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Dependência afeta profundamente as mulheres

 

Por Alice Schuch

A psicóloga argentina Clara Coria alerta para a necessidade de compreensão das questões que afetam profundamente as mulheres. De acordo com o filósofo e economista britânico Stuart Mill, já em 1806, o primeiro e indispensável passo para a emancipação das mulheres é a educação de modo a não necessitarem do pai ou do marido para manter-se, posição esta segundo o autor, que em nove entre dez casos as convertem em joguete ou em escravas daquele que as alimenta, e no caso número dez, em sua humilde amiga e nada mais.

“Convém sermos vigilantes porque quanto em nosso interior descobrimos alguém que nos freia, somos nós que o escolhemos e o queremos, pois ao interno de cada uma a decisão é pessoal”, explica a doutora e pesquisadora Alice Schuch.

Como refere a obra O Em Si do homem: “se o sujeito não se desenvolve em crescimento, perde a memória, o traçado e a forma segundo o tipo de privação que sofreu em cada sucessiva interação que o fez regredir”.

Em sentido positivo, ao aperceber-se de uma presença vital, a inteligência feminina deseja e escolhe aquela relação para crescer. “Essa é a lógica da vida: busca um comportamento de permanente adaptação a cada realidade de contato enriquecedor, útil e funcional ao próprio devir”, diz Alice.

Como refere Maslow, todo o ser humano porta dentro de si dois conjuntos de forças. Um deles apega-se a segurança e a defesa e tende a regredir, temeroso de correr riscos, de colocar em perigo aquilo que já possui, receoso da liberdade e da separação. O outro impulsiona para a totalidade, para a individualidade, para a ação plena e para a confiança em relação ao mundo externo.

“O igual não existe no mundo da vida, cada uma de nós é diversa por como se constrói. Nascimentos são constantes para aquelas que crescem e realizam. Por isso, investir no pessoal desenvolvimento me torna mais eu, mais real, mais bela e muitíssimo mais feliz. Calma, ma fare subito ou: Calma, mas faça logo!”, sugere Alice Schuch.

Na luta é que a gente se encontra

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dias antes do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, estive num lugar que, por analogia, me fez sentir ainda mais o desastre imensurável para a história, a cultura e a ciência brasileira.

Cerro Corá fica perto Pedro Juan Caballero, a 41 km de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, fronteira com o Brasil. Ali, as tropas brasileiras da Guerra do Paraguay, conduzidas pelo General Câmara sob o comando do Conde D´Eu, (marido da Princesa Isabel, A Redentora, que libertou os negros da escravidão, segundo a história oficial brasileira), encontraram o que restava do exército em fuga do  Mariscal Solano Lopéz.

No riacho Aquidaban Nigui o cabo Chico Diabo golpeou “El Supremo” e entrou para a história. A nossa, que não nos conta que Elisa Lynch, a poderosa amante do presidente, enterrou com a ajuda de sua filha, usando uma lança, não apenas os restos mortais do Mariscal, mas de seu filho de 16 anos, o Coronel Juán Francisco López. “Panchito” também se recusou a se entregar aos inimigos.

Estudo essa história desde a adolescência quando meu pai serviu em Bela Vista e virei rata da biblioteca do médico paraguaio, o Dr. Caito. Lá comprovei, lendo em espanhol os relatos que contam o outro lado dessa incrível saga sul americana, que a verdade pode até querer ser uma só, mas tem sempre várias versões.

Minha memória se colore com a panapanã que encantou a primeira vez que visitei Cerro Corá, ainda criança. O local em que os combatentes caíram estava “tapado” por uma nuvem de borboletas amarelas, como as que reencontrei na Macondo, de Gabriel Garcia Marques.

Agora, ali é o Parque Nacional Cerro Corá, com mais de 5500 hectares. O marco, na Ruta 5, e um pórtico estilizado indicam sua entrada. Um pouco recuada fica cancela de identificação e a portaria com a simpática guarda florestal fazendo a recepção e apresentando o minimuseu. O lugar também é um sítio arqueológico.

Seguindo se alcança o mirante que marca o local onde aconteceu o último embate entre as tropas, em 1 de março de 1870. O visual é deslumbrante, com o Cerro Corá dominando o cenário. Bustos dos comandantes que ali sucumbiram vigiam o território paraguaio.

Mas ainda não era isso que estava procurando. Dalí, uma alameda cercada de palmeiras leva à grande cruz que marca onde estiveram enterrados os heróis paraguaios. Ao lado, um nicho formado por guerreiros de pedra, adornados com elmos e lanças de metal estilizados, indica onde Madame Lynch enterrou Solano Lopéz e Panchito. Ainda é necessário fazer um caminho por pequenas trilhas para chegar, no Aquidaban Nigui, ao passo onde o líder paraguaio sucumbiu.

O que mais me impressionou foi a proposta do parque.  Não há uma invasão visual. Tudo integra os acontecimentos aos locais. Dá para notar a imponência das linhas do monumento no local da batalha e da cruz, de tempos mais antigos, e a linda proteção dos guardiões, homenagem do ex-presidente Fernando Lugo. As equipes trabalhando e a conservação dos jardins, alamedas e trilhas, mostram o zelo com o espaço.

Vivi tudo isso com as lágrimas nos olhos do meu sonho colorido de infância dias antes de, estarrecida, ver arder (há exatos um mês) nossa memória – e, inclusive, desconfio, objetos ligados a essa história – na Quinta da Boa Vista.

Quando voltei ao Rio, caí dentro do registro da Bateria da Mangueira na escolha do samba que cantará na avenida o enredo do carnavalesco Leandro Vieira, “História para ninar gente grande”. Ele fala da “história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar”. Cito trecho de uma das parcerias, a de Deivid Domenico, que concorre na final, dia 13 de outubro, no Palácio do Samba, a quadra da Mangueira.

Não costumo me manifestar durante essa etapa do processo carnavalesco, a escolha dos sambas, que acontece até meados de outubro. Mas, confesso, torço para cantar na Sapucaí “tem sangue retinto, pisado, atrás do herói emoldurado” e meu nome, MARIA, junto com as “Mahins, Marielles, Malês”, “Lecis, Jamelões”. Quero muito dar nome aos nossos verdadeiros heróis que, diga-se de passagem, nem sempre precisaram matar para assim serem considerados. Eles e tantos outros anônimos elementos catalizadores do que nosso país tem de melhor.

