As chuteiras sem pátria

Por Julio Yriarte

A Copa do Mundo Rússia 2018 começou e ainda não terminou!

A seleção brasileira, infelizmente tropeçou no meio do caminho, desta vez nas quartas. A Argentina, Alemanha, Uruguai idem! Da mesma forma, outras tantas e boas seleções. Tanto uma quanto outra chegaram com a esperança (ou a certeza) de empoderar-se e quiçá, de apoderar-se do Campeonato Mundial!

Aqui, como lá, o país parou, e no caso, aqui, seus mais de 170 milhões de habitantes se esqueceram de tudo, até de comer, de beber e de amar, para, a cada jogo ficar pendentes diante de uma telinha acompanhando o balé dos seus meninos/ídolos em campo.

Quem quis trabalhar não conseguiu, quem quis silêncio para pensar, meditar ou simplesmente dormir também não conseguiu. Todos foram obrigados a compartilhar os gritos de ansiedade da torcida nervosa que comeu as unhas e chorou e se agitou diante do jogo, ou ouvindo os foguetes a cada gol.

Não adiantava! Ninguém iria trabalhar mesmo. E quem tentasse, não conseguiria render. É o destino da pátria sendo decidido por 11 pares de pés que se movimentam em campo, e por duas mãos do goleiro que impede o gol do adversário.

Estranho, muito estranho, uns querendo o gol, outros querendo impedi-lo? Por isso há que concluir: é apenas um jogo e assim deve ser tratado, não vale a pena sofrer, chorar, cacarejar havendo tantas coisas e assuntos mais importantes para fazer, para pensar…

As empresas e repartições públicas se resignaram: meio expediente ou expediente nenhum quando houve jogo do Brasil. Aí. O país não andou nada produziu, salvo algumas esdrúxulas propostas legislativas aprovadas ao compasso da euforia de um GOL!

Óbvio que pela perícia no esporte nacional, pela quantidade de bons jogadores, o Brasil se faz respeitar no mundo inteiro. Será que o povo está muito exigente? A Arena Kazan, na Rússia foi o grande palco da derrota. A seleção brasileira perdeu e o povo está querendo crucificar seus antigos heróis, incluído aqui, o técnico Tite (faltou incluir o destemperado Galvão Bueno).

Parece que ao povo lhe falta compreensão, entender que os “heróis” são também humanos, e que do lado contrário tem outros onze bons jogadores que também buscam a vitória.

Agora, Neymar ou qualquer outro jogador nem ouse falar “que não é obrigado a jogar bem todas as partidas”. Claro que é obrigado! Ganha para isso, e muito bem por sinal, além do que merece.

E se fosse um médico que não é obrigado a operar sempre bem? O paciente, com certeza, morreria. E se um músico de orquestra falasse que não é obrigado a tocar sempre bem? Diga-se de passagem, neste caso, qualquer “notinha na trave” estragaria todo o concerto, a crítica e público (torcida) não perdoariam.

No futebol estamos vendo “as turras” bola na trave e até longe dela, mas, o jogo continua e o torcedor entende e aceita, só não está aceitando a eliminação da seleção canarinha do mundial. Paciência!.

E isso não fez bem ao nosso ego em baixa, ao nosso complexo de cachorro vira-lata, como diria Nelson Rodrigues. Por outro lado, quando a seleção é vitoriosa, faz bem ao país ser cotado entre os melhores do mundo em contraste com os milhões de desempregados, de analfabetos, mas, continuamos caminhando com a esperança e fazendo água na boca e deglutindo todos os sabores.

Se a seleção vencesse, haveria ainda menos produção, e isso seria ruim para o país. E já que a seleção perdeu, não há risco também de cair a produção? Há, mais aí depende da euforia, desequilíbrio e consciência individual de cada cidadão.

Os da antiga geração não se terão esquecido do engodo da Ditadura Militar no governo Médici, que fez com que a vitória do Brasil, conquistando o tricampeonato no México, desviasse a atenção da opinião pública para as barbaridades que aconteciam nos porões do regime.

Enquanto a população gritava gol e dava vivas à Seleção, nas prisões brasileiras jovens eram torturados até a morte; mulheres grávidas perdiam os bebês devido ao sofrimento físico e moral por que passavam. Quem tinha ou têm dinheiro em caixa, ou não sabia, ou não sabe, ou não quis ou não quer saber deste lado negro, nada sofreu ou nada sofre, até hoje!

Conquistado o título naquela época, foi a vez da economia montar e consolidar sua mentira mais espetacular. O famoso “milagre brasileiro”, que fez a classe média acreditar que era rica, esburacou para sempre as finanças do país, e por muito tempo os gastos e pagamentos feitos deixaram amargas conseqüências devido ao preço daquele embuste.

Ao “milagre” seguiram-se a inflação galopante, a pobreza crescente, sempre regados com discursos que diziam ser necessário que o bolo crescesse primeiro, para depois reparti-lo.

Enquanto isso, a Seleção voltava do México e era aclamada pelas ruas. E o fosso entre ricos e pobres aumentava. E toda uma geração era perseguida, torturada e morta. E o povo brasileiro se alegrava com seu aparente trunfo, com sua estrela brilhando, sem saber que era uma estrela cadente, rapidamente se dissolveria.

Em fim! Tempo de Copa do Mundo! Foi justo e necessário torcer e muito por nossa Seleção. Valeu tudo: chamar o juiz de ladrão, carcomer as unhas, arrancar os cabelos, gritar de alegria pelo gol feito e chorar de angústia e frustração pelo gol tomado, e finalmente, pela derrota mortal.

Malditos FERNANDINHO (autor do gol contra), DE BRUYNE (autor do gol da vitória da Bélgica e, maldito LUKAKE (puxou o contra-ataque que finalizou no vitorioso gol da Bélgica).

A massa humana amarela presente na Arena Kazan ficou muda e estarrecida, sem acreditar no que estava acontecendo 2 X 1. Final do jogo! Não esqueçam: Apenas + um jogo!

O que importa mesmo é compartilhar a alegria do povo com essa festa democrática que é um campeonato mundial de futebol. Mas fazê-lo, sem esquecer que o país do futebol tem grandes problemas que não seriam solucionados com as estratégias do TITE ou a perícia dos dribles do menino NEYMAR, nem com os chutes do gênio MARCELO, nem com as eficientes defesas de THIAGUINHO, tampouco com as finalizações de Coutinho, Paulinho ou de qualquer outro “inho”.

Apenas com muito trabalho, espírito comunitário, práticas solidárias e desejo de justiça, será possível reverter o atual caótico quadro de miséria e distanciamento social existente entre os próprios habitantes deste grande país abençoado por Deus chamado… Brasil.

Julio Yriarte – É Advogado atuante, guitarrista de LOS DINOS, membro da Academia Guajaramirense de Letras e Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/RO.

Daí, o que você acha disso ?