última é a queda do avião bimotor que levava o Ministro do Supremo Tribunal Teori Zavascki para Paraty, com o dono de um empreendimento hoteleiro, o piloto e outras duas vítimas. Teori era o relator dos processos relacionados a Lava Jato. No momento, analisava e ia homologar em fevereiro, depois das férias forenses, os acordos de delações premiadas dos executivos da Odebrecht. Elas envolvem mais de uma centena de nomes de políticos dos mais variados matizes…
A região da queda remete ao desparecimento do helicóptero com Ulisses Guimarães, Dona Mora e o casal Severo Gomes. O avião lembra o acidente de Eduardo Campos. Os motivos? Poderiam ser associados a várias ocorrências inexplicáveis. De JK a Celso Daniel. Ou ter sido apenas um trágico acidente.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Mais amor por favor !

Texto e foto de Valéria del Cueto

Gosto de escrever textos leves, engraçados e, mesmo nas piores situações, poéticos. Mas tem hora que não dá para ser nessa levada. É preciso falar sério. Este é o caso. O papo tem que ser reto.

O assunto começa no carnaval. Mas o tema desse enredo, não é exatamente propício para o ambiente da maior festa popular do mundo. Uma festa carioca, popular,  plural! E famosa por não aceitar ali, qualquer forma de censura.

O maior exemplo é o espetacular episódio do Cristo Mendigo coberto por ordem judicial a pedido da Igreja. Foi revelado pelo povo do samba em plena Sapucaí no desfile da Beija-Flor na comemoração do seu campeonato. O enredo nilopolitano de Joãzinho Trinta, em 1989, era “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”. Captou? A sequência narrada pelo querido Fernando Pamplona, cujo link faço questão de colocar aqui, é inesquecível. https://youtu.be/ykt0KMvgbDU

Dito isso, vamos brincar de telefone sem fio. Aquela brincadeira em que uma pessoa diz uma coisa no ouvido da outra, que repete pra uma terceira, que manda no pé da orelha a informação pra frente. Do outro lado da linha, alguém diz em voz alta o recado que recebeu…

Nas primeiras manifestações, o tom usado para “discutir” o  enredo da Imperatriz Leopoldinense “Xingu, o clamor que vem da floresta, já indicava que  ia “dar ruim”. A senha, desde o primeiro comentário, era: vamos brigar, xingar, partir pra dentro. Assim.

Não demorou para que as informações desencontradas e incorretas tropeçassem nas próprias pernas. Após o apelo, que funcionou como um tiro perto de uma boiada, começou o achismo e, com ele, bateção de cabeça.

Exemplo? Alguém “pesca” na rede a informação de que os queridos Zezé di Camargo e Luciano eram convidados do carro de som da escola de Ramos. Alvo achado, mira feita e tiro dado. A patrulha botou as manguinhas de fora e, ouvindo o galo cantar sem saber onde, “patrolou” a dupla sertaneja. Diz nota oficial do Pres. do Sindicato Rural de São Gabriel e Vice Pres. da Farsul, a Federação de Agricultura do RS:

“…Curiosamente, o site da escola anuncia como “puxadores” convidados, os artistas Lucy Alves e Zezé di Camargo & Luciano. Ela, que faz música com sotaque rural, e eles, que nunca recusam oportunidade de faturar em exposições-feiras, como a de São Gabriel, no ano passado. O músico e produtor Zezé pode até achar bonito o discurso que coloca o produtor rural como inimigo do indígena, mas imagino que não coloca suas terras de Goiás à disposição da União para fazer reservas indígenas. E viva o Brasil do Carnaval, da ignorância histórica e da desinformação

 A resposta veio do próprio Zezé de Camargo. O texto não está completo por falta de espaço. Basta dar um “google” para lê-lo. Diz ele, entre elogios ao setor:

 “ fiquei surpreso ao ser citado, ironicamente e de forma equivocada, pelo presidente do Sindicato Rural de São Gabriel Vice Presidente do Farsul.

Caro Sr Tarso Teixeira, também é ignorância afirmar o que não se tem conhecimento. Nunca fui convidado para ser o puxador do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense. Nem eu nem o meu irmão Luciano. Tenho muito carinho pela escola que homenageou a minha família no ano passado. Mas não temos ingerência sobre temas que a Imperatriz possa criar e abordar. Se tivéssemos, garanto com toda a convicção, que mostraria aos membros da escola que a maneira como estão colocando o agronegócio não condiz com a realidade… …E como quem faz alegria vive de magia, é fato que não existe maldade na homenagem, mas falta de informação. Cabe então, a nós, simples mortais, porém que conhecemos este outro lado da moeda, mostrarmos para os criadores do samba, em tom de paz (não de guerra) que a nossa Terra se faz com a força e garra daqueles que produzem o espetáculo que reluz diante de meu Brasil gerado pelo agronegócio.”

 Depois dessa aulasobre diálogo e gentileza, segue a novela com direito a fervura até o dia do desfile. Nas cenas dos próximos capítulos o senador Ronaldo Caiado promete uma audiência no Senado Federal para fazer uma devassa nas contas da agremiação carnavalesca que ousou desagradar o agro. Parece reprise, não é?

 *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Mato Grosso em nova polêmica carnavalesca no papel de vilão

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dá para acreditar? Todo mundo no mesmo saco, um estado inteiro no erro? Nada disso!

Assim se criam as polêmicas virais. Uma informação retirada do contexto. A afirmação categórica que a unidade é o todo. Com um tom de indignação se desconstrói o conceito previamente deturpado.

Enredo pobre e medíocre é assim. Eis a indignada manchete com o conteúdo seguindo o script: “Escola de samba do RJ vai criticar agro na Sapucaí”. As reações nas redes sociais, diante do apresentado, foram superlativas. Negativas em sua esmagadora maioria. Com ampla utilização de termos chulos, preconceitos variados explícitos e assinados contra a escola, o carnaval, o povo carioca e o Rio de Janeiro como um todo. Só a página que repercutiu o alerta indignado original teve mais 700 comentários até o fechamento desta edição. Muitos impublicáveis em veículos de comunicação.

Agora, o Rio é a Geni. Aquela em que jogam pedras depois de vários enredos carnavalescos, patrocinados ou não, muito bem-sucedidos sobre o agronegócio.  “Parábola dos Divinos Semeadores”, em 2011, pela Mocidade Independente de Padre Miguel (CNA). “A Vila canta o Brasil, celeiro do Mundo”, deu o último campeonato à azul e branca, em 2013 (Basf). O vice-campeonato de 2016 foi da Unidos da Tijuca com “Semeando Sorriso, a Tijuca festeja o solo sagrado”.

Foi neste último que vimos passar pela avenida as matas seriam derrubadas, aradoscolheitadeiras,  aviões agrícolas para aplicação de defensivos. E, sim, uma fantasia similar a uma das que estão causando protestos. As composições de carro com lindas larvas do último carnaval reaparecem numa ala chamada “fazendeiros e seus agrotóxicos”. Mas lá podia…

“Olhos da cobiça” e “Doenças e pragas” fantasias de alas comerciais, são apresentadas como provas cabais de que com o enredo de 2017 a Imperatriz é inimiga mortal do agronegócio. Três fantasias num universo de mais de 30 alas num total 5 mil componentes fazem o link megalômano, um canal suficiente para defenestrar e destruir o universo inteiro do carnaval e botar no mesmo balaio de (pré)conceitos todos os envolvidos no processo e adjacências.

Mas afinal, qual o enredo da escola de Ramos? “Xingu, o clamor que vem da floresta”. Cá entre nós, serão todos os agricultores do Brasil os vilões citados no samba enredo que diz que “o belo monstro rouba a terra de seus filhos, devora e seca as matas e seca os rios, tanta riqueza que a cobiça destruiu”? Ou seria… Belo Monte, a usina hidrelétrica?

O que será pior: quem veste a carapuça de destruidor do meio ambiente ou quem deveria reconhecer que, por não ter feito a lição de casa, novamente a nota de interpretação de texto não dá pra passar de ano?

 A direção da Imperatriz Leopoldinense não vai se manifestar sobre o episódio.


Com a palavra Cahê Rodrigues, carnavalesco e autor do enredo da Imperatriz Leopoldinense

Você esperava uma reação dessa proporção do “agro” ao  enredo?

Sempre me preocupo muito com uma mensagem de amor e paz. Fujo de todo tipo de polêmica, de agressão ao próximo. Eu nunca fui um carnavalesco de entrar em polêmicas. Desde o início o objetivo desse tema foi exaltar os povos do Xingu dando voz a esses índios que lutam durante tanto tempo, tantas décadas, em prol da sua liberdade, do respeito com a sua terra, pela sua cultura, pelo seu povo. A proposta do enredo da Imperatriz é uma exaltação aos índios do Xingu. Eu realmente não esperava, uma repercussão negativa na área do agronegócio.

O enredo do Xingu é um enredo patrocinado?

Esse ano a Imperatriz não teve nenhuma proposta de enredo patrocinado. Trouxe três ideias de enredo como eu sempre faço. E, é claro, que eu tinha um carinho especial por esse tema do Xingu, porque já era um desejo meu de um dia poder exaltar os índios em algum dos meus enredos.

O agronegócio é um tema muito explorado no carnaval carioca…

Várias escolas já fizeram carnavais muito bem-sucedidos homenageando o agronegócio. A própria Imperatriz, no último carnaval fez uma homenagem a vida do sertanejo, a vida do caipira. Exaltou o trabalho do agronegócio, dos agricultores, na figura do caipira, do homem do campo e com muito orgulho levou essa história para o sambódromo.

Alguém do setor te procurou para dialogar ou pedir informações sobre a abordagem do enredo?

Ninguém me procurou pessoalmente, podem ter procurado a assessoria de imprensa da escola. Para mim ninguém ligou. Acho um pouco demais e desnecessária a posição agressiva de algumas pessoas que desconhecem a proposta de carnaval da Imperatriz e estão falando bobagens e coisas sem sentido, agredindo o carnaval da Imperatriz e o carnaval carioca.

Essas pessoas realmente não devem ter conhecimento da grandiosidade que essa festa representa para o país, o número de empregos que o carnaval gera o ano inteiro. Eu não tenho o que falar, o que responder para essas pessoas que realmente estão a fim de aparecer e de agredir desnecessariamente uma escola que está fazendo um projeto lindo, um projeto de respeito ao ser humano.

Um projeto que pretende exaltar não só os índios do Xingu, mas todo indígena brasileiro. Esse enredo é uma ode a todos os índios do Brasil, não só os índios do Xingu e, infelizmente, eu não tenho como mudar a história. A proposta do enredo não é agredir ninguém, mas eu não vou omitir nem vou deixar de mostrar na avenida aquilo que de fato agride, sim, a vida do índio. Ele depende da floresta para sobreviver, depende da água para pescar o seu peixe e o índio depende do ar puro para respirar assim como todos nós. O índio depende desse verde. Por isso o clamor da floresta que a Imperatriz vai levar para a avenida é para que todos possam olhar para as nações indígenas do Brasil com respeito e com o carinho que eles merecem.

Compositores: Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna

 

BRILHOU… A COROA NA LUZ DO LUAR!
NOS TRONCOS A ETERNIDADE… A REZA E A MAGIA DO PAJÉ!
NA ALDEIA COM FLAUTAS E MARACÁS
KUARUP É FESTA, LOUVOR EM RITUAIS
NA FLORESTA… HARMONIA, A VIDA A BROTAR
SINFONIA DE CORES E CANTOS NO AR
O PARAÍSO FEZ AQUI O SEU LUGAR
JARDIM SAGRADO O CARAÍBA DESCOBRIU
SANGRA O CORAÇÃO DO MEU BRASIL
O BELO MONSTRO ROUBA AS TERRAS DOS SEUS FILHOS
DEVORA AS MATAS E SECA OS RIOS
TANTA RIQUEZA QUE A COBIÇA DESTRUIU

SOU O FILHO ESQUECIDO DO MUNDO
MINHA COR É VERMELHA DE DOR
O MEU CANTO É BRAVO E FORTE
MAS É HINO DE PAZ E AMOR

SOU GUERREIRO IMORTAL DERRADEIRO
DESTE CHÃO O SENHOR VERDADEIRO
SEMENTE EU SOU A PRIMEIRA
DA PURA ALMA BRASILEIRA

 

JAMAIS SE CURVAR, LUTAR E APRENDER
ESCUTA MENINO, RAONI ENSINOU
LIBERDADE É O NOSSO DESTINO
MEMÓRIA SAGRADA, RAZÃO DE VIVER
ANDAR ONDE NINGÚEM ANDOU
CHEGAR AONDE NINGUÉM CHEGOU
LEMBRAR A CORAGEM E O AMOR DOS IRMÃOS
E OUTROS HERÓIS GUARDIÕES
AVENTURAS DE FÉ E PAIXÃO
O SONHO DE INTEGRAR UMA NAÇÃO
KARARAÔ… KARARAÔ… O ÍNDIO LUTA PELA SUA TERRA
DA IMPERATRIZ VEM O SEU GRITO DE GUERRA!

SALVE O VERDE DO XINGU… A ESPERANÇA
A SEMENTE DO AMANHÃ… HERANÇA
O CLAMOR DA NATUREZA
A NOSSA VOZ VAI ECOAR… PRESERVAR!

O link para baixar o áudio está aqui: http://www.imperatrizleopoldinense.com.br/odesfile.html

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Tem trem cuiabano na memória verde e rosa…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Meus caminhos levam ao samba. E ele passa pela Estação Primeira de Mangueira. A escola verde e rosa completa seus 90 anos em 2018 e já se agita animada para a comemoração.

Um passo importante na preparação dos festejos é a reabertura, após 10 anos, do Centro de Memória Verde e Rosa. Ele fica no terceiro andar do Palácio do Samba, a quadra da escola, junto ao Auditório Dona Zica, a sala de cinema Carlos Cachaça e Biblioteca Dona Neuma.

Aberto em 1999, na gestão do presidente  Elmo José dos Santos, tem um acervo composto por objetos queridos dos mangueirenses que narram a história da escola e da comunidade. Lá estão expostos fotos, fantasias, instrumentos musicais, incluindo o saxofone de Mestre Pixinguinha e o surdo do primeiro desfile da escola,  revistas e jornais, como a primeira edição de “ A voz do Morro, publicação criada numa favela, em 1935, e outras preciosidades.

Imaginem a emoção e alegria dos convidados do Vice-Presidente Cultural, Paulo Ramos, um dos responsáveis pela revitalização do  espaço de referência para pesquisa, educação, documentação e comunicação, considerado um “território de cultura encravado no pé do Morro da Mangueira”.

Uma parte do Centro foi atualizado, incluindo a conquista do último campeonato, o de 2016, com o enredo homenageando Maria Bethânia, “A menina dos olhos de Oyá”.

Também foi renovado o painel que fica diante da porta de acesso do Centro de Memória Verde e Rosa. E ele é a causa desta crônica natalina.

Outro dia, os jornais de Mato Grosso publicavam que o VLT poderá ser construído em duas etapas e que a primeira irá do aeroporto, em Várzea Grande, ao Porto. Conclusão: por mais um capricho do destino, Várzea Grande terá um VLT antes de Cuiabá. Ô trilho difícil!

Pensa no trem. Sonho de Vicente Vuolo. Aquele que quase chegou á Cuiabá. A locomotiva que acabou “puxando” a exuberância da capital de Manto Grosso pela Sapucaí para o mundo, no desfile dessa mesma Mangueira, de 2013.

É incrível que a cidade não guarde nem preserve essa memória. E que, quando vem à cabeça a reação local ao desfile verde e rosa daquele ano, a primeira lembrança seja sempre a questão do jequitibá, símbolo da escola citado no samba e tão criticado por estar lá, já que não há jequitibá em Cuiabá. A polêmica rendeu um trem!

Esse do enredo que levou a obra do fabuloso artista plástico João Sebastião para o último carro da escola, o da Copa do Mundo. O da alegoria que, quando viu que estava chegando o final do desfile, resolveu atender sua natureza de borboletear, dificultando sua passagem pela torre de televisão na Marquês de Sapucaí. Ali, pontos essenciais foram perdidos. Mangueira e Cuiabá ficaram fora do desfile das Campeãs…

Mas a linda e arrebatadora apresentação recebeu o maior reconhecimento que poderia alcançar, diante da quebra do carro. Ganhou do júri do Jornal o Globo, o cobiçado prêmio Estandarte de Ouro de Melhor Escola do Carnaval 2013.

Para alguns cuiabanos pode ser que essa história tenha acabado e, inclusive, servido a vis propósitos políticos de quem não respeita nem avalia o que representa estar ali, na vitrine do Sambódromo Carioca, diante de centenas de milhões de espectadores. Uma pena para Cuiabá…

Mas não para a Mangueira, que sabe reverenciar sua história e, ao reabrir seu Centro de Memória escolheu, para encantar quem adentra suas portas como visitante, uma imagem do Abre Alas do desfile “Cuiabá, um Paraíso no Centro da América”.  

Gratidão por seu passado e respeito por sua história. Vamos aprender com quem pratica. Esses são meus desejos para a cidade que amo e, um ano depois dos 90 da Mangueira, em 2019, comemorará seus 300 anos. Vamos preparar a festa!   

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “É carnaval” do Sem Fim…

Se essa rua fosse minha…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Meus caminhos levam às praias. Incluindo a rota pelo Parque Garota de Ipanema, no Arpoador. Desde que mudei para o Posto 6 acompanho interessada a construção do hotel Arena Ipanema. Ironia da vida, quando saí da Ponta, o Arena Leme estava sendo construído. Fiquei apegada aos lindos vidros espelhados. Sempre que passava pelo parque observava o canteiro de obras que ocupava uma parte do jardim do espaço público.

