Arquivo da categoria: Divagações

O amor de verdade (via Ossos do Ofídio)

Não é o amor o que une as pessoas. Sentimento abstrato este. Ave nossa! Não. Não é o coração que bate o olho e que escolhe.

Vejo esta foto, de meus pais. Cada um em sua juventude. Aqui, numa mesma pose à minha cabeceira. Duas vidas que se irmanaram.

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Vontades impublicáveis (via Mulherão)

Por Eduardo Soares

Hoje fiquei com sua imagem na cabeça/Certeza de saudade convicta latejante/Deu vontade de ser seu aconchego/Ver seu sorriso tímido/De acariciar sua pele. Meu abraço pede o seu/Minha fome pede sua carne/Cai a noite e com ela/Abrimos nosso vinho favorito/Abrimos nossos pensamentos perdidos/Escondidos entre ansiedades e saudades. Quando digo: quero beijar sua nuca/A resposta vem: preciso de você todo/Espalho o vinho pelo seu corpo …Leia Tudo via Mulherão

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Programa Modernizando a Gestão Pública (PMGP) chega a Rondônia

Rondônia começa nesta terça-feira (26) a modernização dos processos na administração estadual. Em parceria com o Movimento Brasil Competitivo (MBC), o governo rondoniense assina o Protocolo de Intenções do Programa Modernizando a Gestão Pública (PMGP) . A partir da adoção de métodos mais modernos de gestão, o estado espera promover novos arranjos nas áreas de arrecadação de Receita e Despesas, Educação e Segurança Pública. Com estes mecanismos, que devem ajudar na identificação de gargalos da máquina pública, a iniciativa espera alcançar mais eficiência dos gastos públicos. Além da economia aos cofres estaduais, o Programa espera melhorar a arrecadação do estado sem aumento de impostos. Com a parceria, o governo rondoniense espera tornar mais eficazes os processos também na Secretaria de Educação. Entre os objetivos está o de alavancar a aprendizagem de alunos da rede estadual e melhorar o desempenho de Rondônia no cenário nacional . As ferramentas ainda devem propor mudanças na Secretaria Estadual de Segurança Pública, Defesa e Cidadania. Entre os indicadores que serão monitorados estão número de homicídios, latrocínios, roubos de veículos, roubo a residência e também roubo de rua.

Já executado nos poderes executivos de 11 estados, oito municípios, além de um Ministério e dois órgãos do poder judiciário, o PMGP propõe a melhoria da gestão nas instituições públicas a partir do aumento da capacidade de investimento e da obtenção de ganhos de competitividade e eficiência. A iniciativa agrega métodos de gestão, técnicas de gerenciamento de receitas e despesas e a reestruturação de processos e órgãos para promover mudanças na administração pública, com apoio da iniciativa privada.

Desde que foi idealizado, o Programa alcançou a marca dos R$ 14,2 milhões em aumento de receitas e otimização de despesas nas cidades e estados onde foi executado. Com o investimento de R$ 78,7 milhões de recursos privados, o resultado, comparativamente, aponta que para cada R$ 1 investido, o retorno global foi de R$ 181.

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Padre Ton homenageia Eduardo Valverde reapresentando seus projetos na Câmara

O deputado federal Padre Ton reapresentou na Câmara dos Deputados cinco projetos de lei de autoria do ex-deputado federal Eduardo Valverde, falecido há dois meses atrás num acidente automobilístico.

Padre Ton disse que atendia a um pedido do companheiro de partido, que já tinha concluído o mandato e não chegou a ver nenhum desses projetos aprovados. Os projetos tratam sobre o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço , Consolidação das Leis do Trabalho – CLT e maior rigor para punir desrespeito às normas trabalhistas, na cidade e no campo.

-“Ocorre que o fenômeno da terceirização avançou sobre os institutos jurídicos trabalhistas consolidados, motivando o surgimento de institutos paralelos, como a locação de mão de obra revestida de contratos de prestação de serviço”, disse o deputado. Ele lembra que tem muita ocorrência na zona rural o conhecido “gato”, fonte permanente de desrespeito às normas trabalhistas e encobridor das obrigações dos verdadeiros beneficiários do trabalho alheio.

Um outro projeto de Valverde , que altera a lei nº 9613, de 3 de março de 1998, que dispõe sobre os crimes de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores também foi reapresentado.  “Valverde tinha uma ativa participação no debate sobre o combate ao trabalho escravo, e esta proposição é mais um esforço nessa direção, uma contribuição importante”, disse o deputado Padre Ton.

Zé, apreciador de canto e viola

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Faleceu Zé simplesmente, ou simplesmente faleceu Zé.
Com duas letras apenas Deus pôs nome ao mais simples dos mortais.
Morreu menos que ninguém, pois ninguém é menos que Zé.
Morreu Zé, e ainda por cima Pirento – Zé Pirento.
Um substantivo e um adjetivo perfaziam todo seu ser no mundo.
Um Zé brasileiro nato, daqueles que têm de tudo um pouco;
um pouco de dinheiro no bolso, um pouco de amigos, um pouco de comida no prato,
um pouco de alegria, um pouco de tristeza, um pouco de amor, um pouco de leveza, um pouco de esperteza, um time pra torcer e um pouco de esperança que ele seja o próximo campeão brasileiro.
Como veio, se foi: Zé, Zé filho do Lessa. Que Lessa? Do Lessa da prefeitura.
Dessa não!, de antigamente, pai do Ronaldo, irmão da Cidalgina,
irmã do Zé, que morou em Campo Grande , onde conhecemos o Zé Pirento,
o Zé conselheiro, o Zé companheiro, o Zé amigo, o Zé da farra, o Zé segura-barra, o Zé agitador cultural, o Zé cicerone, o Zé fiscal da prefeitura, o Zé da vida dura, o Zé da pinga, o Zé da viola, o Zé do consolo de quem chora, o Zé da vila, o Zé da lida, o Zé da vida, o Zé do relento, o Zé da pira, o Zé da fila, o Zé Pirento.
Era apenas Zé, mas era muitos, hein!!
Era apenas Zé, mas era nosso.
Apenas Zé, e era tantos. Quantos??? Não sei, só sei que era tantos quantas foram as vezes que precisamos dele. Tantos quanto os muitos para quem ele simplesmente estendeu sua mão amiga e despretenciosa; tantos quanto os muitos Zés com que convivemos em terras distantes.
Na simplicidade de ser apenas Zé habitava o mistério da sua multiplicidade e a grandeza de ser uno sendo vários, de ser único sendo todos os zés do mundo num só coração dadivoso e solidário.
Para nos ensinar que a vida é só um sonho, Zé morreu dormindo.
Indo em silêncio nos poupou do constrangimento da despedida.
Viveu intensamente a vida para nos mostrar o quanto ela vale.
Foi solidário o quanto pôde para nos ensinar que é sempre possível sermos melhores do que somos.
Partiu tão-somente Zé para nos dizer que a morte não passa de um monossílabo átono e que ele, em tendo por nome um monossílabo tônico, a ela se apresentou assim apenas para morrer com um mínimo de dignidade prosódica – o máximo de soberba a que se permitiu em vida.
Adeus, Zé!

