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Não conto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Esperei. Por sete dias…

Nos tempos da natação, nas categorias infanto-juvenil da equipe do Flamengo, quem treinava de manhã no grupinho de três ou quatro tinha uma mania/simpatia. Se você sonhava com uma coisa e quisesse que ela acontecesse tinha que contar antes do café da manhã. Se fosse um pesadelo só podia contar depois para evitar sua concretização.

Era o tipo de brincadeira como encontrar placa de carro em que os números da licença somassem nove e fazer um pedido. Se a gente cruzasse com uma mulher grávida e alguém de chapéu (boné não valia), era certeza que o desejo se tornaria realidade.

O que causava transtorno na simpatia do sonho é que o treino começava às seis da matina e sem chance para se alimentar e enfrentar horas de piscina. O café com pão e companhia eram depois do esforço físico. Não dá para treinar de barriga cheia…

Contar o sonho, se fosse bom, era uma das coisas que atrapalhavam e mereciam reprimendas do técnico que não alcançava o motivo de tanto tititi madrugador. Era mais difícil esperar o fim do treino porque todo mundo saía correndo apressado para começar a rotina diária.

Sempre que tenho um SONHO com maiúsculas me lembro da brincadeira e, sim, procuro seguir à risca a simpatia.

Deixei passar o café da manhã e muitos dias sem contar pra ninguém sobre o silêncio ensurdecedor. Ultrapassei os prazos para nem depois do almoço, ou dos jantares, externar em palavras o hiato absurdo da ausência.

Pulei o evento e passei para o outro lado, imaginando o despertar para a irrealidade dos sonhos interrompidos, dos projetos infindos. Sou parte disso, o que facilita a projeção. E, sim, acredito em passagem, em “firmar” na inconsciência para facilitar a consciência.

Não consigo ir além da estupefação e da revolta, então tentei mentalizar saídas, opções e a muito breve reencarnação para poder continuar de onde parou (dizem que a gente não esquece o que aprende e sempre anda pra frente). Com a mesma fome de justiça, a voz rouca punk rock. Talvez um tiquinho menos explosivo, que é para segurar o coração, mas sempre jogando de maneira franca e aberta. Como foi o convite para fazer a coluna batizada por ele de “Crônicas do Sem Fim…”, na revista Ruído Manifesto.

Mal entrei e ele partiu. Me deixou muda exatamente depois de combinarmos fazer muito barulho. O soco no estômago ainda dói como se fosse verdadeiro.

A falta do fio com a revista se mantém porque não há linha forte o bastante para resistir ao cerol da fatalidade que mandou para o céu a big pipa inquieta e curiosa que vadiava (no bom sentido) em busca de horizontes mais altos e visíveis para novos escritores, poetas, artistas. De Mato Grosso para o mundo. A pipa se foi, mas o fio ficou…

E os dias se passaram, com aquele vácuo barulhento incomodando, impedindo qualquer forma de expressão, qualquer tentativa de reação.

Foi assim até o dia que o mar, devagarzinho, pariu no horizonte a lua cheia de agosto. Redonda que nem bolacha (lembrou alguém?). Fazendo suas gargalhadas se refletirem nas marolas animadas de uma pós ressaca daquelas!

Fiquei em paz com minha revolta, guardada para as muitas ocasiões que, meu amigo sabia e sobre isso conversamos, precisaríamos muito dela.

Ao fio, que une a todos nós do Ruído Manifesto (olha eu bancando aquele…) anuncio que estou aqui, pronta para “voar” na gritaria.

Re-começo com “Não Conto” para, como ele que partiu até ali, (res) suscitar na poesia, na prosa e, no meu caso, nas imagens. Elas, as que  fazem de nós ruidosos manifestos impermanentes da inquietação e, quem sabe, da esperança.

*Pro Rodivaldo.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Pose de gostosa

Texto e foto de Valéria del Cueto

Esse texto também sai da foto que o ilustra. Por si só ela dá seu recado para quem, além de olhar a imagem, consegue ver a mensagem. Não espere que ela seja descrita por aqui. É ponto de partida. Ou de chegada, dependendo da interpretação de cada um.

A minha é que estamos assim, colados na rede, sem saber se vivos, por um fio, ou já secando sem saber.

Nas duas hipóteses, o que resta é a trama. Para o bem ou para o mal, a gosto do freguês.

Mudando a abordagem, temos o ferro, mineral sustentando a planta, vegetal. A rigidez dando suporte à flexibilidade do abraço orgânico enquanto se submeter a teia.

É vida real em que toda regra tem exceção. No caso, ainda no quadro visual do quinto andar, cercado de prédios pelas quatro ruas que o compõe, divisa de Copacabana e Ipanema, onde os muros das muitas garagens e poucas áreas de lazer se tocam formando uma ilusão de rascunho de desenho geométrico a lá Mondrian ainda não colorido (estou  ressignificando quase tudo no quarto mês de isolamento).

Visualizou o solo? Então, agora, levanta o olhar. No tédio insuportável da monotonia, convido você a contar o número de janelas que nos observam. Acima, já sabe: biruta, jardins suspensos, grades, antenas emolduram o céu azul.

A exceção mencionada anteriormente é composta por três elementos. Casas de uma vila com entrada ensanduichada entre dois prédios da Sá Ferreira e, no meio de seus telhados se lançam para o alto uma mangueira e outra árvore majestosa. Seus galhos e ramadas, pelas minhas contas, atingem até o oitavo andar, interferindo na paisagem de lego emoldurada pelas janelas dos apartamentos.

Não sei o efeito dessa informação para os leitores do restante do país, mas garanto que, para quem conhece Cuiabá e outras regiões de norte a sul, esse detalhe tem um significado especial. Com gosto, textura, aroma e lambança de fruta comida com a mão. Não sei você, mas sou adicta. Ter uma mangueira no raio visual sempre será um privilégio e uma forma ludicamente biológica de acompanhar o desenrolar do tempo.

Folhas novas, brotos, botões, florezinhas espevitadas amarelas, calor (chuva da manga em Cuiabá, já ouviu falar? Também tem a do caju…). Ouvir os uivos de agosto, mês do cachorro louco, derrubarem as mais frágeis. Calor, calor, vento e campana para ver os frutos crescerem e amadurarem. Tem que colher e, se possível, esperar ficar perpitola. Nunca chego lá. Gosto de frutas mais pra verde.

Já cheguei na colheita imaginária, mas a verdade é que nunca comi os frutos do pé de manga do quadrado. Pensando bem, acho que não costumo estar no Rio na época. Posso estar comendo manga em Mato Grosso, em Uruguaiana e até em Belém do Pará, a Mangueirosa, como me ensinou Ismaelino Pinto apresentando as maravilhas amazônicas.

Ano passado estava na fronteira do Paraguay com Mato Grosso do Sul. Beirando o Pantanal, flanando por Campo Grande e vendo a explosão dos Ipês Rosa.

Esse ano, a mangueira do quadrado emoldurada por sua amiga gigante é a salvação da pátria verde e amarela. Sua copa alimenta meus olhos, atiçando a imaginação.

Os movimentos dos seus galhos e o balanço das folhas ao vento acariciam, sem me tocar. Ao contrário dos moradores que, ao abrirem suas janelas, são abraçados pelo atrevimento da natureza, abusada.

Para mim, ela, essa mangueira que não é o Chapéu, minha comunidade, como dizia o grande Bola, nem a verde e rosa, só acena a distância fazendo pose de gostosa. E quer saber? Parece pouco, porém está de bom tamanho. Daqui a pouco vem o fruto e recomeça o ciclo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM…  delcueto.wordpress.com

Biruta batuta

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dessa vez começo pela foto que também é vídeo e ilustra essa crônica. É da biruta que habita uma cobertura da Souza Lima, em Copacabana, em meio a exuberantes folhagens ornamentais e ramos de palmeiras do jardim suspenso de algum morador felizardo.