Se feio estava, feio ficou na época dos Jogos Olímpicos e Paraolimpícos, festas maiores do  calendário turístico de 2016. Na verdade, piorou e não foi um pouco com o fechamento da entrada pela lateral na praia. Via de acessibilidade por possuir rampas e pistas “lisas”. A partir daí, ficou apenas a travessia pelo coração do Garota de Ipanema. Irregular e cheia de árvores, recantos. Mais perigosa. Os Jogos acabaram e retiraram os tapumes do canteiro de obras. Começou a recuperação do espaço que, detonado, estava lotado de entulhos da construção do empreendimento turístico.

Um dia, apareceu a passagem. De ponta a ponta, na lateral do hotel. Um “passeio” reto e gradeado, já que as duas entradas para o parque foram fechadas durante as obras e a rampa de concreto de acessibilidade retirada. Quando ia pra praia, a passagem era ótima para os dias de pressa. O passeio pelo interior do parque era perigoso e mais longo.

Domingo foi assim. Optei pela passagem lateral. Quando cheguei no portão ele estava fechado, mas não cadeado. Estranhando, entrei. Já na altura da entrada de serviço do hotel fui alertada que não poderia passar por ali por ser uma rua privativa e estar fechada ao público durante os finais de semana. Sabe quando passa pela sua cabeça um filme? Pois é. O enredo e a produção eram cuiabanos. A rua ficava no Porto e negócio, feita por um prefeito, foi revisto depois…

Na volta da praia ao atravessar novamente por dentro do parque “perguntadeira”, fui assuntando com salva vidas, guardas municipais e PMs que estavam de serviço (muitos, era domingo), se sabiam e o que achavam da medida. Unanimidade. Os guardiões afirmavam que estava complicado para quem passava e era obrigado a ir pelo parque. Tanto na acessibilidade quanto no quesito segurança. E ninguém sabia informar como a rua havia virado privativa.

Para me inteirar melhor na segunda feira fiz um passeio fotográfico com o apoio de um guarda municipal. Os cenários e recantos se estivessem bem conservados seriam espetaculares! Mas, hoje, não dá para ficar dando sopa com um aparelho qualquer no pedaço. Publiquei as fotos no Instagram. Fazem parte da série #ValeRio2016. Uma das mostram o antes, o durante e o depois dos megaeventos cariocas. Por definição, assim como foi no Pan e na Copa, estamos no #justafter, o legado.   

Caí dentro na internet atrás de informações. Já com o suficiente nas mãos procurei o marketing do grupo Arena que me encaminhou para o gerente geral do Arena Ipanema. Douglas Viegas é um gentil cavalheiro da hotelaria carioca. Morador de Copacabana e, portanto, disposto a uma boa conversa, a dar as explicações disponíveis e ouvir ponderadamente a demanda. Explicou que o Arena Ipanema adotou o parque. Fazia a revitalização e conservação do mesmo. Também me disse que havia uma decisão, tomada pela Associação dos Moradores, Região Administrativa, PM e Guarda Municipal, de que o parque funcionaria de 6 da manhã às 20h. Perguntei se haveria horário de verão, mas ele disse que não. Concluí com meus botões: não consultaram os esportistas! Surfistas madrugam e a volta pela Francisco Otaviano atrasa ainda mais o mergulho matutino. O mesmo acontece quando o sol se põe mais tarde, no verão. Nada de cortar caminho… Parece que a decisão de fechar a rua rolou numa reunião dessas. Mas, como Douglas não lembrava a data, fiquei de enviar essa e outras perguntas por email. Na saída aproveitei e mostrei as fotos que fiz da reforma do parque, hashtag #sosparquegarotadeipanema, sugerindo sutilmente que alguém do hotel dê uma fiscalizada na qualidade dos trabalhos.

Onde quero chegar com essa prosa? A um final feliz. Na mesma tarde recebi um convite para fotografar a passagem no próximo sábado. Segundo Douglas, ela estará aberta ao público em geral e aos que precisam de acessibilidade para chegar ao Arpex, o paraíso carioca…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Arpoador” do Sem Fim…

Você pagou com traição…

img_20161117_170046328_hdr_31064160135_o-praia-do-diabo-jacare-equilibrio-bandeiraTexto e foto de Valéria del Cueto

Que dia inesquecível! Principalmente para os habitantes do estado do Rio de Janeiro e sua capital, a Cidade Maravilhosa.

Essa que Pluct Plact tem evitado abandonar por muito tempo desde que assumiu o papel de mensageiro. Levando compenetrado à sua melhor amiga do planeta notícias e impressões desse momento fantástico e imprevisível  do mundo circundante. Sente que, ao fazê-lo, pode contribuir para facilitar uma futura readaptação da querida companheira voluntariamente exilada numa cela do outro lado do túnel, ao mundo (ir)real.

Há quanto tempo assumiu a tarefa? Não saberia dizer ao certo sem consultar os alfarrábios nanotecnodigital de sua nave mãe. A que o trouxe para esse planeta. A mesma sem força propulsora para ultrapassar a (mais uma vez noticiada) aquecida camada atmosférica local para tirá-lo desse trecho interminável de sua jornada.

Só sabe quem tem o sentimento. Quando certas coisas começam a se repetir.  Já tinha visto esse filme!  O cenário era uma batalha campal na frente do belíssimo Palácio Tiradentes. Tudo narrado em “Pluct, Plact, POW”. Mudaram um pouco os personagens. Ficaram mais variados. Agora, não são somente professores e alunos que ele entrevê no meio da fumaça, entre uma ardência e outra, provocada pelas bombas de efeito moral com validade vencida. É polícia sem muita vontade de brigar versus polícia, bombeiro e aposentado morrendo de vontade de invadir a Assembleia Legislativa. Até aí, coincidência, dirão os mais céticos leitores…

Fica pensando o que dirá a cronista quando descrever a cena do governador passeando de carro oficial da Polícia Federal. “Pluct, Plact seu HD está dando “tilt”. Essa história você já contou. Lembra de Pluct, Plact toin oin oin? Foi antes de que eu sumisse do mundo, quando prenderam o governador (ainda era) de Mato Grosso, Silval Barbosa.”

Qual será sua reação quando explicar que apesar das semelhanças de propósitos, como o assalto aos cofres públicos, o percurso e o cenário eram diferentes. Saem as avenidas cuiabanas das obras inacabadas para a Copa do Mundo. Entram imagens paradisíacas da orla carioca. Do Leblon a sede da Polícia Federal, na Praça Mauá, zona portuária. Da Beira Rio à Rio Orla…

Permanece o partido, o PMDB. A sigla deveria mudar para PMDBREX – Partido do Movimento Democrático Brasileiro da Roubalheira Encarcerada no Xadrez.

A população fluminense, exceto os comparsas, cargos comissionados e terceirizados do compadreio (outra perna do polvo da corrupção pública), aplaude e comemora o arresto da sem-vergonhice e o basta na roubalheira escrachada. Só nestes mandados de prisões  existem mais de 224 milhões de motivos para encarcerar Sérgio Cabral. Devia ser em Bangu, mas os torcedores do querido time não aceitam a escalação. Pensam em pedir a mudança de nome do presídio para Vasco da Gama. “ A Sérgio o que é de Sérgio”, já dizia sem que ninguém pedisse sua opinião, o mui amigo Eike Batista em seu depoimento voluntário às autoridades policiais, delira o extraterreste. É muita gozação…

O problema é o compadreio que leva na mesma puxada de rede figuras (im)polutas e aliados em geral. Todos direta e indiretamente ligados as falcatruas, ladroagens e taxas de oxigênio embutidas nas obras. Sem distinção. Do PAC das Favelas à destruição criminosa do Maraca, está todo mundo no RDC. É o Regime Diferenciado de Contratação, o pulo perfeito do afano do gato.

Aliás, autores, propositores, votantes e usuários dessa aberração que abre as porteiras e estende tapete vermelho para atos de corrupção e malabarismos contábeis, devem ser considerados responsáveis,  culpados e condenados pela farra do roubo sistematizado e a gastança indiscriminada dos recursos públicos da educação, saúde, segurança e habitação. São os crocodilos que pagaram com traição a quem sempre lhes deu a mão.

Volta cronista! Está dando gosto de ver…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Fábulas fabulosas” do Sem Fim…

Documentarista revela Pantanal dos Pantanais (ou Pantanal de pai para filha)

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Texto de Valéria del Cueto, fotos/divulgação.

Quantos pantanais existem no Pantanal? Mais de 10 mil quilômetros rodados por 11 sub-regiões do bioma, durante dois meses, foi o que Marcelo de Paula, Carla Mendes, sua mulher, e Morgana, a filhota de 7 anos, percorreram para explorar as múltiplas facetas do bioma.

O material, reunido para um longa-metragem e uma série de TV, começa a ser editado na casa da família, em Cabo Frio, estado do Rio de Janeiro, logo após o fim da aventura que durou 2 meses.

Eles passaram por Aquidauana, Bodoquena, Miranda, Porto Murtinho, Corumbá, Rio Verde, Coxim e Sonora, em Mato Grosso do Sul e Barão de Melgaço, Santo Antônio do Leverger, Poconé e Cáceres, em Mato Grosso. Reuniram informações ambientais, exploraram as questões sócio-culturais, históricas, destacando aspectos econômicos, turísticos e as tradições pantaneiras.

As imagens foram produzidas em terra, água e ar, com drones e equipamentos subaquáticos. Os temas do roteiro idealizado por Marcelo foram abordados em 25 depoimentos. O cavalo pantaneiro, o gado Caracu, a pesca profissional, a Estação Ecológica de Taiamã, o chapéu Carandá, o artesanato de couro de peixe, são alguns deles.

O fotógrafo esteve pela primeira vez no Pantanal em 1983 quando tinha 18 anos. A última, muitos prêmios, filmes, séries e fotos depois, em 2008. Nem Morgana, sua filha de 7 anos, membro da expedição, é novata. Foi batizada em Bonito quanto tinha 9 meses, na viagem anterior.

“Ela tem talento para a fotografia”, avalia. “A viagem foi muito importante para o seu amadurecimento e crescimento. Teve aulas geográficas ambientais “in loco”. Comeu jacaré, tomou Tereré…  isso só fez engrandecer o “HD” dela. Vai estar nas próximas” decreta com o apoio incondicional da mulher, Carla Mendes.

À sua lista de atividades de produtora e editora, conhecedora do processo de produção audiovisual de cabo a rabo, ela incorporou outras tarefas. “Não dá para separar as coisas, a função é tripla: produtora, mãe e professora. As atividades da escola eram feitas comigo”, explica, lembrando que fez a segunda câmera e o making of. “A percepção precisou ser ampliada. Agora, é cuidar de mim e dela. Foi difícil, mas sempre soubemos que seria assim. Sempre quisemos que fosse todo mundo junto”.

Para Marcelo, o que mais mudou desde a última visita foram as condições do patrimônio publico e histórico das cidades visitadas. “Quando estávamos em Cáceres o Ministério Público entrou com uma ação contra o IPHAN pelo abandono do patrimônio histórico”, lembra.

Ele destaca, também, o caso do impacto das áreas públicas do Pantanal. “As reservas federais estão em condições mais razoáveis, mas onde o poder público não chega o descaso é total. A fiscalização é precária e os parques estaduais só existem no papel, tanto em Mato Grosso como em Mato Grosso do Sul”.

Nos locais privados explica que houve uma conscientização maior. As fazendas preservam e não geram grande impacto. O poder privado avança muito mais, avalia ressaltando que “a carta da Caiaman assinada recentemente, envolveu o todos os agentes, mas a iniciativa partiu do poder privado”.

Agora, explorar e editar os registros recolhidos para o longa “Pantanais do Pantanal”, produzido pela Código Solar, produtora do casal, é o principal. A série para TV será desenvolvida com calma. “Estamos na fase inicial da edição do filme. Ela deve ir até janeiro”, calcula. “O lançamento temático será no Rio de Janeiro, depois vamos viajar levando o filme até nossos parceiros”.

Bom, falta a opinião de Morgana, a menina que fez história por ser a primeira criança a visitar a Estação Ecológica de Taiamã. “Gostei bastante das onças e dos outros bichos”, conta ela pelo whatsapp. “Queria voltar o mais rápido possível, mas estou muito cansada. Mas, depois, vou voltar de novo!”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Parador Cuyabano” do Sem Fim…nas-trilhas-do-passo-do-lontra-park-hotelmorgana-na-producao

Brechó (ou… “7 tópicos e asterisco numa quase fábula fabulosa”)

aquidsela-160616-043-selaria-renascer-brecho-placa-roupas-novas-e-usadasTexto e foto de Valéria del Cueto

Falta tudo, inclusive tempo. Só não falta assunto… Então, vamos por itens. Tipo rascunho dos temas que o extraterrestre Pluct, Plact encaminhará para sua querida cronista enclausurada voluntariamente (ou não? Onde já se viu bate-papo com ser interplanetário?). Não captou? Então vamos por partes, como diria o esquartejador.

1 – A recém empossada presidente do STF, o Supremo Tribunal Federal, Ministra Carmem Lúcia, valoriza, a cada pronunciamento ou declaração, a cultura brasileira.

Na sua posse, entre outras citações, falou do filme de Adriana Dutra, “Quanto tempo tem o tempo” produzido pela Infinitto, da cuiabana Viviane Spinelli. Essa semana foi a vez de “Deixa o Alfredo falar”, título de crônica e livro do escritor Fernando Sabino.

Pelo menos, seguindo suas dicas, vai ter gente tendo que se ligar na genuína cultura “popular” brasileira. E não apenas na erudição do “juridiquês”!

2 – Prenderam o Eduardo Cunha. Vai delatar ou não vai?

3 – O anel que tu me destes não era de vidro, nem se quebrou. Mas, diz a lenda, foi devolvido! Custou R$ 800 mil o mimo que o delator Fernando Cavedish, da boa, velha e mal falada empreiteira Delta, bancou para Sérgio Cabral Filho – ex-governador que deu uma contribuição e$$encial para a falência do estado do Rio de Janeiro – presentear sua mulher, Adriana, na comemoração de seu aniversário em Mônaco. (A pesquisar se foi na ocasião da singela festinha o famoso evento dos guardanapos na cabeça).

4 – Verba e estrutura do Congresso Nacional usadas para fazer varreduras senatoriais visando evitar investigações de anti inteligência (como se escreve esse “fiz que fui e acabei fondo”, como diria Nunes, jogador do Flamengo, em priscas eras?*) para descobrir grampos, inclusive os autorizados pela justiça. Pela Lava-Jato, por exemplo. Com direito a varreduras nas residências nos estados. Senadores citados: José Sarney, Fernando Collor e Edison Lobão. Mais uma delação premiada e temos a Polícia Federal indo atrás do Chefe de Polícia e outros funcionários da… Polícia Legislativa do Congresso Federal.

5 – Por falar na família Sarney:

Governadores de Mato Grosso, Pedro Taques, e de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja, com a presença do Ministro José Sarney Filho, do Meio Ambiente, assinaram a Carta de Caiman. Um termo de compromisso que estabelece políticas comuns para o Pantanal considerando seus aspectos ambientais e culturais semelhantes. Também prevê uma legislação única para regulamentar e proteger o sistema garantindo seu uso sustentável. A carta define o prazo de um ano para a definição de uma área de interesse para o econegócio, contemplando o planalto e a planície pantaneira.

6 – ECONEGÓCIO PANTANEIRO. Você ainda vai ouvir falar muito nesse termo. Beeeem diferente do agronegócio de sempre. Aquele…

7 – Uma rápida pesquisa no site do Senado Federal informa que o relator da PLS750/2011, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, que dispõe sobre a Política de Gestão e Proteção do Bioma Pantanal, de autoria do atual Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, é nada mais nada menos que o suplente do dito cujo, Cidinho dos Santos.

A relatoria da PLS na Comissão já foi do candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que passou para seu suplente quando assumiu o Ministério da Pesca, Eduardo Lopes. Coube a ele a apresentação de um substitutivo integral ao texto, depois retirado. Aí, Crivella trocou com ele. Reassumiu sua cadeira no Senado e Eduardo Lopes virou Ministro da Pesca.

O processo voltou para o homem do Bispo que se esqueceu dele. Com sua saída para ser candidato foi redistribuído pelo presidente da Comissão, Waldir Maranhão. Em julho desse ano, quem diria, que coincidência fortuita, foi cair no colo justamente do suplente do autor da proposta, conhecido mundialmente pelo singelo prêmio recebido, o “Motosserra de Ouro”…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Lágrimas por nossa, senhora

flor-sa-ferreira-161006-img_20161006_125257393_30072263851_oTexto e foto de Valéria del Cueto

Na falta de solução, apelemos para a gentileza. Vamos pregar a delicadeza. Porque não, não está fácil pra ninguém.

A constatação é de Pluct Plact, aquele extraterrestre extraviado no planeta Terra, sem chance imediata de retorno para qualquer lugar menos lunático da galáxia.

Bem que ele tentou como paliativo uma vaguinha junto a sua amiga cronista, voluntariamente isolada já tem um tempo numa “invernada”, do outro lado do túnel (é seu correspondente, único contato com o mundo exterior). Mas a lotação anda esgotada, com uma imensa fila de terráqueos querendo vaga no lugar. Como alienígena juramentado, não conseguiu sequer fazer sua inscrição. Chegaram a conclusão que de louco, ele não tinha nada.

Uma pena. Isso o obrigou a acompanhar mais uma eleição  para poder contar na próxima visita, entre outras novidades, que passado o limpa banco eleitoral, vem aí um refresco até a votação do segundo turno.

Pelo menos em 55 cidades com mais de 200 mil eleitores divididos (onde os candidatos não alcançaram maioria simples mais um), haverá chance de uma discursão mais aprofundada sobre o modelo de gestão a ser adotado.

Não que adiante muito em alguns lugares. No Rio, tédio… Vai dar Marcelo. Crivella ou Freixo. Oito ou oitenta. Com muitas ausências, votos nulos e brancos entre os extremos.

