Três Vivas ao Capitão !

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

O advogado Hugo Evangelista apresentará no próximo dia 29, sexta-feira, na tenda da Escola de Samba Asfaltão, a obra literária que discorre sobre a vida de um famoso militar que serviu numa caserna fronteiriça onde Rondônia foi Mato Grosso, cuja carreira, vida e obra têm uma porção no quintal do verdadeiro e outro tanto no terreiro do folclórico – como o próprio escriba reconhece.Com 210 páginas, o livro chegará às mãos do público com selos de publicação da Schoba e também da Editora da Universidade Federal de Rondônia – Edufro. Sintomaticamente, através da mãe de santo que é a literatura, o espírito de um certo capitão-do-mato desce ao planeta Terra para conviver num cenário rico em facetas fantásticas e contraditórias, como são as que hoje formatam a Porto Velho contemporânea, onde um projeto racional de desenvolvimento submete o povo a um ritmo de vida irracional e catastrófico. Diz o rondoniaovivo que, só no último fim de semana ( 22 a 24), o Hospital de Pronto Socorro João Paulo Segundo registrou 410 atendimentos, dos quais 86 decorrentes de acidentes de trânsito, com vários mortos – enquanto os governantes do Município e do Estado ficam ali na praça dando milho aos pombos.Num estilo essencialmente narrativo e biográfico, o autor revela com traque jo e riqueza de detalhes as muitas facetas de um velho Chefe de Polícia da cidade de Guajará-Mirim, que recebeu por nome batismal a alcunha de Manoel Alípio, figura popular que ganhou fama e patente naqueles beiradões e por suas muitas proezas reais e surreais acabou ficando para a história e para a mitologia local como o emblemático sargento do Batalhão de Caçadores da Polícia Militar de Mato Grosso, mais tarde oficial daquela força pública.Como já disse na orelha da obra, vamos combinar: o que chamamos realidade é na verdade uma salada mista do que é realmente histórico com o que é transparentemente irreal, vivente de uma outra dimensão além-homem. O real, portanto, nessa equação, é junção bidimensional do que realmente é com aquilo que deveria ter sido, ou parece ter sido, ou dizem ter sido.Assim é a lendária figura de um propalado sergipano sangue bom que habitou os sertões de Guajará-Mirim e há muito tempo povoa o imaginário da gente Guaporé. Dizem ter sido um paladino da justiça, um cavaleiro andante, ou um Dom Quixote do viver correto e dos valores morais inexpugnáveis. Fez coisas que até Deus duvida. Seu nome de guerra: Capitão Alípio – um personagem do nosso realismo fantástico, literalmente fantástico, onde o mito e o real coexistem da unidade do mesmo ser, como cara e coroa de uma única entidade simbológica.
Talhado na fornalha do sol abrasador do Sergipe, o controvertido e lendário personagem de Hugo Evangelista, embora tenha nascido para muitos de nós nas animadas conversas dos mais velhos, na Porto Velho de antigamente, ele nasceu biologicamente lá pras bandas da cidade de Capela, nos idos sergipanos do final do século 19, nos conta o autor, como querendo justificar, de plano, que realmente o Capitão Alípio tem um pé na sala da verdade e outro na cozinha do folclore. Nem tão histórico que pareça desenxabido e nem tão mitológico que pareça conversa pra boi dormir. Eis o desafio da obra: apresentar para o mundo a pessoa do famoso Delegado de Fronteira sem abrir mão das facetas que o tornaram conhecido em todos os quadrantes da civilização rondoniense, revelando conteúdos, paisagens e performances sociais que ultrapassam as cercanias do mundo do personagem e presenteiam o leitor com uma aquarela guache de cores e tons sociológicos, como se fosse uma aula informal sobre a composição geral daquela sociedade em que viveu o polêmico militar. Se com Érico Veríssimo o Rio Grande do Sul tem o seu Capitão Rodrigo, nós, com a pena sensível e arguta de Hugo Evangelista, temos o nosso Capitão Alípio, Oficial de Milícia que, embora tenha assento e registro nos alfarrábios castrenses, cavalga ainda hoje com desenvoltura nos prados indomáveis da nossa imaginação. Pelo sim, pelo não – três vivas ao Capitão!

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