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A última sopa (lá no Arapuca)

Por Altair Santos (Tatá)

Aos pavios primeiros dos luminosos de 80, quando aqui abundavam aventureiros atrás de minas de ouro se entregando febris e obstinados à cata e comercialização do cobiçado metal extraído nos garimpos do Madeira, a cidade vivia um otimista frenesi financeiro onde até desempregado e vagal andava forrado, esbanjando saúde monetária e cachorro “pirento,” sem dono, enjeitava contrafilé no almoço.

As avenidas Nações Unidas e Jorge Teixeira, esta ex Presidente Kennedy, sentido centro-sul, desembocavam em forma de seta no fervilhante Trevo do Roque cuja névoa empoeirada do entardecer, sem licença, soprava invadindo as narinas e levando direto ao cérebro o viciante éter do prazer causando incontido rebojo nas estruturas de quietude de muita gente, acendendo as libidos até o plano máximo das labaredas desejosas. Noutras, todos ali, de cabeça, corpo e membro eram sexo puro.

A Churrascaria Arapuca, por lá fincada, tinha o status de oásis alimentício e repositor das energias perdidas, uma afamada e fundamental casa de apoio aos trêmulos e cambaleantes madrugadores exaustos e vitimados pelas fraquezas e outros efeitos do sexo sem freio, cuja lei era o dinheiro. Lá se reuniam os notívagos tupiniquins e forasteiros para aquela apetitosa, proteica e revigorante sopa, antes de descortinar o amanhecer. De tão sopa e tão vitamínica certas pessoas, quando iam ao local, diziam ressuscitar seus corpos já que as suas almas e espíritos pervertidos e condenados irremissíveis, queimavam e ardiam convertidos ao torto e aloprado anjo daquela Sodoma e Gomorra.

Alguns jovens mancebos daqui, com idade entre os 18 e 20 anos, estudantes da noite nos cursos colegiais, já vivendo o despertar dos arroubos de enxerimentos se arvoravam para incursões mais audazes no campo dos prazeres e, vez por outra, se aventuravam a pé, de vários bairros da região central ou mais distante até o epicentro do canibalismo erótico da época, qual fosse, o Trevo do Roque.

Naquela praça dos eflúvios libidinosos em 12 de junho, noite dos namorados, apareceu o Zenildo, valentão e destemido, cabra jurado de morte nos garimpos da região, feio a ponto de recusar olhar-se no espelho, alto feito um poste e ignorante na mesma estatura. O minerador desceu de um táxi bem na porta do Clube Copacabana, cumprimentou o porteiro, pediu umas quatro mesas e ordenou que chamasse as “profissas” do sexo, inclusive as que estivessem acompanhadas pois, todas, naquela noite de idílio, eram suas namoradas e festejariam com ele. À medida que se achegavam ele oferecia copos de cerveja ou uísque e lhes entregava mimos como pulseiras, relógios, perfumes, cortes de tecido, quantias em dinheiro e pequenas pepitas que lhes reforçavam a gastança mensal.

Os demais fregueses impotentes, assistiam aquilo sem reagir afinal, além de “estar com a pedra” o homem tinha a fama de exímio atirador e agia na segurança de ter sempre, ao alcance da mão, dois trabucos calibre 38 deitados sobre a mesa, prontos pra cuspir fogo contra intrometidos e desafetos. Sob luz tênue, no canto oposto do salão, estava Chico Boca, rival declarado de Zenildo e também garimpeiro padrão barra pesada de cujo, diziam, contabilizar singelos 18 homicídios no currículo, por feitura própria e outros mais por encomenda.

Igualmente afamado por não perder uma só bala das muitas que mandou contra alvos oponentes, Chico a tudo assistia e, movido pelas pendengas antigas com o então filantropo-putanheiro Zenildo, aos goles e olhares de esguelha para o antagonista, Chico parecia algo de ruim matutar.

O sucesso do Zenildo com o mulherio e a forma antiética, fora dos padrões e nocivas, à constituição cabareana e o jeito exibicionista com que arrebatou as damas da noite pro seu domínio, sinalizaram uma inevitável e nada diplomática contenda naquela noite que desnudava sobre as ruas e tetos de Porto Velho um céu estrelado, propício e inspirador a um solo e pontilhado pelo Jorge Andrade ao violão. Por sorte lá, eram raríssimas as idas do seresteiro. Mesmo assim escapou de ser obrigado a dedilhar em tom maior, um fúnebre e melódico aqui jaz.

