Veneza

Por Carlos Moreira

Veneza é um imenso romance. E pronto. Foi engendrado em outro mundo. Em outra língua. Veneza inaugura uma linguagem além do barroco, além de Vieira, além-simetrias: o labirinto é um monstro repleto de vazio, o fora próprio da linguagem. Em Veneza nada é, tudo vem e passa sem o estado de presença. A chama seria a forma deste romance, mas uma chama vista através de um espelho d’água. Uma chama apaixonada pela água, amante do fluir cristalino. Daí sua violência. Nada é mais violento que a beleza.
Veneza está em todo lugar que se despreze. Depois de amar. Em todo lugar que anda e que afunda, já que, não existindo o tempo, só o lugar pode afundar. Nessa geografia movediça, nesse lugar nômade, nessa água viva que queima mesmo quando morre, ou ainda mais depois de morta, é que se movem Pierre Bourdon e o Mouro, um claro o outro escuro, um palavra o outro silêncio, um água o outro fogo, um sombra o outro corpo. E que Tao épico-sardônico, que novela sangrenta e hilária eles tecem juntos. Byron e Proust, Chaucer e Nava.
O que potencializa a narrativa é a própria máquina-linguagem, máquina-língua, estrangeira como todos em Veneza, mesmo os lá nascidos. Porque em Veneza tudo é mangue, tudo é plâncton e palavra, tudo nasce da água e morre no fogo primordial. Entre o mestre e o mouro até o silêncio é literatura. Em “Kafka: por uma literatura menor”, Deleuze e Guattari afirmam que “Mesmo aquele que tem a infelicidade de nascer no país de uma grande literatura deve escrever em sua língua como um judeu tcheco escreve em alemão, ou como um uzbeque escreve em russo. Escrever como um cachorro que faz seu buraco, um rato que faz sua toca. E, para isso, achar seu próprio ponto de subdesenvolvimento, seu próprio dialeto, seu próprio terceiro mundo, seu próprio deserto.”
É na travessia desse deserto que se dá “o relato vivo do muito que pensou, sofreu e sonhou o cavaleiro Pierre Bourdon”, numa magistral lição borgeana. Desde a frase inicial, uma das mais geniais enquanto início de um livro, até o desdobramento final, a linguagem se metamorfoseia junto com o narrador: estamos diante de uma imensa literatura menor, muito mais potente de sentido e criação do que supõe nossa Grande Literatura. Ler este livro lança um mundo no mundo, como um jogo de espelhos que vai do dito real até “O nada, o caos e o nada novamente.” Levados pela narrativa de Pierre e na companhia do Mouro, vamos descobrindo o que Veneza é: um grande romance. E ponto.

Daí, o que você acha disso ?