Não tenho jardim suspenso, mas quem sou eu para desdenhar da minha laje no telhado? Ao lado do puxadinho (mais um de muitos) que protege as caixas d´água do prédio e seus canos de ferro do sol e de fios, cabos, antenas e parabólicas, não tenho do que reclamar.

Ou melhor, tenho sim (é a força do hábito) das coberturas de amianto que, criminosamente, com o passar do tempo, substituíram as telhas de barro da cobertura do edifício, pra começar.

Posso dar meu testemunho afetivo porque, antes da pandemia, há décadas atrás, a meninada do condomínio, na qual me incluía, costumava frequentar o telhado. Naquela época, inclusive, dava para viajar aqui por cima e dar a volta pelos tetos até chegar a Souza Lima, um quarteirão depois.

Agora é impossível já que, como diz o ditado “o que os olhos não veem a fiscalização não atinge”. As partes superiores dos arranha-céus de Copacabana viraram emaranhados de objetos inúteis, caso de cabos, e antenas obsoletos, substituídos por equipamentos mais modernos sem o devido descarte dos antigos que vão ficando por ali num emaranhado confuso.

Nem assim estou reclamando, apenas constatando e avaliando o material disponível para os ensaios fotográficos e literários quando se trata de falar da realidade do entorno (com um certo ar de Mad Max pandemia de Covid-19)  sem direito a escapes como a imaginação ou temas visuais que nos transportem para outros mundos, de preferência mais delicados que o nosso.

Por isso a biruta é tão significante no universo real onde habito. Ela, que é um peixe, me dá o rumo e indica o prumo dos ventos. Me conta por que vias eles andam circulando lá no alto.

Quando a meteorologia anuncia ventos e tempestades é para ela que meus olhos se voltam tentando mensurar a intensidade da tormenta por cima do quadrado de prédios que, como guerreiros com sua barreira de escudos, protegem a área formada pelos pátios internos, solitários e egoístas de cada prédio.

O flanar do peixe biruta indica a intensidade e a direção da ventania.

As mais severas são aquelas que o rabo do peixe saracoteia para todos os lados, inflados pela boca que engole e engasga com o vento. Sem direção. Na dúvida entre a eira e a beira, dá umas paradas, como se descansasse de tanta agitação e precisasse respirar. Mas, logo em seguida, recomeça sua dança alucinada, para um lado, para o outro, no meio…

Em volta, as folhagens da cobertura fazem coreografias, contrastando com as rígidas barras brancas da grade que protegem os vasos do chacoalho.  Ás vezes suaves, outras vigorosas, tentam descabeladas acompanhar o peixe biruta guia.

Qualquer semelhança com a nossa biruta Covid-19 não é mera coincidência. É contraste.

O peixe/biruta está seguro, agarrado no mastro da ponta da varanda da cobertura. Já o vírus biruta, vagueia desgovernado, sem eira nem beira, distribuindo suas consequências nefastas e deixando seu rastro de morte por onde passa.

Pobre corona sem noção. De batuta não tem nada, biruta, segue flanando na inconsequência irresponsável que o impele e rasga o pais.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM…  delcueto.wordpress.com

Está pedreira na clareira

Texto e foto de Valéria del Cueto

Lembra da Flotropi, aquela que já foi governada por uma anta, um morcego vampiresco e, agora, está sob os auspícios do mico que pensa ser mito? A que anda fora do foco dos relatos pela dificuldade de explicar a bagunça institucionalizada que anda por aqui. Faz tempo que não há um momento de tranquilidade.

Nem no reino vegetal, nem no mineral. O que dirá no animal… A clareira central e toda a periferia andam um pandemônio. Os MIs estão fazendo uma tremenda agitação.

A bicharada baseada no mais primitivo instinto, o da sobrevivência, se entoca. Enquanto o mico mito, a família miquilenta, os ministros amestrados, incluindo uma penca de gorilas, os seguidores bovinos (coitados) e a miquilicia, insistem que não há motivo de alarme. Ordenando que a vida a caminho da morte premeditada seja retomada nor-mal-men-te.

Como se não bastasse a praga do vírus na floresta tem também a praga da desinformação sendo utilizada de forma maldosa e criminosa, segundo os códigos de sobrevivência na selva, para confundir e amedrontar os animais.

É claro que a maioria das espécies não segue o aboio. Afinal, nem todos os animais têm por instinto andarem no passo do flautista, emprenhados por marchas requentadas. A qualidade musical já derruba a possibilidade. Nem os ratos aguentam. Só surdos.

A pressão é grande e, diante da falta de um comando consciente e preocupado com o coletivo florestal, diversas espécies deixaram o mico esbravejando sozinho e foram cuidar de garantir a sobrevivência (a duras penas, escamas, couros e cascos) do equilíbrio ambiental. A sabedoria da mata ensina a recolher o flap durante as tempestades.

Fazer o que? Quando se conclui que a família é mais importante e que o mundo animal é o que menos importa para quem foi escolhido para cuidar da floresta inteira…

Não, não é tagarelice, papagaiada, nem leva e traz da pombarada. Os incrédulos habitantes da Flotropi foram surpreendidos pela íntegra da reunião do conselho na clareira central. Nela, as piores intenções do gabinete florestal foram expostas sem pudor.

Quem esperava uma ajuda pra tocar seus empreendimentos, caso das formigas e de espécies como as abelhas, por exemplo, já tirou o cavalinho da chuva. Ouviu da hiena financeira que o dindin é só para adimplentes. Na Flotropi castigada. A que amarga os prejuízos de crises e ataques sucessivos.

Foi no encontro dos “notáveis”, dito pelo encarregado da proteção do meio ambiente, que souberam que havia uma boiada passando pelo Diário Oficial da Flotropi. Só falta a cabra chifruda decretar o correntão como instrumento de utilidade pública!

Também teve a fala da araponga beata, a que viu o ser supremo passeando de cipó. Avisava que vai dar um “teje preso” nos líderes da fauna que agirem contra o contágio eminente, acredite!

A araponga abriu MESMO o bico diante da hipótese de transformar a floresta num parque temático. Com direito a jogatina monetizada e vuco-vuco. À possibilidade da criação do parque ela não se alterou. Mas, diante da liberação do jogo, saiu dando bicadas na cabeça do predador do turismo.

Não terminam aí as surpresas desagradáveis do conselho. O javaporco do saber aproveitou a deixa pedindo a prisão da cúpula da Suprema Corte da Floresta e ainda declarou que, para ele, os bichos eram todos iguais! Da terra, do mar e do ar. Oi?

Pensa que os demais conselheiros se abalaram? Nem o mico, nem os gorilas. Ouviram com cara de paisagem as tolices e sandices proferidas no conselho florestal, entre guinchados esbravejantes pedindo proteção para os miquinhos trapalhões peraltas e outras ilações.

Tanto cutucou, incomodou e destratou o corvo da justiça que, para não distribuir bicadas e evitar perder a linha, esse chutou o poleiro e bateu asas, se retirando do encontro. Dias depois, ao cantar como uma cotovia, foi a ave que expôs as entranhas da reunião da maldade.

Claro que o mico e seu conselho macacal ainda estão dando as cartas. Mas, agora, além dos coiotes e hienas com o apoio de cobras e baratas para (des) governar. Aquelas que sobrevivem na face da terra desde os primórdios. Sem essa aliança não teriam mais forças para manter o território.

Por se saberem num mato sem cachorro, em que nem a onça está conseguindo ir beber água em paz, os animais passaram a se organizar por conta própria garantindo, na medida do possível, a sobrevivência das espécies.

