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Como outra qualquer, Flotropi


Texto e foto de Valéria del Cueto

A bicharada não está acreditando na performance do novo boss do mundo animal da Flotropi.

É por que se a fauna botou no governo um mito que pensa que seu mandato se expande por outras gerações de sua estirpe, a flora e os representantes do mundo mineral já mandaram avisar que não têm diálogo com quem já disse que quer “explorar” a natureza. Que a bicharada se responsabilize por suas escolhas, mas não venham dar pitaco no quintal alheio.

E não foi sem tempo: o mito já decretou o arrasa quarteirão dos recursos naturais. Tudo a troco de uns caraminguás.

Verdade seja dita, muito foram contra a ascensão da prole unida, mas não souberam se fazer ouvir. Outros, lavaram as mãos, asas, patas e guelras. Deu no que está dado.

Um desastre em proporções quase que bíblicas. O advento de mais um sacode florestal. Essa bicharada, cá entre nós, não acerta uma.

A coisa anda séria lá pros lados da clareira. Tem pena, couro, escama e pele sobrando pra todo lado. Nas redes sociais os papagaios, caturrita e afins estão a ponto de cair dos galhos, de tão cansados do leva e traz.

O causo é que um dos mitos filho assumiu o papel e o (des)controle das comunicações reais trazendo insegurança, desavenças e ampliando o destempero que que acaba provocando o desemprego para os antigos responsáveis pelo setor e a certeza que agora não é tudo nem nada, restou apenas uma grande confusão.

O que, obviamente, levou ao maior índice de inconfiabilidade já registrado na comunidade da floresta. Quando abriram as cortinas do universo, nem a lua conseguiu cantar em verso sua história astral.

Não há espaço para premonições, profecias nem poesia. Tudo é credo, cruz e muitas vezes sobra até pra ela, a Ave Maria. Imagina o que passa na cabeça de todos os santos?

Resumindo, não há mais alegria.

É tempo de medo, delação e preconceito no reino animal. Tipo cobra comendo cobra.

É um tal de chamar urubu de meu louro, num período em que o me engana que eu gosto está valendo ouro.

Não é necessário dizer que esse espirito de porco generalizado que se espalha tão estridente e insuportável como o canto da araponga ultrapassou as fronteiras anunciando medidas radicais e inconsequentes do governante de plantão.

No seu entorno, diga-se de passagem, só a fina flor. As gralhas gritam, as hienas, entre risadas, afagam, dando o bote. As raposas seguem rodeando e fazendo de conta que quem manda é o rei, enquanto desmantelam a estrutura florestal.

Não está sobrando ninho sobre os galhos, toca nas árvores, no mato ou sobre a terra. Mas tem animal achando bom.

Ou melhor. Tinha. Para gáudio e satisfação dos caçadores, apesar de proibido nas leis do reino, o mandatário mor liberou as armas, criando um desequilíbrio de forças entre as espécies. Não satisfeito, reduziu as verbas para a educação florestal.

Para finalizar, enquanto seu guru cospe impropérios contra os militares do exército real, o chefão avisa que mandará para a instância superior judiciário florestal seu dobermann da segurança e contenção que anda um pouco chateado com a falta de atenção com seus planos contra a corrupção (ora pois) e segurança.

Isso tudo em uma semana como qualquer outra aqui na pacata Flotropi…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Espaço Vídeo e Cinema e TV Serra Azul fecham parceria para exibição de séries

Uma parceria entre a Espaço Vídeo e Cinema e a Fundação Cultural Serra Azul, gestora da TV Serra Azul e retransmissora da TV Futura na cidade de Porangatu, Norte de Goiás, abre espaço na grade de programação da emissora para exibição de conteúdo nacional.

A proposta de parceria entre as instituições partir da necessidade, por um lado, de se ampliar o conteúdo nacional da TV Serra Azul e, por outro, da importância das séries produzidas pela Espaço Vídeo e Cinema no contexto de retratar diferentes aspectos da cultura brasileira.

Para o diretor da Espaço e Vídeo, o cineasta José Jurandir da Costa, a abertura de canais de televisão no interior do país para a exibição de produções nacionais “abre a possibilidade para que uma grande quantidade de obras produzidas possa ser conhecida pelos mais diferentes públicos em diversas regiões do Brasil”.

O presidente do Conselho de Administração da Fundação Cultural Serra Azul, engenheiro Carlos Rosemberg, um dos responsáveis pela parceria, ressalta que a TV Serra Azul “busca se inserir no contexto do audiovisual brasileiro e que um dos objetivos é possibilitar a abertura da grade para mostrar a riqueza das produções nacionais”. Ainda de acordo com ele, “a parceria com a Espaço Vídeo e Cinema vai inserir em nossa programação quase cinco horas de conteúdo nacional, o que é de suma importância para a região onde estamos”.

De acordo com o cineasta, foram disponibilizadas três séries documentais. A primeira, “Imagens da Memória”, composta três temporadas e vinte e dois capítulos e com cerca de 04 horas de duração, resgata a importância das histórias de vida de pessoas isoladas em diversos territórios do país.

Outra série que será exibida pela TV Serra Azul é “Histórias mal contadas”, com vinte e cinco capítulos e com 1h52 minutos no total e que retrata a preservação da oralidade da música autoral e revela todo o processo de construção das músicas através do depoimento de cada compositor.

A terceira série é “Animando Amazônia”, com duas temporadas e um total de trinta e três episódios, projeto pioneiro de animação desenvolvida na Amazônia brasileira e na Bolívia, utilizando a técnica de Pixilation e que tem sua atenção ao meio ambiente e a importância da consciência ambiental.

A parceria, firmada em 2019, pretende ser ampliada ainda este ano, com a Espaço Vídeo e Cinema já tendo sido convidada pela TV Serra Azul a produzir documentários que retratem a cultura e as tradições artísticas da região norte de Goiás e a importância da preservação do Cerrado.

Minha relação com os bancos escolares e universitários

foto:Paulo Fonteles Filho

Por Ismael Machado

Minha relação com universidades é intensa. Tenho duas graduações, além de um mestrado e três especializações. Mas também deixei por concluir pelo menos dois cursos. Mas sempre considero meus anos mais importantes os que envolvem minha primeira passagem universitária, como estudante de Psicologia (esse é um dos cursos inconclusos). Foi o mais marcante. Entrei na Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1986. O ano, por si só, já é emblemático. Foi um dos anos mais interessantes daquele efervescente rock nacional da década, com discos fundamentais no período (só para lembrar: Legião Urbana 2, Cabeça Dinossauro, Vivendo e Não Aprendendo, Pânico em SP, Mercenárias, O Concreto já Rachou e muitos etc).

É difícil explicar o que foram os anos 80 para quem não os viveu, mas não é à toa que ele se tornou tão mítico na memória nacional. Entrei na universidade e ali o nome universidade fez sentido. Conheci pessoas que marcaram minha vida, entre professores e colegas. Não demorou e entrei numa chapa de Centro Acadêmico, como diretor cultural. A chapa era a Ensaio Geral e tinha uma moçada da Convergência Socialista na cabeça, gente como o Serginho Darwich e a Miriam, por exemplo. Tinha o Marquinho, o Fernando, a Celina etc. E nós éramos o sanguinho novo, mesmo sem coloração partidária. Éramos eu, Mylena, Adelaide, Fran, Bia, a turma da psicologia.

Mas tinha tanta gente cheia de energia. Roger Paes, Valéria Nascimento, Vânia Torres, Luciana Medeiros, Lula, Tatá Ribeiro, Valter Sampaio, Tereza Lobato, Walcir Cardoso, Bel, Assis Lúcio,  Cris, Ilma, Fran, Valzete Sampaio…de cursos diversos, de origens variadas.

Esse foi o período em que, por exemplo, houve a luta pela meia passagem. Com passeatas e enfrentamentos com a polícia. O ano de 1987 foi marcante nisso. Era o período dos últimos momentos do Projeto Pixinguinha. Vimos shows de Cida Moreira, Vitor Ramil, Zizi Possi, entre tantos outros, ali na UFPA, preço super bacana. Organizamos festas, shows, exposições ao longo desses anos. Nos divertimos, namoramos, crescemos em meio a crises pessoais, geracionais etc. E tendo alguns professores que amávamos e outros que detestávamos (na psicologia quem não foi perseguido por Maiolino Miranda? hahaha- eu fui). Mas havia professores como Alice Moreira que nos levava para fins de semana em sítios onde fazíamos coisas ligadas a biodança, ioga etc. Ou professoras como Marilice, ídola de quase todos nós. Zé Carlos, Cacá, Olavo Galvão. Professores que estavam ali, acessíveis, trocando ideias, discutindo etc.

Em sala de aula lembro de discussões bacanas em aulas de Filosofia, Antropologia Cultural (com a Carmen…que morava em São Braz e abria o apartamento para aqueles meninos e meninas irem ouvir música, conversar, discutir, namorar). Tenho sempre a imagem antiga de Mylena dançando ao som de Bolero, de Ravel, como uma das mais emblemáticas da década para mim.

O pôr do sol na beira do rio se misturava a bater cabeça para tentar compreender os textos em original de Descartes, por exemplo. Ou de Malinovski, ou de Vigotsky.