Sobre São Paulo pretende nem citar, se ela não perguntar…

Um pedido garantido da reclusa será um rápido painel do seu Mato Grosso. Momento de tensão. Pra começar, a inacreditável sinalização referente a  participação feminina no pleito. Dos 141 municípios, 15 prefeitas se elegeram. Delas, 12 são marinheiras de primeira viagem no cargo. Parece pouco?

Nos legislativos elas ocuparão reles 12,93% das cadeiras. 42 localidades não têm nenhuma única mulher na câmara municipal! Santa Carmem é o único município do estado em que estão em maioria ocupando 5, das 9 vagas. Informações do jornalista Eduardo Gomes.

E quanto ao segundo turno na capital, assunto de interesse geral? Em Cuiabá, entre Emanuel Pinheiro, do PMDB, e Wilson Santos, do PSDB. Lá, como no Rio e São Paulo, a ausência foi campeã de votos no primeiro turno. É difícil saber quem é o mais do mesmo.

Sim, Emanuel, do PFL, para o PDT (onde costurou o apoio do partido a candidatura de Wilson Santos à prefeitura, conta seu site), na Secretaria de Trânsito e Transportes Urbanos do prefeito eleito… Wilson Santos. Vai pro PL, PR e, finalmente para o PMDB de… Carlos Bezerra.

Já Wilson Santos abre os trabalhos no PMDB de… Carlos Bezerra, como vereador. Passa para o PDT e depois para o PSDB. Prefeito por um mandato e meio.

Tudo parecido. Wilson diz que é Dante. Emanuel é Jonas Pinheiro. Emanuel é Blairo que governava quando Wilson era prefeito. Que é Pedro Taques. Wilson só não é Mauro Mendes e esse jamais será Wilson, se nem agora assumiu. Mas são do mesmo grupo político, captou?

A parte boa é que há mais tempo para conhecer as características dos postulantes e suas propostas.

Isso, enquanto o mundo continua girando e a história é atropelada pelos acontecimentos. O Brasil está… Melhor deixar pra lá. Vamos manter o ânimo elevado.

Como Pluct, Plact é otimista, idealiza um período de depuração. Considera que pior não pode ficar.Então o jeito é peneirar. O problema é: peneirar o que?

Os surpreendentes sinais de que há humanidade no meio de tanta crueldade, sugere. Pequenas sutilezas. Como as miúdas Lágrimas de Nossa Senhora fotografadas (colher jamais) para a amiga. Elas florescem! Num pé de árvore numa rua qualquer de Copacabana…  

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Pega se correr, come se ficar.

pega-se-correr-come-se-ficarTexto e foto de Valéria del Cueto

Se eu conseguir sentar e fazer na carreirinha, a crônica dessa semana… sai.

Igualzinho a campanha política desse ano, meio nas coxas, na correria, mas com consequências imprevisíveis.

Já é tarde e não dá para escrever um texto na véspera das eleições para prefeitos e vereadores em todos os municípios do país sem  sentir a pulsação do último debate na televisão.

Conclusão? Alguém vai pagar por isso e, não sei por que, tenho a péssima impressão de que será o povo.

Até procurei pra ver se descobria quem era responsável pelo conjunto primoroso da obra do texto da lei que regulamentou o pleito de 2016.

Ela reduziu o tempo de campanha de 90 para 45 dias, o período eleitoral no rádio e na TV de 45 para 35 dias (já foram 90), os programas para 2 blocos de 10 minutos, eram 30 minutos.

Também aumentou o número de inserções nos intervalos da programação. Ou seja: diminuiu a lógica e fragmentou ainda mais a informação, dificultando a apresentação dos postulantes aos cargos no pleito eleitoral à população, àquela posteriormente responsabilizada pelas mazelas públicas.

Aliás, entre outras peculiaridades, camuflou a desinformação e o despreparo dos candidatos, já tolhidos nos meios disponíveis para se apresentarem.

Tudo isso no meio do esforço olímpico e da enxurrada de denuncias que não pararam de brotar das entranhas do combalido tecido político empresarial do país.

Serão as eleições da ignorância, no sentido de ignorar, não dispor das informações necessárias para (re)conhecer os melhores candidatos.

O que, por si só já é um problemão. Muita gente dos “esquemas” sem querer largar o osso. Outro tanto despreparado para as tarefas de conduzir os destinos dos munícipes.

Faltam quadros competentes! Num momento em que os horizontes do futuro econômico nas macro e micro regiões brasileiras andam para lá de complicados.

Afinal, o que faz alguém querer passar 4 anos apagando incêndios, segurando buchas e ouvindo reclamações e demandas? Tá bom que tem os puxa-sacos de plantão, mas essa sensação de poder é suficiente?

Tem que ter algum atrativo muito poderoso!

São esses, interessados nessa missão quase impossível, que disputam nosso voto no domingo. Serão decisões difíceis. Ainda mais agora que sabemos que o que sempre ouvimos dizer, sim, não passa da mais vergonhosa e indigna realidade.

Estamos sendo roubados, espoliados e vilipendiados em nossos direitos básicos de cidadãos. O dinheiro de saúde, educação e demais melhorias que deveriam ser pagas com nossos impostos está sendo sistematicamente desviado para sustentar esquemas espúrios e criminosos.

Seu voto dá a eles o aval para executar e fiscalizar o dinheiro arrecadado. Escolha da melhor maneira possível seus candidatos.

Sim, vai ser mais difícil. Não, você não deve fugir da sua responsabilidade de dizer francamente o que está pensado nas urnas. E seja o que Deus quiser.

Querer um futuro promissor e todas as ferramentas para alcança-lo? Agora está complicado. O bicho papão da crise ameaça morder nossos calcanhares!

Enquanto isso, a vida passa…

PS. No debate do Rio, a vida imita a arte. Marcelo Freixo, candidato do Psol para Cidinha Campos, vice de Pedro Paulo, do PMDB,  conhecido pela acusação de bater na mulher: “ Você não gosta de mim, mas sua neta gosta”, como na música de Chico Buarque…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador do Sem Fim…

O povo da areia

rndunas-160826-042-rn-natal-dunas-ponte-nova-buggy rndunas-160826-051-rn-natal-dunas-jenipabu-dromedariosTexto e fotos de Valéria del Cueto

Vi de um tudo nessa viagem ao Rio Grande do Norte, inclusive o básico. Falo do clássico percurso pelas dunas. Passear de buggy pelas areias do litoral norte de Natal, passando por Jenipabu é obrigatório!

Quando entrei no hotel da Via Costeira, em Ponta Negra, um detalhe chamou minha atenção. Junto ao shampoo, creme e touca de banho, na cesta de amenities, havia uma embalagem com 4 hastes flexíveis, os famosos cotonetes. Não entendi de imediato sua utilidade…

Na manhã em que seguimos de buggy para as dunas, foi avisado para que prendêssemos os cabelos porque o vento era muito forte e embaraçava tudo. Protetor solar, bandana na cabeça e pulei pra dentro do veículo de Sandro Bugueiro. Pronta pro que desse e viesse.

Faltou avisar que o vento trazia a areia, em grandes quantidades. Nas paradas para fotografar a lagoa quase seca de Jenipabu, assediada pelos donos de jegues com flores na cabeça e chapéu de palha para tirar fotos com os animais, senti que precisava proteger mesmo era a câmera fotográfica. Fiz com a canga um tipo de sling wrapp, aquele pano de carregar bebês no colo, botando e tirando o equipamento para dentro da proteção cruzada nos ombros quando queria fotografar.

Vi que a coisa era mesmo séria no alto da duna com a vista do famoso Bar 21, onde os pacientes dromedários passeiam com turistas enfeitadas com véus e tiram fotos num fundo cenográfico de um mercado árabe. De repente, surgiu um ser do Povo da Areia, do Star Wars. Mangas compridas, luvas, um legging preto e branco, meias coloridas, rosto coberto por panos, óculos escuros  e uma viseira para segurar a quase burca na cabeça. Nas mãos, um computador. Ficção científica!

É nesse local que os bugueiros e suas famílias se reúnem para ver os fogos na passagem do ano. Em Natal, eles enfeitam a Ponte Nova e o ponto garante uma visão privilegiada do espetáculo, me conta Sandro, presidente da Bugueiros Coop, uma das cooperativas dos profissionais.

E não pensem que é fácil ser um deles! Em novembro de 2010 havia 660 permissionários. Para se tornar um bugueiro é preciso fazer um curso de 8 meses, com 332 horas de aulas teóricas e 130 de aulas práticas que incluem turismo, mecânica, preservação ambiental, geografia e história do Rio Grande do Norte.

Importante protagonista turístico local, o passeio de buggy foi declarado Patrimônio Imaterial de Natal. A atividade começou no final dos anos 70. O primeiro cenário explorado foi o das dunas de Jenipabu.

Tudo é deslumbrante! Uma sucessão de cenários paradisíacos se descortina no percurso em direção ao norte. Atividades variadas são apresentadas aos turistas. Depois de um roteiro pelas dunas, “com ou sem emoção”, a passagem dos veículos de balsa pelo Ceará- Mirim, as delícias culinárias locais, com destaque para o espetinho de lagosta…

Há, também, as práticas do skibunda e do aerobunda, na Lagoa do Jacumã. No início, os rapazes que organizam o passeio contaram, existia apenas o skibunda. Mas a descida começou a alterar a vegetação nos pontos em que eram realizadas e alguém teve a ideia de usar uma tirolesa, com aterrisagem nas águas da lagoa. Hoje, o sistema evoluiu, explica Pedro, que opera a produção dos DVDs com fotos dos turistas capturadas no percurso e encaminhadas por redes mantidas por roteadores para o computador do técnico de informática. Ele já trabalhou de garçom num dos restaurantes da região e garante que não ficará no serviço a vida toda. Está fazendo faculdade de enfermagem e pretende seguir a profissão de sua mãe, que sempre viu ajudar os outros.

É isso que faz, dentro de outro contexto, o precioso pacotinho de cotonetes distribuído aos hóspedes do hotel. Uma grande ajuda no retorno do passeio  ao descobrimos a quantidade de areia capaz de entrar nos ouvidos numa volta pelas as dunas do Rio Grande do Norte. Haja vento, areia e memórias, como sempre…

*Viagem realizada a convite da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte.

** Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Nordeste” do Sem Fim…

Quem procura, acha

Texto e fotos de Valéria del CuetoRNGostoso 160825 228 Cavalgada ao por do sol RNBosJazz 160825 074 Lenine cantor Pipa RNGostoso 160825 121 São Miguel do Gostoso Kitesurf

O pernambucano Lenine achou o que procurava. Veio para ser a atração convidada pela Sesi Big Band (antecedida pelo balanço do acordeon cheio de suingue forró jazzístico do sergipano Mestrinho), numas das noites da etapa do Fest Bossa & Jazz – Circuito 2016, em Pipa, município de Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte. O festival aconteceu entre 24 e 28 de agosto, primeiro em Natal e, depois, na lendária praia potiguar, considerada uma das mais lindas do Brasil.

O cantor, compositor e orquidófilo (tão apaixonado a ponto de lançar o CD  Labiata, se referindo a Cattleya labiata, espécie de flores grandes, perfumadas e floridas), aproveitou para ver a floração da Cattleya granulosa, em Touros, a 65 quilômetros ao norte de  Natal, no litoral norte, “onde há uma grande concentração da espécie, belíssima” explicou entusiasmado, momentos antes de subir ao palco para sua apresentação diante de um público estimado em 15 mil pessoas pela organização do evento.

O que privilegia o local são as condições provocadas pelos ventos trazidos do Atlântico carregados de maresia. As dunas são o habitat daCattleya granulosa. Nesse tipo de terreno é produzida uma composição de turfa fibrosa, com a mistura de detritos animais e vegetais na superfície do solo. Semelhante ao xaxim é ideal para seu desenvolvimento, o que explica a concentração da espécie nativa da região.

Os ventos que ventam lá os mesmos que fizeram da tranquila São Miguel do Gostoso um point descrito como o local “onde o vento faz a curva”. Objeto de desejo dos aficionados do kitesurf e do windsurf. O Gostoso de São Miguel vem de um antigo morador local que recebia hóspedes e visitantes e gostava de contar causos, finalizados por gargalhadas… gostosas. Quando São Miguel se emancipou do município de Touros, passou a ser chamada de São Miguel de Touros. Os moradores, num plebiscito, trocaram o “sobrenome” para homenagear o agora inesquecível Seo Gostoso.

Já deu para notar que muitas paixões podem trazer você para o Rio Grande do Norte. A indústria turística é carro chefe e vitrine para o desenvolvimento do estado. Mola propulsora para tentar reverter e crise e gerar renda para a população.  Esse é um dos objetivos doProjeto RN Sustentável. Ele investe e capacita, por meio de um acordo de empréstimo do Banco Mundial, agricultores e artesãos. Aprimora suas técnicas e leva para os mercados nacionais e internacionais produtos alimentares, como castanhas e geleias produzidas por agricultores familiares, e o rico artesanato local.

É com alegria que a comunidade e o governo devem ter recebido a notícia, divulgada nesse último final de semana pela Folha de São Paulo, sobre a o 1° lugar do Rio Grande do Norte no Ranking de Eficiência dos Municípios – Folha (REM-F). Recém-lançado para consulta pela internet, ele mede quais prefeituras brasileiras entregam mais saúde, educação e saneamento com menos recursos. Com apenas 6 municípios na faixa dos ineficientes e 98 na dos eficientes, entre o 22° (0,610) e o 1315° (0,500) lugares, deixa nosso Mato Grosso comendo poeira na 22° posição entre os 26 estados, com apenas Luciara aparecendo na faixa dos municípios eficientes, na 933° posição, com o índice 0,514. A seguir vem Lucas do Rio Verde já na faixa dos com apenas alguma eficiência, no 1407° lugar, com 0,496. O índice de receita per capita inferior, majoritariamente dependente de recursos públicos, não impede que o conjunto de municípios nordestinos localizados em mesorregiões potiguares e também cearenses, supere em eficiência inclusive a região Sul, por cobrir de forma mais satisfatória os serviços básicos necessários. Interessante, não?

Prometo para as próximas crônicas semanais algumas histórias colhidas pelas praias, dunas e outras atrações potiguares que ajudam conhecer algumas peculiaridades locais.

Como já deu para perceber, lá no Rio Grande do Norte, quem procura… acha!

*Viagem realizada a convite da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Nordeste” do Sem Fim…

Rio 2016: saudade olímpica que veio para ficar

Tocha 160821 049 Tocha Candelária crianças no colo Tocha 160821 096 Museu do Amanhã Mauá do Mar noite abertaTexto e foto de Valéria del Cueto

Nas redes sociais há um evento pela prorrogação dos Jogos Olímpicos até o dia 31 de dezembro, quando o bastão das festanças cariocas passa para o réveillon de Copacabana e emenda com o carnaval. Está tudo dito e resumido.

Agora, resta o espanto de do amigo que, passeando na Orla Conde em busca da Tocha Olímpica, diz no meio da muvuca que “Nunca tinha vindo nessa Praça XV”, ao que o parceiro responde que “sempre trocava os nomes. Aquele lugar não era estranho, mas estava diferente”. Cariocas, sim senhor. De uns 20 anos, no mínimo. O morador da Cidade Maravilhosa saiu de sua tribo geográfica e social. Misturou-se pelas atrações e atrativos da cidade. Ponto Olímpico. Dele, os Jogos que terminam de forma espetacular com ouro inédito no futebol, mais um no vôlei e várias medalhas inesperadas, pra compensar as não alcançadas, apesar dos esforços dos atletas.

A tarde de domingo no Boulevard Olímpico era de tempo fechado e, pra começar, uma chuvinha fina. Acontece que, assim como eu, muita gente se deu conta que era naquela hora, ou nunca. Lá se ia a chama, até os Jogos Paraolímpicos. Lugar lotado de olhares e sorrisos de muitos lugares do mundo. Registros e selfies com a Tocha Olímpica. Ao fundo.

Era tanta gente que, dias antes, foi determinado um caminho para ir e outro para voltar. Da Praça XV, via Orla Conde, até a Praça Mauá. Sentido oposto pela Avenida Rio Branco, fechada para os carros. Novos cenários se descortinam pelo centro da cidade e o entorno da Baia de Guanabara. Lindos.

Também nublados com nuvens dramáticas se espalhando pelo céu. O tempo vira. O vento corta. Derruba uma árvore. Dentro da área de um patrocinador. Não acontece nada com ninguém. Sorte, uma das muitas, olímpicas. Triscamos por várias crises que não se concretizaram. Mas as rajadas se intensificam. São elas que trazem as chuvas que caem durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos. O tempo para. Todos ligados no Maracanã.

Tempo, tempo, tempo. Tão essencial que é medido pela mesma empresa, a Omega, nos Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno desde 1932. De um cronometrista e 30 cronógrafos, daquele ano em Los Angeles, para 450 toneladas de equipamentos, 200km de cabos e 480 cronometristas no Rio de Janeiro. Foi um longo aperfeiçoamento em busca da precisão que registrou aqui 27 recordes mundiais e 91 olímpicos. Mas não o suficiente para conter a impressão que temos de que o tempo andou rápido demais nos últimos 17 dias. Parece que foi ontem que dissemos olá para os visitantes.

Na hora da despedida, a intenção era apagar a tocha com as águas das chuvas cantada. Esqueceram de avisar para o cara lá de cima. Depois de um Hino Nacional Brasileiro ao som de atabaques, o que já lavou a alma (sem querer fazer trocadilho) do pessoal das religiões afro-brasileiras, para os cantos indígenas dos cafundós ameaçados do Brasil. Só com a ajuda dos santos – todos – pra tudo ter dado tão certo!

DJ Dolores com a batida pernambucana valorizou e deu o ritmo na entrada dos atletas e delegações já com a chuva caindo. Podia prejudicar, mas não era nada que atrapalhasse a concepção de Rosa Magalhães, carnavalesca campeoníssima e sabedora do que é um desfile embaixo de chuva. E ela veio mesmo. Passado os pronunciamentos de praxe, apertou na festança com um set de sambas de enredo irretocável, só de clássicos. Partindo de “O Amanhã”, passando por Macunaíma e caindo na esbórnia com A Menina dos Olhos de Oýa mangueirense, depois de antigas marchinhas.