70 por cento dos habitantes já entenderam que a Flotropi não pode ficar à mercê de guincharia e macaquices enquanto seu patrimônio ambiental, sua maior riqueza, é dilapidado e depredado.

Mas, e aí? Está pedreira na clareira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Que mundo é esse ?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Querida cronista estou aqui, mais uma vez, para dar notícias do lado de cá. Falo dessa maneira porque não posso dizer que seja um informe do seu mundo. Aquele que, sinto comunicar de supetão, não existe mais!

Para situá-la, lamento dizer que não escrevo do lugar de sempre. Troquei a ponta do Arpoador, agora inacessível, pelo telhado de um prédio próximo.

Não está entendendo nada desse relato, não é? Nem você nem os bilhões de habitantes desse planeta que, egoistamente, todos se acostumaram a chamar de SEU. Concluo diante do que tenho visto que esse sentimento de posse pode ter sido uma das causas das atuais circunstâncias, as que tento relatar. Sei que a narrativa deve estar gerando confusão. Mas a vida é assim, como no futebol, uma caixinha de surpresas. E as últimas têm sido estarrecedoras.

Definitivamente, meus estudos interplanetários de extraterrestres de passagem indicam que por se achar dono do mundo o ser humano, que idiota, pensou que poderia fazer gato e sapato do planeta. Tanto tentou e cutucou a onça com vara curta que o felino se irritou e resolveu reagir a altura.

Eu, que bati nesses costados na minha missão de explorador das galáxias e vi minha nave interplanetária não ter potência para sair da armadilha atmosférica da detonada e maltratada camada de ozônio, eu, amigo confidente e correspondente dessa cronista enclausurada por vontade própria do outro lado do túnel, tenho a triste e frustrante missão de informá-la pela fresta de luar que invade sua cela que nem os alertas dos cientistas, nem meus avisos desesperados surtiram qualquer efeito para impedido o desastre. O mundo acabou!

Seu fim veio de forma invisível e silenciosa. Ao contrário de todas as previsões não houve maremoto nem terremoto. Não foi pelo fogo, pela água ou pela seca.

Foi, simplesmente, pelo alastramento de um vírus mutante capaz de dizimar parte da população. Tirando em poucos dias a capacidade das pessoas respirarem! Começou na China, passou pela Itália e se espalha por todos os continentes.

Sei que você deve estar pensando que este quadro é fruto da minha imaginação, provocado pelo uso experimental desses alucinógenos que, você sabe, andei testando nas minhas andanças… Gostaria que fosse isso. Pelo bem dessa humanidade que, perplexa, hoje se esconde em suas casas, estoca alimentos e se comunica pelas redes sociais esperando um milagre da ciência.

Os governos que não acreditaram na potência e na letalidade da Covid-19 (é assim que essa variante do coronavirus se chama) estão pagando um preço altíssimo e, acredito, ainda serão responsabilizados criminalmente por suas escolhas equivocadas na condução desse “processo”.

Cronista querida, aqui no seu país os governantes no início da pandemia estavam preocupados sabe com o que? Como o mercado! Como se o “Deus” do capitalismo fosse capaz de evitar a quebra de todos os paradigmas sociais e econômicos do mundo inteiro!  Quanta ignorância…

Além disso, para piorar a situação, um louco desequilibrado conduz o Brasil num momento dramático como esse. Ele diz que o evento que paralisou o planeta, impedindo a circulação de pessoas, a aproximação entre os humanos, separando famílias por causa do seu incrível grau de contágio e letalidade, é apenas “uma gripezinha”.

Abraçar? Não pode. Beijar? Nem pensar. Tocar? Transmite o vírus. Os costumes mudaram, os valores também. Mas o delirante mandatário contraria todas as normas e cuidados definidos por quem está no meio da tempestade viral tentando conduzir o barco.

Lá, no resto do mundo, fronteiras foram fechadas. É terminantemente proibido sair às ruas a não ser para comprar comida, remédio ou procurar ajuda médica. Só serviços essenciais funcionam. Sistemas de saúde entram em colapso. Sem mencionar as mortes velozes, os corpos cremados ou enterrados sem velórios, quando não ficam abandonados nas habitações para serem recolhidos.

Enquanto isso aqui, até em rede nacional, se incentiva o povo a não respeitar o isolamento social necessário para refrear o avanço da calamidade em larga escala.

Cronista, sinto informar, mas é tudo verdade! E, com essa forma empírica que adotei de me fazer humano por osmose nessa missão intergaláctica interminável aqui na Terra, descobri um sentimento terrível até agora desconhecido. O medo.

Foi ele que me trouxe a este novo cenário, o telhado. Único lugar em que alcanço a luz do sol e vejo, ao longe, seres humanos em suas enclausuras.

Para terminar, uma esperança. Essa que segue, valente, imune ao vírus. Com a paralisia compulsória, poucos veículos circulando, com o colapso econômico e o recolhimento social, a Mãe Terra se recupera das agressões cotidianamente provocadas pelos humanos. A poluição diminui, o mundo respira e conspira por uma mudança radical de comportamento.

Em resumo, enquanto castiga severamente seus algozes, o planeta agradece a pausa obrigatória e se regenera.

Fico por aqui. Gostaria de estar ao seu lado, dando maiores esclarecimentos sobre os fatos relatados. Mas, para sua própria segurança, prefiro me manter afastado procurando, junto com muitos outros valorosos cientistas, uma forma de ajudar na preparação para o novo mundo que surgirá. Espero que em breve…

Saudações do seu extraterrestre e confidente, Pluct Plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Ô louco…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Eis-me aqui. Viajando no raio da luz da lua que invade sua cela, querida cronista, voluntariamente encarcerada do outro lado do túnel. Trago notícias quase apocalípticas desse mundo que você, sabiamente, abandonou.

Não pense que o fato de seu correspondente ser um extraterrestre equivocado sem gás para abandonar esse planeta doido ainda causa algum espanto nos dias de hoje. Já não sirvo como fantasia delirante para garantir sua vaga de reclusa. Afinal, o que são as aventuras, pensamentos e impressões de Pluct Plact na fila do pão?

Apenas um delírio saudável, ou uma fuga amigável e inocente dessa realidade fantástica que se amplia no início do ano da graça de 2020 aqui na Terra. Nada significo diante dos fatos que sacodem e chacoalham o cotidiano pós-carnavalesco. E alerto: esse, definitivamente, não é o seu mundo.

Aqui, escolas, repartições e afins não funcionam em vários lugares do… planeta! Eventos mundiais são cancelados, com sorte adiados. As viagens são riscos mortais quase palpáveis. Sinais dos tempos de Coronavírus.

Ainda vivíamos a crise dos reservatórios de água no entorno da Baia de Guanabara contaminados. Ela afetava a vida dos habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro, depois da invasão do óleo em milhares de quilômetros das praias do litoral brasileiro, no fim de 2019, início de 2020.

Essa infestação mineral, até hoje sem responsáveis ou culpados, já havia causado um baque na indústria turística brasileira. A salvação da lavoura foi a depreciação da moeda local, o real. Amenizou os efeitos da poluição e, sim, o Rio pululava de turistas quando a água, aquele elemento essencial inodoro e transparente, se transformou num caldo de lama fedorento jorrando pelas torneiras cariocas.

Podia piorar? Claro que sim. E é aí que entra o novo vírus, um produto da China que já se espalhou por todos os continentes, engessando a economia e paralisando as atividades sem que nenhuma ação de contenção se tornasse eficaz contra o tsunami viral.

O que se sabe sobre ele? Tudo e nada. Sua expansão poderia ser narrada em vários filmes, ou melhor, numa série de muitas temporadas do que até um tempo atrás por aqui seria chamado de “ficção científica”.

