Diz a Lenda – Sem Rumo

Por Beto Ramos

Porto Velho amanhece triste.

Com peixes sem rumo quase morrendo afogados.

Lágrimas nos olhos do rapaz, que lê a reportagem.

Ele não sabe que o seu futuro, poderia custar o fim da piracema.

Chegaram os matadores de histórias.

Armas nas mãos.

Máquinas, monstros fora de estrada que modificam tudo.

Pobre rapaz!

– Olha o peixe, do viveiro do futuro!

O rio chora.

– Mãe, me deixa pescar no rio?

– Não, tá muito cheio com o banzeiro muito bravo!

O pobre rapaz veio de longe e não tem noção da tristeza da cidade.

Foi demitido, encontrando-se jogado lá no Campo 13 de Setembro.

Ele quer o peixe para tirar gosto com cachaça.

Pobre rapaz ajudou a destruir e quase foi destruído.

– Mãe, o homem tá chorando lá no campo!

– Ele quer voltar para casa meu filho!

Pobre rapaz, o impacto o atingiu.

O peixeiro segue vendendo o seu peixe de viveiro.

Como o rapaz, os peixes do rio Madeira, estão sem rumo e definhando na natureza que lhes pertencia.

 

Diz a lenda

 

Uma ideia sobre “Diz a Lenda – Sem Rumo

  1. norma7

    Triste de chorar, Beto. Esse seu xará…
    E se eu fizer como O Analfaberto Político – será que vai doer menos nos homens (que se preocupam e não sabem como combater) e nos peixes, do texto acima? E se eu fingir que não li, o recém aberto buraco no meio do peito, fecha?
    Tô abusando do teu espaço, me desculpe. Delete o abaixo, se julgar conveniente e considere como “catarse” – vulgo saco cheio…
    Norma
    Bertold Brecht
    Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

    Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

    Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

    Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

    Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

    Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

    Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

    Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

    Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

    As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

    Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos

    Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

    Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

    Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

    A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

    Também haveria uma religião ali.

    Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

    Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

    Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

    Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

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