Não, não haverá outros Jogos Olímpicos na Cidade Maravilhosa tão cedo. Mas esses serão lembrados por muito tempo. Enquanto a nós, cariocas, procuraremos outras festas para fazer. Porque essa é, cá entre nós, uma das nossas especialidades.

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

NR: Não vi e pelo jeito não verei em nenhum veículo de comunicação qualquer menção ao fato de que foi uma decisão corajosa do governo Lula, com seu prestígio internacional,  trazer a Olimpíada para o Brasil. Porém , se algo desse errado….Nesses tempos sombrios, a campanha midiática para desconstruir a sua imagem é mais forte que a verdade. Fica o registro.

Feito inesquecível

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Texto e foto de Valéria del Cueto 

“Como assim, já está acabando?”, “Agora que está ficando bom…” O diálogo entre dois membros da equipe de apoio do Rio Media Center, espaço de jornalistas, no Arpoador, traduz o sentimento geral de cariocas e visitantes nacionais e internacionais.

Está bom demais! Com cara de Rio de Janeiro. E problemas típicos da cidade maravilhosa. Tudo, quer dizer, quase tudo se resolve na gentileza. Baseada e resumida na máxima pregada pelo profeta local: “Gentileza gera gentileza”. Como ele se sentiria feliz com nosso comportamento olímpico. É nós!

Dá gosto circular, interagir com tantas culturas. Ter orgulho da cidade e da gente boa que circula pra cima e pra baixo. Tem defeitos, tem. E aquelas polêmicas tipicamente cariocas, que podem parecer exóticas para quem não conhece nossa capacidade de destrinchar, analisar, opinar e depois… mudar de ideia. Algo tipo os debates acalorados que acompanhamos e participamos, por exemplo, na época da temporada carnavalesca. É um tal de questionar contratações, discutir enredo, analisar samba, avaliar ensaio técnico pra mudar de opinião diante do que é apresentado na avenida que nem te conto. Todos os anos. Não gosta de carnaval? Pensa no futebol. Gostamos de debater, especular, como dizem os cuiabanos.

Tem debate pra todos os lados e níveis. E muitas palestras. Principalmente em rodas de negócios com apresentações de estratégias e perspectivas para a futura ex-cidade olímpica. Está certo. É a hora de vender o projeto Rio, cidade esportiva, polo de negócios, projetando seu amanhã. É um mundo paralelo aos jogos esportivos de envolve gente de todo mundo.

No metro, outros mundos se cruzam e convivem sem discriminação. Cheio e totalmente democrático, uma babel em cada vagão. Interessante a disposição do carioca para ajudar e informar os visitantes no meio do vai e vem. Vale tudo. Inglês, portunhol e, em último caso, uma boa mímica. Pra frente é que se anda!

Menos no esporte… Tem patrulha também querendo (de novo) explicações sobre a continência que alguns competidores batem na hora do hino nacional. Façam as contas de quantos medalhistas são das forças armadas. Foram nossos salvadores ao abraçarem os atletas de alta performance, dando-lhes condições de treinamento.

Entre expectativas, perdas e danos vamos aplaudindo nossos xodós. Duas conquistas foram emblemáticas. As meninas de Niterói da vela, Martine Grael e Mahena Kunze, e Alison e Bruno Schmidt, ouro nas areias de Copacabana no volei de praia. Pena que o surf só começa no Japão. A nossa cara!

Mas essa lista de destaques vai se alterando ao longo dos dias de competição. Robson, Rafaela, Ágatha, Felipe… Thiago no salto com vara assinou a performance brazooca no atletismo, protagonizado pelo corredor jamaicano Usain Bolt se sentindo em casa nas pistas cariocas.

É claro que tivemos decepções, mas as surpresas positivas estão fazendo que o sentimento de “logo agora que está ficando bom…” superem os perrengues operacionais e a grande polêmica dos jogos. O nadador americano Ryan Lochte e seus companheiros que, apesar de campões olímpicos, não entenderam a grandeza e a responsabilidade de seus feitos. Conseguiram criar um imbróglio esportivo e diplomático. Mais que isso: mancharam os princípios olímpicos de jogar de forma limpa, não no esporte, mas na vida. Nada que a perda de patrocinadores, diante da repercussão dos fatos não resolva ao faze-los lamentar profundamente a baixaria.

Para quase finalizar, nossos respeitos aos atletas brasileiros, independente dos resultados obtidos. O fato de terem chegado a competir numa Olimpíada, já é um feito inesquecível. E vamos ao encerramento!

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Carioquice olímpica

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Zabumbar no fio da navalha é a nossa saída mais potente… a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária.” A reflexão do historiador Luiz Antônio Simas, co autor do “Dicionário da História Social do Samba”, em parceria com Nei Lopes que, no jornal O Dia,  assina coluna semanal sobre a cultura das ruas cariocas, explica a extensão da alegria vigente por aqui nos últimos dias.

A cidade, nem sempre bem-humorada diante dos acontecimentos recentes, se rendeu a seu próprio charme, assumiu suas mazelas e faz o que pode: depois de uma largada espetacular e alto astral vai arrumando os problemas que surgem. Alguns bem conhecidos e comuns para seus moradores. Tudo isso, fazendo festa! Esta é a sensação que qualquer pessoa tem, ao andar pelos locais preparados para circuito olímpico.

Depois da abertura com aquele fim de semana clássico de Cidade Maravilhosa, nem Deus poderia manter o clima firme e limpo em pleno agosto. Aquele, o mês do cachorro louco. Ventanias provocaram o adiamento de provas e transtornos gerais. Os de trânsito acontecem a toda hora… Nem o incrível tom esverdeado da piscina de treinamento do Parque Aquático provocado, dizem os entendidos por algas está sendo deixado para trás.

No mais, é festa. Nos complexos esportivos, em Copacabana e no recém inaugurado Boulevard Olímpico, na região do Porto Maravilha. Local onde a estrela maior é a pira Olímpica. O auge da agitação foi no primeiro dia de desfile de uma escola de samba no local, a Paraíso de Tuiuti. Ela se encontrou com o bloco carnavalesco Escravos da Mauá. O evento se repetiria com as escolas do grupo especial e os principais blocos da cidade, mas a organização achou por bem transferir o carnaval improvisado para o Parque Madureira, diante a impossibilidade de garantir a segurança da multidão.

Foi ali na Casa Brasil, no Armazém 2, que Mato Grosso fez ontem sua apresentação turística, junto com o estado irmão, Mato Grosso do Sul. Mostraram a comida pantaneira, danças típicas e sua cultura. Hoje, índios Parecis estão no Rio Media Center, que reúne jornalistas de todo o mundo para os Jogos 2016, divulgando o roteiro do etnoturismo em Mato Grosso que percorre as aldeias da Rota Parecis. O luthier de violas de cocho, Alcides Ribeiro, dá aula sobre a produção do  instrumento típico da cultura pantaneira, embalado pelo Siriri e do Cururu do Flor Ribeirinha.

Além dos mega espaços dos patrocinadores, o Rio está bombando. Especialmente as casas dos países participantes dos Jogos espalhadas pela Zona Sul, Centro e a Barra da Tijuca. São muitas. Algumas definitivamente concorridas e cheias de atrações, como a do Qatar, sede da Copa de Futebol de 2022. A riqueza e as atrações do país são apresentadas com a utilização de recursos tecnológicos de última geração e a reprodução de um mercado árabe. Como resistir a tantos atrativos?

25 das 52 casas são públicas e com livre acesso. Poucas cobram ingressos. 27 só permitem a entrada de convidados e cidadãos do país. Caso da Casa da Rússia, no Clube Marimbás, em Copacabana. Lá está o protótipo do SportJet, avião da Sukhoi Civil Aircraft Corp de 60 lugares para  equipes e delegações esportivas. Com soluções para descansar, recuperar e relaxar atletas no ar, inclui equipamentos fisioterápicos, poltronas  que monitoram informações biométricas e áreas de reunião para análise de jogos e competições e equipe administrativa. A empresa  planeja seu primeiro jato para o início da temporada de 2017-2018 e está em negociações com federações e times interessados.

DJs, Vjs, comidas típicas e atrações variadas animam a maioria dos ambientes dos países presentes. É muita programação. Tanta que, em alguns momentos, é preciso lembrar o motivo principal de toda a movimentação, as competições esportivas mais importantes do planeta!

E os cariocas? Junto com os visitantes torcem, deliram e fazem a festa…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Quem explica ?

Rio Metro Em breve uma novidadeTexto e foto de Valéria del Cueto

“Canguru no Brasil” pede na busca do seu google empoderado, Pluct, Plact, o extraterrestre empoleirado na Terra, sem força propulsora para picar a mula e ir cantar em outra freguesia interplanetária.

Ficou sim e não está reclamando. Gostou da Copa do Mundo de 2014. Da vibe da festa e do encontro dos povos. E era apenas um esporte com competições espalhadas por todo o país. Como será o evento com dezenas de modalidades e atletas de centenas de países do mundo?

Dentro do possível, portanto muito mais que o usual, já que conta com ferramentas sofisticadas, acompanhou  a preparação do evento. Por essa e outras razões, levando e trazendo notícias para a amiga cronista, reclusa voluntária das crueldades do mundo, acabou entrando no espírito olímpico.

Andava pela cidade observando o movimento, fazendo previsões e cálculos sobre deadlines para a entrega dos equipamentos. Não se enganou quanto aos resultados. Tá tudo indo, meio assim. Com os prazos iniciais prejudicados, mas aquela boa vontade de deixar tudo no jeito “para quando os jogos começarem”. Como se os atletas fossem chegar no dia da competição. Não precisassem se adaptar ao clima, ao local, depois de se recuperarem das viagens. Alguns, vindos do outro lado do mundo!

E voltamos para a curiosidade galáctica de Pluct, Plact. Onde encontrar um canguru no Brasil, como prometera o alcaide Eduardo Paes à delegação australiana, após a recusa de encarar o minha casa minha vida da Vila Olímpica? Quem botaria a cara prometendo já na largada, algo que não poderia cumprir? Calcula-se cartesianamente que, sim, há um canguru à mão para enfeitar a entrada do alojamento australiano. Tipo assim, ali, como a onça da tocha…

Foi nessa busca que Pluct Plact descobriu que não era o único a procurar cangurus no Brasil. Lá nos alfarrábios entendeu o impedimento de tal evento. Também descobriu que, não tendo acesso ao original,  canguru aqui é só um tipo de equipamento para carregar bebês junto ao corpo. Apareceram referências à geração canguru, de “jovens” de 25 a 34 anos que não querem sair da casa dos pais. Conheceu também a Olimpíada Canguru de Matemática, uma afinidade com a Austrália, já que a competição começou por lá e hoje se espalha por 52 países!

Nesse meio tempo, a fila andou… Eduardo Paes pediu desculpas pela tirada, jogando a culpa no “jeito carioca”. A equipe australiana resolveu pegar mais leve. Voltou para os apartamentos abandonados enquanto obras emergenciais eram realizadas por um batalhão de trabalhadores irregulares. Mas esforçados e felizes com os dias de ganhos extras.

O happy end foi com mais uma “atitude” de Paes. Deixou a equipe australiana de hóquei esperando meia hora na entrega da chave da Vila Olímpica para a delegada da Austrália. A que batera de frente com a desorganização imperante. “Umpolished” foi o termo, registrado nos anais da máquina interplanetária, utilizado pelo próprio para classificar o imbróglio. Então, por definição, exime-se a culpa do “jeito carioca de ser” que costuma ser malandreado, malemolente, mas não grosseiro. Ganhou de presente um canguru de pelúcia, com luvinhas vermelhas de boxe…

Tudo isso, Pluct Plact rememorava enquanto se deslocava pela orla de Copacabana, Rio de Janeiro,  para o outro lado do túnel, onde se encontra reclusa a cronista. Tinha seus motivos de alegria. Vira, na última visita, um lampejo de interesse da amiga pelo mundo exterior. Sim! Ela queria contato. Uma TV que cobrisse parte de uma parede de sua minúscula, porém segura, cela. Para assistir aos Jogos!

Ia atender a amiga. Mas havia uma condição. Que explicasse em minúcias o que era o único tipo de canguru não definido ou descrito em suas buscas e pesquisas nos mais poderosos bancos de dados.

Afinal que diacho era o tal de canguru perneta, tantas vezes citado e nunca explicado?

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

O silêncio que antecede

M Amanhã 160225 009 Museu do Amanhã globo escadaria entradaTexto e foto de Valéria del Cueto

Estou no meio da festa que vai começar. Numa posição, cá entre nós, privilegiada. Depois do Rio dos Jogos  Pan Americano, da Copa do Brasil, vem aí a Olimpíada carioca.

E vou aproveitar. Pretendo não analisar, apenas registrar a vida onde sempre vivi. Como essa cidade tão cheia de contradições, chamada de maravilhosa, abriga e acolhe os visitantes de todas as partes do mundo.

Foi na Copa do Mundo de Futebol de 2014 que a brincadeira tomou um formato, como explicado na época na crônica “Sem dizer adeus” Lá, a hashtag era #Copa2014bacana. Teve o #justbefore, mostrando Copacabana nos dias que antecederam o início da competição, o #justnow, a temporada de jogos e o #justafter, com o desmonte dos equipamentos e o retorno à normalidade. Todo o material fotográfico, em vídeo e links de outros veículos de comunicação foram agrupados numa linha do tempo, publicada no http://storify.com/delcueto/copa2014bacana

Repito a proposta no #valeRio2016. É a mesma ideia partindo de outra ponta, não mais da do Leme, que começa a ser realizada. Agora Copacabana não será o único foco. A ponta de partida é a do Arpoador, com saída para Ipanema e a perspectiva do posto 6, no final de Copacabana. O arco foi ampliado, incluindo o centro da cidade. Mais especificamente a Orla Conde,  um novo espaço urbano do Rio, onde serão realizadas as atividades que agitaram fun fest montado em Copacabana durante o Mundial de Futebol, em 2014.

Uma intensa e variada programação cultural ocupará o espaço e os palcos distribuídos entre os Museus do Mar e do Amanhã, na Praça Mauá, e a Praça XV. Além de apresentar ao mundo as intervenções de recuperação da área, incluindo a demolição da Perimetral, outra vantagem do lugar é não ter problemas em relação ao barulho das festas e shows. A zoeira causou transtorno aos moradores de Copacabana no evento de 2014. A região da Orla Conde é área comercial. E o lugar é lindo…

O Rio dos carnavais, dos réveillons, do Pan e da Copa, certamente saberá receber seus convidados. Falo no que depender do carioca. O que parece não ser muito na Babel que se instalará por aqui.

Não, não pretendo frequentar as arenas dos jogos. O  credenciamento no Rio Media Center facilita o acesso aos espaços gerenciados pela prefeitura. Está bom demais. Verei os jogos em casa, ou nos telões. Se sou fissurada por esportes, imagine as Olimpíadas.

A primeira que lembro ouvir falar, pitoquinha ainda, é a da Cidade do México. José Sylvio Fiolo ficou em quarto lugar nos 100 metros de peito. Anos depois, treinei por um tempinho com seu técnico, o Pavel, no Botafogo. Na de Munique foi a vez de Mark Spitz com seus recordes mundiais e medalhas de ouro em 7 provas de natação  me fisgar de vez. Chorei com Misha na despedida de Moscou…

As Olimpíadas acontecem sempre em anos de campanhas políticas. Eleições de prefeitos e vereadores. Costumo estar trabalhando. Em 1988 e 2000 e 2008, dei um jeito de trabalhar no turno da madrugada, para poder acompanhar as competições dos jogos de Seul, Sidney e Pequim, respectivamente.  

Não, não terei tempo para correr de um complexo para o outro e ainda me concentrar no entorno, no encontro dos povos. É nele que pretendo focar minhas lentes.

E quero faze-lo com o meu melhor olhar! Como, imagino, estejam nesse momento os olhares dos atletas que competirão no Rio, a Cidade Maravilhosa. Voltados para a perfeição dos movimentos, para o auge de suas performances. Se possível, para a vitória. Pensamento positivo, energia acumulada, concentração e foco.

Eles não querem saber das notícias, especialmente as negativas. Nada que interrompa ou altere o percurso em direção ao objetivo almejado por tanto tempo certamente com sacrifícios e entrega.

Que os Deuses do Olimpo nos abençoem!

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* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Morro do Paxixi

Aquidauan 160524 040 Paxixi geral panorama brumaTexto e foto de Valéria del Cueto

Ainda falta falar de algumas coisas do meu belo Mato Grosso, o do Sul. Então, vou começar pelo princípio.

A partida foi promissora. Subindo, num final de tarde, o Morro do Paxixi, na ponta da serra de Maracaju. Tração nas quatro rodas, o sol desenhando as margens da estradinha de chão…

Os “ais” e “uis” nas curvas da estradinha sinuosa de Rosely, sogra do Carlão, o Dr. Carlos Nunez, promotor da expedição que tomou o rumo de Camisão, distrito de Aquidauana, eram justificados.  Imagine algo do tipo a borda da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, com acesso beeem precário. Antes da subidona, uma bifurcação, um ou outro boteco, algumas casas e chácaras. Quanto mais alto, mais espaço. As grandes fazendas no topo do platô, invisível para quem olha lá de baixo.

Para não dizer que foi tudo perfeito, subimos tarde! Nessa época do ano o dia acaba cedo e o sol baixa rapidamente… A sombrinha de agora virava rapidamente  a luz insuficiente e muito baixa, diminuindo a diversidade de bons registros.

O Paxixi é o tipo de lugar quase inesgotável quando se pensa em sombra, luz e drama. Mesmo parado em um único local as possibilidades são infindáveis em tentativas de registro em horas variadas do dia e com as variações da posição do sol ao longo do ano. Mudam as cores, os tons e a incidência de luz. Uma festa!

