A semente e o cimento

Por  Aparicio Secundus Pereira Lima

De uma mamoneira plantada no quintal lá da casa do pai Aparicio e mãe Rosália em Petrolina-PE, uma semente eclodiu do fruto da mamona já madura e como num passe de mágica, alojou-se justamente por entre as frestas e fendas  do muro lateral do quintal e lá permaneceu, intacta, quieta, em uma hibernação  quase letárgica no silencio das sombras e na expectativa das horas, envolta em terra seca  e cimento abrasivo até o surgimento triunfal de pequenino broto da planta, que de forma tímida, silenciosa e segura, expandia-se pelas frestas a procura de luz, na solidão de uma batalha sem fronteiras em busca de seu ideal: uma nova planta, novos cachos, frutos, flores e sementes.
Não satisfeita em apenas ter brotado de forma tão inusitada, dado a sua própria natureza de cultura resistente, viável para a região semi-árida,  ungiu-se da essência do seu próprio óleo de propriedades químicas atípicas cuja matéria prima é própria para o biodiesel e com força e resistência incomuns saiu rasgando paredes, desbravando caminhos, adaptando-se às conveniências, suportando intempéries e ataques furtivos de formigas, pragas e outros males sazonais e continuou obstinadamente crescendo pelo milagre da fotossíntese, em busca do seu ideal.
Uma simples semente de mamona atingiu o seu intento: rasgou o cimento, contrariou prognósticos e subiu ao céu de encontro ao seu próprio destino natural.

2 ideias sobre “A semente e o cimento

  1. Gabriel

    Isso aí é um mamoeiro! Mas é tão resistente quanto, e não muda a beleza do evento. Parabéns pela observação

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