Quando vejo nos dias atuais esse ataque claro ao que representa a universidade, ao que representa o saber vivido e vívido, tenho nojo e pena. Nojo de quem está produzindo esse desserviço ao futuro do país e pena do país que está sendo comandado por alguém tão perverso, mas que representa milhões de pessoas tão perversas quanto.

Li hoje cedo que, por conta de fanatismos religiosos que são contra a ciência, algumas doenças extintas no país estão voltando com força total. Sangramos por dentro com tanta loucura sendo produzida em tão pouco tempo.

Volto minha lembrança para os anos de 1982 a 1984. Nesses três anos fiz o meu ensino médio em um colégio chamado Avertano Rocha. Foi ali que graças a um professor chamado Everaldo (homossexual, diga-se de passagem), ouvi falar a primeira vez de um dramaturgo e escritor chamado Antônio  Bivar. E foi graças a uma indicação dele que pela primeira vez pus os pés no teatro Waldemar Henrique, para assistir a peça Alzira Power, com Salustiano Vilhena e Henrique da Paz. E olha só, a peça era de Bivar. E minha vida mudou. Fiquei próximo de Salustiano, conhecido como Saluzinho, filho de um representante militar na Vila Sorriso, o Salu, chefe dos escoteiros. E Saluzinho afrotando a tudo isso, com sua verve e postura gay, a nos encher de referências como André Gide e Jean Genet, falando com brilho nos olhos de uma montagem da peça o Balcão, vista por ele lá no auge da ditadura.

Professores e Professoras que trouxeram referências literárias, artísticas, culturais etc que nunca esqueci. Que me indicaram livros para ler, filmes para ver (muito obrigado Everaldo por me falar do filme Blade Runner que estava em cartaz), músicas para ouvir. Que me fizeram perceber que sentar em um banco escolar (seja no ensino médio ou na universidade) é muito mais do que aprender a fazer conta, ler e escrever, como prega esse desvairado que chamam de mito.

Perdi a conta de quantos livros li na vida, de quantos discos ouvi, filmes que assisti, exposições e peças que vi. Volto minhas lembranças para o grupo cultural que criamos na universidade, o Vevecos, Panelas e Canelas, para a banda de rock que montei, para a peça teatral que ajudei a montar (o cego ouvido mudo), para as festas que eu e Roger Paes planejamos juntos, para as viagens feitas (coisas como ir de bicicleta até o Marajó, com Adelaide e Mylena como companheiras de aventura), para as reuniões na casa de Walcyr, com aquela coleção maravilhosa de discos de vinil.

Quando os nossos primeiros filhos começaram a nascer, tentamos, cada um de nós, dar a eles e elas uma possibilidade de mundo diferente. Mais solidário, mais comunitário e mais humano.

Muitos deles estão aí e nos dão orgulho pelas pessoas que se tornaram. Estão espalhados no mundo e atendem por nomes como Lui, Manuela, Ian, Dhavid, Tiê, Aruan, Gabriel, Sofia, Luana, Rafael, tantos…

Há um futuro sendo destruído hoje. Lembro do passado para tentar evitar que isso não ocorra.

Educação não é para aprisionar. É para libertar.

Saiu pra comprar cigarros…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Saiu pra comprar cigarros. Se a ideia era não voltar, eu não sei. Só sei que voltou. Mas voltou sem cigarros e com o olhar abismado que nunca havia visto antes. Ela entrou na casa com aquele olhar, sem cigarros, e caminhou até o escritório.

No instante seguinte, pegou alguns papéis e uma caneta e começou a escrever. Parada diante dela, pensando se perguntava sobre o que fazer para o almoço, ela me pediu que saísse e fechasse a porta por fora. Foi o que fiz. Decidi que teríamos frango ensopado com polenta.”

Assim começa o livro “Saiu pra comprar cigarros”, coletânea com 13 contos, que poderiam ser chamados de experimentações pelas brincadeiras com os elementos narrativos de ficção. Como, por exemplo, no conto “– Você sabe por que está aqui?” que é escrito (desde o título) todo em diálogo, sem descrições de quem são os dois personagens, nem de onde eles estão. Através do diálogo, vamos entendendo o conflito e descobrindo por que eles estão ali.

Já o conto “À porta” poderia ser chamado de “monólogo à porta”, pois se trata de uma conversa íntima da personagem com ela mesma enquanto espera a hora de tocar a campainha para um encontro marcado. O conto “O interruptor” é uma experiência de histórias paralelas e cruzadas entre os personagens, com a diagramação também paralela: duas histórias na mesma página.

Outra das narrativas é em forma de um roteiro para rádio: um podcast, também com os ouvintes falando à locutora e com uma trama comum entre todos eles. “O buquê”, “Quatro noites e muitas outras” e “O Mito dos Zauês” contam histórias cujas protagonistas são mulheres que ultrapassam limites de padrões convencionais e surpreendem em suas ações. Estas histórias são narradas com jogos temporais de escrita. O jogo entre tempo e espaço também está presente no conto breve “Vida em branco”. Duas das narrativas são voltadas para finais de relacionamentos: “Incompatibilidade” e “Débito e crédito” e, assim como a trama, as histórias são sínteses: curtas e que resumem uma história maior que não precisou ser contada.

“O autor” é uma história de humor que brinca justamente com a condição de autor como autoridade sobre o que escreve.

E, por fim, “André liberto” e “Aquilo que só criança vê” dão um tom mais suave à coletânea, pois são histórias de crianças descobrindo coisas que ainda não conhecem.

Mesmo que as histórias tenham personagens e conflitos totalmente diferentes, todas elas têm em comum a delicadeza do olhar e a visão sobre coisas jamais “vistas” (ou pensadas) por aqueles personagens; o momento da percepção de algo e a reação a esta percepção. Reação que talvez fuja do pre-visível – tanto do personagem quanto do leitor.

A aurora sintetiza o livro como a reunião de 13 contos em que os personagens, muito diferentes uns dos outros, acabam pegando desvios inusitados e embarcando em mundos e tempos bem diferentes daqueles previstos em seus cotidianos. Diante de seus erros e acertos, nós, leitores, vamos pensando a vida de outros modos, sob outros pontos de vista. Junto com esses personagens, tomamos nossos próprios desvios e seguimos caminhos outros, abertos por detalhes novos, sentimentos simples, transitoriedades da vida.

“Saiu pra comprar cigarros” está disponível em: https://www.clubedeautores.com.br/ptbr/book/269627–

Você pode seguir a autora seguir no Facebook em https://www.facebook.com/ficcionarius/

ou pelo email: naramarqs@hotmail.com

Fé no axé, solidariedade e samba

Texto, fotos e vídeos de Valéria del Cueto

Na entrega da Medalha Pedro Ernesto para Evelyn Bastos, a casa do povo recebeu o povo. Preto. Para reconhecer o valor e o trabalho de uma rainha da favela. E da Bateria da Mangueira.

Não, não foi esse honroso título mangueirense que levou a menina das vielas a ser homenageada por uma iniciativa do vereador Leonel Brizola Neto.

Foi o conjunto da obra de uma mulher que, para poder estudar, conseguiu uma bolsa de estudos num colégio em Cascadura e com a ajuda do “Senhor Álvaro”, como ela chama Alvinho, ex-presidente da verde e rosa, que bancou seu transporte e os livros, se formou em Educação Física. Um exemplo a ser seguido.

No samba, é o que é. Uma passista de primeira. Filha de Valéria Bastos, Rainha de Bateria da Mangueira de 1987 a 1989, sempre disse que chegaria lá. Assumiu o posto quando, num resgate as tradições da escola, uma menina da comunidade voltou a desfilar na frente da bateria. Tinha 19 anos.

Em 2015 criou o projeto Samba, Amor e Caridade, o SAC. Alimentos e roupas são recolhidos na quadra, o Palácio do Samba, e distribuídos para os moradores de ruas da cidade. No início eram poucos. Hoje…

Na Mangueira cuida, ensina e incentiva as meninas que sonham em, como ela, serem passistas. A exigência é que estudem, para crescerem na vida.

Juntou a fome com a vontade de comer, no quesito combate a intolerância, ao se inserir de corpo (e que corpo) e alma no enredo “Histórias pra ninar gente grande”, do carnavalesco Leandro Vieira, que deu a Mangueira o campeonato do carnaval 2019. Representou Anastácia no ensaio técnico. No desfile oficial Esmeralda Garcia, escrava considerada a primeira advogada no Piauí.

Evelyn é do bem e “colocada”, como mostrou em seu pronunciamento que, fez questão, fosse da tribuna Marielle Franco. “Para falar do povo preto e favelado”. Estendeu a homenagem acrescentando 100 moções de louvor e reconhecimento a mangueirenses e personalidades.

A cerimônia foi emocionante. A começar pela interpretação de Cacá Nascimento, a capela, do Hino Nacional. Das galerias, a bateria deu o ritmo para o samba enredo campeão de 2019. Totalmente pertinente no contexto da homenagem.

As autoridades presentes e convidados fizeram pronunciamentos intercalados de vídeos. Um deles mostrava um elemento de ligação entre o sonho e a realidade do carnaval carioca. Foi com Leonel Brizola falando o que imaginava para o espaço recém construído do Sambódromo que em 2019 completou 35 anos. A palavra-chave era educação.

