Arquivo mensais:julho 2012

Cátia Cernov

Certa madrugada de lua em eclipse, calendário incerto, talvez fosse Júpiter que projetasse aquela sombra…

Cátia Andréa Cernov de Oliveira é escritora experimental. Tem 43 anos, três filhos e mora em Porto Velho. Publicou seu primeiro texto pela Literatura Marginal Ato III, da revista Caros Amigos. Seus contos e poemas tem sido publicados de forma independente: ela mesmo escreve, edita, imprime e distribui em bancas de revistas, bares, livrarias e sebos. Segundo ela mesmo diz : “Mas… Quem irá habitar o espaço? Os homens sábios, evoluídos, razoáveis, ou os senhores da economia que obterão o monopólio das viagens espaciais ? ” Se cruzar por ela pelas ruas de Porto Velho, tenha certeza : ela não é um avatar.

Cátia Cernov, um universo em movimento

Solarium (Latim = Relógio) Antiga constelação, localizava-se entre Horologium, Hydrus e Dorado. Extinta no século XIX

Um gato na janela

Janela de um casarão remanescente da época áurea da borracha em Fortaleza do Abunã/RO e um gato. foto : B.Bertagna

Vejo a notícia, feliz, que finalmente será reeditado em português brasileiro o livro “O Mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgakov.

Escrito às escondidas visto que tinha Stalin bafejando na sua nuca(e isto não é pouco comparado a nossos aprendizes de tiranos-tupiniquins-regionalistas e seus miquinhos amestrados ) o livro ficou censurado por muitas décadas. Diz a lenda, que a obra só se salvou porque a KGB tinha uma cópia, visto que Bulgakov, num acesso de loucura teria queimado os originais.

É o verdadeiro Fausto, travestido de Margarida, reeditando uma vida prá sempre, enquanto Moscou vira de pernas para o ar , ardendo em chamas com este diabo luxuriante, engraçado, gozador, fascinante  e poeta.

Teria tudo a ver com esta paranóica Porto Velho delirante dos dias de hoje, em que mais um ciclo econômico e social vem varrendo tudo feito um furacão?

” tudo prosegue normal até onde eu sei,
enquanto isso sera melhor cerveja que vem
leva essa traz mais uma põe na conta!
tô sem dinheiro tá valendo eu tô a pampa! ” Xis

Por que o gato ?  Leiam o livro e decifrarão…

Não fale mau di mim por que poço te encontrá na próssima iskina.

Simples, assim…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Houve um tempo em que não era. Escrevia muito, escrevia sempre e ia liberando aos poucos as crônicas semanais de acordo com o astral da ocasião. Sexta a tarde, na Ponta do Leme, era pule 10 fartura da produção. O tempo passou e o que nunca acreditei ser possível, aconteceu: as crônicas que, pensava eu, teriam um caráter transitório, viraram um hábito de anos.
Já não sei quem nasceu primeiro: os textos ou o prazer de escrevê-los qual um ritual que, a princípio, era meio AA (Alcóolatras Anônimos). “Uma de cada vez”, dizia a cada nova publicação. Se funciona com o processo literário, é por que faz efeito para situações mais sérias e delicadas…
Não que não haja seriedade no que faço, ao escrever. Tanto há que depois de muitas luas a fome se juntou a vontade de comer e todos os meus queridos editores definiram o meu deadline, o limite para entrega do material, para a sexta-feira, às 15 horas, horário de Brasília.
Uma beleza e a certeza de que as mal traçadas linhas no caderninho nem terão tempo de secarem direito antes de serem digitadas para seu envio às prensas e sites.
Por isso, informo, estou aqui. Plena na praia da Ponta do Leme, sob um sol de rachar e uma ventania teimosa e enganosa.
Teimosa por descabelar o mar, adornar seu azul-esmeralda de carneirinhos brancos, obrigando as gaivotas a darem um duro danado para manter o rumo desejado, deixando os surfistas a verem os navios que esperam a maré alta para entrarem na Baia de Guanabara. Por que o mar, apesar de batido, cheio de correntezas e valas, está uma droga para os atletas, com ondas baixas disformes e mexidas.
Isso é o entorno, por que o contorno está um caos. Não há barreira nem peso que segure a canga, lotada da areia que passa – enlouquecida e desgovernada – levada pela ventania. Aquela que pinica nas partes do corpo em que bate, gruda e vai com a gente pra casa escondida nos cabelos, nos cantos da bolsa, do bolso do short, nas dobras da camiseta, no meio do livro, no caderninho…
Essa é a parte da teimosia. A do engano, além de tudo, pode ser dolorosa. Especialmente para os turistas desavisados e despreparados que não conhecem as manhas da praia em dias de viração. Eles, que de tão fortes provocam arrepios de frio, por que vem do sul, são os mesmos ventos que mascaram a força dos raios solares que estão tinindo no veranico de meio do ano. O resumo da ópera são as queimaduras inesperadas, aquelas que só descobrimos quando a água quente do chuveiro toca na pele castigada pelo sol inclemente.
Para fechar meu espaço literário dominical, duas observações. Uma nunca havia visto, outra, que fazia tempo não via.
A primeira, os grãos de areia abusados grudado na tinta da ponteira da caneta que estou usando que fazem falhas minha escrita praiana.
A segunda, as várias piscinas na beira da água, onde crianças se divertem e, protegidas pelos caprichos esculturais da maré baixa, não se incomodam com o desconfortável entorno provocado pela tempestade de areia que assola a minha Ponta, sob um sudeste poderoso. A ponto de tirar da paisagem a enorme bandeira brasileira que sempre tremula hasteada no Forte Duque de Caxias, no alto da Pedra do Leme. Sinal dos tempos, aviso dos dias que estão para chegar…
Agora peço licença, caro leitor, mas vou ali, até uma das piscinhas naturais, formadas pela maré, brincar de fazer castelos de areia e olhar o mundo sob o ponto de vista das crianças. Simples assim…
Por que hoje é sexta, estou na Ponta e a crônica já está misturada, só falta descansar para poder ir pro do forno.

…………………………..

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Mamalu, depois disso o (nosso) mundo nunca mais foi o mesmo….

Paulo Mindof, Joao Baleiro, Ivan Marques e eu… A sessao comecava invariavelmente com esta musica. O amplificador era um velho Gradiente comprado a prazo (na conta da tia Reny) na Imcosul. Os toca-discos Winco, apoiados numa prancha de madeira. E a festa rolava noite afora (ou a dentro !). Os panfletinhos , precursores dos modernos flyers, eram rodados em mimeógrafo a álcool e distribuídos no Padre Réus, no Odyla Gay da Fonseca e adjacências . Os discos, trazidos por comandantes da Varig, seguindo a parada da Bilboard.Ou então contrabandeados de Paso de Los Libres, Argentina. Quer melhor escola para o que chamam hoje de DJ ? Com 1.000 agradecimentos a Olyntho, Cristina, Marco,Mauro,Marcal, Márcia, Pirica, Katia, Anita, Nara, Leiteiro e a todos que nos agüentaram de alguma forma.