Em meio ao furdunço de risos, abraços, beijinhos e olhares insinuantes, Zenildo posava de rei. Chico Boca, em desvantagem no placar “cabareísta” até esboçou reação e mandou chamar algumas putas pro seu redor mas, Zenildo, parecendo estar com o tinhoso de plantão e impregnado no seu couro, ordenou que ficassem consigo, cobriria qualquer proposta. Aquilo soou como desafio ao tudo ou nada e derreteu qualquer possibilidade da bandeira branca ser içada e tremular festiva ao vento, sinalizando a paz.

Pra aumentar o fogaréu daquele inferno ambiente, Zenildo convidou alguns rapazes daqui os quais, aprendizes dos segredos e emoções do sexo debutavam na putaria e por ali zanzavam curiosos, porém lisos e ainda tímidos. Sob o patrocínio do bamburrado garimpeiro, os jovens foram autorizados a beber e escolher meninas para estagiarem em sessões de completo sexy menu com direito a indecifrável êxtase e deleite noturno. Tudo isso, na intimidade e desconforto dos úmidos e sombrios aposentos instalados nos fundos onde mal se ouvia os trololós, faniquitos e outras efervescências ocorridas nas entranhas do puteiro.

Lá pelas tantas com todos rumando pelo orvalho da madrugada Chico Boca deixa o recinto, não sem antes, dispensar demorado olhar ameaçador contra Zenildo que devolveu a gentileza, encarou o contrário. Do lado de fora, o retirante dirigiu-se a uma banca de comida onde uma mal humorada e enorme senhora de uns quatro costados, vendia um exótico prato “baiazonense,” mistura de comida baiana e amazonense composto de jaraqui frito com vatapá. Ao cheiro da fritura e, em tom severo, Chico cochichou ao ouvido dum sujeito para que fosse nas imediações da rodoviária, num hotel de baixa categoria, buscar Gaguinho, um matador infalível que lá pernoitava.

Obediente o homem foi num pé e outro e deu conta do recado, Gaguinho estava ali pra receber ordens e despachar mais um, como era o seu ofício. Em sua apresentação, disse o seu preço, narrou uma apólice de direitos que o mandante tinha pra opinar sobre como queria o serviço, quantos tiros, em que parte do corpo e coisa e tal e revelou já ter sido tomado de aguda vontade de alvejar o boçal e valentão Zenildo.

Tratativas ligeiras, “sem conversa de chora minha nega” logo o dinheiro do serviço fora enfiado fundo no bolso do matador que também recebera um revólver com a seguinte recomendação: escute só meu chapa, com esse aqui eu já derrubei pra mais de dez, então faça bonito, faça como você sabe fazer. Agora vá, ele está lá no Arapuca bebendo com aquelas putas ingratas duma figa, chegue e anuncie a morte e, antes de qualquer reação, queime o desgraçado. Eu vou ficar de longe apreciando tudo.

No Arapuca Zenildo ocupava o centro da mais animada mesa, cercado das felizes damas da noite que folgavam se encharcando de cerveja e se empanturrando num lauto rega-bofe. Em dado momento o mecenas da noitada pediu uma sopa bem quente no que de pronto fora atendido. O matador, que a tudo “mancuricava” resolveu inserir certo drama àquela trama e, puxou um papel e nele escreveu “a última sopa” e deu ao garçon para entregar ao destinatário certo, o Zenildo. Enquanto o prato apetitoso esfumaçava à sua frente, Zenildo leu o papel umas três vezes e foi surpreendido quando Gaguinho, o atirador fatal, apareceu e, a média distância, anunciou no seu fluente linguajar próprio: “… e-e-e-ildo e-e-eu iiioo da u-u-uta, i-i-i e-e-ara u-u ai o-o-rrer a oraaaaa!” Traduzindo do “gaguez” pro português: “Zenildo seu filho da puta, te prepara tu vai morrer agoraaaa!”

Após o brado da morte o gago sacou o cano e disparou uma, duas, três vezes mas o colt bateu catolé em todas elas. Quando tentou novo disparo Zenildo já havia rastejado por debaixo da mesa e, entre cadeiras e pernas das putas em polvorosa, disparou fatal contra o peito de Gaguinho que já tombou defunto, empacotado pra viagem. Naquela hora quatro e meia da madrugada, o Arapuca era o salão do medo, gritaria, desespero e incerteza. Zenildo ainda de arma em punho mal levantou e, dum canto escuro, três pipocos tiniram alto e misteriosas azeitonas quentes cortaram o ar indo se alojar certeiras e mortíferas no seu peito.

