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Diz a lenda – Olhos do coração

Por Beto Ramos

Desejo ganhar de presente a fé inabalável.
Beber Rum Bacardi sem deixar de lado minha cachaça ao sol do meio dia.
Quero chorar um rio de lágrimas para esquecer a morte do meu pai.
Também quero ver secar meu pranto pelo esquecimento do meu outro pai.
Desejo vestir um terno de linho branco com um cravo na lapela, em homenagem as cadeiras brancas que ficaram vazias.
Em dó maior ao som de um trombone, desejo naufragar numa canoa azul cheia do lodo da desgraça alheia.
Desejo entrar na Matriz e ficar em silêncio por muitas horas.
Desejo ganhar de presente um ponto final, no exato momento onde os que se encontram jamais irão chegar.
Desejo apenas beber algo em homenagem a hipocrisia.
Adentrei na Matriz do Sagrado Coração de Jesus às sete e trinta.
Aquele canto gregoriano perturbava meu pensamento.
Velhas senhoras rezavam com fé seus terços parecendo tercetos e quartetos sem rimas.
Um velho hippie de joelhos deixava expostas suas tatuagens como as chagas de Jesus Cristo.
Desejava exorcizar alguns demônios.
Demônios que sorriem nas praças.
Despedi-me de Deus com o meu Deus em construção.
Na Praça Jônatas Pedrosa aqueles demônios deixavam os mendigos dormindo com o sol a pino.
Aquele canto gregoriano não combinaria jamais com a realidade da praça.
Aquele chão sujo é algo de um Deus em construção.
Desejo ganhar de presente um milagre.
Dar de beber a água da serenidade aos meus irmãos de todos os lugares.
Silêncio!
O choro de quem precisa é visível apenas aos olhos do coração.
Diz a lenda

Toda Forma de Responder (via Cotidiano e Outras Drogas)

O dia dele começou de forma tensa, com um engarrafamento monstruoso. Nada funcionava. Preso no trânsito, sua irritação só aumentava. Tudo o tirava do sério. Entre buzinas e xingamentos, antes que se transformasse em Michael Douglas em “Dia de Fúria”, recebeu uma ligação do seu chefe, o espinafrando.

Aquele telefonema o deixou ainda mais transtornado. Ao escutar mais um xingamento xexelento no trânsito,se anestesiou de ódio. Decidiu ligar o rádio e escutou uma música dos Engenheiros do Hawaii. Ele nunca foi fã de Engenheiros do Hawaii. Na verdade, achava uma porcaria. Era apenas questão de gosto.

No entanto, as frases de efeito da banda sempre tinham impacto, um quê de firula, um ar de arrogância. Ele teve uma idéia: decidiu fazer um protesto. Naquele dia, só responderia às pessoas com fragmentos de letras da banda. Saiu do engarrafamento e acelerou, pensando: “110, 120, 160…”. Tomou uma multa.

Ao chegar no trabalho, a secretária prontamente lhe recebeu com um sorriso e o diálogo se sucedeu:

- “Bom dia! O senhor tem uma reunião”
- “O que você me pede eu não posso fazer”
- “O que, mas este fornecedor marcou horário há mais de duas semanas”
- “Não ouço nada, o que eu ouço não diz nada”
- “Tudo bem, remarco esta reunião pra quando? Ele diz que tem que discutir informações muito relevantes para a parceria”.
- “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada.”

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Crescei e multiplica-vos, os viajantes agradecem!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Se tudo no mundo evolui, imaginem como anda a forma de fazer turismo? E se o jeito de viajar se transforma, por que o mesmo não ocorreria com a maneira de escolher os destinos e fazer roteiros?
Esta semana a Associação Brasileira de Blogs de Viagem, ABBV, completou seu primeiro aniversário. Sua consolidação indica que há, sim, algo de muito interessante na forma dos viajantes interagirem no mundo virtual. Primeiro com seus desejos de informações sobre viagens e, depois, com os meios e possibilidades de torna-los (ou não) realidade. Quando uma viagem realmente começa e termina?
A exposição das impressões pessoais sobre viagens – aí incluídos roteiros, hospedagem, alimentação e atrações visitadas – foi a tendência que impulsionou e posicionou no mercado sistemas com o Trip Advisor, uma gigantesca base de dados alimentado – também – pelas opiniões e descrições de viajantes, sedentos de compartilharem experiências e preferências. As dicas ganham relevância e permitem um posicionamento instantâneo do serviço avaliado.
Na World Travel Market, em São Paulo, acompanhei palestras e seminários muito interessantes. Entre elas as Sam Thompson, Diretor Trip Advisor Americas, do querido cuiabano Marco Jorge, Territory Manager Trip Advisor LatAm, e as do “time” da Associação de Brasileira de Blogs de Viagem.
O que chamou a atenção foi a diferença de públicos nos eventos. No primeiro, muitos paletós, tailleurs e saltos altos. Agências, representantes de hotéis e estabelecimentos turísticos tentando decifrar o fenômeno que abre as portas dos negócios à avaliação pública imediata e interativa. Um pulo do gato para expor produtos diretamente aos interessados, com direito a elogios e cobranças. Como lidar com novas ferramentas e tirar proveito delas, eis a questão…
No caso da ABBV, a plateia era diferente. Informal e alternativa. Ali, as particularidades faziam a diferença. O auditório estava lotado para a apresentação da pesquisa da entidade que procura situar o fenômeno dos blogs na via láctea da indústria do turismo brasileiro. Alguns detalhes interessantes: as mulheres de 25 a 34 anos, com curso superior e renda de mais de 10 salários mínimos, maioria entre os usuários dos blogs, são viajantes experientes e independentes.
Perguntei a Silvia Oliveira, presidente da ABBV, se sistemas como o Trip Advisor não seriam concorrentes. Ela explicou que, ao contrário, os sistemas são complementares. O Trip é geral e os blogs trabalham com segmentos, particularidades que os tornam específicos para internautas que sabem o que procuram: informações e impressões pessoais.
Estas novas janelas ainda são vistas com cuidado pelos integrantes do sistema tradicional desta indústria que movimenta mais de um trilhão de dólares por ano, segundo a Organização Mundial do Turismo. Mas certamente sua evolução e, principalmente, o perfil dos viajantes que utilizam  seus recursos para decidirem que tipo de experiência turística terão, só tende a crescer e se multiplicar.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

 

A rede social e seus ecos

Por Altair Santos (Tatá)

“a atribulada relação humana com o facebook, o maior fenômeno de comunicação e interação social dos últimos tempos.”

Lá do recôndito distante e derradeiro do seu cabeção, um maluco puxaria pela memória e repetiria, em alta voz, a célebre frase, “pára o mundo que eu quero descer!” Isso, dar-se-ia ante o fantástico, incrível e espetacular poder arrebatador e de domínio das redes sociais e alguns dos seus serviços, bem como, o usufruto cotidiano e praticamente ininterrupto desses recursos, que tem transformado a vida de muita gente.

O glorioso facebook nosso de todas as horas e das horas todas, em que pese o encurtamento de distâncias por ele promovido, a agilidade na troca de informações, a praticidade oferecida e possível, num mundo cada vez mais célere, exigente e atribulado, faz muita gente lançar os pés pelas mãos e assumir este meio, como parte indissociável de suas vidas. Um casal de jovens namorados, radicalizou na coisa e tatuou aquele “F”, símbolo do facebook. Ele no antebraço, ela atrás do pescoço.

E assim, a toda hora, a todo momento, de dentro pra fora, de fora pra dentro, conforme a música, tem gente que troca a noite pelo dia, a comida pela fome, a água pela sede, o marido ou a mulher pelo computador. Nesse particular, não chega a ser tanto, mas, do jeito que vai, em médio prazo, quem sabe! À noite numa festa, ou num bar, em alta madrugada tem gente postando fotos da balada, atualizando os ocorridos ou parte deles. Isso vara a noite indo até o amanhecer. A bateria desses navegantes quase nunca perde carga.

Após nocautear inapelavelmente o Orkut e empalidecer o MSN, suplantar e desbotar outros do ramo, o facebook reina quase que absoluto na preferência popular. Até o advento de um novo e mais atraente invento que o empurre para escanteio, ele virou e continua sendo um rotativo e vistoso painel de úteis e inúteis informações. É um leito de rápidas, conflitantes e apaziguadas relações, afinal, tem pinta de carro chefe do momento, em se falando de rede social.

Entre postagens, compartilhamentos, cutucadas e comentários, uma verdadeira salada de coisas boas e ruins é, ali, despejada, em grande número, sem qualquer zelo, sem maior ou menor critério, por parte dos consumidores. Pior, o que se lamenta no uso indiscriminado da conta, é que muita gente opta e exibe a potencial verve do besteirol, ressaltando as mentes e cucas desprovidas. É o exercício do livre direito em choque com a face inculta e deseducada, o que suscita debate, reflexão, análise sociológica.

Estes enunciados avalizam que, nem eruditos e nem populares, sozinhos em guetos, de parte a parte, sem associativismo, não construiriam a diversidade e a pluralidade social. Logo, os posicionamentos aqui expressos não carregam os crivos de natureza condenatória, nem de longe! Apenas, revelam fatos e nuances daquela realidade. Interagimos com a sociedade faceana ao nosso modo, respeitando o seu modelo e costume. Se não o fosse, nada teríamos a dizer.

