Dúvida atroz

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não saber se vai ou fica.
Não tinha nada a dizer, por mais que procurasse. Assunto havia e dava em árvore. Pululavam!
Eram tempos conturbados, cheios de arestas a serem aparadas, opiniões a serem dadas – se as tivesse.
Tabus estavam sendo quebrados, dogmas desmistificados. As reações às ações cada vez mais rápidas e contundentes.
Na TV discute-se… a internet. O casal conta que, juntos há quatro anos, o fazia de forma presencial e virtual. Ao mesmo tempo. Tipo dose dobrada de amor e companhia. Lado a lado, conversavam pelo… MSN!
Não dá pra discutir a eficácia da busca do grande amor ou um pouco mesmos pelos fios imaginários da grande rede tecidas nas nuvens óticas e semióticas. Faltam parâmetros. A modernidade nos agarra pelo pescoço. É osso! E daí? São apenas curiosidades, nada a ser defendido seriamente, como coisa essencial, existencial.
Esvaziou de tanto excesso, cansado que estava de tudo. E vejam que o tudo ia além da imaginação por que, essa, nunca lhe faltou á ufa!
Era capaz. Até de sonhar. Por que cargas d’água nem isso o animava mais e tanto? Não sabia.
Disso nem de nada. Nem daquilo. Se era bom, mais, menos ou quiçá. Passou, passa, passará. Passará?
Por enquanto, entretanto, apenas portanto.
Sem raiva, alegria, letargia ou tristeza, que diferença não fazia. Só traria. Era assim, era disso. Mas não agora, não era a hora, menos ainda o lugar.
Não chegou. Se passou, não parou. Seguiu. Para onde? Sabe-se lá. Não foi pra lá, nem pra cá. Tocou o céu, furou a terra, parou o ar, secou o mar…
Depois só. Passou. Agora passa vagorosamente, como se não fosse com ele. Puro fingimento. Apenas um alimento para o vácuo de plantão.
Difícil, por que a cabeça corre, o suor escorre e ele se levanta.
Sabe-se uma anta. Como todo homem que, naquele momento, sabe-se lá por quem, uma lei obriga a estar ali. Frente a frente com o passado. Aquele que um diz para esquecer, para lembra-lo só daqui a quatro anos, para A ou para B, caso houvesse apenas essas duas opções.
Perdeu o saco, está com asco e, sabe, precisa decidir. O que já passou fará do que se passa um pretérito (im)perfeito daqui a pouquinho. O que é direito para quem se julga imune ao jogo como ele?
Perdeu o agora, partiu pro depois ainda paralisado diante de si mesmo.
A máquina espera, pacientemente, a sua atitude.
Agora não sabe, e – conforma-se – nunca soube. Nem em seus sonhos mais delirantes. Seu imaginário não alcançou tanta ruindade. A pior opção é a falta de opção.
E aí, decidiu? Nem ele. É muito de um lado, o mesmo tanto do outro. Tudo do mesmo.
Na próxima vai tentar de novo por que acredita. Mas agora, não quer ter na consciência a escolha equivocada inevitável. Prefere o nada, que afinal é seu direito de não concordar em ter que escolher apenas por obrigação.
Chutou o balde, apertou o confirma e deu adeus à responsabilidade de escolher entre o péssimo e o pior.
Partiu para a vida. Cheio de razão. Satisfeitíssimo com sua (in)decisão.
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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