Pense nisso na hora de exercer seu voto nesse domingo. Na base de seus representantes. Se escolher seu presidente é complicado, mais difícil é ter critério e consciência ao escolher senadores, deputados federais e estaduais. Caberá a eles representá-lo nas difíceis decisões que virão pela frente. Afinal, “na luta é que a gente se encontra…

* Este é o link para clip do samba mencionado:https://youtu.be/s91TcNhfYtY e, aqui, seu feito na torcida verde e rosa https://youtu.be/asc92FJmwYQ

** Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Das séries “Fronteira oeste do Sul” e “É Carnaval”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Medidas compensatórias

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vivendo e aprendendo. Inclusive a não prometer o que não sei se vou poder cumprir.

Na última passada nesse espaço, com a crônica “Logo ali”, jurava que seria capaz de fazer você, leitor, acompanhar as etapas da viagem a Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguay e adjacências.

Cheia de boas intenções, pretendia enviar relatos semanais da entrada por Campo Grande, a descida até Ponta Porã, uma passada planejada em Bonito. Depois, dias em Aquidauana, antes de voltar para Campo Grande e para a rotina imprevisível da vida no Rio de Janeiro.

Quais as partes (observe o plural) que não foram cumpridas? Enquanto atravesso uma área de turbulência, já pertinho de São Paulo, tento fazer um balanço das semanas que inexisti no sentido literário de meu compromisso com você eleitor – ops, ato falho, leitor – e enviar para a publicação os textos e fotos.

E quer saber? Não me arrependo. Quase tudo deu certo e o que deixei de fazer foi substituído por experiências diversas e inesperadas. Um exemplo?

Para ele, me baseio numa teoria que acabo de criar e ando burilando. Imaginem um registro gastronômico. Você vai ao restaurante e, antes de abrir os trabalhos, para tudo. Faltou a foto ma-ra-vi-lho-sa do prato em questão. Ali, saboroso, com aroma e temperatura perfeitos. No mínimo, preciosos segundos de contemplação foram perdidos.

A comida esfria enquanto a gente dá uma ajeitada no entorno, acerta o plano, gira o prato para ficar ainda mais apetitoso, arruma os talheres. Tira as logos dos refrigerantes e da água do quadro. Claro, se houver um bom vinho, tem que acertar a posição do rótulo. Não frontal, displicentemente, quase lateral. Aproximar a taça devidamente preenchida até a altura adequada, dependendo do tipo da bebida.

E a comida? Linda na foto (que você já checou para ver se está no foco, no ângulo certo). Esfriouuu… Amado leitor. Sou muito chata para comer e, se o prato for irresistível, tenha certeza: lá se foi o registro perfeito para as redes sociais. E ainda tem antenados que fazem as postagens antes de cair de boca. Com direito a textinho, localização hashtag e marcar o estabelecimento e os amigos. Fora as “Stories”.

Estou. Fora. Se estava irresistível certamente não haverá registro. Assim como de outros momentos especiais na minha vidinha…

Agora, amplia isso para uma viagem inteira. Locais, encontros, aventuras. Espero ter explicado porque nos últimos 20 e poucos dias o máximo que consegui foi dar uma curtidinha nas fotos feitas por amigos que me pegaram de jeito com meu “sorriso gato da Alice”.

Todo mundo sabe que sou tímida, envergonhada e detesto ser fotografada. Essa é uma das razões que escolhi ficar do lado oposto da máquina fotográfica. Mas, como virou moda o registro incondicional de encontros e divertimentos, para não ser mal-educada e evitar muita zoação, desenvolvi essa técnica. O sorriso do gato, inspirado no bichano de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll. Essa foi a maneira de saber por onde andei. Nos perfis amigos.

O Instagram, companheiro e cumplice compreensivo, solidário com sua assinante, emburrou. Deu de travar, engasgar, e refugar em boa parte da viagem. Me explicaram que, coitadinho não é chegada no 3G, sofisticada e phyna…Essas foram algumas falhas imprevisíveis nas intenções iniciais da viagem.

Cabe registrar que a aventura gastronômica no paraíso também não aconteceu. Baixou o lendário nevoeiro em Ponta Porã. O frio veio junto. De rachar. Foi impossível o deslocamento para Bonito com a partida de Ponta Porã tendo que acontecer de madrugada num dos dias mais frios do ano…

Como já disse, as frustrações tiveram suas compensações. E essas, não prometo mas, pretendo, contar nos próximos textos sul mato-grossenses.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

O silêncio do suicídio

por Aline Rodrigues

Você já pensou em pôr fim à sua vida? Pode soar de forma agressiva, mas se trata de uma pergunta que tem rondado os pensamentos dos brasileiros mais do que imaginamos.

Outra questão é: Você conhece alguma pessoa que suicidou? Acredita que essa pessoa efetivamente suicidou ou que foi um acidente ou morte natural?

A sinceridade em assumir esta realidade é extremamente importante. Porque, a negação deste comportamento é um dos grandes fantasmas que potencializam seu aumento.

Como iremos tratar algo que não consideramos existente? E assim, negando sua existência, mais e mais pessoas colocam fim em suas vidas por não conseguirem mais suportar ou lhes dar sentido.

Dados estatísticos revelam que, anualmente, 800 mil pessoas suicidam no mundo. Sua maior incidência acontece na faixa etária de 15 a 29 anos. E, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Brasil apresenta um registro de 12 mil mortes por ano. Um dado assustador.

Diante deste cenário, podemos abrir inúmeras discussões. Atenho-me apenas a uma reflexão: todos que atentam contra a própria vida o fazem por estar vivendo um quadro de doença psíquica? Afinal, este é o discurso que ouvimos a todo instante. De fato, isso precisa ser questionado, visto que a dimensão psicológica não é a única que norteia o ser humano.

É válido ressaltar que somos um ser biológico, psicológico, social e espiritual. Que dentro da dimensão biológica, pode se notar alterações neuroquímicas e hormonais que estão relacionadas diretamente ao quadro de humor da pessoa, um dos fatores que implicam no comportamento suicida.

Outra dimensão é a psicológica. Claro que esta é a que mais atinge esse público, inegavelmente. O aumento de doenças psíquicas como depressão, ansiedade e tantas outras patologias, tem gerado o que chamamos de “adoecimento coletivo”. Atrelado a essas patologias, podemos notar que o ser humano tem ficado perdido quanto à sua identidade.

Muitas vezes, não reconhece o seu lugar, valor e missão no mundo. O que gera confusão e sensação de falta de sentido. Não entro aqui na discussão de casar ou não, ter filhos ou não, trabalhar ou não. Falo das frustrações e decepções vividas, do sentimento de abandono e desamparo sofrido. De olhar para si e não reconhecer nenhum sentido na própria vida.

