Guajará : o falador de gírias

Por Altair Santos (Tatá)

O trem apitara pela vez última em junho de 1972. Três anos depois, na manhã duma quarta-feira de junho de 1975, o Bairro do Triângulo (de Porto Velho) cedinho ao abrir portas e janelas, avistou um jovem transitar em passos suaves sobre os dormentes da inerte Estrada de Ferro Madeira Mamoré.

Era um desconhecido quase a levitar quando subia nos trilhos e, de braços abertos, andava coisa de vinte metros ou mais, sem desequilibrar. Aquela invejável destreza e aparente paz de um monge budista das montanhas do Tibet, chamou a atenção, causou intriga e expectativa certeira nos jovens do lugar, a ponto de lhes deixar pulgas atrás das “zorêlhas” afinal, andar assim, hábil, pelos trilhos com jeito de pensador e não ser morador daqui, só mesmo vindo da região de Jaci, Abunã ou Guajará Mirim.

Em sendo da Pérola do Mamoré era presença e risco iminente de fazer ruir o império dos tupiniquins, ainda mais se o cara tocasse violão e cantasse em castelhano com o sedutor sotaque na timbragem peculiar dos artistas dos altiplanos bolivianos e Cordilheira dos Andes. E se fosse desembaraçado na conversa e já soubesse fumar e dançar, usasse camisa gola cacharréu, calça boca de sino daquelas que varriam as ruas, sapato tipo cavalo de aço ou tamanco, atributos, vestuários e badulaques mui valorizados no currículo dos rapazes daquela época, a ameaça ganhava contornos vivos de tragédia posto fazer trêmulas e fragilizadas as emoções ciumentas dos nossos moços, tementes que as “girls,” cá das barrancas do madeira, viessem a se “embandeirar” e “dar bola” pro recém chegado.

Mais tarde reunidos, os daqui se punham a tecer sobre o “bicão” que se intrometia causando sismos na paz da comunidade. O cara em poucas, horas desde a chegada, já despertara o olhar analítico e interessado de algumas moçoilas, suscitando investigação e reação de defesa por parte dos inseguros boys portovelhenses.

Para monitorar o ir e vir do estranho montaram campana debaixo da Placa 1, defronte à nossa casa, morada abençoada por Deus, tendo a varanda dos fundos com privilegiada vista para o intacto e saudável Rio Madeira onde, além do inspirador pôr do sol, botos saltitantes e gaivotas desenhavam belas coreografias, um balé ímpar naquele indescritível mosaico natural. Ali, meninos nus, íntimos e consanguíneos da liberdade, improvisavam um píer sobre toras de cedro e açacu atracadas ao porto da serraria do boliviano Romão Salazar e se banhavam inocentes, livres de inibição repressora, eram anjos sem asas e de baladeira no pescoço, a viverem o Éden de suas existências.

Na frente da nossa casa, rivalizando sem choque com o rio, tínhamos outro belo presente, os trilhos estendidos, poesia e enlevo aos olhares e sentimentos. Era o tapete ferroviário por onde o trem, nosso herói de ferro, robusto, histórico e inesquecível, antes do seu triste silenciar fumegava e apitava fazendo sucessivas idas e vindas elando Porto Velho e Guajará Mirim urbes queridas, além doutras cidadelas, pontos equidistantes.

Após acalorado debate os moços do Triângulo resolveram, naquele dia, tirar o assunto a limpo. O desconhecido agora réu naquela corte de mancebos teria sua identidade revelada, seus passos seguidos, os reais motivos da sua intrigante estada por aqui seriam visceralmente expostos, tudo com precisão e discrição, tal como faz ou fazia a Scotland Yard, a polícia inglesa. A abordagem se deu as 17 horas, justo quando as meninas voltavam da escola e testemunharam seus pretendentes em atitude heroica enquadrando o rapaz, rezando-lhe o bê-a-bá, dizendo como é que a valsa tocava.

A coisa se deu assim: quando audaz, leve como pluma ao vento, surgiu o moço a andar sobre os trilhos, alguém do grupo o chamou. Ei você vem aqui falar com a gente. O rapaz atendeu e foi chegando manhoso, cheio de curva e gingado, trazendo o corpo esquálido num balanço invocado, um swing próprio de quem veio de Cachoeira Pequena trazendo na bagagem ar e trejeitos de um experimentado “malaco” da malandragem fronteiriça. Mascando um chiclete e levantado os dedos indicador e médio duma das mãos em “V”, símbolo e saudação hippie de paz e amor, foi logo dizendo boa tarde gurizada, “qualé” a de vocês?

Aquela entrada desmontou parte da sisuda volúpia inicial do inquisidor que retomou já em tom menos ríspido. Só queremos que você solte pra gente o seguinte lero: abre aí o teu nome, donde tu caiu pra chegar aqui e qualé a tua onda aqui no bairro, é malandragem, é “azaração com as mina,” é “trampo,” é o quê? Ele respondeu: Ok, “sem grilo, morou?” Taí, tu é um cara “manero” mas esse “teu plá” é de “horror”, te liga que “eu vô batê” abram as “cacholas” de vocês: eu sou conhecido como Guajará, nasci lá.

