Arquivo diários:22/01/2012

Droga de origem rondoniense – a Merla Morte Súbita, pior do que o crack – chega ao Sul do Brasil

Viciado em "merla" delira em plena luz do dia, numa parada de ônibus da Estrada de Sto Antônio, em Porto Velho. foto: B.Bertagna

Viciado em “merla” delira em plena luz do dia, numa parada de ônibus da Estrada de Sto Antônio, em Porto Velho. foto: B.Bertagna

Leia até o fim se tiver filhos ou, ao menos, vergonha na cara. Uma nova e mortífera droga, a “merla morte súbita”, originária de Rondônia, pior do que o crack, chegou a Porto Alegre e está fazendo os militantes de movimentos anti-drogas alertarem os pais e autoridades para o perigo.

A droga tem efeitos mais intensos do que os do “crack” e pode, literalmente, causar morte repentina do usuário. A “merla” não é a mesma coisa que “mela”, ou “melado”, restos ou sub produto de pasta base de cocaína (sulfato de cocaína) de uso comum em Rondônia.

Embora atualmente a mídia em Rondônia, especialmente em Porto Velho, esteja citando “merla” e “mela” como se fossem a mesma coisa, há uma diferença básica entre elas.

A “mela” é o que sobra da fabricação da pasta base de cocaína – uma espécie de borra sem valor comercial para a indústria da transformação da pasta base ,(sulfato de cocaína) que é feita na Bolívia para ser tranformada em cocaína (cloridrato de cocaína), refinada em laboratórios químicos, geralmente na Colômbia.

Os resíduos de sulfato de cocaína tem, porém, efeitos deletérios e, não obstante ser apenas lixo, com grande teor de ácido sulfúrico, éter, acetona e outros produtos usados para fazer a pasta base, é vendido a baixo preço consumidores de narcóticos nas ruas de Porto Velho.

As vezes a mela é misturada à maconha para ser fumada na forma de cigarros que são chamados de “melado.”

A “merla” ainda tem resíduos da borra da pasta base de cocaína, mas é mais letal pois em sua composição entram querosene, ácido sulfúrico, barrilha usada para limpeza de piscina(óxido de cálcio),cimento, soda cáustica,amônia, cal virgem, solução de bateria de carro, , gasolina reutilizada inúmeras vezes.

Numa nota publicada em seu blog, Beto Bertagna explica que a “merla” é absorvida pela mucosa pulmonar e a exemplo da cocaína, é excitante ao sistema nervoso.

Exames em indivíduos sob efeito da “merla” relatam que ela causa euforia, diminuição de fadiga, aumento de energia, redução do sono e do apetite, perda de peso, alucinações,delírios e confusões mentais.

“O usuário da merla corre sérios riscos de ter convulsões e perda de consciência, As convulsões podem levar o usuário a ter uma parada respiratória, coma, parada cardíaca e a morte” – acrescenta Bertagna.

Usuários da “merla” relataram que após o efeito da droga, sentem medo, depressão e paranóia (sensação de perseguição) que em alguns casos os leva ao suicídio.

“Com o uso continuado o usuário perde os dentes sob o efeito do ácido de bateria que começa a corroê-los até sua perda total.

A “merla morte súbita” pode se popularizar em Rondônia principalmente se for verdadeira a notícia de que o verdadeiro xerife de Guajará-Mirim, na fronteira de Rondônia com a Bolícia e inimigo nº 1 das organizações criminosas, o popular agente federal “João Pomba” se aposentou. Quem irá lhe substituir?

A “merla” aparentemente chegou antes do “crack” em Porto Velho. Ainda não se sabe por que não se popularizou tanto como no Sul, ou sequer se sabe de suas vítimas aqui. A imprensa pode inadvertidamente colaborando com a adoção do nome de “merla” para a “mela” tradicional.

Devastação causada pela “merla morte súbita”

O blog betobertagna.com divulga o seguinte depoimento de Weslley Bragé Dias, do grupo de hip-hop Realidade de Rua. O texto é dedicado aos policiais, promotores, juízes (especialmente os do Juizado da Infância e da Adolscência) e, principalmente, repórteres, e a todos os demais cidadãos que tem honra.