Teve navio isolado no Japão e em São Francisco, nos EUA. Tem hospitais sendo construídos em tempo recorde na China. Aviões transportando o “maladeto” e isolando regiões inteiras na Itália. E a coisa só cresce. Agora, além de sua mutabilidade impressionante, também se desconfia que o fato de já ter sido infectado não exclui a possibilidade de uma nova contaminação. A nota fora do tom foram duas brasileiras que, fazendo balbúrdia, conseguiram sequenciar o genoma do COVID-19, nome oficial da praga virulenta.

No seu tempo se falava pelos cotovelos lembra, querida? Pois agora se tosse e espirra por ali também. Recomendações médicas. Além de lavar as mãos e entregar para Deus, se Ele tiver tempo de ouvir enquanto tantos pedem seu auxílio. Já tem pastor vendendo bênção para impedir que o Corona se achegue.

Você, que sempre disse para desconfiarmos dos chineses “por que eles são muitos e já podem voar”, estava coberta de razão. No momento, a indústria que “suga” nossos produtos in natura e cospe peças essenciais para nossa pós produção colonial está em colapso e, com ela, vamos todos ladeira abaixo.

Amiga, sabedor da dinâmica dos acontecimentos, reservei um espaço para uma atualização. Aí vai ela: Enquanto as bolsas do mundo sofrem um sacode e usam   do gatilho do circuit breaker, paralisando suas atividades na abertura da semana, o presidente do Brasil pinta uma obra de Romero Brito que retrata sua Michele. Em Miami. Isso depois de ter visto, a tag #BolsonaroCorno pululando nas redes sociais outro dia.

Se o mundo não é para amadores, o Brasil é um caso mais grave. Não é nem para atletas de alta performance e excelente rendimento. Sabe o Ronaldinho Gaúcho? Está preso no Paraguay por uso de documento falso…

Volto na próxima lua cheia, cronista. Fica bem e não tente continuar essa história sem fim. Aguarde os próximos capítulos aqui de fora. Em sua “loucura”, nada que você venha a imaginar será capaz de superar a realidade vigente.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Crônica de um quase carnaval

Texto e foto de Valéria del Cueto

Demorou a hora de falar do carnaval. Foram tantos os percalços nessa temporada que o ano passou enquanto esperávamos no que iam dar.

Teve virada e desvirada de mesa na Liga da Escolas de Samba, a Liesa. Jorge Castanheira, seu presidente, quase foi e voltou. A Imperatriz Leopoldinense, rebaixada em 2019, fez o que podia para ficar no Grupo Especial, mas a manobra foi mal sucedida. Desceu pro Acesso e trouxe para desenvolver seu enredo reprisado “Só dá Lalá”, o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira. Há males que vem pra bem. O realinhamento pode ser uma excelente oportunidade para a escola de Ramos.

Enquanto isso, as escolas aguardavam as decisões das esferas governamentais. Do mato da Prefeitura do Rio de Janeiro, sob o comando de Marcelo Crivella, já se imaginava que pouco ou nada surgiria.

Houve, inclusive, uma tentativa de entregar o Sambódromo para o Estado. O governador Wilson Witzel ficou animado. Mas na véspera da assinatura do convênio, dia 8 de novembro de 2019, a Procuradoria Geral do Município desaconselhou a iniciativa. Alegando que a transferência poderia ser contestada na justiça, já que feita sem a consulta ou o aval do legislativo municipal, cancelaram a cerimônia que aconteceria no Sambódromo.

Atentem para o fato que já era novembro e nada do comprometido no Termo de Ajuste de Conduta. O TAC, firmado entre o MP, a Prefeitura e a Liesa para a realização do desfile de 2019, incluía uma série de obras estruturais na Passarela do Samba. A urgência era maior já que os cuidados com a conservação deixam a desejar desde a última reforma, em 2012.

As obras foram, finalmente, anunciadas dia 13 de novembro. Um mês depois o Ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio e o deputado Flávio Bolsonaro tiravam fotos na Apoteose anunciando os repasses.

Na virada do ano, a prefeitura anunciou a abertura de “50 dias de carnaval” com o Bloco da Favorita, em Copacabana. Pegos de surpresa, agentes públicos de segurança, saúde e limpeza avisaram que não tinham contingente para atender um mega evento em cima do laço. Entre o libera, não libera, a Justiça decidiu que o bloco gigante não poderia se locomover, apenas se apresentar no palco. As cenas lamentáveis do final da festa, com enfrentamento entre polícia e ambulantes e foliões, percorreram o mundo.

A previsão informada na mesma coletiva da Riotur de que o Sambódromo seria entregue no dia 30 de janeiro já era, por si só, uma indicação da falta de planejamento do poder público. Em anos anteriores os ensaios chegaram a começar logo depois do dia Nacional do Samba, 5 de dezembro. Como buscar patrocinadores sem a garantia da entrega do espaço? A Liesa bem que tentou.

Mas podia piorar? Sim. Retardando a entrega da verba para as escolas da Intendente Magalhães (em setembro anunciou que iria triplicar o valor, passando para R$3 milhões). Crivella só efetivou o pagamento dia 13 de fevereiro.

Junto com o atraso das obras do sambódromo houve uma inversão dos gastos com as Escolas de Samba. As dos grupos que desfilam na Sapucaí não receberam subvenção da prefeitura. Essas agremiações vendiam seus ingressos, as da Intendente não. Ruim para o Grupo Especial, com mais viabilidade de patrocínios e venda de transmissão, péssimo para o Acesso com muito menos visibilidade.

Sem ensaios técnicos, com São Paulo dando banho na organização da festa, o final de semana que antecede o carnaval foi esperado com ansiedade pelos sambistas cariocas. O dia do ritual de lavagem da pista e o ensaio da escola campeã, no teste de luz e de som da Sapucaí é de lei. Necessário para “afinar” a estrutura da passarela. Pois acredite, na sexta-feira ainda não havia confirmação da liberação da Sapucaí. A Riotur informou na véspera: “Na madrugada deste sábado, 15 de fevereiro, o Sambódromo foi liberado para a realização do evento de teste de luz e som com a campeã do Carnaval de 2019 e a tradicional lavagem da Marquês de Sapucaí para domingo”. E choveu a cântaros na hora da lavagem.

Em tempo: o prefeito Marcelo Crivella avisou que “por não saber sambar” não comparecerá aos desfiles.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Quase intocável

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Querid‎a cronista voluntária e sabiamente enclausurada do outro lado do túnel. Sem mais delongas eis-me aqui cada vez mais impregnado dos insuperáveis defeitos humanos para dizer (como já fiz antes) que estou em débito moral com você, amiga. Dessa vez confesso sem a menor vergonha na cara que minha ausência foi proposital.

Eu, Pluct Plact, o extraterrestre impedido de sair desse planeta informo, pela fresta de lua que nos une na minúscula janela da sua cela, que me recusei teimosa e peremptoriamente a expô-la aos horrores recorrentes e vigentes aqui do lado de fora.

Não precisei usar nenhum recurso da minha sofisticada (e inoperante no quesito deslocamento) nave interplanetária para concluir que, por maior que fosse o sofrimento da espera vã a que, reconheço, lhe submeti, ele é menor que as palavras ou o olhar de desalento e desesperança que levaria até você. Acho que fui contaminado pelo mal humano do século XXI. A tal depressão.

E olha que, imagine, escrevo diante da visão de um espetacular pôr do sol admirado da praia no meio do caminho entre o Arpoador e Ipanema. Daqueles que enchem os olhos de lágrimas dos que se dispõem a se deixar impregnar por uma beleza natural quase indescritível (olha eu, pretensioso, tentando).