Será que é preciso dizer mais alguma coisa?

Thats what she just said : All your armies, all your fighters All your tanks, and all your soldiers Against a boy holding a stone Standing there all alone In his eyes I see the sun In his smile I see the moon And I wonder, I only wonder Who is weak, and who is strong? Who is right, and who is wrong? And I wish, I only wish That the truth has a tongue….! ,

Isso é o que ela exatamente disse: Todos os seus exércitos, todos os seus lutadores Todos os seus tanques e todos os seus soldados contra um menino segurando uma pedra. Lá sozinho Nos seus olhos eu vejo o Sol, em seu sorriso eu vejo a Lua. E eu me pergunto, eu só pergunto quem é fraco, e que é forte? Quem está certo e quem está errado? E eu desejo, eu só desejo que a verdade tenha uma língua ….!

Livros para entender Rondônia – Caiari, lendas, proto-história e história, de Emanuel Pontes Pinto

Emanuel Pontes Pinto, com o livro “Caiari”, envereda por rumos controversos e áridos no estuário do conhecimento, tentando avivar os vestígios deixados por navegantes antigos provindos da Asia Menor na região que o etnólogo Roquette Pinto denominou de Rondônia. Eles buscavam os tesouros acumulados, há mais de três mil anos, nas cabeceiras do Rio Caiari, conhecido atualmente “pelo nome português de Rio Madeira” .
É mais um mistério da Amazônia, exumado de noite do tempo por filólogos e pesquisadores, que caçaram nos desvãos do passado, as nossas tradições, mitos e lendas.

Os links do Carlão

Carlos Reichembach mantinha o blog Olhos Livres com resenhas de filmes e a programação do Cine Comodoro, entre outras coisas. Num dos seus posts, ele publicou uma seleção de links para amantes do cinema. Como não sei como será a administração e a atualização do seu blog ( na verdade nem mesmo sei se ele continuará a existir) resolvi postar a relação de links do Carlão . Aí vai.

CATARSE – Uma nova forma de buscar parcerias, co-produção e mecenato.
http://catarse.me/pt

DOWNLOAD CULT – Filmes e discografias completas
http://www.downloadcult.com/

CHIADOS E CANUDOS – Análises acuradas e sem preconceitos
http://chiadosecanudos.blogspot.com/

CONFRARIA DE CINEMA – Informações e análises atualizadas semanalmente. De cinéfilos para cinéfilos.
http://www.confrariadecinema.com.br/

STREAMING DOWNLOAD BLOG – Compartilhamento de acervo.
http://www.streamingdownloadblog.com/

FILMOGRAFIA DO TATUADOR – Compartilhamento de acervo.
http://filmografiadotatuador.blogspot.com/

O COMPARTILHADOR – Compartilhamento de acervo.
http://compartilhandoeservindo.blogspot.com/

CONVERGÊNCIA CINÉFILA – Compartilhamento de acervo.
http://cinefilosconvergentes.blogspot.com/

WERNER HERZOG MOVIES – Compartilhamento de acervo.
http://wernerherzogfilms.blogspot.com/

CULTURA INSANA – Compartilhamento de acervo.
http://alobaalfa.blogspot.com/

SUPERSÔNICO A CARVÃO
http://supercarvao.blogspot.com/

RSFILMESBRASILEIROS – Compartilhamento de acervo.
http://rsfilmesbrasileiros.blogspot.com/

LA CAVERNE DES INTROUVABLES – Compartilhamento de acervo.- Site frances de filmes raros ou fora de catálogo -
http://lesintrouvables.blogspot.com/

CINEMA OF THE WORDS – Compartilhamento de acervo.
http://cinemaoftheworlds.blogspot.com/

DOCUMENTARY=REALITY – Compartilhamento de acervo.
http://documentary-reality.blogspot.com/

FILMDVDVHS BLOGSPOT – Compartilhamento de acervo.- Blog francês de filmes de ação raros.
http://filmdvdvhs.blogspot.com/2011_09_01_archive.html

HORREUR VHS COLLECTOR – Compartilhamento de acervo.- Blog francês de filmes de horror raros.
http://horreurvhscollector.blogspot.com/

OLDCINEPASSION – Compartilhamento de acervo.  Site francês voltado a clássicos do cinema.
http://www.oldcinepassion.com/

No inverno, atenção redobrada à saúde respiratória

Por Valéria Martins

Com a chegada do inverno, em diversas regiões do país é possível notar o aumento no número de atendimentos em prontos-socorros decorrentes de queixas de problemas respiratórios. Gripes, resfriado, pneumonia, crises de asma e uma série de queixas tendem a se agravar nesta época do ano.

As baixas temperaturas e o tempo seco são os principais fatores. O frio, por deixar os ambientes fechados, com menor circulação de ar, favorecendo a transmissão destas doenças.

A umidade relativa do ar é outro fator que interfere diretamente no sistema respiratório. O ideal seria que fosse mantida entre 30% e 60%. Quando mais baixa, inúmeros sintomas começam a aparecer, como ressecamento do nariz e garganta, pele mais seca, sangramento nasal, irritação nos olhos, entre outros. O tempo seco e a falta de chuvas também dificultam a dispersão dos poluentes atmosféricos que ficam suspensos no ar, ressecando ainda mais as mucosas e favorecendo as crises de doenças respiratórias alérgicas, como a rinite e a asma.

Ao invés de esperar passivamente por um desconforto decorrente do inverno, é possível adotar algumas medidas simples de prevenção. Manter uma boa hidratação, tomar bastante água durante o dia, é um bom começo. A prática de atividade física também deve ser mantida, evitando os horários de baixa umidade do ar e cuidando para estar sempre bem agasalhado.

A casa e o ambiente de trabalho devem estar sempre limpos e ventilados, evitando aglomerações e pessoas infectadas. E se a gripe já te pegou, cuidado para não espalhar a doença por aí. Lave bem as mãos sempre que possível e use lenços descartáveis.

Outras importantes medidas preventivas envolvem a aplicação de vacina da gripe, especialmente para grupos de risco; tomar cuidado com aparelhos de ar-condicionado, que devem estar sempre com o filtro higienizado; e manter essencialmente uma boa alimentação.

Os umidificadores ultrassônicos, que umidificar ambientes, também podem ser uma boa alternativa, desde que utilizados corretamente. Estes aparelhos devem utilizar água destilada, que contém baixa concentração de minerais e conservam o aparelho. Alguns modelos mais modernos monitoram a umidade relativa do ar, ligando e desligando automaticamente para manter o nível ajustado. Os demais modelos devem permanecer ligados por somente duas a três horas antes de dormir.