Uma outra dimensão que potencializa esse sofrimento humano é a social. A sociedade tem violentado o ser humano, pois ele não consegue freá-la, nem dar respostas saudáveis. Vive no automático, respondendo a uma cultura de massa, que tira toda a sua individualidade. Exigindo, muitas vezes, um comportamento e uma forma de pensar muito diferente do que é dele. E uma vez que não consegue encontrar o seu lugar nesta sociedade, perde o sentido da vida. Essa dimensão é como um gatilho no revólver que é a nossa estrutura psíquica.

Essas dimensões humanas são como os pés de uma mesa: se uma está doente, é como se o pé quebrasse. Um pé da mesa quebrado, o que acontece? A mesa fica “manca”. Esteja atento, reconheça essas dimensões nos integrantes de sua casa, olhe para a dor do outro que está perto O suicídio é real, fruto de uma realidade doentia de alguma das dimensões da nossa vida.

Temos uma geração fraca, que não sabe lidar com as frustrações, decepções e os NÃOS que são próprios da vida. Aprenda a dizer não! Auxilie seus filhos a lidarem com as decepções e frustrações. Mostre às pessoas que você ama que é possível achar o equilíbrio, enfrentar e superar o problema que tem gerado essa dor momentânea.

*Aline Rodrigues é psicóloga, especialista em saúde mental, e missionária da Comunidade Canção Nova. Atua com Terapia Cognitiva Comportamental; no campo acadêmico, clínico e empresarial.

Logo ali

Texto e foto de Valéria del Cueto

Fiz que fui, quase fiquei mas, para felicidade geral, acabei indo. A vida é uma partida de futebol interminável incluindo os deslocamentos pelo campo que é esse mundão de Deus. Como todo bom jogador completo vou para onde o técnico manda. Porém, confesso, tenho minhas preferências e, quando posso, faço escolhas próprias baseadas em algumas variáveis.

Adoro ir onde o vento leva. Mas hoje, além do bom tempo, sigo as correntes dos preços das passagens aéreas, as cotações das moedas de países da lista de desejos e outros critérios mais objetivos do que gostaria esse ser viajandão.

Reconheço que em alguns momentos apago as prioridades e tomo um rumo certeiro por exigência de sobrevivência do equilíbrio básico necessário para fortalecer meu eu interno. Aí, troco o oceano de água salgada por um imenso mar de água doce no centro do continente sul americano. Nele, me dispo das camadas do convívio ligeiro e superficial para encarar o mais difícil e complexo personagem do repertório da vida: ser eu, apenas eu.

Tá, já sei sua pergunta: “o que a água doce te dá que a salgada não te traz?” A resposta é dolorosa, mas real. Entre outros benefícios, a segurança.

Na minha praia carioca todos os sentidos têm que estar alertas. Mesmo em momentos como esse de concentração literária. Tudo pode acontecer e, das duas uma, ou vira crônica ou motivo de, com toda a agilidade disponível, levantar acampamento e seguir outro destino.

Foi assim, quase traumática, a última experiência no Arpoador. Do luxo ao lixo em poucos e preciosos minutos. De uma crônica inspirada sobre o paraíso  “Quase perdido”, a ser testemunha involuntária de uma barbárie oficial no horário nobre do por do sol mais famoso do Rio de Janeiro, talvez do Brasil, quiçá da América do Sul. Tirei de letra a crônica da felicidade e registrei em vídeo a violência oficial da guarda municipal, cotidiana e banal na cidade partida.

No impacto dos acontecimentos concluí que era hora de trocar o tempero das águas cariocas por correntes menos imprevisíveis. No “unidunitê” dispensei os “salameminguê” e usei um critério climático para cravar o novo destino.

Na dúvida, entre o Pantanal de Mato Grosso e o irmão do sul o segundo levou a melhor. Nele, como em todo nosso Centro Oeste agro pop, a umidade do ar está um pouco mais relativa e amigável. Volto às origens, agora partidas, de uma terra especial que (re)conheço desde criança. Fugindo da secura caí para o oeste e para o sul.

Do alto da serra de Maracaju vislumbro o doce mar que tanto anseio. Quero o silêncio barulhento das águas, da terra e dos animais para substituir as batidas das paredes sendo derrubadas nas múltiplas reformas do meu quadrado copacabanense. O sussurrar das folhas ao vento ao invés do som do corte do esmeril que entra pela janela transformando meu pequeno mundo numa cadeira de dentista com a broca indo e vindo 8 horas por dia.

Não, não é aqui no avião que atingirei o nirvana. Pelo menos no trecho Rio-São Paulo. No agradável trajeto uma menininha de uns três anos resolveu decretar o apocalipse e, da decolagem ao pouso, berrou delícias a todo pulmão do tipo: “Estou com meeedo”, “Balançoou…”, “O avião vai cair…”. Tirando a gritaria em si, nada disso me abala, mas pegou na veia de outros passageiros que, de tanto aguentarem a ladainha desesperada da pequena, foram emprenhados pelo ouvido e, apesar da tranquilidade do voo, resolveram distraí-la. Adiantou? Não.

Os excelentes pais sem domínio sobre a cria deixaram o tumulto correr frouxo. Nada que meio Dramin, para fazer a malinha sem alça e sem rodinhas descansar, não resolvesse. Ou um pouco de autoridade familiar. Mas aí também era querer demais… Melhor abstrair e ignorar as expressões da metade dos passageiros enfurecidos e incomodados. Eles que se mudem! Mas para onde?

Foi a última prova antes de alcançar o nirvana que buscava. Duríssima! Não sucumbi e resisti. Agora, estou no trecho como gosto. O paraíso é logo ali…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Adivinha?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estiquei o máximo que pude e dei linha para a pipa da cronista enclausurada sabedor dos efeitos prolongados da lua de sangue do eclipse do final de julho.

A desculpa é boa mas não totalmente verdadeira por deixar de retratar o impacto que a noite de sexta-feira e os efeitos do fenômeno provocaram em mim, um extraterrestre reconhecidamente acariocado.

Descrevo o evento para explicar a demora nesse contato com a amiga voluntariamente recolhida a uma cela do outro lado do túnel.