A subida quase foi mal sucedida. Lá pelas alturas encontramos a picada fechada por um trator e caminhões. Era um mutirão de alguns proprietários para recuperar o traçado castigado pelas chuvas, provocando crateras, muita erosão e invadido pela vegetação exuberante nas laterais.

A necessidade de aplainar e limpar a rota se baseava também na impossibilidade de saber, numa manobra para evitar maiores danos aos amortecedores castigados pela buraqueira, se o mato escondia um trecho transitável ou camuflava um despenhadeiro na franja da morraria. Se fosse necessário dar meia volta, teria que ser de ré até um lugar que permitisse a manobra de retorno.

Fomos salvos pela gentileza dos peões e motoristas que retrocederam morro acima as máquinas para nos permitir prosseguir na aventura.

Mais um tempinho perdido e o sol baixando em meio a uma leve bruma que começava emoldurar as áreas mais baixas. Passamos pelo leito seco de pedras de um riacho e, firmando a marcha ladeira acima, fomos passando por porteiras até que o topo do maciço se descortinasse a perder de vista iluminado pelo sol da tarde.

Na direção das antenas receptoras, avistadas da estrada que liga Campo Grande a Aquidauana, encontramos topógrafos e engenheiros, próximos das áreas cercadas e cadeadas dos equipamentos.

O que poderia ser uma decepção pela ausência, provocada pela cerca de arrame, da vista do alto do platô acabou virando uma caçada fotográfica a seriema que resolveu passear perto do aramado.

Me senti em sintonia com o local e aa natureza, enquanto tentava, mansamente, me aproximar da musa inspiradora da música que ia usando como forma de diálogo, tentando fotografá-la: “Oh! Seriema de Mato Grosso, teu canto triste me faz lembrar, aqueles tempos que viajava, tenho saudades do seu cantar. Maracaju, Ponta Porã, quero voltar…”Registro feito, papo batido e era hora de descer a ladeira, antes que escurecesse de vez.

Por um momento, tolinha, achei que aquela tinha sido um sinal de boas vindas para o que ainda veria de natureza na viagem pelo Mato Grosso do Sul.

Ledo engano. Foi, sim, um presente de despedida. A partir desse dia, o tempo virou de um jeito! Tudo cinza, chuva e frio. Tive que desfazer meus planos, agradecer a boa sorte dos registros feitos e viajar num outro sentido: o literário, como você já sabe pelos outros textos dessa saga pantaneira.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Outras memórias pantaneiras

CGB natur 160618 057 passaro cabeça amarela otimaTexto e foto de Valéria del Cueto

Perdi as palavras diante dos sentimentos. Muitos. Profundos. Emocionantes.

Até especialistas em se expressar, coisa que sempre busquei nas mais diferentes “mídias”, se calam quando tudo é pouco diante dos fatos e os diversos graus de sensações que provocam.

Voltei ao meu belo Mato Grosso, aquele de antigamente, ainda sem divisão geográfica. E os tempos queridos, acreditem, os que não voltam nunca mais, estavam lá.

O pé de cedro havia crescido e dado novas ramificações. Encontrei o pequeno arbusto cheio galhos e de raízes crescidos no tempo em que distantes vivi, amei e, claro, também sofri.

Todos nós nos transformamos…

Sua sombra amiga me acolheu e protegeu, me mostrou seus frutos (cedro dá que tipo de frutos? Sei lá…)

E nada do que imaginava para essa jornada aconteceu como planejei. Tudo foi mais.

Mais tempo nublado e chuvas, o que não seria problema se não fosse a duração quase permanente, o que gerou menos imagens reais como pássaros, animais e exuberância natural na região pantaneira.

Isso me empurrou para os livros que levaram a imagens de outros tempos mais, muito mais antigos. Voltei à Guerra do Paraguay.

Aos encontros e desencontros dos pioneiros que entre batalhas, muito trabalho bruto, longas esperas e amores povoaram o baixo Pantanal e a fronteira entre Corumbá e Ponta Porã.

Se pouco soube de Solano, o invasor paraguaio, li a respeito de Raphaela Lopes, sua irmã, que se casou com o interventor designado pelo Império Brasileiroe a saga da vinda da família Pedra para a região. Sou quase um deles. Além dos netos de Pompílio, agora, “colada” com mais duas gerações.

Quando, finalmente, o tempo permitiu que começasse a fotografar já estava encharcada pela água dessa fonte de lembranças expandida com a ajuda de informações e indicações de como lidar com um baú de comitiva repleto de imagens e referências.

Tudo veio pra mim. Primeiro na Casa Candia, de dona Jandira, em Anastácio. Depois na Selaria Renascer, do seo Jairo, em Aquidauana. Nos dois lugares tive direito a um “Guia Lopes” para me conduzir pelas macegas de objetos emblemáticos, ícones das narrativas que havia devorado nos livros.

Isso em meio a uma outra guerra que acontecia na vizinhança. Sangrenta, sem tréguas. Cinematográfica. Em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero a disputa pelo poder do tráfico se desenrolava nas ruas. Registradas por câmeras de vídeo dos celulares e disseminadas pelas redes sociais. A violência da fronteira evoluiu, como quase tudo em volta, mantendo sua essência.

Os últimos dias da viagem me levaram a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, à celebração das novas gerações da família, continuação dessa estirpe que vem lá de trás.

Pais, avós, filhos, netos, numa alegre confusão, em comunhão com a vida, independente dos percalços e diferenças. Esperança!

Tudo ao seu tempo – não conforme meus planos (como sempre)-, acabou acontecendo.

Na última manhã da viagem, o ciclo se completou com a ajuda de Osana. Foi ela que me indicou nos jardins onde seria o desfile da passarada: tucanos, curicacas, beija-flores… Vieram para a despedida!

Um até logo cheio de gratidão de minha parte, emoldurado pelo sorriso que não tem preço de uma das queridas matriarcas da família, que não nega seu sobrenome: Pedra!

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Mala de garupa

AquidSela 160616 012Texto e foto de Valéria del Cueto

Passei pela frente da Selaria Renascer, na rua Dr. Sabino, no Bairro Alto algumas vezes. Naquelas horas em que, numa cidade nova a gente busca referências para tentar se localizar.

Havia muitas outras selarias na cidade. Afinal, estava numa região cercada de fazendas com características de lida com muito gado e cavalos.

Mas aquela construção numa rua tranquila, parede com parede com a loja de roupas novas e usadas, atraindo a atenção pelos casacos de frio expostos nos manequins e, do outro lado, a casa mais para o fundo do terreno, uma árvore enorme na frente e a carroceria velha de caminhão, com o nome da cidade AQUIDAUANA, pintado na madeira, jogado ali, na vertical, havia prendido minha atenção.

Na frente, arreios e outros adereços pendurados na parede e no telhado do puxado da varanda. A mureta no pé da árvore ao lado usada como apoio para o copo de alumínio, a bomba e a térmica do tereré. A parte voltada para rua servindo de expositor para o pelego e as botinas, mostrando o trabalho. O laço pendurado num galho.

Nas duas portas da loja a confusão se derrama pela calçada, conforme a necessidade do serviço de selaria e sapataria solicitado pelos clientes fiéis.

Me identifiquei. Descobri que o lugar do meu desejo ficava em frente da casa de Roseli, mãe de Rosanie, sogra do Dr. Carlos Nunez, e companheira de tardes cinzentas de cafés e histórias, inclusive dos antigos Pavilhões, um tipo de circo só com peças teatrais e cantorias que viajavam pela região antigamente.

Na segunda passada parti para a tarefa necessária de pedir autorização para fotografar o local. Não sem antes esclarecer para seo Jairo que não, não tinha intenção de cobrar nada para desvendar em imagens os segredos de seus 61 anos.

“Nasci em cima dos couros. Aprendi a profissão vendo meu pai. Ele trabalhava numa fazenda e, quando se machucou, começou a lidar com couro”.

A história veio junto com tesouros que ele foi tirando dos fundos do estabelecimento. Diz a “Vizinha”, como Roseli chama sua mulher, que faz tempo desistiu de arrumar a oficina, onde sua entrada “é indesejável, graças a Deus”.

Começou com a ponta de uma zagaia “usada para matar onça”. Veio a máquina de costurar de antigamente, a ferradura de ferro “hoje são mais finas, de alumínio”, a guaiaca velha que o peão pediu para ser copiada, “mas se aposentou antes da execução do serviço e, aí, pra que guaiaca?”, o entalhe em madeira do preto velho, o berrante e o baú de uma antiga comitiva.

“Só não tranço o couro. Antes, até curtia”. Primeiro com angico. Aí, reclamaram do problema ambiental. “Besteira, a gente não corta a mata, só usa a casca”, observa. “Daí passei para o tanino. Desisti com os problemas e a burocracia para documentar a atividade”.

A Vizinha fala com saudades da antiga Festa Pantaneira de Aquidauana, onde passavam dias acampados recebendo encomendas e mostrando a excelência do trabalho que sustentou a criação de seis filhos, “três com a mulher”…

Hoje, não vale mais a pena fazer produtos para vender, como botinas. O custo da mão de obra inviabiliza esta forma de negócio. “Agora, é mais encomenda”.

E foi de encomenda, prontamente atendida, que as mãos ágeis de Seo Jairo Soares Arguelho, além de trazerem do fundo da oficina suas melhores lembranças para o ensaio fotográfico da selaria, também repararam minha moderna mala de viagem, descosturada no vai-e-vem dos aeroportos da vida. Em cada ponto, uma história, um mergulho na mala de garupa da vida de um artesão aquidauanense e seu cotidiano pantaneiro…      

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Prá viajar no cosmos não precisa gasolina.

Armazém, empório e mercearia

Anastácio 160603 024Texto e foto de Valéria del Cueto

Viajo para o oeste e retrocedo a um tempo antes do meu próprio por lá, ao transpor as porta da Casa Candia, em Anastácio, Mato Grosso do Sul.

Sou recebida com um sorriso de boas vindas por sua proprietária Jandira Trindade, filha de um antigo funcionário que virou sócio dos italianos fundadores do estabelecimento, e cronista de “O Pantaneiro”, jornal de Aquidauana. Um outro lado do rio, como Cuiabá e Várzea Grande.

Chego lá vindo um pouco de antes, de acontecimentos ocorridos na segunda metade do século XIX. Andava mergulhada nos antigos costumes da região, devorando o livro do belavistense Samuel Xavier Medeiros “Senhorinha Barbosa Lopes, uma história da resistência feminina na Guerra do Paraguai”, narrativa da incrível saga de da mulher de Guia Lopes, herói civil dos trágicos eventos ocorridos na desastrada ofensiva norte da Guerra do Paraguai, imortalizados no livro de Visconde de Taunay, “A Retirada da Laguna”.

Tirando as embalagens dos produtos básicos expostos nas prateleiras que se modernizaram, o restante permanece como antigamente. Ao subir os degraus da entrada do imponente armazém e pisar no mosaico de  ladrilho hidráulicos original da parte da frente do prédio da Travessa Ragalzzi, beira do rio Aquidauana, a sensação de entrar num outro mundo se completa.

O mobiliário: prateleiras, balcões e expositores de madeira remetem aos tempos em que, como rememora Jandira, as carroças eram estacionadas no amplo pátio lateral (agora cercado por muros) e os cavalos levados para serem tratados e alimentados, enquanto as listas de mantimentos iam sendo providenciadas, separadas e embaladas para as longas viagens de volta às fazendas da região pantaneira.

No livro de anotações do armazém, empório e mercearia, cuidadosamente preservado, a primeira anotação é de 1 de fevereiro de 1908! O grande diário de capa verde  funcionava, mais ou menos, como as cadernetas utilizadas nas casas de produtos carnavalescos cariocas que contabilizam os gastos efetuados até que os compradores possam honrar seus compromissos.

Esta primeira sala é apenas o começo da viagem exploratória. Entrar no depósito principal ao fundo, ainda mais antigo, aprofunda o mergulho na história, embalado ao som do antigo rádio de um funcionário que toca uma polca em guarani. Fotografo cantarolando… Por suas dimensões é possível ter uma vaga ideia da quantidade de produtos necessários para abastecer as grandes propriedades da região. Jandira me conta que  era necessário trazer as mercadorias de longe e estocá-las por mais tempo para atender a clientela. Agora, com a facilidade das estradas e da distribuição, é possível aumentar os estoques apenas na época em que se fazem as grandes compras do mês.

Acho que meu interesse pela música, enquanto reproduzia as antigas fotos que mostram os fundadores do estabelecimento e comprovam a autenticidade do que lá existe hoje, preservado em sua totalidade, fez com que arrumasse mais um aliado na exploração do lugar.

José Antônio Loureiro foi me apresentando a outras preciosidades, como as antigas balanças, o galpão onde se armazenava o sal, produto essencial para o gado, o  poço no fundo do terreno e o local das bilhas de água, onde se costuma matear, tomando a bebida típica da região, o tereré. Enquanto passeamos pelos edifícios, descubro que ele é de Bela Vista e dia 1 de junho fez 39 anos que ele trabalha na Casa Candia…

Voltamos ao pátio de carregar os mantimentos, primeiro nas carroças, depois nos jipões e, agora, em veículos modernos, enquanto faço registros de tudo que vejo. Jandira aguarda pacientemente meu regresso, conversando com meu guia na viagem ao passado, o professor Fernando Pace, amigo dos tempos de Cuiabá.

Para confirmar tradicional gentileza da acolhida sul mato-grossense não saio de mãos abanando. Ganhei um pacote da farinha de mandioca da região, um delicado guardanapo de bandeja bordado pelas mãos habilidosas de dona Jandira e muitas e deliciosas histórias para contar a vocês, meus leitores de aventuras e crônicas.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Será um novo dia?

Arpexsurf 160521 003Texto e foto de Valéria del Cueto

Nada nem ninguém pra contar a história. Não por falta de material. Pelo excesso de informações. Elas não param de chegar e, se não há tempo hábil para processá-las, o que dirá analisar as consequências dos fatos que se atropelam. Nem mesmo os intergalácticos equipamentos sofisticados de Pluct, Plact, o extraterrestre dão conta do recado! Resta apenas um caminho entre o ovo e a galinha. Voltemos ao caderninho. Sim, porque quando a tecnologia falha, a solução é o retorno estratégico ao início do princípio. Filosofe, analise, projete, imagine… Utilizando as ferramentas mais primárias.
Papel e caneta que é pra manter acesa a chama do recorde quase olímpico de umas quatro centenas de crônicas. A conta exata, nem Pluct, Plact com seus cálculos e registros consegue precisar. Nada de mais, se considerarmos que esse mesmo sistema é o que leva à utilização do instrumental primário já citado da caneta/caderninho. Tudo foi falhando aos poucos num efeito dominó. Computadores, tablets, internet…
É nessas horas que dá uma preguiça danada e a inércia torna o movimento em direção a mais uma crônica quase um rolar de pedra ladeira… acima. Primeiro, uma viagem rumo ao centro do continente sul-americano foi uma boa justificativa para falhar uma semana. Admissível. Depois, o feriadão obrigando a quebrar o dia da semana costumeiro. Ninguém notaria a ausência. Perdoável. Mas… uma terceira engasgada não daria para deixar passar. Todos notariam a realidade que não quer calar: as crônicas não fazem falta nenhuma. Ausência que sequer seria notada!
Não. Isso o ser intergaláctico não poderiar deixar acontecer. Não por ele. Certo, seguro e convicto de sua existência e missão de viajante espacial e observador das galáxias. Mesmo ciente de sua atual condição de imobilidade terráquea, provocada pelo mau uso e distribuição das forças gravitacionais que o prendiam aquela que parecia ser a maior odisseia político, econômica, social que havia presenciado em seus milênios de viagens siderais.
A pedra de toque a diferenciar esta de tantas outras aventuras era tão simples quanto andar a pé. Tão pura como fonte de água cristalina. Tão singela e comovente como uma lágrima de alegria. A necessidade de manter viva a lembrança de que lá, do outro lado do túnel, numa cela pequenina, em seu isolamento consciente e voluntário havia uma cronista entrincheirada e resistente aos inacreditáveis fatos que se sucediam do lado exterior. Por isso o sistema precário de escrivinhação se fazia necessário. Era imperioso que o mundo soubesse que sim, ela ainda existia, estava lá.
O que o movia era algo desconhecido até encontrar as antigas crônicas e ter a curiosidade de conhecer sua autora: a amizade acima de quaisquer circunstâncias. Lera, analisara e entendera as centenas de textos produzidos antes de encontrá-la e vira que, em algum momento, o que estava se desenhando em suas reflexões, tornara-se um peso quase insuportável diante da concretização de suas mais estapafúrdias suposições.
E, quando todos achavam que era impossível acontecer, fez o pacto de ser seu contato com o mundo (i)real. Jurando preservar sua frágil sanidade mesmo quando a desumanidade e o improvável que ela havia previsto em suas piores premonições se tornassem realidade.
Agora já não se preocupava mais com as notícias que provocariam ondas de risadas enlouquecidas. Elas ecoariam pelos corredores protetores. Tudo, estupros, golpes, acidentes aéreos, mortes estúpidas dos que navegavam em busca de refúgio, tiros, bombas e afins era apenas a desumanidade explodindo conforme acontecia ao fim de cada era, multiplicada exponencialmente pelas maravilhas tecnológicas em uso.
No más a fazer para evitar o desenrolar dos acontecimentos. Fora assim com maias, egípcios, gregos, romanos, com os deuses astronautas! Mais uma civilização fadada a seu destino escrito nas estrelas. A ele cabia apenas amar e preservar a estrela que ali, naquela cela, olhar perdido diante de todas e tantas mazelas, continuava empenhada em sua missão impossível de acreditar na esperança que nem ela própria alcançará. Realidade dura e cruel de um tempo em que a ficção e a imaginação deixaram saudades…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Pingado Federal

26752630861_7006559b6e_oTexto e foto de Valéria del Cueto

Pingado é café com leite. Além de ser aquela mistura particular e intransferível de um pouco de café e muito leite, ou vice versa, no balcão do botequim.  Dizem que também é, nas brincadeiras infantis, aquele que não está na roda pra valer, faz só figuração. Fica lá no meio, vendo a bola passar de um lado pro outro, o pegador correndo atrás dos seus amigos…

Estamos, agora, com uma nova categoria política, que já se alastra e se apresenta no executivo e no legislativo. São os presidentes pingados. Dilma e, finalmente, Cunha. Tudo café com leite. Usam casas no tabuleiro do jogo, com direito a liturgia e rapapés. Mas de verdade não tem mais voz ativa.