Se ligados a noite inteira, podem levar à umidificação exagerada do ambiente, produzindo mofo em cortinas, tapetes e almofadas, que também ocasionam danos à saúde respiratória.

E por fim, o mais importante, e válido para todas as estações do ano, é evitar o tabagismo. Cuide bem dos seus pulmões, procure um médico em caso de dúvidas e respire aliviado o ano inteiro.

………………………………………………

Valéria Martins, médica pneumologista, membro da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia

Vida Simples

Por Letícia Bertagna

ajudar na redução de peso; repor nutrientes, vitaminas e sais minerais; diminuir o apetite, sistema imunológico, funções intestinais, anemia, fraqueza, azia, gastrite, regeneração celular; normalizar a digestão e a função intestinal; estimular o crescimento e a recuperação dos tecidos; reduzir o envelhecimento precoce e a degeneração orgânica; fortalecer o sistema imunológico; proteger contra agentes poluentes e tóxicos; promover a desintoxicação orgânica, auxiliar no tratamento de doenças degenerativas e estados de desnutrição; auxilia no restabelecimento da saúde da pele e nos tratamentos contra a obesidade; desintoxicar o sangue e regular a glicose; distúrbios digestivos; distúrbios cardiovasculares; melhor e maior atividade cerebral; tratamento e prevenção de anemia; ajudar na hipertensão; úlceras do estômago, duodeno e gastrites crônicas, balancear a bioquímica do sangue.

Túnel do Tempo : velho cartão postal

Recebi este cartão postal  de alguns amigos que participaram do lendário Projeto Rondon. ( No 5º BEC ficava o Campus Avançado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.  A propósito, aliás , por que não UFRO, em vez de UNIR ? ).

Ele, o cartão,  resistiu ao tempo, às mudanças, às traças e aos cupins. Era um cartão da Ambrosiana, acho que em parceria com a Foto Presidente. Vemos o Ypiranga em primeiro plano, mas não dá para precisar se já existia ou tinha acabado o Califa. Post especial para saudosistas.

Fátima defende mais educação de qualidade em Porto Velho

A ex-senadora mais votada de Porto Velho e candidata a prefeita Fátima Cleide (PT) afirmou na segunda-feira, 23, em entrevistas à emissoras de rádio e TV, que será prioridade em sua gestão a ampliação da rede pública de ensino, oferecendo um serviço de qualidade à população portovelhense. Quando o PT assumiu a Prefeitura Municipal a rede de ensino carecia de salas de aula.

“Dobramos o número de salas de aula de 400 para 920, inauguramos novas creches e escolas e hoje a rede municipal tem sido procurada por ser melhor do que a rede estadual”, disse Fátima.Em sua gestão, Fátima afirmou que vai avançar mais, construindo mais escolas, principalmente do ensino infantil. “Hoje atendemos 6% das crianças de 0 a 6 anos. Vamos fazer o maior esforço para atingir a nossa meta de atingir 50% destas crianças”.

Fátima e’ da’área e sabe do que ta’ falando.

20120724-191941.jpg

Amazônia em Cena continua a 1.000

Espetáculos de Dança e Teatro de Rua hoje na Arena Madeira Mamoré
 
Grupos de Porto Velho, Campo Grande e Porto Alegre se apresentam nesta terça no Festival Amazônia Encena na Rua.
 
O Festival, que começou no sábado, continua nesta terça com espetáculos de dança e teatro de rua. A primeira apresentação da noite é da Cia. Parceiros do Ritmo Quente, no estilo Forró, às 19h, e logo depois às 19h30 o grupo Teatral do SESI traz a peça “Amazônia e a Princesa da Mata”, com uma abordagem sobre a preservação ambiental, envolvendo crianças e adultos com personagens da mitologia amazônica.
 
O Grupo Manjericão, de Porto Alegre, que já esteve em Porto Velho nas edições passadas do Amazônia Encena na Rua, dessa vez traz o espetáculo “João Pé-de-Chinelo”, que mostra o universo de um papeleiro que vive nas ruas, praças e parques com seu carrinho catando papelão e outros materiais recicláveis, na busca de sobrevivência e sustento da família. Para fechar a noite, o Festival recebe pela primeira vez um grupo do Mato Grosso do Sul: Teatro Imaginário Maracangalha, com a peça “TEKOHA – Ritual de vida e morte do Deus pequeno”. O espetáculo Narra a trajetória do líder indígena Guarani Marçal de Souza e sua resistência histórica na luta pela terra e direitos dos povos indígenas.
 
Já o II Seminário Amazônico de Teatro de Rua discute hoje o tema “Artes Públicas”, numa Roda de Debates mediada pelo fundador do Grupo Tá na Rua,o renomado ator, diretor e teatrólogo Amir Haddad, do Rio de Janeiro, a partir das 15h.
 
 
Programação – Festival Amazônia Encena na Rua
 
Dia 24/07
 
19 horas – Forró – Cia. Parceiros do Ritmo Quente
Porto Velho – RO
 
19h30 – Amazônia e a Princesa da Mata – Grupo de Teatral do SESI
Porto Velho – RO
Traz para cena abordagem sobre a preservação ambiental, envolvendo crianças e adultos com personagens da mitologia amazônica. Músicas inéditas compõem a dramaturgia sonora. É um convite à reflexão e a mudança.
 
20h30 – João Pé-de-Chinelo – Grupo  Manjericão
Porto Alegre – RS
O espetáculo mostra o universo de João Pé-de-Chinelo, um papeleiro que vive nas ruas, praças e parques com seu carrinho catando papelão e outros materiais recicláveis, na busca de sobrevivência e sustento da família. João é mais um trabalhador fruto do êxodo rural que procura reagir com dignidade diante das mazelas dos grandes centros urbanos. O personagem apresenta sua casa e família ao público, narra histórias e aventuras vividas e sonha com dias melhores.
 
21h30 – TEKOHA – Ritual de vida e morte do Deus pequeno – Teatro Imaginário Maracangalha
Campo Grande – MS
O espetáculo Narra a trajetória do líder indígena Guarani Marçal de Souza e sua resistência histórica na luta pela terra e direitos dos povos indígenas. “TEKOHA” refere-se à terra tradicional, ao espaço de pertencimento da cultura Guarani. É no TEKOHA que os Guaranis vivem o seu modo de ser.
 
 
Programação – II Seminário Amazônico de Teatro de Rua – Discutindo o teatro, o público e a cidade.
 
Roda 2 – Artes Públicas
Dia 24/07, das 15 às 17h
Mediador: Amir Haddad – RJ
 
 

Mais vale um byte ou um por do sol ?

Por Beto Bertagna

Sinta mais o mundo ! E leia menos !  Ou melhor,  qualifique sua informação.

É muita porcaria , é muita coisa mal escrita, mal articulada, que não vai lhe servir prá nada ! Falta conteúdo, falta vivência e às vezes um pouquinho de educação.  Ética é uma palavra distante congelada dentro de um iceberg.