O veranico de julho ainda reinava, transformando a paisagem do Rio de Janeiro um daqueles cartões postais que conseguem apagar com sua exuberância e beleza as mazelas da cidade. Água caribenha, apesar da ressaca que chacoalhou o litoral nos dias anteriores, céu de brigadeiro e uma brisa fraca esperavam os visitantes que se preparavam para ver o eclipse. O primeiro lugar escolhido por 10 entre 10 apreciadores foi o Forte de Copacabana. No meio da tarde a fila gigantesca que serpenteava pela Francisco Otaviano recebeu a notícia que as senhas para a entrada nas instalações militares haviam se esgotado.

A opção B foi a Pedra do Arpoador, do lado da Praia do Diabo. Disfarçado de mim mesmo cheguei cedo e encontrei uma protuberância que serviu de mangrulho (posto militar de observação em lugar elevado, aprendi a palavra numa música gaúcha) natural. Dali não saí nem me mexi até o final do espetáculo. E assim tinha que ser já que, depois de estabelecida a base, a população cresceu absurdamente no entorno. A ponto de não dar mais nem para esticar as pernas.

Depois do por do sol a quantidade de gente cresceu mais ainda. Quem estava apreciando a performance solar, não tão bonita quanto no verão quando o sol se põe no mar, entre as ilhas, viu o astro-rei descer entre os prédios e a montanha. Depois, se moveu para ter o visual do lado leste, onde a lua surgiria.

Era engraçado ver a direção em que a maioria dos assistentes se posicionou. Claramente achavam que a lua, já eclipsada e, portanto, avermelhada surgiria em cima das montanhas quando, na realidade, ela apareceu por cima do mar.

Aí, veio a segunda confusão. A “linda bruma” que se via na barra do horizonte (na verdade, uma camada de poluição) era tão espessa que a lua teve que vencer essa nova barreira e já surgiu quase tossindo, pálida de tanta suspensão, bem acima do mar.

Não precisa dizer que entendo plenamente o significado dessa camada, a mesma que impede minha espaçonave de ultrapassar o ozônio que habita a atmosfera terráquea e me levaria para novas aventuras intergalácticas.

Não fosse esse jeito carioca de ser já assimilado, certamente, já teria entrado em desespero e feito alguma tentativa desesperada de levantar âncora em direção a novos mundos.

Acontece que nessa terra, basta a gente ficar imóvel e deixar a vida passar em seu ritmo (a)normal para saber que não haverá tédio nem paradeira. Entre músicas diversas, drones dispersos e muitas câmeras mais ou menos profissionais a lua, acompanhada de Marte, brilhando forte, deu um banho de luminosidade na humanidade.

Foi deixando essa energia fluir que me atrasei um pouco para vir trazer as novidades. Esperava que o efeito também se prolongasse pela fresta que a ilumina. Pelo menos até chegarmos as últimas novidades.

Cara amiga, acredite, “habemus candidatus”. Para todos os gosto e tipos. Encarcerados como você, apalermados, genéricos, patéticos, coligados, ajojados, amontoados, enfim, para tudo falta pouco. O grande dilema para candidatos a presidente e governadores foram os vices, todos escolhidos na última hora, alguns pegos a laço.

O próximo passo? O compasso. Um átimo até as eleições, onde nem a lua adivinha o que poderá acontecer…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

O chuá no chuê, chuê

Texto e foto de Valéria del Cueto

Céu, sal areia, mar. É tudo que se faz necessário para, finalmente, abrir o ciclo do segundo semestre (pós Copa do Mundo da Rússia) já em curso. A registrar, além das surpresas que fazem do futebol um esporte tão vivo quanto a bola do jogo, as cenas inesquecíveis da premiação.

Se tudo estava quase dando certo para a imagem vendida ao mundo pela potência anfitriã, ali, todo esforço semiótico (que incluiu ensinar seus sisudos cidadãos, pelo menos nas cidades sedes, o poder do sorriso), caiu por terra.

Na verdade, a lua de mel havia ido somente até a questão da homofobia legal que impede manifestações LGBTS e afins de qualquer tipo em local público. O limão acabou virando limonada e as camisas das torcidas formando a “bandeira” com as cores do arco-íris foi notícia mundial. Um estepe alegórico que tirou o foco da questão mais séria: o direito usurpado de manifestar sua sexualidade livremente.

O que se esperava? Não, a Rússia não é um país democrático. Portanto, manda quem pode, obedece quem quiser (ainda) ter juízo.

Na cerimônia de encerramento a participação do atabaque do campeão mundial de 2002 Ronaldinho Gaúcho foi, sem dúvida, um toque de mestre para aproximar a nação que convidava de seus exóticos visitantes de todos os quadrantes do mundo. E convenhamos, quando o assunto é sorriso, Ronaldinho bate um bolão.

Tudo acontecia conforme o minunciosamente planejado até que um imprevisto climático serviu para, em minutos, fazer cair a máscara de polidez, respeito e delicadeza do cerimonial do encerramento.

Começa a chover. No palco do gramado os presidentes da Fifa, da anfitriã, da França e da Croácia participam da premiação da inédita vice-campeã e da bicampeã mundial, a seleção francesa. Aos primeiros pingos surge um e-nor-me guarda-chuva. Ele é posicionado para proteger os convidados, entre eles uma dama, a mandatária croata? Não.

O apetrecho impede que apenas e tão somente o poderoso Putin seja protegido do aguaceiro que, em questão de minutos, encharca as autoridades. Os jogadores, recebendo suas medalhas e cumprimentos, cá entre nós, não têm do que reclamar, querem mesmo é festejar a conquista.

As câmeras da transmissão oficial reproduzem as imagens para o mundo e mostram a cena constrangedora por vários minutos. O terno do presidente Emmanuel Macron, da França, já havia até mudado de tom, de tão molhado estava. Assim como a camisa xadrez da seleção croata e os cabelos da presidente Kolinda Grabar-Kitarovic, nada resistiu a chuvarada que desabou sem dó nem piedade celestiais.

Finalmente começam a surgir outros guarda-chuvas. Menores. Eles são distribuídos aos assistentes para que protejam os convidados. Só que… mais uma vez, diante do mundo, as prioridades são invertidas. Primeiro eles. Eis que chega uma proteção para Macron. Depois, os próprios assessores se garantem…

Ali se via como a banda toca: todos protegendo os chefes e se protegendo. Sem ninguém tomar a iniciativa de, num ato de gentileza, oferecer abrigo à única mulher na linha de frente da cerimônia, a presidente da Croácia.