Por mim e pelo Mano Velho, Miguel Amaral, que madrugadas inteiras e incontáveis colocou seu coração, sua voz e seu talento à disposição do diapasão existencial do Zé Lessa, sensível apreciador de canto e viola.

Antônio Cândido lança Diaruí, um romance sobre o povo karipuna

Por Luciana Oliveira

O autor nos leva as corredeiras e cachoeiras do rio Madeira, no trecho que vai de Santo Antônio até Guajará-Mirim, fronteira com a Bolívia, para nos contar a história de Diaruí.Discorre sobre o povo Karipuna que por causa das brigas entre as tribos, no início do Século XIX, saiu da bacia do rio Tapajós em direção ao Oeste para habitar a bacia do rio Jaci Paraná, e nos leva ao contato desse povo com o homem branco no final do Século XIX, que fizera com que esses índios se deslocassem, no início do século seguinte, para as cabeceiras do rio Mutum Paraná.Desses contatos o mais importante foi quando da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré que trouxe no seu rastro, de maneira definitiva, a acelerada exploração dos seringais e a decadência desse povo, uma vez que o trajeto da construção atravessava, principalmente, os domínios das tribos Karipuna.
Foi nesse cenário que aconteceu a história de Diaruí, encontrado pelos engenheiros da construção da ferrovia, com a perna necrosada, abandonado no “caminho do progresso”.O narrador envereda por esse choque de culturas, crenças e mitos, chegando à dúvida do conflito  psicológico de determinados personagens que chegam, às vezes, em não saberem mais no quê acredita.Amor e ódio aparecem em determinados momentos com redobrado vigor e a vingança é o ingrediente que dá vida a essa narrativa, onde a sede de riqueza faz as pessoas passarem, sem escrúpulos, sobre o sofrimento dos oprimidos cujos gritos de socorro são abafados pela pujança da floresta amazônica.

O mundo está mesmo muito estranho

Por Marli Gonçalves

“Meu, o mundo tá muito estranho”. Duvido que você não tenha ouvido essa frase nesta semana de horror. Que não tenha concordado com ela. Duvido que também não tenha medo, e não se sinta como uma barata tonta, sendo pisada, caçada por algo maior, desconhecido, imensurável, complexo, chamado Futuro, sobrenome Natureza, e apelidado Destino

Maremoto, que dá tsunami, terremotos e o risco de um desastre nuclear sem precedentes em uma das maiores e mais desenvolvidas nações do mundo, o Japão. Era mais do que a gota d’água que faltava para a gente ficar paranóico de vez. Não precisa nem esperar 2012 quando uns malucos de pirâmides douradas juram que sabem que o mundo vai acabar. É todo dia. Toda hora. Cada notícia mais louca que outra, mais constante, mais punk, mais esquisita. Isso além daquelas que são i-na-cre-di-tá-ve-is, tanto, mas tanto, que chegam a ser folclóricas.

Nós, aqui, ainda temos de aguentar umas catracas que nos governam fazendo catraquices, como por exemplo, nossa representante na ONU se abstendo de votar sanção contra a Líbia do Kaddaffi (gosto assim, dois ds, dois fs). Não parece mesmo o fim do mundo uma decisão como essa tomada justamente quando os kaddaffinhos afirmam, o povo como refém, que haverá banho de sangue civil correndo por ali? Kaddaffi e os kaddaffinhos me lembram dos mafagafos e mafagafinhos, bem monstrinhos. Nossa política internacional? Esta nem me lembra nada de tão chutada que é.

Justamente nesta semana, completando o quadro, o homem mais poderoso do mundo, o presidente americano, o primeiro presidente negro, Barack Obama, vem para cá, para encontrar com a primeira presidente mulher do país, Dilma, e no meio de todos esses acontecimentos internacionais. Mais? Esperavam dele um discurso histórico; primeiro seria lá na Cinelândia, mas o barato foi cortado. Digamos que julgaram que seria mais seguro Obama aparecer em sala fechada e bonitinha, como o Teatro Municipal, todo mundo sentadinho e bem revistado. Por causa de Obama, até Cristo foi revisado, revistado por tropas de elite. Pede para sair! Ainda querem levá-lo para passear e ver um pouco de pobres e miséria, em uma favela, ou alguma outra “pracinha” de uma pacificada cidade do Rio de Janeiro, o Rio. Agora, dizem que pretende tomar um banho de mar. Descarrego no Rio de Janeiro? O Rio de março.

Nessas águas e nas passadas. Neste ano, nem precisamos por os peitos na janela. Bastou ligar a televisão e por ali passou tudo: a banda e as casas e as pessoas, árvores e os animais, todos carregados, levados na enchente da serra fluminense. Vimos carros empilhados, mortes e desespero também nas enchentes do Sul e resto do Sudeste. São Paulo boiou.

E fez calor. Muito calor, um calor opressivo. Não era só o calor do verão, o tão esperado. Era um forno maldito, sufocante, incapacitante. Choveu, choveu, choveu. Tudo bem. Mas e os raios? Muitos raios, relâmpagos, descargas – como nunca antes – crisparam, cindiram, rasgaram os céus de forma apavorante.

Lá fora um frio cortante, neve para mais de metros. E gritos, muitos gritos de liberdade, vindos do Oriente Médio, de cada pedacinho. Um diferente do outro, mas todos parecidos, pesados, violentos, religiosos, remotos. Enfáticos, assim como as palavras que preciso usar. Vozes que se levantaram mesmo que vindas de debaixo das burcas pesadas, só os olhos de fora, túnicas e crenças míticas, sacrifícios em acampamentos. O pavio queimando, como o das velas de aniversário que apagam e acendem, a qualquer fagulha.