Faça um teste com um saite destes de fofocas políticas, esprema bastante e veja o que sobra de realmente relevante. Te aconselho, irmão, a lavar as mãos com creolina, no caso despoluir os olhos,coração e mente com 1/2 hora de um belo por do sol ou com a lua que insiste no meio das nuvens.

Até este bravo blog se vc achar que não lhe traz nada, nenhuma emoção mais recôndita, nenhuma informação importante, mande-o para as calendas do inferno, faça-o queimar na mármore fervente do belzebu.

É uma profusão de endereços virtuais, senhas, perfis, links, informações digitais de qualidade, outras tão idiotas parecendo escritas por quem acabou de sair do Mobral ( quá…. esta é antiga !).

O You Tube, o Orkut, o Facebook e o Twitter talvez não passem de modismos efêmeros, como tantos outros já houveram e haverão. ( Lembrei disto, há pouco, do modismo do rádio-amador Faixa Cidadão, o famoso PX da década de 80, talvez o nosso Twitter de hoje.)

Todo mundo perde tempo e , muitas vezes, fica com a cabeça embaralhada com o excesso de informação, perde o foco no trabalho, perde o foco no carinho, perde o foco na paixão, no amor, na família…

Não quer ficar de fora dos bate-papos virtuais mas mal cumprimenta a mulher quando chega em casa, isto se ainda tem mulher, se os filhos não embarcaram no mesmo delírio da loucura cotidiana.

Fazer um site é relativamente simples. Todo jornal  está direcionado para algum grupo político. Isto é normal, os grandes grupos editoriais explicitam sua posição em longos editoriais e os seguem quem quiser.  E no leque multifacetado do arco-íris midiático infelizmente também existe a cor marrom. Nesta coloração que lembra outras coisas, o $ite fala bem, ou então o $ite fala mal e isto pode mudar em questão de horas, quase sempre o tempo que demora a compensação bancária ou o depósito on-line.

Por isto, crie a sua meta , não seja refém dos outros e questione sempre as entrelinhas, ou até mesmo a veracidade das notícias. Em Rondônia temos excelentes profissionais, ótimos jornalistas que já labutaram  nos grandes jornais de SP, RJ, PR, RS e que se equiparam aos melhores do país. O problema é que a cultura digital tá virando um delicioso inferno, com mil fóruns, workshops, zilhões de blogs, redes sociais que parecem reunião de diretoria das empresas, onde vale mais fazer uma participação inteligente prá marcar o seu espaço como um cachorro mija no pneu ou no poste.

Sinceramente, blogueiros, tuiteiros, orkutzeiros ou o raio que o parta, acho que ainda  mais vale a boa idéia na cabeça e isto é uma coisa cada vez mais rara.

E se não for cineasta e não tiver a câmera na mão, como diria Glauber, vá olhar o por do sol do rio Madeira com olhos infantis ao lado da pessoa amada. Ou o Guaporé, o Mamoré, ou qualquer igarapé…

Só não sugiro jogar os notebooks, netbooks, laptops, Iphones e o escambau ( cheio de baterias de litio e niquel-cadmio, venenosas) no leito do rio prá não poluir ainda mais o nosso frágil ecossistema que ainda vai nos cobrar todas as nossas irresponsabilidades reais e virtuais.

Amemos, meninos e meninas, amemos o por do sol que ainda nos resta e nos recarrega as baterias mais do que qualquer tuitada propositalmente espirituosa…

Prefiro ainda um por do sol tímido e autêntico, recheado de nuvens insistentes e teimosas que deram prá infestar o céu de Rondônia  do que uma centena de bytes frios e teclados quase sempre por um aspirante a robô, escondido atrás de um monitor e se achando o dono da última Coca-Cola do deserto !

Quáááá !  Tenho dito !

(Crônica escrita num velho guardanapo,  por este modesto aspirante a blogueiro na Casa da Moeda, na Rua da Moeda no Recife/PE, escutando frevo autêntico tocado por uma orquestra de metais  e degustando uma , pasmem, “Norteña” uruguaia de litro, logo depois de ter dado um abraço caloroso no grande escritor Alberto Lins Caldas e conhecido a Cyane.  Isto que é globalização, cáspite ! E chega porque é a hora do galo.

Faroeste urbano

Por Marli Gonçalves

Desvia! Olha para o lado! Para! Mãos para cima! Documentos! Cuidado com o portão! Passa tudo para cá!Olha a liquidação! O cara vai cair do andaime! Pápápá! Ratatá! Olha o buraco! Roubaram a tampa do bueiro! Boom! Eu disse para passar tudo-para-cá! Poin! Bibibibibibibi! Pare, olhe, compre! Oferta, somente hoje! Daqui a pouco teremos até duelos pelas ruas, porque gente sendo jogada na calçada por seguranças, para fora do saloon, isso já temos… Tente sair de casa e voltar, sem se aborrecer.

Nasci em plena área urbana, das mais movimentadas da Capital; pouco conheço da tranquila e bucólica vida fora disso e o que sei é meio fantasioso já que até explosão de caixas eletrônicos já chegou onde antes só havia o footing, o tédio e o coreto da praça. Também não dá para dizer que o problema – pelo menos esse – é nacional, já que o mundo todo está em pé de guerra, e a barbárie espalhada. Mas se não fizermos algo na linha do agir localmente, e logo, sei não.

As cidades parecem aqueles jogos de minas terrestres. Pisou em uma, Boom! Você não sabe se vai ou se fica. Se usa um vestidinho ou um colete à prova de bala. Se põe capacete ou chapéu. Se leva a bolsa ou um porrete. Se põe perfume ou joga spray de pimenta. E – cuidado! – se for usar o celular. Essa semana a polícia matou um à queima-roupa porque confundiu um celular (descarregado, não dava nem para fritar pipoca) com arma, e “porque ele estava com um negócio preto na mão”… Meninas, cuidado. Inclusive dentro do carro.

De forma geral, ninguém mais fala bom dia, obrigada, dá licença, olha na sua cara direito, responde de bom grado alguma pergunta. Se gentileza gera gentileza, imagine o que é capaz de nascer de um estado de espírito de confronto, inclusive de classes, que vem sendo proposto e incentivado nas nossas fuças. Está todo mundo devendo na praça, ou querendo comprar e não pode. Mas as ofertas chovem, e as necessidades também.

O trabalho anda escasso, periclitante, e quem tem, tem medo. A gente não quer ver bandido, mas se vê polícia sente pavor. Não sabemos mais o que é de verdade e que não é. Roubam-nos, de perto, de longe. Vai no restaurante, bar, padaria e pode ser arrastado. Até quando estamos em casa entram em nossos computadores e nos lesam. Bancos nos arrancam centavos, e somam bolinhas nos juros, e as companhias que nos servem os essenciais são essencialmente é muito descaradas. Quem mais se lembra dos meninos de rua que arrancavam cordões de ouro? Quem mais se lembra dos trombadinhas?