O que há de anormal na cena? Nada. Esta é a ordem mundial, a vida, a sociedade. É o terceiro milênio! Onde (ainda) é preciso matar um leão por dia para se impor. A vitória foi francesa, mas Macron, ao distraidamente esquecer tudo que sua professora e companheira deve ter lhe ensinado em sua convivência sobre como tratar as mulheres, colaborou para agigantar ainda mais o feito da Croácia e de sua presidente.

A que viaja de avião na classe econômica, paga sua passagem com dinheiro do bolso e tem descontados de seu salário os dias que acompanhou, como torcedora nas arquibancadas, a incrível trajetória da seleção de seu país que, como ela, surpreendeu o mundo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Alta performance na vida: o poder do silêncio

Por Fernanda Surian

“Pra mim, o silêncio é uma higiene mental. É com ele que começo meu dia, sempre que possível, e é ele quem me salva quando a mente já está saturada de informação, barulhos e precisa de calma para pensar” A frase é da atleta de alta performance Fernanda Surian, quatro anos de Crossfit e que compartilha em suas redes sociais a busca pela dobradinha resultado e qualidade de vida. Pode parecer simples demais, mas o silêncio é artigo raro nos dias de hoje, especialmente nas grandes cidades. Já nos acostumamos com os barulhos dos carros e das buzinas, mas experimente perguntar a alguém que vive em outro lugar: nós temos barulhos demais!

E como estamos acostumados a eles, e a músicas, conversas, televisão, rádio e tudo mais que emita som, não parece que isso possa ter efeitos tão nocivos ao nosso bem-estar. Sobre sua experiência de aumentar períodos de silêncio na rotina, Fernanda revela: quando comecei a prestar atenção a essas pausas no meu dia, em que me proponho apenas a silenciar, percebi que há uma energização, as ideias clareiam, é algo que costumo fazer quando preciso me concentrar para estudar, por exemplo, ou quando estou em um momento do dia em que dá vontade de dizer CHEGA!”. Para ela, o silêncio é uma espécie de “basta” pra esse zunzunzum que acaba trazendo estresse, irritação, ansiedade.

A atleta cita duas coisas bem importantes que aprendeu sobre o silêncio:

Estamos acostumados a reagir diante das situações. O que isso quer dizer? Alguém fala/questiona/ataca e a gente já tem que ter resposta na ponta da língua, certo? Bem, nem sempre. Às vezes, silenciar antes de reagir pode nos trazer outra perspectiva das situações, nos fazer agir com mais clareza e evitar confrontos desnecessários. E, se eles precisam acontecer, que seja de cabeça fria e argumentos concretos, não é mesmo?

Ansiedade e estresse são falta de estar no presente. Há algo de muito poderoso em silenciarmos, olharmos em volta e vermos que, agora, está tudo certo. Quanta ansiedade passamos por coisas que nem chegam a acontecer? E quanto estresse por situações que já terminaram, e que só continuam em looping na nossa mente? O silêncio é uma ferramenta incrível para estar no presente.

Fernanda lembra que, com o silêncio, aprendemos a entender também os movimentos que estão no pensamento e que normalmente não percebemos: “observar os próprios pensamentos permite ter mais clareza sobre as situações, nos dar conta do que realmente nos preocupa ou estressa”. Segundo ela, ouvir o que pensamos é enriquecedor.

Tempo de Lazer e Tempo de Estudar

Por Janaína Spolidorio

Com a correria que vivemos atualmente e a necessidade de termos, quando adultos, múltiplas atividades para o mercado de trabalho, muitos pais acabam sobrecarregando os filhos com atividades extra-curriculares e isto pode causar estresse e pouco aproveitamento.

Primeiramente, é preciso que a criança tenha sim aulas extra-curriculares, mas que ela possa sentir prazer nestas aulas, ou pelo menos em algumas delas. Talvez o desejo da mãe seja que a filha faça balé, por exemplo, mas ela gosta de bateria. Investir no desejo da criança, neste caso, pode ser essencial para que ela se saia bem nas demais aulas extra-curriculares. Por gostar tanto da bateria, aproveitando o exemplo, ela irá se dedicar e encarar a aula como se fosse um lazer.

Antes de matricular em várias aulas e causar excesso de atividades, reflita quais são as melhores opções para a criança. Quais serão as aulas realmente indispensáveis ao seus futuro e quais são apenas “acessórios”. Tome cuidado para não colocar muitas aulas que requeiram estudo formal, mescle com aulas de teor mais “leve”.

Um bom exemplo é que a criança tenha tanto aulas de estudo regular, como de um idioma, quanto aulas que requeiram habilidades físicas, como artes marciais ou dança ou até um esporte, uma vez que a atividade física é importante para a saúde.

Não coloque excesso de aulas, porque a criança ainda tem a escola regular para lidar. Ela precisa do tempo de poder se dedicar aos estudos, senão com o tempo começam as recuperações e desculpas de falta de tempo para fazer tudo.

Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim… é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você…não suporto mais brincar…”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus…

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil…

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Eurico Miller, quando o homem se confunde com a ciência

Por Danilo Curado

Hoje a ciência no Brasil perde um grande homem, mas a Arqueologia perde um dos maiores pesquisadores. Eurico Miller, o patrono da Arqueologia Rondoniense seguiu sua trajetória, mas seu legado para a Memória Nacional é algo imensurável.

Sem sombra de dúvidas, o professor Eurico Miller foi um dos maiores arqueólogos no Brasil. Não quero aqui usar da régua de quem é melhor ou pior, qual o cientista que alcançou maior profundidade ou notoriedade, não é isso.

Quando digo que Miller foi um colosso dentre os arqueólogos é porque Miller – conforme palavras dele mesmo sobre a sua vida – se casou com a Arqueologia. Era um abnegado e o que mais alimentava sua alma era, sem sombra de dúvidas, a própria Arqueologia.

Como certa vez um colega disse, o professor Miller era o “Cowboy da Arqueologia”, ou seja, era aquele que conseguia sozinho entrar no meio da Floresta Amazônica e ficar escavando, solitariamente, meses afinco, sob chuva e sol, num calor ululante, metido num buraco de metros de profundidade, para, no máximo do isolamento de um ermitão – envolto às cobras, onças e animais não muito amistosos – entender o passado humano, o passado do povo brasileiro.

Este mesmo Cowboy, que suportou nada menos que 31 malárias ao longo de décadas de pesquisa, foi o mesmo que, quase como num filme de John Wayne, Ferroni ou Eastwood, resgatado no interior de Rondônia debruçado sobre um cavalo, que mansamente carregava aquele moribundo vitimado pela malária.