Evelyn, muito emocionada, em sua fala “fechou” o círculo. Religiosidade, o orgulho de seu povo preto, afeto, apoio, educação, crescimento e, principalmente, solidariedade. O poder de retribuir e ampliar a rede de proteção de sua “favela”.

Claro que não poderia faltar, para finalizar a homenagem, o giro das baianas e a saudação de representantes de segmentos tradicionais da escola ao som da bateria da Mangueira, comandada por outro “cria”, Mestre Wesley.

Num momento em que o axé da cidade e dos cariocas andam tão abalados pelos últimos acontecimentos, a reunião de da comunidade verde e rosa no Palácio Pedro Ernesto, antiga sede do Senado Federal, quando o Rio era a capital da república, foi um foco de resistência amorosa gerando uma sinergia positiva, união e sintonia do bem.

Exemplo e caminho que indicam as forças que precisamos comungar urgentemente para reencontrarmos a capacidade de nos reerguermos e reinventarmos. E como andamos precisando desses elementos catalizadores…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Não está fácil pra ninguém

Texto e foto de Valéria del Cueto

Duas coisas me fazem sacar o caderninho que uso para registrar as crônicas. A primeira é a paz na terra na beira de um mar que não pode ser um qualquer. Essa “saída o corpo”, mesmo no cenário paradisíaco que frequento, ultimamente na ponta do Arpoador, nem sempre acontece e se condiciona a certos fatores. Entre eles está a segurança do entorno.

Foi justamente ela que me impediu de sacar o caderninho na última passagem pela praia. Em plena tarde de um sábado com uma lotação até agradável, sob um sol ameno de outono.

Depois de fazer algumas fotos e vídeos dos ambulantes que circulavam anunciando seus produtos, num pedaço pouco frequentado entre a Pedra do Arpoador e o posto 8, em Ipanema, me preparei para puxar a caneta e abrir o caderno.

Antes de começar a escrevinhar chamaram minha atenção dois ambulantes que confabulavam nas proximidades. Entre uma negociação para a troca de um pouco de gelo para o isopor por produto e a avaliação das vendas do dia, o assunto passou pela ação de ladrões que estavam atuando na areia, prejudicando ainda mais a féria do dia. Que já não estava das melhores.

Ligada no bate papo e sempre prevenida, fechei a bolsa, pedi licença e entrei na conversa querendo entender o movimento local. Argumentei que era estranho e fora de época. As férias e a alta temporada já tinham terminado e, na praia vazia, não havia “clientela”, a não ser os locais, como… eu!

“É que ainda não avisaram ao “bloco” que o carnaval já acabou.” A resposta veio em meio a risadas pela metáfora criada por um dos rapazes. O outro explicou: “Isso aqui está largado, dona, a gente sai de perto para não ser confundido com eles.” “Você devia tomar cuidado”, alertou o mais velho, “por isso vim para esse lado”.

Enquanto conversávamos comecei a me “situar” melhor no entorno. Sempre procuro ficar num local com visibilidade ampla e rotas de fuga. Apesar de estar na parte mais estreita da ligação de Ipanema com o Arpoador, onde o paredão é mais alto e, portanto, impossível de ser escalado, montei meu point próximo a duas barracas que, coladas nos grafites que enfeitam a “muralha”, produziam e distribuíam caipirinhas e outros drinks para diversos vendedores que volta e meia passavam para reabastecer as bandejas.

Aliás, essa foi uma das razões que me atraiu para aquela posição. A possibilidade de ampliar as fotos que estou fazendo sobre os ambulantes que passeiam oferecendo seus produtos. A outra foi a escada que dava acesso rápido ao calçadão. Foi o que expliquei para o vendedor que ficou papeando comigo enquanto o outro seguia para a “zona de confronto”, como chamou a caminhada em direção a Ipanema.

Foi ali que fiquei sabendo que os “blocos” podiam ser da área ou de fora e que, provavelmente, só os primeiros respeitam (um pouco) os locais.

Não fiquei chateada quando o vendedor se aproximou e, puxando seu celular, explicou que trabalhava na construção civil. Me mostrou, cheio de orgulho, várias fotos de trabalhos que havia realizado.

Disse que era da Pavuna e que tinha descido para a Zona Sul para deixar seus cartões de visita com um amigo que havia contado que estavam abrindo vagas por aqui na segunda-feira. Que era regularizado e, inclusive, tinha MEI. O problema era ter “capital” para pagar o contador. Aliás, era isso que ele estava fazendo ali. Tentando melhorar o caixa, que andava no negativo.

A conversa continuou até a volta do amigo que foi mais claro em relação a necessidade financeira do parceiro: “Vamos nessa, ainda dá para fazer mais umas duas voltas e, pelo menos, juntar o troco da pensão alimentícia. Se chegar com algum pode ser que a ex patroa não procure a justiça. Você já sabe onde vai parar…”. Imaginem a rapidez com que meu novo amigo se levantou, se despedindo.

A segunda possibilidade de puxar o caderninho, (lembra? Foi assim que a crônica começou) é quando estou numa espera. No caso foi bancária. Contar essa história me fez viajar para um lugar muito mais agradável do que onde me encontro, aguardando para falar com o gerente do banco. Não está fácil pra ninguém…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

 

Iguape/SP , quase 500 anos de história no Vale do Ribeira. Um passeio imperdível…

Basílica e área central de Iguape

Oficialmente, Iguape foi fundada em 3 de dezembro de 1538. A data de fundação atual foi estabelecida em 1938, pelo então Prefeito, Manoel Honório Fortes. O Prefeito  incumbiu uma comissão de historiadores paulistas, presidida pelo ilustre Afonso d’ Escragnolle Taunay, para estabelecerem a data provável da fundação, sendo aceito o dia 3 de dezembro de 1538, baseados em documentos históricos que usam como referência a data de separação de Iguape e Cananéia.

Praça e Igreja de São Benedito

É uma simpática cidade, cheia de histórias e causos contados por seus moradores, ideal para se aventurar no seu passado, em passeios românticos por suas ruas estreitas e para conhecer as festividades religiosas e culturais, como a Festa de Agosto, que já são tradição. Iguape conta com uma boa infra-estrutura de hotelaria, pousadas e restaurantes.Em iguape acontece também o Festival Literário de Iguape – FLI todo ano com diversas atrações e o Festival de Blues, que inunda as vielas e bares com o melhor da música. É um dos roteiros preferidos de Clubes de Motociclistas por estar relativamente perto das grandes cidades e apresentar diversos atrativos selvagens e ecológicos.

Primeira Casa de Fundição de ouro do Brasil, hoje Museu Municipal de Iguape foto: B.Bertagna

Paço Municipal

O sobrado que abriga o Paço Municipal foi construído na segunda metade do século XIX, pelo comendador Luis Álvares da Silva, homem mais rico e influente da região à época. Posteriormente, o prédio passou a sediar o Club Beneficente e Recreativo Iguapense e a Câmara Municipal, vindo a ser adquirido pela Prefeitura em 1945. Desde então, passou a funcionar como Paço Municipal.

Sobrado dos Toledos

O Sobrado dos Toledos leva esse nome por ter sido residência de outro cidadão importante da região, José Carlos de Toledo. Construído na primeira metade do século XIX, durante o ciclo do arroz, o prédio foi doado pelos herdeiros, em 1931, ao Santuário de Iguape, para que abrigasse romeiros durante as festividades do Bom Jesus, época em que o edifício ficou conhecido como Sobrado do Santo. Depois disso, o prédio sediou diversos empreendimentos e, atualmente, encontra-se em ruínas, restando ainda as características originais das fachadas.

A real data da fundação do município é desconhecida. Alguns historiadores chegam a acreditar que já havia europeus vivendo na região mesmo antes do descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral.

A tradicional Festa do Bom Jesus de Iguape, a Festa de Agosto, que atrai milhares de romeiros de todos os cantos do Brasil. Foto : Gazeta Caiçara/Rafael Peroni

Remonta a 1577 a data em que o povoado foi elevado à categoria de freguesia, com o nome de Freguesia de Nossa Senhora das Neves da Vila de Iguape, quando foi aberto o primeiro livro do tombo da Igreja de Nossa Senhora das Neves, construída no local conhecido por Vila Velha, no sopé do morro chamado de Outeiro do Bacharel, defronte à Barra do Icapara.

Altar mor da Basílica foto: B. Bertagna

Não se sabe, ao certo, a data de elevação a vila, porém, acredita-se que tenha sido entre 1600 e 1614. Neste último ano, foi iniciada a construção da antiga Igreja Matriz, já no local atual, no centro urbano, após a mudança da então freguesia, ordenada pelo fidalgo português Eleodoro Ébano Pereira.

A Vila foi elevada a cidade pela Lei nº 17 de 3 de abril de 1848 com o nome de Bom Jesus da Ribeira, mas no ano seguinte, pela Lei nº 03 de 3 de maio de 1849, foi modificado o nome para Bom Jesus de Iguape.
Posteriormente, o costume popular simplificou-o para Iguape.