Estou trazendo notícias porque jurei (tem coisa mais humana?) que não deixaria o primeiro mês do ano da graça de 2020 passar sem chegar até você. Para o bem ou para o mal, não consigo carregar minhas reservas de informações por mais tempo. Exauri parte do meu HD de efemérides terrestres. Infelizmente a dos dados negativos.

Não, não estou exagerando nem sendo dramático. Vivemos aqui fora tempos tenebrosos onde o representante governamental da cultura se traveste e ambienta suas aparições com postura, atitudes e frases retiradas do que o mundo produziu de pior, o nazismo. Em que o rock, o rap, o funk e outras manifestações artísticas populares correm risco real e palpável serem enquadrados pela censura!

Aqui a intolerância se sobrepõe e esmaga qualquer movimento ou iniciativa que discorde ou alerte sobre seu avanço. E vale tudo para se impor. A violência e a intimidação viraram a corda dissonante usada para estrangular e tentar sufocar quaisquer tentativas de reações a esse movimento que engolfa e engole o amor, vomitando diariamente sua arrogância e prepotência.

Tento evitar palavras duras para descrever inenarrável, mas reconheço minha incapacidade de amenizar tanto horror. Os humanos não parecem se dar conta de que estão num processo autofágico e irreversível de autodestruição. Jogam bombas, erguem muros, fazem expurgos enquanto desconstroem a humanidade e contaminam seu habitat. Pobre planeta!

Não irei longe para não precisar falar da Austrália que arde em chamas, nem do novo vírus letal que isolou, para iniciar sua missão mortal, uma megalópole chinesa, fechou parte da lendária Muralha da China impedindo, inicialmente, o ir e vir de dezenas de milhões de habitantes da região. No insucesso para conter sua expansão mundo a fora, até a Organização Mundial de Saúde reconheceu a barbeiragem na aplicação dos protocolos mínimos para conter o avanço da doença mortal.

Por aqui, Minas, Espírito Santo e o norte do Rio de Janeiro sofrem com chuvas torrenciais que deixam mortos, desabrigados e um rastro de destruição. O governador fuzileiro do Rio de Janeiro apelou no viva-voz pela ajuda militar ao vice-presidente. Precisam de água potável! Entendeu? Sim, eu disse água potável. Não, não é filme de ficção. Acontece que os reservatórios da CEDAE e os mananciais que abastecem a população fluminense estão contaminados por algas e outras substâncias. Enquanto o governo afirma que está tudo bem e o líquido é consumível, o mau cheiro exala do que jorra pelas torneiras com uma cor de barro quando foge.

Para sua sorte acabou meu espaço para narrar as misérias que nos afligem! Olho para o horizonte onde o sol, majestoso se põe sem medo de não nascer amanhã. Por enquanto. Pela praia vejo correndo, tentando abraçar o horizonte cor de fogo uma menina. Sim, querida. Ainda há esperança.

Ela mora na inocência e na alegria de quem não entende a maldade que soterra o presente e passa saltitante em direção ao mar tranquilo de temperatura cálida. Se junta aquela que persiste, enquanto deixarem. A natureza que, em todo seu esplendor, sobrevive e insiste em permanecer enquanto der, quase intocável…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Afinal, quem nunca?

Texto foto de Valéria del Cueto

Preparei o espírito, montei o kit praia (SQN) e tomei rumo. Não, não é sexta-feira, mas me dei folga. Assim, relativa, já que cá estou. Na escrevinhação.

Desci com tudo (pensava eu) para a rua e subi saltitante a ladeira da Bulhões de Carvalho. Diretão. Sem opção de desvio, até a Francisco Otaviano e cruzei pelo Parque Garota de Ipanema, com destino quase certo. Apostava na Praia do Diabo. Mas nem cheguei lá…

Queria evitar o vício de caminhar, quase marchar, na areia fofa, parte importante do treinamento para enfrentar a pista de desfile das escolas de samba, a Marquês de Sapucaí, no carnaval que se aproxima.

Acontece que andei forçando o joelho no vai e vem do réveillon em Copacabana entre o apartamento, no Posto 6, o palco, no Posto 2 e a festa maravilhosa, na altura do 4. Foram algumas idas e vindas entre os focos do meu prazer na virada para 2020.

O uso de um calçado inadequado acabou “estragando” o joelho esquerdo. Sempre ele.

Então, caminhar na areia não pode fazer parte do cardápio de hoje por precaução e zelo. Entre repouso, massagens e arnica por dentro e por fora, é melhor não facilitar.

A praia não está cem por cento lotada porque o dia começou mal-humorado. Muita gente apostou na previsão do tempo. Menos ele, claro. São 4 horas da tarde de um dia glorioso. Feito pra vagabundear.

Nem estava pensando em escrever, apesar de estar em falta com os fiéis leitores que desde o ano passado, ou a última década como preferem alguns desavisados, não recebem notícias do lado de cá. Confesso que não tinha a menor intenção de exercitar a imaginação.

Ia deixar esse esforço para me dedicar a leitura de Escravidão, de Laurentino Gomes. Fazem dias que o livro me observa na ponta da mesa aguardando, pacientemente, o momento de entrar em cena.

Eu olho pra ele, ele olha pra mim. Mas, entre vídeos para subir para o Youtube e as fotos que precisam ser editadas e indexadas para o acervo carnevalerio.com, não conseguia achar liga para mergulhar na leitura.

Até que outro dia, numa boca da madrugada, depois terminar de postar o material da Bateria da Mangueira, meu xodó de muitos verões e desse também, resolvi dar uma investida na trilogia do jornalista. Se vim para a praia com o livro na bolsa, dá pra deduzir que fui seduzida. Assim, tracei meu destino para a tarde ensolarada e quente.

Como se fosse senhora da minha vida, deusa do meu próprio destino, capaz de administrar coerentemente meus planos, passos e decisões. Doce ilusão. Com esse marzão me chamando escolhi um bom lugar para baixar acampamento. Sem muita gente em volta e a uma distância precavida do movimento da maré que avança subindo areia a dentro.

Coloquei a mão na bolsa de 1001 utilidades e… CADÊ? Tinha livro, caderninho, caneta, máquina fotográfica. Lenço, carteira, fones de ouvido, batom. Tinha de um tudo. Só não tinha… a canga!

Rebobinei a fita para lembrar que usei a dita cuja como proteção de um pé d´água e, como estava molhada, botei na corda para secar na área de serviço.

Sorte sua. Na impossibilidade de me esparramar à leitura na areia quase em Ipanema, me restou, para não perder a viagem, um banco ao sol na calçada do Arpoador. Fazendo o que? Isso mesmo, narrando a crônica da imperfeição administrativa e mencionando, pra finalizar, a necessária capacidade de adaptação imposta pelas circunstâncias. Chato, porém honesto, já que, afinal, quem nunca?

Ao acabar a missão já realinhei a rota. Destino ladeira abaixo, andar acima, quarto fechado, ar condicionado ligado, “Escravidão” na reta.

Mas só depois de apreciar esse belo fim de tarde carioca. Afinal, também sou filha de Deus…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Tinha que ser?

Texto foto de Valéria del Cueto

Saindo mais uma. Da ponta dos dedos ávidos para riscarem o caderninho com a BIC dourada que ainda guarda resquícios de seu sotaque francês.

Foi de lá que ela veio e se pergunta como, com tantos assuntos em pauta, a autora do Sem Fim tem tempo para ficar fazendo a árvore genealógica de uma simples e humilde (dourada, tudo bem) caneta.

