Quem te viu, não pode mais ver..

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Existem coisas que os olhos não devem mirar, aquelas que pra entender… Sei lá, não sei não, por que não cabe explicação.

Foi assim na homenagem à Delegado, lendário Mestre Sala e Presidente de Honra da Estação Primeira de Mangueira, no sábado seguinte da sua partida. Tudo era igual, mas muito diferente.

Na abertura da noite, a imensa bandeira mangueirense que cobre o fundo da quadra, se abriu ao som da Surdo Um, a bateria comandada por Mestre Aílton. Como sempre… A roda se armou, os segmentos se posicionaram e abriram espaço para que as baianas pudessem iniciar os trabalhos.

Todos sentiam a falta de Delegado, sempre sério e compenetrado com seu bastão, apito, chapéu e a faixa de Presidente de Honra da escola para a qual trouxe, durante tantos carnavais, as notas máximas no seu quesito. Estava nos olhos de cada um, assim como nas vozes que, em uníssono, louvavam o amor maior do Mestre Sala. Era um canto forte, um canto alto. Para ser ouvido por todo lado. Inclusive lá onde, agora, Delegado se encontra cercado de bambas que fizeram a história da festa que virou o maior espetáculo popular da terra.

Era do lado direito da quadra, numa mesa de pista que ele costumava acompanhar os ensaios, antes e depois de comandar a roda. Ali, agora, só Suluca, sua irmã, cercada de crianças e adolescentes da família, até ser convocada para receber as reverências, depois de Ézio, um dos filhos de Delegado, cantar um samba (é claro!) inspirado em Hegio, que virou Delegado por “prender” as mulheres. Era hora de homenagear!

Do lado oposto, embaixo do palco, a Porta Bandeira Marcella Alves recebeu o pavilhão da Mangueira e saudou seu par, Raphael Rodrigues. O casal atravessou bailando o espaço aberto no meio da roda. O público vibrava, cantando e dançando sambas que fizeram de Delegado a lenda por todos cultuada.

Estranho não encontra-lo, mãos estendidas para o alto, o bastão apontando o céu, antes de cruzar os braços sobre o peito e baixar a cabeça para saudar, com um beijo, o pavilhão que sempre apresentou e protegeu.

O teto retrátil da quadra estava aberto. O detalhe foi notado apenas por que, quando o casal se aproximou para saudar o grupo, uma garoinha começou a cair, quase imperceptível. E rapidamente aumentou… Ivo Meirelles, presidente da escola gesticulava, pedindo para que o fechassem. Mas não era isso que os deuses do samba e seus representantes celestiais queriam. O sistema não funcionava. E a água, que lavava corpos e almas dos mangueirenses saudosos, só apertava!

O piso molhado era riscado pelos pés ágeis, num bailado possuído pelas forças da Mangueira que se juntavam no céu e na terra. Cada gesto, cada voleio de Marcella e Raphael passou, literalmente, a ter um peso diferenciado. O pavilhão encharcado ganhava uma nova força. Nele, se concentrava o encontro dos bambas do passado com os sambistas do presente da verde e rosa. E ele voava nas mãos da Porta Bandeira, seus súditos aspergidos e abençoados com chuva que, agora, despencava do céu, sem dó nem piedade…

Muitos viram. Não sei quantos sentiram o momento em que, ao som cada vez mais forte e apaixonado do cantar do Morro da Mangueira, fomos todos elevados à categoria de uma nação. Um povo que, diante da perda de um baluarte, se une, supera e celebra seu mundo, o do samba, através da música, da dança e do amor por sua história, ali reverenciada.

As lágrimas corriam, misturadas ao suor, e se diluíam com a chuva redentora, mensageira e pacificadora. A dor da ausência aliviada pela mensagem celestial.

De alma lavada, o peso da perda ficou mais leve diante da beleza dos reflexos da água da chuva nos corpos e  gestos do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira que, ali, representava e cultuava a arte maior de Delegado, o Mestre Sala nota dez da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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