Do mural de Alberto Lins Caldas

em silencio

● assim como os olhos dos morcegos ●
● são cegos pra claridade do dia cegos ●
● são os olhos dela clitemnestra ●

● q esqueceu q a morte do homem ●
● clama irresistivelmente pela morte ●
● da mulher na balança das putas moiras ●

● ela clitemnestra não se matou ●
● agamenon rei é quem foi morto por ela ●
● o corpo torcido retalhado por espadas ●

● vejam medeia q matou jasão ●
● quando degolou os dois filhos e bem viva ●
● ficou com aqueles olhos q brilhavam ●

● quem sabe de ajax com a espada ●
● no coração no centro daquela praia ●
● pode compreender e não deixar passar ●

● assim como os olhos dos morcegos ●
● somos todos cegos demais pra claridade ●
● enquanto devoramos treva com treva ●

● a morte gloriosa deve ser aceita ●
● jamais caçada como se vai ao mercado ●
● em busca de frutas verduras e carnes ●

● espartano ou não o guerreiro se mata ●
● apenas sob os golpes frios da desonra ●
● enquanto vamos digerir treva com treva ●

● assim perdemos a sombra como a pele ●
● queimada se descama menos clitemnestra ●
● q dança nua e ri nessa noite tão opressa ●

● nela não ha a dor dos infortunios ●
● aquilo idiota destroçado foi so um marido ●
● fiquemos aqui no mercado de boca calada ●

● foram treva com trevas demais trituradas ●
● marcadas pela infamia ou pela loucura ●
● não nos cabe mais dizer o caminho ●

● nem mesmo a morte depois da vergonha ●
● vivemos outro tempo outras tantas razões ●
● engoliremos mais essa treva em silencio ●

*

Daí, o que você acha disso ?