Medidas compensatórias

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vivendo e aprendendo. Inclusive a não prometer o que não sei se vou poder cumprir.

Na última passada nesse espaço, com a crônica “Logo ali”, jurava que seria capaz de fazer você, leitor, acompanhar as etapas da viagem a Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguay e adjacências.

Cheia de boas intenções, pretendia enviar relatos semanais da entrada por Campo Grande, a descida até Ponta Porã, uma passada planejada em Bonito. Depois, dias em Aquidauana, antes de voltar para Campo Grande e para a rotina imprevisível da vida no Rio de Janeiro.

Quais as partes (observe o plural) que não foram cumpridas? Enquanto atravesso uma área de turbulência, já pertinho de São Paulo, tento fazer um balanço das semanas que inexisti no sentido literário de meu compromisso com você eleitor – ops, ato falho, leitor – e enviar para a publicação os textos e fotos.

E quer saber? Não me arrependo. Quase tudo deu certo e o que deixei de fazer foi substituído por experiências diversas e inesperadas. Um exemplo?

Para ele, me baseio numa teoria que acabo de criar e ando burilando. Imaginem um registro gastronômico. Você vai ao restaurante e, antes de abrir os trabalhos, para tudo. Faltou a foto ma-ra-vi-lho-sa do prato em questão. Ali, saboroso, com aroma e temperatura perfeitos. No mínimo, preciosos segundos de contemplação foram perdidos.

A comida esfria enquanto a gente dá uma ajeitada no entorno, acerta o plano, gira o prato para ficar ainda mais apetitoso, arruma os talheres. Tira as logos dos refrigerantes e da água do quadro. Claro, se houver um bom vinho, tem que acertar a posição do rótulo. Não frontal, displicentemente, quase lateral. Aproximar a taça devidamente preenchida até a altura adequada, dependendo do tipo da bebida.

E a comida? Linda na foto (que você já checou para ver se está no foco, no ângulo certo). Esfriouuu… Amado leitor. Sou muito chata para comer e, se o prato for irresistível, tenha certeza: lá se foi o registro perfeito para as redes sociais. E ainda tem antenados que fazem as postagens antes de cair de boca. Com direito a textinho, localização hashtag e marcar o estabelecimento e os amigos. Fora as “Stories”.

Estou. Fora. Se estava irresistível certamente não haverá registro. Assim como de outros momentos especiais na minha vidinha…

Agora, amplia isso para uma viagem inteira. Locais, encontros, aventuras. Espero ter explicado porque nos últimos 20 e poucos dias o máximo que consegui foi dar uma curtidinha nas fotos feitas por amigos que me pegaram de jeito com meu “sorriso gato da Alice”.

Todo mundo sabe que sou tímida, envergonhada e detesto ser fotografada. Essa é uma das razões que escolhi ficar do lado oposto da máquina fotográfica. Mas, como virou moda o registro incondicional de encontros e divertimentos, para não ser mal-educada e evitar muita zoação, desenvolvi essa técnica. O sorriso do gato, inspirado no bichano de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll. Essa foi a maneira de saber por onde andei. Nos perfis amigos.

O Instagram, companheiro e cumplice compreensivo, solidário com sua assinante, emburrou. Deu de travar, engasgar, e refugar em boa parte da viagem. Me explicaram que, coitadinho não é chegada no 3G, sofisticada e phyna…Essas foram algumas falhas imprevisíveis nas intenções iniciais da viagem.

Cabe registrar que a aventura gastronômica no paraíso também não aconteceu. Baixou o lendário nevoeiro em Ponta Porã. O frio veio junto. De rachar. Foi impossível o deslocamento para Bonito com a partida de Ponta Porã tendo que acontecer de madrugada num dos dias mais frios do ano…

Como já disse, as frustrações tiveram suas compensações. E essas, não prometo mas, pretendo, contar nos próximos textos sul mato-grossenses.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM FIM…delcueto.wordpress.com

Daí, o que você acha disso ?