Hoje Iguape revela surpresas no plano do Patrimônio Imaterial como o tradicional Carnaval de Rua , com vários blocos organizados que circundam a praça da Basílica durante as folias de Momo e ainda preserva o Fandango Caiçara, com suas rabecas, seus bailados e tradições.

Fundação: 3 de dezembro de 1538
Gentílico : iguapense
Lema: Virtvtes Pavlistarvm Retento
\\\”Detenho as Virtudes dos Paulistas\\\”

Imagem de Cristo no morro do Espia. foto: B. Bertagna

A cidade fica também a 5 km, por estrada asfaltada,  das praias atlânticas de Ilha Comprida. Além de uma bela paisagem, o Mar Pequeno proporciona ótimas pescarias.(manjuba, robalo, tainhas, pescadas, salteiras)

Como chegar :

De São Paulo/Santos:

Descer a BR 116, rodovia Régis Bittencourt ou a Padre Manuel da Nóbrega SP-55 e, após a cidade de Miracatu, entrar no Km 401, Rodovia Casemiro Teixeira SP-222 para Iguape, com distância aproximada total de 200 km.

Os ônibus da empresa ValleSul vindos de São Paulo saem do Terminal Barra Funda em 4 horários diários. Partindo de Santos/SP há um ônibus diário.

De Curitiba:

Seguir a BR 116 – Rodovia Régis Bittencourt Norte e, passando pela cidade de Jacupiranga, entrar no Km 464 para Pariquera-Açu/Iguape, na rodovia Ivo Zanella. Total aproximado de 250 km

De Curitiba, os ônibus saem da Estação Rodoferroviária e há um horário diário nos dois sentidos e 2 horários de sexta a segunda, cumpridos pela empresa Princesa dos Campos.

De Sorocaba:

Saindo de Sorocaba ou cidades vizinhas pegar a Rodovia SP-079 (Serra de Tapiraí) até Juquiá. Depois entrar na BR 116 Rodovia Régis Bittencourt Norte sentido São Paulo e, depois de 13 km, pegar a entrada de Iguape no Km 401, na Rodovia Total de 2 00 km.De Sorocaba a Iguape, há um horário regular realizado pela empresa São João

De Registro /SP os ônibus saem praticamente de hora em hora, fazendo conexão para cidades vizinhas como Cananéia, Pariquera-Açu, Jacupiranga, Eldorado, Iporanga, Miracatu, Juquiá,Cajati, Apiaí, etc.

Portela 2019 nas campeãs, crônica de um agradecimento

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Ainda não aprontei o material da Portela, mas há uma passagem que está pulando na frente das milhares de imagens que fiz na Sapucaí, nesse carnaval. Como sempre, só costumo falar do que vejo e, com mais de 10 anos na pista, é surpreendente como a gente ainda vê coisas…

A Portela desfilou no mesmo dia da Mangueira e, por produzir um material bem minucioso sobre a bateria, acabei fazendo com menos rigor os desfiles das escolas que a antecediam, mudando o percurso que considero ideal para registrar os enredos e a evolução das agremiações.

Passei pela Portela, mas não pude prestar atenção em alguns detalhes. Entre eles, o motivo da grande quantidade de diretores e harmonia no entorno do abre-alas que trazia o primeiro destaque da escola, Carlos Reis, ladeado por Tia Surica e Monarco, baluartes da escola de Madureira.

Olha o grau da responsabilidade, fotografar meus ídolos! Também fotografei os empurradores dos elementos alegóricos que, acoplados, trazia o símbolo da escola, a águia portelense.

Corta para o desfile das campeãs. A Portela, quarta colocada, foi a terceira agremiação a se apresentar.

Na cabeça da escola, aproveitei para fazer com calma o registro de Cinthia e Adriano, filho do amigo de longa data e presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães.

Na sequência, a comissão de frente, a porta-bandeira e o mestre-sala, Lucinha Nobre e Marlon Lamar.

Foi quando, depois da apresentação do casal para o segundo módulo de julgadores, resolvi cruzar a pista para o lado oposto a cabine.

A melhor forma de fazê-lo era passar voando pela frente do abre-alas.

Foi ali que vi, novamente, Elisa Fernandes, diretora de alegoria, responsável pelo abre-alas.

No meio do caminho, quando procurava um ângulo para fazer sua foto, veio em nossa direção o casal com o pavilhão da escola. Quer, dizer, na direção dela, Elisa.

Acreditem, fiquei quase vendo a cena que fotografei pelas costas, se não tivesse dado uma corrida e invertido o eixo.

Porque, de mãos dadas com a diretora de alegoria, responsável pelo abre-alas, o casal a conduziu em direção a torcida!

Por ela, Elisa foi efusivamente aplaudida e, junto com o mestre-sala e a porta-bandeira, saudou o público das arquibancadas e frisas.

É claro que vi Elisa chorando, mas não por muito tempo. Vi Elisa recebendo a bandeira para saudá-la. E, depois, ser abraçada por Lucinha e Marlon.

Vi mãos se encontrando nesse abraço carinhoso envolvendo e diretora de alegoria. De amor e admiração.

Guardei as imagens, sabendo que era o agradecimento pelo esforço feito por Elisa e uma incrível equipe, para superar um desafio, mais um, dos que presenciamos na pista. O abre alas havia cruzado a Sapucaí, no dia do desfile, no muque deles, dirigidos por ela!

Só tive noção do tamanho da superação quando, no dia 8 de março, dia Internacional da Mulher, Elisa Fernandes contou a história do desafio que caiu sobre seus ombros e, com a ajuda da harmonia para solucioná-lo, a Portela enfrentou em seu desfile. Essa parte (a mais importante da história) você pode ler no seu perfil do Facebook.

Aproveita para refletir…

Resolvi “recortar” esse episódio, porque quero celebrar o esforço de Elisa, a generosidade do casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Lucinha Nobre e comemorar, com você, a chance de estar bem ali, e podido contar uma parte dessa (linda) história carnavalesca…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Valéria del Cueto
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Festa do Divino 2019 : Irmandade do Divino Espírito Santo no Vale do Guaporé divulga a 125ª Romaria

por Beto Bertagna

A Festa do Divino Espírito Santo no Vale do Guaporé , na fronteira de Rondônia com a Bolívia, é uma das maiores, senão a maior, manifestação do Patrimônio Imaterial da região. A Irmandade fez o pedido de Registro como Patrimônio Cultural Brasileiro  junto ao IPHAN.  O Batelão conduzindo os símbolos sagrados do Divino chegará a Remanso, Bolívia no dia 6 de junho , às 16 horas. O Batelão conduzindo os remeiros e os símbolos sagrados sai de Versalles/Bolívia no dia 21 de abril. A data é móvel e acontece no dia de Pentecostes, ou seja, 50 dias após o domingo de Páscoa.

Festa do Divino Espírito Santo

A Festa do Divino Espírito Santo acontece no domingo de Pentecostes , 50 dias depois da Páscoa. A data comemora a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo e é realizada em diversas cidades do País. Fiéis recorrem ao Espírito Santo com pedidos e promessas, em busca dos mesmos milagres solicitados aos santos da igreja católica.

O Divino Espírito Santo não é santo nem padroeiro, mas uma divindade para agradecer e festejar. É uma força representada pela pomba branca, pelas bandeiras coloridas e pelo mastro, que anuncia um novo tempo por meio da propagação de sete dons: fortaleza, sabedoria, ciência, conselho, entendimento, piedade e temor a Deus. A Festa do Divino é baseada principalmente nas relações de parentesco e vizinhança, que se organizam em mutirões para arrecadar fundos para a própria comunidade.

A Festa

Embora seja marcada pelo viés religioso, com procissões, novenas e missas, a celebração do Divino Espírito Santo revela um forte caráter folclórico, com suas tradições e ampla participação popular. Cada cidade que a realiza acrescenta sua cultura na comemoração. Alguns elementos marcantes dos festejos são:

Imperador ou Festeiro – pessoa escolhida para organizar, estruturar e divulgar a festa.

As alvoradas e passeatas – cortejos pela cidade e visitas às casas; fogos de artifício pela manhã.

Folia do Divino– grupo de devotos que, em cantoria, passam nas casas dos habitantes recolhendo oferendas e todo tipo de ajuda para a realização da Festa do Divino.

A entrada dos palmitos – enorme cortejo que representa a chegada dos habitantes da zona rural ao centro da cidade para participar da Festa do Divino.

Quermesse – barracas com comidas e bebidas típicas e apresentações de grupos folclóricos e musicais.

Levantamento de mastro – cerimônia em que um grupo de homens levanta um tronco de árvore, simbolizando a força masculina.

Grupos de marujada, congada e moçambique– danças e cantorias folclóricas vindas da cultura afro-brasileira.

Cavalhada – encenação de batalhas medievais entre mouros e cristãos.

Mascarados1– personagens típicos das cavalhadas, saem pelas ruas a pé ou a cavalo. Conta-se que, antigamente, os mascarados eram escravos que participavam da festa e saíam com máscaras para não serem reconhecidos.

Origem

A celebração do Divino Espírito Santo remonta à Antiguidade, quando os israelitas já cultuavam a divindade durante a Pentecostes. Está ligada à época do fim das colheitas e à distribuição de alimentos. A adoração do Divino estendeu-se até a Europa, durante a Idade Média, até que na Alemanha encontrou boa recepção, transformando-se em festa. O objetivo era arrecadar fundos para amparar os necessitados da época.