O face (leia-se “feice”), para os íntimos, em sua estupenda legião de seguidores conta com aficionados de todas as ordens, a saber: os eventuais – aqueles que somente acessam para poucas e discretas investidas, visitas raras, esporádicas. Os moderados – que regularmente visitam, mas não se excedem e os viciados – que formam a esmagadora maioria. É neste conglomerado onde realmente mora o perigo. Esses são os degraus da verdadeira escada descendente da falta do que fazer e do arruinamento de um monte de coisas, dentre elas, a nobre língua portuguesa que sofre um bruto e irreversível bombardeio.

Com freqüência, no facebook, se nos aparece jóias raras como: quando eu “volta” da viagem (não seria voltar?). Hoje queria “esta” (estar) contigo. Em resposta à pergunta: vais ao evento? Acho que “vou ir”. Numa conversa entre amigas ou amigos: mas eu já tinha “chego” em casa! E essa: Não “fasso” isso “com” “tigo”, então não “fassa” isso “com” “migo”, por favor me “polpe!”. Essa foi de lascar! Outra mais: o lanche de ontem na faculdade “me deu em mim” uma tremenda “asia”, Se caprichasse um pouco mais, dava na pessoa um tremendo continente asiático! Fulana amanhã “não dar de ir”, o carro da minha mãe tá “concertando” na “ofisina!”. Isso no ENEM seria, “e nem” pensar. Já no ENADE seria “e nade a ver!”

Mais: diga não “au rasismo!” (assim fica difícil!). Alguns acadêmicos no face, rasgam previamente os diplomas e jogam o futuro de suas carreiras na lata do lixo, vejamos: amigo, fui “mau”, muito “mau” na prova de direito “sivil!” Onde já “si vil” isso rapaz? Esse cara só Pode estar gazetando as aulas e rasgando o dinheiro do pai! Sai pra lá “dotô”, já pensou um homem desses fazendo a sua defesa? É condenação certa, se não pela possível ou evidente culpa, mas pela retórica tortuosa, aleijada, do diplomado.

Via face, temos podido mandar e receber informações, agilizar contatos, emitir opiniões e um sem número de coisas servíveis e não servíveis, no emaranhado e acelerado ritmo da vida atual. Em potencial, o espaço virou praça virtual por onde desfila, em forma de postagem, uma enxurrada de porcaria.

Tem gente que usa o espaço para apor a fotografia do seu cachorro na cama do casal. Talvez na hora de dormir, marido e mulher deitem no chão e o cãozinho em lençóis macios! Já um outro, exibe uma enorme lasanha que vai ao forno (na casa dele), e daí? Uma moça, toda semana, tasca lá uma fotografia diferente, sempre sensual, dedo na boca entreaberta, olhar em diagonal, sinuosidade na cintura e decote em “V” maiúsculo. Quando instigada nega ser exibicionismo e afirma, nem fiz pose!

Um cidadão tarde da noite e, na falta de assunto, diz que está “indo dormir”, como se o sono dele interessasse e fizesse diferença na vida de alguém, ou que todos também se fossem com ida dele. Ora bolas, vá logo e, se possível, nem acorde mais. Dorme Cinderela, dorme!

Alguns metidos a poliglotas postam frases ou textos inteiros em inglês ou espanhol. Nas últimas semanas apareceram até uns textos do mundo árabe, nem sei se é verdade ou não, porque não tinha tradução e mal pratico o português! Certos manés passam o tempo todo inserindo clips de pagode de São Paulo, forrós desforrozados e o intragável sertanejo universitário (sem xenofobismo, por favor!). Não vejo a hora desse sertanejo se formar, começar a trabalhar e parar de encher o saco!

Aquela alesada, toda chorosa, coloca um anúncio e pede milhares de compartilhamentos porque o gato ou cachorro de estimação sumiu e seu o coração está em frangalhos. Enquanto isso lá no quintal da casa, o filho dela fica viçando (comendo) terra e aumentando o tamanho do “bucho”. Mas o que importa mesmo é o animal de volta, o guri que se entupa de verme! Tem uns que vão viajar e mal chegam ao aeroporto ou rodoviária e mandam uma foto com a legenda: “indo pra lugar tal, indo não sei pra onde! Ora, vai rapaz, que tal ir pros “quintos” e por lá ficar?
Outros, na mais total ausência de afazeres passam o tempo todo chamando pra jogar isso, jogar aquilo, jogar não sei o quê! Não quero jogar nada, não sei jogar esses negócios! Ultimamente nem pedra na lua ou nos telhados ando jogando, muito embora, alguns tetos andem merecendo umas boas pedradas!

Sem meio esforço, no face, você é metralhado por uma coleção de frases de auto-ajuda, máximas religiosas, poesias e piadas que, com exceções, aceitamos e respeitamos. Tem os que reproduzem Nietsche, Max, Engels, Sócrates, e os que passeiam por Jesus Cristo, Nossa Senhora, Maomé, Buda, Iemanjá, Ogum, Gandhi, Chico Xavier, Zibia Gasparetto. Outros atacam de Adamastor Pitaco, Mução, Barnabé e tantos mais, dentre santos, célebres e engraçados, tudo vale quando é pro bem comum!

Lá também aparece mais coisa boa como divulgação de prestação de serviços, eventos, fotografias, informes e dados históricos, culturais e esportivos. Curiosidades e avanços da ciência e da medicina, também têm lugar no multifacetado facebook.

Todavia, existem os que praticam a falta de ética e respeito, o que não devia habitar um espaço de interação social.Tem uma turma que faz comentário político com a boa crítica e análise criteriosa, manifestação sensata. Outros, no entanto, sem polimento qualquer descambam pra apelação, ofensa e revanchismo. Existem aqueles que se travestem de pais da invencionice, verdadeiros criadores de fatos, dados, números e valores que só eles conhecem, sabem ou viram um dia. Ai vira desinformação, sacanagem!

Preferências textuais, à parte, a rede é social e, por tal, espaço do direito livre, facultado a todos, muito embora, a turma devesse melhorar e enriquecer o conteúdo, para o bem da formação e da informação. Em muitos casos, como dito numa piada encontrada no glossário do bom humor do próprio face: a coisa anda tão feia no facebook que a palavra em vez de “postar” deveria ser “bostar”. Mas o que é mesmo a relação humana senão um grande oásis, do qual todos bebem e se recostam à sombra; cada qual, segundo a sua sede e cansaço?

O autor é músico e produtor cultural
tatadeportovelho@gmail.com

No trecho a pergunta: e o eixo?

RioNotAer_130422_006_Santos_Dumont_pista_aviao_Pão_de_aç-ucarTexto e foto de Valéria del Cueto

Sempre fui assim, adepta do “me chama que eu vou”. Para longe ou para perto, ao botar o pé pra fora do Leme e deixar a minha Ponta, já me considero em trânsito.
Isso, desde os tempos que meiava um barco, lá para as bandas de Angra dos Reis. Na época, meu parceiro (por pouco tempo) vivia reclamando, por que com barco a gente nunca sabe se ele vai andar ou não. Só pra começar (no caso dele) a aventura. Isso o fazia sofrer horrores no meio longo caminho até a marina onde o Corisco ficava ancorado. Ele deixava de aproveitar a maravilhosa paisagem que íamos percorrendo, numa viagem de, pelo menos 3 horas, antes de alcançarmos o ancoradouro onde, como sempre, o motor poderia virar ou não.
De cara saquei a armadilha que fazia com que as belezas da saída do Jardim Botânico, a Lagoa Rodrigo de Freitas, Gávea, São Conrado, Barra, Recreio, a Grota Funda, Sepetiba, Santa Cruz, Itaguaí e toda a espetacular Rio-Santos, até chegarmos a Angra, fossem apenas passando pelas janelas do carro, sem nenhum olhar mais apurado pelas belezas e mazelas que íamos deixando pelo caminho, até chegarmos à nossa maior incógnita.
No caso, o truque era considerar que a aventura começava quando fechava o portão da garagem da casa. Sei lá se o barco pegaria, o tempo estaria bom, a temperatura da água agradável, o mar virado… Eram tantas as (maravilhosas?) possibilidades!
Foi então que passei a jogar o Jogo do Contente desde o momento em que saía de casa. A brincadeira de Poliana, a menina órfão da história, é muito instigante. Principalmente para quem precisa lidar com um caso de insatisfação quase permanente que acaba podendo contaminar um final de semana inteiro, quiçá o restante da semana e até uma relação.
Para evitar esse “desvio” da imaginação que virou um verdadeiro vício que parei de viajar, pelo menos no sentido físico. Foi em setembro e, de lá para cá, acho que passei um dos meus maiores períodos contínuos que recordo estacionada na Ponta do Leme.
Houve um motivo, reconheço. Verguei para não quebrar. Precisei abstrair do corpo físico para que a alma pudesse se alinhar novamente. O processo não terminou. Mas uma parte, a que me paralisava, parece que começou a passar.
Voltar foi um dos motivos que me impedia de ir. Por que quando vinha, sempre tive com quem dividir o que vi e vivi. Sabia que as viagens não terminavam quando o avião pousava no aeroporto Santos Dumont. Ainda haveria uma oportunidade especial e única para reinterpretar tudo o que eu conseguisse capturar nas estradas e lugares por onda andava.
Agora com o retorno, vi o tamanho vazio que escondi de mim mesma desde a penúltima viagem. E, definitivamente, que não sei lidar com ele.
Nunca fui de contar publicamente o que vi no mundão que já andei, mas acho que, se quiser continuar fazendo o que sempre amei, vou precisar mudar essa maneira de agir.
Se meu mundo não pode mais me escutar, não vou mais do que vergar – novamente. E só até começar a contar para vocês, que faz tanto tempo me acompanham, o que tenho visto por aí, não mais apenas os fragmentos inconsequentes dos meus sonhos…
Começa aqui, a série “No trecho”, do Sem Fim…
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No trecho”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

