Porto Velho, por aqui sempre umas poucas e boas (I)

tataPor Altair Santos (Tatá)

Um certo João Alves, apelidado de João Canarinho, por gostar muito de assoviar, era um fagueiro, enxerido, falante, bebedor de cachaça e até mesmo álcool 97º ou Leite de Rosas, afinal tudo valia e servia na falta da carraspana. Certa noite embarcou num “motô” na Boca do Rio Maici, abaixo de Calama, rumo a Porto Velho. Na manhã seguinte, bem cedo, antes de atracar no Cai N´água, confidenciara a uma senhorita, também passageira daquela nau de agosto de 1970, ser ele um homem de negócios, um bem sucedido que trabalhava com vendas.
Quando o barco exibiu a sua proa lá na ponta d´água, já quase na altura do complexo da EFMM ele, mais do que apressado se arrumou todo e, desconfiado, tirou de dentro de um enorme saco de pano uma enorme pasta tipo presidente, de couro, a qual abriu em segredo e, dentro dela, alojou um conteúdo esquisito, suspeito até. Depois, em galanteio, aproximou-se e detidamente fitou a jovem dama, fundo nos olhos, fez um riso com o canto da boca e, conquistador, piscou praquela tímida e visivelmente receptiva. A senha fora dada, se ela topasse o canarinho, malandro como ele só, assoviaria em gorjeios aos seus ouvidos, alma, coração e corpo inteiro. Mas atento, o pai da moça imediatamente chegou e desfez o flerte, o trololó.

Mal o barco encostou, o João canarinho de pasta em punho saltou em terra e olhou pra trás pra ver se, pela destreza, a encantadora moçoila o assistira admirada. Em seguida o representante de vendas ganhou a cidade barranco cima. Já no plano urbano andava de um lado pro outro, montado em alta boçalidade, a ponto de ser visto a uns duzentos metros, anunciado pela ultra-reluzente camisa amarela que usava e pelo escandaloso balançar dos braços e, claro, ornado pela enorme pasta que empunhava e sacudia em descompasso ao movimento cadenciado dos tradicionais homens de negócios da capital como o seu José Oceano Alves, José Saleh Moheb, Hortêncio Simplício, Boanerges Lima, João Vitaliano Neto (o João Maranhense) e outros.

Quando aquela tarde de calor infernal exigia do povo refrescar-se de alguma maneira, ele chegou à calçada do Bar e Sorveteria Café Santos onde alguns senhores também portavam pastas tipo presidente. Pronto, ali a coisa era alta patente, era no padrão de como queria, afinal a maioria era como ele, executivos alinhados. Pra melhorar avistou a moça do barco com seu pai numa das mesas se empanturrando de sorvete de graviola e guaraná. Nisso, todo na pose, tratou de ir ao balcão e, sobrando em panca acotovelou-se, pediu uma cerveja, soltou umas duas piadas para ser notado, serviu seu copo e bebeu numa só golada e fitou a jovem que, ao menor descuido do pai, lhe dispensava intercalados olhares de soslaio, enviesados e coloridos com certo ar de riso. Ela estava gamada, seduzida!

Um dos assíduos freqüentadores da casa, minucioso, prestava atenção naquele cidadão novato ao meio e cheio de curvas, gingas e balançados. Aproximou-se e com ele teve assim: boa tarde meu bom rapaz, como vai, seja bem-vindo, pelo visto você é recém chegado na cidade, não me lembro de tê-lo visto por aqui outras vezes, de onde vens, trabalhas com quê, veio pra morar, trouxe a família, ou estais de passagem? Era a vez do João Alves debulha, ao conhecimento daquela platéia, o seu currículo e aptidões e se fazer ouvir pela jovem presente no afamado point, o Café Santos.

Sem perder tempo agasalhou a pasta sobre quina do balcão, dobrou a manga da camisa até o plano três quartos, sacou do bolso um cigarro continental com filtro que ficou entre seus dedos e com voz empostada tascou: veja bem meu amigo, muito prazer, eu sou o João Alves seu criado, solteiro, sou paraense de Santarém, mas estou vindo do Amazonas, trabalho com venda de peças nacionais e importadas para motocicleta, carro e motor marítimo, caso o senhor precise posso lhe visitar em sua loja ou escritório, eu nem vim a passeio e nem pra ficar, estou aqui para conhecer a praça.
A informação soou útil por demais ao interlocutor que trabalhava numa loja de baterias automotivas e seria levada como boa nova ao seu chefe que na época, cremos, teria sido o senhor Henrique Pullig. No balcão após cumprimentos e alguns goles, o curioso voltou a perguntar: e o que tens aí na pasta, alguma novidade pra nos mostrar? A resposta: não, aqui só alguns tipos de rolamentos pra carro e moto, mas são pra uns modelos que aqui e Porto Velho não tem, são encomendas que vou mandar pra amigos em Manaus. Ah entendi disse outro!

Adiante, já rodeados por alguns interessados na prosa, o João Alves, pra desconversar, tascou: vamos beber umas e outras meus amigos hoje é por minha conta. Pediu mais duas e disse podem deixar que lhes sirvo os copos. Foi aí quando pegou a garrafa e, na desatenção, esbarrou-a na pasta que, em após queda alta, espatifou no chão e abriu-se toda, fazendo esparramar e rolar pelo salão e por entre as mesas, cadeiras e pés dos clientes e transeuntes na calçada, o farto conteúdo de três ouriços de castanha macetas, dois cacaus que se partiram em bandas e umas quatro ou cinco dúzias de tucumãs madurinhos.

Assustado e intrigado o seu amigo de conversa gritou: eeeiiita porraaaa hein, esses carros e motos de Manaus são muito modernos, usam até rolamentos de frutas! Nisso sem ter como se explicar, o João Canarinho empreendeu fuga saindo em disparada pela direita na Prudente de Moraes, outra vez dobrou a direita já na Natanael de Albuquerque e quase fora atropelado pelo Jipe do Sebastião Resky, atravessou a Praça Marechal Rondon e sumiu pra nunca mais voltar. No bar, a pasta, os ouriços e alguns tucumãs, ficaram como penhora em quitação à conta não paga.

tatadeportovelho@gmail.com

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