A comemoração alcançou Portugal e foi instituída pela Rainha Isabel. Esposa do Rei D. Diniz (1279 – 1325) e canonizada como Santa Isabel de Portugal, ela foi a responsável pela construção da Igreja do Espírito Santo, em Alenquer. Por volta do século XVII, época da colonização, a celebração chegou ao Brasil, com o seguinte ritual festivo, representado como uma profecia uma pessoa – adulto ou criança – era escolhida como Imperador do Divino. Abençoado com o poder do Espírito Santo, o Imperador se tornava puro como uma criança, distribuindo alimentos e soltando presos políticos, trazendo a fartura e o perdão ao mundo.

A Festa do Divino era tão popular no país em 1822 que José Bonifácio, ao escolher o título para D. Pedro I, deu preferência a “Imperador do Brasil” ao invés de “Rei”, inspirado na forte popularidade do Imperador do Divino.

Veja a seguir o vídeo “Divino, Cem Vezes Divino”, produzido durante o Centenário da Festa em 1994.

Veja também : Valter Bartolo, o Senhor Feudal do Vale do Guaporé

Oscar 2019 : Será mesmo que plataformas como a Netflix são uma ameaça à indústria do cinema?

Por Jack Brandão

Ao contrário do que alguns esperavam, o aclamado Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, não levou o Oscar de melhor filme; no entanto, o longa sai mais do que vitorioso. Pela primeira vez, um filme de uma plataforma de streaming não só concorreu às principais categorias do cinema mundial, como também conquistou os prêmios de Direção, Fotografia e Filme Estrangeiro.

Conhecido pela transmissão de conteúdo pela internet – como filmes, séries e músicas – sem a necessidade de download, o serviço de streaming popularizou-se com a plataforma Netflix. Diante desse boom, houve até brincadeiras na internet que mostravam o famoso letreiro de Hollywood sendo substituído pelo da empresa de streaming.

Mas, será mesmo que a indústria do cinema está com os dias contados? Para o pesquisador e especialista em imagens, Prof. Dr. Jack Brandão, todas as transformações levam a duas reações: para os mais velhos causam “inquietação e desconfiança”; para os mais novos, “deslumbramento”. Assim, temos serviços diferentes; mas que, dificilmente, um substituirá o outro, mesmo com todo o sucesso dessas plataformas.

Vivemos naquilo que o pesquisador chama de arrogância do tempo presente, ou seja, “não enxergamos com clareza que tais mudanças são naturais. Quando a TV surgiu, dizia-se que seria o fim do cinema; anos mais tarde trouxemos o cinema para nossas casas com os reprodutores de VHS, de DVD e de Blu-ray, mas mesmo assim o cinema ainda continua firme e forte!” Brandão ainda afirma que “por estarmos inseridos no presente, muitas vezes não enxergamos, de forma clara, o que se passa a nosso redor. Pena daqueles que não puderam perceber isso, quando do fechamento de famosas salas de exibição no centro de nossas capitais: verdadeiros tesouros foram abandonados, à espera do cataclismo… que, no final das contas, não veio, conforme demonstram as diversas salas abertas nos shoppings, nos últimos anos.”

Um dos fatores que também podem explicar o sucesso vertiginoso da Netflix é, ainda segundo o Prof. Jack Brandão, “nossa iconotropia, ou seja, nosso anseio por consumir sempre mais e mais imagens, na hora que quisermos e no lugar que desejarmos, seja pela TV, pelo notebook ou pelo celular. Aliado a isso, tais plataformas nos dão a falsa sensação de que estamos no controle, que podemos selecionar o programa que desejarmos, algo impossível de fazer com os programas televisivos, por exemplo”.

Mas eis a grande questão: será mesmo que temos todo esse poder, ou nos deixamos enganar por essa falsa sensação? “Acabamos escolhendo filmes ou séries a partir de uma seleção já pré-definida pela plataforma; logo, nunca somos nós os verdadeiros detentores da escolha.” Para Brandão, isso fica claro quando da exibição, pela Netflix, de seu primeiro filme interativo, Bandersnatch. Caberia ao telespectador, assim como a um deus, guiar a tomada de decisões da personagem principal, no entanto havia momentos, a partir dessas escolhas, que a plataforma não dava outra opção: ou se escolhia o que eles queriam ou se encerrava o filme.

Quanto a Romaalguns críticos consideraram um absurdo o fato de essa obra de arte não ter sido produzida para os cinemas. Para o Prof. Dr. Jack Brandão, porém, trata-se de um pensamento equivocado; afinal, acabam-se subestimando tais plataformas. “O fato de Romaestar na Netflix é, a meu ver, extremamente positivo, pois seu alcance é bem maior, além disso foi uma escolha do diretor. Outro ponto que merece atenção é o fato de a obra ter levado o Oscar de melhor fotografia, reforçando tal competência. Tal prêmio, por exemplo, é dado pela capacidade de a película contar uma história por meio das imagens. Nem sempre, aquilo que se consideram belas tomadas fotográficas são aquelas produzidas pelos melhores recursos cinematográficos.”

Há, em Roma, imagens da dura realidade mexicana da década de 70 e de sua desigualdade social, produzidas com esmero e que remetem às próprias memórias de infância do diretor. “Sem contar que o filme foi produzido em preto e branco, o que também exige um cuidado todo especial, para nossa época repleta de cor.”

Para concluir, Dr. Jack Brandão ressalta que, seja por meio do cinema ou pelas plataformas de streaming, aquilo que as pessoas realmente desejam é consumir imagens. “Os usuários da Netflix não se tornarão ‘inimigos’ do cinema. Muitos continuarão vendo filmes nos telões, mas como toda inovação, é preciso aprender a conviver com elas”.

Sobre o Prof. Dr. Jack Brandão:

Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador sobre a questão imagética em diversos níveis, como nas artes pictográficas, escultóricas e fotográficas. Autor de diversos artigos e livros sobre o tema no Brasil e no exterior. Coordenador do Centro de Estudos Imagéticos CONDES-FOTÓS Imago Lab e editor da Lumen et Virtus, Revista interdisciplinar de Cultura e Imagem.

Na paz do Senhor…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Eu de novo. Da Pedra do Arpoador. Olhando a rola de Ipanema, Leblon e os contornos da morraria caindo sobre o Atlântico. Coincidência ou não é quase por do sol. Aquele clássico de verão. Aguardado ainda no mar, ao som de aplausos agradecidos.

É o dia seguinte a tragédia de Brumadinho.

Por princípio, como costumo ser (pouco) obediente às ordens médicas, não deveria estar por esses costados. Nada de sol nem muito esforço para ajudar a debelar a inflamação pós canal dentário duplo da última quarta-feira. Um dos dentes se incomodou com o remelexo e me deixou com a cútis esticadinha sobre o inchaço na bochecha.

Nada contra, se não fosse a dor latejante no local que se expande para a cabeça como um todo.

O fim da ladeira foi na sexta. Quando o tédio do isolamento foi quebrado para acompanhar as incríveis notícias vindas de Brumadinho, município a 40 km de Belo Horizonte e sede do espetacular Instituto Inhotim.

Quem não sabia onde fica  Brumadinho certamente passou a saber depois do rompimento de uma de suas barragens, a do Córrego do Feijão, da gigante mundial do aço, a Vale, ex- do Rio Doce.

Quantos milhões de metros cúbicos de rejeitos das minas de minério de ferro desceram vale a baixo, seguindo em direção ao rio Paraopeba, não sei dizer. E não sou a única. Nem onde esse material que insistem dizer que não é toxica, apesar de reconhecerem abrasiva, (como assim?) irá parar seguindo pela bacia do Rio São Francisco.

Também são desencontradas as informações sobre o número de mortos soterrados sob a lama.

Foi por isso que fugi. Deixei de lado as recomendações médicas e estou aqui. Diante dessa paisagem tão maravilhosa que, a cada dia manda um sinal aos seres humanos que a admiram da força e do esplendor da natureza.

Vim firmar por todos os que não sabemos onde estão, nem quantos são.

Vim pedir por suas famílias, amigos e colegas que, no momento, lidam lá nas minas gerais com a dor da perda, o fantasma da ignorância sobre o destino de seus entes queridos e o descaso criminoso dos responsáveis pela falta de um plano eficaz de contingência.

Vim para a Ponta procurando um ponto. De equilíbrio, que me ajude a recuperar a humanidade.

No caminho pela areia observava o entorno mais silenciosos que o normal. Apesar de ser um sábado de verão, em pleno mês de janeiro, tudo pareciam menos. A praia não estava tão cheia, a vibração era menor. A vida um pouco mais parada. Como em respeito ao drama que se desenrolava logo ali.

Quando desci para a areia comecei a procurar a mensagem. A que sempre recebo quando venho em busca de Deus e/ou da natureza.

Claro que ela veio, mas não no por do sol, o momento em que os moradores, banhistas e visitantes aplaudem e agradecem mais um dia.

Não há o que agradecer. Foi entre nuvens que o dia terminou. Não sei o espírito dos que assistiam os últimos raios de sol que se escondia na linha das nuvens, bem acima do horizonte.