E veio a água e o tremor. Ou o temor, como aprendi no sábio I-Ching – “Há de se saber diferenciar o tremor do temor”, li certa vez e jamais esqueci. Como no oráculo chinês, só se vê como previsão água sobre terra, vento sobre terra, lago sobre céu, céu sobre terra, fogo sobre montanha.

Nós? Corremos como baratas quando fogem de nossos pés e vassouras, dos bicos finos de nossos sapatos. Dos sprays que lhes empunhamos como canhões e jatos de efeitonapalm. Queremos matá-las. Extermínio seria uma palavra adequada. (Me perdoem os budistas)

Sempre fui, mas realmente ando mesmo ainda muito mais impressionada com as baratas. Para me apavorar, fazer o tradicional terrorismo “brother”, meu irmão me contou que viu num documentário como elas são capazes de se comprimir, ficarem chatinhas e como, assim, conseguem e conseguirão escapar – ele descreveu, sádico, citando cada imagem, imitando a barata ficando chatinha. Fazendo cara de barata achatadinha.

Dizem que são os únicos bichos que sobreviveriam a uma hecatombe nuclear. Eu ouvi. Agora fico sabendo de operações de resfriamento de usinas radioativas com ácido bórico, o que eu achava que matava as baratas, e vejo aqueles helicópteros sofisticados carregando “baldinhos”, como parecem de longe aquelas toneladas de água e as moscas voadoras enormes, para lá e para cá, trazendo também a água do mar, e com o ácido. O ácido bórico. Quantas visões aterrorizantes!

Esse mundo anda mesmo muito estranho.

São Paulo, distante 396 km de Angra dos Reis, e a nove meses de 2012

O bom cabrito que não berrava e o iceberg de titânio

Por Ernande Segismundo

Conheci Ely Bezerra Sales ainda garoto e sua família do bairro do Areal. Participou de um movimento juvenil católico salesiano denominado ‘Amigos de Domingos Sávio’, do qual eu era monitor no Colégio Dom Bosco em fins da década de setenta passada. Seus pais, católicos militantes fervorosos foram seus guias espirituais e exemplos de decência e caráter. Passado algum tempo participamos juntos de grupos de jovens da Igreja e depois perdi contado com ele.
Ao retornar formado da Faculdade em Goiânia em 1990 reencontrei Ely Bezerra no movimento sindical, nas movimentações da CUT e, finalmente, nas fileiras do PT, onde partilhamos lutas e sonhos.
No PT Ely sempre foi um militante altivo e valente, daqueles que não media esforço para nada e não era de enjeitar missões, sempre animado, brincalhão e disposto a dar alguns passos em qualquer salão que tocasse um bom brega, mesmo que fosse em qualquer boteco da beira da 421 ou 429 nos intervalos das jornadas enlameadas ou empoeiradas que fazíamos achando graça.
Nas eleições de 2010 Ely Bezerra participou da direção política e operacional da campanha do nosso companheiro, amigo e irmão Eduardo Valverde ao Governo do Estado e diante da desavergonhada sabotagem do fogo amigo e dos iterativos e desbragados golpes desferidos pelo mesmo fogo amigo contra a campanha de Valverde, Ely Bezerra ficava aturdido e se queixava com Eduardo, exigindo algo como chutar o pau da barraca ante tanta sacanagem. Valverde, do alto da sua peculiar e inabalável serenidade, já plenamente consciente de que aquela jornada não teria volta e deveria seguir silenciosamente para o sacrifício, sempre dizia: ‘o bom cabrito é aquele que não berra’.
Ely Bezerra era assim, um bom cabrito que não berrava nunca. Quando convocado para assumir a Secretaria de Organização do Diretório Regional do PT não vacilou, mesmo acumulando as tarefas com a de Secretário Adjunto do Desenvolvimento Socioeconômico da Prefeitura Municipal de Porto Velho, topou a parada e por absoluta ironia do destino, a 364 ceifou-lhe a vida na sua primeira missão como membro da Executiva Estadual do PT.
Ely Bezerra faleceu em plena luta, em pleno campo da sua batalha pacífica e festiva e por isto mesmo é mártir. Mártir das causas mais nobres da classe trabalhadora rondoniense e das lutas civilizatórias da nossa sociedade.
Já meu nobre companheiro, amigo e irmão Eduardo Valverde, este era um iceberg de titânio de ética política, de decência e de caráter. Digo iceberg porque Valverde era um bloco de água doce flutuando no alto mar da indignidade e da incoerência, de cujo conteúdo a sociedade rondoniense conhecia não mais que 10%.
Valverde tinha algo de Manelão e um pouco de Paulo Queiróz outros dois monstros sagrados do nosso imaginário coletivo que nos deixaram recentemente. Como já dito e repetido inúmeras vezes nas centenas de comentários postados nas matérias eletrônicas, Valverde era de uma radicalidade comovente no trato da moralidade e da ética pública, por isso posso afirmar categoricamente nesta oportunidade para aqueles que ainda não sabem: Eduardo Valverde Araújo, assim como Fátima Cleide Rodrigues da Silva, nunca embolsou para consumo próprio um microcentavo de suas emendas parlamentares liberadas para prefeituras ou quem quer que fosse, nos oito anos de parlamento federal.
Não haveria nada de mais nisso – essa era a sua obrigação, dirão alguns – não fosse a existência de uma prática criminosa institucionalizada no País que é o “mercado negro das emendas parlamentares” e são raríssimos aqueles que não chafurdam nesse latente lamaçal que todos fingem não ver mas sabem que existe. Deputado estadual, federal e senador – via de regra – não faz emenda, vende a 10, 20, 30, 40 e até 50% do que se libera. Este é o preço do atraso ignaro do nosso País.
Em 2001 Valverde venceu a prévia do PT que disputou com José Neumar para o Governo do Estado. No início de 2002 iniciamos conversações com o PDT de Acir Gurgacz para uma aliança branca para o Governo, depois de estabelecermos que nosso objetivo naquele pleito seria o parlamento. Eduardo na oportunidade não queria mais abrir mão da candidatura própria, já havia tomado gosto pela coisa. Depois de muitíssimas reuniões e debates, conseguimos convencê-lo da estratégia e ele cedeu. Depois foram outras muitíssimas reuniões e debates para convencê-lo a sair candidato a deputado federal e nos últimos minutos da última hora do último dia de prazo, ele cedeu novamente e aceitou a candidatura de deputado federal.
Mas quando dissemos a ele que tínhamos negociado com o PDT uma estrutura especial para a sua candidatura, como puxadora de votos para a chapa, como alguns veículos, combustível, pessoal de apoio e material gráfico, ele radicalizou novamente e disse: “Se é para aceitar qualquer privilégio em relação aos demais companheiros da chapa desisto da candidatura imediatamente”.
Certa vez almoçamos juntos no restaurante do último andar do Anexo IV da Câmara dos Deputados. Ao nos dirigir para seu Gabinete, Valverde tirou o extrato de sua conta bancária em um caixa eletrônico. Ao chegar ao Gabinete lá estava o seu contracheque de deputado federal. Ele abriu e me mostrou o extrato, com saldo de cerca de R$ 35 mil negativos e o contracheque, de cerca de R$ 12 mil na época. Ele disse então com sua assustadora tranqüilidade: “Bem, agora só devo R$ 23 mil.”
Valverde era um eterno endividado e um dos seus grandes defeitos era a absoluta incapacidade de dizer ‘não’ a quem quer que lhe pedisse qualquer tipo de ajuda decente.
Registro, no entanto, que esse bloco de altruísmo que lhe era peculiar, Valverde herdou de outros tantos companheiros petistas rondonienses que honraram com primazia os cargos e delegações públicas que exerceram como os ex-deputados estaduais Nério Bianchini, grande empresário de Cacoal e rigoroso na ética pública; compadre Severino Dias da Silva, agricultor de Jaru e reserva moral absoluta do PT rondoniense; Neri Firigolo, que cumpriu três digníssimos mandatos na ALE/RO; Ruy Zimmer, decente ex-prefeito de Jaru, Inácio Azevedo, ex-vereador, ex-presidente da Câmara Municipal de Porto Velho e dirigente da Eletrobrás Rondônia Distribuição; a ex-senadora Fátima Cleide; João Becker, decente ex-prefeito de Cujubim e inúmeros vereadores e prefeitos petistas de rigoroso caráter pelo interior adentro de Rondônia que cultuam e honram os princípios constitucionais da probidade administrativa.
Afora tudo isto, Valverde nunca jogava para a platéia. Era incapaz de enganar ninguém. Exibia sempre o mesmo rosto sereno e o mesmo olhar na retina. Foi duramente criticado pelos sindicatos e a imprensa karipuna quando relatou o PL da transposição na Câmara dos Deputados, recebendo a pecha de traidor e entreguista, enfrentando os mais diversos debates olho no olho enquanto outros parlamentares rondonienses se transformaram em paladinos da bandeira, agradando os incautos com sorrisos de porcelana e tapinhas de granito.
Participamos de inúmeras rodadas pelos bares afora, brincamos vários carnavais, celebramos a vida inúmeras vezes nos mais diversos lugares do Pais, como na última comemoração do seu aniversário dias atrás e na nossa última Banda do Vai Quem Quer juntos.
Perdemos todos uma grande liderança política, um grande guerreiro da paz, um monumento da moralidade. E eu, em particular, perdi um grande amigo e um irmão espetacular.