PORTO ALEGRE, Rio Grande do Sul, quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010 (Betobertagna.com/ Noticiaro.com – ” Todo mundo tá preocupado com o crack. E quando chegar a merla como em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, vai ser uma mudança de planos. Quero ver onde é que vão enfiar a camiseta de “Crack nem pensar”, musiquinha e adesivo. Para fazer fama, ouvir aplauso, a boca fala tudo, mas onde é que vão enfiar a cara, com que palavras vão contrariar as pessoas quando a merla estiver no lugar do crack?

“Existem três tipos de cocaína: a mais pura é a boliviana, só tem em Alvorada. A mais ou menos é a Viviane. Tem esse nome porque Viviane foi a primeira mulher que trouxe de São Paulo para cá. Morreu aqui (Porto Alegre), assassinada. A Loira é a mais fraca, a mais misturada, pode ter o mesmo efeito que giz escolar.

“Tem vários tipos de pedras também: Hulk, Cristalina, Cenourinha, Bate-Bate. A pior destas é a Bate-Bate, porque é a mais pura, feita direto quimicamente. Até em casa se faz.

“Merla é a mistura da Bate-Bate com a resina da boliviana.

“O nome é merla, o apelido é Morte Súbita, porque a pedra vicia e mata com menos prazo. Tanto é que tem gente que fuma pedra há 12 anos e não morreu até hoje. A merla, segundo os doutores, em seis meses mata. Mas não é exatamente seis meses – é conforme o adequado andamento que a pessoa usa, a forma como usa. O efeito dura 15 minutos, o triplo do efeito da pedra.

“Ela pode ser usada fechada como maconha. É o “mesclado” (mistura de pedra com maconha e pó), também chamado “macaquinho”. Pode ser usada no cachimbo (ou bimbo), e aí não passa de dois meses – a pessoa se mata porque tem 90% mais efeito colateral que a própria pedra.

“A merla aqui em Porto Alegre está circulando há três meses. Antes só se ouvia falar. E só não se tá num vício pior, porque não está sendo lançada no mercado como a pedra (crack). Em uma semana, a pedra aumentou 80% o uso. E agora, mais ainda. E não se sabe se não vai aumentar mais ainda.

“Onde diminuir o consumo da pedra, aumenta o mercado da merla. E o que dizem é que vai ter mais índice de morte, até por acerto de conta entre quadrilhas e bocas de fumo, e pela droga mesmo, pelos peixes-grandes (patrões).

“A diferença entre merla e crack é que a merla é tipo uma crosta. A merla também é um tipo de pedra, mas tem uma consistência mais como gel, gruda. A merla custa R$ 2,00 (R$ 3,00 a menos que a pedra, porque ainda está começando o consumo). A pedra (crack) custa R$ 5,00. Quando aumenta o vício, a boca de fumo aumenta o preço no mercado negro. A grama de pedra hoje chega a R$ 20,00.

“Nem sempre quem vende merla e crack é a mesma pessoa, porque isso já tem envolvimento de gente grande, os traficantes costas-quentes. O traficante costa-quente é tipo um doutor que cai na cadeia e fica numa cela especial porque tem ensino superior. Vem direto deles.

“Não estão vendendo ainda merla como vendem pedra. Não é assim fácil para entrar uma droga nova e sair vendendo. Tem que ter contatos do morro para lançar uma nova. Foi lançada uma parte para ver o resultado no meio dos usuários de crack e qual a reação. É inevitável: a reação é que a merla é melhor que a pedra. Não se viciaram ainda porque foi só um patinho na armadilha, para saber que a droga é mais forte que a anterior.

“Crack e merla têm efeitos diferentes. O crack dá uma sensação de desconforto, a pessoa fica espiada, com medo da própria sombra. Faz ter reações incomuns, como entrar noite adentro caminhando. Tem gente que come formiga ou cascalho do chão porque acha que é crack. Tudo que vê da mesma cor, pequeno, acha que é crack e tem vontade de fumar. Chegam a queimar o dedo para raspar o cachimbo, sem sentir dor, só para fumar a resina, que é mais forte que a pedra.

