A burrice desenhada (via blog da revista espaço acadêmico)

Por Eloésio Paulo,professor da Universidade Federal de Alfenas (MG) e autor do livro Os 10 pecados de Paulo Coelho.

A burrice, apesar de tantos negarem sua existência, existe de se pegar. João Guimarães Rosa, provavelmente sem essa intenção, evidencia no conto “O burrinho pedrês” a inadequação do substantivo, já que o dito ruminante, nessa narrativa, revela-se muito mais prudente e sagaz que o garboso cavalo no enfrentamento de uma enchente. Mas o uso do substantivo abstrato está de tal modo consagrado que não convém contrariar seu, por assim dizer, direito consuetudinário semântico. Fica aqui, portanto, “burrice” definindo a pouca inteligência em suas várias manifestações, com a devida ressalva à inteligência prática dos burros de quatro patas.

Por que se nega a burrice, em nome do que ela é negada? Há um certo discurso pseudo-democrático que, a propósito de repudiar todas as opressões, a começar pela do Logos (o qual, aliás, tem grande papel emancipador no início de qualquer vida intelectual), confunde liberdade com vale-tudo. Não devia ser bem essa a intenção dos iniciadores da desconstrução das “grandes narrativas”, mas o problema não importa aqui. O que importa é que eles eram muito bem alfabetizados em suas línguas maternas, ao contrário de boa parte dos que hoje se consideram seus seguidores. Em nome da produtividade intelectual, erroneamente medida apenas pelo critério das ciências naturais, justifica-se todo tipo de inacabamento formal e epistemológico. (Sim, isso foi um eufemismo.)

Há vários tipos de burrice. A primeira delas é o déficit intelectual propriamente dito, o qual não merece nenhum reparo, pois não tem remédio nem seu portador tem por ele qualquer responsabilidade. Existe uma burrice passional, muito difundida, que é a do cara que mata a mulher porque se descobre corno. E muitas, muitas outras! Vamos nos restringir à burrice tecnicamente chamada de ideologia, um tipo de auto-engano em que se misturam contingências psicológicas e desinformação. Nada impede que diversas burrices se sobreponham num caso concreto, mas aqui trataremos apenas desse tipo.

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