Eduardo Valverde: o Senhor da Aliança

Com Tatá e Mara, Valverde na Banda se despedindo do Manelão foto: Basinho

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Na curva da vida dois militantes do Partido dos Trabalhadores encontraram a morte: Eduardo Valverde, uma das maiores lideranças do PT no Estado, e Ely Bezerra, um dedicado e histórico militante, com muitos serviços prestados ao partido e suas bandeiras de luta. Seus corpos, moribundos e quixotescos, exibidos sensacionalisticamente por alguns jornais virtuais, espalharam uma nova onda de dor e sofrimento à comunidade rondoniense, como se fosse o reciclo de uma funesta tsunami revirando de cabeça pra baixo os corações de nossa gente. Morreram como dois construtores de novos horizontes, dois organizadores de comunas, politizadores de trabalhadores do campo e da cidade, dois sonhadores, dois caminhantes, sem dúvida, mas não eram cavaleiros tão errantes assim. E até eram, na medida em que misturavam nos seus corações poções de utopias que antes se tinha por irreconciliáveis: política e religião, o cristianismo e o marxismo. Deus no céu e o homem na terra como único fazedor da sua História. A fé da devoção e a prática histórica da transformação.
A ação política em busca do justo obrigava Valverde e Ely a peregrinarem pelos mais diversos recantos do Estado. E foi assim, como socialistas cristãos, acendendo uma vela pra Deus e outra para o marxismo-leninismo, que os dois tombaram na curva da estrada, em meio ao caminho que os levava ao exercício da política, uma cachaça com sabor de credo que lhes embriagava a alma e incendiava seus corações de agentes transformadores da realidade humana.
Faleceram em missão como dois soldados da democracia, dois leais escudeiros do PT, dois brasileiros procurando as pessoas do povo, seus iguais, camaradas, companheiros e companheiras, campesinos e campesinas, rondonianos e rondonianas, para compartilhar com eles o pão da esperança por dias melhores – melhor para o homem e para a mulher que têm a garganta ressecada pela sede de justiça social, melhor para o trabalhador e para a trabalhadora que mercadejam, de sol a sol, para sobreviver, o ânima de seus corpos explorados, utilizados como matéria-prima na produção dos bens da vida.
Quando a lâmina das ferragens retorcidas feriu de morte os dois peregrinos da política, um grito lancinante ecoou da planície amazônica até o planalto central do Brasil. Sensibilizada com a perda de um grande quadro do partido na região norte do país, a presidente Dilma Rousselff fez menção ao falecimento do deputado petista e falou da importância de Valverde para o cenário político nacional, onde se destacou por seus méritos e competência política muito acima da média brasileira. Seu legado como homem público atuante toma corpo na sua atuação parlamentar, partidária e intelectual. Valverde não era um sujeito carismático, não sabia empolgar nem às massas nem à militância do seu próprio partido. Queria ser governador de Rondônia, não foi. Queria ser prefeito de Porto Velho, e já não pode ser. Na política, desejava ser um executivo, mas sua excelente performance parlamentar parecia sinalizar para o eleitorado que ele não tinha cacife para tanto.Parecia esculpido para o ofício do parlartório, não para comandar máquina administrativa. De Lula pra cá, o Partido dos Trabalhadores mudou muito e Eduardo Valverde, embora inteligente e analítico, parece não percebido a mudança conjuntural de sua agremiação partidária. O clássico romantismo vermelho cedeu lugar a um fenômeno que vem metamorfoseando o PT: uma onda de pragmatismo maquiavélico, no bom sentido, misturada com pitadas de personalismo e desbotamento das tonalidades vermelho, vermelhaço, vermelhão da utopia socialista. A fogueira das vaidades vem assando a batata de muitos correligionários do prefeito Roberto Sobrinho. Tem petista amando mais ao poder que ao projeto partidário; têm militantes pousando de médicos quando na verdade não passam de práticos de farmácia; tem fogo de monturo ameaçando destruir o patrimônio partidário que os petistas históricos edificaram e lutam para mantê-lo intacto.  O PT que deu combate acirrado aos mandos e desmandos de Jerônimo Santana, Osvaldo Piana e José de Abreu Bianco já não é mais o mesmo e por isso precisa se reciclar e se reencontrar, até para fazer jus à exemplar e ilibada conduta política que Eduardo Valverde deixou de herança, tanto para os petistas como para todos os segmentos da sociedade karipuna. O nobre parlamentar não fez da política um palco – lugar de show. Nem fez da sua atuação um teatro do bom mocismo – para agradar ao público em geral. Na sua luta pela melhoria da qualidade de vida para todos, na pólis, ele escolheu a dignidade, a ética, a transparência e o diálogo como condutores fiéis de seu destino.  Com sua áurea franciscana, sabia como ninguém manusear a arte da composição e da conversa. Levou consigo para o túmulo, quem sabe, a decepção de não ter visto a companheirada vestir a camisa da sua candidatura ao governo, na proporção e intensidade que ele imaginara para sagrar-se vitorioso nas urnas – coisa que só o bom e velho Nicolau Maquiavel sabe explicar.
E para quem pensa que a palavra Valverde decorre de uma composição por aglutinação e significa vale verde, pode tirar o cavalo da chuva, já que, com sua morte, ele nos obrigou a descobrir que seu nome, do hebraico, derivado de baal-berith, quer dizer literalmente Senhor da Aliança – o que de fato ele foi na sua trajetória existencial, no parlamento, no partido, no carnaval, no templo, no Mercado Cultural, no amor, na lida, na vida e na morte, para a sorte de todos nós, seus admiradores e herdeiros.