“A merla não deixa tão espiado, mas deixa imobilizado. Onde fumar, pára, fica, é o mesmo que dar um branco, uma lavagem cerebral. Qualquer um pode fazer o que quiser, o cara não vai dar bola. Porém, o principal efeito dela, depois de uns dois minutos, é muito pior, a pessoa pode criar um desespero próprio, sair correndo, sem ter medo de nada, tipo um amigo meu que foi atropelado. Quebrou a perna, machucou o braço. Foi só um “te liga”, para ver a reação com a outra pedra. O que mais mata em relação à pedra é chinelagem, roubar para usar.

“Chamam merla de Morte Súbita porque, com o crack, a maioria das pessoas morre por ter reações de furto, roubos, desrIespeito à própria família, só para usar. A merla faz a pessoa se matar. Como hoje em dia a pedra já está matando, com a merla vai ser pior, porque vai ter o aumento de morte pelo desandar da pedra, o aumento da merla e o suicídio dos usuários.

“O bom é que, pelo pouco que veio no mercado, a merla ainda não foi dada nem vendida para crianças. É a única parte boa. Para impedir as pessoas de usarem só derrubando a boca de pedra e pó. Onde não tiver mais, não tem merla.

“Com certeza a merla pode chegar ao mesmo nível do crack, é só ela ser finalmente lançada como o crack foi.”

"Onde fumar, pára, fica, é o mesmo que dar um branco, uma lavagem cerebral. Qualquer um pode fazer o que quiser, o cara não vai dar bola..."

“Onde fumar, pára, fica, é o mesmo que dar um branco, uma lavagem cerebral. Qualquer um pode fazer o que quiser, o cara não vai dar bola…”

Com Nelson Townes

SP, cidade louca, errante

Por Marli Gonçalves

Já pensei em fazer música, já pensei até em uma campanha por você. Já disse que te amo em mais de uma língua. Este ano quero cantar Parabéns pra Você, por tudo que tem, e por (conseguir) continuar viva e tentando ser amada. Ou, pelo menos, respeitada. Nossa velha dama, São Paulo.

São Paulo é uma prostituta grande, forte, experiente. Ensina seus meninos a crescer, impõe que lhe paguem pelo prazer que dá. É maltratada, mal falada, e mesmo assim continua aberta recebendo todos 24 horas por dia. Tem horas que nem a maquiagem pesada disfarça seu cansaço, e ela se deixa levar, arrasada. Mas logo se recupera, não para, não para, e volta ao trabalho, à efervescência. Na vida toma muitos sustos, vê muita violência ao seu redor, o mundo cão que mija em seus postes ou pernas, mas também vive o glamour e o luxo quando o cliente que a consome é generoso.

Ela anda úmida, molhadinha, até encharcada neste verão. Suas férias foram curtinhas, e ela tinha se enfeitado toda para brilhar à noite neste fim de ano. Mas a abandonam pelo Sol, pela praia, por um tal ar puro e, se lá onde tem essas coisas, também chove, seus amantes voltam correndo. Aqui se come melhor. Se diverte mais. Se aprende mais em filmes, livros, teatro, cultura. Inclusive, os seus cafetões exigem que a cidade volte logo a trabalhar. E ela vende o que tem de melhor, mesmo que mecanicamente, sem se entregar totalmente.

Nem bonita, nem feia, nem totalmente um ou outro, apenas uma cidade armada ao lado de um pátio há 458 anos, e que bem que podiam ter escolhido melhor local para arriar acampamento… mais para perto do mar. Fosse assim, o Rio de Janeiro teria dançado e ela, sim, seria a Maravilhosa. Mas cresceu para os lados, para cima, e até para baixo, por baixo, suas entranhas, e hoje essas veias já vão se entupindo.

Ela vai se aguentando assim e a pega a bolsinha e vai rodar pelas esquinas. Quase não tem horizontes para ver nem para se ver, faz isso apenas em poucos espelhos de água limpa que encontra, quando passa pelos poucos parques, em busca de ar, da cor verde, de um pouquinho de natureza. Nos rios, tão sujos, nem ela consegue se mirar. Apenas tapar o nariz, nestes que viraram banheiros públicos, descargas sem fim. E ela sonha: no dia que os rios voltarem navegará neles todos os fins de semana, vendo muitas famílias felizes. Não custa sonhar.