Segundos depois, em meio ao “quem foi, quem não foi,” Chico Boca passa ao lado do Garçon e lhe diz ao ouvido: eu não sabia que esse matador era gago até pra atirar, e quanto ao outro, se a polícia perguntar, diga que ele veio tomar a última sopa, mas nem deu tempo.

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Túnel do Tempo : Cachoeira de Santo Antônio, 1977

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Túnel do Tempo : Salto do Teotônio, 1977

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Mostra de fotografias Amazônia Negra, de Marcela Bonfim, impressas em madeira, surpreende o público no Espaço Cultural Cujuba, em Porto Velho/RO

AMAZONIAPor Ana Aranda

A abertura da exposição de fotografias “Amazônia Negra”, de Marcela Bonfim, no sábado (21 de maio), com apoio do Sesc, reuniu um público diversificado numa celebração à cultura e ao papel dos descendentes de africanos na colonização de Rondônia. Mais de 300 pessoas participaram do evento e se emocionaram com o trabalho da artista. “Marcela já é uma personagem da cidade”, definiu o poeta e ativista Carlos Dias Macedo – Mado. Uma das retratadas, a ativista e educadora popular Ana Maria Ramos observou que a seleção de 33 imagens “retratou personagens importantes da ancestralidade africana, a exemplo dos quilombolas e praticantes de religiões afrobrasileiras”.

“A exposição convida a uma reflexão sobre as especificidades da negritude da  Amazônia, assunto que ainda precisa ser estudado e analisado. Muito já foi dito sobre os descendentes dos africanos que povoam o nordeste e o sul do país, mas quase nada sobre os negros do Norte”,  analisou o jornalista Antônio Serpa do Amaral – Basinho .

As 33 fotografias inéditas e outras já publicadas, impressas diretamente na madeira, ganharam uma nova dimensão e  surpreenderam ao público. A escolha do Espaço Cultural Cujuba para a exposição também foi elogiada. O espaço começou a ser gerado há cerca de quatro anos, com o objetivo final de ser um centro de formação artística e propagador da chamada cultura beradeira, característica dos habitantes mais antigos de Rondônia. “Iniciar as atividades do Cutuba com a exposição da Marcela Bonfim foi uma iniciativa brilhante”, elogiou o poeta Mado.

Quilombola de Pimenteiras, no vale do Guaporé, dona Tomásia de Brito, 88 anos, uma das fotografadas da Mostra disse que a exposição “ajuda a lembrar” a existência dos quilombolas de Rondônia, um segmento  que vive esquecido  no Vale do Guaporé, na divisa do Estado com a Bolívia. “Precisamos conhecer a nossa história e os nossos direitos”, ressaltou.

“A fotógrafa Marcela Bonfim tem o olhar do migrante que se integrou na cidade, no reconhecimento de sua negritude, que oferece uma colaboração antropofágica.

Trouxe para Porto Velho a cultura de  fora, que a população local absorve e transforma”, segundo o jornalista Basinho.

A exposição foi aberta com o vídeo experimental do projeto com edição de imagens da fotógrafa Michele Saraiva, mais  intervenção do poeta Dom Lauro e do artista plástico Hely Chateaubriand. A artista plástica Margô Paiva e a arquiteta Regina Morão fizeram a ambientação.  As  bandas Três de Nós, Manoa e Tuer Lapim, os músicos Júnior, Bubu Johnson e  Basinho,  a bateria da Escola de Samba Asfaltão e a discotecagem de Leonardo Felizardo, além do artista plástico Bototo, participaram da festa de abertura da exposição.

Espaço Cultural Cujuba

A exposição de fotografias “Amazônia Negra” tornou pública a existência do Espaço Cultural Cujuba, localizado no centro histórico de Porto Velho, na divisa do Centro da cidade com dois bairros tradicionais de Porto Velho – Mocambo e Areal. Nas margens do igarapé Guapindáia e próximo do cemitério dos Inocentes, o espaço é o resultado de um trabalho de quatro anos de muita dedicação e idealismo do poeta Dom Lauro, que pensa em transformar o local em um centro de estudo de artes. O espaço ainda está em construção, mas já é uma referência e ponto  de encontro de artistas de Porto Velho.