Conviver com Eduardo foi um privilégio

Por Fátima Cleide

“…Sentinela sou, do corpo deste meu irmão que já se vai, revejo nesta hora tudo que ocorreu, memória não morrerá. Longe, longe, ouço esta voz que o tempo não levará” (Milton Nascimento)

Desde o dia 11 de março o mundo girou aos meus pés. Agradeço em nome de minha família (Silva e Valverde) e da família PT/RO o carinho e o reconhecimento de todas as entidades da sociedade civil, de personalidades políticas e civis, dos amigos e militantes do PT quanto ao meu querido amigo, companheiro e dirigente EDUARDO VALVERDE, esse que para mim sempre será parceiro das práticas corretas, da ética e dignidade na Política.

Valverde, além de companheiro de Partido, de lutas e de sonhos era também um membro da minha família, casado com Mara Regina, minha prima de primeiro grau. Minha vida ao seu lado foi trilhada por décadas com base na solidariedade, no respeito às diferenças e na construção de uma sociedade justa e igualitária.

Minhas palavras, portanto, serão sempre poucas diante da intensidade de nossa relação política e, sobretudo, de parceria e de muita amizade.

Juntos a Anselmo de Jesus, por 8 anos representamos com muita dignidade o Estado de Rondônia e nossa sigla no congresso Nacional.

Defendemos com garra o Projeto de Nação que transformou o Brasil. Fomos fiéis e solidários ao Governo do Presidente Lula. Nos momentos mais difíceis, a coragem e altivez de Eduardo Valverde foram destaque no Congresso Nacional. Ajudamos a eleger sua sucessora, nossa Presidenta Dilma Rousseff.

Com Eduardo, dividi não apenas sonhos mas a luta para concretizá-los. Assim foi com a PEC da Transposição. Ela é Lei Regulamentada hoje, graças ao trabalho articulado de Eduardo como Relator na Câmara e também a nossa credibilidade junto ao Governo Federal.

Tenho orgulho de nossa atuação, hoje reconhecida por prefeitos e pela sociedade civil.
Juntos, articulamos recursos e somamos emendas para garantir que todos os municípios do Estado tivessem acesso aos recursos Federais, transformando-os em benefícios para toda a população.

Juntos, caminhamos na direção de construir e fortalecer o PT em Rondônia, na Amazônia Legal e no Brasil. Juntos, lutamos por Democracia em nosso Estado. Juntos, denunciamos atrocidades cometidas contra o erário público e cobramos Justiça. Juntos, lutamos por direitos sociais de idosos, mulheres, negros (as), índios, crianças e adolescentes, jovens e LGBT’s.
Eduardo foi um político de alma feminista. Compreendeu desde sempre a necessidade de mudarmos o rumo das relações de gênero em nossa sociedade. Atuou como protagonista em todas as nossas lutas.

Conviver com Eduardo Valverde foi um privilégio, um presente de Deus para mim e para tantos que tiveram a oportunidade de desfrutar da sua convivência.

Escrevo estas linhas, tomada ainda por forte emoção. Perco um irmão, um amigo, um companheiro e grande parceiro na liderança do PT em RO. Minha dor é também a de milhares de pessoas que, como eu, queriam muito bem a Valverde. Sinto-me agradecida por ter, por diversas vezes, publicamente, na sua presença em vida, falado tudo isto que hoje é reconhecido por todo o Estado de Rondônia e pelo Brasil.

Ele se foi, mas a sua ação política ficará registrada na história de Rondônia e do Brasil. Ficará marcada para sempre em nossos corações e nos fortalecerá na luta pela construção de uma Rondônia justa e ambientalmente sustentável.
Neste momento de dor, agradeço a Deus a oportunidade de ter convivido com Eduardo Valverde. Peço a Deus que nos conforte e que lhe dê o descanso dos Justos.

