Pura verdade

Arpoador 150529 011 andaime trabalhador pássaroTexto e foto de Valéria del Cueto

Pulava de um galho balançante para o topo do arbusto junto aa parede. De lá, para o xaxim da samambaia. Dele, cruzava o espaço num voo rápido para um pedacinho de terra, no pé de uma Felicidade.

Mirava com seus olhinhos assustados – e já estressados – sempre a maior porção possível de céu azul.

Lá no fundo podia vê-la.  Ia ele em sua direção e… “TABOUF”. Caindo desgovernado para um lado, asas desalinhadas do outro e aquela sensação de haver batido de frente com uma coisa muito, muito dura.

O barulhão já indicava o nível da porrada contra o que, até sentir nas penas e no corpinho leve e mirrado por elas protegido, era nada.

Agora, mais que uma pedra, havia uma barreira invisível e impenetrável no caminho de volta à liberdade.

Atordoado com as pancadas, assustado com os barulhos,  desalinhadas as plumagens encarregadas de sua engenharia perfeita de voo, o chão duro era o limite intransponível para o final da queda desajeitada por falta de tempo/espaço para realinhar a descida.

Doída e inexplicável.

Dizem que a curiosidade matou o gato. Pois fiquem sabendo que também foi ela que prendeu e desorientou o passarinho.

Pelo menos esse foi o caso…

Rompeu a barreira das casas empilhadas dos Joãos e Josés, não de barro, mas, sim, de cimento saindo do aconchego das árvores protetoras das ruas, ao entrar numa fresta entre dois poleiros de concreto. Trocou o corredor de árvores e abrigos por outro. Sempre imaginando o que havia por lá, do outro lado.

Nunca pensou entre em rasantes e embicadas que daria naquilo. Aquele quadradão inútil, uma selva de pedra com duas árvores e muitas divisões estéreis, pateticamente possuídas e pouco utilizadas em pequenos coletivos egoístas.

Primeiro um geralzão planando entre prédios e janelas, com direito a rasantes pelos tristes espaços vazios, em tons de nada, nem mesmo terra. Uns mais altos. Outros mais baixos. Num dos espaços um verde grama falso de carpete tenta engambelar os olhos e, certamente, não tem o mesmo efeito nos outros sentidos: tato, paladar, olfato. É plástico ou algo assim muito sintético e nada natural, experimentou.

A revista aérea continuou até descobrir uma variação nas cores, um algo mais. Numa altura maior, quase na quina do quadrado, florezinhas cor de rosa e arbustos sacudidos pela brisa convidavam a uma parada extra.

Foi lá que como Ivo, ele viu a uva, quer dizer, as plantas dentro da casa. Diferentes, variadas. Ia alcança-las. Rodeou, deu voltas e achou uma fresta. Mal sabia que disfarçada. Por ali não teria volta. Mas pra que? O céu azul estava ali, tão perto…

Bateu, tonteou, voltou, mirou com cuidado e mergulhou de novo. Perdeu o voo e despencou. E ali ficou. Desejando nunca ter entrado no paraíso.

Pancada daqui, confusão dali, o barulho finalmente atraiu uma boa alma que, depois de pelear um pouco com o pássaro assustado, abriu passagem escancarando as  janelas. Em mais uma tentativa (dessa vez meio cuidadosa, sem muito ímpeto devido aos efeitos das incontáveis trombadas anteriores) da ave, o céu inacreditavelmente voltou a ser o limite.

Ela aprendeu a lição: nesse mundo surpreendente, coisas que parecem não são exatamente. Nesses jardins individuais, feitos para suprir a ausência dos pés no chão, não há espaço para a fertilidade. E – quem não sabe? – onde a fauna não é bem vinda, a vida não reproduz. Esta é a mais pura verdade…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Daí, o que você acha disso ?