Esse é o quadro atual e, como tudo, pode mudar ali na frente. Cunha deve ir cuidar de suas numerosas defesas em diversos processos. Caiu meio sem ter tempo de respirar (por incrível que pareça) numa ação espetacular dentro do Supremo. Recebeu a notificação em casa, antes das 8 da matina. Um climão.

Foi pego de surpresa nas malhas de uma representação antiga do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. A acusação de usar o cargo para intimidar pessoas e atrasar a operação Lava Jato estava aninhada no colo do ministro Teori Zavascki desde dezembro. Deu liminar e unanimidade entre os ministros do pleno do Supremo Tribunal Federal em questão de horas.

O agora ex-presidente fez seu papel no momento, mas já avisou que há mais coisas entre a Presidência da Câmara dos Deputados e as barras dos tribunais do Supremo, ou quem sabe, do Juiz Sérgio Moro (onde já estão na fila mulher e filha aguardando o desenrolar de alguma fase da operação Lava Jato) do que supõe não apenas a filosofia, mas outras ciências. Exatas, humanas ou exotéricas.

Dilma, lá pelo Alvorada, verifica suas possibilidades de deslocamento nos seus dias de julgamento no Senado Federal e manda ver no “entra e sai” do Diário Oficial. E inaugurou Belo Monte… Danada!

Avalia-se quem saiu ganhando na queda de braço dos presidentes tentando definir quem chegou primeiro ao castigo. Mais importante será verificar quem terá parceiros, amigos e plateia nos conturbados dias que estão por vir.

Já o ainda vice Michel Temer precisa mostrar serviço e agradar a muitas correntes e vertentes. E a base… Ah, a base. Faz seu papel de sempre, sem notar que o modus operandi atual é carta marcada para o fracasso nacional. O sacode que começou no topo da pirâmide tem que se expandir para as instâncias inferiores. Parece que ainda tem gente que não entendeu que a banda não vai mais poder tocar na cadência atual.

Falando em cadência, agora, além de música, é lei, sancionada pelo Senado, o ensino de artes visuais, dança e teatro. Vamos esperar pra ver cumprir…

Aí, ela reagiu! Só nos últimos parágrafos da crônica Pluct Plact, o extraterreste, conseguiu uma reação, no caso, a sonora gargalhada da amiga encarcerada e quase catatônica de tédio diante das extraordinárias novidades narradas.

Riu por lembrar como comemorou e acreditou quando a obrigatoriedade de música nas escolas virou lei, anos atrás. E nada aconteceu… A única música que a educação toca é a das moedas nos bolsos dos que se corrompem para roubar do ensino público de um país tão sem educação. Em São Paulo é na merenda. Em Mato Grosso, na construção de escolas! Crimes hediondos…

Só rindo, pra nãos chorar ao receber uma última informação do viajante intergaláctico enguiçado por aqui. A de que o Motosserra de Ouro, Blairo Maggi, mais uma vez, era o cara para o Ministério da Agricultura. Devendo se filiar ao PP, após ter debutado no PPS, passado no PR e ter sido um quase membro do PMDB! Desistiu do partido do vice jurando que ficaria no PR até as eleições de 2016.

“Não, não fui eu!”, garante a cronista, sob o olhar sideral de um Pluct, Plact desolado. “Pode espalhar por aí!”

E ele obedeceu, pingando a negativa por aí…  

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Novas amizades

Nesses tempos difíceis é bom fazer novas amizades…

AMIGOS

Na cola da tocha

Arpoador 160423 011 Vendador ambulante Dois irmãosTexto e foto de Valéria del Cueto

Foi aos 44 do segundo tempo. Quando já estava desistindo de dar tratos à bola, quase jogando a toalha e aceitando a possibilidade de que poderia vir a ser mais uma semana sem crônica.

Pela janela da imaginação já havia passado todos os estímulos usuais, em busca daquela isca milagrosa que viria na ponta da linha e serviria de desenho guia para as laudas. Depois afinadas e buriladas – um pouco.

Localização, quase a de sempre, sem o glamour da beira-mar. Meteorologia, ressaca de novo, com o tempo fechadão. Destino o computador, já mais pra tardão. Na TV depois de Miguel Reale, Janaína Paschoal esgrima com a minoríssima bancada do governo na comissão do Senado que desempenha seu papel no pedido de impeachment da presidente.

Podem reclamar empoderadoras, mas a voz dela é chata. Especialmente em caso de audição prolongada. Como está sendo o caso. “Vida política não é o mesmo que vida partidária”. É golpe ou não foi? Já era…

Argumentos, contra-argumentos, maré que sobe, mar que levanta. Nas ruas lojas fechadas, sinais da crise e a realidade encolhendo diante dos nossos olhos. Ou se  agigantando, como a maré não planejada nem prevista no projeto da Ciclovia Darci Ribeiro?

Não sei não… Como moradora do Leme, frequentadora do Caminho dos Pescadores sempre respeitei os ilimitados e quase imprevisíveis poderes do mar. Especialmente quando invade o paredão e sube Morro do Leme acima.

Segue a ausência de assuntos interessantes para preencher narrativa. Falta de pagamento dos aposentados? Não. Alunos ocupando as escolas estaduais do Rio de Janeiro, suspensão das bolsas de pesquisa e tecnologia, o desastre da saúde pública… Não, não, não… Nada de novo no front. Tudo lamentável, mas previsível.

Talvez a passagem dos 100 dias na contagem regressiva das Olimpíadas aqui no Rio de Janeiro. A primeira coisa que me vem ao coração é tristeza por termos perdido uma chance única.

Não de fazermos um grande espetáculo, mas formarmos a base de muitas gerações de atletas. Olímpicos ou não. Esse trabalho deveria ter começado lá atrás, impulsionando e incentivando a formação de base. Em clubes associações e, principalmente, nas escolas.   Inês é morta e, sinceramente, não vejo chances de um grande desempenho esportivo do Brasil nos Jogos. Resta-nos a arte de bem receber, tão carioca.

Mas, para mim, o esporte está acima de tudo. Por isso, pretendo acompanhar bem de pertinho as emoções olímpicas.

Para tanto, hoje, no Twitter, quando vi uma postagem do Ministério do Turismo que dizia assim: “@MTurismo Dia 25/06 o #TourDaTocha passeia por nove cidades do MS, entre elas, Bonito, Dourados e Campo Grande.” Retuitei no perfil @no_rumo acrescentando uma nova hashtag: “#Rio Olympics2016”. Simples assim.

Puro amor, incentivo e a lembrança para lá de agradável que o passeio olímpico passará pela Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, e Louriza Boabaid Yule é uma das escolhidas para representar a sociedade chapadense no evento.

E aí, mais uma vez, brilha a velha máxima que não escolhi o jornalismo, foi ele que me escolheu. Para o bem e para o mal. No caso, não sei nem quero definir para qual dos lados….

Vejo no smartphone mais uma tuitada do @MTurismo. Ela diz:“@no_rumo Vamos ficar na cola da tocha 🙂 certo?”

Considerando as últimas notícias veiculadas na mídia sobre atividades no gabinete ministerial e adjacências, fiquei meio assim, sem saber o que responder. Preferi encerrar a crônica.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Cuspe

CUSPE

Onda que leva, traz

Arpoador 160421 006 Arpoador ressaca paredão palmeiras gente  onda espuma e mar lindaTexto e foto de Valéria del Cueto

Tu, só tu e ninguém mais! Apesar da multidão a beira-mar sem praia que me cerca nessa quinta-feira deadline, 21 de abril de 2016, aqui no Arpoador, Rio de Janeiro.

Preciso desenhar cada letra, compor palavra por palavra, sentir a caneta deslizando e seu leve atrito no papel. Preciso do caderninho. Da sensação do espiral incomodando a mão direita que o segura, enquanto com a esquerda escrevo empoleirada na ponta de um banco.

O mais próximo que encontrei dos borrifos aspergidos pelas ondas da ressaca monumental que castiga a costa. Incluindo o paredão sem as usuais gorduras areníticas do Arpex. Da infra usual restam encarapitado o posto de salvamento e a estrutura da guarda da rampa concretada. O resto está tomado pelas nervosas ondulações que chegam do Oceano Atlântico.

A maresia forma uma bruma que, pousada no horizonte, esmaece as imagens dramáticas da força poderosa do mar. A pedra vinha sendo cantada. A maré cada vez mais alta dos últimos dias com a chegança da lua cheia dessa noite de quinta-feira, a de escrever a crônica semanal…

Gritos a minha direita indicam visitantes molhados pelas franjas rebeldes da onda que bate na murada do Arpoador há dias sem areia, o aviso que o caldo ia engrossar sendo dado diariamente.

Por mais que a vontade de emendar o feriado e engolir a redação do texto da semana fosse uma tentação quase irresistível, a curiosidade – a que matou o gato –  de ver com meus próprios olhos a revolução marítima e sua força descomunal   certamente me trariam para uma ponta. Não a minha do Leme, mas aquela que me cabe no momento…

“ Ô água mineral é 2, ô água, ô água e Guaravita…” recita o vendedor, anunciando os preços pós verão, de baixa temporada, re-pe-ti-da-men-te. Ancorou no banco ao lado. Uma poita de monotonia no ritmo desgovernado e inconstante dos pancadaços que seguem arrancando gritos de susto, exclamações de excitação e alguns poucos olhares de respeito. Com o mar não se brinca.

Depois de uma semana de acontecimentos quase nunca vistos na história desse país, a vontade de escrever era praticamente nenhuma e, por mais que tentasse, não conseguia encaixar os acontecimentos a serem narrados numa fabula brincante fabulosa. Era uma daquelas circunstâncias em que “quanto menos conversa nenhuma”. O melhor era guardar o fôlego para correr ladeira abaixo na frente da avalanche que não para de descer e ameaça nossas mais caras instituições.

E assim lá ia eu, observar a ressaca. Sentir o cheiro da névoa de maresia, ser abençoada pelos respingos purificadores do mar de Ipanema. Hoje, qual Maomé, chegando até a montanha da desumanidade em que habitamos…

Enquanto me arrumava vi a notícia do desmoronamento na Ciclovia Tim Maia, ligando o Leblon a São Conrado, inaugurada dia 17 de janeiro deste mesmo ano da graça. Um trecho foi “levantado” pela força das ondas que batem no Costão da Niemeyer. O Rio chora de tristeza, morre de vergonha! E a responsabilidade não é das ondas, da ressaca, do mar, das forças da natureza.

Foram elas, essas forças, que me grudaram hoje ao caderninho e ao desafio auto imposto de fazer o texto mais devagar, elaborar a escrita, desenhar o pensamento. E lamentar.

Como a ressaca, pedra cantada, força estranha presente quando menos se espera (mas sempre lá), só o caderninho é capaz de me salvar da ausência, preencher as lacunas da descrença, cimentar a escrita num esforço vão de descrever a imponderabilidade.

O resto já conhecemos. É o desprezo e o desleixo dos que deveriam zelar para preservar a segurança e o bem estar carioca. O nosso! Corpo e alma – ambos maculados – da sempre corajosa e destemida Cidade Maravilhosa.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Povão na Pça da Sé, contra o golpe

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Fios da imaginação

Belém 150919 034 São José dos Libertos janelaTexto e fotos de Valéria del Cueto

Para escrever crônica não existe o clima perfeito. Varia de acordo com os acontecimentos. Aqui, foram centenas de textos semanais produzidos ao longo de vários muitos anos.

Começaram na Ponta do Leme em caderninhos e uma letrinha miúda que dava asas à imaginação. Eram urdidos sonhos e exercícios filosóficos temperados com observações do entorno daquele que é o paraíso insubstituível para a cronista. Dividiram-se em séries. Viajantes, delirantes, foliãs. Dependendo da época, da temporada e da levada da vida. Até que…

Num surto voluntário e intransferível a autora se auto-exilou num reduto do outro lado do túnel buscando a incomunicabilidade com o universo que a cercava. Seu contato com o mundo exterior (o que, cá entre nós, corrobora a ausência de proximidade com a realidade) é feito por meio de um extraterreste – isso mesmo – o diligente Pluct Plact.

Diz a lenda que ele está preso na atmosfera terrestre por falta de condições para se lançar no espaço sideral. Não pensem que ainda não tomou o rumo estelar por vontade própria. Foram várias tentativas infrutíferas e mal sucedidas de partir desse para qualquer planeta melhor. E olha que está fácil. Qualquer lugar anda mais amigável do que a Terra nessas últimas rodadas no tabuleiro interplanetário.

Osso duríssimo de roer o mundo cão que nos cerca. Pluct Plact nem tem conseguido sistematizar as informações para poder criar um quadro compatível com a irrealidade de sua amiga, a cronista reclusa. Nem com jornada contínua de trabalho é possível acompanhar o supersônico desenrolar dos acontecimentos. E olha que não é preciso abrir muito o raio de observação.

O que parece novo agora já está sendo suplantado pelo desenrolar ladeira abaixo dos acontecimentos. A falta que anda fazendo os conselhos do marqueteiro, o erro na escolha do sucessor do Ministro da Justiça, agora Advogado Geral. Tipo do tiro que vai para o que viu e acerta em muitos que não viram. Sobrou para todos os níveis da administração pública. E foi efeito gota no lago: circular, ampliado e contínuo.

Tem muita pirotecnia. Mas como sempre, os tiros certeiros, não vêm das armas do inimigo. São disparados por vídeo selfies amadoras, lançadas no mundo virtual sem a devida e necessária revisão. Com amigos assim, quem precisa de adversários? A velha máxima política de “quanto menos conversa, nenhuma” sucumbe diante de exaltados discursos que desafiam instituições e poderes públicos e geram um pedido de prisão preventivo. Nunca antes nesse país!

Tudo é ou oito ou oitenta, sem direito a meio termo. Só que todo mundo sabe que a oposição sozinha não faz verão. Então terá e haver composição! Hoje tem convenção daquele partido que sabe abandonar o barco deixando apenas o rebotalho para trás. Foi assim e assim sempre será.

Domingo é dia de manifestações pelo país…

Não, não está tranquilo, muito menos favorável para o lado do mensageiro das galáxias. Teme que o choque e o peso de bigorna das últimas e irrefreáveis novidades  profunde ainda mais o desejo de se desconectar do mundo da amiga sonhadora.

A prefere em estado de encantaria a ter que jogá-la diante de tanta informação e tamanho descontrole. Pra que? Melhor seria deixa-la delirante e introspectiva a expô-la a tantos lances rocambolescos e as tenebrosas transações que se revelam num ritmo incontrolável.

Para estimula-la leva para o outro lado do túnel uma deliciosa informação. A publicação, no livro de Ivan Belém, “Liu Arruda, a travessia de um bufão”, do texto produzido pela delirante cronista, em 1999, “Praquem fica, tchau”.

Muitos fios de pensamentos poderão ser usados para bordar na imaginação como o irreverente ator e sua Comadre Nhara abordariam a sequência infindável de quiproquós. Sem dúvida, daria mais de uma crônica.

Melhor, então, contar as últimas novidades também…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Ser Mulher

Paula GuimarãesPor Paula Guimarães

Você já parou para pensar quantas mulheres admiráveis estão à sua volta? Mulher batalhadora! Que não desiste! Acorda cedo, arruma os filhos para escola, cuida do esposo, que vai ao trabalho, e, no final do dia, está de prontidão para acolher sua família. Mas também encontramos mulheres que conciliam a vida profissional e familiar com a rotina de estudos, seja na faculdade, em um curso técnico ou até mesmo em casa.

Hoje podemos dizer que a mulher assumiu novas responsabilidades, está inserida no mercado de trabalho, em um mercado cada vez mais competitivo e veloz. Tudo é imediato e não pode esperar. Mas será que ser mulher é somente isso? Trabalho, estudo e família? Muito mais do que ter uma carreira profissional estável ou estar em busca dessa estabilidade, a mulher é um ser humano que tem os seus valores e princípios, que adquiriu desde a sua infância e que certamente a acompanharão para sempre.

Não perdemos e não podemos perder os nossos valores e as raízes que nos sustentam e nos impulsionam a seguir. Como uma casa, que precisa ter as bases sólidas para então se construir as paredes e o restante da obra, assim é a nossa vida também.

Enquanto não nos conhecermos e não tivermos plena ciência de nossas raízes, as nossas decisões serão vazias, não terão sentido! Reflita! Você pode dizer a seu filho que é importante que ele não desista de seus sonhos. Mas, e você? Também luta pelos seus sonhos? Qual foi a sua última conquista? O que significa sonhar para você? Qual foi a última vez que você alimentou algum? Não tenha medo! Não tenha medo de sonhar, de decidir e de fazer escolhas. Corremos o risco de nos acomodarmos, de cairmos na rotina, de achar que somos velhos demais para começarmos um curso, para fazermos determinada viagem.

O meu conselho é que você, mulher, seja capaz de sonhar, de acreditar, movida sempre pela esperança de dias melhores. Faça uma retrospectiva das mulheres especiais que passaram por sua vida: sua mãe, avó, tia, amigas e quantos ensinamentos você recebeu delas… É hora de colocá-los em pratica! Acredite em você!

Seja feliz! Feliz Dia Internacional da Mulher!

Rolling Stones vão tocar de graça, em Cuba !