Vice-presidente da Fundação Municipal de Cultura da Capital, Rafael Altomar conta que acompanhou  o trabalho de Dom Lauro para a construção do espaço desde que surgiu a ideia de fazê-lo. “Sei que ele dedica a vida para o Cujuba”. O casario, que antes era um espaço comercial, aos poucos está se transformando com o uso de material reciclado, argila, palha, plantas e madeirame trazido pelo rio  Madeira e o talento de artistas plásticos, com destaque para o trabalho de Hely Chatobriant.

O espaço Cujuba inclui uma editora alternativa de livros artesanais e uma produtora de vídeos. Dom Lauro também pesquisa e produz instrumentos musicais inéditos. O nome Cujuba foi trazido de outro espaço cultural construído por Dom Lauro na beira do rio Madeira, que foi levado pelas águas turbulentas da grande cheia do Madeira de 2014.

Para Altomar, a abertura das portas do Cujuba para a população com a exposição de fotografias da Marcela Bonfim “foi muito forte e muito significativa”. Pró-reitor de cultura da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Rubens Vaz Cavalcante – Binho – considera que a exposição foi o start para realização de outras atividades culturais no Cujuba. “Agora a população já conhece o espaço”. Ele elogia a iniciativa de Dom Lauro “uma pessoa que apoia a cultura popular” e propõe a elaboração de projetos para dar dinamismo ao Cujuba, inclusive com o apoio da Unir.

Serviço

Exposição fotográfica “(Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências negras na floresta”. Fotografias inéditas e outras já publicadas de Marcela Bonfim

Período de visitação: Até 20 de junho no Cujuba. No final de junho e mês de julho a mostra ficará na galeria do Sesc – Avenida Presidente Dutra subesquina com avenida Sete de Setembro – Centro Histórico da Capital

Horário comercial

Local: Espaço Cujuba, na rua Prudente de Moraes, 2449, nas proximidades do cemitério dos Inocentes / Porto Velho – RO

Quebra-pau alimentício

Por Altair Santos (Tatá)

Nas proximidades da hoje inundada cachoeira do Santo Antonio, pela parte de cima, Lobato, um cidadão de formação mínima, rude no trato com as pessoas, esforçado produtor rural, costumeiramente, em certa época do ano, aproveitando o ensejo das boas safras e exitosas colheitas, promovia animadas e mui freqüentadas noites festivas, pra animar e entreter os moradores do lugar e os visitantes, que pra lá acorriam, levados pela notícia daquelas afamadas noites forrozeiras.

Um dos motivos em promover essas baladas era expor a sua criação, além da vasta produção de frutas, legumes e hortaliças, colhidas dos seus bem cuidados roçados e levantar um dinheiro a mais. Em meio às festas, ou ao final delas, os moradores do lugar, visitantes e até feirantes da cidade aproveitavam a ocasião pra fazer expressivas compras, praticamente zerando o estoque em oferta, além de se divertirem às pampas. Era um típico negócio com valor agregado.

Para atrair os olhares e interesses da sua clientela, Lobato expunha os animais em pequenos cercados e, os outros comestíveis todos, em grandes mesas de madeira compondo uma farta, apetitosa e irresistível cena. Galinhas caipiras, porcos, jabuti, tartaruga, patos, peixes fresquinhos e até carne de paca, cutia, tatu, anta e outras caças, omissas ao saber do IBDF (o IBAMA da época) eram juntadas a cachos de banana comprida, branca, najá e prata, cachos de côco verde e maduro, ingá, goiaba, manga, biribá, abacate, jaca, laranja, tangerina, melancia e mamão em meio à cebola em palha, almeirão, coentro, alfavaca, couve, chicória, tomate, limão e macaxeira eram comercializados ao saboreio de rodadas de bebidas e rodopios dos “pés de valsa” que se acabavam em suor ao dançarem forró e xote, os estilos do lugar!

Além de incansável trabalhador da lavoura, Lobato também se esmerava na organização do evento que acontecia no terreiro de sua casa. Tudo era com ele, do contrato com o grupo musical, passando pela iluminação do espaço com muitos lampiões e fogueira, até mesmo homens para impedir que pessoas levassem armas de fogo ou cortantes para o evento. A esposa, filhos e ajudantes da lavoura assessoravam diligentemente o Lobato na produção e realização do seu festival.

Pra aumentar a possibilidade de melhoria no apurado da noite, o bar ficava sob a gerência dos designados do promoter Lobato. Certa vez, para incrementar a festança e surpreender a clientela, sugeriu que os seus comandados preparassem umas bebidas diferentes e recomendou batidas de maracujá, manga e graviola. A equipe assim procedeu, porém errou no preparo e maximizou o conteúdo de álcool. Mesmo assim, indiferente ao teor, a clientela que era do ramo tanto bebia cerveja como, proporcionalmente, sorvia alta quantidade das diferentes misturas constantes do cardápio do Lobato Drinks.