A carona da desgraça

Por Altair Santos (Tatá)

Amigos desculpem o mau jeito, o texto vai assim mesmo, na primeira pessoa. Pensem nos maus bocados que passei! Juro que vou começar a rever certos conceitos e comportamentos, serei mais paciente com o próximo, irei mais à missa no domingo, farei filantropia, mandarei flores até pra quem não conheço. Hoje, por volta das 14h, sem dúvida, vivi a pior meia hora desta minha jovem vida cinqüentenária. Acho que de tanto falar mal da antimúsica, criticar os modismos e apelos chulos empurrados cabeça adentro pela mídia do besteirol musical brasileiro, via TV, rádio e outrosmeios eis que, contra mim, despejou-se uma praga, tipo aquelas do Egito! Fui a uma reunião num local afastado do centro da cidade. Na volta, me foi oferecido uma gentil carona por um moço, o Adriano, filho de um conhecido. O rapaz é um animado universitário da cidade, que disse me deixaria no centro, próximo ao local de trabalho. De pronto agradeci, aceitei! Mal sabia esse amigo de vocês que aquilo era a desgraça sob encomenda, o verdadeiro inferno automotivo e musical. Ali, no interior do carro, lado a lado, eu e o jovem estudante, ao que me parece travestido de emissário do capeta, só pode ser! Entramos e o cara ligou a máquina e fez-se um grande e ensurdecedor estrondo, vrummm vrummm! Antes de sair puxou um assunto, perguntou umas três coisinhas e tascou: beleza Tatá, que bom te ver cara! Vou colocar uma musiquinha pra gente, você gosta né? Nem deu tempo de responder e fui tomado por um baita susto quando o som do carango vomitou contra a minha modesta caixa pensante, um pancadão daqueles de rachar o quengo em elevadíssimos decibéis. Era um misto de Mr Catra, Mc fulano, DJ beltrano, e ele lá do meu lado se sacudindo ao volante. E tome camaro amarelo, lek lek, dentre outras jóia raras! O cara cantava junto repetindo as letras para sofrimento do meus tímpanos e desconforto da minha ali, já inquieta alma. O barulho era infernal! Começava então uma imensurável agonia auditiva, uma irresistível perturbação mental acompanhada de forte desassossego físico, uma sessão carona ornada por uma trilha dos infernos. O trânsito lento e complicado, não combinava com a atmosfera loucamente temperada, vivida no interior do veículo. Aquilo parece ter aguçado o jovem Adriano a recorrer às suas reservas de adrenalina e aditivar aquele infausto encontro meu com zoada sem limite, com o mau gosto sem régua. Pra não ter que baixar o volume do potente equipamento de som, o universitário se achando o tal, dizia, ou melhor, gritava pra mim num português que extermina a concordância, chuta pra longe o plural exagera em termologias em forma de gíria, evidenciando um dialeto ao qual sou ainda pouco conhecedor. E gritava ele: e essa aqui mano, o que tu acha? E mais essa, olha só essa outra é do “carai”, essa também é massa, a muhera da gosta! As mina pira! Uuhhhuuu! A saraivada foi uma overdose funk com o tal sertanejo univesitário, uns forrós Segura Tatá, hoje é dia, “é nóis véi”, se tu quiser hoje nós sai por aí de noite pra vê as mina lá na Pinheiro e depois nas buate, dá pra gente pegar umas vadia e beijar muito na boca, vamo moleque lá tu vai se amarrá! A essa altura já atravessávamos a Av Jorge Teixeira quando, próximo ao clube botafogo e em meio ao contínuo embaraço do trânsito, um anjo do senhor me soprou na face a atitude derradeira de reação. Quase surtando de tanto desespero bradei, pára aqui vou descer! E ele sem tocar no volume do som gritou: Ok, beleza! Se quiser eu te espero maluco, tô com tempo! Agradeci com um aceno e, tendo o juízo em total plano de desordem, saí cambaleando, tentando ajustar a bússola da existência, reconhecer a cidade direito e rumar pra algum lugar onde pudesse acudir a mim mesmo. Caminhei uns 100 metros dobrei à direita, segui trôpego e sob efeito dos ecos daquelas batidas fortes e letras esquisitas na cabeça, brigando com a zonzeira rompi a extensa calçada dos fundos do botafogo e, na outra ponta, pra alívio e salvação, se me aparece um Oásis! Debaixo de dois frondosos jambeiros, o tradicional Bar do Bigode me acolheu, como em outrora! Acotovelei-me no balcão, respirei, fiz rápida reflexão de agradecimento a Deus por me manter de pé, embora combalido. Cumprimentei os convivas e, sem titubear, pedi uma e depois mais uma… Meia dúzia de cervejas depois, fiz questão de andar debaixo do sol causticante até minha casa, feliz, forte, vivo! Sai pra lá coisa ruim, que hoje é sexta-feira!

O autor é músico e produtor cultural
tatadeportovelho@gmail.com

 

A educação digital demanda novos formatos de escolas e de material didático

Fernando_Almeida_artigoPor Fernando Almeida

Há algumas semanas, em um jantar com amigos, chamou minha atenção a desenvoltura da pequena Heloísa em manusear o smartphone de seu pai. Com apenas um ano e meio de idade, mal começando a articular as primeiras frases, ela transitava entre os programas e facilmente explorava os aplicativos que abria. Eu já havia visto alguns vídeos com crianças brincando em tablets e similares, mas a experiência de acompanhar o evento de perto foi marcante e despertou em mim algumas reflexões. Que tipo de escola poderá atender com eficiência essa geração de nativos digitais que está chegando? Como geradores de conteúdo, de que forma conseguiremos estruturar um material didático adequado a essa nova realidade? Como nativo analógico, devo dizer que me sinto confortável em lidar com papel quando leio livros ou imprimo os arquivos com dados que levarei às reuniões. No entanto, também sou migrante digital e confesso ficar fascinado com os novos recursos e tecnologias à nossa disposição, tanto aqueles que facilitam o cotidiano, como os já citados tablets e smartphones, quanto os que são voltados para o mundo educacional.   O tempo do professor em sala de aula hoje é otimizado com o auxílio dos recursos existentes nos programas de criação de apresentações e nas lousas digitais; o estudo do aluno em casa é incrementado pela facilidade de pesquisa em sites de busca e pela permanente comunicação com a escola, a qual, por meio de portais cada vez mais sofisticados, coloca à sua disposição aulas de reforço, listas de questões, atividades de fixação, revisão e aprofundamento.No entanto, a rapidez com que avança a tecnologia e a forma como se sucedem as gerações de estudantes (e, no que se refere à população discente, o intervalo entre gerações é cada vez mais curto) trazem a certeza de que a transformação será mais profunda do que a que temos hoje. O aproveitamento dos recursos tecnológicos que já existem e dos que virão passará necessariamente por uma modificação na linguagem educacional, na qual o aluno deixa de ser um componente passivo e se torna um elemento ativo do processo de ensino e aprendizagem. Condições para isso já existem: recursos audiovisuais que permitem contextualizar os conceitos apresentados, atividades especialmente desenvolvidas para possibilitar a aprendizagem contínua e significativa, uso de devices em sala de aula que acessam as redes colaborativas.  Ao professor está reservado o importante papel de coordenador do processo, mediando o caminho do aluno rumo à aprendizagem e à aplicação dos fundamentos. Por isso, é necessário e urgente capacitar os mestres desde sua formação; assim, poderão chegar à atividade docente com a consciência de que os conteúdos não são simplesmente alvo para a memória, mas ferramentas que possibilitam o desenvolvimento das habilidades e competências fundamentais para o pleno exercício das capacidades de nossos jovens.

Sem noção, com muita emoção, só na propul$ão!

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Texto e foto de Valéria del Cueto

É pau, é pedra e qualquer hora dessas o editor me pega. Esse tal de deadline é um inferno na vida de qualquer pretendente a entregar uma obra com prazo marcado.
É dura essa vida de ter compromisso. Imaginar é ótimo, planejar é legal. Mas executar nem sempre depende só da nossa atuação. Ou não?
Das duas uma: ou você chuta o balde e reza pra água cair direto no jardim que precisa ser regado ou sua consciência nunca estará tranquila até conseguir fechar a tampa e enterrar o defunto.
Que horror! É muita maldade comparar um filho parido a cada semana, no meu caso, a um morto. Mas é o velho ditado cuiabano que diz: “Quem beijou, beijou, quem não beijou beijasse, por que vai fechar o caixão” a primeira imagem que me vem à mente quando penso em entregar alguma coisa em cima do laço.
Isso, meus queridos leitores, que sou uma pessoa ciente e ciosa dos meus deveres para com meu reduzido público e procuro adiantar minha vida para não passar um perrengue a cada semana, justo às sextas-feiras, dia sagrado que antecipa o que virá de melhor no final de semana.
Mas o que fazer quando, por exemplo, como acontece hoje, estou no aeroporto, em São Paulo, tentando embarcar para o Rio e, consequentemente desembarcar na minha Ponta do Leme sagrada?
Diz que foi o nevoeiro, mas vejo as outras companhias mandando e trazendo passageiros de um lado para o outro, enquanto a minha se limita a mudar os numerinhos horários, em ordem crescente, no painel de partidas.