Como dizia, difícil é sair e voltar para casa no fim do dia sem ter tido pelo menos um aborrecimento, seja de carro, a pé, no metrô, trem ou avião. Ou no elevador, mesmo. Pisou no cocô. Ou no chiclete. Deu uma topada na pedra solta. O carro passou e jogou água do meio-fio. Torceu o pé no buraco. Foi atravessar e veio uma bicicleta na contramão ou aquele apressado do farol amarelo. Ficou esperando e o sinal de pedestre, aquele que você aperta o botãozinho várias vezes, não ficou verde. Ou ficou, por segundos. Corra, pessoa, corra! O guarda? Está lá anotando a placa de alguém, mas não daquele que quase te atropelou – ele prefere coisas menos, digamos, trabalhosas, tipo cinco minutos a mais da Zona Azul.

Fura fila. O portão da garagem abre ao contrário, na sua cabeça. Olha o cara varrendo o chão – e os seus pés – com água, com mangueira. O táxi passou. Vazio, mas não parou. Não, não mude de faixa senão os motoqueiros malucos podem promover um linchamento. Inferno esse bibibibi deles cortando as faixas. Já não bastassem os carros dos funkeiros que fazem questão que você os ouça, agora candidatos distribuem alto-falantes gritando seus nomes.

O cara está socando a mochila em você, aquele ser. Como tão bem lembrou Ruy Castro outro dia, todo mundo com mochila nas costas, e como elas fedem! Morrinha. Cheiro de chulé. Tenta passar pela direita, pela esquerda… Tem quem acredita que comprou a rua. Cuidado com o cachorro solto, que o dono pensa que não morde, e sempre pode ter uma primeira vez. O arremesso de bituca acesa não é mais só de cima. Mais comum ainda agora que todo mundo fuma nas portas ela atingir sua perna.

Segura sua onda. Calma. Quem te aporrinha pode ser da minoria, qualquer uma, que essa hora aparece para justificar, como se velhinhos, mulheres, crianças, pobres fossem imediatamente inocentes, anjos celestiais.

A vendedora trata com desdém quem entra na liquidação – a verdadeira queima, fogueira, que está havendo, para onde se olha, para ver se o dinheiro circula nas veias do país, que ora vai bem, ora se afoga na marolinha. E leva o dicionário! Sale, Off, winter off. Até 70%! Quando é que a gente vai entender que, se dá para dar desconto de 70%, a exploração era braba, e o melhor mesmo é esperar que eles nos atraiam com as plaquinhas.

Não ser enganado, não ser morto, não matar. Não cair, não dar uns petelecos por aí.

Não saia sem fazer o sinal da cruz, sem orar por São Jorge guerreiro. Não viva sem pensar que temos de mudar, em busca da civilização, e que isso pode levar gerações.

São Paulo, obstáculos olímpicos, 2012Marli Gonçalves é jornalistaCriada em megalópoles conurbadas, conturbadas e estressantes. 

Caminheiros

O blog começa assim.

Um dia, moraremos em uma casa sobre um caminhão e o mundo será nosso quintal. Enquanto o estamos construindo, precisaremos da ajuda de vocês, em forma de sugestões e informações. Em troca, convidamos vocês a caminharem conosco em nossos relatos de viagens, passeios e nas imagens que fizemos. Senhores passageiros, bem-vindos a bordo!”

Os comandantes,Pasin e Rúbia Luz, estão pilotando um sonho que é , talvez, o de todos nós, criaturas livres deste planeta.

Vale a pena conferir a história, recheada por fotos belíssimas dos dois.

É como eles mesmo colocam no blog : “Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.”

O endereço do blog é http://caminheiros-ro.blogspot.com.br .

Avante, caminheiros !

Os curibocas

Por  Francisco Bezerra Siqueira

Somente as verdades não são suficientes para contar toda a história de um povo, pois cada povo tem sua mentira particular. Esta é, portanto, uma história incompleta, pois será contada somente a verdade – verdade viva e vezeira, a história dos Curibocas. As mentiras serão contadas em uma próxima vez.

É uma história verdadeira, repita-se, contada em todos os seus detalhes. Até os bichos já sabiam esta história no tempo em que falavam. E a contavam aos seus descendentes, como forma de perpetuá-la e para seus filhotes dormirem. Não foi escrita antes, claro, porque os bichos não escreviam, só falavam. Mesmo assim, não há bicho, mesmo os de hoje – que não falam nem escrevem – que não saiba esta história. Eles já nascem sabendo e tudo todos sabem desde que nascem, sem que seus pais precisem contar. São os bichos dos novos tempos! Dizem que é por isto que eles deixaram de falar. Em tempos imemoriais, eles concluíram que a fala é dispensável, já que nada garante e, volta e meia, inventa mentira, pois toda história, antes de ser escrita, é contada – pela fala. Ninguém é capaz de contar (falando) a mesma história duas vezes, sabiam os bichos. Além do mais, para garantir o que diziam, os bichos teriam que inventar papel, tinta, caneta, computador, internet, borracha; criar cartórios, estudar Direito, Gramática e se preocupar com outras invencionices, igualmente perigosas, como jornal e prospecto de remédio. Depois, verificariam que, mesmo escrita, a história nada valeria – era história de bicho, diriam os homens, jogando o papel amassado na lixeira. Aliás, eles nunca quiseram convencer os homens de nenhuma verdade. Eles, que se dizem racionais, que busquem seus próprios rumos – pensavam. Por fim, os bichos tiveram medo que história igual à dos homens pudesse acontecer a eles, pois, certo dia, ouviram de uma sombra sonora:

O que te assemelha aos homens é a fala

O que te diferencia dos bichos é a alma

Então, os bichos calaram. Perderam o dom da fala. Ficaram com os ouvidos para ouvir o que mais tarde com os olhos constataram: grande tropel de cavalos com homens neles montados, em trajes esfarrapados sobre corpos muito fortes, dizendo que era ali, no meio daquele mato, que um dia ergueriam o Reino dos Curibocas; o reino dos libertários, onde “jorra leite e mel”, longe dos homens de leis que, feitas do jeito deles, só a eles vão servir. O reino dos que fugiram da moenda do engenho, do chicote e do trabalho dobrado na casa-grande. Um reino de Curibocas de sangue dosado à cama de índio com preta ardente. Aquele ambiente hostil, de cobras e lagartixas, seria – quem sabe? – um dia transformado em paraíso para os que precisassem conviver em harmonia. E a quem lá chegasse, ninguém se atreveria a perguntar quem já foi, de onde vem ou o que naquelas plagas queria. Bastava se apossar das benesses do lugar, sem ganância e sem orgulho e a todos respeitar, estabelecer convivência sob as regras do lugar – as regras do bem viver! Precisa que algo mais este escriba explique?