Mas mais que um roteiro de Velho Oeste ou Indiana Jones, a vida do pesquisador Miller fazia a qualquer um vibrar com tamanha eloquência professoral, e com um conhecimento abissal conseguia relacionar facilmente fatos geológicos decorridos no Brasil com correntes marítimas no Japão, o cultivo do milho no Peru e a entrada do homem nas Américas.

Sem contar o bom humor provocativo, que ao ver-nos em nossos expedientes, enclausurados na burocracia reinante das normas, sempre nos alertava sobre a necessidade de ir para o campo, de pesquisar, de embrenhar no mato, enfim, de fazer Arqueologia.

Num ano de vitórias para os arqueólogos – uma vez que tivemos nossa profissão regulamentada – temos por obrigação rememorar a trajetória dos nossos colegas, que de forma seminal começaram do zero, daqueles que antes de tudo faziam Arqueologia com Paixão.

É indiscutível que Miller está entre os pioneiros e é um dos responsáveis pelo entendimento sobre a gênese do homem no território nacional, por isso, seu nome perpetuará de maneira imortal na memória da arqueologia brasileira.

Ao querido amigo Miller, como de costume do grito de guerra que ecoa na Amazônia: Selva!!

As chuteiras sem pátria

Por Julio Yriarte

A Copa do Mundo Rússia 2018 começou e ainda não terminou!

A seleção brasileira, infelizmente tropeçou no meio do caminho, desta vez nas quartas. A Argentina, Alemanha, Uruguai idem! Da mesma forma, outras tantas e boas seleções. Tanto uma quanto outra chegaram com a esperança (ou a certeza) de empoderar-se e quiçá, de apoderar-se do Campeonato Mundial!

Aqui, como lá, o país parou, e no caso, aqui, seus mais de 170 milhões de habitantes se esqueceram de tudo, até de comer, de beber e de amar, para, a cada jogo ficar pendentes diante de uma telinha acompanhando o balé dos seus meninos/ídolos em campo.

Quem quis trabalhar não conseguiu, quem quis silêncio para pensar, meditar ou simplesmente dormir também não conseguiu. Todos foram obrigados a compartilhar os gritos de ansiedade da torcida nervosa que comeu as unhas e chorou e se agitou diante do jogo, ou ouvindo os foguetes a cada gol.

Não adiantava! Ninguém iria trabalhar mesmo. E quem tentasse, não conseguiria render. É o destino da pátria sendo decidido por 11 pares de pés que se movimentam em campo, e por duas mãos do goleiro que impede o gol do adversário.

Estranho, muito estranho, uns querendo o gol, outros querendo impedi-lo? Por isso há que concluir: é apenas um jogo e assim deve ser tratado, não vale a pena sofrer, chorar, cacarejar havendo tantas coisas e assuntos mais importantes para fazer, para pensar…

As empresas e repartições públicas se resignaram: meio expediente ou expediente nenhum quando houve jogo do Brasil. Aí. O país não andou nada produziu, salvo algumas esdrúxulas propostas legislativas aprovadas ao compasso da euforia de um GOL!

Óbvio que pela perícia no esporte nacional, pela quantidade de bons jogadores, o Brasil se faz respeitar no mundo inteiro. Será que o povo está muito exigente? A Arena Kazan, na Rússia foi o grande palco da derrota. A seleção brasileira perdeu e o povo está querendo crucificar seus antigos heróis, incluído aqui, o técnico Tite (faltou incluir o destemperado Galvão Bueno).

Parece que ao povo lhe falta compreensão, entender que os “heróis” são também humanos, e que do lado contrário tem outros onze bons jogadores que também buscam a vitória.

Agora, Neymar ou qualquer outro jogador nem ouse falar “que não é obrigado a jogar bem todas as partidas”. Claro que é obrigado! Ganha para isso, e muito bem por sinal, além do que merece.

E se fosse um médico que não é obrigado a operar sempre bem? O paciente, com certeza, morreria. E se um músico de orquestra falasse que não é obrigado a tocar sempre bem? Diga-se de passagem, neste caso, qualquer “notinha na trave” estragaria todo o concerto, a crítica e público (torcida) não perdoariam.

No futebol estamos vendo “as turras” bola na trave e até longe dela, mas, o jogo continua e o torcedor entende e aceita, só não está aceitando a eliminação da seleção canarinha do mundial. Paciência!.

E isso não fez bem ao nosso ego em baixa, ao nosso complexo de cachorro vira-lata, como diria Nelson Rodrigues. Por outro lado, quando a seleção é vitoriosa, faz bem ao país ser cotado entre os melhores do mundo em contraste com os milhões de desempregados, de analfabetos, mas, continuamos caminhando com a esperança e fazendo água na boca e deglutindo todos os sabores.

Se a seleção vencesse, haveria ainda menos produção, e isso seria ruim para o país. E já que a seleção perdeu, não há risco também de cair a produção? Há, mais aí depende da euforia, desequilíbrio e consciência individual de cada cidadão.

Os da antiga geração não se terão esquecido do engodo da Ditadura Militar no governo Médici, que fez com que a vitória do Brasil, conquistando o tricampeonato no México, desviasse a atenção da opinião pública para as barbaridades que aconteciam nos porões do regime.

Enquanto a população gritava gol e dava vivas à Seleção, nas prisões brasileiras jovens eram torturados até a morte; mulheres grávidas perdiam os bebês devido ao sofrimento físico e moral por que passavam. Quem tinha ou têm dinheiro em caixa, ou não sabia, ou não sabe, ou não quis ou não quer saber deste lado negro, nada sofreu ou nada sofre, até hoje!

Conquistado o título naquela época, foi a vez da economia montar e consolidar sua mentira mais espetacular. O famoso “milagre brasileiro”, que fez a classe média acreditar que era rica, esburacou para sempre as finanças do país, e por muito tempo os gastos e pagamentos feitos deixaram amargas conseqüências devido ao preço daquele embuste.

Ao “milagre” seguiram-se a inflação galopante, a pobreza crescente, sempre regados com discursos que diziam ser necessário que o bolo crescesse primeiro, para depois reparti-lo.

Enquanto isso, a Seleção voltava do México e era aclamada pelas ruas. E o fosso entre ricos e pobres aumentava. E toda uma geração era perseguida, torturada e morta. E o povo brasileiro se alegrava com seu aparente trunfo, com sua estrela brilhando, sem saber que era uma estrela cadente, rapidamente se dissolveria.

