Se essa rua fosse minha…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Meus caminhos levam às praias. Incluindo a rota pelo Parque Garota de Ipanema, no Arpoador. Desde que mudei para o Posto 6 acompanho interessada a construção do hotel Arena Ipanema. Ironia da vida, quando saí da Ponta, o Arena Leme estava sendo construído. Fiquei apegada aos lindos vidros espelhados. Sempre que passava pelo parque observava o canteiro de obras que ocupava uma parte do jardim do espaço público.

Se feio estava, feio ficou na época dos Jogos Olímpicos e Paraolimpícos, festas maiores do  calendário turístico de 2016. Na verdade, piorou e não foi um pouco com o fechamento da entrada pela lateral na praia. Via de acessibilidade por possuir rampas e pistas “lisas”. A partir daí, ficou apenas a travessia pelo coração do Garota de Ipanema. Irregular e cheia de árvores, recantos. Mais perigosa. Os Jogos acabaram e retiraram os tapumes do canteiro de obras. Começou a recuperação do espaço que, detonado, estava lotado de entulhos da construção do empreendimento turístico.

Um dia, apareceu a passagem. De ponta a ponta, na lateral do hotel. Um “passeio” reto e gradeado, já que as duas entradas para o parque foram fechadas durante as obras e a rampa de concreto de acessibilidade retirada. Quando ia pra praia, a passagem era ótima para os dias de pressa. O passeio pelo interior do parque era perigoso e mais longo.

Domingo foi assim. Optei pela passagem lateral. Quando cheguei no portão ele estava fechado, mas não cadeado. Estranhando, entrei. Já na altura da entrada de serviço do hotel fui alertada que não poderia passar por ali por ser uma rua privativa e estar fechada ao público durante os finais de semana. Sabe quando passa pela sua cabeça um filme? Pois é. O enredo e a produção eram cuiabanos. A rua ficava no Porto e negócio, feita por um prefeito, foi revisto depois…

Na volta da praia ao atravessar novamente por dentro do parque “perguntadeira”, fui assuntando com salva vidas, guardas municipais e PMs que estavam de serviço (muitos, era domingo), se sabiam e o que achavam da medida. Unanimidade. Os guardiões afirmavam que estava complicado para quem passava e era obrigado a ir pelo parque. Tanto na acessibilidade quanto no quesito segurança. E ninguém sabia informar como a rua havia virado privativa.

Para me inteirar melhor na segunda feira fiz um passeio fotográfico com o apoio de um guarda municipal. Os cenários e recantos se estivessem bem conservados seriam espetaculares! Mas, hoje, não dá para ficar dando sopa com um aparelho qualquer no pedaço. Publiquei as fotos no Instagram. Fazem parte da série #ValeRio2016. Uma das mostram o antes, o durante e o depois dos megaeventos cariocas. Por definição, assim como foi no Pan e na Copa, estamos no #justafter, o legado.   

Caí dentro na internet atrás de informações. Já com o suficiente nas mãos procurei o marketing do grupo Arena que me encaminhou para o gerente geral do Arena Ipanema. Douglas Viegas é um gentil cavalheiro da hotelaria carioca. Morador de Copacabana e, portanto, disposto a uma boa conversa, a dar as explicações disponíveis e ouvir ponderadamente a demanda. Explicou que o Arena Ipanema adotou o parque. Fazia a revitalização e conservação do mesmo. Também me disse que havia uma decisão, tomada pela Associação dos Moradores, Região Administrativa, PM e Guarda Municipal, de que o parque funcionaria de 6 da manhã às 20h. Perguntei se haveria horário de verão, mas ele disse que não. Concluí com meus botões: não consultaram os esportistas! Surfistas madrugam e a volta pela Francisco Otaviano atrasa ainda mais o mergulho matutino. O mesmo acontece quando o sol se põe mais tarde, no verão. Nada de cortar caminho… Parece que a decisão de fechar a rua rolou numa reunião dessas. Mas, como Douglas não lembrava a data, fiquei de enviar essa e outras perguntas por email. Na saída aproveitei e mostrei as fotos que fiz da reforma do parque, hashtag #sosparquegarotadeipanema, sugerindo sutilmente que alguém do hotel dê uma fiscalizada na qualidade dos trabalhos.

Onde quero chegar com essa prosa? A um final feliz. Na mesma tarde recebi um convite para fotografar a passagem no próximo sábado. Segundo Douglas, ela estará aberta ao público em geral e aos que precisam de acessibilidade para chegar ao Arpex, o paraíso carioca…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Arpoador” do Sem Fim…

3 ideias sobre “Se essa rua fosse minha…

  1. João Luiz PereiraTavares

    Não; é claro que não.
    A volta do decoro ao Brasil não é uma afirmação… É uma negativa… Repare na negação de «Coração Valente».
    A volta ao decoro no Brasil foi a saída do PT do poder… Ou seja: uma negação.

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  2. Joao Luiz Pereira Tavares

    Viva 2016!

    Em 2016 houve fato fabuloso sim, apesar de Vanessa Grazziotin falar que não, dessa forma assim:

    “O ano de 2016 é, sem dúvida, daqueles que dificilmente será esquecido. Ficará marcado na história pelos acontecimentos negativos ocorridos no Brasil e no mundo. Esse é o sentimento das pessoas”, diz Grazziotin.

    Mas, por outro lado, nem que seja apenas 1 fato positivo houve sim! É claro! Mesmo que seja, somente e só, um ato notável, de êxito. Extraordinário. Onde a sociedade se mostrou. Divino. Que ficará na história para sempre, para o início de um horizonte progressista do Brasil, na vida cultural, na artística, na esfera política, e na econômica.
    Que jamais será esquecido tal nascer dos anos a partir de 2016, apontando para frente. Ano em orientação à alta-cultura. Acontecimento esse verdadeiramente um marco histórico prodigioso. Tal ação acorrida em 2016 ocasionou o triunfo sobre a incompetência. Incrementando sim o Brasil em direção a modernidade, a reformas e mudanças positivas e progressistas. Enfim: admirável.

    Qual foi, afinal, essa ação sui-generis?

    Tal fato luminoso foi o:

    — «Tchau querida!»*

    [(*) a «Coração Valente©» do João Santana; criada, estimulada e consumida. Uma espécie de Danoninho© ‘vale por um bifinho’. ATENÇÃO: eu disse Jo-ã-o SAN-TA-NA].

    Eis aí um momento progressista, no ano de 2016. Sem PeTê. Chega de po**a-louquice.

    A volta de decoro ao Brasil.

    Feliz 2017 a todos.

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