Por Beto Ramos
Hoje, senti saudades da casa de minha avó.
Senti o desejo de chegar e abrir aquele portão barulhento, rangendo junto com o latido do cachorro Veludo.
Senti saudade de chegar à janela de madeira, bem larga, e pedir a benção de minha avó.
Na casa antiga, construída por meu avô, existia de tudo.
Lembro-me do pequeno fogão sempre cozinhando alguma coisa.
No centro da cozinha, uma mesa quadrada com uma farinheira de madeira, uma fruteira sempre com muitas bananas prata.
Dentro da petisqueira, a garrafa de café bem forte.
Na parede um antigo quadro do Sagrado Coração de Jesus.
Perto da janela sempre respondendo com bom humor, ficava minha velhinha numa cadeira de balanço, pra lá e pra cá.
Senti saudades do cheiro da casa de minha avó.
Ela sempre usando os vestidos largos e coloridos, com anágua.
Amarradas na alça do califon, as chaves que abriam os baús da casa.
Somente ela abria tudo.
Sempre no ar um cheiro de Vick Vaporub .
E ali ficava o paraíso que hoje me faz tanta falta.
Quando minha avó substituiu o pote pelo filtro, o sabor da água mudou.
Hoje, guardo na minha casa o filtro que era da casa da minha avó.
Não me desfaço dele por nada.
Muitas vezes minha avó ficava lendo algum livro ou revista por muito tempo.
Detalhe: A revista ou o livro de cabeça para baixo.
Mas, ela já vinha com a resposta pronta.
- Quem sabe ler, lê de qualquer jeito!
Nos jogos do Brasil, quando apareceu televisão por estas bandas, minha avó torcia muito.
Acendia vela, rezava e soltava alguns palavrões ao mesmo tempo.
O engraçado é que após muito tempo do jogo começar ela perguntava:
- Pra que lado o Brasil está atacando?
Hoje senti saudades do cheiro da cama da minha avó.
Dos perfumes usados no domingo quando éramos obrigados a frequentar a missa.
O tempo passou tão rápido.
Estranho é ter que fechar os olhos para lembrar coisas tão simples e que fazem tanta falta.
As ruas continuam iguais, e não existe mais a casa rodeada de plantas e pés de frutas de todo o tipo.
Hoje, vejo minha neta entrar na minha casa sorrindo.
Será que a minha casa possui o cheiro da casa de minha avó?
Será que minha netinha vai guardar lembranças do que sou?
Como diz o Toquinho em uma de suas canções, “Só não me esqueça num canto qualquer”.
Aqui na minha casa pode faltar tudo, menos café.
Café forte durante o dia inteiro.
Talvez seja uma forma de trazer para dentro da minha casa o cheiro da casa da vovó Raimunda.
Será que sou um bom avô?
Diz a lenda

Levou menos de 1 semana (rs.)! Que bom!
(ao Blog)
Who’s that boy (Beto Ramos?) que levou-me a pesquisar o que vem a ser um “califon” (sutiã, no Ceará), quebrando-me, no nascedouro, qualquer arrogância no quesito dos saberes. Fiquei “socrática”: “Só sei que nada sei”….principalmente, em se tratando de regionalismo brasileiro.
Herdou o filtro? Dessa sábia ( “Quem sabe ler, lê de qualquer jeito!” ) ?
Só O repasse a quem demonstrar ‘reverência’ nos olhos.
Deixe-o em testamento, registrado em Cartório e com 2 testemunhas.
Herança familiar!
(eu me lembro de uma bandejinha de prata com fundo de louça pintado com umas rosas, que fica ao lado do FILTRO, na casa da minha Bivó e que eu SEMPRE pedia para pegar, nos meus 3/4 anos…
Com o tempo, já não pedia mais. Eu a alcançava com facilidade o “objeto do meu desejo” a cada copo de água.
Mas não a tive. Não àquela. Tenho 2 outras (uma herdada, outra comprada em antiquário p/mim). Nenhuma exercer o fascínio da primeira sobre mim. Perdeu-se …
B4@ So3t%! (*)
Norma
(*) como dizia Da.Raimundo: “Quem sabe ler .(…)”
Em tempo:
Fica tranquilo: Não tem como não ser bom avô quem é tão bom vivente!