Charadinha

Texto e foto de Valéria del Cueto

Tiro do meu amplo (?) microcosmo da Ponta do Leme elementos para refletir sobre a vida como um todo e em geral.
É muita pretensão, eu sei. Mas, o que fazer se esses ditos elementos saltitam a minha volta quando (como boa fiscal da natureza) estou aqui, ao pé da Pedra do Leme, apenas a aproveitar o “dolce far niente” do meu carpe diem literário, desta quinta feira?
É de quinta essa sensação de não conseguir deixar de pegar o bonde da reflexão galopando entre os sinais da natureza que me cercam.
Só ele já faz a festa, sem necessidade alguma do dedo do bicho homem para intervir na situação circundante.
Há que ser artista para não se deixar enganar pelos referidos sinais…
Venta, reparei antes mesmo de adentrar ao campo de jogo, delimitado pelo mar, a Pedra do Leme, os prédios e aquela visão paradisíaca de Copacabana que nunca canso de fotografar.
Pelos carneirinhos de espuma que saltitam entre a praia e o horizonte, sempre da direita para a esquerda do meu campo visual oceânico, dá para dizer que a intensidade das rajadas não é baixa.
Caminhando entre os quiosques do calçadão e as barracas, na faixa de areia ocupada pelas redes de vôlei e as traves dos campos de futebol de areia, começo a imaginar a melhor posição para estender a canga sem entrar em conflito direto e contrariar a força da natureza dominante.
No céu não há uma única nuvem e o sol da tarde, nessa antevéspera de horário de verão, mostra toda sua força e energia. Dá para vê-lo, mas não para senti-lo imediatamente.
Depois de escolher o local onde montarei meu escritório de cronista essa semana, paro para decidir a posição ideal para a canga, de modo a ficar na posição certa em relação a luz solar. Penso com meus laços do biquíni e botões do vestidinho/saída de praia que seu trajeto muda rápido nessa época do ano.
Pode parecer desnecessário estudar tanto o posicionamento do meu retângulo praiano. Mas, num dia como esse, é fundamental (sempre que uso essa palavra me lembro de Dante de Oliveira).
Troco as lembranças do homem das diretas pelo cálculo exato da minha exigência geográfica e uma forma de alcança-la surfando nas ondas do vento, sem precisar nem tentar, que não sou louca, remar contra a maré da ventania, capaz de conduzir, inclusive, o bando de carneirinhos/marolas anteriormente citados.
Me esmero no alinhamento, capricho na arrumação e… voilá! A canga aterrissa obediente. Me atiro em cima garantindo o peso nas extremidades: chinelo, chinelo, bolsa e eu. Em posição. De frente para o sol, com o mar à esquerda. Só podia ser assim. Você entende por quê? O sol brilha, o vento faz cócegas e… parece que não está calor.
Então, o bronzeamento não incomoda, nem o alarme para a torração inclemente é ligado. Quando os incautos reparam, danou-se. Tostaram! E, pior, normalmente, só de um lado, a banda duramente atingida pelo sol para quem fica sentado de frente para o marzão apreciando os carneirinhos, tão bonitinhos…
Igualzinho nas eleições! Nelas, a tostada é inerente, distraídos que estamos com as divagações “climáticas” perpetradas pelo mar e pelo sol. Esquecidos do vento que muda o rumo da prosa e só mostra seus efeitos danosos posteriormente, quando não dá mais para tentar um bronzeado equilibrado, por que a tarde chega ao fim, obedecendo a inexorabilidade do tempo que voa…
Depois, haja Caladril para tentar aliviar as queimaduras, manchas na pele e o descascar inevitável.
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

Daí, o que você acha disso ?