Em fim! Tempo de Copa do Mundo! Foi justo e necessário torcer e muito por nossa Seleção. Valeu tudo: chamar o juiz de ladrão, carcomer as unhas, arrancar os cabelos, gritar de alegria pelo gol feito e chorar de angústia e frustração pelo gol tomado, e finalmente, pela derrota mortal.

Malditos FERNANDINHO (autor do gol contra), DE BRUYNE (autor do gol da vitória da Bélgica e, maldito LUKAKE (puxou o contra-ataque que finalizou no vitorioso gol da Bélgica).

A massa humana amarela presente na Arena Kazan ficou muda e estarrecida, sem acreditar no que estava acontecendo 2 X 1. Final do jogo! Não esqueçam: Apenas + um jogo!

O que importa mesmo é compartilhar a alegria do povo com essa festa democrática que é um campeonato mundial de futebol. Mas fazê-lo, sem esquecer que o país do futebol tem grandes problemas que não seriam solucionados com as estratégias do TITE ou a perícia dos dribles do menino NEYMAR, nem com os chutes do gênio MARCELO, nem com as eficientes defesas de THIAGUINHO, tampouco com as finalizações de Coutinho, Paulinho ou de qualquer outro “inho”.

Apenas com muito trabalho, espírito comunitário, práticas solidárias e desejo de justiça, será possível reverter o atual caótico quadro de miséria e distanciamento social existente entre os próprios habitantes deste grande país abençoado por Deus chamado… Brasil.

Julio Yriarte – É Advogado atuante, guitarrista de LOS DINOS, membro da Academia Guajaramirense de Letras e Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/RO.

Em 1907 nascia Frida Kahlo

“Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.”

“Pés, para que te quero, se tenho asas para voar?”

“Meu pai foi para mim um grande exemplo de ternura, de trabalho… e acima de tudo de compreensão de todos os meus problemas.”

“Amuralhar o próprio sofrimento é arriscar que ele te devore desde o interior.”

“Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente – como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.”

EUA registram propriedade medicinal do jambu e impedem pesquisa da Universidade Federal do Amazonas

Pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) abandonaram três meses de estudos sobre as propriedades anestésicas do jambu porque uma patente registrada nos Estados Unidos os impedia de lançar no mercado uma pomada bucal de uso odontológico. As pesquisas realizadas eram com a substância spilantol, presente no jambu, vegetal usado na culinária amazônica como ingrediente do tacacá e pato no tucupi, por exemplo.

Segundo informações obtidas no departamento de Fisiologia Humana da Ufam, o jambu – planta típica de regiões de trópico úmido – não existe nos Estados Unidos (EUA). Mesmo assim, nos sites de patentes encontraram 15 delas registradas nos Estados Unidos e 34 na Europa.

A substância spilantol é descrita nessas patentes como apropriadas para uso anestésico, antisséptico e ginecológico e vendida no mercado até mesmo como cosméticos. Ou seja, os estudos que descreviam a tecnologia e destinação dos pesquisadores da Ufam  já estavam descritos pelos americanos desde setembro de 2007

Com a perda da patente do jambu, o departamento de fisiologia admite que novas pesquisas agora são realizadas com pelo menos três outras plantas apresentam, também, alcalóides com propriedades semelhantes ao spilantol. O objetivo é lançar no mercado um anestésico local, de uso tópico, que elimine a necessidade da seringa no consultório odontológico. O nome das plantas são mantidas em segredo para garantir o sigilo do conhecimento até que tenha sido devidamente patenteada.

O episódio com o jambu, segundo o departamento, demonstra que o conhecimento ancestral dos povos da Amazônia precisa ser melhor para que não cai nas mãos de pesquisadores estrangeiros.

As  propriedades anestésicas do jambu são conhecidas da população local. Suas folhas e flores são usadas sobre o dente comprometido para aliviar a dor. Esses conhecimentos estão na internet e deixaram de ser tradicional para ser universal antes mesmo dos pesquisadores brasileiros estudarem suas propriedades e patenteá-las.

Spilantol

O alcalóide spilantol presente no jambu recebeu várias patentes nos Estados Unidos e Europa para usos diversos, como remédios e cosméticos. Entre os estudos realizados no exterior com a substância está o que pretende criar um botox menos tóxico que o produzido pela bactéria botulínica, e causa risco de morte para as pessoas.

O spilantol é descrito como um cosmético antirrugas por inibir as contrações dos músculos subcutâneos, em especial os do rosto, assim como o botox usado no tratamento de rejuvenescimento.

Outras patentes registaram o spilantol como substância eficaz no tratamento da queda de cabelo e no amaciamento da pele, além de possuir propriedades desodorantes. Uma patente descreve um produto destinado ao banho, que deve ser feito com bolhas para tratamento de pele e inibindo o surgimento de sardas e manchas.

Outra propriedade do alcalóide não passou despercebidas pelos pesquisadores estrangeiros, tanto que uma patente registra que o spilantol produziu o fim de arritmia quando injetado no coração de um coelho.

Fonte: Portal do Holanda

Pensa que é PIS?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Sabe aquele ditado popular que diz que “quando a esmola é demais o santo desconfia”? Essa sou eu. Mais uma vez ancorada numa agência bancária. Nessa, vou mudar o tom da prosa e dar nome aos dois: Temer e a Caixa Econômica Federal. Exatamente nessa ordem. O vampirão começou liberando o PIS/PASEP para “aliviar” a pressão da falta de dindin circulando no mercado. Fui no site da CEF por mera curiosidade e, depois de verificar que tinha um saldo, segui as instruções.

Elas diziam que deveria comparecer a uma agência levando um documento e o Cartão Cidadão. Lá me fui, prevenida que sou, levando identidade, comprovante de residência… Obediente e crente pedi uma senha para o caixa. Nada que um bom livro não resolvesse. Um ou dois capítulos e lá estava eu.

Coisa boa, não é? Se fosse só isso. A atendente informou que seria necessário “atualizar o cadastro”. Outra senha, um único atendente e gente, muita gente. Estava bom? Claro que não. Além da falta de lugares para sentar, o sistema estava sistema da Caixa. Quer dizer, instável. Daquele jeito. A tarde passava entre uma conversa e outra enquanto a senha do painel permanecia estática.

Horas esperando para sair de lá sabendo que precisaria retornar com cópias das páginas com foto e contra folha da Carteira de Trabalho, Identidade, CIC, comprovante de residência e… título de eleitor(!).

Na espera paciente e comunicante as histórias começaram a se encaixar. A notícia saiu na sexta, de surpresa. Na segunda, dia 18, quando o banco abriu, as pessoas esperavam atendimento e os funcionários tentavam entender as especificações e o procedimento padrão. É claro que isso rendou várias interpretações que apenas dificultaram a vida dos cidadãos.