Me apresso a explicar que sou fiel aos meus apegos e valorizo quem me acompanha e não me deixa na mão. Cultivo amizades com quem escreve, a  BIC dourada, e com quem recebe e acolhe as palavras, os caderninhos. Desses, diga-se de passagem, falo sempre. Especialmente ao me despedir amorosamente dos que, preenchidos, estão a caminho da estante das memórias.  Narradas nas crônicas que, confesso, já perdi a conta.

Gosto de coisas novas. Mas me apego a cangas, tênis, óculos e biquinis. Alguns objetos com que, por força do uso, adquiro intimidade. Tento honrar meus companheiros de jornada nos dias bons e nos não tão felizes.

Quer saber? Melhor falar deles do que tentar analisar os acontecimentos.

Queria começar a semana sem precisar registar quem, do alto de sua sabedoria e especialização na realidade pedagógica e educacional do Brasil (sim, o país daquela educação que está na lanterna dos indicadores de excelência… do mundo!), promove o fim da TV Escola e chama Paulo Freire de “energúmeno”.

Com essa bola passando rente a rede só resta enterrar, sem direito a bloqueio, levando ao ponto inquestionável. Que exemplo nos dá com os resultados alcançados por sua prole erudita?

Também adoraria deixar passar o papelão da comitiva ambiental oficial na COP 25. Vergonha perde só para o “êxito” da estratégia do ministro que bagunça o coreto, atrapalha a cúpula, pede dinheiro sem dar garantias e sai do encontro sem um centavo furado. Não foi pior porque o país se fez representar por lideranças e instituições historicamente reconhecidas por atuações relevantes no contexto mundial das mudanças climáticas.

De protagonistas do processo passamos a lanterninhas mequetrefes e mentirosos no quesito ambiental enquanto quase batemos as mil praias atingidas pelo óleo que avança rumo ao sul pelo litoral brasileiro. Apresentamos ao mundo a liberação para a plantação de cana e produção de etanol no pantanal na bacia do alto Paraguai e… na Amazônia! Entre outras proezas.

Enquanto isso, representantes de Mato Grosso acompanham a agonia política de um fenômeno eleitoral encurralado por seus comprovados crimes eleitorais.

E tinha que ser, para nos matar de vergonha, mulher!

Demora tanto para que uma representante do sexo frágil consiga despontar no cenário federal político mato-grossense… Quando aparece já faz logo um strike de burradas (para ser boazinha e maternal é que classifico os crimes da juíza aposentada de forma tão amena). Afinal, os sinais eram claros já ao primeiro ato: jogar a responsabilidade de sua inabilidade política nas costas de uma sequência de marqueteiros que passaram por sua meteórica e atribulada ascensão eleitoral.

Tenho sérias restrições a quem não assume e se responsabiliza por seus atos. Sabe aquele tipo de gente que sempre acha que a culpa é dos outros, capaz de encontrar as justificativas mais estapafúrdias para seus erros e defeitos?

Isso depois de arvorar para si um codinome “de saias”. Foi tanto tempo disparando regras e preconceitos e sendo aplaudida pela plateia deslumbrada que faltou o essencial: estudar e cumprir a lei!

Condenada por unanimidade em Mato Grosso, no upgrade para o STF achou que virar sua metralhadora giratória para a corte e pedir carona na capa do Super Homem poderia poupa-la do cadafalso. Não deu. Tomou um vareio incontestável e perdeu o mandato. Depois, para ficar mais feio e fechar com chave de ouro o conjunto patético da obra, o baú foi fechado com um “áudio juramento” com direito a palavras de baixo calão. E por que não?

Quer saber? Tem o que merece quanto a punição criminal no âmbito da justiça eleitoral. Mas ainda falta. E se a justiça existe, será obrigada a ressarcir os cofres públicos do meu, do seu, dos nossos impostos, pela eleição invalidada.

O próximo passo é coloca-la no panteão inglório como única senadora eleita por Mato Grosso caçada por justíssimas causas.

Tinha que ser mulher?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Caminho de Volta

Texto foto e vídeo de Valéria del Cueto

Querida cronista.  A que voluntariamente enclausurada garantiu sua passagem permanente à maior liberdade que um ser humano pode ter: a interior.

Este seu amigo extraterrestre visitante nas noites de lua cheia pela fresta da abertura de sua cela do outro lado do túnel, reconhece a inutilidade do fato e vem mui respeitosamente pedir desculpas por todas as vãs tentativas de insistir em criar uma conexão a este mundo (ir)real.

É daqui, de uma das suas praias, que informo a decisão muito pensada e avaliada de mantê-la alheia aos últimos acontecimentos.

Hoje é um dia lindo, uma segunda-feira de setembro solar. De praia cheia no fim de tarde.

Daquelas que deixam a impressão (pelo efeito fotográfico do contraste explícito na direção do Leblon e do Morro Dois Irmãos) que o mar azul está emoldurado por reflexos rosa/alaranjados nas espumas das ondas e marolas brincalhonas.

Com os movimentos da maré que está subindo se desenham curvas e laguinhos. Imagens efêmeras no vai e vem do mar.  Incessantes e hipnóticas.

Nesse espaço semiaquático se veem os contornos dos corpos de quem passa caminhando na linha do mar ou em direção a um mergulho. Foi um desses banhistas que que informou, gritando para o grupo de amigos da barraca na areia, que a água está gelada.

No mesmo contraluz dá para apreciar crianças brincando nas poças que começam a encher aproveitando enquanto o sol não cai por trás das montanhas.

Ainda estamos em setembro e, como você me ensinou, sabemos que somente em dezembro ele cairá no mar, rasgando as águas com seus raios refletidos na superfície oceânica.

Em algumas rodas improvisadas as bolas sobem, descem e, quando podem, fogem dos pés dos atletas de fim de tarde estimulando os malabarismos corporais dos jogadores de altinho.

Vai durar pouco o espetáculo. Com a subida da maré a faixa de areia ficará estreita e íngreme dificultando a prática de um dos esportes preferidos por aqui.

Não pense que estou fazendo essa narrativa somente para você. Espero que esteja gostando. Faço também para mim, pobre Pluct Plact, o viajante interplanetário. Este ser estranho aprisionado nesse mundo. Sem a força propulsora necessária tomar um rumo espacial ou o privilégio de uma cela libertadora como você, amiga e mentora.

Preciso purificar meu olhar, depurar meus sentimentos. É, tipo limpar o HD da minha recém adquirida inteligência emocional. Ocupar meus slots com singeleza. Reprogramar a rotina com gentileza. Exercer a prática sem contra indicações da bondade inerente.

Coisas raras por aqui onde somos bombardeados por torpezas, vilanias, violência e obscurantismo. Não há mais limites para a barbárie. Apenas alvos, disparos, robôs e intolerância destrutiva. Muita.

Por isso, agora quem precisa de você sou eu. Para dar uma guinada no fio que sustenta a pipa que, hoje reconheço, somos cada um de nós vindos de qualquer lugar da terra ou, no meu caso, de fora dela.

Preciso de mais linha, ou que ela seja bruscamente recolhida no carretel, para que possa olhar e ver com outros olhos, captar as sensações de maneira diferente. Estes olhos que já viram muitos mundos e galáxias estão cansados de tanto desamor concentrados num só planeta.

Estou à procura nessas linhas do caminho de volta para a inocência e à pureza. Elas, as que deveriam manter a esperança de harmonia no universo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Se é pra chorar que seja ela, a viola! João Ormond cai no forró no Festival de Viola de Piacatu

Texto e foto de Valéria del Cueto

O ponteio da viola ressoa pelas montanhas que cercam a sede de um dos mais antigos distritos a leste da Zona da Mata mineira, num persistente resgate das raízes musicais brasileiras.

No cenário composto por um preservado casario do final do século XIX, o 16° Festival da Viola e Gastronomia de Piacatuba enche a bucólica Praça Santa Cruz de animados visitantes.