Quando procura o céu para ver as estrelas ou a lua essa nossa cidade vagabunda apenas sorri e lembra do macaco do filme King-Kong. Tem vontade de pegar os helicópteros na mão – parecem brinquedos passando por sua cabeça. Quem os controla? São tantos! E os aviões, então! Ronco constante indo e vindo, brilhando mais alto. E a cidade sonha: quem está indo, quem está chegando?

Às vezes a cidade fala sozinha enquanto caminha e é caminhada. Às vezes se detém conversando com bronzes, bustos, criações em concreto, estátuas imortais e históricas, esculturas instaladas para lembrar de algo, alguém, alguma coisa, algum fato seu ou feito de alguns dos seus tantos amantes. Será por amor a ela que construíram tanta coisa bonita¸ subiram tantos arranha-céus, pensaram mansões, fizeram tantas jóias para enfeitá-la? Seus colares são marginais, e a enfeitam com rodoaneis, trilhos, pontes, túneis e viadutos. Se foi por amor, estranho, qual sentimento levou a que ela também tenha tantas chagas, plagas indizíveis, cicatrizes, e miséria e horror?

Nossa velha puta muda de ponto. Norte, Sul, Leste, Oeste. Clientes diferentes a consomem. Tem hora que ela dá mais para um do que para outro. Mas atende a todas as raças, etnias, nacionalidades¸ falando todas as línguas de um jeito muito seu, assim como o próprio português. Ela marca os erres. Come os esses. Mistura tendências, bebidas, sotaques, povos e palavras. Chopps. Pastel. Pizza. Macarrão. Virado.

Ultimamente, nossa velha anda contente. Uma feliz cidade. É que no verão de uns tempos para cá – antes não era assim – vê mais carnes, dorsos, pernas, colos, descobertos, nus. E até chinelo de dedo nem é mais tão proibido assim! Quase chora é quando pensa no inverno que quando faz frio mesmo chega a ser cortante, e as pessoas são cebolas vestidas, que vão se descascando, algumas elegantes, e outras não, nem pensam em combinar, a não ser com o destino, para não morrerem de frio. Cores e nomes, como não disse o Caetano que viu a deselegância discreta de nossas meninas. Aqui se usa muito preto. Preto e estampas. As mulheres amam as estampas e os homens, as listras. Se vê mesmo de tudo por aqui, observa. E assim as flores nascem nos vestidos e, ainda, nos canteiros, nas árvores que os cupins ainda não pegaram nem ventos derrubaram, flores que enfeitam um pouco mais a sua aridez cinzenta em vasos.

A velha senhora continua olhando suas entranhas e com minhoquinhas na cabeça. Quer derrubar minhocões. Fazer uns puxadinhos. Pensa em como se manter limpa, com tantos clientes, sem tempo que não o dos banhos da chuva, sem sabão, sem perfume. Assim não pode nem cobrar o que merece pelos seus serviços.

Mais um aniversário. Será imortal? Serão várias vidas? Qual música tocará para ouvir quando e se as britadeiras, buzinas, sirenes e tantos barulhos deixarem? Que ritmo vai tocar, dançar, que moda vai criar, de quem vai depender?

De repente, essa nossa amiga fica preocupada. Lembra que nesse ano vai ter eleição e lá vai o seu destino para o jogo novamente; seu santo nome será falado, pisado, sua história revista, criticada. Vários aventureiros tentarão conquistá-la, veja só.

Mas tudo bem. O importante é que essa cortesã ainda dá um bom caldo, e é cobiçada por membros imponentes.

Feliz Aniversário, São Paulo, Geni, 2012.
(*) Marli Gonçalves é jornalista. 

Paulistana. Nasceu na Rua Augusta, um dos melhores lugares para se fazer ponto na cidade. Fazer a vida. Ou pelo menos tentar. Agora quem sonha sou eu, por uma cidade melhor, menos vagabunda, menos errante, menos errada.

PS: Quer ler os outros textos que fiz em aniversários da cidade? São Paulo e toda sua bossa, Eu amo São PauloSão Paulo, Ailoviiú