Ainda virá a pior enchente…

Enchente do rio Madeira atingiu os galpões da Madeira-Mamoré num passado recente.

As altas temperaturas e a alta umidade deixam o tempo abafado em Porto Velho. Esse tempo abafado favorece a formação de nuvens carregadas sobre a capital de Rondônia.

Podem ocorrer chuvas esparsas, mas que podem se transformar em temporais, mesmo sendo de curta duração – e o que chamamos de curta duração em Porto Velho são aguaceiros de 30 a 40 minutos – podem causar grandes prejuízos e transtornos.

O chão da cidade, de pouca ou nenhuma drenagem, está saturado de água. Mesmo que as autoridades tentem, não conseguirão resolver esse problema na atual temporada.

Ainda bem que a  temperatura está se mantendo em média em 30 graus. Mais calor, mais evaporação no rio Madeira, e mais chuva.

As informações, que valem para os próximos dias, são dos meteorologistas colaboradores do site “Climatempo”, com o aviso que parece ser ignorado por grande parte da população e por setores do serviço públicos que correm atrás dos prejuízos, ao invés de preveni-los: o perigo de novas chuvas fortes ainda não acabou.

Como disse há muitos anos em São Paulo, o então prefeito Olavo Setúbal, aos jornalistas que o acompanhavam numa vistoria a ruas arrasadas por uma inundação causada por uma chuva: “Ainda virá a pior enchente.”

Eu era um dos jornalistas que acompanhavam o prefeito por ruas cobertas de lama (na época morava na Capital paulista e era repórter da “Folha de S. Paulo”). Não dava para acreditar no prefeito: as águas tinham baixado deixando marcas de alagação que iam até o teto em algumas casas.

Como imaginar pior drama? Casas haviam desabado. Os bombeiros procuravam pessoas desaparecidas. Havia feridos hospitalizados.

Os sobreviventes nada podiam fazer além de olhar para a destruição de coisas que haviam comprado até com dificuldade: televisores, aparelhos de som, geladeiras, sofás, colchões, as roupas da família em guarda-roupas antes bem arrumados, tudo estava coberto por lama, lixo e podridão.

Aqui e ali se via um rato morto entre o amontoado de detritos em que tudo que havia nas casas tinha se transformado da noite para o dia. A enxurrada mal havia dado tempo para que salvassem a própria vida e a dos familiares.

A voz pausada e grave de Setúbal não significava auto-crítica ou tinha qualquer intenção política de culpar quem quer que fosse pelo desastre. Aliás, sequer poderia culpar inteiramente os paulistanos que também costumam, ou costumavam, atirar lixo nas ruas, nos córregos, bueiros e bocas-de-lobo – um costume que se espalha pelo país e existe em Porto Velho.

O prefeito Olavo Setúbal tinha razão. As enchentes são como um filme que se repete ao longo dos anos sem mudar o roteiro de sofrimentos e angústia de suas vítimas. Mas, aumenta o horror das cenas.

Atualmente, os fatores causadores de tragédias climáticas estão cada vez mais distantes dos locais onde elas ocorrem. As alterações são globais, planetárias. A poluição na China pode afetar o tempo no Ocidente. O desmatamento na Amazônia pode causar nevascas na Europa. Parece absurdo, mas não é.

De repente, descobrimos que a aldeia global em que vivemos não é a criada pela rede mundial de computadores, a Internet. Como espécie animal, somos muito poucos se comparados, por exemplo, com a população de formigas, trilhões de formigas, contra os nossos 5 ou 6 bilhões de humanos.

Mas, as formigas não poluem o meio ambiente, não agridem a natureza. Nosso planeta ficou pequeno demais para o lixo que produzimos. Nós o transformamos numa lixeira global. E a natureza está se vingando.

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(*)  Texto que continua atual de Nelson Townes, falecido em 2011.

Daí, o que você acha disso ?

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