Assim, foi que planejei escrever esse texto confortavelmente. Sentada na poltrona do avião voando na ponte aérea. Mas não previ a possibilidade de atraso após atraso ver o tempo se escoando e o voo atrasando diante dos meus olhos preocupados.
Então, resolvi adiantar o trabalho. Acabei descobrindo que não daria tempo de terminar e enviá-lo antes da chamada do voo. Foi assim que me vi torcendo para… o voo atrasar ainda mais!
Como é só um voo, tudo bem.
Mas vocês já imaginaram como estão os que deveriam entregar coisas mais sérias e inadiáveis que uma crônica???? Sem desmerecer o meu humilde trabalho, é claro!
Pelo bem dos compromissos assumidos, deve ter muita gente perdendo o sono por aí. Afinal, algumas coisas não dão pra deixar para depois, ou simplesmente largar de mão. Estádios, aeroportos, instalações, obras de mobilidade urbana, segurança e saúde para turistas. Vixe! Só fazendo mais e não tão melhor para ser rápido.
É claro que uma ajuda monetária, financeira e/ou econômica ajuda. Só que isso não é a solução para todos os problemas. O nível do stress vai lá em cima e, pelo bem ou pelo mal, é melhor ser excelentemente remunerado pela aporrinhação, mesmo que o dinheiro não resolva diretamente o problema…
Aí, vem aquela velha pergunta: e o que temos nós com isso? Tudo! Alguém tem que pagar a puuuuuta conta… Falimos nós e ganham eles, mesmo sem entregar o prometido. E viva o mais nvo santo da praça, o RDC, Regime Diferenciado de Contratação!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano ”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Celular dentro da escola? Sim!

Planeta_Educação_-_imagem_Ana_Paula_PaivaPor Ana Paula Barros de Paiva

Valorizar a utilização dos recursos tecnológicos nas salas de aula, de forma a favorecer o aprendizado e tornar o processo de ensino e aprendizagem mais significativo para crianças e adolescentes, faz com que os alunos utilizem ferramentas que já fazem parte do seu dia a dia. O celular, neste caso, pode ser visto como mais um recurso para que os professores desenvolvam suas aulas e projetos, dado que, atualmente, é difícil ver quem não o utilize.

A introdução do celular na sala de aula não é algo que acontece de um dia para o outro, considerando que a escola e alguns professores ainda têm características tradicionais de ensino. O uso de celulares nas salas de aula exige mudanças, e mudar não é tão simples, pois o ser humano resiste às mudanças. Aqueles professores que ainda não têm habilidade com as tecnologias precisam estar dispostos a aprender e, assim, incorporar gradativamente o uso da tecnologia em seus conteúdos, possibilitando aulas mais atrativas e desafiadoras.

Não precisa solicitar, o aluno já leva este objeto para a sala. Quer queira ou não, o celular faz parte do seu dia a dia, como as redes sociais fazem parte do cotidiano de vários alunos. A dimensão dessa junção “Aula, Conteúdo e Celular” estimula os alunos a participar mais das aulas, afinal, muitas crianças dão “show” ao usar seus celulares.

É importante considerar que a proibição do uso de celular em sala de aula desperta ainda mais o desejo de usá-lo. “Tudo que é proibido é mais gostoso”. Mas, infelizmente, a escola tem buscado formas de proibir a entrada deste objeto em suas dependências.
Contudo, façamos a análise: O professor fica sem o seu celular? Fica aí uma pergunta para reflexão. Por outro lado, se o celular for colocado como objeto de estudo e pesquisas, poderá apoiar o desenvolvimento das habilidades sociais do século XXI.

Conteúdos e habilidades podem ser trabalhados e até otimizados com o uso do celular no desenvolvimento de Projetos. Por exemplo, num projeto em que o objetivo é explorar a cultura, os recursos do celular podem ser úteis para captar informações nos bairros, cidade e até mesmo em várias regiões do Brasil.

Se um projeto tiver a intenção de fazer com que os alunos conheçam os valores através dos tempos, é possível entrevistar funcionários da própria escola ou parentes, utilizando recursos próprios do aparelho como Filmagens, Imagens, Entrevistas, Gravações, Comunicação, além de envio de mensagens com dúvidas, avaliações e dicas diversas relacionadas às disciplinas. Qualquer conteúdo pode ser trabalhado usando o celular, contudo, é fundamental o planejamento do professor para que os objetivos ao usar esta ferramenta sejam alcançados.

O potencial do celular dentro de uma sala é o estímulo que ele causa nos alunos e a independência e autonomia que desenvolve, colocando-os como coautores do próprio conhecimento. Alunos que se deparam com objetos que já vivenciam fora da escola sentem-se mais seguros e independentes dentro do ambiente escolar e na construção do seu conhecimento, devido à facilidade que têm ao manusear a ferramenta.

O fato de usar o celular na sala de aula não é simples, é necessário um planejamento, uma proposta pedagógica alinhada à tecnologia. Há, é verdade, algumas leis de proibição, mas, comprovando-se o objetivo pedagógico e o avanço dos alunos, quem sabe isso pode mudar.

A utilização do celular promove o desenvolvimento intelectual, social e cognitivo de maneira conjunta, pois ele é um estímulo para auxiliar na assimilação dos conteúdos pedagógicos. Quando são propostos novos caminhos para aprender, o desenvolvimento intelectual acontece de forma natural, pois há exercício da capacidade de pensar. A informação se transforma em conhecimento.

Para quem deseja realizar este trabalho com os alunos, pode começar fazendo uma pesquisa de aplicativos pedagógicos. Existe uma grande variedade disponível no mercado para utilização gratuita. Essa é uma tarefa do Educador, que precisa avaliar a potencialidade desses aplicativos para atingir, especificamente, os objetivos traçados no planejamento das aulas.

Pense bem antes de utilizar qualquer recurso, prepare sua aula com muita dedicação, para que, no final, você seja mais um exemplo de sucesso com o uso de recursos digitais na educação.

Se não agora, será quando?

Se-não-agora-será-quando-

Texto e foto de Valéria del Cueto

De novo, no laço. Seja como for, tipo sem régua, esquece o compasso.
A culpa é do que me tirou do caminho que faço para trazer a você, leitor, a crônica nossa de todas as semanas. Já disse e repito: não é fácil, haja assunto e motivação.
Foi em busca de tudo isso e mais um pouco que abandonei a Ponta de Leme e rumei para São Paulo. Um grande evento de turismo, a Word Travel Market Latin América, atraiu minha atenção.
Um ano e pouco antes da Copa do Mundo achei que seria uma boa oportunidade para ver o que o Brasil e o mundo tinham para mostrar no setor.
Ali estavam reunidos representantes do segmento do mundo inteiro. Isso imaginava eu ao adentrar o Transamérica Expo Center onde 1.245 expositores vendiam seu peixe.
Eram tantas opções que, antes de começar uma exploração mais detalhada, preferi me refugiar na sala de imprensa para organizar o que faria durante os três dias do evento que também incluía o 39º Encontro da Braztoa – Associação Brasileira de Operadoras de Turismo. Havia atividades para qualquer modalidade: conferências, seminários, rodadas de negócios, etc, etc…
Decidi ser racional e objetiva diante de tantas opções. Eleger minhas prioridades.
A primeira, pouco profissional e mais emocional, era verificar como estava o material de divulgação da sede pantaneira da Copa do Mundo de 2014.
Explico o porquê da minha curiosidade: em outubro do ano passado havia ido ao encontro anual da ABAV, Associação Brasileira de Agentes de Viagem, no Riocentro, Rio de janeiro. E, diante de uma acanhada e mal localizada bancadinha lateral do stand conjugado com Brasília e Goiás, fiquei chocada e decepcionada com a folheteria que tinha a vã pretensão de apresentar à indústria turística as exuberantes atrações dos três ecossistemas que compõe Mato Grosso.
Lá, disseram-me que aquela participação pífia se devia ao fato de que uma nova campanha seria lançada visando atingir os promotores do setor para vender Mato Grosso para a Copa do Mundo.
Tolinha que sou, acreditei…
Ainda na entrada da WTM no setor que reunia os estados brasileiros um enorme stand plotado com as belezas do pantanal atraiu minha atenção.
A medida que me aproximava aparecia em letras garrafais o nome do estado. M+A=MA, T+O=TO, G+R+O=GRO, S+S+O=SSO. Mato Grosso! Exultei. Só que as letras não terminavam por aí. Havia mais. D+O=DO S+U+L=SUL. Mato Grosso do Sul…
Ao passar foi que resolvi subir para a sala de imprensa, guardando o gostinho de ver o que a gente bronzeada de Mato Grosso havia preparado para o megaevento para depois deixando a cereja do bolo por último, pra ficar com seu bouquet como uma recordação nas papilas gustativas.
Já no press room, nas estantes repletas de informações, brindes e panfletos, procurando nossa nova campanha, de longe vi uma belíssima pasta com uma foto maravilhosa na capa de algo que parecia uma aérea do Pantanal. Meu coração bateu mais forte! Seria esse nosso material?
Quando me aproximei, descobri que era um material de Botswana. Já ouviram falar?
Pois até este pequeno país africano estava lá. Impecável, irresistível, encantador, com seus alagados, animais exóticos e maravilhosos resorts.
Do meu estado querido tive o prazer de reencontrar o Seiji e a Nizilda, amigos queridos… e nada mais!
Por isso, sofismando, se o ditado que diz “onde há fumaça há fogo” é verdadeiro, onde haverá Copa do Mundo há divulgação intensa. O que não acontece nem com Cuiabá nem com Mato Grosso…
Espero, sinceramente, ter entendido mal o recado claríssimo dado por nossa inacreditável ausência na WTM.
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Tragédia grega

Preto_Leme130117_002_bueiro_e_homens_ladeira_tragédia_gre gaTexto e foto de Valéria del Cueto

Já que não dá para ser de lá, vai daqui que está de bom tamanho! É duro trocar o som murmurante e inconstante do mar ressaqueado da Ponta do Leme pela monotonia do motor quase ensurdecedor do enxuga lama do Eduardo Paes aqui no pé da Ladeira Ari Barroso, mas fazer o que?

