Passarins pasarán

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Passarão era o rei da voz. Incontestavelmente. Sabia de suas qualidades e fez jus ao título enquanto intérprete da trilha musical. Empoleirado no alto do alto do Jequitibá encantava toda a floresta.
Tinha ajudantes. Seu segundo, Passarito, ciente do seu papel, conhecedor do seu lugar. Sabia quando e onde pontuar as melodias tão belas que representavam a rainha das flores, a rosa formosa.
Era um prazer ouvir a sinfonia. A floresta se animava se sentindo estimulada e afagada pela cantoria magistral dos pássaros. Quase um feitiço.
Um dia chegou o dia de Passarão cantar para subir. Era esperado. Seu tempo, esgotado. Partiu. Houve gurufim e homenagens. Passarito assumiu o posto vago.
Dias antes de sua primeira apresentação a frente dos pássaros cantores, num ensaio técnico, passou mal. Coração disparou e quase saiu do peito. No céu, carimbaram o passaporte celestial de Passarito. O que estabelecia o caos no conjunto do desfile e falha na harmonia. Mas era vontade do Criador.
Só que… O anjo encarregado de conduzir Passarito em sua passagem havia chegado mais cedo e assistido extasiado ao ensaio final do espetáculo, no palco não totalmente iluminado, mas tomado pela imensa emoção. Naquele momento, seu coração inebriado de anjo se tomou de amores pelas cores e o perfume da flor verde e rosa e não achou justo que Passarito faltasse ao compromisso assumido e esperado por tanto tempo.
Quebrando a regra número um dos condutores das boas almas resolveu dar um perdido nas instâncias mais elevadas e soprou novamente a vida pelo bico de Passarito. Este, desperto e animado, não parou mais nem deixou em nenhum momento de fazer por merecer a confiança do anjo.
Anjo protetor por seu ponto de vista, mas traidor pela ótica do Primeiro e Único.
Por muito tempo infinitos afazeres tiraram o foco e a atenção do Altíssimo para o desvio, vamos chamar assim, que havia acontecido.
Passarito, ave boa e cantadeira, espalhava alegria e fazia por merecer seu tempo extra no plano terreno. Não havia uma melodia melhor do que outra, nem emoção maior do que poder soltar seus gorjeios e trinados. Estes reverberavam pelas árvores para animar a vida de todos os seres da floresta. A cada verão uma nova canção para celebrar a alegria.
Até que um dia, chegou a hora de falar de Oiá. E quando Passarito abriu o peito e pediu forças ao Criador para, mais uma vez, elevar seu canto verde e rosa, Iansã soprou um vento empolgada e, pensando ajudar Passarito, fez seu pedido chegar lá no céu.
Céus! O que virou a notícia lá em cima. A pergunta que não quis calar foi: como podia estar faltando o trinado de Passarito no coro celestial? Então já não havia sido determinado que Passarito se juntasse aos “Bambas da Lira” tempos atrás?
Chamado aos costumes fez o anjo um “mea culpa” e surpreendeu o conselho dos arcanjos ao pedir perdão, mas sem se arrepender. Disse que qualquer punição é válida diante do prazer de ter acompanhado, durante o tempo de Passarito na terra, suas apresentações puxando gorjeios das almas dos bicudos voadores. Quase encantado…
Não teve nem tempo de argumentar. Enquanto tentava se defender, lá embaixo, Passarito partia. Sem direito a nem mais um minuto de acréscimo. Rapidamente ele foi catapultado para o nível superior e já caiu no meio da cantoria celeste festejado e arrebatado
No Jequitibá, ainda sentido, a passarinhada já segue a vida. Passanerey assumiu o posto de Passarito, que era de Passarão, e a responsabilidade de embalar o canto de Iansã na próxima apresentação. Será igual? Nunca! Mas não esqueça: “Passarins pasarán e sempre, para sempre, passarinharão…”
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM FIM… delcueto.word

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