Cunha e Angra dos Reis : o momento é de solidariedade

Os pontos em vermelho marcam a região atingida pelos desmoronamentos

Tenho um amigo que possue uma pousada em Cunha/SP. É o Marcos Santilli, fotógrafo premiadíssimo, ex-diretor do MIS/SP e autor de um dos livros mais bonitos que existe sobre a Madeira-Mamoré. Preocupado com as notícias desencontradas da mídia, em especial a televisiva, mandei um e-mail para ele, pedindo notícias. O seu relato merece ser publicado porque combina exatamente com o sentimento que eu tenho por toda a região, que mais do que nunca, precisa do turismo para sobreviver. São milhares de pessoas que dependem do turismo, que só é forte nesta época do ano, para segurar a onda durante o resto da temporada. Só para ter uma idéia , na Ilha Grande e na Enseada do Bananal em Angra há mais de uma centena de pousadas, algumas bem distantes do local da tragédia. Os cancelamentos de reservas beiram os 80 %. Assim, a taxa de ocupação fica pior que abril, maio, época de baixa temporada. Houve a(s) tragédia(s) , a ocupação das encostas tem que ser urgentemente repensada não só pelo poder público como pelos habitantes, a hora é de partir para a reconstrução do que foi destruído pelas águas, mas o que não se pode neste momento é criar um clima de medo generalizado, prejudicando ainda mais a economia da região.

Vamos ao relato do Marcos:

Querido Beto,

Obrigado por sua solidariedade e atenção. Estou mandando esta mensagem aos amigos, para que possamos narrar o que vivemos nessta passagem de ano.

Água escorrendo pelas encostas em volume desproporcional. foto:Marcos Santilli

Cunha tambem sofreu pelas chuvas não tão fortes, mas ininterruptas, que nos sinalizam outros tempos, além de uma mera e convencional passagem de ano.

Por sua altitude, aqui tem relativamente poucos problemas com o escoamento de águas, comparados aos locais mais baixos. A coisa estoura em deslizamentos localizados e previsíveis, pontes de madeira em sua imensa área rural (maior município do estado), represas e principalmente, e infelizmente, pouca prevenção e informação, o que ocorre no país inteiro.

Tivemos problemas de deslizamentos, sendo um deles fatal para uma familia, como noticiou extensivamente a midia. Na cidade, a má ocupação causou danos a diversas famíias. Impediu temporariamente a circulação em praticamente todas as estradas do munícipio, a maioria de terra.

Da Pousada para São Paulo e Rio, ficamos isolados apenas no dia 1º e parte do dia 2. Ficamos sem luz e telefone por cerca de duas horas, mas com muitas velas cobertos por boa música. De resto poucos danos no jardim.

Nossa preocupação voltou-se para onde toda esta serra derrama suas águas, o que de fato ocorreu, com estes rios ganhando volume nas nascentes e força nas vertentes das altitudes para os vales povoados do grande Paraíba. Além, é claro, da outra vertente da serra, Parati e Angra.

O Reveillon

A Pousada situa-se nas primeiras águas do rio Paraibuna. Pensávamos o que seria esta explosão nas nascentes do próprio Paraíbuna e do próximo Paraitinga, formadores do Paraíba.

Dois dias antes do reveillon, houve um “preview” da fúria das águas da passagem do ano. Minha equipe, bastante assustada, abandonou os preparativos da festa, para tomarmos providências caso este fenômeno se repetisse. Os velhos moradores nunca viram precedente em sua tradição oral. Atentos à previsão do tempo não vimos razões para preocupação, nem informações deste primeiro vagalhão e tínhamos esperança de celebrar ao ar livre caso as chuvas esparsas anunciadas não nos atingissem. Desligamos as redes de energia que abastecem a área do lago e abaixo. Esquecemos os arranjos finais de flores e outros detalhes e evacuamos móveis da sauna, equipamentos do deck, piscina natural e o barquinho.

Ao anoitecer do dia 31 as chuvas persistentes e o nível das águas nos córregos, rios, pontes e represas nos espantavam. Todas as instalações da Pousada dos Anjos são elevadas, em terreno secularmente estável, inatingíveis a inundações. Apenas a velha sauna e piscina natural, intocados há  mais de 40 anos, estão em nivel abaixo do lago. Deliciosa ceia e bebidas haviam sido intencionalmente super dimensionadas, produzidas e servidas pelo Restaurante Drão, Fernando, garçons, cozinheiros,  equipe de produção, incluindo motorista, etc.

Hóspedes e convidados instalavam-se ao som de uma banda de jazz maravilhosa, formada por Hector Costita, Lelo Izar, Josevaldo,  e a cantora Cristina que improvisavam musica brasileira. O DJ de Lux intercalava-se ao jazz. Havíamos recoberto o restaurante, cozinha, sala de home theater, com um grande toldo, criando uma varanda lounge de ligação com a Oca, a biblioteca.

A maravilhosa ceia foi servida no fogão de lenha, celebração, música, alegria, dança, passou-se alegremente a meia-noite sob chuva contínua. Quando a maioria dos trinta hóspedes  já descansava, por volta das três horas, a festa continuava e chegou um grupo de dezesseis familiares e amigos impedidos de retornar ao sítio que tem na Barra do Bié. O mesmo aconteceu com os convidados e a banda. Foi quando percebemos que havia algo grave ocorrendo. Chegavam molhados, assustados mas depois vários dançaram alegremente, incrementando a continuidade da festa e, apesar de tudo, celebrando o novo ano. Logo mais chegaram outros “refugiados”, depois outros, até que tínhamos 30 acolhidos, instalados nos diversos ambientes intactos onde rolava a festa. Alguns jogavam cartas, outros ouviam noticiário na sala de home theater. Dormiam nos bancos, sofás, outros nas redes da oca. Providenciamos toalhas, cobertores e agasalhos. Até o clarear ainda se dançava. O café da manhã foi produzido coletivamente, farto e tranquilo, com grande solidariedade entre todos. Chegavam alguns hóspedes que se confraternizaram e o ambiente continuou suave. Servimos novamente a ceia por volta das 14hs. Chegaram alguns a Cunha, de onde voltaram com queijos, pães e petiscos. Estava recuperado o acesso a cidade. Para deixar Cunha, somente na tarde do dia 2, quando ligaram Paulo e Carolina, da Dutra.

Todos aqui passaram da forma mais light possível na situação inevitável de não poder voltar para casa. Ninguém passou necessidade, por acaso haviam 3 médicos fantásticos presentes, além do melhor que nossa pousada nos oferece: nossos hóspedes. Fizemos novas amizades e fortalecemos laços diante da compreensão e grandeza na vivência em comum dessa excepcionalidade da natureza.

Neste momento estamos todos torcendo e tentando ajudar os que estão em dificuldade no nosso município e nos vizinhos, mas abertos e ansiosos pela chegada dos novos hóspedes, lembrando que o acesso foi reestabelecido, e a cidade espera não sofrer o abandono do turismo, imprescindível à sua normalização.

Abraços, na certeza de que o ano será muito melhor do que iniciou,

Marcos Santilli e Katia Scavacini

Nota da Redação:  A Pousada dos Anjos fica na Rod. SP 171, trecho Cunha-Paraty, no km 57.

O telefone prá contato é o (12)31118019.

Tem também o e-mail contato@pousadadosanjos.com.br e o site http://www.pousadadosanjos.com.br

Reveillon na Pousada dos Anjos, em Cunha/SP. foto:Marcos Santilli

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