É claro que isso influencia até no desenho das mal traçadas linhas imaginárias do meu quase extinto caderninho. A diferença entre os dois é que sei, sinto e vejo que as páginas presas no espiral que me acompanha há meses estão chegando ao final, se esgotando inexoravelmente, mais uma vez.

Quanto a malfadada e malfeita obra prefeitural, não sei não… Não há bolão capaz de adivinhar por quanto tempo os dois motores seguirão rugindo embaixo da janela; os cinco ou seis funcionários, com suas roupas de borracha amarelas, claramente sujas por fora (é óbvio) e por dentro (é nojento e insalubre) e suas grossas mangueiras permanecerão, no horário comercial, das 9 às 12 e das 13 às 17, enxugando a lama que não para de brotar das tubulações. Sempre cheias de lodo, terra negra de sujeira e outras cositas que afloram, dia após dia, no asfalto poeirento da Rua Ribeiro da Costa, parcialmente interrompida para a espetacular performance (des)construtiva.

Enquanto os peões a retiram, a Dimensional, empreiteira (ir)responsável pela execução da odisseia carioca do prefeito Eduardo Paes, recebe pelo serviço de tecer o tapete (negro), tal e qual O sudário de Laerte, pai de Ulisses, laboriosamente tramado e desfeito por nossa Penélope eduardiana, e a natureza faz aquilo que sempre fez e se espera dela: a cada chuva despeja ladeira e tubulação abaixo a lama nossa de cada dia!

A gente? Fica aqui com ar de palhaço, fazendo cara de paisagem, como se o barulho ensurdecedor não fizesse mal nenhum à saúde e pudesse ser ignorado durante as oito horas diárias de tortura chinesa a que somos involuntariamente submetidos pelo motor que ruge esbravejante nos nossos ouvidos.

Outro dia, ouvi uma pérola de um dos funcionários da Dimensional. Ele disse que a operação continuaria até que eles conseguissem esgotar a terra que escorregava lá de cima. Foi aí que cheguei à conclusão que a comparação com a Odisseia, no início apenas uma piada, era realmente séria!

Os caras levarão anos chupando a lama. Não sei se este era o objetivo inicial e consciente dos augustos engenheiros que planejaram e executaram os trabalhos de infraestrutura do bairro, mas lipoaspirar o morro inteiro levará milênios e, mesmo assim, acho difícil que consigam realizar a hercúlea tarefa a que se propõem.

Uma coisa, meio assim a lá Garrincha, sabe? Quando ele pergunta se o técnico combinou com os “Joões”  como eles deveriam jogar, para que a tática imaginada pudesse ser desenvolvida e aplicada.

É, por que até lipoaspirar a terra é possível, mas como impedir as nascentes existentes lá em cima de jorrarem e escorrerem encosta abaixo suas águas, trazendo junto areia e lama? Também tem o bom e velho oceano e suas marés maravilhosas que fluem, refluem e explodem em determinadas épocas do ano, avançando por dentro das galerias.

Ai meu santo pagador de obras! Provenha-nos para que possamos seguir bancando financeira e pacientemente o cavalo de Tróia que nos impuseram.

Isso, até que os deuses do Ministério Público, da Justiça e/ou do Tribunal de Contas tomem providências e contabilizem o prejuízo causado aos cofres do povo. Afinal, alguém precisa nos ajudar a tirar esse dromedário troiano da nossa chuva!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

A notícia é que escreve o jornalista (via blog do Leandro Marshall)

Recentemente, escondido numa página do caderno de Economia do jornal Folha de S. Paulo, um escritor europeu pouco conhecido fez uma declaração que me chamou a atenção e que simplifica muito o que representa a sociedade do espetáculo em que vivemos. Dizia ele, em palavras simples: “O supermercado é quem decide o que o consumidor vai comprar”.

A ideia do autor era de que a lógica da sociedade de consumo atua sobre o comportamento do indivíduo invasivamente, sem que ele perceba. O poder sedutor e instrumental das palavras, dos códigos sociais, das convenções mecanicistas e da racionalidade institucionalizada faz com que a ação dos sujeitos sociais, à revelia de sua vontade, se torne, cada vez mais, um procedimento estritamente processual, automatizado e operacional.

Os sujeitos obedecem a comandos de input e output dentro dos esquemas exógenos ditados pela Racionalidade Instrumental de que falava Max Horkheimer, ou pela Sociedade de Controle, de que tratava Gilles Deleuze.

Apesar do museu imaginário (expressão de Gilbert Durand) ser uma arena sagrada, construtora subjetiva da realidade, a esfera da objetividade, onde as “imagens medeiam as relações sociais” (Guy Debord), faz com que cada vez mais o mundo simbólico real ou virtual comande o universo imaginário e as ações dos homens. A opinião é perigosa demais. O mesmo princípio vale apropriadamente para o universo da comunicação e da informação neste início de século 21, sobretudo no mundo do newsmaking.

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Vai de que?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou preferindo desenhar. Ando com pouca disposição para escrever. As linhas andam muito tortas e irregulares.

Meu refúgio, a Ponta do Leme. A areia ainda úmida do sereno da madrugada, misturado com a bruma da maresia do amanhecer, acolhe o flanar preguiçoso da canga sacudida para ser estendida na praia.

Sinto cheiro de mofo misturado com o ar da manhã. Sinal de que faz tempo que os pavões misteriosos estampados no tecido não saem do armário lá de casa. O cheiro me incomoda, mas é por pouco tempo, sabemos. O necessário para o sol quarar meu quadrado, comigo dentro.

Há uns dois ou três dias venho pensando nessa crônica. O que não é muito comum. Gosto simplesmente de abrir a torneira da imaginação e deixar as ideias escorrerem pelo papel sem muita preparação para, depois, só enxugar os excessos, secar uns poucos respingos. Normalmente são pontos, vírgulas, exclamações e reticências. Foram as pausas da respiração, entre os pensamentos que se atiravam abusados pela corrente sem muita ordem, como quem não pede licença. Fazem cócegas quando são alegres e arranham se violentos, até que sejam polidos e enfileirados nas linhas imaginárias do meu caderninho sem pauta.

Quase sempre é assim, e como é bom! Acontece que, umas trezentas aberturas na torneira da fonte da imaginação depois, a gente se pergunta se o conteúdo despejado não está se tornando repetitivo. Pode ser chato para o leitor ler sempre sobre a mesma ponta/pedra/praia. O mar esmeralda, a bola colorida que rola para um lado e para o outro entre os pés ágeis dos garotos que capricham no altinho,aguardandoa chegada dos novos parceiros para completar o time e darem início a pelada clássica na linha d’água, e o surfista que, sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus, de frente para as ondas, seus objetos de desejo, arruma concentrado a tira do strep, preparando o velcro para prende-la no tornozelo, segundos antes de se entregar de corpo e alma ao mar que murmura sua musica, qual Flautista de Hamerlim.

Como o atleta, que já corre em direção a água, sou uma ratinha, atraída pelo feitiço musical, efeito mágico para meu coração cheio de dúvidas.Por que faz dias que ando preocupada com o tema dessa crônica… Falar de que? Tentei estabelecer parâmetros, e, por eles, eliminar algumas hipóteses.

Sem saber o que abordar, decidi definir o que evitar.Isso depois que surgiu a questão da repetição. Prontamente esse conceito foi substituído por outros. Substituído não, complementado. O bom humor e a leveza seriam essenciais. O texto não falaria de…, nem de…, muito menos abordaria…, …,…( não posso escrever as coisas a que me refiro sob pena de deixar de lado meu objetivo excludente). A lista de possibilidades plausíveis foi diminuindo, diminuindo…com o passar dos dias e o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos.

Até que resolvi reconsiderar as opções. Para encurtar, aboli o impedimento quanto a repetições, pelo menos no quesito Ponta do Leme. Foi ele o mais concreto, superlativo e fundamental (não posso usar essa palavra sem lembrar-me de Dante de Oliveira) mote para uma crônica quase outonal. Para terminar em grande estilo só falta descrever o desenho feito pelos rastros das pranchas que serpenteiam abusadas nas ondas lindas, tentadoras, mas perigosas – por que hoje paredes inexpugnáveis, já que quebrando sem piedade. Mesmo convidativas, são um sinal explícito de que a maré não está para peixe, pelo menos para certas espécies.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,do SEM FIM… delcueto.wordpress.com 

Pré-escola obrigatória, direito das famílias ou das crianças?

Por Erika de Souza Bueno

Art. 4o: Educação básica obrigatória e gratuita dos quatro aos dezessete anos de idade, organizada da seguinte forma: pré-escola, ensino fundamental e ensino médio (Diário da União, 04/04/2013).

A lei sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, publicada no Diário da União no último dia 04, exigirá a matrícula de crianças no ensino infantil a partir dos 4 anos de idade.

A notícia foi recebida com alegria por muitas famílias que anseiam ter um lugar seguro para deixar seus filhos no momento de saírem para trabalhar. Contudo, há alguns pontos que precisam ser considerados, pois, muito mais do que terem obrigação de matricularem suas crianças na pré-escola, continua também sendo previsto que os pais ou responsáveis sejam os principais responsáveis pela educação delas.

