E agora PT ?

Por Ernande Segismundo

Estou há exatos 30 anos no PT. Entrei no partido em abril ou maio de 1982 e lembro que nas festas juninas daquele ano exibia com orgulho a estrela vermelha no peito nos arraiais da cidade na plenitude dos meus 20 anos.

Nós petistas sempre acreditamos que nosso partido era diferente dos outros e mais: sempre acreditamos que o PT era melhor que os outros partidos.

Hoje amargo uma profunda desilusão a ponto de me calar quando um amigo jornalista que me ligou no dia da operação policial que acabou com o governo de Sobrinho e disse que agora o PT de Porto Velho terá que lutar muito para se igualar aos piores partidos políticos da República.

Os partidos no Brasil, como se sabe, são instituições nacionais, embora a vida partidária se concretize nas instâncias locais.

No caso de Porto Velho, a eclosão da operação policial do dia 06 de dezembro passado pôs fim ao Governo do partido á frente da Prefeitura de Porto Velho 24 dias antes do previsto de forma vexatória, deprimente e vergonhosa.

O personagem Roberto Sobrinho nasceu do nada e ganhou as eleições de 2004, ao contrário do que muita gente acredita, com muito cálculo e engenharia política formulada pela coordenação daquela campanha, dentre os quais figura a minha pessoa, especialmente quando trabalhei a renúncia da pré-candidatura de Valverde e a unificação do partido em torno da candidatura de Sobrinho, junto com alguns outros dirigentes.

Sucede que o poder que o PT proporcionou a Sobrinho se estabeleceu na contramão dos interesses e ideais do partido. A conduta de Sobrinho em relação ao PT, como já é público e notório, sempre foi revestida de personalismo, exclusivismo, traição, covardia e mediocridade.

Sobrinho traiu o PT na campanha de 2006, quando ignorou a candidatura de Fátima Cleide ao Governo do Estado que ficou em 2º lugar. Traiu o PT em 2010 quando sabotou de todas as formas a campanha do digníssimo companheiro Valverde ao Governo do Estado e de Fátima ao Senado e, finalmente a campanha de 2013, quando Roberto mais uma vez ignorou e sabotou o quanto pôde a candidatura da Fátima à exaustão.

E o pior é que quando a casa caiu para Roberto e sua camarilha com a operação policial de dezembro passado, o PT não teve a dignidade, após oito anos de governo no município, de dialogar com a população de Porto Velho, e é precisamente isto que me impôs escrever este artigo que alguns podem encarar como ‘fogo amigo’ ou ‘cuspir no prato que comeu’, mas para mim é um grito travado na garganta da imensa maioria da militância que precisava ser verbalizado publicamente.

A única manifestação do partido sobre o trágico fim do governo petista na Capital foi uma nota pública divulgada naquele mesmo dia que foi por mim apresentada à Executiva Municipal e que depois de aprovada, sob pressão que empreendi pessoalmente, alguns membros daquela instância se arrependeram de tê-la aprovado.

O presidente municipal do partido, Tácito Pereira que estava viajando na ocasião manifestou a vários dirigentes sua resoluta oposição à divulgação daquela nota pública, preferindo o silencio, conduta inaceitável naquela ocasião. Um partido tem obrigação de dar satisfações á sociedade, sob pena de ser condenado ao descrédito e ao ostracismo.

Depois daquela nota o PT de Porto Velho emudeceu sobre este assunto com exceção de algumas entrevistas inconvenientes que só evidenciaram o injustificável silencio diante de uma crise dessa magnitude. Uma resposta coerente era tudo o que a militância e a sociedade precisavam após ver seu governo despejado do poder municipal pela polícia e seguir quase em carreata para o Presídio Urso Panda.

As entrevistas encomendadas concedidas por Sobrinho soaram como uma afronta, tamanha a desfaçatez.

Na verdade, depois da operação policial, o PT de Porto Velho está acéfalo e sem qualquer rumo ou direção e a militância está atônita, indignada, revoltada e deprimida com tal estado de coisas.