O quarteto de forrozeiros pé-de-serra, sob o comando do Zezinho do Acordeon (aquele que é cego), coadjuvado pela a Augustinha Nascimento no banjo, o Nego Aldemir no Zabumba e o Coxó no Triângulo, folheavam os repertórios de Luiz Gonzaga, Elino Julião, Marinês e sua Gente, Trio Nordestino e, do ainda pouco conhecido, Genival Lacerda.

Com o evento aparentemente andando as mil maravilhas, Lobato circulava pelos postos de negócios, estrategicamente espalhados, para auditar o andamento das vendas, a receita auferida e o comportamento dos seus atendentes. Lá pelas tantas avistou Joel, o garçon, saindo às pressas e desconfiado, de trás de um pé de papoula, com um copo vazio numa das mãos e ficou de olho. À média distância montou seu observatório e logo percebeu que, a cada dose de batida que vendia, Joel saía de fininho, pra detrás da planta, levando consigo a uma generosa talagada para consumo próprio. Aprofundando a investigação viu que além de beber, e muito, o rapaz tava todo enxerido pro lado das mulheres, fossem casadas ou solteiras. Em certo instante, o “pingômetro” denunciava alteração de comportamento do Joel, que beijava uma daqui, outra dali e até dançava aquela que música que diz assim: “é proibido cochilar, cochilar, cochilar!” E realmente ele não cochilava no ponto, passasse perto dele era cantada na certa, no mínimo, um beijinho que fosse.

Nisso, um homenzarrão vendo sua esposa indefesa aos ataques do Joel, o galanteador tarado e beberrão, foi enfurecido pra mais de mil, direto ao Lobato reclamar da situação e exigir providências imediatas, ameaçando agir e chutar o pau da barraca. O dono da festa não pestanejou e disse: Vamos lá, agora! Chegou no balcão esmurrou com força e gritou: Joelllllll, seu puto! O quê que tu ta fazendo, tu quer comer a mulher do homem é seu porra? Diz logo seu puto! O marido de coração ferido, vedo à sua frente as cores vivas da flâmula da traição, asseverou: olha cabra eu arranco tua cabeça no terçado! Brabo como um touro lançou desafio: vem aqui pra fora se tu fores homem!

Joel, um valente alagoano de Mossoró que não enjeitava uma parada e nem aceitava ameaças, pulou pro terreiro e foi chamando o patrão e o corno de uma só vez, para enfrentá-lo. E pra não restar dúvidas da sua valentia, Joel, certeiramente arremessou um côco seco na cabeça do patrão e com um mangará de banana na mão, desferia fortes e sucessivas lambadas no corpo do outro oponente produzindo imediatos arranhões. Pronto, estava feito o escarcéu! A turma do deixa disso tentou conter os briguentos mas, era impossível, quem entrasse na roda levava o seu. Joel que era exímio apanhador de melancia e outros frutos na roça, tinha força e jeito pra disparar contra tudo e contra todos, os seus frutíferos mísseis.

Bananas e tucumãs entrecortavam o céu atingindo as cabeças e produzindo galos, ingás serviam de chicotes, molhos de pimenta murupi e chumbinho eram respingados pra todo lado, uma mulher magrinha não se sabe como, lançou uma enorme jaca contra uma sirigaita desafeta que se desviou e o fruto espedaçou-se quase matando um cachorro magro que latia em meio ao samba de pau. Joel levou uma rasteira do corno e rolou pelo chão. Ao levantar-se já tinha uma galinha viva em cada mão e voltou a investir contra todos, provocando lesões e ranhuras em quem aparecesse, além das penas soltas pelo ar. Não satisfeito abriu o curralzinho soltando os porcos e sapecou um quieto jabuti contra um grupo de mulheres em faniquitos e alaridos em meio à confusão.

Com todo o efetivo ali presente, tomando parte no entrevero, sem policiamento para frear os ímpetos e, nem mesmo uma força da ONU para intervir de cessar fogo, a paz somente reinaria, talvez, quando não mais houvesse munição, ou seja, frutos, verduras e animais. No dia seguinte, os serviços de triagem e atendimento médico do Hospital São José e as farmácias da Dona Maria Oceano Alves, do seu Alcides Marinho e do seu Boanerges Lima registravam fartas ocorrências de lesões estranhamente provocados por arranhões de galinha, mordidas de cachorro, dentadas de porco, surras de ingá e cachos de açaí, pimenta nos olhos, côcos no quengo e outros estranhos hematomas e ferimentos produzidos por frutos, verduras e animais.