RS

Clique na imagem para ir ao site oficial da banda

Os Rolling Stones anunciaram em sua página oficial do Facebook que a banda se apresentará de graça em Cuba. O show está previsto para o dia 25 de março, em Havana, no complexo Ciudad Deportiva. Será a primeira apresentação de uma banda britânica ao ar livre no país, além de ser a primeira vez dos Stones em Cuba.

O show histórico mostra mais uma vez que, apesar dos muitos anos de estrada, a banda continua inovado, rompendo tabus e dando o que falar. O evento será parte da turnê América Latina Olé!, que já passou por São Paulo e Rio de Janeiro.

A banda também lidera uma iniciativa de “músico para músico” que prevê a doação de instrumentos e equipamentos em benefício de artistas cubanos de diversos gêneros musicais. Entre os doadores estão The Gibson Foundation, Vic Firth, RS Berkeley, Pearl, Zildjian, Gretsch, Latin Percussion, Roland & BOSS, além da Fundação Cultural Latin GRAMMY, com apoio e assistência.stones-interna

Túnel do Tempo : Posto Telegráfico de Ji-Paraná/RO

correio-jpPosto Telegráfico de Ji-Paraná

Coisas difíceis de se ver por aí…

O neo-brizolista Lasier Martins defender a RBS que foi pega na operação Zelotes

Aquele juiz de 1ª instância descer do palanque do PSDB e aplicar a lei de forma imparcial, a todos, doa a quem doer.

Aquele ministro do STF  tirar os glúteos de cima da ação contra financiamento privado de campanha.

Alguém do DEM ou PSDB ir em cana

A Scherazade explicar que agora o povo nordestino não come mais calango,

 

Falta pouco

Arpoador 160122 021 banco e flores

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Para tudo, para tudo. Entenda no sistema ortográfico que você preferir. É como na brincadeira: MANDRAKE! Mandrake, eu disse, não Homem de Mola! Não entendeu? Nem poderia. Não se brinca mais hoje em dia. Pique, esconde-esconde, queimada, bulita, peão, bafo. Ainda se brinca de “polícia e ladrão” e de mímica. As macaquices para fazer selfie. E olhe lá.

Já se avizinha a 4 revolução industrial, e ainda estamos aqui. Testemunhando o inacreditável (por mais que tivesse sido anunciado pelos “pessimistas de plantão”), desenrolar dos acontecimentos do que nos resta. E resta pouco. Um quase nada de coisa nenhuma.

Sei. Pode ficar surpreso com o pessimismo do extraterrestre abandonado até por Ziggy Stardust. Como já vimos na crônica passada Pluct Plact está inconsolável. E continua nessa levada. Fazendo um grande esforço para entender o ser, estar e não tomar o rumo de casa. É isso mesmo. Ela fica lá para as bandas do tal Planeta Nove, já detectado, projetado, mas não fotografado em extensa sua órbita que deve levar de 10 a 15 mil anos por rotação em torno do Sol!

A dedução lógica do ser interplanetário emperrado aqui na Terra é que somente uma missão ainda não cumprida o impede de romper a camada de ozônio e parar o mundo para que ele possa descer.

A questão que não quer calar, nem consegue ser explicada é: por que ele? Será só para continuar o trabalho de (mal) informar a cronista reclusa? Claro que todo mundo sabe que só por meio de suas contações ela fica sabedora do que está acontecendo do lado de fora de dentro desse mundão.

A princípio ela desconfia de qualquer informação com origem na imprensa na qual ela militou por tantos anos. Alguém tem que pagar as contas e a verdade nunca tem numerário suficiente para manter-se isenta, clara  e cristalina.

É aí que entram os dados coletados pela nave interplanetária de Pluct Plact, apesar de ultimamente ter havido uma certa tendência a tentar, digamos, realinhar as informações. A intenção é que elas causem o menor dano possível e não sirvam como argumento para que a cronista termine por se isolar ainda mais na cela do outro lado do túnel.

Já pensou se contam para ela assim, na lata, que em São Paulo o prefeito orientou os taxistas a não abordarem certos assuntos durante a corrida? Entre eles religião, futebol e… política! Sob pena de multa. Durou pouco, mas a medida foi adotada e está, portanto,  validada para abrir o espaço do Panteão do Febeapá 2016, inspirado em Stanislau Pontepreta.

Melhor não mencionar que o governo suspendeu a Piracema no país. Medida favorável aos biomas? Não. É para não pagar o salário defenso dos pescadores. É pano para manga e muito bate-boca, pois quem manda nos períodos de defenso são os Estados, e não o Governo Federal. Haverá, então, recadastramento dos inscritos no programa. Sobrou! Para os pescadores e os peixes. O meio ambiente então, nem se fala…

É por não acreditar mais na humanidade intrínseca de quem se diz a viva alma mais honesta do planeta e seus fantásticos seguidores que Pluct Plact prefere esconder da sua amiga os 59 milhões de pessoas com contas atrasadas que remam com a maré na canoa furada do desemprego que demitiu 596 mil só em dezembro de 2015. Rio de Janeiro na cabeça carregando o estandarte  e pedindo passagem para o que virá depois das Olimpíadas, que ainda servem como tábua de salvação para alguns. Mas só até o final de 2016…

O único setor que melhorou o desempenho, não por acaso, foi o da agricultura, que cresceu 0,63 em 2015. Fato explicado pela alta do dólar. Ruim para uns, ótimo para outros. Péssimo para a maioria.

Para quem fica, resta pouco. A um trisco de entrar no olho do furacão, dança quem não tiver jogo de cintura e, se possível, samba no pé para sobreviver nesse carnaval de incertezas.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Eles tinham razão

Ipanema 160113 029 Ipanema Dois Irmãos Vidigal

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ziggy Stardust partiu e eu, Pluct Plact, o extraterrestre desavisado, fiquei!

Como assim perdi o bonde? Estou pedindo, implorando, firmando, desejando, almejando uma via de escape desse vasto e incompreensível mundo e quem vai dessa pra uma muito melhor é o disfarce perfeito de David Bowie do parceiro e conhecido de outras empreitadas intergalácticas?

Aqui, como lá, vão-se os melhores e a naba, como eu, permanece.

A mão que um dia enxugou uma lágrima é a mesma que poderá ser afagada num momento de carência. Não fosse por isso ia dar uma olhadela no roteiro desenvolvido pelo Camaleão para preparar sua partida.

Acontece que tenho meu compromisso com a cronista,  minha amiga e sua escriba, em seu auto exílio solitário do outro lado do túnel, de seguir sendo seu elo (meio desconexo, reconheço) com a realidade nua e crua.

Só que… nem mesmo meus ultra cartesianos pensamentos, estimulados por zilhões de informações coletadas, armazenadas e destrinchadas sobre o que ia encontrar por aqui, servem para absolutamente nada diante da imprevisibilidade da vida na Terra. Uma capacidade que parece inerente ao ser humano de se superar.

Para o bem ou para o mal, que vocação para os extremos! Da beleza ao terror, da delicadeza ao fanatismo. Ou não chove nada, ou chove a cântaros, seja lá o que isso signifique (o que os cântaros têm a ver com o aguaceiro?). Uns comem demais, outros de menos.

Perplexidade. Que os seres humanos se sintam perdidos diante dos acontecimentos, vá lá. China na China, Fifa na Federação de Atletismo… Imagine quem não faz parte da “jogada”, assimilar é preciso. Sem pensar.

Wendel, o jogador de futebol, aparece salvar nossa honra. Seu gol, feito diante de pouco mais de 300 torcedores, em Goiás, chegou aos olhos de todos os admiradores de esportes. Diante de Messi e da cúpula do futebol mundial, citou Davi diante de Golias.

Um respiro de humanidade antes da interdição do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Ele sucumbiu ao abandono e desleixo de um prefeito que faz questão de ignorar a ligação dos cariocas com o lugar e seus habitantes. Foi fundado pelo Barão de Drummond que criou uma loteria para incentivar as visitas ao local. Era o Jogo do Bicho!

Sinceramente, nem nas mais profundas projeções é possível imaginar os cariocas sem eles. O jogo e o Zoológico. Impensável largar de mão o habitat do inesquecível e insubstituível Macaco Tião.

Aquele que jogava excrementos e lama nos visitantes.  Políticos incluídos! Pois acreditem. Ele foi candidato não oficial a prefeito do Rio, em 1988, e teve a bagatela (registrada Guinness World Records) de aproximadamente 400 mil votos. Se nulos não fossem considerados, teria ficado num honroso terceiro lugar.

Como ele pode ser votado é a pergunta. Simples. Naquele tempo a votação não era eletrônica as células eram escritas. O povo foi lá e cravou: TIÃO.  Democraticamente… É,  hoje isso não poderia acontecer, afinal, dizem eles, a democracia evoluiu!

Agora, a vingança do prefeito é desmontar o zoológico enquanto incrementa o Museu do Amanhã. Que amanhã é esse que não respeita e protege os animais? Melhor não perguntar para a cronista…

Pelo sim e pelo não, resta espaço para incluir nesse relato mais um desastre ambiental. O rompimento das barragens em Mariana mal completou dois meses e o Porto Guarujá respira elementos químicos tóxicos que entram em combustão na água.

Tião, o macaco, definitivamente estava certo. E Ziggy/Bowie, também. Boa viagem para as estrelas…

 * Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Satisfação garantida

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Escrever? Se superar a cada texto simplesmente para agradar a sorumbática cronista encarcerada do outro lado do túnel? São questionamentos de rebordosa de Pluct, Plact, o extra terrestre gente boa.

Pedir, ela não pediu. Não está interessada nos últimos acontecimentos nem para serem elementos de enredo de novela mexicana. Mexicana não. Russa. Daquelas em que não há páginas suficientes para descrever o ambiente em que as peripécias da estória se desencadearão.

Se for pra começar por aí… Choveu de menos, e depois choveu demais. A safra não está lá essas coisas. O verão é mais um verão daqueles depois de um inverno e uma primavera que foram mais quentes que o verão em pauta, se for possível.

O calor é grande, o sol é forte. O mar revolto gigantesco e cheio de valas e correntezas coaduna perfeitamente com a incrível regelante temperatura da água do mar. Está daquele jeito que quando a gente coloca o pé e a marola atinge a canela sente como se tivesse uma bota de gelo nas pernas. O aviso prévio é dado lá em cima, onde o mar se espraiou e jogou sua espuma algumas ondas atrás. A umidade dessa faixa recém lambida é gélida!

A maré está altíssima. Apesar da lua minguante a areia foi gulosamente abocanhada pelo oceano deixando pouco espaço para cangas, cadeiras, barracas e uma babel de línguas e maus costumes.

Sabe o quanto isso interessa para o cotidiano do cidadão que dormiu embriagado dando adeus a 2015 e acordou numa tremenda ressaca, inflacionado, taxado e recessivo em 2016? Quase nada. E o pouco que vale é por ser um dos elementos catalizadores do torpor que domina a massa: nem na praia dá pra ter paz. Só queimaduras originadas no descuido com o sol forte e o vento enganador.

Antes que houvesse tempo para encarar um processo detox para se recuperar do feriado, eis que cai o rei! A rainha de copas já tinha ido pro book no ciclo anual anterior. Mas quem diria que fundo do poço seria o limite dos negócios da China? Aquele fundo do poço tipo sem direito a luz no fim do túnel. O buraco é beeeeem lá embaixo, do outro lado do globo terrestre.

Pelo menos, contará o revoltado ser interplanetário para sua correspondente que, sim, várias tentativas foram feitas para viabilizar a premissa presidencial de que “A questão do equilíbrio fiscal é essencial para o controle da inflação”.

Entre a entrada do bom velhinho pela chaminé e a tentativa frustrada de visitar o Museu do Amanhã (que terminou no final do feriado prolongado do Réveillon), o pontapé inicial das medidas urgentes para conter a crise foi dado! Mudaram o jogo para facilitar os acordos de leniência com as empresas que corromperam, lesaram, fraudaram e roubaram o meu, o seu, o nosso suado dinheiro. Ficam garantidos os investidores e financiadores para as futuras campanhas políticas –  falando para os mais ingênuos, ou para dar suporte à viabilidade da continuidade da construção do projeto político em curso, num vocabulário mais, assim, um pouco mais.

Entre a avalanche de aumentos e reajustes, um setor foi claramente beneficiado, segundo a análise fria e calculista, quase sherloquiana, do perspicaz olheiro das galáxias. Com o aumento das taxações para as bebidas e eletrônicos, soltam rojões e foguetes os… costrabandistas! Eles verão seus negócios tomarem rapidamente um novo e revigorante fôlego…

Pra começar o ano, até a cronista convirá, foi um movimento e tanto. Quase uma bomba de hidrogênio!

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas fabulosas” do Sem Fim…

De nada

Arpoador 151216 013.jpg parede sombra correndoTexto e foto de Valéria del Cueto

Seria só um título se não fosse a expressão que moverá a roda em 2016.
“De nada”, aquele procede a um “muito obrigado”.
A gentileza gerada pela gentileza, num mundo onde a norma vigente é a pancadaria, o revide.
Em tempos de toma lá, dá cá, como tentar praticar a leveza para ser livre, solto?
Só com muita delicadeza.
Um exercício permanente e infindável de olhar além da realidade nua, crua e, por conseguinte, violenta, cruel!
Não é para qualquer um, nem em qualquer lugar.
Depende de equilíbrio, força de vontade e uma grande dose de malemolência, aquela arte de rodar um bambolê do carinho, sem deixar o arco da paciência cair, nem mesmo diante das maiores e constantes provocações.
Isso é estar em sintonia branda com o mundo.
Saber levar na esportiva, conseguir rir dos percalços e sacudir a dureza das ideias preconcebidas e tolhedoras da criatividade, empecilhos para novas descobertas e outros conhecimentos humanos e sensoriais.
Não é tarefa fácil. Exige paciência.
Que se considere apenas um teste a mais os tropeços e desvios das metas previamente traçadas. Há que ter planejamento! Nem que seja para ter o que desconstruir quando a tendência for apocalíptica ou diluviana.
É tempo de não haver um quase amanhã. Para que possamos renascer….
Seja na caridade do menino Jesus (e seu nascimento simbólico) ou na contagem gregoriana de mais um ano que começa.
E aí, voltamos ao início. Ao “de nada” que nunca vem só. Quando acontece é a resposta a uma reação provocada por uma ação inicial.
Só quem doa ou se doa para ter direito a um “de nada”.
Esse é o jogo do futuro próximo. Cultivar gentilezas, produzir delicadezas para suportar a onda que se forma no horizonte.
Um “de nada” aumenta o fôlego para a hora em for necessário submergir, mergulhar em direção ao futuro. Seja ele qual for. Tomara que o melhor.
Esse é só um desejo de quem passa pela vida tentando cultivar pequenos e inocentes jardins de consciência. Espalhados ao longo de muitos caminhos ligados por infindáveis encruzilhadas. E, nelas, uma sucessão de encontros e alguns – poucos – desencontros.
É hora de começar tudo de novo, ou seguir em frente, de acordo com os desejos de cada um, nessa (res)pirada de 2015 para 2016.
Tudo que posso e desejo a vocês, leitores e amigos, é que sejam muitos os “de nada” que virão nessa longa, trabalhosa e, espero que valorosa, jornada.
Obrigado por ter, mais uma vez, a sua atenção, carinho e companhia nessa, que pode ser a nossa virada.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim…

Caravana musical

POAUGN 151021 008.jpg pampa silueta boiTexto e foto de Valéria del Cueto

Entrar no Cine Pampa, em Uruguaiana, fronteira do Brasil com a Argentina, foi como voltar no tempo. No mesmo espaço, no início da década de 80, tive o prazer de conhecer o berço do movimento que geraria o de melhor a música nativista gaúcha produziu: a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.

Novamente as raízes levavam ao agora Teatro Rosalina Pandolfo Lisboa. Era uma apresentação de música campeira, a “Caravana Chamameceira”, uma promoção do Arte Sesc que aportava no berço do nativismo com um show da família Fagundes, Elton Saldanha e Alejandro Brittes.

Dos gaúchos já conhecia um pouco de suas obras re-conhecidas por todos. Do acordeonista  argentino nunca ouvira falar.

Depois de passar pela portaria do teatro e até entrar na sala de espetáculo a impressão que o tempo parou. Destaque para a boa conservação do espaço, muito bem cuidado.

Foi só impressão e durou pouco. A sensação foi quebrada. No palco, junto aos microfones, duas cadeiras, dessas brancas de plástico, destoavam do clima. Substituíam antigos mochos em que violeiros sentavam-se e acordeonistas apoiavam os pés.

Um giroscópio alucinado começou a projetar nas paredes laterais espirais lançados de canhões de luz no fundo do palco. Cai na real, diminui a expectativa pensando que era melhor retornar ao vigésimo primeiro milênio e abrir a mente para o que viria.

O espetáculo dirigido e produzido por Magali de Rossi já percorreu 12 cidades brasileiras, 2 argentinas e fez uma excursão pela Itália, rodando por 9 cidades, entre elas, Veneza, Verona e Roma.

Quando o show começou mais um estranhamento. Elton Saldanha abriu com algo parecido com um iê-iê-iê (lembram disso?) e lascou em seguida uma batida tipo sertanejo universitário. Demorou mas engrenou. Ernesto Fagundes, tocando bumbo legüeiro, apresentou os parentes. Nico e o Bagre, seu pai. Começou a falação. Nico Fagundes é apresentador do programa Galpão Crioulo, e Elton Saldanha locutor. Várias vezes se referiram ao fato de que ali era o palco da Califórnia entre outros clichês. Ora, ali só tinha “cobra criada”…

Trocaria a prosa por mais uns dois bons números musicais. Principalmente se executados por quem quase nada falou e arrasou. Quando Alejadro Brittes abriu a gaita começou a melhor parte do espetáculo.

A magia foi quebrada quando cantaram em castelhano um chamamé lindíssimo composto em guarani. Se vale português e espanhol, por que não na língua nativa dos paraguaios?