Este Reino foi fundado onde o vento fez a curva, onde a chuva nunca andou, onde o cão anda montado num redemoinho açoitado do oco do cu do mundo; onde a justiça passou montada na besta fera, onde o bucho não produz a merda de cada dia. O nome desse lugar? Tente você descobrir, onde fica e como era. Para lhe facilitar, diminuir seu engano, uma pista vou lhe dar: não procure onde tem terra, nem localize num mapa; veja aonde tem gente injustiçada e ganância, aonde não tem partilha e aonde a bonança é pra uns e as mazelas pro resto; saiba que este Reino, não tem vizinho ao lado, sempre esteve oprimido, muitas vezes misturado a outro reino de cima; o que os delimita – estabelece fronteiras – é a riqueza de um em detrimento do outro; é o canto de protesto do reino que nada têm; é a justiça do rico reino todo poderoso sobrepujando o dos pobres; é a diferença da cor do cabelo, olho e pele. Que outros reinos tivessem por lá se estabelecido nunca pra eles foram qualquer forma de perigo. Sabiam de ouvir falar de outros reinos e reis. Que para as bandas do leste havia a Pedra do Reino; que muitos dali temiam um tal de Rei do Cangaço; que o Rei Zumbi dos Palmares morava muito distante. Aplaudido e respeitado somente o Rei do Baião. Misturado tudo isso fica fácil definir o Reino dos Curibocas, do qual estou lhe falando.

Ali nasceu, floresceu e hoje somente arqueja – já que nem a morte quis – a terra dos enjeitados, o mundo dos esquecidos, o inferno que não tem cão, o céu que Deus esqueceu, o lugar onde só vai quem tem mãe e gosta dela. Pois foi lá naquelas plagas – exatamente ali onde tudo parecia desfavorável à vida – que um ferrenho feitor, feio, fraco e fedorento de porte pequeno e pedante, porreta palestrador, destemido e petulante fundou e denominou o Reino dos Curibocas. Um Curiboca da Gema, ele próprio se dizia, depois de verificar que para ter alma salva não precisa renegar quem é ou foi Curiboca. Isto é o que você vai ler no mote e no tema.

Já tem mais de quatrocentos anos que os Curibocas habitam aqueles sertões. Até hoje ninguém sabe, o tempo que pra trás fica, o dia em que o primeiro deles por lá fincou pé. Se era branco ou mulato, preto ou mameluco, fugidio do seu dono, assassino condenado, degredado lusitano. Parece que todos eram aventureiros capazes de qualquer vida infeliz desde que lá tivessem a liberdade, o trabalho e com suas próprias leis julgassem e condenassem; estabelecessem direitos que deles também fizessem donos daqueles sertões. Por todos aqueles anos, cruzaram com índio bravo, com pretos e com cafuzos, com Curibocas também e muitos e outros tantos Curiboquinhas geraram – contados em dúzia, dezena, às vezes, até chegando a uma vintena ou mais. O filho é Deus quem manda e Deus em sua bondade, dá um jeito de criá-lo.  Rejeitá-lo é pecado. É recusar a ajuda que mais cedo ou mais tarde um dia vai precisar – é assim que o Curiboca vê a família crescer.

Viveram em uma terra distante e ignota, sem despertar uma linha de quantos fizeram História. Escribas, claro, vieram (ainda os há por lá) para relatar somente o que cabe por inteiro nas regras dos seus conceitos: sociologicamente, daqueles que dominaram; antropologicamente, das castas que lá formaram. Os Curibocas – Ah! Os Curibocas? – se quiseram ser lembrados e se sobreviverem ao tapete que cobre muitas verdades, terão, por eles próprios, que contar a sua História, sob pena de um dia vê-la desvirtuada, de outra forma contada, quem sabe, até esquecida. Pois aos Galegos de lá nunca interessou contar história “daquela ralé” que pudesse em um só fato, genealogicamente, manchar passado e presente, daqueles que se fizeram, pela força do chicote, novos donos do lugar. Contados em verso e prosa, somente os que carregam W no seu sobrenome ou se lá em Trás os Montes tiver o seu pedigree. Somente os de pele branca, olhos verdes ou azuis e sobrenome lenhoso – Carvalho ou Oliveira – serviram de referências àqueles que escreveram a História dos Sertões. Que me permitam dizer – e sem querer contestar o Jorge de todos os santos, nem o Lins e seus engenhos, o Graciliano da seca, o Euclydes dos messiânicos – mas a história completa dos Curibocas de então – verdade useira e vezeira – foi contada por inteiro, pela mais emocionante forma de literatura que o sertão conheceu – o folheto de cordel. Dele foram autores os mais perfeitos poetas, cantadores e cronistas, destemidos jornalistas, filósofo de toda sorte. Não houve um fato bíblico ou catástrofe natural, acontecimento político, desilusão amorosa que não tenha sido algum dia versado para a linguagem dos Curibocas de lá. Na forma escrita p’r’aqueles, com abc dominado; no canto e no recital, para os desafortunados da leitura e do saber. Se a História Oficial tivesse sido contada pelo dom dos Curibocas, seria a História completa. Que diria que eles são “antes de tudo um forte”; mas se diria também que muitas conquistas lhes faltam, apesar de serem fortes; que apesar das mazelas lá sobra muita altivez, capacidade de luta, pra começar outra vez.

Foi o gênio inventivo dos Curibocas de então que moldou o mais antigo – inusitado também – tipo de convivência de entidades fantásticas, reais e imaginárias de que aquele sertão hoje tem conhecimento. Por anos a fio viveram do que a mãe natureza, ainda que muito ingrata, a eles ofereceu. Pois quando por lá chegaram, se nada consigo tinham, tiveram que tudo inventar; se nada então sabiam, tiveram que tudo aprender. Para explicar o que não conseguiram entender e o que a eles foi impossível aprender, criaram seus deuses pródigos, fartos em proteção e entidades satânicas, misteriosas, malignas, horrendas e vingativas. E foi assim que de tudo, todos eles inventaram: para comer, a buchada, para a comida, o alforje; para montar, o muar, para a cozinha, a trempe; para beber, o aluá, para dançar, o xaxado; para cantar, a toada, para a promessa, a novena; para a morte, a incelência, pra proteger, a arruda; para a fiança, o bigode, para vestir, o gibão; para a boiada, o aboio, para morar, a tapera; para curar, a meizinha, pra competir, a corrida; para fumar, o palheiro, para vingar, a tocaia; para impor, a peixeira, para bicho, a caipora; para esconder, a botija, para dormir, a esteira; pra transportar, o jumento para adoçar, o mascavo; para cheirar, o torrado, para contar, o cordel.

