Texto e foto de Valéria del Cueto
Na sexta feira retrasada, estava rabiscando a crônica dominical, “Assalto ao Alto” e, pensava ingenuamente, estar dando por finalizada a prova da gincana “a mala vai para o conserto” ali citada.Enquanto escrevia as palavras “Antes da publicação desse registro… a mala estará no abrigo do meu lar”, diante dos meus irrequietos pensamentos – sempre mais velozes que a esferográfica – dançava o velho termo cinematográfico familiar, o “diz a lenda”.
Ele é uma brincadeira utilizada quando temos uma informação e muito pouca, quiçá nenhuma certeza, de que algo vá se concretizar ou se tornar uma verdade. Quando o termo já estava fazendo piruetas e coreografias da Dança do Passinho diante dos meus olhos, cansei de resistir e anexei as fatídicas três palavrinhas querendo dar um ar engraçadinho ao meio da frase final sobre o episódio da mala danificada. “Afinal, o que mais poderá acontecer?”, pensei otimista na ocasião.
Mal sabia eu, ser descrente da poderosa capacidade intrínseca e mediúnica de prevenção daquelas célebres peripécias lei de Murphianas, que perseguem os puros de espírito, porém destinados a toda sorte, seja ela boa ou má… (Afinal, sem estas aventuras, o que seria dos anos dessas crônicas praticamente interruptas? Um tédio ou o paraíso.) No momento, por exemplo, estamos num processo kafkaniano. Enquanto lá, no original homem vira barata, aqui, se transforma em mala. É, por que na Web Jet, malas andam, se escondem, se disfarçam e se atrasam. Quase vivas, com vontade própria.
Durou pouco a minha alegria. Até João voltar à vaca fria e insistir em saber qual era o problema da bagagem e eu citar a quase moída do punho do puxador. A coisa embolou quando o João fez aquela célebre e odiada pergunta: “Tem certeza? Sua mala é verde?” A cor era essa, mas havia algo errado. A mala que estava lá, não tinha um puxador.
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