Nem mesmo a iluminação de Fabrício Simões (que colocou os canhões de luz giroscópicas em linha na altura dos ombros dos artistas, torturando quem estava na plateia), conseguiu quebrar a força da gaita chamamecera que enfeitiçava a todos. Bastava fechar os olhos para sair da vulgaridade cênica sem conexão lógica com o espírito musical.

Depois de clássicos como “Km 11”, “Merceditas”, “Eu sou do Sul”, a noite foi encerrada com o emblemático “Canto Alegretense”. Podia ter mais…

Todo espaço para a maravilhosa música pampeira. Mais pureza e menos enfeite. Sem traduções e tentativas de explicar o que, por si só, já diz a que veio e até onde pode chegar. Viva o Chamamé, o Sapucay.

E aguarde a caravana musical

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim…

Fronteiras da força

Uruguai 151106 044.jpg beira rio delirioTexto e foto de Valéria del Cueto

A lua era tua! Hás de convir que vê-la por onde o sol nasce quadrado não é lá muito animador. Para uns, uma tragédia. Para outros – poucos esses -, uma opção conscientemente sábia.

“O mundo está assim, levando tudo para o lado pior. Cambando a vida para a beira do barranco, deixando a lama correr solta: sem chance de reduzir, amenizar, afagar. E quando não é lá, é cá”.

Singelos exercícios filosófico transparecem no texto digitado por Pluct, Plact, o alienígena já quase humano. Ele segue tentando recolher energia para um impulso toín,óin,óin que o devolva para o espaço interplanetário a que de direito pertence. Mas… Ainda não será dessa vez que ultrapassará a camada de ozônio, cada vez mais pesada, reflexo das energias circulantes, dominantes e reinantes.

Não, caros amigos, ele não tem a menor ideia de como suas palavras alcançarão a cronista enclausurada.  Talvez nunca. Ela se recusa a manter qualquer contato com o mundo exterior. Trancou-se em seu espaço no outro lado do túnel. Jogou a chave fora, por entre as barras da janela antiga. Avisou a lua que numa certa época do ano não poderá saudá-la por seu exíguo, mas suficiente, quadradinho de luz. Melhor para ela. Só alimento para o corpo. Para a alma, evita-se perturbações. Portanto, nada de tudo.

Não há justificativa plausível para os últimos acontecimentos. Muitos últimos. Que num jogo entre a França e a Alemanha, em Paris, seria o princípio de uma carnificina religiosa, estopim para a violência em vários continentes do planeta. Que no Brasil um desastre ambiental sem precedentes exporia a incompetência e a paralisia geral diante de prioridades equivocadas. De Mariana aos Abrolhos os detritos tóxicos que desceram pelo Rio Doce transformam a paisagem e apontam a sucessão de falhas e a incompetência para lidar com as consequências do rompimento das barragens físicas e morais, em Minas.

Na Argentina, uma novidade eleitoral: a vitória apertadíssima de Macri, o novo presidente é oposição ao governo anterior.  Na Venezuela, um representante da oposição é abatido num comício. Pensem no clima. No Mercosul fronteiras abertas…

E como se não bastasse, depois de dar o bote no homem do Passe Livre (não, não o futebol, querida, o fazendeiro de Mato Grosso do Sul, chapa do Lula), num desdobramento da operação Lava Jato, acordamos no meio da semana com o Senado visitado pela Polícia Federal que apreendeu documentos e numa ação inesperada, prendeu o senador Líder do Governo e presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, Senador Delcídio Amaral. Além dele, também foi parar no xilindró André Esteves, um banqueiro bilionário.  A ordem de prisão veio e foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal. Os desdobramentos proporcionaram uma aula intensiva de processo congressual a quem acompanhou a sessão do Senado que decidia como seria a votação (voto aberto ou secreto) e qual a posição dos pares da augusta casa em relação a autorização necessária para que o apreendido assim permanecesse. Foi um barata voa. Elas ainda passeiam pelos espaço aéreo. Por enquanto livres, leves e soltas. Mas não circulam mais pelo espaço telefônico, meio pelo qual o peixe mordeu a isca e, mais um, acabou morrendo pela boca.

Fui, amiga. Meu processador perde potência! Só um banho de sal grosso e lua para depurar essa energia.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

Jardinagem bolchevista obriga colunista dos homens bons a fazer desmentido indevido

Por Professor Hariovaldo

A maldade bolchevista dos petistas de plantão não cansa de surpreender os homens bem pelo que são capazes. Todo mundo sabe que a corrupção brasileira começou em 2003 com a assunção do ser satânico do PT ao poder central brasileiro, usurpando o lugar que pertence a um de nós, homens bons da nação. Apesar disso, alguns deles, como Lula e sua família se recusam a aceitar as verdades emanadas dos maiores colunistas do país e partem para a briga judicial, onde, numa justiça que ainda não está 100% convertida pela exemplar atuação do juiz mouro, os bons não conseguem triunfar.

O Congresso Nacional, sob as mãos pudicas de Cunha deverá o mais breve possível fazer uma lei para impedir tal aberração e assim, quando um jornalista do semanário dos homens bons ou dos diários dos homens de bem afirmar algo sobre os bolchevistas ou sobre os asseclas do PT não caberá recurso, e as pessoas referenciadas deverão se adequarem ao que foi dito, tomando como verdade as palavras dos nobres colunistas.

Assim esperamos.

via Prof. Hariovaldo

Fome de quê?

Belém 150916 160 Ver o Peso vegetal Banca Pimenta lataTexto e fotos de Valéria del Cueto

A Itália me chama, mas não posso chegar lá (ainda). Dessa vez fui despertada por um alerta do Periscope,  aplicativo de transmissão de vídeo em tempo real (streaming) do Twitter. Fui parar, ainda dormindo, na abertura da edição 2015 da Artíssima, a feira de arte contemporânea que agita Torino, no Piemonte, no primeiro final de semana de novembro. Em 2013, o evento que ocupa o Oval, pavilhão do Lingotto Fiere, rendeu o texto “Torino, Corso dell’Arte Contemporânea” em que explorava  o evento italiano.

Um pouco mais tarde, outro alerta. Dessa vez é um email da Mendes Wood DM,(de Pedro Mendes, do time de curadores da Artíssima), uma das três galerias brasileiras, dentre as 207 participantes, de 35 países, com obras de Paulo Nimer Pjota. Do Rio, comparecem A Gentil Carioca com peças de João Mode, Rodrigo Torres, Maria Laet, Laura Lima, Thiago Rocha Pitta e a Luciana Caravello, com Nazareno. Artistas brasileiros como Matheus Rocha Pitta e Paulo Nazareth, estão representados nas galerias Sprovieri, de Londres, eFranco Noero, de Torino, respectivamente.

Por que não estou lá? Pergunta uma parte do meu cérebro adormecido. Já totalmente desperta tento responder ao questionamento e volto no tempo. Agora, até Milão onde vi, na mesma viagem, um detalhe que  me incomodou, narrado na crônica Tiro ao Alto: a poluição visual da cidade, com banners e penduricalhos referentes a Expo Milano 2015 que, com o tema “Nutrir  o planeta, energia para a vida”, movimentaria (e  inflacionaria) a cidade lombarda de maio a outubro.

“Alimentando o mundo com soluções”. Com esse slogan lá estivemos nós, nos últimos 6 meses, entre os 145 países que ocuparam gigantescos pavilhões, uma área de 1.1 milhão de metros quadrados, para receber um público estimado em mais 20 milhões de visitantes. O brazuca tinha 4.133 metros quadrados e várias bossas. Entre elas, uma rede suspensa por onde os visitantes passeavam. De 2013 pra cá procurei (sem muito sucesso) informações do que apresentaríamos por lá. O melhor canal, acreditem, era nas notícias veiculadas na Itália. Foi lá que descobri como seria nosso pavilhão, seu projeto arquitetônico e outros detalhes. Queria saber quais as premissas que norteariam nossa participação. Quando a EXPO começou, achei um site oficial que mencionava algumas receitas que seriam apresentadas por lá. Junto a tradicional Caipirinha aparecia um drink chamado Diabo Roxo. Lado a lado com a Feijoada, uma receita de Macarrão com Molho de Soja! Como estava numa fase “paz e amor” preferi não polemizar e acompanhar o que os outros países apresentariam de interessante.

Vi, mais uma vez, o Brasil na fita quando o ex-presidente Lula pontificou numa foto premonitória, literalmente andando na corda bamba, dando pinta na tal rede “multissensorial e imersiva”, atração do  pavilhão brasileiro. E assim se passaram os meses do evento que lotou e movimentou a Lombardia, o Piemonte e o território italiano, razões pelas quais não fiz nenhum esforço para visitar a Itália neste período. Ainda mais com a desvalorização de nossa moeda…

Nada chamou minha atenção positivamente nesse intervalo, especialmente porque expor produtos pecuários e agrícolas como frutas, entre elas morangos (aqueles entupidos de agrotóxicos), não era exatamente relevante para a sustentabilidade planetária. Não estávamos ali para discutir ou inovar, mas para vender o peixe institucional sem maiores questionamentos.

Até o evento dos dois últimos dias no pavilhão: o lançamento do Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia. Ele será implantado no Complexo Feliz Lusitânia, em Belém do Pará, para  viabilizar a pesquisa, o ensino e  formação, o fomento econômico, turístico e cultural, com uma escola de gastronomia, laboratório de alimentos, barco-cozinha, museu e restaurante. Pois não é que veio da cidade que completará 400 anos em 2016 a proposta que mais se  coaduna com o tema da ExpoMilano? Como sempre, o Pará. Surpreendente e na vanguarda…

A mais de 3.000 quilômetros no rumo sul, em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, juro que em breve atravessarei o país e, novamente, mergulharei nos sabores e saberes paraenses. Enquanto aguardo o inverno passar para, quem sabe, matar o desejo de explorar, mais uma vez, a terra de meus antepassados, a “Bella Italia”.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

Tudo isso e muito mais

Belém 150916 139 Ver o Peso vegetal Banca Dona Coló aberta São JorgeTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Estive na Estação das Docas (de novo!), em Belém do Pará, para assistir ao lançamento, em setembro, do III Prêmio de Jornalismo em Turismo “Comendador Marques do Reis”, no Teatro Maria Sílvia Nunes.

Foi como entrar no túnel do tempo. Ali, há uma década, começava minha paixão pela capital paraense. O curta metragem “História Sem Fim, do Rio Paraguai – o relatório” era um dos selecionados para o Festival de Cinema de  Belém, produzido por Emanuel Freitas e pela maior representante paraense no cinema nacional, a queridíssima Dira Paes. A base do festival era numa embarcação atracada no cais, na ponta dos 500 metros ocupados pelos três armazéns que compõem o complexo  de salas, cinemas, restaurantes, lojas, a beira da Baía do Guajará.

Foi pelos corredores do teatro, onde os filmes eram apresentados, que vi passar um “cortejo” da Marujada que homenageia o santo negro. Ela é realizada, desde 1798, pela Irmandade de São Benedito de Bragança, no nordeste do estado. Como boa cuiabana “pau rodado” já tinha uma queda pelo santo protetor de  Cuiabá, capital de Mato Grosso. Quando ouvi o choro da rabeca, tambores, cuíca, viola e cavaquinho tocados pelos homens e vi as mulheres, com trajes característicos e chapéus de fitas, me rendi: ali nascia um objetivo.

Desde então persigo o sonho de ver o auto dramatizado ao vivo e a cores, em seu local original. Nunca cheguei lá. Mas o interesse pela procissão, que percorre as ruas em agradecimento a autorização dada pelos senhores para que os escravos pudessem fundar a Irmandade em Bragança, já rendeu frutos. Foi falando  dela que tirei um dez numa das matérias da faculdade de Gestão de Carnaval, da Estácio de Sá.  Isso foi antes que a Marujada de Bragança virasse Patrimônio Cultural do Pará, o que aconteceu em 2009.

Tudo isso passava pela minha cabeça enquanto ouvia o Secretário Estadual de Turismo, Adenauer Goes, falando sobre os objetivos do prêmio e comemorando o aumento de um dia no roteiro de atividades turísticas disponíveis em Belém.

Discordo dele. Positivamente, é claro! Acho que quem visita Belém não deve se limitar a três ou quatro  dias para explorar tantos atrativos como os apresentados em Cine Ópera, Céu na terra, PARAiso dos Sabores e Florestas Urbanas. E ainda falta…

Acontece que é preciso respirar no tempo de Belém e não no ritmo dos roteiros tradicionais de turismo para conseguir a sintonia ideal que faz da cidade um lugar tão sedutor. Há o calor. Ele faz com que, mais que simplesmente inspirar e expirar no batidão frenético das excursões, precisemos respirar fundo e pausar a correria. Tudo no timming amazônico: as manhãs no Ver-o-Peso, o Tacacá das cinco da tarde, a Cidade Velha, o complexo Feliz Luzitânia, os parques… Já estou na quinta crônica e ainda falta falar de tantas coisas!

Depois de 10 anos do Festival de Cinema, consegui voltar. Foram 10 dias dessa vez. Posso garantir: ainda tenho fome de Belém. De conhecer seu povo, explorar melhor sua riqueza histórica, me surpreender pela maneira incrível com que a contemporaneidade se aproveita, explora e se fundamenta de tanta tradição. Sabendo dar continuidade às realizações e projetos. Tendo sabedoria para conseguir unir e integrar os elementos que constituem a sociedade local.

Não conheço outro lugar em que o diálogo entre a comunidade, as forças militares e a marinha mercante tenha alcançado tanto êxito. Enquanto, normalmente, esses elementos são entraves para a valorização de áreas turísticas (ai, meu Rio de Janeiro) lá, o que se vê, é quase a realização de uma utopia. Que se ainda não está 100% consolidada é porque sonhos grandiosos como esse levam tempo para serem concretizados. Demandam muita energia, amor e uma dedicação quase insana, em que as vaidades individuais sejam deixadas de lado em favor do bem comum.  É isso que Belém tem.

E muito mais! Um dia, certamente, como eu, você também será seduzido e há de (re)conhece-la.

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

Florestas urbanas

Belém 150915 068 Bosque Rodrigues Alves Iara lago amazôniaTexto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto

Há mais em Belém do que se imagina numa primeira abordagem. A cidade em 2016 comemora  400 anos da sua fundação e foi considerada, na época da áurea do extrativismo da  borracha, de 1890 a 1920, a “Paris n’América”. Pensam que é pouco?

Foi do “Bois de Bologne”, da Cidade Luz que veio a inspiração para a reforma do Parque Municipal, criado em agosto de 1883. Antônio Lemos, intendente municipal, o transforma no Bosque Rodrigues Alves, hoje reconhecido como Jardim Zoobotânico da Amazônia.

Passear por sua área de 15 hectares, é uma viagem à floresta amazônica, com direito a alamedas, viveiros, monumentos e recantos com grutas, riachos e cascatas. São mais de 10 mil árvores, de aproximadamente 300 espécies da região, incluído algumas em extinção. Caso do Cedro, Anjelim Rajado e Talibuca. O clima fica completo com 430 animais, de 29 espécies, que vivem em cativeiro. Outras 26 circulam livremente pelo espaço. São aves, répteis e mamíferos regionais coexistindo em perfeito equilíbrio com a natureza.

Pereira Passos, em 1905 faria a reforma urbanística do Rio de Janeiro. O prefeito carioca se inspirou e bebeu da mesma fonte que o responsável pelas mudanças urbanísticas que até hoje caracterizam Belém. Antes disso, a capital do Pará já havia partido na frente: foi a primeira cidade brasileira a ter luz elétrica e linhas de bonde elétricos. Era o auge do Ciclo da Borracha, em plena Belle Époque.

Da Europa chegam máquinas e peças de ferro, oriundas das mudanças provocadas pela Revolução Industrial. Muitas dessas estruturas podem ser vistas pela cidade. Entre elas o Chalé de Ferro, pré-fabricado e trazido da Bélgica. Montado entre 1882 e 1900, com 378 metros quadrados, serviu de residência e foi realocado no Bosque Rodrigues Alves.

Todo o complexo, que também é um campo de estudos e cultivos de mudas, é responsabilidade da Prefeitura Municipal e gerenciado pela Secretaria de Meio Ambiente.

Um Parque Zoobotânico está bom? Está não… Belém tem, além do Mangal das Garças, (já devidamente destrinchado em “Céu na terra”), mais um lugar especial para interagir com a grandiosidade da natureza local.

O Museu Emílio Goeldi, instituição de pesquisas ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, se dedica, desde 1866, a estudar cientificamente os sistemas naturais e socioculturais da Amazônia. São mais de 5 hectares com  2 mil espécies, 600 exemplares da fauna e muitas atividades. Entre elas, exposições sobre temas locais, como “Amazônia, o homem e o ambiente” que ocupa uma das quatro salas do prédio principal, conhecido como Rocinha.

Destaco a recepção proporcionada por Rafael, um dos integrantes do Clube do Pesquisador Mirim. Nos abordou uniformizado, de prancheta na mão, querendo que respondêssemos a algumas questões sobre o parque, seus animais e nossas expectativas em relação ao passeio. Compenetrado, nos acompanhou mostrando algumas das atrações que mais gostava. Explicou que não havia chegado ao clube pela escola, mas pedindo que sua mãe o levasse até o Museu depois de assistir na televisão uma reportagem sobre as atividades dos participantes. As matrículas anuais estavam abertas. “Não parei de perturbar até ela me trazer. Estou adorando.” A ação educativa começou em 1997 e, de lá para cá, foi definitiva na escolha da profissão de inúmeros estudantes que passaram pelo clube. Muitos seguiram carreiras nas áreas de Zoobotânica, alguns São profissionais ligados a instituição.

Talvez esteja na hora do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes fazer uma visita a Belém do Pará para entender como é essencial a existência de um zoológico para uma comunidade. Quem sabe, não volte de lá com noções de como manter esse tipo de estrutura sem precisar entrega-la à iniciativa privada. Todos os espaços aqui citados pertencem e são geridos pelo poder público. Vivendo e aprendendo…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…