O meu foi de recolhimento. Solidariedade e amor pelos que se foram, os que ficaram e aqueles que nunca saberemos onde estão. Que todos se reencontrem. Um dia. Na glória do Senhor…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Valéria del Cueto
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Textim em construção. Aceito reparos e adições, mas mantenham a linha!

Por José Leme Galvão Jr.

Justo na semana após o desastre do interlúdio do “serial coup” tive que me apresentar no banco para a prova de vida anual. Sem ela me matam. Ou pelo menos começam suspendendo meu salário de aposentado federal. Danei-me a pensar: OK, provo que vivo, mas como vivo? Digo, que tipo de vida tenho que me aprove ou reprove?
Para uma boa análise e diagnóstico (báideuêi sou agnóstico noturno também) achei por bem, claro, fazer exames gerais – nem clínicos nem cínicos – começando com o famigerado exame de consciência, na verdade bem complexo e dependente do nosso meio social e natural, inclusive por ações e relações moral e politicamente incorretas, com maior ou menor comprometimento no trato com semelhantes. Também com os dessemelhantes (comer ou não animais e tampouco usar seus nomes em vão, burro e anta por exemplo.). Enfim, exame através de imagens e de coisas que disse ou escrevi nesta minha vida adulta (crianças e adolescentes são cruéis pré-pagos), passando por quitações de dívidas e dúvidas, valores e amores apenas possíveis, mas diáfanos ou encarnadamente perigosos, desaforos de todo tipo etc.
Tomograficamente encontrei placas de desacatos vários, manchas persistentes de desaforos, mossas de desencontros e pancadinhas de amizades e outras relações que foram mal construídas ou sobre bases movediças. Vi também apêndices que poderiam ter sido extirpados, vírus e bactérias exóticas aguardando uma chance de se manifestar… Enfim, coisas normais. Mas nada, nada, de monta ou que possa me embaraçar ou comprometer.
Então porque tanto ódio se nos aplica ou respinga ou separa? Seríamos irmãos, primos e amigos no lugar e na hora errados?
Na radiografia política de uma clínica à rua direita fui (fomos) diagnosticado como petralha esquerdopata, com sinais antigos e riscos de desenvolvimento de contagiosa sociopatia comunista (entendida pela boçalidade descerebrada como maladia. Fico perplexo). Parti para um segundo diagnóstico que indicou inalterada radicalidade xiita a favor da preservação da memória cultural (há outros muito amis xiitas que radicais), mas na verdade foi verificada forte intolerância à determinados bestialidades tais como burrice adquirida (sim, existe), maus caráteres desvelados sob máscaras de gente fina, ladrões de casaca, colarinhos brancos, procuradores que só acham o que querem, promotores que só promovem o caos, juízes de piso à soldo etc. Enfim, corrompidos e corruptores travestidos de cidadãos justos, capazes e merecedores do poder que compraram ou usurparam. Nada foi constatado quanto a manter confiança em políticos, advogados, sacerdotes e outros “profissas” em estrito senso, assim como na sociedade e nas pessoas em geral. Ufa!
Mas – sempre o mas – há ainda substratos sob esses vetores de intolerância. Um primeiro é pleno de grupos opostos e displásicos, que invertem os textos intentando reverter modos e argumentos, senão a própria realidade. Assim os pobres diabos que nada sabem seríamos nós. Seríamos nós os desonestos, os desviados da normalidade, da moral e da ética. Prática bastante comum entre os fundamentalismos de qualquer tipo, inclusive de esquerda. Causam horror e terror.
Abaixo, outro substrato abriga grupos milicianos, formais ou não. Observamos sem reagir e ao longo do tempo seu surgimento, armamento e consolidação, tipo o exército de “gondor”. Descerebrados de todo tipo pululam. Covardes atávicos compactuam-se na violência física e na caça a quaisquer privilégios inter-pares. Boçais abissais.
E chegamos à expressão privilégio. Nenhuma outra resume tão bem as ambições e metas dos caçadores de poder. Nem me refiro ao “bozo”, eleito já tantas vezes. Apesar de obscuro e mentalmente raso ele é de certo modo um conquistador, como Hitler foi, entre outros que a história apresenta. Me refiro à maioria dos malfeitores que vem golpeando o país e a democracia. À soldo ou autônomos agregados, buscam elevar-se pelo tripé dinheiro – poder – privilégios. Não tem ou não pode ter para todos, seria uma contradição. Não há equilíbrio aí. Trata-se de uma superfície sulfurosa, caótica, tóxica, em sucessões mais rápidas do que a própria vida humana.
Por isso a minha intenção inicial não atingiu a graça de mostrar o lado ridículo disso tudo.

Lá e cá

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de um texto burilado e trabalhado em referências, como o da última crônica “Na luta é que a gente se encontra”, a vontade é de só falar de banalidades para quebrar a linha de raciocínio. E, claro, por saber que é muito difícil ir mais longe na excelência do produto.

Só que ainda me lembro do compromisso que talvez você, leitor, não se recorde: continuar viajando pela fronteira de Mato Grosso do Sul e, quando dá, cruzar para o lado de lá, o Paraguay… Então convido você a seguir pela Ruta 5, em direção a Bella Vista, na província de Amambay, ao norte do país vizinho.

Saindo de Cerro Cora seguimos para a Hacienda Ñe´a. Uma pena que com a pressa (queríamos chegar com a luz da tarde), não deu para ir fazendo paradas para fotografar o relevo que desenha o perfil das paisagens que passaram voando pelas janelas. Um tereré circulava entre as passageiras da aventura: Adriana, Rosanie, Dora e Natália, todas da família Nuñez.

A sede da hacienda é protegida por uma cadeia de montes. Adriana até sugeriu um passeio a cavalo para explorarmos a região, mas declinei. Estava satisfeita com as construções que avistei em volta da linda casa principal. Fora isso, é claro, tive o bom senso de evitar as dores que, certamente, sentiria nos dias seguintes. Não monto há anos!

Quer saber? Para esgotar as possibilidades fotográficas da Ñe´a preciso de muito mais tempo do que a tarde que por lá passamos. Pelo que vi imagino as nuances da luz em diferentes períodos do dia, como o amanhecer e o anoitecer, e as variadas cores da vegetação do entorno conforme mudam as estações do ano. É material para muitas idas e passeios. O visual ainda estava marcado pela estiagem comum nesse período. Isso dava à morraria, especialmente no cair da tarde, tons dourados que contrastavam com a vegetação que renascia.

Ao lado da casa principal uma pequena represa compõe a visão bucólica e serve para banhos refrescantes nas épocas mais quentes do ano. O que chamou a atenção foi a “passarela” de tábuas de madeira usada para as lavadeiras baterem as roupas no curso d´água. Cena típica de tempos e práticas de antigamente.

Depois de mais uma rodada de tereré na varanda da casa principal era hora de um giro pelos galpões, oficinas e a área das moradias dos peões. Trabalhando com o contraste das sombras que se alongavam com o cair da luz fui fotografando a vizinhança.

A câmera atraiu a atenção das crianças que brincavam entre os varais de roupas que secavam ao vento. Uma se aproximou cheia de curiosidade perguntando o que eu fazia. Expliquei que fotografava a hacienda. Outras  foram chegando e pediram para que as fotografasse, o que, é claro, aceitei prontamente. Agora, era um grupinho que fazia pose e me intimava para ver no visor o resultado. Um dos meninos foi buscar uma bola. E dá-lhe clique! Outro, dava ideia de subirem na cerca da mangueira. Aí, a “direção” da brincadeira já não era da fotógrafa…

Nem prestei atenção ao sol que caía rapidamente e produzia uma luz quase frontal perfeita para os registros. Fui andando a procura do ponto ideal para pegar o pôr-do-sol, mas não resisti ao chamando da criançada que dava a dica de outro cenário. Dessa vez na varanda do galpão do estábulo, com arreios e tralhas ao fundo. Arrumei os assistentes perfeitos. Melhor “frente de locação” impossível… Foram eles que me contaram onde as imagens ficariam melhores.  Me despedi dos “eres” explicando que achava que voltaria logo trazendo as fotos impressas.

É o que, creio, acontecerá em breve. É nessa região que pedirei asilo depois dos resultados do segundo turno das eleições. Será a rota de fuga mais adequada para me dirigir nos próximos meses. Vai ser difícil aturar o juiz que, provavelmente, fará dobradinha com o bispo no Rio de Janeiro e a dupla de milicos em posições invertidas que avança sobre a democracia brasileira.

Mas espere, caro leitor, não é agora! Antes cairei no samba num verão carioca inesquecível que terá seu ponto alto no desfile da Sapucaí. Será um carnaval temperado por enredos como “Xangô”, do Salgueiro, e “História pra ninar gente grande”, da verde e rosa. Esse contará ao Brasil e ao mundo quem são os verdadeiros heróis populares do país que não está no retrato ritmado pelo surdo de primeira que marcará os 60 anos da Bateria da Mangueira! E eu? Estarei lá…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Das séries “Fronteira Oeste do Sul” e “É Carnaval”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

Dependência afeta profundamente as mulheres

 

Por Alice Schuch

A psicóloga argentina Clara Coria alerta para a necessidade de compreensão das questões que afetam profundamente as mulheres. De acordo com o filósofo e economista britânico Stuart Mill, já em 1806, o primeiro e indispensável passo para a emancipação das mulheres é a educação de modo a não necessitarem do pai ou do marido para manter-se, posição esta segundo o autor, que em nove entre dez casos as convertem em joguete ou em escravas daquele que as alimenta, e no caso número dez, em sua humilde amiga e nada mais.