Vai Valverde! Descanse em Paz meu irmão!
“…eu fico com a pureza da resposta das crianças: É a vida! É a vida!”
(Gonzaguinha, também carioca e vítima prematura de acidente automobilístico)

Relações entre cultura e desenvolvimento

Por Mariangela Aloise Onofre

De acordo com Bosi (1992), “cultura é o conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social” (pág.16). Ainda de acordo com esse autor, nas sociedades urbanizadas a noção de cultura foi associada a melhores condições de vida, fato almejado por todas as classes e grupos sociais.       A partir do séc XVIII a cultura foi associada à noção de progresso tecnológico, fazendo com que a cultura passe a desempenhar um papel central no que tange ao desenvolvimento das nações mais pobres.         O ser humano, enquanto ser biológico possui funções orgânicas de alimentação, repouso, respiração, entre outras, que garantem sua sobrevivência. A forma como essas funções serão desempenhadas será dada, em última instância, pelas relações que se estabelecem entre o ser biológico e o ambiente, o que significa dizer que a permanência dos grupos humanos em seus ambientes será mediada pelo conjunto de significados, crenças, valores, formas de fazer e estruturar pensamentos e atitudes reunidos sob a noção de cultura.      O processo de globalização envolve o progresso tecnológico dos sistemas de comunicação, possibilitando o acesso a diferentes sistemas de significados. A lógica da dominação econômica torna-se a lógica da dominação cultural, fazendo com que a o modo de vida dos mais ricos seja legitimada ideologicamente através da circulação de bens e produtos culturais desses paises pelos grupos economicamente mais pobres, que passam a rejeitar e marginalizar seus próprios sistemas de significação e conhecimento, pondo em risco as diferenças identitárias entre os povos, o que levou a elaboração da Agenda 21 da Cultura que afirma que a diversidade cultural é tão importante para a humanidade quanto a diversidade biológica, fator que nos remete imediatamente a uma necessidade de pensar sobre as culturas amazônicas como elementos a serem incluídos dentro da polêmica discussão sobre desenvolvimento sustentável, cujas contradições conceituais não nos cabe discutir neste ensaio.Segundo Loureiro (1995), a expressão cultural que usualmente é identificada como cultura amazônica, é aquela de predominância rural, localizada entre as populações ribeirinhas, repletas de imagens da floresta. No entanto, há que se considerar  que a cultura urbana das cidades localizadas na região amazônica possuem  peculiaridades diretamente relacionadas ao processo de ocupação da região e sua situação geográfica. Assim, entendemos que aquilo que chamamos de Amazônia não existe como unidade cultural e que os processos colonizatórios estabeleceram, a nível local, as mesmas relações depreciativas com a cultura nativa, da mesma forma que a cultura dos paises ricos se legitima em detrimento da cultura dos paises pobres, a nível global. Tal situação gera implicações na geração de emprego e renda, na formação de mão de obra, nos sistemas educacionais e na própria maneira de se relacionar com o meio ambiente. Além disso, a ausência de políticas  que valorizem a produção cultural local, aliada a crescente expansão da televisão que  passa a privilegiar como de melhor qualidade a produção dos grandes centros brasileiros torna a cultura urbana das cidades amazônicas profundamente marcada pela ausência de expressões culturais que delimitem os traços identitários que possibilitem traçar parâmetros para as ações de desenvolvimento sustentável, referenciado pelos números de crescimento econômico. Em um mundo em que a facilidade tecnológica torna os  produtos  cada vez mais semelhantes, somente as culturas que conseguem estabelecer o seu próprio diferencial (sua própria identidade) conseguem consolidar  seu espaço competitivo no mercado.        Finalmente, a leitura desses índices deve ser subsidiada pelas informações qualitativas, acrescentando à  idéia de que a sustentabilidade deve contribuir também para a legitimação dos diferentes modos de vida das comunidades.

Apoio à agropecuária e a segurança alimentar

Por João Guilherme Sabino Ometto, vice-presidente da Fiesp e coordenador do Comitê de Mudanças Climáticas

O ano de 2011 inicia-se com uma pergunta chave, que dominará os debates sobre a política macroeconômica ao longo dos próximos meses: como se comportarão os preços dos produtos alimentícios, após terem contribuído com 39% do IPCA, medido pelo IBGE, em 2010? A questão, alinhada ao tema mundial da segurança alimentar, certamente não encontrará unanimidade entre os experientes analistas do mercado agropecuário, pois o ano passado foi prodigioso no sentido de “furar” as mais embasadas previsões.

Um bom exemplo é a carne bovina. A oscilação de seus preços decorreu de duas causas: a redução da quantidade disponível para consumo nos principais produtores, como Argentina, Estados Unidos e Austrália, em função do maior abate de matrizes, iniciado em 2006; e o crescimento da massa salarial do brasileiro, de 34% nos últimos cinco anos, que pressionou a oferta já combalida. Como resultado, o preço testou vários patamares ao longo ano, chegando a um aumento acumulado de quase 30%, surpreendendo a muitos.

Outros itens, como o leite e o feijão, encontram nas intempéries, como as secas prolongadas ou as chuvas em excesso, grande parte das explicações pela elevação dos preços. Embora se possa prever com relativa confiabilidade a ocorrência desses fenômenos, dificilmente acerta-se na sua intensidade. No caso do açúcar, a Índia continua sendo o grande fator de desequilíbrio de um mercado internacional demandante.

É muito provável que, para alguns segmentos do agronegócio, as majorações gerem estímulos ao incremento da produção, com impactos positivos nos vários produtos que compõem a cesta “alimentos e bebidas”, monitorada pelo IBGE, como o feijão e o leite. Entretanto, as intempéries, os desajustes da produção mundial e o aquecimento econômico dos países em desenvolvimento, com destaque para o Brasil, podem contrariar essa lógica.

É justamente nesse cenário de pressão de preços de alimentos, resultante da demanda esticada e da oferta curta, que é enfático o papel do Brasil como um dos mais importantes supridores. Temos respondido com eficácia ao incremento de oferta, com ganhos sucessivos de produtividade, como no emblemático caso dos grãos: desde 1990, esses foram cerca de três vezes superiores à média internacional, o que contribuiu para que o mundo acumulasse um tênue, mas importante superávit nesse grupo de produtos. O exemplo estende-se, como é sabido, a vários outros setores.

Dado o papel de protagonismo do País nesse sensível equilíbrio em termos de abastecimento mundial, fica o alerta de que necessitamos dar seguimento aos ganhos massivos de produtividade. É por essa razão que parece mais lógico o Governo Federal olhar para o produtor brasileiro antes das safras, para entender a sua realidade e atender às suas legítimas necessidades, como um seguro agrícola eficiente e acessível e um forte incremento dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Tal atitude seria muito melhor do que constatar, nos futuros índices de preços de alimentos, que poderia ter feito algo a mais pelo setor, pelos brasileiros e pelo mundo, pois nosso país é o que tem as melhores respostas para a prioritária questão da segurança alimentar.