Nisso todos tremeram, as pernas fraquejaram quase a caírem espalhados pelo chão como num strike, se não se escorassem uns nos outros. E prosseguiu: vim dar uns “rolés” pra esperar o outro ano chegar. Fui expulso do colégio, eu gazetava muita aula pra ir tomar banho lá no Palheta e pesou contra mim, as toneladas de caretice e a coleção de notas zero e outras mais, todas vermelhas, que recebia nas provas de um certo “teacher” linha dura e desalmado.

“Sartei fora” e vim curtir as festinhas daqui, fazer um som com a turma. Eu canto em castelhano e em inglês, toco violão, uma biritinha vai bem e, cá pra nós, curto um “baseadinho suave” naquela de moderado. Fumo uns tarugos bem bacanas coisa dez ou doze por dia, só pra despoluir o corredor cerebral, expandir a mente, colorir o horizonte e aliviar a caixa pensante, vocês sacaram, vocês alcançaram a minha onda, ou não “atinaram” por onde orbita o meu planeta cuca legal?

E tem mais, já “mancuriquei” que as “minas” aqui do pedaço é tudo broto legal e quero jogar umas teses de “love sinceridade” pra cima delas. Aliás tem uma que eu vi passar, ela é assim jeitinho “doce de côco”, tipo flor do meu jardim, tudo pra mim e coisa e tal, eu “parei” na dela, vocês me “understand” (entendem)? E abro mais, colar aqui pra gente transar essa ideia foi massa. Nisso, algumas moças que passavam e já bem informadas sobre ele o cumprimentavam assim: oiii Guajará, “tudo joia,” se entrosando com os meninos né?

Guajará um rapaz moreno, estatura média, cabelo estilo black power no padrão Jimmy Hendrix, um tipo opção rock and roll apartada da beatlemania, órfã legião de fãs no mundo inteiro, desde quando os rapazes de Liverpool emudeceram a banda em 1970. Articulado e bom de papo, o emergente da fronteira passou no teste, na dialógica engoliu os possíveis oponentes e dividiu os hostis. Para alguns melhor seria aliar-se ao novato, enquanto outros se mantinham na espreita. Mesmo assim, divididos, o convidaram pra uma festinha já no próximo sábado, no terreiro de uma casa do bairro.

Pra içar bandeira branca, selar a paz ou cessar fogo, combinaram se encontrar mais cedo, no dia festa, pra umas caipirinhas a partir das19 horas, no que foram pontuais, inclusive o Guajará que passara a tarde toda nas preliminares festivas, em trajes menores, se banhando no Igarapé do Burrinho, bebendo katira (um tipo de cachaça ultra forte) e tirando gosto com cajarana além, é claro, de mandar pro cérebro levas enfumaçadas do teor alucinante da “marijuana” que ele, artesanal e esmerado no ofício, preparava e deixava pronto pra consumo quase no avantajado formato (tamanho e circunferência) dos afamados charutos Cohibas, os cubanos legítimos. Cada tarugo daqueles, dizia ele, era dose pra leão!

Na festinha tão logo rolou um intervalo para trocarem as pilhas da vitrola ele pediu o violão e, decidido, performático e com a cabeça viajando em alucinação pelas galáxias estreladas, desferiu acordes fortes, notas seguras e com voz rouca “à la” Rod Stewart cantou as inesquecíveis hei tonight, have you ever seen the rain e traveland band, um pout pourri imortalizado pelo grupo americano Creedence Cleawater Revival. Depois, versátil e plural, falou direto ao coração quando tascou uma sequência romântica que tinha Roberto e Erasmo Carlos, Los Pastelos Verdes, Peppino Di Capri, Gianni Morandi, Demmis Roussos… Aí o homem virou ídolo das “minas” que tinham seus “zoinhos” a rebrilhar feito estrelas no céu.

Quando das pausas, Guajará, o show man, soltava risos e gracejava com as garotas “papo firme,” bebericava algo e, infalivelmente, ia pra detrás de uma mangueira. Lá na penumbra era avistado a acender e soltar baforadas em algo que não era vela para as almas e nem pra santo nenhum. Na volta o adepto das ervas e passageiro das viagens inimagináveis nas asas da “canabis sativa,” a popular maconha, se punha recluso num canto tipo em transe, viajante solitário a ver miragens e dialogar silencioso, talvez com o além, ou com algo além do próprio além… Depois afogava seus olhos vermelhos e abrasados em baldes e mais baldes de colírio Moura brasil.

Aqui em Porto Velho ele ficou uns quatro ou cinco anos, dos quais, a maior parte, mais a voar do que andar, mesmo sempre estando no chão. Até arrumou uma namorada esquisita, conhecida pela alcunha de Chica Mata Gato a quem, de uma hora pra outra, deixou a ver navios, barcos e canoas na margem do Madeira. Sem nada dizer ou recado deixar voltou pra sua terra natal, na fronteira Brasil-Bolívia.

tatadeportovelho@gmail.com

Uma ideia sobre “Guajará : o falador de gírias

  1. hallet biran

    Ei ,

    Eu vejo o site http://www.betobertagna.com e é impressionante. Me pergunto se as opções de publicidade de conteúdo ou banners disponíveis no seu site?

    Qual será o preço se gostaríamos de colocar um artigo em seu site?

    Nota: O artigo não deve ser qualquer texto como patrocinado ou anunciado ou como esse

    Felicidades
    Hallet biran

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