“Convém sermos vigilantes porque quanto em nosso interior descobrimos alguém que nos freia, somos nós que o escolhemos e o queremos, pois ao interno de cada uma a decisão é pessoal”, explica a doutora e pesquisadora Alice Schuch.

Como refere a obra O Em Si do homem: “se o sujeito não se desenvolve em crescimento, perde a memória, o traçado e a forma segundo o tipo de privação que sofreu em cada sucessiva interação que o fez regredir”.

Em sentido positivo, ao aperceber-se de uma presença vital, a inteligência feminina deseja e escolhe aquela relação para crescer. “Essa é a lógica da vida: busca um comportamento de permanente adaptação a cada realidade de contato enriquecedor, útil e funcional ao próprio devir”, diz Alice.

Como refere Maslow, todo o ser humano porta dentro de si dois conjuntos de forças. Um deles apega-se a segurança e a defesa e tende a regredir, temeroso de correr riscos, de colocar em perigo aquilo que já possui, receoso da liberdade e da separação. O outro impulsiona para a totalidade, para a individualidade, para a ação plena e para a confiança em relação ao mundo externo.

“O igual não existe no mundo da vida, cada uma de nós é diversa por como se constrói. Nascimentos são constantes para aquelas que crescem e realizam. Por isso, investir no pessoal desenvolvimento me torna mais eu, mais real, mais bela e muitíssimo mais feliz. Calma, ma fare subito ou: Calma, mas faça logo!”, sugere Alice Schuch.

Na luta é que a gente se encontra

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dias antes do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, estive num lugar que, por analogia, me fez sentir ainda mais o desastre imensurável para a história, a cultura e a ciência brasileira.

Cerro Corá fica perto Pedro Juan Caballero, a 41 km de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, fronteira com o Brasil. Ali, as tropas brasileiras da Guerra do Paraguay, conduzidas pelo General Câmara sob o comando do Conde D´Eu, (marido da Princesa Isabel, A Redentora, que libertou os negros da escravidão, segundo a história oficial brasileira), encontraram o que restava do exército em fuga do  Mariscal Solano Lopéz.

No riacho Aquidaban Nigui o cabo Chico Diabo golpeou “El Supremo” e entrou para a história. A nossa, que não nos conta que Elisa Lynch, a poderosa amante do presidente, enterrou com a ajuda de sua filha, usando uma lança, não apenas os restos mortais do Mariscal, mas de seu filho de 16 anos, o Coronel Juán Francisco López. “Panchito” também se recusou a se entregar aos inimigos.

Estudo essa história desde a adolescência quando meu pai serviu em Bela Vista e virei rata da biblioteca do médico paraguaio, o Dr. Caito. Lá comprovei, lendo em espanhol os relatos que contam o outro lado dessa incrível saga sul americana, que a verdade pode até querer ser uma só, mas tem sempre várias versões.

Minha memória se colore com a panapanã que encantou a primeira vez que visitei Cerro Corá, ainda criança. O local em que os combatentes caíram estava “tapado” por uma nuvem de borboletas amarelas, como as que reencontrei na Macondo, de Gabriel Garcia Marques.

Agora, ali é o Parque Nacional Cerro Corá, com mais de 5500 hectares. O marco, na Ruta 5, e um pórtico estilizado indicam sua entrada. Um pouco recuada fica cancela de identificação e a portaria com a simpática guarda florestal fazendo a recepção e apresentando o minimuseu. O lugar também é um sítio arqueológico.

Seguindo se alcança o mirante que marca o local onde aconteceu o último embate entre as tropas, em 1 de março de 1870. O visual é deslumbrante, com o Cerro Corá dominando o cenário. Bustos dos comandantes que ali sucumbiram vigiam o território paraguaio.

Mas ainda não era isso que estava procurando. Dalí, uma alameda cercada de palmeiras leva à grande cruz que marca onde estiveram enterrados os heróis paraguaios. Ao lado, um nicho formado por guerreiros de pedra, adornados com elmos e lanças de metal estilizados, indica onde Madame Lynch enterrou Solano Lopéz e Panchito. Ainda é necessário fazer um caminho por pequenas trilhas para chegar, no Aquidaban Nigui, ao passo onde o líder paraguaio sucumbiu.

O que mais me impressionou foi a proposta do parque.  Não há uma invasão visual. Tudo integra os acontecimentos aos locais. Dá para notar a imponência das linhas do monumento no local da batalha e da cruz, de tempos mais antigos, e a linda proteção dos guardiões, homenagem do ex-presidente Fernando Lugo. As equipes trabalhando e a conservação dos jardins, alamedas e trilhas, mostram o zelo com o espaço.

Vivi tudo isso com as lágrimas nos olhos do meu sonho colorido de infância dias antes de, estarrecida, ver arder (há exatos um mês) nossa memória – e, inclusive, desconfio, objetos ligados a essa história – na Quinta da Boa Vista.

Quando voltei ao Rio, caí dentro do registro da Bateria da Mangueira na escolha do samba que cantará na avenida o enredo do carnavalesco Leandro Vieira, “História para ninar gente grande”. Ele fala da “história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar”. Cito trecho de uma das parcerias, a de Deivid Domenico, que concorre na final, dia 13 de outubro, no Palácio do Samba, a quadra da Mangueira.

Não costumo me manifestar durante essa etapa do processo carnavalesco, a escolha dos sambas, que acontece até meados de outubro. Mas, confesso, torço para cantar na Sapucaí “tem sangue retinto, pisado, atrás do herói emoldurado” e meu nome, MARIA, junto com as “Mahins, Marielles, Malês”, “Lecis, Jamelões”. Quero muito dar nome aos nossos verdadeiros heróis que, diga-se de passagem, nem sempre precisaram matar para assim serem considerados. Eles e tantos outros anônimos elementos catalizadores do que nosso país tem de melhor.

Pense nisso na hora de exercer seu voto nesse domingo. Na base de seus representantes. Se escolher seu presidente é complicado, mais difícil é ter critério e consciência ao escolher senadores, deputados federais e estaduais. Caberá a eles representá-lo nas difíceis decisões que virão pela frente. Afinal, “na luta é que a gente se encontra…

* Este é o link para clip do samba mencionado:https://youtu.be/s91TcNhfYtY e, aqui, seu feito na torcida verde e rosa https://youtu.be/asc92FJmwYQ

** Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Das séries “Fronteira oeste do Sul” e “É Carnaval”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Medidas compensatórias

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vivendo e aprendendo. Inclusive a não prometer o que não sei se vou poder cumprir.

Na última passada nesse espaço, com a crônica “Logo ali”, jurava que seria capaz de fazer você, leitor, acompanhar as etapas da viagem a Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguay e adjacências.

Cheia de boas intenções, pretendia enviar relatos semanais da entrada por Campo Grande, a descida até Ponta Porã, uma passada planejada em Bonito. Depois, dias em Aquidauana, antes de voltar para Campo Grande e para a rotina imprevisível da vida no Rio de Janeiro.

Quais as partes (observe o plural) que não foram cumpridas? Enquanto atravesso uma área de turbulência, já pertinho de São Paulo, tento fazer um balanço das semanas que inexisti no sentido literário de meu compromisso com você eleitor – ops, ato falho, leitor – e enviar para a publicação os textos e fotos.

E quer saber? Não me arrependo. Quase tudo deu certo e o que deixei de fazer foi substituído por experiências diversas e inesperadas. Um exemplo?

Para ele, me baseio numa teoria que acabo de criar e ando burilando. Imaginem um registro gastronômico. Você vai ao restaurante e, antes de abrir os trabalhos, para tudo. Faltou a foto ma-ra-vi-lho-sa do prato em questão. Ali, saboroso, com aroma e temperatura perfeitos. No mínimo, preciosos segundos de contemplação foram perdidos.

A comida esfria enquanto a gente dá uma ajeitada no entorno, acerta o plano, gira o prato para ficar ainda mais apetitoso, arruma os talheres. Tira as logos dos refrigerantes e da água do quadro. Claro, se houver um bom vinho, tem que acertar a posição do rótulo. Não frontal, displicentemente, quase lateral. Aproximar a taça devidamente preenchida até a altura adequada, dependendo do tipo da bebida.

E a comida? Linda na foto (que você já checou para ver se está no foco, no ângulo certo). Esfriouuu… Amado leitor. Sou muito chata para comer e, se o prato for irresistível, tenha certeza: lá se foi o registro perfeito para as redes sociais. E ainda tem antenados que fazem as postagens antes de cair de boca. Com direito a textinho, localização hashtag e marcar o estabelecimento e os amigos. Fora as “Stories”.

Estou. Fora. Se estava irresistível certamente não haverá registro. Assim como de outros momentos especiais na minha vidinha…

Agora, amplia isso para uma viagem inteira. Locais, encontros, aventuras. Espero ter explicado porque nos últimos 20 e poucos dias o máximo que consegui foi dar uma curtidinha nas fotos feitas por amigos que me pegaram de jeito com meu “sorriso gato da Alice”.