É indispensável que os pais ou responsáveis tenham a perfeita compreensão de que a ideia primordial da obrigatoriedade da educação infantil é tratar a infância com o respeito e os cuidados necessários.

Diante das características atuais, as quais dizem respeito aos trabalhos realizados fora do lar por todos os familiares, sempre existiu grande interesse de famílias no que se refere ao período de atendimento de crianças pelas pré-escolas. Já faz bastante tempo, inclusive, que alguns setores buscam conseguir obrigatoriedade para uma educação infantil que atenda a crianças durante a noite, nos finais de semana e no período de férias.

Diante desse pensamento, não se considera apenas a educação das crianças, mas também a necessidade que os entes delas têm de se ausentarem de casa para trabalhar, vendo-se em grandes apertos para administrar o período que passam trabalhando longe de casa e o período que os filhos ficam na escola.

Toda essa realidade não pode, de modo algum, ser desconsiderada, mas a escola de educação infantil (seja pré-escola, creche ou outra) não pode ter caráter assistencialista. Tem que se assumir como escola, fornecendo à criança a educação de que ela realmente precisa, não eximindo a família de sua grande e indispensável responsabilidade em seu relacionamento com os próprios filhos e escola.

Sendo assim, existem muitos pontos que ainda precisam ser pensados, que precisam de abordagens em várias frentes sociais, pois do mesmo modo que as crianças têm necessidades educacionais a ser contempladas pela escola, o país também precisa de mão de obra disponível para a continuidade de seu desenvolvimento.

É, enfim, necessário envolver nessas discussões outros setores (não apenas os educacionais), da mesma forma que é indispensável o comprometimento de todos com a educação infantil estendida à criança, pois um percurso educativo que impactará toda a sua vida é um direito que não lhe pode ser negado.

Estica, puxa, encolhe e manda

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Andei, andei, andei e, apesar de não estar cansada, sentei. É isso mesmo: obrigada. Afinal, nesse caso, para alcançar meu objetivo, só me resta esperar. E você com isso?
Pode não parecer, mas você tem tudo a ver com minha espera, esse hiato entre atividades 100% produtivas. Explico: como tenho que esperar, sem nada para fazer, faço-o sentada escrevendo e para quem espremo palavras e enxugo vírgulas, pontos e interrogações, correndo para alcançar ideias e laçar conceitos? Para você que acompanha as crônicas do Sem Fim… Que mais sem fim, do que esta espera obrigatória?
O motivo da necessidade do uso irrestrito de uma dose cavalar da minha paciência de Jó é anual: a busca dos resultados dos exames do check up.
Já cheguei a conclusão que isso é mais um teste da bateria de ultras, raios e tomos solicitadas pelos médicos. Mais um menos como a coroa de louros, usadas pelos Césares em seus desfiles triunfais pelas ruas de Roma. “Você é humano, a glória passa e a humildade e paciência devem ser exercitadas de vez em quando”. Só isso justifica a demora na liberação o que já está pronto. Pensando bem, ainda é pouco. Tanto que a senhora do lado reclama da troca de resultas e aconselha uma checagem cuidadosa para ver se está tudo em ordem. Que assim seja: vamos verificar. Eis-me aqui, Lei de Murphy, velha parceira!
Até que não foi mau. A espera não passou de uma página e meia de caderninho. Na mesma medida do chá de banco na Polícia Federal. O caso lá era tirar um passaporte novo.
Parece piada, mas, em vez de aumentar a validade do documento, seu prazo encolheu para 5 anos. Efeito da era Lulla.
Poxa, gente, assim nem dá tempo de desmanchar o pacotinhho de documentos da maratona passada. Março de 2008 não foi ha tanto tempo assim!
Estava tudo juntinho: certidões de casamento uruguaianense, sentença de divórcio cuiabana e averbação no local de origem do evento. Provavelmente intocado desde minha última visita a Polícia Federal sem ser a serviço (digo isso por que como repórter comparecia com frequência nas dependências da referida repartição).
Pois foi lá que o meu périplo burocrático anual atingiu seu ápice. Imaginem que o funcionário disse que minha certidão de casamento, aquele que começou em Uruguaiana, em 1981, se não me engano, e foi desfeito oficialmente em Cuiabá, em 1991, idem, idem, tinha que ser… ATUALIZADA.
Como assim, revalidar algo que já terminou há mais de 20 anos? Sinceramente, achei surreal demais. Segundo ele, minha certidão de ex casamento tem que ser refeita a cada 5 anos!
Ou seja: a cada passaporte novo terei que dar um pulinho a Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina para requentar a ex papelada! Por que não me avisaram isso quando escolhi o marido, lá atrás? Teria prestado mais atenção no lugar em que oficializaria meu matrimônio. Bali, talvez?
É por essas e por outras que estou pensado em me exilar. Minha dúvida está em relação ao país escolhido para me abrigar. O Paraguay sempre foi minha primeira opção, por afinidade e amor a terra. Mas, agora, estou numa dúvida cruel. Tenho gostado muito do Uruguai, com seu presidente liberal, super sincero e com opiniões pertinentes sobre nossa vizinha argentina: “esta velha é pior que o caolho, disse Mujica “O caolho era mais político, essa é teimosa”, acrescentou o presidente uruguaio.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Upa neguinho na estrada!

Chapada-110903-005-Estrada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Está aberta a temporada do checkup, o que faz do querido e indispensável caderninho, onde escrevinho minhas crônicas, o campeão imbatível de audiência literária e cotidiana.
Ele é a melhor companhia enquanto aguardo a vez de ser atendida e evita que eu tente descobrir por que agora a clínica que frequento criou mais um balcão para que os pacientes atinjam o nirvana dos sofisticados aparelhos ultrassonográficos e afins.
Chama-se “pré-atendimento” informa a placa e faz com que percamos mais tempo numa nova, emocionante e inútil fila. Segura, peoa!
Estou quieta. Mas não me deixam em paz. Acabo de ser informada que a Golden Cross não autorizou a realização dos exames solicitados pelo médico.
O motivo? É automático: faz menos de um ano que fiz a última volta olímpica nas clínicas e laboratórios. Eles querem saber por que adiantei em 2 meses meu último checkup.
Pensei em várias respostas, umas mais educadas, outras com alguma picardia… Mas, nenhuma tão boa quanto a da atendente da clínica que resumiu assim minha última pendenga:
- Alguém faz exames médicos por esporte? – pergunta.
O melhor foi a envesgadinha do olhar que acompanhou a observação da moça.
Falou e disse menina! Resumiu perfeitamente a ópera bufa dos clientes de planos de saúde no nosso Brasil varonil…
Ou seja: é ele, o plano, que decide quando você pode precisar usá-lo!
É claro que isso, mediante a módica quantia de quase um salário mínimo de mensalidade.
Alguém pode chamar a polícia pra fazer o seu papel? Botar em cana essas quadrilhas homologadas pelo governo federal?
Enquanto me informo sobre o procedimento, finalmente autorizado, a senhora do guichê ao lado me parabeniza, com os olhos cheios de inveja (boa):
- Parabéns, milha filha, sorte sua. Pelo mesmo motivo tive de adiar meus exames ano passado. Não consegui essa autorização – diz ela, com olhos cansados.
Ah, se fosse comigo! Quer dizer que se tiver que viajar no mês que o plano bondosamente decidiu que estou apta para fazer os exames e magnanimamente se dispõe a autorizá-los, ou, quem sabe, meu médico tenha conseguido um encaixe na sua lotadíssima agenda antes da temporada autorizada, perdi?
Sei não. Talvez seja melhor mandar os planos de saúde catar coquinhos e procurar uma UPA!
Tão lindas, tão vazias e eficientes! Tão cheias de recursos e de médicos e enfermeiras sorridentes nos reclames institucionais (pagos com nosso suado e vilipendiado dinheiro) do governo…
Quem diz e mostra essas ilhas de tranquilidade e bom atendimento é a propaganda oficial, disseminada e massificada nos horários nobres das TVs, rádios, jornais e redes sociais.
Bom, diante dessa última reflexão e suas inúmeras possibilidades, decidi pedir ao meu médico outras autorizações. Acho que preciso de novas avaliações, desta vez, numa especialidade inédita no meu prontuário medico/hospitalar.
Só um psiquiatra para me ajudar a cair na realidade e deixar de aventar hipóteses e possibilidades mirabolantes que existem apenas nos contos da carochinha, nas propagandas enganosas e nos discursos de políticos sem vergonhas!

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Dicas de incentivo à leitura na escola

Por Erika de Souza Bueno

Desafio de muitos professores, a leitura, em muitas escolas, está em “maus lençóis”. Há alunos que, simplesmente, dormem nas aulas. Tudo isso tende a deixar muitos professores desmotivados. Mas, acalmem-se, há meios para vencer esses obstáculos. Uma das dicas começa antes de o livro ser aberto ou até mesmo antes de o aluno pensar que a aula será dedicada à leitura.

Para se ter ideia da dimensão desse assunto, pense num professor de língua portuguesa que, ao entrar na sala de aula, diz aos seus alunos que o adjetivo é a palavra que qualifica o substantivo. Ora, desculpe-me, mas alguém perguntou alguma coisa do tipo? A resposta, nesse caso específico, é não. Não houve nenhum método para despertar interesse, curiosidade ou vontade de querer saber sobre algo.

Esse modelo de aula, ou seja, essa forma de somente chegar à sala e despejar uma série de conteúdos não é mais atrativa. Aqui, então, resumimos a primeira dica para uma aula interessante de leitura: o despertar do interesse, da vontade de conhecer e de saber sobre algum fato.