O projeto, produzido Maria Lúcia Braga e patrocinado pela Energisa e o governo de Minas Gerais, já virou tradição e marca registrada do charmoso distrito de Leopoldina, localizado a 25 quilômetros de Cataguases.

Os shows

As noites frias da última semana de julho foram aquecidas pelas etapas regional, nacional e performances de violeiros consagrados como Geraldo Azevedo, Chico Lobo, o mato-grossense João Ormond e Miltinho Ediberto.

As participações dos talentos locais, representados por Thalylis Carneiro e banda Carmim, de Cataguases, com a participação de Dudu Viana na abertura dessa edição, e Rodrigo d’Sá e os Serafins, de Leopoldina, convidando o gaitista Jefferson Gonçalves no encerramento, cumpriram mais uma proposta do projeto.

O intercâmbio entre diferentes vertentes e estilos musicais foi ancorado pela excelente estrutura de palco e som, quesitos essenciais para a valorização da sonoridade dos instrumentos.

O forró se destacou entre os diversos estilos. E foi por ele que o mato-grossense João Ormond trocou o dedilhado pantaneiro nessa edição. No roteiro, o material do CD “Tem Viola no Forró – 2”, o nono de sua carreira.

Esta foi sua terceira visita ao Festival. Na primeira, trouxe “Quariterê” que homenageia Tereza de Benguela. Em sua segunda participação foi a vez de “Viola Pantaneira”.

Baseado em Jundiaí desde 1999, hoje João transita por espaços diversos passeando por diferentes estilos musicais. “Tem um público que gosta do forró nos eventos de festivais como os de inverno, gastronômico, entre outros”, explica. “O som de viola mais tradicional a plateia acompanha em espaços como Sesc, aniversários de cidades.”

Diante dessas demandas Ormond se dedica a vários projetos. “Violas do Brasil” circula pelo Proac/SP. “Nele mostro a viola do cinturão caipira: São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás. A ênfase é a viola pantaneira, assim como em “Violas Pantaneiras”, o novo trabalho com Paulo Simões que será lançado dia 02 de agosto em Boticatu e dia 04 no Sesc de Piracicaba, em São Paulo. Estão nas plataformas digitais”, avisa lembrando que lá também está disponível o EP “Pote d´Ouro”.

É também em parceria com o sul mato-grossense “Toca Raul by Violas”, explorando o universo da obra Raul Seixas. “Daqui, irei para Bauru. Vamos fazer no Sesc de lá”, contou.

E são é só, sua viola está presente no projeto Pantanais Instrumentais, um especial Instrumental Sesc Brasil que acabou de ser gravado e em breve será apresentado na TV Sesc. Foi a pedido do Sesc SP que realizou “No Forró do Alceu Valença”, uma homenagem a Alceu Valença e ao cd “Forró de todo os cantos”

Nesses dias de mergulho sonoro, (uma das peculiaridades de Piacatuba é o fato de somente uma rede de telefonia celular tem alcance por lá), entre uma música, uma boa prosa e as atividades como oficinas, palestras e exposições, o que dá a liga e garante a sustância é um desfile de boa gastronomia.

Comidinhas e bebidinhas nos cafés e bares introduzem as saborosas refeições dos restaurantes locais. Com os cardápios no folder do evento já é possível traçar o roteiro ideal para explorar as delícias.

É esta conjunção de fatores que faz com que, não apenas o público, mas também, os astros da festa, como João Ormond, não se façam de rogados a cada possibilidade de marcar presença no evento mineiro.

Que venha em breve a quarta visita do ilustre representante da cultura de Mato Grosso e sua viola pantaneira nas noites animadas de Piacatuba. A plateia agradece!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Parador Cuyabano”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Nepotismo natural

Texto e foto de Valéria del Cueto

Hoje somos só nós. Vocês e eu. Caneta, caderninho e a que aqui escreve. Três por uma, a crônica.

Numa ponta, pra variar. Na sexta a tarde, pra firmar. Sem fantasia.

A caminho subi a rua do Posto 6 em direção ao Arpoador já pensando no conteúdo da prosa. Não é igual a ir à praia na Ponta do Leme, minha pedra original. Lá conhecia todo mundo e alcançar o paraíso era uma travessia amorosa.

Porteiros, gari, guardador/lavador de carro, o Coutinho banco/boteco, salvador nas horas perdidas, Marquinhos da papelaria.

Uma fiscalizada nas frutas no seo Avelino, com direito a exame de qualidade da partida mais recente das melhores (e sempre desejadas) mariolas, meu vício. Aquela passada pela banca de jornal do Santo pra conferir as capas dos jornais e o suco de banana com abacaxi com pão na chapa e polenguinho, do Romário ou do Malaquias, na padaria Duque de Caxias.

Essa social sempre fazia que só pensasse na crônica quando acabava de acampar na areia antes de me concentrar nos meus esportes favoritos: o surf nas ondas do canto da pedra e a pelada da garotada na beira do mar. Com traves do gol de coco ou havaianas.

Aqui no Posto 6 a levada é diferente. Mais papo reto. Não dá pra comparar a intimidade e os afetos de uma vida com essa paisagem. Lá era pulo. Aqui é ladeira. Acima. Pra chegar em Ipanema desfilo de ponta a ponta da Bulhões, cruzando do pé do Morro do Pavão até a Pedra do Arpoador.

Claro que já rolam obas e olás. Mas aquela animação não vira por essas bandas. A exceção (como não poderia deixar de ser) é com um velho amigo dos tempos de adolescente. Porteiro do prédio quando morei aqui, hoje bate ponto num edifício vizinho. Com ele a prosa rende. “Hoje está uma tranquilidade no entorno”, informa. “O vice-presidente Mourão está no pedaço com tudo que tem direito.”

Foi pensando neles, os direitos, que num silêncio pensativo subi o restante da ladeira. Nos direitos do general que virou vice e do porteiro que está perdendo os seus nas canetadas ensandecidas dos poderes constituídos de Brasília nessa reforma que, bradam, será para beneficiar os mais pobres.

Todos empurrados à escravidão contemporânea, a que não depende de raça e de cor. Grilhões financeiros e econômicos em que só falta já nascermos no negativo.

Claro que isso é uma projeção catastrófica, dirão aqueles que, com chicotes nas mãos, ainda encontram um jeito de aplaudirem o trabalho infantil.  Em breve seremos embalados pelos sons dos estalos dos rebenques no lombo do gado obediente.

Mas não foi para falar disso que cheguei até aqui. A vida do porteiro amigo ainda é das melhores. Tem emprego, é bom no que faz, ajuda os amigos e, sempre que pode, chuta o balde e vai pescar na praia.

Fui interrompida no riscado por Vilmar, o irmão do mar.  Perguntou o que eu estava escrevendo depois de me pedir um troco pra comprar um marmitex. Vilmar está recolhendo latinhas na praia. É desempregado, tem fome e um sorriso enorme.

Está pior, bem pior que o porteiro pescador. Mas se acha um privilegiado. Me explicou que só ele na família de vários irmãos tem o mar no nome, por isso se sente “irmão dessa lindeza”. Irmão do mar, Vilmar só almeja (me contou) outro mar. O marmitex de sexta.

Na volta pra casa há um burburinho no final da descida da rua. O vice com seu aparato policial, comitiva, coisa e tal, mais um soldo de R$ 19.000,00 acaba de chegar em seu lar!

Que não se compara ao do esfomeado Vilmar. Que pode não ter nada! Mas é irmão. E disso abusa, do mar…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM…  delcueto.wordpress.com

Matrizes, show da Mangueira no barracão da Cidade do Samba

Matrizes é o espetáculo concebido por Leandro Vieira e montado no barracão da Estação Primeira da Mangueira na Cidade do Samba.
A estréia do show dirigido pelo carnavalesco duas vezes campeão na verde e rosa foi na quinta-feira, 04 de julho.