Todo mundo sabe que sou tímida, envergonhada e detesto ser fotografada. Essa é uma das razões que escolhi ficar do lado oposto da máquina fotográfica. Mas, como virou moda o registro incondicional de encontros e divertimentos, para não ser mal-educada e evitar muita zoação, desenvolvi essa técnica. O sorriso do gato, inspirado no bichano de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll. Essa foi a maneira de saber por onde andei. Nos perfis amigos.

O Instagram, companheiro e cumplice compreensivo, solidário com sua assinante, emburrou. Deu de travar, engasgar, e refugar em boa parte da viagem. Me explicaram que, coitadinho não é chegada no 3G, sofisticada e phyna…Essas foram algumas falhas imprevisíveis nas intenções iniciais da viagem.

Cabe registrar que a aventura gastronômica no paraíso também não aconteceu. Baixou o lendário nevoeiro em Ponta Porã. O frio veio junto. De rachar. Foi impossível o deslocamento para Bonito com a partida de Ponta Porã tendo que acontecer de madrugada num dos dias mais frios do ano…

Como já disse, as frustrações tiveram suas compensações. E essas, não prometo mas, pretendo, contar nos próximos textos sul mato-grossenses.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

O silêncio do suicídio

por Aline Rodrigues

Você já pensou em pôr fim à sua vida? Pode soar de forma agressiva, mas se trata de uma pergunta que tem rondado os pensamentos dos brasileiros mais do que imaginamos.

Outra questão é: Você conhece alguma pessoa que suicidou? Acredita que essa pessoa efetivamente suicidou ou que foi um acidente ou morte natural?

A sinceridade em assumir esta realidade é extremamente importante. Porque, a negação deste comportamento é um dos grandes fantasmas que potencializam seu aumento.

Como iremos tratar algo que não consideramos existente? E assim, negando sua existência, mais e mais pessoas colocam fim em suas vidas por não conseguirem mais suportar ou lhes dar sentido.

Dados estatísticos revelam que, anualmente, 800 mil pessoas suicidam no mundo. Sua maior incidência acontece na faixa etária de 15 a 29 anos. E, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Brasil apresenta um registro de 12 mil mortes por ano. Um dado assustador.

Diante deste cenário, podemos abrir inúmeras discussões. Atenho-me apenas a uma reflexão: todos que atentam contra a própria vida o fazem por estar vivendo um quadro de doença psíquica? Afinal, este é o discurso que ouvimos a todo instante. De fato, isso precisa ser questionado, visto que a dimensão psicológica não é a única que norteia o ser humano.

É válido ressaltar que somos um ser biológico, psicológico, social e espiritual. Que dentro da dimensão biológica, pode se notar alterações neuroquímicas e hormonais que estão relacionadas diretamente ao quadro de humor da pessoa, um dos fatores que implicam no comportamento suicida.

Outra dimensão é a psicológica. Claro que esta é a que mais atinge esse público, inegavelmente. O aumento de doenças psíquicas como depressão, ansiedade e tantas outras patologias, tem gerado o que chamamos de “adoecimento coletivo”. Atrelado a essas patologias, podemos notar que o ser humano tem ficado perdido quanto à sua identidade.

Muitas vezes, não reconhece o seu lugar, valor e missão no mundo. O que gera confusão e sensação de falta de sentido. Não entro aqui na discussão de casar ou não, ter filhos ou não, trabalhar ou não. Falo das frustrações e decepções vividas, do sentimento de abandono e desamparo sofrido. De olhar para si e não reconhecer nenhum sentido na própria vida.

Uma outra dimensão que potencializa esse sofrimento humano é a social. A sociedade tem violentado o ser humano, pois ele não consegue freá-la, nem dar respostas saudáveis. Vive no automático, respondendo a uma cultura de massa, que tira toda a sua individualidade. Exigindo, muitas vezes, um comportamento e uma forma de pensar muito diferente do que é dele. E uma vez que não consegue encontrar o seu lugar nesta sociedade, perde o sentido da vida. Essa dimensão é como um gatilho no revólver que é a nossa estrutura psíquica.

Essas dimensões humanas são como os pés de uma mesa: se uma está doente, é como se o pé quebrasse. Um pé da mesa quebrado, o que acontece? A mesa fica “manca”. Esteja atento, reconheça essas dimensões nos integrantes de sua casa, olhe para a dor do outro que está perto O suicídio é real, fruto de uma realidade doentia de alguma das dimensões da nossa vida.

Temos uma geração fraca, que não sabe lidar com as frustrações, decepções e os NÃOS que são próprios da vida. Aprenda a dizer não! Auxilie seus filhos a lidarem com as decepções e frustrações. Mostre às pessoas que você ama que é possível achar o equilíbrio, enfrentar e superar o problema que tem gerado essa dor momentânea.

*Aline Rodrigues é psicóloga, especialista em saúde mental, e missionária da Comunidade Canção Nova. Atua com Terapia Cognitiva Comportamental; no campo acadêmico, clínico e empresarial.

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Fiz que fui, quase fiquei mas, para felicidade geral, acabei indo. A vida é uma partida de futebol interminável incluindo os deslocamentos pelo campo que é esse mundão de Deus. Como todo bom jogador completo vou para onde o técnico manda. Porém, confesso, tenho minhas preferências e, quando posso, faço escolhas próprias baseadas em algumas variáveis.

Adoro ir onde o vento leva. Mas hoje, além do bom tempo, sigo as correntes dos preços das passagens aéreas, as cotações das moedas de países da lista de desejos e outros critérios mais objetivos do que gostaria esse ser viajandão.

Reconheço que em alguns momentos apago as prioridades e tomo um rumo certeiro por exigência de sobrevivência do equilíbrio básico necessário para fortalecer meu eu interno. Aí, troco o oceano de água salgada por um imenso mar de água doce no centro do continente sul americano. Nele, me dispo das camadas do convívio ligeiro e superficial para encarar o mais difícil e complexo personagem do repertório da vida: ser eu, apenas eu.

Tá, já sei sua pergunta: “o que a água doce te dá que a salgada não te traz?” A resposta é dolorosa, mas real. Entre outros benefícios, a segurança.

Na minha praia carioca todos os sentidos têm que estar alertas. Mesmo em momentos como esse de concentração literária. Tudo pode acontecer e, das duas uma, ou vira crônica ou motivo de, com toda a agilidade disponível, levantar acampamento e seguir outro destino.

Foi assim, quase traumática, a última experiência no Arpoador. Do luxo ao lixo em poucos e preciosos minutos. De uma crônica inspirada sobre o paraíso  “Quase perdido”, a ser testemunha involuntária de uma barbárie oficial no horário nobre do por do sol mais famoso do Rio de Janeiro, talvez do Brasil, quiçá da América do Sul. Tirei de letra a crônica da felicidade e registrei em vídeo a violência oficial da guarda municipal, cotidiana e banal na cidade partida.

No impacto dos acontecimentos concluí que era hora de trocar o tempero das águas cariocas por correntes menos imprevisíveis. No “unidunitê” dispensei os “salameminguê” e usei um critério climático para cravar o novo destino.

Na dúvida, entre o Pantanal de Mato Grosso e o irmão do sul o segundo levou a melhor. Nele, como em todo nosso Centro Oeste agro pop, a umidade do ar está um pouco mais relativa e amigável. Volto às origens, agora partidas, de uma terra especial que (re)conheço desde criança. Fugindo da secura caí para o oeste e para o sul.

Do alto da serra de Maracaju vislumbro o doce mar que tanto anseio. Quero o silêncio barulhento das águas, da terra e dos animais para substituir as batidas das paredes sendo derrubadas nas múltiplas reformas do meu quadrado copacabanense. O sussurrar das folhas ao vento ao invés do som do corte do esmeril que entra pela janela transformando meu pequeno mundo numa cadeira de dentista com a broca indo e vindo 8 horas por dia.

Não, não é aqui no avião que atingirei o nirvana. Pelo menos no trecho Rio-São Paulo. No agradável trajeto uma menininha de uns três anos resolveu decretar o apocalipse e, da decolagem ao pouso, berrou delícias a todo pulmão do tipo: “Estou com meeedo”, “Balançoou…”, “O avião vai cair…”. Tirando a gritaria em si, nada disso me abala, mas pegou na veia de outros passageiros que, de tanto aguentarem a ladainha desesperada da pequena, foram emprenhados pelo ouvido e, apesar da tranquilidade do voo, resolveram distraí-la. Adiantou? Não.

Os excelentes pais sem domínio sobre a cria deixaram o tumulto correr frouxo. Nada que meio Dramin, para fazer a malinha sem alça e sem rodinhas descansar, não resolvesse. Ou um pouco de autoridade familiar. Mas aí também era querer demais… Melhor abstrair e ignorar as expressões da metade dos passageiros enfurecidos e incomodados. Eles que se mudem! Mas para onde?

Foi a última prova antes de alcançar o nirvana que buscava. Duríssima! Não sucumbi e resisti. Agora, estou no trecho como gosto. O paraíso é logo ali…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com