O Reino, por sua vez, foi todo ele prodígio. E todos os Curibocas souberam aproveitar, com tino, engenho e arte as benesses do lugar. Em abundância encontraram: caroá, para amarrar, caldeirão cheio de água, aroeira para linha, urucum para corante, cabaça pra botar água, chapadas para plantar, imbu para tira-gosto, ervinhas para curar, carnaúba pra varrer, lagoas para pescar, malhada pra criar gado, faveleira que fazia rim de bode criar sebo, camaratuba de monte, para o gado engordar, caça de todos os tipos, para a mesa fartar. Que delícia este lugar!

Com as benesses da terra, braço forte e coragem, criaram lá nos sertões os currais do São Francisco. Subiram o Velho Chico, chegaram no Piauí e fundaram feitorias nas fraldas do Araripe. Pulando a serra chegaram ao Vale do Cariri. (Mas isto é outra história pra ser contada outra vez). Nos Currais do São Francisco, criaram boi de tração para o engenho banguê moer cana e produzir melaço de rapadura e mascavo para os D’Avilas açúcar branco fazer. E nos currais das caatingas, longe das águas do rio, produziram boi erado pra boiadeiro tanger nos rumo do litoral. De carnes abasteceram as mesas das capitais e os garimpos longínquos das belas Minas Gerais.  Fizeram roupa de couro, era de couro a cadeira, a cama, a porta, o surrão, o chapéu e a botina, o currulepe, o chicote. Tanto gado produziram, tanto couro utilizaram, que este tempo ficou na História nominado a Civilização do Couro.

No Reino dos Curibocas, todos tinham profissão. Se homem, veja então a lida de cada um: Becisa era vaqueiro, Rufino campeador, Luizão bom curtidor, Zé do Baixão o ferreiro; Juvenal era roceiro, Adalberto carpinteiro, Anísio bom sanfoneiro, Totonho o pescador; Tião era funileiro, Agostinho bodegueiro, Zezinho bom zabumbeiro, Terêncio o pistoleiro; Benedito era seleiro, Agostinho sapateiro, Deno bom violeiro, Valdemar o cantador; Bento era rezador, Galdino amansador, Claudivar bom alfaiate, Lourival o repentista; Josué era vaqueiro, Severino lavrador, Claudionor bom roceiro, Juventino o coveiro; Luiz era carvoeiro, Sebastião curador, Cazuza bom tangerino, Clementino o oleiro; Pedro era pedreiro, Cipriano tecedor, Santinho bom sacristão, Lourival o cantador; Justino era barbeiro, Osvaldino zelador, Odilon bom varredor, Valdivino o castrador; Josias era sineiro, Cipriano tecedor, Celestino bom vigia, Jeremias o capanga; Manuel era queijeiro, Jesuíno garrafeiro, Lucas bom lenhador, Arlindo o morador; Elias era marchante, Severiano feirante, Afonso o bom tropeiro, Otoniel o feirante; Juvenal era mascate, Aureliano leiteiro, Lucas o bom cerqueiro, Francisco o serralheiro.   Não era ofício de homem fazer roupa de mulher; e mulher ir para o eito era uma covardia de marido preguiçoso, o que lá não existia.

Se mulher, assim vivia cada qual, em cada qual, na lida de cada dia: Dora era cozinheira, Dulcinéia costureira, Santinha a benzedeira, Zefa era lavadeira; Lurdes era passadeira, Terezinha fiadeira, Carolina a doceira, Marinalva era copeira; Socorro era parteira, Albertina costureira, Carlota a carpideira, Luzia era rendeira; Graça era professora,Sebastiana a vidente, Arlete a merendeira, Vilani era babá; Rosa era ama de leite, Iraídes bordadeira, Iraci a varredeira, Camila era boleira.

Que outro ofício houvesse – vez por outra aparecia – sempre tinha um Curiboca capaz de ser o seu mestre. Claro, menos aquele, que não combina com homem, quanto mais se ele for, Curiboca de valor, o que todos de lá são.

Viviam em harmonia, sem se negar a favores. Em mutirão resolviam o que um só não podia. Nem a seca resistia ao trabalho em união: mandacaru para o gado, cacimba para beber, botar vaca no jirau, curar bicheira de boi, eram trabalhos de todos, quando a seca inclemente a todos vinha atingir; comida, roupa e calçado, era tudo dividido. Sabiam que sofrimento quando é compartilhado pra cada um sobra pouco. E “pouco com Deus é muito”, costumavam repetir, em inabalável fé. Curiboca nunca foi de deixar ninguém na mão, mesmo não tendo sobras para atender ao pedido. “Seu pedido é uma ordem”, era a resposta de sempre, a qualquer necessitado.

A seca, sempre inclemente, chegava todos os anos – mais branda ou mais cruel, como acontece até hoje. Era desígnio de Deus. Não há como recusar aquilo que Ele manda. Enquanto a água não vinha pelos riachos correndo, nos seus leitos arenosos perfuravam as cacimbas. Como se fosse um milagre, brotavam das profundezas os fartos veios de água – veios que são as lágrimas da terra tão generosa. Não tinham desesperança: sabiam que por debaixo daquela paisagem cinza, com cheiro e cor de morte tudo teima em renascer na hora que santo Pedro abrir as portas do céu. É esperar para ver: pasto crescendo e gado engordando; caatinga florando e imbuzeiro botando; açude enchendo e sapo cantando; bezerro nascendo e leite jorrando; a asa branca voltando e o vaqueiro aboiando. A seca? Ora, qual seca? Uma lembrança distante. Dali pra frente somente trabalheira prazerosa: campear, curar, ferrar; ordenhar, coalhar, curar; roçar, queimar, coivarar; cercar plantar, limpar; colher, bater, soprar; consertar guardar, vender. Na festa da ferra do ano, a buchada a carne seca, o requeijão, a coalhada, o milho verde, a pinga, o riso solto, o sossego.

Tiveram na honradez a pauta de suas vidas. Nunca se viu Curiboca dever a alma ao diabo, dever aposta de jogo, dever honra de menina, dever cachaça na esquina, dever favor a amigo, dever a bênção à mãe, dever pecado ao padre, dever o coito a quenga, dever dinheiro emprestado, dever sem se desculpar. Foi dispensável cartório e juiz pra resolver pendências e compromissos. Pra eles o que bastava era a palavra de homem. Nem um fio de bigode precisava empenhar – para um cabra da peste o que conta é sua honra; não fique desconfiado quando ele lhe falar que tudo está combinado. Mas tinha a faca peixeira, o rifle, o bacamarte pra todo cabra safado que não sustenta a palavra; que bole com moça virgem sem a bênção do vigário ou sem pedir ao juiz. Se não tinha o vigário ou o Juiz de Direito, que fosse um Juiz de Paz. Não podia era ficar o feito pelo não feito. Quando mais tarde visse o santo Frei Damião celebrar suas mões, a bênção do matrimônio tiraria do pecado aqueles amancebados. Pois casamento de fato, só era considerado o que era celebrado com padre e sacristão.

