Arquivo diários:05/02/2012

Os poderozinhos de araque

Por Marli Gonçalves

Claro que você já se deparou com eles, já que se espalham como pragas por aí, principalmente nos serviços públicos e para o público. Esta semana enfrentei um, dos piores, daqueles dos quais a gente, bem ou mal, depende, e no fundo, exatamente o que me fez pensar duas vezes. A primeira, sobre o que a minha própria reação poderia causar a mim mesma e a outras pessoas. A segunda é que, coitados, deve ser apenas o pouco que eles têm para exercitar o ego, e a pouca autoconfiança, vamos falar assim, que deve ser “deste tamaninho assim”.

Quase. Salva por pouco, um tantinho, por uma luz recebida de bom senso e controle que me surgiu na Hora H, por pouco que esta semana vocês não iam ter nem artigo para ler, turma! Tentaram me “ganhar” e, como certa de que, quando estou certa, não levo desaforos para casa, eu ia fazer aquele forrobodó. Ao tentar resolver um problema relacionado à aposentadoria de minha mãe – que morreu há exatos 9 anos – deparei-me com um cidadão, funcionário público, pago por nós para trabalhar por nós, mas com esse probleminha sobre o qual quedei meus pensamentos depois do ocorrido: os pequenos (e podres e pobres) poderes.

Olha isso: descobri agora, e porque fui cobrada, que há 9 anos, repito, 9 anos!, junto da batalha que eu levei durante meses contra a morte para que esta não levasse minha valiosa mãe, com uma UTI em casa, etc. e tal, problemas de toda a sorte, que alguém (eram dezenas de pessoas circulando) recebeu a pequena aposentaria dela por mais três meses e, claro, após a sua morte.

Para vocês terem o pano de fundo da conversa, venho encaminhando já há meses todos os documentos pedidos e possíveis para a defesa de que não fui eu, nem ninguém, os outros dois da família, e que tínhamos problemas bem maiores$$$$, mas muito maiores, à época.

O caso foi que respondi à altura a um servidor público que ousou se meter, de uma mesa do lado – não era com ele que estava tratando, mas deve ser o tal chefete – duvidar do que eu afirmava tranquila, em depoimento, inclusive oficial. Pior: duvidou do meu pai! Quando disse que não só meu pai até hoje, aos 94 anos, não sabe lidar com cartões magnéticos como que nem no fax chegou a mexer, o tal veio com suas falinhas irônicas, acompanhado de perguntas grosseiras e com pontas incidiosas.

Só que com esta “dúvida” dele, além disso, o tal me chamava – claramente para uma entendida em palavras – de mentirosa e/ou ladra. Pior: ladra de INSS, de caraminguás.

Quem me conhece pessoalmente já está imaginando o tamanho da encrenca, e da rapidez com que me levantei, chegando bem perto dele, para contrapô-lo. E da mesma forma que ele, minha voz subiu dois tons, em cima do “tamanco”, rodando a saia, fogo nas ventas.

Como o “cidadão”, vou tratá-lo assim porque sou boa, deve ser useiro e vezeiro em espezinhar pessoas simples, o bicho pegou. Vou contar: ele chamou a segurança(prefiro não comentar nem descrever o tal franzino que já chegou com a mão no coldre) para me retirar do recinto, e considerou desacato (existe, você tem obrigação, por lei, de aguentar firme as manhas de funcionários públicos, para o bem e para o mal!). Já escrevi aqui que ninguém põe a mão em mim sem motivo ou autorização expressa, que viro um bicho feroz, e me conheço. Foi aí que o tal bom senso me cutucou e eu “me acalmei” – porque se o franzino chegasse a relar em mim, ai, ai, ai. Voltei aonde tinha parado, e com o sapo instalado no fígado, terminei meu depoimento com a outra gentil servidora que me atendia, e fui embora. (O segurançazinho ficou ainda na porta uns dez minutos, olhando minhas costas, observando meu comportamento). O afrontador, esse, mostrou-se todo feliz com o exercício de seu pequeno poder.

Conto isso como registro e também como alerta, porque os pequenos poderes dessa gente que acha que os tem podem ser perigosos. E eles estão em toda a parte, revestidos de autoridade. Confundem tudo, e só “governam” com o autoritarismo, com a pressão, com o terror, com a imposição do medo e da ameaça. Quando mais patológica sua aplicação é considerada uma síndrome – a síndrome do pequeno poder. A psicologia define como uma forma de agir ou atitude de autoritarismo por parte de um indivíduo que, ao receber um poder qualquer, o usa de forma absoluta e imperativa sem se preocupar com os problemas periféricos que possa vir a ocasionar, mas sim com seu efeito de humilhação e em quem o sofre, subjugado.

Há profissões que vivem deles, sempre querem e precisam subjugar alguém. São os bozós das portarias. Os poderosos de crachá pendurado no pescoço. Alguns chefes. A dona de casa massacrada pelo marido que desconta na empregada; o segurança da casa noturna que tem três trabalhos e não dormiu; o homem que acha que dá tudo à mulher, põe comida dentro de casa, comprando sua alma. É o policial nas ruas diante de jovens. (Por favor, peço que entenda por esse ângulo a Rita Lee. Ela apenas tentou defender sua platéia. Mas ela é ela, ruivinha do balacobaco e boca grande, e acabou na delegacia. Foi o dragãozinho interior dela).

Depois desta que passei essa semana, realmente pensei muito no assunto. Até para me acalmar e sentir como a gente pode, sim, virar uma bostinha diante de gente tola. Por exemplo, se eu denuncio a pessoa em questão ao ministro, ao Ministério da Previdência, quem serão minhas testemunhas, já que não filmei os fatos? Os chefiados? E supondo que alguma sanção seja dada ao sujeito, como ele tratará sua família se for punido? Aliás, outra boa preocupação, que já deixo de antemão registrada aqui, e contando a vocês a história: o processo do meu caso deve estar nas mãos dele. O que me garante que ele não vai tentar usar mais uma vez esse seu pequeno poder? Bem, tenho nome dele bem guardadinho aqui comigo, caso tente.

Sabem como é, não? Papel aceita tudo. E nem sempre as pessoas têm consciência para por a mão.

São Paulo, onde brotam esses pequenos poderes, 2012.(*) Marli Gonçalves é jornalista. Não queria, ah, mas não queria mesmo, lembrar dessa forma da morte de minha mãe há 9 anos, que se completam agora, dia 9. Não queria ter de recordar o que passei. Muito menos saber que enquanto sofria tinha alguém por perto pensando só em se dar bem com um cartão magnético, para ganhar uns trocos.