Professores em fuga

Por Vera Lúcia Pereira dos Santos,Doutora em Linguística e em Língua Portuguesa

Não constitui surpresa saber que caiu o número de formandos em cursos que preparam docentes. O desinteresse dos adolescentes pelo magistério não se revelou repentinamente. É reflexo de um processo que vem se corporificando há muito tempo no exercício do magistério, aliado à decadência do ensino público monitorado por políticas públicas equivocadas.
Como professora de escola pública nas décadas de 1970, 80 e 90, fui testemunha da aplicação de leis, regimentos e normas pretensamente democráticas, inovadoras e revolucionárias, impostas ao professor como panacéias solucionadoras de todos os problemas educacionais. A escola transformou-se em entidade predominantemente assistencialista e ao mestre era atribuída toda a responsabilidade pelo insucesso do aluno ─ a reprovação, se ultrapassada determinada porcentagem, era sinônimo de incompetência didática. O professor foi perdendo sua autonomia e, sem ela, sente-se desprestigiado, desmotivado e desestimulado e seu aluno percebe esse desencanto.
Para esse processo de desconstrução, vários outros fatores contribuíram. Entre eles, ainda da perspectiva do docente, destaco o tratamento dispensado aos cursos de formação de professores da Educação Básica. Aos docentes que atuavam nesses cursos recomendava-se, não oficialmente, agir com complacência e não exigir muito do aluno na atividade didática. Isso porque o perfil da clientela, segundo orientadores e diretores de escola, era formado por adolescentes menos favorecidos economicamente e com poucos subsídios culturais e que, muitas vezes, ignoravam o alcance de sua vocação.
Não seria essa uma forte razão para se elevar o nível desses jovens, futuros mentores da fase mais importante e decisiva do ensino, a alfabetização? O que pensar de cursos de graduação em Pedagogia que serviram durante algum tempo de meio de aquisição de maior remuneração para docentes e acesso à classificação privilegiada na atribuição de aulas?
Via e vejo nessa atitude facilitadora e desvirtuada uma contradição que só poderia resultar no quadro preocupante que hoje mobiliza institutos de pesquisas, educadores e especialistas em educação para tentar revertê-lo. A ausência de atração pela carreira docente entre estudantes do Ensino Médio soma-se ao desalento do magistério e cria uma lacuna perigosa na formação de outros profissionais? Quem irá orientá-los? Qual é a saída desse labirinto? É óbvio que há soluções e elas já foram apresentadas por pesquisadores abalizados como Bernardete Gatti, da Fundação Carlos Chagas. Agora falta aplicá-las. Os professores estão fugindo não por covardia, mas em busca da própria dignidade.

O impacto econômico e social do analfabetismo

Por Fabio Arruda Mortara, presidente do Sindicato da Indústria Gráfica no Estado de São Paulo (Sindigraf-SP)

A despeito dos avanços verificados nas duas últimas décadas, o ensino brasileiro, em especial no tocante às escolas públicas, segue abaixo de um padrão de excelência congruente com a meta nacional de desenvolvimento. O problema está muito evidente no Anuário Estatístico 2010 da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), que acaba de ser divulgado. O estudo desse importante organismo das Nações Unidas mostra que, em nosso país, a proporção de pessoas analfabetas é de 9,6%, acima da média de 8,3% registrada na região.

O índice leva em consideração os maiores de 15 anos incapazes de ler ou escrever, com clareza e entendimento, um relato simples e breve de sua própria vida cotidiana. Ou seja, indivíduos absolutamente despreparados para quaisquer postos de trabalho na economia contemporânea e totalmente excluídos do acesso à escrita e à leitura, essencial à formação mínima de todo cidadão.

Para se compreender de maneira mais clara a gravidade da situação apontada no relatório da Cepal, é importante cruzar os seus dados com informações da pirâmide demográfica nacional e alguns números do mercado da cadeia produtiva da comunicação gráfica. Com base na população atual de 190.732.694, os maiores de 15 anos (cerca de 89% do total, segundo o Censo 2010 do IBGE) são 169,75 milhões de habitantes. Se 9,6% destes não sabem ler e escrever, o número de brasileiros alijados desse direito essencial é de 16,3 milhões de pessoas.

Os reflexos mercadológicos dessa lamentável realidade não são menos graves. Se cada um desses brasileiros excluídos da sociedade do conhecimento soubesse ler e comprasse apenas e tão somente um livro por ano, o impacto nas vendas das 16,3 milhões de unidades seria de quase 4,5%, considerando a comercialização total de 370 milhões de exemplares/ano, apontada na edição mais recente da Pesquisa de Produção e Vendas do Mercado Editorial, realizada pela FIPE para a CBL e o SNEL. Caso cada uma dessas pessoas comprasse apenas dois cadernos por ano, ou seja, 32,6 milhões de exemplares, uma gráfica de grande porte especializada nesse segmento teria de trabalhar 46 dias, em período integral e utilizando toda a sua capacidade instalada (cerca de 700 mil unidades/dia), somente para atender a essa demanda específica.

Numericamente, os contingentes representados pelos brasileiros analfabetos são equivalentes à população integral do Chile ou da Holanda. Assim, incluí-los no mercado de consumo de todos os bens, produtos e serviços ao alcance de quem sabe ler e escrever significaria criar no próprio Brasil um mercado do tamanho do existente naqueles dois países. Na ponta da produção, o gargalo do ensino também apresenta consequências danosas, considerando o apagão de mão de obra explicitado de modo crescente por vários setores de atividade.

O flagelo do analfabetismo e a escolaridade de baixa qualidade transcendem, portanto, à questão social da exclusão, já suficientemente grave. É um problema a ser enfrentado com firmeza e eficácia pelas políticas das prefeituras, Estados e União, constitucionalmente responsáveis pela educação pública universal. A sociedade também precisa atuar no âmbito dessa meta, como têm feito as entidades de classe do setor gráfico, mobilizadas em prol da melhoria da formação de profissionais para o setor e da excelência do ensino no País.

Educação, o exemplo que vem da Ásia

Por Elisete Baruel , diretora de Educação da Vitae Futurekids ( www.vitaefuturekids.com.br )

Conhecimento (ou saber) é poder, disse o filósofo Francis Bacon. Que o digam os grandes movimentos sociais e econômicos mais marcantes no caminho da humanidade. A capacidade de acumular sabedoria e de gerar conhecimento é determinante em qualquer processo de mudança e de desenvolvimento. Na capacidade de implantar um modelo educacional que forme cidadãos sábios, mão de obra qualificada e domínio das modernas tecnologias está a base de construção de um país realmente desenvolvido.