No dia 10 de janeiro passado a militância forçou a realização de uma plenária que reuniu mais de 150 pessoas, onde mais de 40 filiados fizeram uso da palavra. Em defesa de Roberto, mais uma vez Tácito foi condescendente. Os demais presentes, com maior ou menor insistência pediram a renúncia de Tácito e alguns pediram a renúncia da Executiva inteira.

Eu mesmo propus na plenária que Tácito Pereira renunciasse à presidência do Diretório Municipal para que o partido pudesse se recompor, pela molecular ligação com os envolvidos no maior escândalo do Palácio Tancredo Neves e absoluta falta de isenção e habilidade para conduzir os destinos do PT da capital.

Em função destes episódios o PT perdeu filiados de imensurável valor ético e moral que não suportaram a omissão do partido diante de gravíssimas acusações de improbidade administrativa e crimes contra o patrimônio público.

Apesar deste gravíssimo quadro partidário, Tácito Pereira segue sua sina atrevida, prepotente, arrogante e insolente na defesa de um cadáver político, de um zumbi em que se transformou Roberto Sobrinho, riscado para sempre do mapa político de Rondônia e eliminado sumariamente da vida partidária ante a quase absoluta reprovação de suas condutas pela militância, expressada na plenária do dia 10 passado.

Soma-se a este vergonhoso e deprimente quadro o desprezo que Tácito e seus companheiros de infortúnio desenvolveram pelos filiados, pela militância, pela verdade, pelo bom senso e pela sociedade rondoniense como um todo.

Depois daquela plenária houve uma inacreditável manifestação de militantes no dia 16 deste janeiro na sede do partido contra a Direção Municipal, com direito a faixas e cartazes contra a contumácia de Tácito Pereira e seus raros apoiadores.

Segundo notícias da imprensa Roberto Sobrinho reassumirá seu cargo público na Assembleia Legislativa e será lotado no Gabinete da Deputada petista Epifânia Barbosa que é outro cadáver político que circula por aí feito um zumbi em razão de suas relações suspeitíssimas com atos criminosos do defenestrado Valter Araújo.

Epifânia é ré confessa no âmbito ético, pois admitiu publicamente o recebimento de valores do esquema criminoso de Valter Araújo em uma caixa de papelão e mesmo assim se livrou de punição no âmbito partidário justamente pela proteção que lhe deu Roberto Sobrinho que controlava então a maioria da Executava Estadual e a quase totalidade da Executiva Municipal de Porto Velho.

Mas como todo poder um dia perece hoje quem detém de fato o poder na esfera partidária é a militância que está se articulando e se mobilizando cada vez mais para depor o presidente municipal, numa sucessão de episódios de protestos que redundará certamente numa insurreição contra a insólita liderança do decadente Tácito Pereira.

Resta induvidoso, portanto, que o PT não é um conciliábulo, muito pelo contrário, é um partido de massa, cuja militância pauta sua vida civil pela defesa intransigente da ética na política, pelo combate à corrupção e pela defesa do patrimônio público.

Por isto o PT é um partido muito difícil de se vergar e sua força reside precisamente na granítica solidez de seus documentos essenciais, no heroísmo e bravura de sua militância que luta desesperadamente para preservar o programa partidário, para reconduzir o partido ao seio do magnífico Manifesto de sua fundação e reavivar as bandeiras e o programa partidário.

Mas assim como um país se faz com homens e livros como bem disse Monteiro Lobato, política se faz com plataformas e líderes. Não adianta bons programas e projetos políticos sem firmes e sólidas lideranças para tocá-los.

Refundar-se como espaço político-partidário de envergadura é precisamente o desafio do PT da capital para os próximos anos, para reconquistar o respeito e admiração que um dia já teve da população portovelhense, mas isto esta condicionado inevitavelmente a extirpação do seio partidário dos que promoveram seu escabroso flagelo.

Ernande Segismundo é advogado portovelhense.

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