Nessa mesma linha de raciocínio, não comece a aula de leitura sem verificar o local em que ela deverá acontecer. Pense em métodos para garantir que a sala tenha um ambiente fresco e agradável, de modo a não cansar o aluno leitor no meio de seu percurso.

Considere que tudo em nossa vida é assim, praticamente nada do que fazemos o fazemos sem estímulos. Para você assistir a uma novela ou a um filme do início ao final, por exemplo, muitas técnicas são utilizadas, pois, caso contrário, você troca de canal ou desliga a televisão. No processo de leitura também ocorre isso. O professor precisa entender a linguagem que há por trás dela. Essa linguagem aqui é entendida como os meios que nos tornaram leitores assíduos de conteúdos diversos, isso se assim o formos de fato.

Outra dica para descobrir algumas técnicas para ajudar seus alunos a tomarem gosto pela leitura é você dedicar-se a conhecer os processos que foram capazes de formar outros leitores. Por isso, que tal uma entrevista em bibliotecas públicas de sua cidade para, num bate-papo, descobrir o porquê e como pessoas comuns, de todas as idades, mantêm esse saudável hábito?

Por fim, dê objetivo à leitura de seus alunos, não os aprisione em textos que são bonitos apenas a você. Assim, você terá grandes chances de permitir que cada um deles descubra que, lendo, poderá ter muitas de suas próprias necessidades satisfeitas. Quando chegar a esse ponto, você vai entender que não precisará se preocupar tanto com outros pontos da vida acadêmica e social de seus alunos.

Já bem sabemos que somos seres de necessidades satisfeitas, ou seja, a cada satisfação, outro desejo se mostra a nossa frente.
O aluno leitor saberá muito bem como e onde buscar suas próprias respostas, beneficiando, dessa forma, todas as áreas de sua vida.

Dois filósofos preocupados com Deus (via blog da revista espaço acadêmico)

Por Eloézio Paulo

Dois fragmentos da pequena “grande narrativa” que tem sido a renúncia e substituição de Joseph Ratzinger no papado chamaram a atenção deste desprevenido escriba. O primeiro foi a cena do papa renunciante subindo num helicóptero rumo a seu retiro espiritual; o segundo, sua declaração de que houve momentos de seu reinado pontifício que “o Senhor parecia estar dormindo”. Ambos remetem a uma sensação de incompatibilidade entre a crença religiosa e o mundo contemporâneo. E, antes que venham com seus rótulos os comentadores de artigos sem os ler, fique esclarecido que a própria abordagem do tema aqui, ainda mais partindo da leitura de dois filósofos que defendem a crença na divindade, desautoriza qualquer comentário organizado em torno da palavra “ateu”.

Bento XVI de helicóptero. Ninguém seria besta de fazer o papel do Tentador e perguntar por que “Sua Santidade”, há menos de uma década o sucedâneo dos inquisidores de antanho, não voou por conta própria para Castel Gandolfo. Mas é uma imagem incômoda o dito procurador do Cristo zanzar pelos céus no ventre de uma criatura tão representativa do que existe de mais anticristão, a tecnologia que torna crescentemente dispensável e imponderável qualquer intervenção sobrenatural na vida dos homens. Se o helicóptero caísse, o que diriam as pessoas? Que Deus havia castigado o pontífice boné-pedinte ou que o acidente era uma prova da investidura ilegítima do bispo de Roma como sucessor de Pedro? Ou que besteira outra?

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É Sem Fim…

Ponta 130314 015 bandeira perigo correntezaTexto e foto de Valéria del Cueto

Agora deram pra perguntar o que é. O Sem Fim… é registro de aventuras e suas respectivas produções que podem – e costumam – ser aventuras maiores ainda.
Começou lá atrás, em Cuiabá, 1997, com a criação do “Diário de Bordo” da produção e filmagens do curta “História Sem Fim… do Rio Paraguai – o relatório”.
Era preciso criar um canal de comunicação com quem tinha interesse no projeto e em acompanhar as ações necessárias (e foram tantas) para sua realização. Impresso em papel ofício colorido, o fanzine (era isso?) trazia nas margens superior e inferior os bichinhos do pantanal criados por Josué Moreira e chegava aos leitores pelo correio.
No início umas 30 pessoas faziam parte da listagem. O “Diário de Bordo” feito na impressora lá de casa, chegou a ser enviado a mais de 500 endereços, em várias cidades do país.
O filme veio e a divulgação passou a ser feita via email numa newsletter, já com outro formato, acompanhando a evolução da internet. Foram inúmeras edições. Muitas histórias contadas. Que passaram a ser publicadas em jornais e sites.
Delas, nasceu o Sem Fim…. Um grande container de impressões coletadas por este e outros caminhos. Ele é som, imagem, palavra, a ideia de que qualquer meio é válido, se contiver uma mensagem. É vídeo, áudio, foto, texto, tudo junto e misturado.
O resumo das viagens pelo Brasil é passeio turístico permanente e informativo das quebradas do país, especialmente das fronteiras. É observação e narrativa da vida, da lida cotidiana, política, esporte, economia, ecologia, fala do dia a dia. Explora, descreve, contextualiza e poetiza. Está distribuído nas séries:
“Ponta do Leme”, a leitura carioca da gema do ponto de observação da sua praia, entorno e horizonte.
“Parador Cuyabano” é a base no Cerrado para a convivência com o interior de Mato Grosso e outros caminhos do centro-oeste.
“Fronteira Oeste do Sul” abrange a tríplice fronteira Brasil/Argentina/Uruguai e visita a cultura pampeana pelos laços familiares.
“É carnaval” são crônicas, artigos, reportagens e fotos, muitas fotos, referentes à maior festa popular do planeta, o carnaval carioca e, também, ao carnaval de Uruguaiana/RS.
“Vagabinhas” são os delírios dadaístas fotográficos. Só vendo pra entender.
E, finalizando as “Photo graphias”. Dos meios foi último a chegar, mas é o mais satisfatório artisticamente. O problema é a edição, já que os ensaios são duplos. Além dos artísticos, no mesmo pacote, sempre é feito um estudo imagético com viés antropológico, do objeto e seu ambiente.
Filosófica e sociologicamente o que impulsiona o projeto é uma brincadeira infantil de contação de histórias chamada “História Sem Fim…”, onde um começa a contar, depois o seguinte pega o fio, o outro vai adiante, mais um… e lá se foi.
São esses fios que o Sem Fim… tenta preservar, indexar e quando pode, difundir. Hoje, não mais em folhas ofício amarelas com letras azuis, mas nas redes sociais e outros meios multimídias.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… http://delcueto.wordpress.com

O materialismo do “sapatinho de cristal” e o desencanto da “meia-noite”

Por Erika de Souza Bueno

No tradicional conto “Cinderela”, a jovem afligida pela inveja advinda de suas irmãs e madrasta nos faz pensar sobre o quanto a sociedade, desde tempos remotos, é materialista e sobre o quanto um belo traje pode mudar a percepção de alguma pessoa.

A simplicidade de Cinderela não estava apenas nas roupas velhas que tinha sido obrigada a usar para dar conta de todos os afazeres domésticos que lhes eram impostos em sua casa, principalmente quando seu pai, um rico comerciante, ausentava-se, deixando-a sozinha com sua nova “família”. Não, a simplicidade de alguém não é medida pelo que veste, tampouco pelo que tem ou deixa de ter, dado que o simples de verdade age de modo espontâneo, sem complicações, e não “cria caso” por pouca coisa.

As características da simplicidade são ainda superiores, pois o simples também pode ser entendido como o elegante, discreto e sincero, aspectos que parecem compor o perfil da bela jovem apresentada no conto. Esses traços relacionados ao comportamento da moça a afastam de qualquer crítica, dado que, pelo que a história nos conta, foi o príncipe que, mesmo após momentos fantasiosos de uma noite de dança, só a reconheceu por ser ela a única jovem do reino em que um dos pés cabia no elegante sapatinho de cristal.

Infelizmente, muitos estão agindo hoje em dia de modo muito semelhante ao príncipe apresentado no conto, que parece ter ficado tão enfeitiçado pelo brilho do cristal a ponto de este ter sido o único meio possível para encontrar a humilde jovem por quem se apaixonou após uma linda noite festiva.

Contudo, a “meia-noite” pode chegar à vida de qualquer pessoa em qualquer momento. Quando as luzes da saúde, da beleza e do vigor se apagarem, vamos precisar de príncipes com qualidades muito superiores àquelas do cavalheiro de Cinderela. Em qualquer momento, nossos encantos vão se apagar, e o único brilho que teremos não será o do “sapatinho de cristal”, podendo ser simbolizado aqui como um bom emprego, status social ou elevadas condições financeiras.

Depois da nossa “meia-noite”, o nosso brilho terá que ter sido suficiente para permanecer em nós, de modo que possamos ainda ser identificados por pessoas amigas que queiram, de fato, ficar ao nosso lado, a despeito de possíveis condições desfavoráveis.

Assim como as demais pessoas presentes naquele baile oferecido pelo rei, o príncipe também não foi capaz de reconhecer a linda moça sem os elegantes trajes da noite anterior. Num mundo cada vez mais materialista, muitas circunstâncias podem forçar alguém a “descer do salto” e, não somente por isso, é importante viver de um modo mais condizente com os frutos que desejamos, um dia, colher.

A diferença criativa (via Lucriatividade)

Recorro a um texto do mago Paulo Coelho que, por sua vez, cita o advogado Renato Pacca que também recolheu sua história com a ajuda de um gerente de uma agência bancária em São Paulo. Trata-se da lição “O sapo e a água quente”.