Foi assim no mundo grego e na antiga Roma. Foi assim na Idade Média, quando a força da Igreja e o saber cultivado nas bibliotecas dos mosteiros garantiram a sobrevivência da cultura greco-romana. Foi assim no Renascimento, com o poder dos mecenas (incentivadores das artes), que permitiu a glória de gênios como Da Vinci, Michelangelo, Bernini e tantos outros. Foi assim nos grandes descobrimentos e na Revolução Industrial. Até na derrota da encarnação do mal, o nazifascismo, o conhecimento foi determinante – apesar da terrível destruição causada pelas bombas atômicas sobre o Japão e do ainda presente risco de uma hecatombe nuclear.

No mundo contemporâneo, um dos exemplos mais marcantes do poder do conhecimento vem dos chamados “tigres” asiáticos, que hoje se equiparam aos grandes países desenvolvidos da Europa e com os Estados Unidos. Seguindo o exemplo do Japão do pós-guerra, ganharam esse selo Hong Kong, Coréia do Sul, Cingapura e Taiwan, por suas elevadas taxas de crescimento e rápida industrialização entre as décadas de 1960 e 1990. A esse time se integraram depois Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia e as agressivas economias da China e da Índia. As grandes transformações basearam-se em acesso à educação e na infraestrutura de transportes, esta vital para exportações competitivas.

Desses “tigres”, atenção especial merece o caso de Cingapura. Aliás, um dos mentores da contínua transformação do país, Lee Sing Kong, diretor do prestigiado Instituto Nacional de Educação, estará em abril de 2011 em São Paulo para explicar os segredos dessa mudança. Ele participará do evento “Escola de Alto Desempenho – II Seminário Internacional de Práticas Inovadoras para a Educação”, promovido pela Vitae Futurekids. A fórmula que revolucionou a educação em Cingapura e criou as bases para fazer do país um dos “tigres” asiáticos se baseou e se baseia em ações como: incentivar os jovens mais talentosos a seguir o magistério; dar status, prestígio e remunerar professores iniciantes com salários de engenheiros; formar educadores por meio de intensa prática pedagógica (espécie de residência médica); administrar escolas públicas como empresas – os melhores ganham bônus; e priorizar o uso produtivo de recursos tecnológicos na escola.

Ao Instituto Nacional de Educação (Faculdade de Formação de Professores) credita-se muito do rápido e contínuo avanço da educação em Cingapura, que estava em um patamar semelhante ao africano nos anos 60 do século passado. Hoje, o país é reconhecido entre os melhores do mundo em sala de aula, tendo um dos três melhores sistemas educacionais em matemática e ciências. No plano econômico, Cingapura tem crescido a taxas de cerca de 10% ao ano. Esse pequeno país, bem menor que o estado de Alagoas, tem conseguido a proeza de ter renda per capita de quase US$ 49 mil, acima dos EUA. Tudo isso resultado de investimento constante em educação ao longo das últimas décadas.

Na China, a educação também é componente fundamental para o crescimento estrondoso do país. A prova está nos recentes resultados do PISA 2009, programa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que avalia o desempenho de estudantes de 15 anos, de vários países, em matemática, ciências e leitura. Os alunos da província chinesa de Xangai, que participaram pela primeira vez do exame, ficaram em primeiro lugar em todas as disciplinas avaliadas, superando todos os países da OCDE. Os chineses obtiveram 38 pontos acima do segundo colocado, Cingapura, 113 pontos acima dos Estados Unidos e 214 pontos acima da média dos alunos brasileiros.

Os casos acima são apenas indicativos do quanto ainda temos que avançar para fazer da educação, ao lado da saúde, a grande prioridade de nosso país. O Plano Nacional de Educação para a década 2011-2020, lançado pelo governo, contém metas ambiciosas, com prioridade para a qualificação dos professores e melhoria da gestão escolar. Que ele se torne realidade. Afinal, é na escola, em todos os níveis, que podemos ganhar o conhecimento necessário para uma transformação duradoura de nosso Brasil.

No gesto que não houve, a confirmação: elegemos a pessoa certa.

Por Rudney Prado

A nova Rondônia começou mesmo. Enfim um novo governador! No primeiro dia do ano, além da esperada posse, tivemos mais uma prova de que a maioria dos rondonienses estava certíssima em eleger Confúcio, governador. O último ato do ex- governador Cahulla, o da negligência democrática, deixou isso ainda mais evidente. Ele não estava lá no Palácio Presidente Vargas. Não se permitiu um derradeiro e digno gesto de, da sacada do Palácio, transmitir a faixa de governador a quem, democraticamente, fez por merecer esta honra.  Muita gente esteve lá e pode constatar, na  ausência  do nosso ex-mandatário estadual , que faltou a altivez  que se espera de alguém que um dia governou este estado “melhor do que a encomenda”. Seria esta uma última encomenda? O gesto simbólico ficou prejudicado. Talvez imaginassem que tal atitude ofuscaria o momento tão aguardado. Não se deu esse presente ao povo. Mas o brilho estava nos olhos dos que ouviam as palavras emocionadas do novo governador. Confúcio foi, de novo, simples. Sincero. Verdadeiro.  Reiterou compromissos com a saúde, com a educação, com uma nova história a ser construída para os rondonienses, e com os rondonienses. Isso é o que importa. A má educação mostrou de novo, que era mesmo necessário um novo governador. A faixa ficou muito bem no peito do Dr. Confúcio.

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fotos: M.Freire

Infância

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

O doce enlatado
Trancado no armário.
Imaginação adulta nestas horas,
Questão de honra comer um pedaço.
Onde a chave?
Faro canino logo descobria.
Mãozinhas trêmulas
Furtando o tesouro da mãe.
Armário aberto.
Saliva emudecendo os lábios
Ao ver o doce brilhando.
A tampa da lata
Refletia a tez franzida,
O suor da angústia
Pingando no chão.
Onde a faca?
É preciso ganhar tempo.
Dedos mergulhados no doce,
Levados a boca
Com gula.
Impressões digitais na lata.
Delícia de doce!
Novamente os dedos sujos

Cinturão cantou
Nas costas magras.
Flagrante delito…
Num canto,
Depois da sova,
Soluços incontidos,
Lágrimas descendo rosto abaixo.
Nos lábios, restos do doce,
Gosto de fel.
Na barriga,
As lombrigas sorriam agradecidas.