Isso foi segunda. Voltei à penitência dia 21. Com todos os documentos. A fila, maior ainda. Havia um sistema de triagem do lado de fora da agência, na parte dos caixas eletrônicos, mas o atendimento seguia lento. Cheguei lá por volta das 13h, contando com o fim do horário do almoço. Peguei a senha 59. Estava na 29… Fazer o quê? Esperar e ouvir. Histórias. De pessoas que, como eu, chegavam com as meias informações. Esperavam horas para receberem as mesmas solicitações de documentos, concluí depois de assuntar geral o que havia sido necessário apresentar. Mais fácil seria dar a lista para que a papelada fosse providenciada sem fazer cada um passar pelo atendente, para entrar no sistema e checar se era isso mesmo!

Sim, falamos daquele sistema intermitente e carregado por milhares de consultas feitas ao mesmo tempo em todas as agências da Caixa Econômica Federal do dia 18 ao dia 28 de junho, para começar. Depois, em agosto, vai piorar! O saque será liberado.

Só que não terminou. Outros empecilhos seriam capazes de fazer o serviço andar ainda mais devagar. Incluindo aquela servidora padrão que nunca pode ajudar e ainda atrapalha o serviço do atendente alheio. Foi assim que, durante a espera (que terminou depois do horário de fechamento bancário quando parece que as coisas andam mais rápido), desperdicei o presente de um porteiro gente boa da Rua Souza Lima que, como não poderia mais aguardar, já que ia pegar no batente às 14h, me deu sua senha, a número 40.

Morri na praia. Acontece que levei as xerox, mas não os originais! E não adiantou mostrar a lista com a solicitação das cópias. Mexe daqui, mexe dali, fui encontrando os documentos. Menos o título de eleitor! Voltei em casa para pegar o danado e retornei à espera do número 59. Esse, o que foi atendido depois do horário de encerramento bancário. A papelada estava pronta. Porém, o sistema de transferência não funcionava mais naquele horário!

Fui parar novamente na Caixa. Era sexta, jogo do Brasil, para fazer um TED. Feita transferência, avisei ao gerente no BB. Nessa segunda soube que o TED não havia entrado. Já rezando muitas ave-marias me dirigi a agência da Caixa. Onde, acreditem, não pude entrar! Uma infiltração inundou o espaço, o sistema teve que ser desligado. Havia água inundando o piso. As portas nem abriram para o público, aquele que tem mais dois dias para sacar o benefício. É pouco? Não. Quando acharam que o problema havia sido sanado abriram os registros e não foi só água que caiu. Parte do teto da agência veio junto!

Você já conseguiu receber seu benefício? Nem eu. Pensa que é PIS? É PASEP aguentar tanta bateção de cabeça…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Na dúvida…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Essa Ponta do Arpoador é sempre uma surpresa! Quem avalia, analisa, registra e cataloga é Pluct, Plact, o extraterrestre, enquanto espera a chegada da escrevinhadora de caderninhos.

Precisa dela para tentar clarear as ideias antes de cruzar novamente com sua cronista de fé sabiamente isolada dessas e outras mazelas, recolhida que está numa cela do outro lado do túnel.

É domingo, faz sol depois de uns dias de vento cortante, céu mal-humorado e muitas promessas de ressacas espetaculares. “Como não falo do que não vi, nada posso relatar”, esclarece o alienígena um pouco desconcentrado pelo som que vem do evento da vez. Ele toma o Largo do Millôr e promete um “sonset” (isso mesmo, com sílaba tônica no O) em ritmo de bate-estacas. Sabe a tal de democracia? Para quem…

Fazer o que? Duas opções. Se isso te incomodar, o que não faz parte do menu de opções disponível para um ser de outro mundo que se preze, se mude. Ou… siga o magnânimo conselho da escrevinhadora do caderninho: ceda o espaço de domingo para quem só pode usufruí-lo nos finais de semana e deixe para vagabundear durante os dias de batente coletivo.

Enquanto oscila entre partir ou ficar Pluct Plact começa a tabular outras informações que podem auxiliá-lo na tomada de decisão. A mais gritante, por assim dizer, é que a qualidade musical está se deteriorando rapidamente após uma largada até que promissora.

No mar as tão esperadas ondas, que motivaram o encontro com a escrevinhadora, simplesmente sumiram. O que se vê são marolinhas de aprendiz numa água certamente gelada, se deduz pela indumentária dos surfistas. Se a virada do tempo não rendeu as ondulações aguardas pelos feras do esporte, serviu para virar barcos, provocar mortes e colocar de prontidão os serviços marítimos locais à procura dos desaparecidos na região de Sepetiba. Por esse ângulo, foi bom o mar baixar rapidamente para não tumultuar ainda mais as buscas.

A chegada da dona do caderninho acabou adiando um pouco a última boa razão para uma retirada oportuna.

Atraída pela bandeira, sua sombra, o contorno das lambidas das ondas que quase batem na murada do Arpoador (deixando pouco espaço para os banhistas lagartearem), ela estacionou na murada. Os elementos chamaram a atenção da escrevinhadora e testaram minha paciência interplanetária durante o tempo de espera para a tentativa da foto perfeita.

Bandeira esticada, sombra alinhada e definida, a marola lambendo a areia perto do pé do mastro do alerta vermelho dos salva-vidas. O resto é lucro…

Dali, só nos moveríamos ao derradeiro sinal que era hora de partir. Que, por incrível que pareça, já previa ser dado somente ao final do show anunciado entre músicas e tremedeiras das carrapetas.

Afinal, está pensando o que? Aqui é o Rio de Janeiro, uma cidade que te permite mudar de ideia com uma rapidez inacreditável…

“Já curtiu a nossa página no feicebuque, seguiu no insta? Vai lá enquanto aguarda o show”, intima o animador do evento de um plano de saúde. “Daqui a pouco o cantor Jorge Israel e o cantor Marcelinho da Lua…”, anuncia animadão o antenado locutor.

“Marcelinho da Lua cantor?” pergunta a escrevinhadora se levantando, “vamos embora.” Nos dirigimos a Ipanema enquanto escutamos o locutor descolado corrigindo seu reclame.

“Já curtiu a nossa página no feicebuque, seguiu no insta? Marcelinho da Lua não é cantor, é DJ. É que escreveram errado aqui”, explica. Jogando a culpa, como sempre, na produção….

Hora de partir, alguma dúvida?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com