Mas teve herói Curiboca. Daqueles que não suportam usurpador de poder. Em busca da liberdade, correu mundo defendendo quem precisava de bala pra se fazer respeitar. Inspirou-se em Jenipapo, conspirou em Juazeiro, defendeu Pau de Colher. Foi capanga de Silvino, coiteiro de Virgulino, trocou tiro com milico no dia Nove de Julho. Acompanhou a Coluna, lutou pela Intentona, resistiu em Trinta e Sete, foi preso do Estado Novo. Aliou-se a Julião e combateu com Lamarca. E até na Grande Guerra Curiboca defendeu a liberdade e a paz. Só não lutou na FRELIMO nem no MPLA. Perderam-no os que ganharam aquelas guerras de lá. Na volta para o sertão, quanto verso de cordel a sua história compôs!

Nas artes, se destacaram. Criaram cultura própria. Seus gêneros musicais, seus ritmos e suas danças, são formas de expressão não vistas até então. A poesia popular, na forma de verso e música é um dos mais belos ecos dos belos cantos jograis. O Baião e o maxixe, cantiga de roda infantil, forrobodó e o xote, cordel cantado e falado, história de caipora contada em boa prosa, desafio de viola improvisado na hora. Que delícia é o canto do martelo agalopado! E belas bandas de pífanos, com zabumba e reco-reco, pra novenas festejar; e o livro de cordel que lhe conta a fiel história de Lampião; e o canto de viola que lhe conta em verso e prosa como vive o catingueiro: de promessa o ano inteiro. Nas rodas de São Gonçalo, onde ponteia a viola, pagam promessas com cantos, danças e muita comida. Tudo isto e outras tantas manifestações de raiz – como diz o folclorista – de beleza engenho e arte, forma o caldo cultural – como diz o reticente – dos Curibocas de lá dos sertões do São Francisco.

Ainda hoje, autores – poetas e literatos, artistas bem renomados – têm suas inspirações em temas lá dos sertões. Pesquisam e lá encontram – em inesgotável fonte – motivos pra recriar em formas, motes e temas, façanhas do Nego D’Água, histórias de Caipora. Todas de pura verdade. E ai de quem duvidar – e quem duvidar verá: Nego D’Água virar barco, Caipora espantar caça. É pena que o machado com sua fome de lenha e de madeira de lei tenha tudo devastado, ficando a Caipora sem lugar para morar. Com tanta ingratidão, ameaça se mudar.  Que o assoreamento não expulse o Nego D’Água das águas do Velho Chico. Valente como ele é, não tarda em procurar outro rio pra morar. Um rio de águas claras, fartas e sem esgoto – se é que ainda tem tão gostosa moradia. Por enquanto vai ficando, disse ele a um pescador – um pescador que não mente.

O Pastoril no Natal, a festa dos três Reis Magos, Semana Santa e São João, são festas nacionais, que lá no sertão também, já eram comemoradas nos tempos dos Curibocas. Com folguedos festejavam os santos daqueles dias. Mas a festa de São João – aquele do carneirinho – ficou sendo a principal. Fogo de Zé Fogueteiro, dança de par e quadrilha, casamento de mentira, compadrio sem afilhado; e as comidas do milho de tanta variedade – bolo, canjica e pamonha, cuscuz, angu e curau; pra completar o banquete, beiju de coco e cocada. A cachaça de cabeça rola solta a noite inteira, sanfoneiro animado só toca xote e baião, pra dançar apertadinho. Sem falar no namorinho no escuro do oitão.  Se faltar par, ora essa! Dança mulher com mulher.  Se faltar mulher então, tem rixa certa no baile. Pois Curiboca não dança nem só nem com outro homem, nem é de ficar em baile parado pensando asneira. De carnaval nunca ouviram, naqueles tempos, falar. Se ouvissem, tenham certeza, seria considerada a festa de satanás.

Na culinária então, que sabores têm lá! Paçoca socada em pilão, buchada e sarapatel, miúdos de bode assado, macaxeira cozinhada – assada, então, que delícia – servida com carne frita.  Feijão verde temperado com farinha misturada na raspa daquele tacho onde foi cozido queijo de coalho ou de manteiga, rapadura e alfenim, são delícias que têm cheiro das cozinhas das caatingas. Pra temperar e dar gosto, cebolinha e pimentão, cebola que faz chorar, tomate coentro e salsinha, colhido verde e fresquinho na horta lá do quintal. Pra preparar tudo isso, um belo fogão de lenha, panela de barro e tacho.

Mas chegou a exaustão – coisa que este escriba nem gosta de se lembrar – pois durante quatro séculos tudo tiraram de lá. Sem nada repor, a terra, a flora, a fauna e os rios começaram a definhar e com eles, claro, os Curibocas também, pois “o martírio do Homem, ali, é reflexo de tortura maior… nasce do martírio secular da terra” – já dizia, sabiamente, o nosso Euclydes da Cunha. E os pastos rarearam, as madeiras se acabaram, as aguadas, quase secas… Veio o êxodo rural – inexorável seria – para constatar o que Joaquim Nabuco dizia: “poucos são os netos de agricultores que se conservam à frente das propriedades que de seus pais herdaram”. Também ficou confirmado, segundo o mesmo autor, o adágio popular: “pai rico, filho nobre, neto pobre“.  Os sinais de esgotamento podem ser detectados pelas desigualdades que foram aprofundadas entre as classes sociais, pela escassez crescente dos recursos naturais e pela degradação daqueles ecossistemas. É desolador o abandono de tantas fazendas de gado dos sertões dos Curibocas, como de resto ficaram todas de lá do Nordeste.

Nem todos se retiraram – não viraram retirantes em terra distante e alheia. E os que lá ficaram, muito arraigados à terra, tocam a vida pra frente, no rumo de seus abismos – abismos que eles próprios sempre souberam evitar, conhecedores que são da vida lá dos sertões. Há ainda os que trocaram a chuva do santo Pedro, pela chuva que os homens fazem jorrar dos seus canos. E vejam só que ironia: tem Curiboca colhendo fruta fresca no sertão para fartar europeu que nem sabe que ele existe…que no sabor dessas frutas está também embutida toda uma história de vida.

Tivesse sido este reino cercado e bem conservado, por certo seria um bem para ser visto e gozado e pra servir de exemplo pra muito homem malvado. Não precisava de cerca feita de mourão e vara e nem arame farpado, que não havia por lá, precisava ser usado. Bastava a cerca da Vida: a cerca que, destruída, sempre teima em renascer.

………………………………………….

Referências Bibliográficas

Euclydes da Cunha – Os Sertões. Livraria Francisco Alves. 27ª edição, p. 43, 48

Joaquim Nabuco – O Abolicionismo. Nova Fronteira p. 162

Francisco Bezerra Siqueira – Editora Verano – Rumo Reverso