Clique AQUI  para acessar o álbum Matrizes no barracão da Mangueira do Flickr.

A cantora Alcione, a primeira convidada da temporada. O elenco é composto por 35 artistas, entre músicos, passistas, baianas e dançarinos. A bateria da Mangueira também participa, é claro. Na próxima quinta-feira o apresentação será de Nelson Sargento, presidente de honra da escola.

Relembrando as vertentes originais do samba carioca como o jongo, caxambu e o choro, o roteiro passeia por clássicos do samba e explora obras de compositores mangueirenses. As apresentações acontecerão às quintas dos meses de julho e agosto de 2019. Informações no site da Mangueira.

Abaixo, em vídeo, um pouco da pegada da bateria verde e rosa no espetáculo. Sobe o som…

Ensaio fotográfico e registros no canal del Cueto, no youtube de ©2019 Valéria del Cueto, all rights reserved
@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto para CarnevaleRio.com

(Ainda) na luz

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vendo a vida da Ponta do Arpoador é que me inspiro para mais uma conexão com você, cara cronista enclausurada.

Tudo é prata nesse mar de ressaca dominical que, diz a moça do tempo que quase sempre erra, mas dessa vez acertou, se estende por grande parte do litoral sul e sudeste do Brasil.

Tem chovido muito por aqui e mesmo com o céu cheio de nuvens, o que explica a prata predominante na palheta de cores que anunciei acima, muita gente aproveitou para lagartear ao sol que recorta e é fonte de luz para rebater as más energias e ampliar as positivas.

Tá todo mundo precisando e deveria haver mais esforço na busca de harmonia.

Mas, cá pra nós, amiga voluntariamente encarcerada do outro lado do túnel, o que tenho encontrado por aqui é justamente o oposto.

Os sensores de meu sofisticado equipamento interestelar energético estão em níveis críticos. Indicam que o desastre é eminente.

Não vou dizer que a situação é irreversível porque aprendi que nessa parte do globo terrestre a gente sempre tem que avaliar e considerar a hipótese da não hipótese. As chances da exceção a regra são geométricas, tomara!

Olhando esse mar maravilhoso em que os surfistas riscam as ondas como se rabiscassem uma coreografia celestial no contra luz do sol que começa a cair não dá para acreditar nos nefastos acontecimentos. São eles que geram os prognósticos negativos.

Nem vou entrar em detalhes que de tão cabulosos e agressivos estão levando a população à beira de um ataque de nervos coletivo.

Além da perda de direitos e das esperanças o que se vê é o prenúncio de uma guerra anunciada. Em que um dos lados dá sinais de que nem as regras básicas do jogo serão cumpridas. A intenção claramente é a de demolir as instituições. As palavras de ordem são invasão e agressão.

Tá danado, amiga. E todos os recursos, inclusive os motores e robôs das redes sociais, estão na arena.

Talvez você não saiba do que estou falando ou talvez já imaginasse em suas projeções, as que abriram seu caminho para a clausura voluntária.

São novidades perversas, instrumentos de disseminação do medo, do ódio e da confusão. Entraram em voga depois do seu exílio, querida, derrubando a credibilidade e provocando a multiplicação da desorientação generalizada. É um bate cabeça interminável.

Não, (agora reconheço seu alerta, amiga) esse mundo não é para amadores.

E, sinto muito dizer, nem para as abelhas, polinizadoras da vida, que morrem aos borbotões indicando (também) que tem alguma coisa errada na ordem natural das coisas.

Paralelamente, uma das “ilhas de prosperidade” da combalida economia brasileira nos primeiros meses de 2019 foi, justamente, as vendas de defensivos agrícolas que subiram mais de 27%!

Enquanto o mundo se preocupa o governo brasileiro abre a porteira da agressão ao meio ambiente agindo de forma criminosa e inconsequente na contramão dos alertas ambientais mundiais.

Não preciso dizer o que isso significa nos meus planos de partir desse para mundos melhores.  A força propulsora dos motores da minha nave cada vez tem menos chances de me irar dessa roubada.

Para finalizar, e poetar, porque ninguém é de ferro, nos restam a fresta (da janela) e a lua (tão nua). Ligações amorosas que nos unem (ainda) na luz.

Do seu Pluct, Plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Como outra qualquer, Flotropi


Texto e foto de Valéria del Cueto

A bicharada não está acreditando na performance do novo boss do mundo animal da Flotropi.

É por que se a fauna botou no governo um mito que pensa que seu mandato se expande por outras gerações de sua estirpe, a flora e os representantes do mundo mineral já mandaram avisar que não têm diálogo com quem já disse que quer “explorar” a natureza. Que a bicharada se responsabilize por suas escolhas, mas não venham dar pitaco no quintal alheio.

E não foi sem tempo: o mito já decretou o arrasa quarteirão dos recursos naturais. Tudo a troco de uns caraminguás.

Verdade seja dita, muito foram contra a ascensão da prole unida, mas não souberam se fazer ouvir. Outros, lavaram as mãos, asas, patas e guelras. Deu no que está dado.

Um desastre em proporções quase que bíblicas. O advento de mais um sacode florestal. Essa bicharada, cá entre nós, não acerta uma.

A coisa anda séria lá pros lados da clareira. Tem pena, couro, escama e pele sobrando pra todo lado. Nas redes sociais os papagaios, caturrita e afins estão a ponto de cair dos galhos, de tão cansados do leva e traz.

O causo é que um dos mitos filho assumiu o papel e o (des)controle das comunicações reais trazendo insegurança, desavenças e ampliando o destempero que que acaba provocando o desemprego para os antigos responsáveis pelo setor e a certeza que agora não é tudo nem nada, restou apenas uma grande confusão.

O que, obviamente, levou ao maior índice de inconfiabilidade já registrado na comunidade da floresta. Quando abriram as cortinas do universo, nem a lua conseguiu cantar em verso sua história astral.

Não há espaço para premonições, profecias nem poesia. Tudo é credo, cruz e muitas vezes sobra até pra ela, a Ave Maria. Imagina o que passa na cabeça de todos os santos?

Resumindo, não há mais alegria.

É tempo de medo, delação e preconceito no reino animal. Tipo cobra comendo cobra.

É um tal de chamar urubu de meu louro, num período em que o me engana que eu gosto está valendo ouro.

Não é necessário dizer que esse espirito de porco generalizado que se espalha tão estridente e insuportável como o canto da araponga ultrapassou as fronteiras anunciando medidas radicais e inconsequentes do governante de plantão.

No seu entorno, diga-se de passagem, só a fina flor. As gralhas gritam, as hienas, entre risadas, afagam, dando o bote. As raposas seguem rodeando e fazendo de conta que quem manda é o rei, enquanto desmantelam a estrutura florestal.

Não está sobrando ninho sobre os galhos, toca nas árvores, no mato ou sobre a terra. Mas tem animal achando bom.

Ou melhor. Tinha. Para gáudio e satisfação dos caçadores, apesar de proibido nas leis do reino, o mandatário mor liberou as armas, criando um desequilíbrio de forças entre as espécies. Não satisfeito, reduziu as verbas para a educação florestal.

Para finalizar, enquanto seu guru cospe impropérios contra os militares do exército real, o chefão avisa que mandará para a instância superior judiciário florestal seu dobermann da segurança e contenção que anda um pouco chateado com a falta de atenção com seus planos contra a corrupção (ora pois) e segurança.

Isso tudo em uma semana como qualquer outra aqui na pacata Flotropi…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com