Na dúvida, cante, sambe e celebre

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei se peço ajuda aos santos, apelo para meus orixás, adoto a postura de meditação dos budistas, entoo um mantra hindu ou tudo ao mesmo tempo. Assim, junto e misturado que é pra fazer efeito.
Estou igual a minha canga, toda embolada quando tento acomodá-la nas areias cálidas da minha praia recém saída de um longo período de quase uma semana de chuva fina e/ou tempo nublado e/ou tempestade, a escolher no período a que me refiro. Estou como o mar, querendo se ajeitar, amansando seus desejos e rompantes mas, ainda, turvo com os resquícios da chuvarada.
Respiramos fundo, o mar e eu, procurando dominar nossos instintos mais selvagens e profundos, cuspindo o lixaredo que tentam nos impingir. Corpos vivos seletivos que ambos somos.
Cheguei aqui com uma história carnavalesca na cabeça, mas relutante em conta-la esta semana. Preocupada com meus assíduos leitores, talvez cansados do meu eterno carnaval. Minha anti-auto-censura argumentando que nunca fui nem serei escrava das efemérides ocasionais para tratar de qualquer assunto. É claro que procuro não desagradar meus editores e, antes de qualquer observação nesse sentido, lembro que o público tem o direito de tomar conhecimento de que carnaval se faz o ano inteiro. O que, inclusive, explica essa verdadeira cachaça cultural do brasileiro.
O gran finalle é lembrar que estamos no Dia Nacional do Samba, em pleno 2 Congresso Nacional do dito cujo na abençoada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
E aqui, faço dos versos do samba da Gres. Mangueira 2012 as minhas orgulhosas palavras: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou…” E se prepare, acrescento eu, sem nenhuma pretensão poética, mas cheia de moral profética: Aguarde, por que o céu é o limite e as estrelas nossas guias nessa viagem que, cada vez atinge mais lugares no mundo, agregando novos e apaixonados adeptos.
Somos a maior vitrine da cultura popular brasileira, alavanca de signos e tendências nacionais. Pela festa e para a festa expomos e traduzimos em arte nossa pra gringo ver, opiniões, mazelas e orgulhos, discutidos e esmiuçados em forma de enredo.
E isso não se faz só na temporada do “vamos falar de carnaval”. Tá bom que também é preciso descanso, uma pausa para respirar, um tempo para tirar a fantasia do carnaval que passou e começar a imaginar o que será o tema da festa que virá, antes de cair de boca na sua produção. Isso é lá pelo mês de abril e já com algumas escolas de samba tendo anunciado seu enredo seguinte.
Esse é um dos segredos do sucesso do carnaval carioca: um calendário de trabalho. Nem que seja imaginário, por ele só se torna real com as entradas de dinheiro para sua execução. E chegamos, assim, ao próximo ponto. O patrocínio que acaba possibilitando o desenvolvimento e o crescimento da festa é o mesmo que interfere e aprisiona as temáticas e enredos das agremiações que o recebem.
Olho pro alto. Enquanto escrevia o tempo fechou sobre o céu da minha canga esticada na marra. O espaço ficou exíguo no meu minifúndio semanal de duas laudas para desenrolar essa história!
Por isso, informo que, as séries “Ponta do Leme”, “Parador Cuyabano” e “Fronteira Oeste do Sul”, a bordo no Sem Fim… acrescento uma nova linha.
“É carnaval” vai juntar o que escrevi, desde 2005 sobre o tema e o que, com a concordância dos meus leitores, a quem peço humildemente passagem, ainda relatarei sobre a parte que mais amo na folia: o fazer carnavalesco.
Salve o Dia Nacional do Samba, dedicado a todos os bambas que fazem da festa nossa de cada dia uma eterna folia!
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Daí, o que você acha disso ?