Eis o resumo: “Vários estudos biológicos demonstram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água de sua lagoa fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento de temperatura (mudanças de ambiente) e morre quando a água ferve. Inchado e feliz. Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a água já fervendo, salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porém vivo!”

As reações ao destino do sapo variam. Para muitos é questão de coragem para fugir das zonas mornas de conforto, que nos levariam a uma acomodação fatal.

Outros, como Sun Tzu, em “A Arte da Guerra”, nos aconselhariam a nos inspirar na mesma água que ferve o sapo e seguir seu curso: “A água escolhe o seu percurso de acordo com o terreno que atravessa. O guerreiro procura a vitória de acordo com o inimigo que enfrente. Assim como a água não tem uma forma definida, as tácticas militares também não podem ser rígidas.”

Se nos tornássemos um sapo guerreiro, organizaríamos nossa sobrevivência evitando o conforto e aparente segurança das águas paradas e ao nos inspirar no seu movimento nos ajustaríamos ao terreno e atingiríamos nossos objetivos. Monitorando a relação com o ambiente e agindo para contornar as ameaças.

Ou poderíamos, ainda, combinar a experiência da água que ferveu o sapo com o fluxo das águas e adotar as reflexões sugeridas pelo filósofo e antropólogo Gregory Bateson que nos mostra que a informação só emerge como sendo “a diferença que faz a diferença”.

Portanto, ao sermos alertados por Paulo Coelho dos perigos de nos viciarmos no conforto de uma água parada e morna e comparar as vantagens estratégicas dessa mesma água em movimento, talvez concluíssemos que a busca da informação como “a diferença que faz a diferença” confirmaria nossa criatividade.

Uma criatividade que dispensa abstrações profundas, pois se apóia, como vimos, nas relações entre o sapo e a água. Bastou, apenas, que identificássemos “a diferença que faz a diferença” entre os relacionamentos entre o sapo e a água, para nos elevarmos a um novo estágio de conhecimento.

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Pontos de ônibus: por que é tão difícil garantir qualidade e conforto? (via blog da Raquel Rolnik)

Ponto de ônibus no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.

Nas últimas semanas, começaram a ser instalados na cidade de São Paulo novos modelos de abrigo nos pontos de ônibus. Até o final de 2015, o consórcio vencedor da licitação para a realização da obra deverá trocar 6500 abrigos e 12500 totens. Os novos abrigos têm quatro diferentes modelos e serão instalados de acordo com o perfil de cada região da cidade. A notícia parece boa, mas muitos paulistanos têm reclamado.

A principal reclamação é que os novos pontos estão sendo instalados sem painéis de informação sobre as linhas de ônibus e seus itinerários. Quem anda de ônibus sabe a falta que faz esse tipo de informação. Outra queixa é com relação às coberturas de vidro dos abrigos. Embora o consórcio afirme que são vidros temperados e com proteção UV, a sensação de muita gente é de que os abrigos estão mais quentes e abafados.

Obviamente não é apenas São Paulo que enfrenta problemas com relação aos seus pontos de ônibus. Em geral, na maior parte das cidades brasileiras, os pontos de ônibus são equipamentos precários, sem conforto, sem segurança, enfim, sem nenhuma qualidade. Me parece que isso faz parte de uma cultura histórica em nosso país de associar o transporte coletivo – o ônibus, especialmente – às classes pobres. Se ricos e classe média andam de carro particular, para quê investir em pontos de ônibus?

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A insustentável fraqueza do Euro (via Jusweek! )

No final do século 19, a Europa vivia sob uma moeda única. O emissor dessa moeda, porém, não era o Banco Central Europeu, mas as estrelas. O trabalho das estrelas é basicamente um só: espremer prótons uns contra os outros. As partículas acabam tão apertadas que algumas se fundem. E da união dessas partículas subatômicas nascem novos elementos químicos. Se tiver dois prótons, esse novo elemento é o hélio; com oito, oxigênio; com 26, ferro. Com 79, ouro – a moeda da qual estou falando. O ouro era o euro do século 19.

Bom, todo ouro que existe na Terra foi formado no interior de alguma estrela. E o resto também. Quando a vida de algumas delas chegou ao fim, essas estrelas explodiram, lançando átomos novos pelo espaço. Esse átomos provavelmente passaram alguns bilhões de anos flutuando pelo espaço na forma de nuvens gás e poeira, e acabaram se reunindo neste canto da galáxia, atraídos pelo grande evento gravitacional que foi o nascimento do Sol.
Ao fixar residência nos arredores da estrela que hoje paira sobre as nossas cabeças, esses átomos siderais se reuniram na forma de pedras corpulentas. Hoje você mora em cima de uma delas, a Terra.

Mas existem átomos e átomos. Os de ouro são mais especiais. Quando o Sol explodir, por exemplo, não vai soltar ouro no espaço. Ele é pequeno para padrões estelares – não tem “força” para construir átomos grandes como os de ouro – vai sair no máximo um pouco de ferro de lá, além de precisamente mil trilhões de trilhões de toneladas de hidrogênio, hélio, lítio, sódio, carbono, magnésio e outros ingredientes de planetas. Ouro não. Nenhum grama sequer.
Ouro só sai de estrelas gigantes, pelo menos três vezes maiores que o nosso amigo. E mesmo as estrelas descomunais produzem pouco ouro – elas só começam a espremer átomos com dezenas de prótons durante seus últimos suspiros, pouco antes de explodir de vez. Isso explica em parte o fato de o ouro ser raro.

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O que atravanca são “ozoutro”

Ponta 130314 034 Nilson Marques onda subindoTexto e foto de Valéria del Cueto
A ressaca está braba!Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.
Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá – creio eu – logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.
Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.
O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.
A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu. Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.
Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.
Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.
A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.
O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece – que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária saírem em menos de dois meses?
É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.comPonta 130314 042 onda linda

O rolo rola pelo ralo

Leme 1300302 024 Rib bueiro escada UPP Texto e foto de Valéria del Cueto

Minha rota de fuga já é conhecida. Diante de qualquer abalo me procurem na Ponta, embaixo da pedra do Leme. O entorno guarda resquícios da tempestade que fez da máxima do prefeito Eduardo Paes uma dolorosa e triste realidade. Mais do que nunca, somos um rio. De lama e lixo, ele esqueceu-se de avisar.
Aqui, o mar alto que chegou com a chuvarada faz a feste do povo da água que se arrisca em altas ondas coladas a pedra. Para encurtar a rota e economizar braçadas a rapaziada do bodyboard pula do meio do Caminho dos Pescadores, já na boca da fera! E faz a festa.
Troquei sim o barulho ensurdecedor do rotorooter do Eduardo Paes pelo som delicioso das ondas do mar.
Já reparou? É a segunda vez que cito o nome do indigesto alcaide do Rio de Janeiro nesse texto. A culpa é dele que não me deixa esquecer sua atuação de Penélope Pavorosa, como diz um jornalista amigo, testemunha intermitente da obra mal feita da Dimensional, empreiteira contratada pela Secretaria Municipal de Habitação, do engenheiro Jorge Bittar. Ela, que tentou a façanha de exigir que o esgoto do Chapéu Mangueira e da Babilônica fizesse a curva no pé da Ladeira do Leme e seguisse obediente pela Rua Ribeiro da Costa, descobriu que a ordem não seria seguida assim, de bom grado, de acordo com o excelente projeto planejado e executado pela referida empresa.
Resumindo: a curva entope e a língua negra da praia em frente, continua lá, como uma careta, escarnecendo da incompetência comprovada dos obristas do pedaço.
Assim é que, mesmo que me esforce para esquecer as trapalhadas eduardianas, uma em cada quatro semanas, lá estão os diligentes operários da extraordinária Secretaria de Habitação, vestindo (agora) um incrível macacão amarelo “olha eu aqui” e suas respectivas galochas de borracha, chafurdando na lama contaminada do mega bueiro existente justo embaixo da minha janela.
Não bastasse o cheiro de podridão que me leva a uma associação imediata ao resumo das obras malfeitas e pagas com o dinheiro suado de nossos impostos, também sou obrigada a conviver com a poluição sonora no horário comercial, propiciada pelo motor constante do chupa lama necessário para desobstruir o joelho da tubulação do esgoto da prefeitura. No dos outros é refresco, senhor. Aqui, mal dá pra respirar.
Acontece que o conteúdo elameado, composto de dejetos, detritos e componentes afins içados das entranhas do asfalto ficam ali, no meio da rua, secando ao sol, sendo levado pelo vento marinho para as residências adjacentes. Enfim, nosso querido prefeito traz mensalmente, por uns 5 dias, a poluição, as doenças e a contaminação do esgotamento sanitário até nós, sortudos moradores do entorno. Quem não seria inesquecível com uma atuação exemplar como essa?
Mas, como sou uma pessoa justa, tenho que reconhecer: o sistema de coleta vem se aperfeiçoando a cada nova incursão dos operários ao fantástico mundo das tubulações mal feitas. Além das roupas de borracha (daqui a pouco serão escafandros, por que respirar aquele ar merece mais do que um trocadinho de insalubridade), trocaram o carrinho de mão sem rodas, içado por cordas, que era o subidor da lama por uma sensacional escada para facilitar o sobe e desce do peão. (veja a foto ilustrativa do equipamento de última geração e grande precisão). Arrumar a engenharia e punir o (i)responsável pela empreita mal executada, nem pensar! Afinal, como Penélope enrolará as finanças e desfiará mais um trocadilho dos idiotas de plantão? É por isso que eu… rio!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com