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Ze Pereira desbotado

Por Altair Santos (Tata)

Quando os clarins da quadra de momo soarem anunciando o carnaval aqui nos rincões karipuna, Zé Pereira, o afamado e lendário Rei da Folia com seu simbolismo, será, na avenida, um protótipo do herói desbotado, um anjo de meia asa, um manco em descompassada dança e desafinado canto. Surgirá na cabeceira da imaginária passarela um folião quase invisível na névoa da deseducação e do descompromisso cultural. A discussão em torno do carnaval das escolas de samba, sempre ocupa espaço de debate. Fomos, somos e seremos partidários da discussão do cada vez melhor e mais organizado, entretanto os certames dialógicos em torno de se apoiar ou não, financeiramente, o carnaval das escolas de samba, já estava noutra pauta, as agremiações já haviam se aproximado mais e começado a entender os novos rumos e a vida noutra atmosfera, em futuro próximo, em forma derealidade nova. Alguns pequenos, porém marcantes passos, já haviam sido dados. Obviamente muito ainda há de ser feito no campo da ressignificação da atividade e o seu valor para o contexto cultural. Urge que se reveja o próprio posicionamento da FESEC esuas entes-federadas, as escolas de samba, como braços vivos e atuantes na ordem da transformação. A herança pra lá de cinquentenária de um carnaval que vivia – e ainda vive – na sombra do paternalismo não deve ser debatida como vício, coisa nociva ou desagregadora e sim, como herança viva e riqueza histórica a ser preservada. Entretanto não se muda hábitos e costumes assim da noite pro dia e nem tampouco, se constrói as coisas a golpe de machado ou marretadas desferidas aleatoriamente como se fosse o carnaval e seus agentes habitantes de um poço de desalmados e desocupados, voadores moribundos e implacáveis mal feitores. Há de se entender e respeitar os últimos comentários postados na rede social sobre a nota oficial da prefeitura e o tão propagado apoiooficial. Não gostar de carnaval, não deve nunca representar que a atividade venha a ser ceifada do calendário em detrimento doutros interesses, Recurso público destinado para a cultura, é sim pra promover o fomento e o incentivo aos programas e projetos daárea. Muito se fala e se diz que este recurso deveria ir para a educação, para a saúde, para obras, isso e aquilo, etc, Ora vejamos, devem os desavisados e desinformados saber que estas áreas já têm os seus orçamentos garantidos em percentuais inimaginavelmente acima do que é destinado para a cultura. Não seria o menor dos orçamentos públicos (o da cultura) que iria salvar redes hospitalares e fazer expressiva diferença no campo da educação. Um certo comentário (posição individual), na internet,torpedeou o carnaval e as escolas de samba, dizendo que esse dinheiro deveria ir pra Jesus, para que o segmento evangélico pudesse fazer seus eventos pois, quando é pra Jesus nunca se temnada. Perguntamos: Jesus e sua obra divina estão mesmo carentes de recursos assim? Outro comentário até chamava de vagabundos os trabalhadores do carnaval. Queremos educação em bom plano, queremos saúde eficiente e queremos cultura pra alimentar nossas mentes, ideias e corações, somos cidadãos e cidadãs e isso nos é constitucionalmente garantido. Somos do entendimento que dinheiro destinado para a cultura não é despesa e sim investimento. Basta uma rápida reflexão, ao pé da realidade que circunda a produção do carnaval, pra se ver o número de empregos gerados, a movimentação no comércio de tecidos, fantasias e artigos carnavalescos, hotéis, bares, lanchonetes e similares, serviços de transporte (táxi, ônibus, mototáxi), dentre outros. Ainda nos falta sim, abrir a clareira da nova estrada pela qual passará uma produção cultural mais organizada e melhor planejada. Isso, porém, não se dá com o quase extermínio de tão rica manifestação cultural, assentado no querer de uns tantos apátridas da cultura. Podem até não admitir, mas cultura educa, forma, informa e até cura certos males como, por exemplo, as agudas crises das mentes pueris por onde orbitam o desprovimento cultural daqueles que “são ruins da cabeça ou doentes dos pés”, segundo Dorival Caymmi. Noutras, palavras, pra exterminar o carrapato, tão querendo matar o boi.